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quarta-feira, 2 de junho de 2010

(2010/403) E o que tem a dizer-nos a Teologia?


1. "Durante muito tempo a teologia queixou-se do paradigma científico que não lhe reconhecia cientificidade e a relegava a um plano secundário, não lhe reconhecendo o direito a um discurso científico de conhecimento humano. Tal realidade imperou durante muito tempo e em diversos lugares, sendo que a teologia só podia falar para seus 'adeptos', pois seu discurso não era ouvido fora de seus muros. O reconhecimento oficial dos títulos e dos cursos de teologia significa que a sociedade, por meio de seu governo, reconhece à teologia amplo direito de cidadania, incluindo seu direito, talvez dever, de pronunciar um discurso que será ouvido pela sociedade, porque responsável, científico e autor de cultura e conhecimento" (Antonio Manzatto, A Teologia na Universidade - Perspectivas, Revista de Cultura Teológica, n, 69, 2010, p. 69).

2. A declaração consta do artigo citado. Originalmente, contudo, constou da "conferência (...) realizada no dia 29 de outubro de 2009, na celebração dos 60 anos da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo", a Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção. Agora, faz-se divulgar, na forma de artigo, guardada ainda, conforme nota lavrada na p. 63, na forma original da conferência. Digo-o, para que se reconheça tanto o contexto original da citação, quanto seu estado ainda preservado de "conferência".

3. E avanço. "O reconhecimento oficial dos (...) cursos de teologia significa que a sociedade (...) reconhece à teologia amplo direito de cidadania, incluindo seu (...) dever (...) de pronunciar um discurso que será ouvido pela sociedade, porque responsável, científico e autor de cultura e conhecimento". Alvíssaras! Oxalá! Não sei se é verdade que a sociedade esteja, de fato, interessado em ouvir qualquer discurso da Teologia. Mas confesso que, se estiver, e, dado que a Teologia está na Universidade, nada diferente se poderia esperar a não ser isso: um discurso científico e culto. O "alvíssaras" vai pela torcida quanto a uma possível consciência - finalmente! - disso. Não sei. O "oxalá" vai, justamente, por meu ceticismo. Sinceramente, não sei mesmo se a Teologia - e eu falo dos teólogos, claro, porque Teologia não há, o que há são teólogos - está mesmo interessada em discurso - de verdade - científico.

4. O próprio artigo, mais à frente, reconhecerá que a cientificidade da Teologia é uma cientificidade própria - "o trabalho teológico deve ser feito com rigor científico. A teologia não é simples enunciado da fé (...). Ainda que sua cientificidade lhe seja própria, deve ser respeitada por ela mesma, pois tal rigor lhe é exigido por seu próprio estatuto científico" (p. 70). Eu fico cá a pensar sobre o que quer dizer isso: uma cientificidade própria da Teologia... Ela não é uma das Ciências da Religião, logo, necessariamente, uma das Ciências Humanas? Se é, então não tem cientificidade própria. Se não é, não é científica. Assim, dizer que a Teologia tem estatuto científico pode ser a mesma coisa que afirmar que a Astrologia faz sentido. Faz. Claro que faz. A Teologia também. Se há inferno. Se há pecado. Se Deus é juiz - conquanto ame! Se Jesus é o único salvador... então faz sentido a Teologia... cristã. Mas se todos os ses que usei não passam de especulação metafísica, acabou-se o estatuto científico da Teologia.

5. Assim, voltamos ao início de minhas questões desde há algum tempo levantadas: a Teologia quer mesmo tornar-se ciência? Manzatto o deseja? Ou, no fundo, o que a Teologia quer é que seja reconhecida pelas Ciências a sua, digamos, peculiaridade "científica", a sua delicada idiossincrasia, qual seja: a fonte de suas verdades é a Revelação, as Escrituras, a Igreja? Justo! Legítimo! De Direito. De republicaníssimo direito - inalienável, até! Mas "científico"?

6. Por outro lado, esse parágrafo cairia como uma luva sobre os indicativos - todos - do Parecer CNE/CES n. 118/2009 - uma Teologia que parta de critérios e princípios acadêmico-críticos, científicos. E, no entanto, a Teologia "geme sob o peso da mão do Estado"... Ah, como dói o Parecer... E justamente por quê? Porque estabelecem-se aí obrigações contratuais à Teologia, que, a meu ver, mas posso estar enganado, vai-se saber!, pedem-lhe que se "submeta" à epistemologia das Ciências - com especial atenção ao princípio da exclusão do transcendente. Mas a especificadade da ciência teológica não seria, pergunto ingenuamente, justamente o fato de que, diferentemente das outras ciências científicas, a Teologia é uma ciência teológica, que, diferentemente das demais, não exclui o princípio da transcendência, porque, a rigor, é ciência da fé?

7. Da fé e do "magistério", ratifica o artigo, à p. 70! Eu entendo. Fala-se intramuros. Por isso, até, não se citam as Teologias não domésticas... Aliás, nunca. Até agora, teólogos só os há na Igreja, a crer nos artigos "teológicos"...

8. Fico por aqui. Naturalmente que provoco. É programática a provocação. Ainda vejo nu o rei, nua, a rainha. A Teologia está a fazer vergonha nos salões universitários. Como teólogo, envergonho-me. Perceba-se a transferência psicológica: envergonho-me, e transfiro minha vergonha a ela, à Teologia. É que eu queria que a Teologia cedesse. Mas, como eu disse, não há Teologia. Só há teólogos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 2 de maio de 2010

(200/362) Primeira reação ao post de Haroldo Reimer - (2010/361) Teologia heurística?


1. Porque a Teologia é, agora, uma coisa nova. Meu amigo Haroldo Reimer escreveu o post (2010/361) Teologia heurística? Que bom! Haroldo faz falta em Peroratio. Animo-me, quando ele escreve. E, particularmente em relação ao assunto que escolheu, minha animação é ainda maior. Encontro-me pulsionalmente envolvido com a quetão do estatuto epistemológico da Teologia, e, para esse fim, tenho-lhe proposto uma nova classificação - Teologia como ontologia (metafísica), Teologia como metáfora (narrativa) e Teologia como fenomenologia (heurística). O artigo de proposição formal sairá publicado na Revista Pistis & Praxis, da PUC-PR. Mas gostaria de reagir a algmas questões postas por meu amigo.

2. Antes de qualquer coisa: não se trata de uma nova classificação para a Teologia... cristã. Para mim, não há mais como falar de Teologia e, sub-repticiamente, subentender-se "Teologia cristã". Desde 1999, Teologia não é mais propriedade da Igreja - nem das igrejas. Ela passa a ser um conjunto de saberes e procedimentos sob a administração da República Federativa do Brasil, que é laica. Assim, a Teologia é uma disciplina oferecida seja por cristãos, por umbandistas, por kardecistas e por messiânicos, sempre por meio de IES credenciada pelo Governo Federal e de cursos autorizados/reconhecidos pelo MEC. Se continuarmos a insistir numa retórica de Teologia... cristã, sendo o contexto da discussão a sua análise epistemológica, incorreremos na anacronia de insistirmos na propriedade de uma coisa que não é mais nem apenas cristã nem mais (apenas) nossa. Teologia, agora, é multi-referencial.

3. A classificação que proponho não tem em vista uma Teologia cistã isolada. Te em vista a Teologia cristã mais a Telogia kardecista mais a Teologia umbandista mais a Telogia messiânica - emais qualquer outra que venha somar a essas quatro representaões traditivas. É necessário reconhecer que nenhum critéio de classificação até hoje elaborado atende a nossa situação. Nem mesmo o fato de a Teologia estar na CAPES há décadas significou alguma coisa de realmente concreto nesse cntexto, porque a Teologia enclausuou-se em seu mundo medieval, defendendo nucleos confessionais revelados e normativos, onde a regra do jogo fora, sepre, heurística e crítica. O evento significativo, aí, é a Graduação - um aríete nos ortões a Teologia. Teologia Sistemática de um lado, e Bíblica de outro, não atende o objeto novo que é a Telogia no MEC. Quando por nenhuma outra razão, porque não há Bíblia na Umbanda!

4. Insito, portanto: é preciso uma classificação nova, sob novos enfoques, sob novos critérios, sob novos pressupsotos, porque a situação é nova, o objeto "Teologia" é outro, é novo, não é mais aquele com que trabalhávamos. Não nos demos conta, mas a Teologia não é mais aquilo que fazíamos, aquilo que chamávamos pelo nome que Platão parece ter "inventado". Teologia é outra coisa, agora, e precisa dizer o que é. Se posso empregar uma metáfora analógica: o ladrão entrou pela janela, e levou tudo, e não nos demos conta... O Filho do Homem veio em hora em que nos descuidamos... Acostumados à pregação da súbita parousia, fomos é nós mesmos pegos desprevenidos - pior, ainda estamos esperando Deus sabe pelo que... Entendamos de uma vez por todas: o mundo antigo se foi - com o MEC, tudo é novo. Pouca coisa "velha" há de servir, e também aí cabe a metáfora dos odres velhos e remendos novos...

5. Sim, a Exegese já se emancipou - "graças a Deus". Ainda há rincões teológicos que emcabrestam a pática exegética, atrelando-a à Teologia, a velha. Mas aí não se pratica Exegese, de fato. Aí se domestica um processo, como se domesticam pessoas, onde quer que a Teologia encene sua dança milenar. A Exegese aproxima-se da História, da Arqueologia, da Análise do Discurso (logo, da Lingüística), da Filologia, e, por necessária extensão, da Antropologia e da Sociologia, sem negligenciar, nem por um segundo, a Fenomenologia da Religião. A Exegese já está em casa, e só não avançou ainda mais significativamente porque, do lado da Teologia, ainda encontra reações conservadoras que emperram seu avanço independente, e, do lado da História e suas co-irmãs, encontra a suspeita de que ela ainda seja uma espécie de Teologia disfarçada. A Exegese, contudo, quando praticada como tal, está a anos-luz de distância da Teologia tal qual ela é praticada ainda hoje nos ambientes confessionais - incusive a CAPES.

6. Já a Teologia precisa achar seu rosto. Isso não significa que ela precisa convencer ao MEC de que, tal qual ela é e se faz por exemplo, na CAPES, ela é "ciência" - porque não é. Não é nem quer ser. Como Haroldo comenta no início de seu post, os eixos epistemológicos científico-humanistas impostos pelo PARECER CNE/CES 118/2009 constrangem a Teologia justamente porqe ela não tem o perfil apropriado do jogo científico, e, diante daquela exigência, que a uma ciência significaria seu próprio pathos, ela, contudo, sente-se afrontada.

7. Na próxima reação, responderei a duas questões que meu amigo levanta: a) qual a real diferença entre uma teologia metafísica e uma teologia ontológica, e b) o que é que uma teologia heurística pensa que poderá/irá descobrir?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 30 de abril de 2010

(2010/352) Gasparzinho na veia


1. Paulo teve um ataque apoplético. Os camaradas de Corinto cismavam que o corpo era desnecessário, que, após a morte, a alma, fantasmática, voejaria faceira para os Campos Elísios, enquanto o corpo, fétido, apodreceria sob a terra, ou, que diferença faria?, seria comido pelos abutres. Judeu, Paulo foi tomado da apoplexia que acomete os ortodoxos, quando ouvem heresias - e vociferou apologéticas garantias de que, não senhores, o corpo era condição sine qua non para a sanidade e a validade da fé! Sem o corpo, sem a ressurreição, tudo era vão - a cruz, a salvação, o perdão, porque, sem o corpo, não haveria amanhã...

2. Mas não aprendemos muita coisa. Paulo podia ficar pelado, plantar bananeira e dar com a babeça no chão que, ainda assim, não o ouviríamos. Já havíamos posto Gasparzinho até em Gênesis! À fórmula semita - nefesh hayah - já havíamos agregado o sentido platônico-fantasático de "alma vivente", conquanto o sentido deva ser "garganta viva", como a garganta da corça do Sl 42, garganta a gritar de sede... Enquanto o sentido semita do mito seja um corpo vivo, um ser-vivo, um corpo que respira, a gente cristã já o lê pela cartilha de Platão: o corpo é uma casca podre com um fantasma dentro - a alma...

3. Corinto já estava estragada para a fé semita, já estava por demais familiar das concepções anímico-dualistas. Homens e mulheres são cascas inúteis, com um espectro transparente morando dentre dele. O fantasma que habita o corpo é a verdadeira pessoa. O corpo, não. O corpo é supérfluo. Só parece ser necessário, aqui e agora, porque a alma caiu vítima da vida, da encarnação. Mas, no dia em que ela se libertar, no dia em que a vida acabar, aleluia!, Garparzinho vai voar para o céu.

4. O ataque apoplético do apóstolo revela que são inúteis as cenas de desespero ortodoxo - o Cristianismo nunca mais seria semita, e a idéia de Gasparzinho encontraria sua definitiva vitória na cabeça teológica de cada cristão, que, doravante, lutará contra o corpo, cuidando que o seu verdadeiro ser seja um trasgo celeste...

5. Esse enredo re-encena-se diante de nossos olhos. O conhecimento, metaforicamente falando, é semita. O conhecimento humano é cria direta do conhecimento celular, biológico, animal. O conhecimento é a capacidade de a vida, de o ser-vivo, computar o meio, computar a si, sustentar-se, em vida, no ecossistema que o recebe. Conhecimento é a capacidade de a vida instalar-se, sobreviver, evoluir. Isso significa que conhecimento é o diálogo crítico entre o ser vivo e o meio, entre a vida e o real. Conhecimento não é imaginação, não é sonho, não é delírio, não é fantasia, não é arte...

6. Todavia, o mesmo Platão das almas fantasmáticas cuidou informar ao Ocidente que o conhecimento é um atributo do fantasma que habita os corpos humanos. Gasparzinho sabe. Saber é atributo de Gasparzinho. Mais do que isso: nada há que de fato contribua, na terra, para o saber. Gasparzinho está a mercê da memória providencial, da graça divina, ou há de permanecer um idiota, porque nada que seja não-material é veículo de conhecimento. O corpo é estorvo. A matéria, obstáculo. Só a alma fantasmática pode aprender - e do que seja imaterial, ideal, essencial, fantasmático...

7. Ah, que coisa! Os últimos séculos, pós-protestantes, foram a pouco e pouco, descuidando da alma, e aumentando a concentração de atenção no corpo. A isso chamou-se, tabém, de Empirismo. Logo, o Ocidente descobriu a matéria, a ciência, a pesquisa, a heurística. Decidiu-se distinguir entre mito e história, entre verdadede e erro, entre conhecimento e ilusão. Decidiu-se que haveria de se dialogar com... o real. O Ocidente cristão foi se tornando, pouco a pouco, semita. A ciência é semita. Não considera a hipótese de uma alma: é o corpo, vivo, quem pensa, quem conhece. E conhecimento, aí, é justamente o diálogo com o real, de onde o corpo extrai a sua vida, a sua manutenção viva. Conhecimento é função crítica da exitência biológica.

8. No entanto, milênios de platonismo e cristianismo provocam reações. A hermenêutica e a epistemologia não-fundacionais são como que "birras" reacionárias. E agora, diante delas, diante daqueles que dissolvem o conhecimento e o fazem semelhante ao gosto, à opinião, ao mero "consenso", a atributos do Gasparzinho moderno - a linguagem - eu me comporto como Paulo, flagrado em ataque apoplético. Não se trata da defesa da mesma coisa, mas do mesmo tipo de defesa. Acredito que o corpo, e não a alma, sejam agentes do conhecimento, e admito que a matéria, o real, seja, ao mesmo tempo ecossitema e objeto de conhecimento. Conhecimento, para mim, não é gosto, nem opinião, é diálogo critico com o real.

9. Mas há quem pense que não. Há quem pense que o conhecimento é um equívoco cognitivo, uma neurose, um engano da mente, e que, no fundo, o conhecimento humano é como a arte, como se a relação do sujeito com o objeto de arte fosse a mesma coisa que a relação do sujeito com esse mesmo objeto sob problematização heurística. Se o neoplatonismo epistemológico não pode assumir a alma, pode, por outro lado, dissolver o real ou, ao menos, construir a retórica da impossibilidade da relação real, concreta, viva, da vida com o real e material, convertendo a impressão humana dessa realação em mera idiossincrasia.

10. Não sei se haverá remédio para essa crise não-fundacional, não-material. Os não-fundacionais creram tanto, um dia, em Platão que, agora que descobriram que a metafísica era um mito, deixaram de crer não no sistema epistemológico platônico que gerava o conhecimento tido por divino, mas no próprio conhecimento. No fundo, para eles, ou o conhecimento é divino, ou não há conhecimento. Como descobriram que o homem é, afinal, mortal, logo, não-divino, e que seu conhecimento seria unicamente humano, logo, não divino, concluíram qe, então, o conhecimento humano, não sendo divino, não é verdadeiro conhecimento, é quimera... Exemplo crasso de como se pode sair de um paradigma pela metade... Ela já dura, pelo menos, no Ocidente, há 2.500 anos. No fundo, trata-se de decidir-se entre a vida concreta, biológica, telúrica, terrestre, e uma existência imaterial, noológica, fantasmátca, nao-situada, não ecossistêmica. Trata-se da supressão do conhecimento, da transformação do conhecimento em mera brincadeira de deslumbrados. Platão também suprimiu o conhecimento, substituindo-o pela inculcação da Norma política do governante da Cidade Bela. A supressão do conhecimento é, afinal, um gesto político - e só resta descobrir se é um gesto político de defesa, ou de conquista.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 10 de abril de 2010

(2010/307) Quiasmo da Modernidade - ou a síntese da reação à crítica como fundamento do humanismo moderno


1. Seja o defeito de minha percepção, seja a sua maior virtude: o fato é que minha mente precisa pôr a tudo e a todos num "esquema" compreensivo, dentro e a partir do qual tudo e todos, de modo geral, são "compreendidos" e "analisados". Aprendi que não há como julgar nada nem coisa alguma, senão à luz de uma "situação" pré-estabelecida. As coisas não são. As coisas emergem como aquilo conforme aparecem nesse ou naquele contexto, nessa ou naquela situação. Quando observadas fora desse contexto, fora dessa situação, as coisas desaparecem - isso quer dizer que as "coisas", isto é, os objetos/resultados de nossa percepção hermenêutica, são fruto de nossa percepção situada - tenhamos ou não consciência disso. Como aprendemos desde Scheleiermacher, e como cosntatamos definitivamente em Heidegger (I), somos animais hermenêuticos.

2. Gostaria, pois, de aprensentar o modelo de minha percepção a respeito da Modernidade. É um ensaio gráfico - eventualmente, didático. Eis a imagem:

3. Meu gráfico - "Quiasmo da Modernidade" - assume a forma de um quiasmo, modelo retórico da tradição poética e profética da Bíblia Hebraica. Usei o modelo não como quem "usaria um modelo" (qualquer). Usei-o, porque percebo que houve uma inflexão a partir de Heidegger (I), e que essa inflexão - político-epiastemológica - tem, sob certo sentido, sob certa perspectiva, a estrutura de quiasmo: A - B - X - B' - A', estrutura essa em que ao A inicial corresponde o A' final, a que ao B inicial corresponde o B' final, e cujo centro "compreensivo" é o X central. Essa estrutura pode ser observada, por exemplo, em Ct 1,12-2,6 e em Jo 1,1-18.

4. Se o gráfico que criei for suficientemente analisado, dele se pode depreender as seguintes observações:

a) (A) A Pré-modernidade (Idade Média) caracterizava-se por uma Epistemologia da Norma, supostamente baseada em "Deus", mas, a rigor, de caráter platônico, acrítico, alicerçada numa estrutura gnóstica de Revelação e Tradição hierocráticas - cujo resultado político é a dissolvição do sujeito humano, transformado em "engrenagem" passiva. Lá, é "Deus" - o "não-humano" - o fundamento político, retórico, filosófico. O "homem" não existe aí - não enqanto "sujeito" de si, enquanto consciência de si. É o Império da Norma e do Não-humano.

b) (B) Após a Revolução Francesa (marco didatico) e Kant, a pré-modernidade desmorona. "Sapere aude", afirma Kant - a ousadia do saber, a petulância do saber, a autonomia do saber. Bem sabido: ousadia, petulância e autonomia do saber em face da Norma pregressa, em face de "Deus" - a rigor, em face da Igreja e da Coroa. Esse "momento" epistemológico é como que a puberdade do Homem - a explosão dos hormônios sexuais de uma "Humanidade" em processo de emancipação. Emancipado, o homem precisa buscar, descobrir, criar novos fundamentos. O primeiro - b(um) -: Schleiermacher - a compreensão humana é intersubjetividade, o saber humano é intersubjetivo, a verdade é psicológica, sobretudo, porque, a rigor, o fundamento, se não é "Deus" - nem, sobretudo, o "aparelho" hierocrático -, então só pode ser "outro" - ele, o pascalino caniço quebrado que pensa...

c) O sujeito intersubjetivo de Schleiermacher, contudo, era por demais flutuante, não-situado. Faltava-lhe pé, de excessiva cabeça ele padecia. Não que fosse errada a sua contigência intersubjetiva. Era, contudo, insuficiente: faltava-lhe o lastro material da intersubjetividade: - b(dois) - a História. Não, não é coincidencia que esses dois passos, Schleiermacher (Psicologia) e Dilthey (História) sejam marcas fundamentais do Romantismo: o Romantismo epistemológico é pai da solidão moderna, do grito definitivo da emancipaão dos filhos em face do Pai... Dilthey, pois, estabelece a hermenêutica da historicidade, acrescentando à hermenêutica da intersubjetividade de Scheleiermacher a informação de que a psicologia humana cresce no solo histórico do planeta.

d) E, com isso, chegamos ao centro do quiasmo. O Ser de Parmênides é triturado, moído, derretido - dissolve-se. No lugar dele, o ser-aí, o ser-aqui-e-agora, o ser-no-mundo. No lugar de Parmênides e Platão, Heráclito. É o fim de 2.500 anos do poder de uma "teologia" política (ocidental). Não há fundamento algum fora do próprio homem, fora da própria contingência, fora da história, fora do tempo - ao menos não algum a que ele pudesse recorrer. O homem é um animal, um acidente animal, temporal - mais do que temporário, e ele o é - ele é, sobretudo, cravado pela marca do tempo, preso no tempo, filho do tempo. O Primero Heidegger chegou ao fundo - ou ao cume - da inflexão. Não se pode ir mais longe do que foi o Hidegger de Ser e Tempo. O Sartre de O Ser e o Nada ainda mora aí, em Ser e Tempo - não lhe é estranho, abolsutamente... Ou se vive aí, doravante, ou se retorna...

e) E o próprio Heidegger retornou. Fez-se Segundo - b(um)'. Não pôde (?) conceber por muito tempo um sujeito histórico marcado pela singularidade, pela não-projetividade. Que pressões psicológicas - e políticas! - Heidegger deve ter sentido! Talvez tão fortes quanto aa do Kant da Crítica da Razão Pura, e tantas que exigiram a Crítica da Razão Prática, que, na prática, devolve "Deus" aos gestores da Norma ocidental... Heidegger, pois, não poderá reinventar "Deus" - e nem precisa, desde que devolva a alguma outra estrutura a mesma função que cabia ao mito. E ele encontra essa estrutura em Schleiermacher, mas virando-o do avesso: bastou inverter a fórmula - o homem emprega a linguagem, e estabelecer a inflexão: a Linguagem emprega o homem... É o primero movimento de reação epistemológica, de inflexão, de contra-revolução.

f) Contudo, assim como a psicologia da linguagem, de Schleiermacher, era por demais flutuante, pouco material, a Linguagem heideggeriana permanece uma "estrutura" quase-metafísica. Assim, tanto quanto Dilthey teve a função de assentar materialmente a episteologia intersubjetiva de Schleiermacher num solo histórico-material, coube a Gadamer a tarefa de fazer pousar a Linguagem estruturante de Heidegger num solo material-histórico - a Tradição. Há um paralelo perfeito, mas em sentido inflexivo e reacionário, entre Schleiermacher e Dilthey, de um lado, e entre Heidegger (II) e Gadamer - b(dois)' -, de outro. Lá, encaminhamento da reflexão para o encontro do animal hermenûtico solitário e todo-ativo, fundamento de todo conhecimento, de todo valor, de toda "norma". Aqui, uma dissolvição sub-reptícia desse fundamento humano, a sua des-ativação, a sua inutilização, a sua degradação, a sua subdeterminação a uma Linguagem quase-divina e a uma Tradição quase-estrutural (se não já) - (B').

g) (A') O resultado dessa inflexão materializa-se no esforço de expressão de uma assim aventada Pós-modernidade - esforço para a supressão retórica da crítica. Sejam quais forem as razões do engajamento pós-moderno (as suas fileiras testemunham a presença de representantes de escolas absolutamente tão diferentes quanto a Teologia "fundamentalista" e a crítica política às ciências), ele, o engajamento em si, concorre para a superação da característica fundamental da Modernidade - a crítica, a autonomia, a emencipação, a subjetividade fundante da heurística, da estética e da política.

5. Eu diria que a Pós-modernidade é a saudade incosnciente da Pré-modernidade. Talvez, a sua vingança. Talvez seja o cansaço, para falar dos honestos. Cansaço, sim, porque a Modernidade não é tolerante com a leniência. O preço que se paga pela Modernidade é a ininterrupta prática da reflexão crítica, incessante. Não há descanso possível para a mente moderna. Para a estratégia política, contudo, as razões para o esforço da superação moderna são outras: ser moderno, no sentido que aqui se sustenta, é ser autônomo, crítico, e a epistemologia crítica interpõe barreiras constrangedoras às manipulações de consciência próprias dos sistemas não-modernos. Há, pois, enormes interesses em jogo, interesses econômicos, políticos, pessoais.

6. Seja como for, eu me filio à corrente moderna, e não abro mão dela. Não posso retornar a uma Pré-modernidade - ainda que esteja enfiado dentro dela, seja como brasileiro, já que a cultura brasileira é de recorte pré-modero (medieval), seja por laborar no campo da Teologia, e, sem exceções de monta, trata-se da principal plataforma pré-moderna no campo do "saber" - mesmo a que opera no MEC há três décadas. Assim, nem enquanto brasileiro, nem enquanto teólogo, comungo com os valores epistemológicos da Pré-moderidade.

7. Por utro lado, pressinto nos esforços de defesa de uma Pós-modernidade as mesmas conjunturas finais colimadas pelos esforços de manutenção da Pré-moderidade: a dessipação de todo fundamento crítico. O resultado é o mesmo: quando o fundamento é Deus, não há como resistir, porque Deus é Deus. Quando não há fundamento algum, não há como resistir, porque qualquer argumento tem o mesmo peso, ja que não há, afinal, argumentos válidos e inválidos, há, apenas, balbúrdia e palavrórios político-interessados...

8. Tavez eu esteja errado nessa análise. Estou aberto a contestações críticas. Talvez eu esteja certo na análise, mas errado no partido que tomo. Estou do lado de Schleiermacher, de Dilthey e do Primeiro Hidegger, mas não caminho dois metros com o Segundo Heidegger, desconfio profundamente de Gadamer e não compartilho dos valores da Pós-modernidade aqui enumerados. Talvez eu esteja velho. Talvez, obsoleto. Talvez exerça apenas meu direito - juris esperniandi... Seja como for, resistirei. Resistir também é um valor moderno. Antigamente, desistia-se. Hoje, assiste-se. Mas, na modernidade, resiste-se. E eu - resisto.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

(2009/541) Anotações sobre Jean Louis Ska


1. Trata-se do livro Metodologia do Antigo Testamento, que adotei na disciplina de Metodologia Exegética do Antigo Testamento. O livro tem uma curiosidade - ele trata quatro grandes abordagens epistemológico-metodológicas com nomes interessantes: diacronia, acronia, sincronia e anacronia. Comete um erro, me parece, ao classificar tais abordagens como "metodologias", ferramentas. Não são, são postulados epistemológicos.

2. Explico. Entre o leitor e as Escrituras, não há um vácuo. Quanto ao "uso" das Escrituras, há, aí, uma intencionalidade pragmática, que se traduz em pressuposto epistemológico, ao qual estão associados, aí sim, métodos. Se eu quero saber "o que foi", faço diacronia. Se eu quero saber "o que pode ser", faço sincronia. Se eu quero determinar "o que deve ser", faço anacronia. Se eu desejo saber "como funciona", faço acronia.

3. Diacronia trabalha no tempo do escritor. Sincronia, no tempo das personagens. Anacronia, no tempo do leitor. Diacronia é investigação crítica. Sincronia, percepção estética. Anacronia, tradição normativa. Acronia é supressão de tempo e de sentido.

4. Cada uma dessas abordagens possui sua própria caixa de ferramentas, as quais, contudo, podem ser compatilhadas, ocasião em que passam a operar não mais nos termos do pressupsoto epistemológico de origem, assumindo, nessa nova situação, as sobredeterminações do novo "olhar".

5. Método é "caminho escolhido". Mas só há caminho escolhido depois de se escolher o destino. Logo, primeiro você escolhe o destino (intenção/abordagem). Só depois você, então, submete-se aos métodos tradicionais, ou cria novos, relacionados ao destino por você escolhido. Há liberdade na escolha do destino (abordagem). Uma vez, contudo, usada essa liberdade, escolhido o destino, os caminhos já estão inicialmente traçados.

6. Não há como dizer, a priori, de forma "ideal", qual a abordagem melhor ou certa. Isso depende. Do quê? Ora, da sua intenção. Se você me pergunta: qual a melhor abordagem?, eu digo: para quê? O que é que você quer fazer exatamente? Se é saber o que o autor disse, só existe uma possível - diacronia. Usar outras é erro grosseiro. Se o que se deseja é a experimentação estética das narrativas, sincronia (seria uma alternativa pacificadora para a pastoral). Se o que se quer é a manutenção da verdade normativa e dogmática, anacronia. Aonde você quer ir? A Paris. E como vai? Andando. Bem, andando, não vai, não. Entende? Há um mar entre você e Paris - só de navio ou avião...

7. Ora, Jean Louis Ska escreveu sobre sincronia. Na p. 47, ele escreveu: "esses diferentes modos de praticar a exegese muito mais se completam do que se excluem". Bem, sim e não. O não - e um não bem vistoso - é: se estamos falando de abordagens (e estamos!), elas não são complementares, não - são mutuamente excludentes. Agora, se falamos das caixas operacionais de cada uma delas (crítica das fontes, sintaxe, análise do discurso, narratologia etc.), aí, sim, são complementares.

8. Na seqüência, ele ainda afirma: "(o exegeta) examina longamente o material a trabalhar e só depois escolhe os instrumentos mais adequados para o trabalho que deve realizar". A formulação não está adequada, me parece. Não é o "exame longo" do "objeto de trabalho" que revelará ao exegeta as ferramentas adequadas. Próximo-positivista a declaração, conquanto, eventualmente, não tenha sido exatamente essa a intenção de Ska.

9. O "objeto de trabalho", aparentemente, é o mesmo, em cada abordagem. Mas, na realidade, não. Para a diacronia, o objeto de trabalho não é a Bíblia, mas cada narrativa, cada "perícope", situada em seu contexto histórico-social. Para o sincrônico, a narrativa, isolada de seu contexto de origem, com o que ele se aproxima do leitor acrônico. Para o anacrônico, o objeto de trabalho é a releitura traditiva da narrativa bíblica.

10. Importa: é a intencionalidade e a abordagem do leitor que - atenção! - "cria" o objeto de trabalho. Conquanto cada um esteja diante da Bíblia, cada um tem, diante de si, uma "coisa" diferente, construída pelo recorte intencional/pressuposicional de sua abordagem. Logo, não é o exame longamente aplicado ao texto, mas a opção apriorística de como olhar para ele que determina a metodologia, nesse caso, sim, concordemos, mais adequada.

11. O pecado maior que vejo nos livros de exegese, nas aulas de exegese, nas práticas de exegese, é que se corre a praticar, sem, antes, confessar-se, evantualmente, até, sem reconhecer-se, sob que jogo, sob que pressuposto epistemológico, sob que abordagem. Método é conseqüência. Uma aula de metodologia com(o) receita de bolo só tem alguma validade - se tem alguma - quando o ambiente epistemológico em que a receita é aplicada está muito, absolutamente claro. Para quem não assume tal ambiente, a receita não tem valor nenhum, não serve para nada.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
PS. Horácio Simian-Yofre e outros. Metodologia do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2000.

domingo, 14 de junho de 2009

(2009/356) Por que é necessário cair contra o fundo


1. Se é Cristo que o diz, aplausos. E se é Nietzsche? Tanto mais, já que de um "deus" não esperaríamos nada menos, mas, e de um diabo? Ora, ora, ora...

2. Em Jo 9, passagem que me causa riso vê-la exposta aos púlpitos, todos sujos do barro e da saliva, porque é aí que ficam rodeando, como pombos à cata de grãos (eu teria escrito como porcos à cata de bolotas, mas pareceu-me desnecessariamente pesado, e não escrevi), pois lá se conta a história - a rigor, um tratado antropológico/sociológico a respeito da "tradição" e da self deception (os termos não estam/estavam lá, mas as idéias, sim) - de como um cego de nascença pôde aderir a Jesus como Cristo somente tendo sido expulso da sinagoga. À luz do outro curado, o do capítulo cinco, que, não obstante curado, permanece no templo, e, destarte, denuncia Jesus, esse, o do capítulo nove, não - é apenas quando e porque ele sai da sinagoga (é necessário mais do que saírem com ele, é necessário que ele mesmo saia), só aí ele adquire a condição de "perceber" Jesus como messias.

3. A "tradição" é boa. A "tradição" é má. Porque ela ensina, ela prende. Porque ela dá à luz, ela mata. Porque ela é chão, ela é cova. Tudo depende de sua relação com ela, do modo como você se deixa levar. As gônadas sabem disso, os hormônios esperam o momento, o sinal de alarme, a luz vermelha e azul das sirenes, e, em desabalada carreia, despejam-se nas carnes febris da adolescência - isso tudo a ver se o pobre, se a pobre, podem contra família, tribo, fé e política, "nascer de si mesmo/a".

4. Não há de ser esse um momento necessariamente de isolamento e revolta, mas de autonomização, de cosmogonia de si mesmo. Para isso deveria servir tudo quanto se aproximasse da criança - tudo, aí, uma preparação para a superação do ontem, para, hoje, começar a erigir o novo, cujo nome é futuro.

5. Nietzsche, insurgente! Nietzsche, rebelde! Nietzsche, de dura cerviz! "'Ele desce, ele cai', troçais vós. / A verdade é que desce sobre vós. / O seu excesso de felicidade foi a sua desgraça, / O seu excesso de luz acompanha a vossa obcuridade" (Nietzsche, A Gaia Ciência, Aforismo 47). "O seu excsso de luz acompanha a vossa obscuridade"... Teria Nietzsche lido e, agora, recorda-se das palavras postas a dizê-las Jesus aos fariseus, ao cabo daquela saga do cego e da tradição?

6. "Alguns fariseus qu ali estavam com ele, ouvindo isso, perguntaram-lhe: Porventura somos também nós cegos? Respondeu-lhes Jesus: Se fosseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Nós vemos, permanece o vosso pecado" (Jo 9,40-41). É porque se consideram de boa visão, que não enxergam em Jesus o Cristo, e, não o fazendo, encerram-se em seu pecado - é o argumento do Evangelho. Nietzsche usa o mesmo: é vosso excesso de luz, senhores, vosso excesso de luz... e nem sabeis de vossa cegueira de luz... Cegos de luz, sois vós!, e quanto lhes faz falta a penumbra...

7. Por isso, senhores, de que vale toda a pesquisa, se sois luminosos? "Eu, um pesquisador? Não empregueis tal palavra... / Sou apenas muito pesado, extremamente pesado! / Caio, caio sem descanso, / Para descer finalmente, até o fundo" (Nietzsche, A Gaia Ciência, Aforismo 44). E te pegaram, meu amigo, para gadameriano patrono da Tradição... Pecado! Traição!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/355) Sobre método e visada nietzscheanas


1. Ah, quem pega uma reta para, com ela, ler Nietzsche!... Ah, pobre de nós! É poesia, gente, o que ele faz. Poesia - entendes? Mas alto lá: poesia é a maedia, mas o moço sabe exatametne do que está falando: sabe rigorosamente o que está falando a respeito do que está falando. Não se vá confundir meio e mensagem...

2. Quanto ao método geral, aquele de investigar, de pôr-se em perspectiva. Vamos lá:

3. "Aforismo 16. SUBIR. 'Como é que se deve atacar a encosta?'... / 'Sobe e não penses nisso'" (Nietzsche, A Gaia Ciência). Diríamos nós, então, que não há método? Não, queridos, mas que o modo como se deve atacar a encosta há de ser revelado... à medida que se ataca a encosta. Qualquer a priori é falso a priori, porque os métodos a priori foram, antes, apalpadelas inaugurais de alpinistas antigos, que, depois de terem eles mesmos atacado a sua encosta, agora dedicam-se a dizer como se deve atacá-las. Ele atacou - por isso ele sabe... Se você se agarra ao método, toma-o pelo próprio fim. Diante dos olhos, deve ter é a encosta - e seu desafio...

4. "Aforismo 6. SABEDORIA DO MUNDO. Não fiques em terreno plano. / Não subas muito alto. / O mais belo olhar sobre o mundo / Está a meia encosta" (Nietzsche, A Gaia Ciência). "Não fique em terreno plano" - não seja deveras materialista. "Não subas muito alto" - não seja deveras idealista. Posicione-se, para a visada, à meia encosta - nem materialismo, nem idealismo... separados! Os dois têm de operar concomitantemente. E, já que saltei de Nietzche para Morin, vamos citá-lo: "todas as verdades adquiridas a patir de fontes objetivas e da fonte subjetiva devem sofrer o exame epistemológico, o único que olha os pressupsotos dos diversos modos de conhecimento, inclusive o seu, e o único que considera possibilidades e limites do conhecimento humano" (Morin, O Métoo 5 - a humanidade da humanidade: a identidade hmana, p. 18).

5. Voltando ao filósofo. Quanto à dureza da empreitada, mormente se você se vê cercado de gente perplexa diante de sua resignação: "Aforismo 26. A MINHA DUREZA. É preciso que eu vença cem degraus / É preciso que eu suba, e ouço-vos gritar: / 'És duro! Será então que nós somos de pedra!' / É preciso que eu vença cem degraus, / E ninguém aparece para me ajudar" (Nietzche, A Gaia Ciência). Como esteve solitário, o homem das marteladas. Pudera! Era sobre a cabeça de todo mundo que ele batia!...

6. Ah, e para que não paire nenhuma dúvida sobre a centralidade do método em Nietzsche: "os métodos, cumpre dizê-lo dez vezes, são o essencial, e também o mais difícil, e também o que há mais tempo têm contra si os costumes e a preguiça" (Nietzsche, O Anticristo, LIX).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 13 de junho de 2009

(2009/354) Eis o Nietzsche não-fundacional, senhores!


1. Onde quer que estejas, cava profundamente,
em baixo fica a fonte
.
Deixa os homens sombrios gritar:
'em baixo fica sempre o inferno'...
(A Gaia Ciência, Aforismo 3)




2. Provavelmente - está na moda dizê-lo - eu leia errado tão importante Aforismo. Eventualmente... Na hipótese, contudo, de eu o ler adequadamente, soa um tanto imprópria a citação de Nietzsche nos trabalhos de Rorty, Vattimo e mais não-fundacionistas. Aliás, não me recordo - surpresa! - de alguma vez - uma, bastaria - ter lido esse Aforismo nas defesas do vazio epistemológico pragmatista (Rorty) e "hermenêutico" (Vattimo). Não, jamais o li. Nem o lerei. Porque esse Aforismo, para a epistemologia não-fundacional, é como as declarações de fé das denominações cristãs (e a epistemologia não-fundacional que é, se não declaração de fé?): ei, esse versículo aqui não "bate" com essa doutrina aí... tira o versículo!, tira o versículo!...

3. Nem horizontalmente, para os lados, nem verticalmente, para cima - é para baixo, para muito baixo que somos animados a cavar. Cavar! E profundamente. Saboreio o advérbio, como a espezinhar esse modismo ectoplasmático: p-r-o-f-u-n-d-a-m-e-n-t-e.

4. Quiçá não seja breve, que tarde quanto tarda a felicidade dos dramas do cinema, mas haverei de, contudo, dar uma notícia a Nietzsche, quando nos encontrarmos - porque nos haveremos de encontrar, porque, de um jeito ou de outro, onde ele está, lá estarei eu - sem dúvida! Terei de notificá-lo de uma necessária ampliação da circunferência cosmogônica de seu Aforismo. Ele deve inflar, para caber mais gente....

5. É que, quando Nietzsche o escrevia, a julgar pela presença do "inferno" aí, era de teólogos que ele falava, não mexa aí, homem de Deus!, não mexa aí! Os teólogos eram os gritadores das ruas: não cava!, não cava! Que se danassem de gritar, cavássemos...

6. Contudo, surgiu, eu devo avisá-lo - mas insito, que demore a má notícia -, um novo tipo de homens. Talvez até um novo tipo de "teólogos"! Aqueles que inventaram de não haver chão, que gostam de chamar por "fundamento" - um não-chão, um não-fundamento. Não havendo fundamento, não há nem onde nem o que cavar.

7. Assim, pobres de nós, escapamos das garras dos teólogos (e eu, um deles, mas, como a cigarra, deixei a casca em kantiano tronco, e voei), mas caímos nos palpos de uma classe "nova", a ser melhor definida após o diagnóstico, mas que se conhece pelo fato de ser tomada pelo "toque" do não-real: "eh, não tem chão! eh, não tem chão!", cochicham entre dentes, enquanto esperam a balconista trazer o adoçante, posto zelarem bastante pela aparência...

8. Quanto a mim, nado contra a corrente da teologia vecchia, e, agora, afasto-me dos rochedos sobre o quais gorjeiam sereias hermenêutico-pragmatistas (1). Fico com os conselhos sapientíssimos de meu velho amigo Nietzsche, escritos a martelada no fundo e nas paredes do poço, e que vou lendo, enquanto obedeço: cava, rapaz, cava... Mas já vou envelhecendo, homem! Pois então, usa uma retro-escavadeira - mas, pelo amor de Deus, cava!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. É imperioso que não se confundam os termos: "pragmática" (que não usei aqui) tem a ver com Aristóteles, Kant, Peirce e Morin, e nada tem a ver, absolutamente nada, com o pragmatismo rortyano. Quanto a hermenêutica, fazer o quê? O termo é usado por qualquer um. Pois bem: valho-me do sentido próprio daquele moldado pelo percurso que vai de Kant ao primeiro Heidegger, e saio correndo só ao ouvir o nome do segundo Heidegger e dos descaminhos pelos quais a hermenêutica se viu (des)caminhando. Esta, renego. Aquela, acaricio. O que Vattimo chama de hermenêutica é um "discurso", um topos semântico, um "depósito de fé". Xô!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

(2009/348) Coisa de pele e de cabeça - ou: do fundamento blastular do conhecimento humano


1. Sim, sim - é mais uma implicância minha, dentre as muitas, com a "pós-modernidade", mais precisamente naquele seu quesito da não-fundacionalidade do "conhecimento", proposição estabelecida axiomaticamente por meio de decisão lingüístico-mitológica comunitário-arbitrária - bem, se não há fundamento, não foi com base em "fatos" que se determinou o consenso, quero concluir... Assim se chegaria a curar a AIDS! Quem vota? Eu, eu, eu, pronto, axiomatizada a cura da AIDS... Cura de que, mesmo?...

2. Ironia à parte, quero refletir um pouco sobre uma informação de Edgar Morin - dada em O Método 3 - o conhecimento do conhecimento, cujo propósito é re-fundar o conhecimento na matéria viva, logo, no corpo, antes que num conceito platônico de ectoplasma incorpóreo, anímico, teológico, mitológico - qualquer que seja ele. O fantasma do conhecimento não-sensorial, não corporal, não-biológico, é tão assustador e eficiente que, ontem ainda, possuía a mente de Descartes - "penso, logo, existo...". "Pensa"? Quê? Tu? Sem tuas mitocôndrias?

3. Eis a informação, extraída do capítulo "2. A animaidade do conhecimnto" de O Método 3:

3.1 "Nosso tecido nervoso, como nossa pele, diferencia-se a partir de uma região da membrana externa do embrião ou do ectoderma. Significa que se formou, filogeneticamente, a partir das interações com o mundo exterior. Efetivamente a formação dos sistemas nervosos, ao longo das diversas evoluções animais, é inseparável das ações e reações no interior de um meio ambiente, e os desenvolvimentos cerebrais são inseparáveis da locomoção rápida, da busca, do ataque e da defesa, ligados à procura do alimento protéico, originária da incapacidade animal de captar a energia solar" (p. 63).

3.2 Uma nota 17, apensa ao texto, remete ao seguinte esclarecimento, mais técnico: "as primeiras divisões do ovo depois da fecundação transformaram-no numa espécie de esfera (blástula) que se transformará rapidamente num embrião (gástrula) atravessado por um 'tubo digestivo primitivo' e recoberto de uma camada de células (ectoderma) que o delimita física e fisiologicamente do seu meio. É a partir da região ântero-dorsal desse ectoderma que começa, no vertebrado, a formação de uma calha rapidamente fechada num tubo (tubo neural), num primeiro esboço dos centros encefálicos e medulares" (p. 264).

4. Essa é uma informação carregada de implicações para a Epistemologia Cognitiva - diante do que o não-fundacionalismo não tem a menor sustentação teórica. A membrana da qual se origina tanto a pele quanto o sistema nervoso humano - inclua-se, não se vá esquecer, aí, o cérebro! - é a parte responsável pela delimitação do ovo, da célula, da blástula, com o meio externo/ambiente. Essa membrana, portanto, de um lado, promove a diferenciação do ser vivo, separando-o fisicamente do meio, e, de outro, proporcionando à célula viva os mecanismos e instrumentos de interagir com esse meio - a "computação viva", incluídas aí a alimentação, a excreção, a locomoção, a respiração etc. (para um exemplo de "interação" da membrana na função alimentar [fagocitose], cf. Perseguição em alta velocidade).

5. A membrana celular está diretamente relacionada, assim, ao, movimento do ser vivo em direção ao meio externo, seja a sua própria locomoção nele, seja a sua interação sensorial operada nele. Ir lá fora e trazer para aqui dentro - digamos assim. Isso já requer capacidade de "computação" - capacidade química de identificação do meio e de tratamento da informação aí disponível. É de comer?

6. Nos animais superiores, contudo, especialmente nos vetebrados, a computação viva torna-se cada vez mais complexa, de modo que se torna necessária uma cada vez mais complexa estrutura - seja de captação dos insumos do meio, seja de sua prospecção (sentidos e aparelho locomotor/coletador), bem como, obviamente, de operação das rotinas de tratamento dessas informações - "computação" viva.

7. No Homo sapiens, a especialização cerebral é incomparável. O que era "computação" (e permanece sendo "computação"), evolui para a "cogitação" (consciência, pensamento, linguagem). Ora, o pensamento, a consciência, a linguagem - são desdobramentos/emergências "naturais" daquele mesmo tecido nervoso que, por sua vez, desdobrara-se daquela mesma membrana blastular. Isso sginficia que o pensamento, conquanto possa voar até o Sol - como Ícaro! - tem a função primária de tratar o meio ambiente - o real! 0- com o objetivo primáro de... manter-me vivo!

8. Ora, o fundamento da vida é a sua instalação eficiente no meio ecossistêmico. A membrana blastular dá ao ovo (assim como a membrana celular dá à célula) a capacidade de se individuar do meio, e de emergir como sujeito vivo - conquanto não sujeito de si. O pensamento humano, a sua faculdade cognitiva, está diretamente ligada àquela função necessária da computação do meio, logo, seu fundamento encontra-se lá fora, no real. Ao contrário, mas muito ao contrário do que postulava Platão, que cnsiderava a matéria e os sentidos ineficientes para o "conhecimento", o próprio conhecimento humano é uma emergência da estrutura bio-orgânica de tratamento vivo do real.

9. A despeito da rotina hermenêutica que intermedia o pensamento humano e o real, somente se pode desconsiderar o real como fundamento da validade heurística e epistemológica desse pensamento ao custo da desmembranização do homem, de seu desenvelopamento, e, com isso, sua dissolvição - seja num solipsismo estético, seja num misticismo lingüístico. De fato, o homem que decide pensar descoladamente do real, aliena-se. Se, de fato, de verdade, o fizer, morre. Cpmo nenhum não-fundacionalista morre de não-fundacionalismo (Rorty não morreu por seu não-fundacionalista, se é que morreu, se é que existiu! Aliás, qual a diferença entre Rorty e o Gasparzinho?), segue-se que não existe nenhum verdadeiro não-fundacionalista, e que os discursos não-fundacionalistas são isso, diversão de meia dúzia e política de outro tanto. Na hora h, quando a vida reclama, curvam-se, inexoravelmente, à condição primária de toda célula e de toda blástula- agarram-se à vida. Se não enganfinharem o real, e vida, engaalfinha-os o real, na morte, de qualquer jeito...

10. O que sugere que o não-fundacionalismo gravita entre alguma coisa políica e lúdica: uma zombaria, para atazanar a vida de quem os leva a sério - eu, por exemplo -, ou estratégia para conseguir, por meio desse artifício prestidigital, vantagens que, na vida concreta, na interface com o real, não detêm nem de outro modo deteriam. Razões inconfessáveis? Ou meramente equívoco platônico - nesse caso, consideravelmente anacrônico?

"A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por consqüência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste sistema" (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, Aforismo 11).



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 5 de junho de 2009

(2009/330) Implicância epistemológico-pragmático-fundacional


1. A dez minutos de distância do Airbus A-330-200, que fazia o até agora fatídico e inexplicável vôo AF447 Rio-Paris, outro avião, Rio-Madri, vôo IB6024, "decidiu 'alterar o programa de voo com desvio de 30 milhas a leste, evitando a turbulência e a forte descarga elétrica'". Até agora, as apostas apontam para o fato de ter sido alguma coisa diretamente relacionada a essa zona de turbulênia um dos fatores do desaparecimento do vôo da Air France, que, ao que tudo indica, não desviou...

2. A pergunta é: por que o vôo Rio-Madri desviou da rota, para evitar a turbulência - e o Rio-Paris, não? Uma questão que me vem à mente, apenas a título de "ilustração", e à luz das provocaões dos dois posts anteriores é - seria o vôo AF447 um vôo não-fundacional? Isso explicaria por que não se pensou em desviar do "real" inexorável...

3. Ao manche de um Airbus A-330-200, de cara com uma zona meteorológica esdrúxula, não há espaço para não-fundacionismos. O real é tão sério, mas tão sério, que se cogita, até, de erro de interpretação do sistema sensorial-automático de vôo - talvez o sitema tenha interpretado errado o real (as condições críticas e objetivas de vôo: velocidade, espaço, clima, densidade, valor das descargas elétricas etc.). Se o fez, se foi o caso, se interpretou errado, e se o sistema reagiu equivocadamente às interpretações erradas, eis aí mais uma ilustração da inexorabilidade do real...

4. Desprezar o real ou interpretá-lo equivocadamente - dá no mesmo. Melhor correr o risco de interpretá-lo, e esforçar-se para o fazer o mais adequadamente possível. Nossa vida depende disso. Nossa sanidade, também...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/329) Não-fundacionismo - equívoco de diagnóstico e prescrição


1. O "bom" da Hermenêutica barra Epistemologia não-fundacional é que você pode dizer o que quiser, sem medo de errar, porque, se for contestado, basta dizer que é uma questão de consenso comunitário, desde que a comunidade tenha pelo menos dois elementos e, o consenso, uma estrutura discursiva pragmatista-utilitarista. Se o discurso "serve", está bem assim. Um pensamento não-fundacional pode dormir tranqüilo, de noite, porque não o perseguem os critérios críticos, que ele exorcizou definitivamente. Deve ser bom conseguir viver assim, isto é, se a isso não corresponde uma baita dose de self deception consciente... Quanto a mim, nunca mais dormi tranqüilo...

2. No meu caso, cada vez que abro a boca, como me imponho critérios críticos, corro o risco de errar, de me equivocar, porque, no campo do saber, o critério crítico não reside em nem é meu próprio discurso - mas o/no "real". Não há nada, abolutamente nada, em meu discurso - isolado em si mesmo, separado do real - que possa servir de critério para que eu decida se ele é certo ou errado. É quando em o ponho em perspectiva, aí é que aparece a sua lucidez - ou o seu delírio. Por isso há quem prefira fechar os olhos, tapar os ouvidos...

3. Meu diagnósticoo para as teorias não-fundacionais: recalque freudiano do real (consciente ou não, não vem ao caso), um império do princípio de prazer, um desprezo axiomático ao princípio de realidade. Neurose ou esquizofrenia programáticas - como crianças que, assustadas, tapam os olhos, ou fecham-nos, e tapam os ouvidos, e o medo vai embora... Até que se tornem adultas, e descubram que o medo está é bem dentro de nós, porque, quando a gente cresce, a gente aprende que, mesmo fechando os olhos, tapando os ouvidos, o real está lá fora... ainda. E - como disse Carl Rogers, ele é nosso amigo...

4. Eis onde vejo o incorrigível erro da Epistemologia não-fundacional (e ela não tem salvação - só a terapia há de fazê-la ver-se a si mesma como esforço de recalque). Ela começa abandonando completamente a noção de ecossitema. Ela se fecha, apenas, e olhe lá, na noção de "comunidade de comunicação". Para ela, o que existe, de fato, é o grupo discursivo, o conjunto das pessoas que manejam palavras-discursos, e vão, arbitrariamente, dando sentido a palavras e, daí, a proposições. Nesse caso, quer palavras, quer proposições, elas têm sentido em função do consenso - e mais nada. Dado serem não-fundacionais (os corpos deles nasceram de um "bate-papo" entre mamãe e papai!), o real não aparece, aí, como plataforma crítica de esclarecimento dos sentidos e dos discursos aí fundados (em sendo o caso). Como o tempo, na Física de Newton, o espaço, na Hermenêutica não-fundacional de Rorty/Habermas/Vattimo, o real é uma ilusão da mente humana... Os mais "esclarecidos" somente considerarão que o real é por demais inacessível, criticamente, para ser levado em conta...

5. Erro que me parece primário - e, se eu erro no que alego ser a identificação do erro, tanto mais primária é minha falha e impertinência: o não-fundacionismo nem sabe mais o que é o Homem. Para ele, sobrou, apenas, uma coisa chamada Linguagem e Comunicação... Não me assuta mais saber que o centro nervoso do capitalismo está por trás dessa moda pragmátista/não-fundacionista... O qe me assusta, e muito, é ver "progressistas" entrando na onda...

6. Ora, o homem, desde Aristóteles se sabe - e, depois de dois mil anos de "teocracia" (isto é, "cristianocracia"), Kant renovou a perspectiva - que o homem lida, ao mesmo tempo, com três interfaces: o mundo/real, o homem/outro e si mesmo. Cada uma dessas três interfaces estabelece um regime de ação - uma teleologia situada, uma "pragmática". Porque o homem age significativamente, porque suas ações são significativas, isto é, não são operadas meramente por comandos genético-biológicos, mas por intenções e estratégias, o que quer que ele, o homem, esteja fazendo, agora, aqui e agora, corresponde a uma ação situada em uma dessas três interfaces: ou, agora, ele lida com o mundo, ou lida com o outro, ou lida consigo mesmo.

7. Lidar consigo mesmo. Aí, o fundamento significativo é o própro sujeito. Trata-se da dimensão, da interfacce, do gosto, da afeição. Trata-se da afetividade. As experiências, aí, são, todas, estéticas. Não há certo e errado, aí, porque, sendo o fundamento, o próprio pathos subjetivo, o que se deseja é bom, aquilo de que se gosta, excelente. Não é que não haja fundamento nessa dimensão pragática - há, mas ele é o próprio sujeito estético. Cada sjeito, um fundamento.

8. Lidar com o outro. Aí, claro, o fundamento dependerá do regime político. O Cristianismo brincou de "monarquia" e de "teocracia" até não mais poder - e não enjoou: se deixar, volta o circo romano, de novo, seja sob a direção protestante/evangélica, seja sob a direção da velha cúria. No jogo democrático, contudo, só cabe um fundamento - o diálogo político. Em termos pragmáticos, a interface homem-outro é a interface do querer, da vontade, da volição - campo dos conflitos de vontades. Aí, encarando o "outro" e a "vontade do outro", o homem se depara com uma limitação no mesmo nível de sua vontade. Querer não é poder - aí -, porque meu querer pode chocar-se - e, de fato, se choca - com o querer do outro. Vale o tacape, vale o cetro, ou vale a negociação. A política, a pragmática das relações inter-humanas, tem por fundamento o jogo dialogal, e, na sua hiponomia democrática, no consenso negociado.

9. Lidar com o real. Ah, aqui as teorias não-fundacionais revelam, todas, toda a sua miopia. A placenta ensagüentada entre as pernas da mãe foi esquecida, e do canal vaginal daquele corpo saiu alguma coisa entre um ectoplasma e um discurso! Nada disso. Saiu um pedaço de carbono. Carbono com perdas, que vive do carbono, com bcoa e cloaca. Ser-de-carbono.

10. Aí se está na esfera do saber, do conhecer, do sensível. Aí se está na esfera da cognição. Aí se está na esfera da heurística. Aí, o critério crítico não é, não, um senso estético solipsista - cada um tem sua "verdade". Mentira. Cadaum tem seu gosto - "verdade" não é uma questão de gosto: não se se trata de "conhecimento", que é uma questão crítica de confronto hermenêutico-epistemológico com o real. Também aí não é critério crítico o voto, a negociação. Não se trata de uma questão política - e esse é o mais grosseiro erro das filosofias não-fundacionais, delírios pós-religiosos da mente mítica humana, eventualemnte, contudo, ainda também a serviço da "Teologia".

11. O fundamento da heurística, queiram ou não os não-fundacionalistas - não importa seu "voto" nesse caso - é o real. Uma vez que não lidamos diretamente, imediatamente, contemplativamente, com o real, mas lidamos com ele de modo antropológico, hermenûtico, semiótico - resta-nos tornar complexa a relação entre o critério crítico que é o real, fundamento do conhecimento humano, e a performance representacional da mente humana, cuja lucidez está em ater-se o mais firmemente possível ao real, sem, contudo, ingenuidades positivistasas - o que não quer dizer, por outro lado, delírios relativistas... Uma decisão política: tirar o sofá da sala - não tem qualquer eficiência nesse campo...

12. Para questões estéticas, fundamento subjetivo, soluções estéticas. Para problemas políticos, fundamento antropológico, soluções políticas. Para problemas heurísticos, fundamento físico-ecológico, soluções heurísticas.

13. O não-fundacionismo exorcizou um espírito. Devia ter exorcizado o espírito de solipsismo, o espírito de arbitrariedade, e, contudo, exorcizou o único critério de lucidez epistemológica possível - o real "objetivo" (no campo heurístico, bem sabido). E o fez pelas mais nobres da razões - com o que me filio e irmano a essa corrente, conquanto ela erre, e feio, e de cheio, quer na aplicação do remédo, quer no dignóstico da doença. Para superar o autoritarismo, quer da religião/teologia, quer da política, a Epistemologia não-fundacional transformou toda a questão, todas as questões, em questão política. Em seguida, falseou se caráter, transformando a descrição do problema - que é político - em problema de "racionalidade" (Habermas). Ao cabo, receitou, como saída para a paz, o consenso. Em que mundo - vivem?

14. No campo político - e exclusivamente para as questões políticas - a saída não é outra: é o consenso pragmático-político, negociação em todos os sentidos, o ganha-perde em benefício do bem-comum. Contudo, errou-se a mão, errou-se o olho (pudera!, fecharam-no...), errou-se a pele, errou-se, errou-se, perdeu-se o melhor do programa - o desejo de paz - escamoteando a questão de fundo. A verdade heurística não se presta a consensos - um só, contra todos, pode estar certo. Não adianta querer conseguir paz - aí - arrancando os olhos: a paz é uma questão política! Sempre nascerão novos homens, novas mulheres, com olhos na cara, e capazes de dizer, como Gaileu, que o rei tem as vergonhas à mostra...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/328) Tirem o sofá da sala...


1. "Tirem o Sofá da Sala" ou "O Problema da Epistemologia e/ou da Hermenêutica Não-fundacional" - é o título que dou a esse ensaio-provocação, que rabisco enquanto aguardo a chegada de meus guerreiros do Tribal Wars. É uma referência um tanto irônica - está bem, totalmente irônica - àquela piada: um sujeito entra em casa, sem avisar, e pega a esposa com outro - no sofá. Indignado, ele resolve... tirar o sofá da sala. A "Hermenêutica Não-fundacional" tirou o sofá da sala...

2. Vamos ao "histórico". O Ocidente saiu de dentro do ovo do diabo, quero dizer, aquele período "teocrático" (teocracia, lembrem-se, é o modo como alguém decide chamar seu próprio modo de governo, só porque ele se faz, retoricamente, por meio da referência aos deuses: mas eu sei, tu sabes, ele sabe, nós sabemos - quem governa é ele mesmo, e Teocracia so é nomenclatura legítima se o monarca se chama Teo) em que esteve encarcerado o Ocidente. Ah, sim, pode - apenas pode, mas não é garantido, necessariamente - ser que a Igreja, afinal, preste-se a bons serviços para a comunidade. Mas, certamente, não quando ela se põe a ser, também, Governo. Se já não é boa coisa quando o faz intra-muros, metendo-se a legisladora e juíza de terceiras consciências, imagine-se o que não era de infernal e dantesco um clero de cetro e toga! Deus nos livre!, como nos livrou, aleluia!

3. Mas era asim, e saímos de lá. Isso tem o quê?, uns duzentos anos... Pois bem, a isso seguiu-se uma fase excitante e nervosa: a reprogramação da cultura ocidental, em sentido amplo. O Ocidente precisava ser re-programado, re-orientado, re-fundado. Sem a Igreja, reduzida à condição de experiência do privado - em todos os casos, não-Estatal (ao menos o papel, claro), o Ocidente precisava ser re-inventado. Essa reprogramação do Ocidente passava pela Ética e pela Moral, de um lado, e pela Epistemologia e a pela Hermenûtica, de outro. Naturalmente, porque, de um lado, os homens ainda precisavam lidar com outros homens (política, ética, moral) e, de outro, os homens mais do que nunca precisavam lidar - eles mesmos! - com o real (ciências, hermenêutica, epistemologia).

4. Não foi fácil. Não é fácil. No final do processo, que durou cem anos, mas já havia começado, quanto às ciências duras (ditas, "da natureza"), outros cem antes, e mais um pouco, até, Dilthey propôs, e foi aceito, um armistício entre Ciências da Natureza e Ciências Humanas (as Ciências ditas "exatas" apareciam como instrumentais, então). Inventou-se o verbo-chave "entender", para a Natureza, e o verbo-chave "compreender", para o Homem. Um tipo de ciência, entende as coisas, um outro, "compreende". E á vivemos assim, xifápagos separados, por uns bons setenta anos.

5. Felizmente, as Ciências Cognitivas, os modelos de pesquisa transdisciplinar (UNESCO) e a Epistemologia Complexa estão e vias de superação desse arcabouço teórico disjuntivo. Não chegamos exatamente lá, ainda, mas o futuro é promissor.

6. Enquanto isso, era de se esperar, que risco se corria? De um lado, uma fixação no "entender" -positivismo. De outro lado, uma fixação no "compreender" - relativismo. Nos dois casos, secção do "real". Nos dois casos, fragmentação do olhar humano. Um empirismo descuidado dos fatores teórico-metodológicos que envolven as elaborações cérebro-mentais do "real" peca por ingenuidade. Quanto a isso, convém ler Charles Sanders Peirce e sua Semiótica - que me parece ter proposto a "teoria" mais adequada para a relação cérebro-mental entre o homem e o "real" - primeiridade (a coisa como ela é), secundidade (a coisa conforme eu a concebo), terceiridade (o eu, concebedor hermenêutico-semiótico da coisa-real, conforme concebida na secundidade). O real está lá, mas eu o acesso semiótico-hermeneuticamente. O livro está traduzido.

7. No outro extremo, caiu-se no relativismo. O relativismo, qualquer que seja ele, constitui-se por uma axiomática decisão de não mais considerar o "real" como critério crítico do "saber", e, de outro lado, super-valorizar a expressão interpretativa da consciência humana. Sim, é verdade, o real, ou melhor, a relação humano-hermenêuica com o real é problemática. Muito problemática. A descoberta teórico-metodológica da dimensão hermenêutico-cultural em que vive o homem trouxe problemas graves para não apenas a teoria do conhecimento - o que é conhecer?, como ter certeza de que "conhecemos"? - mas para todas as expressões humanas.

8. Num contexto desse tipo, parece-me que almas há muito acostumadas a viverem com as cerâmicas do chão todas firmes e niveladas, ressentem-se de uma existência sem chão aparafusado. Ora, um retorno cartesiano ao "eu", um retorno platônico à "idéia", mas, agora, disfarçado, contudo, por uma retórica de Linguagem (Wittgenstein, o segundo Heidegger), de Tradição (Gadamer) de Comunicação (Rorty e Habermas) - mas nada disso avança um centímetro para além de Platão e, em certo sentido, Descartes -, não-fundacionismo epistemológico, condição negativa da matéria como veículo de conhecimento, primazia do pensamento, solipsismo, com a diferença que o solipsismo platônico-cartesiano é subjetivo, ao passo que o das hermenêuticas não-fundacionais é coletiva: alucinação e grupo...

9. Se o real é o problema (e o era para Platão e Descartes - o real não é confiável!), e se, afinal, nos bastam - bastam?? - a Linguagem (Novo Deus), a Tradição (Novo Cosmos) e a Comunicação (Novo Espírito), então por que manter o real? Suprima-se o real! Mas ele continua aí... Finge que não... Mas... Ei! Nós, aqui reunidos lingüisticamente em tradição e comunicação, se nós decidirmos que não há real, e, ao menos, se há, nem fede nem cheira, decidido fica que não há real, pronto: funda-se a hermenêutica não-fundacional, hermenêutica sem real, hermenêutica de casinha, hermenûtica de vamos-fazer-de-conta, e pronto. Ah, tá, mas esperem um momento que tenho que ir ali na "casinha"... É o real chamando"...

10. As hermeneuticas não-fundacionais impuseram-se um fundamento: fundaram o não-real. Súbito, os corpos viram almas, as carnes, pensamento, o sexo, linguagem, a verdade, voto democrático... Se a Nasa descobre esse método, vota solenemente que há apenas mil quilômetros apenas entre nós e a Lua, e constrói não mais foguetes, mas uma escada, para chegar lá... Não sei o que estão esperando... Ainda poderíamos dizer que "A Escada de Jacó" era sua profecia...

11. A hermenêutica/epistemologia não-fundacional chegou um belo dia em casa e, coitada, flagrou seu amor em flagrante adultério - no sofá. O que ela fez? Tirou o sofá. O real é o problema? Tire-se essa cosia daqui. Fez igualzinho, se tirar nem pôr, ao mitólogo (e político!) Platão - o pensamento, ah, não, ele não tem parte com a matéria, coisa suja e grosseira. Ele, o pensamento imaculado, desce das alturas da Providência, em quantas de almas, uma a uma, que, fazendo cócegas na barriga, vão se lembrando da verdade... O triste dessa moda não-fundacional é que não pode mais - ela é pós-metafísica, coitada, além de tudo! - brincar de lembrar (os teólogos continuam essa farra, recorrendo à "fé", ai!, ai!). Então, ela resolveu o problema aplicando a moda democrática: a verdade decide-se no voto.

12. Se observarmos mais de perto, veremos que as hermêuticas não-fundacionais tentam uma saída política - interditar o autoritarismo - para um problema não-político. Não vai dar boa coisa isso aí. E sobre isso escreverei a seguir. Por enquanto, fico com essa declaração: o real não se importa em que finjamos que ele não existe. Contdo, se ele der um traque, fede o mundo inteiro. E, se você recolhe destroços no mar, dizendo que é do Airbus, mas não é, o real te diz: não é do Airbus, não, Jobim...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 31 de maio de 2009

(2009/316) Teologia à moda Pneumoderma violaceum


1. Eis aí, meu amigo Haroldo, meu re-encainhador na Exegese da Bíblia Hebraica, depois de eu (quase) ter-me desviado para outros caminhos, aos quais, contudo, agora volto, caminhos de fazer passar a Teologia pelo fogo da iniciação prometeica, meu professor. Eis aí, Haroldo, como deveria ser, a seu tempo e modo, e tomara logo! - a nossa Teologia universitária, acadêmica, "laica" e científico-humaista:


2. Ela deveria ser, assim, nua, linda, transparente - sem nada a esconder, nem as tripas. Pneumoderma violaceum - até pneuma ela tem no nome, porque tudo isso, de logos e de pneuma, é tudo muito ctônico e telúrico, não é mesmo? Ainda que abissal, muito da Terra, já sabemos...

3. Chegará o dia?

4. Seja como for - quero arriscar dizer que, quanto a isso, já estamos de acordo...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/314) Reação a (2009/313) Teologia na universidade pública


1. Oba! Pleno domingo, e Haroldo dando o ar da graça... Eu até interrompo minha caça pelos nudibranchia (Deus, como o Google vai transformar o mundo!), para interagir com meu amigo.

2. Haroldo diz "corrigir" posição anteriormente sustentada ((2009/303) Parecer Mec) a partir de minhas reações a ela ((2009/304) Haroldo e PARECER CNE/CES Nº 118/2009 - I e (2009/308) Haroldo e o PARECER CNE/CES Nº 118/2009 - II). Trata-se de uma "correção", porque avança do conceito de "momentos e lugares de interdisciplinaridade" e postula, então, um "estado e um lugar perenes de interdisciplinaridade". Isso vai ali pelos parágrafos 1 e 2.

3. No parágrafo 3, Haroldo tece comentários sobre "conteúdos mínimos", e, quanto a isso, afirma duas cosias: a) a incompetência político-republicana do MEC para intrometer-se aí, e b) a necessidade de os atores da teologia universitária reunirem-se em torno da tentativa de estabelecer, por diálogo e consenso, uma padrão curricular comum para seus respectivos Cursos de Graduação em Teologia. No parágrafo 4, Haroldo avança para estabelecer uma distinção topológica entre uma Teologia que se fizesse em Universidades privadas e outra que se fizesse em Unviersidades públicas. Quanto aos cursos que já praticariam uma Teologia inclinada a esse parâmetro, Haroldo há de saber mais do que eu, posto ser um dos avaliadores oficiais do MEC para Cursos de Graduação - e e, não. Todavia, com base apenas nos artigos-manifestos publicados no Brasil nos últimos dois anos, a(s) proposta(s) que aí se defendem - sem exceção - operam, ainda, todas, sob o regime de "conteúdo", e o resultado é, inescapavelmente, um "acordo" com a "tradição" e a "doutrina" (ainda que, aqui e ali, o que me parece ainda mais grave, sob o disfarce da "metáfora").

4. À luz desse quadro, cabe-me, por momento, argumentar. 1) A "correção" que Haroldo faz é pertinente e, talvez, constitua apenas uma adequação do modo como se pronunciara antes. Seja como for, é impensável uma Teologia que abra janelas pseudo-dialogais, a que chamaríamos "tempos e momentos burocráticos de interdisciplinaridade", para, depois, re-encenar velhas tradições não-criticadas e "cripto-eternas" - de portas fechadas e preparando o programa missiológico...

5. 2) Quanto à distinção entre públicas e privadas, tenho minhas sérias preocupações. Não vejo essa distinção - exceto pela qualidade, mas isso é outra questão - aplicar-se aos cursos das demais ciências. Antropologia no Museu Nacional é diferente de Antropologia na PUC? Economia, na FGV, é diferente de Economia, na UNICAMP? Sociologia, no IUPERJ, é diferente de Sociologia, na UFF? Não falo de "correntes" - falo de paradigma epistemológico, falo de Ciências Humanas. Quero com isso apenas dizer que o MEC não pode - salvo engano - permitir "reserva" de mercado para "Instituições" privadas, porque não são elas, as Instituições - sejam as mantenedoras, sejam as IES - as detentoras do "pátrio poder" sobre a "disciplina" Teologia. Quem pensa a disciplina, quem a limita, configura, postula, organiza, sistematiza, constrói - somos nós, "profissionais" da Telogia, ainda que o espaço em que nos manifestamos formalmente seja ali.

6. Assim, não posso conceber - mas talvez seja limitação ou super-exigência de minha parte, vai ver peco ou por excesso, ou por limitação - uma Teologia pensada e praticada em Universidade particular e outra Teologia, diferente, pensada e praticada em Universidade pública. E com isso ainda quero pensar nas Instituições confessionais - que sentido faz estarem no MEC para ensaiarem catequeses proselitistas ou, na melhor das hipóteses, para racioalizarem sobre velhos mitos e dogmas, que, nesse sentido enesses teros, só dizem respeito a essas mesmas tradições, se isso não se constitui, deveras, "verdadeira ciência"?

7. Penso, Haroldo, que o MEC, e, nesse caso, o MEC enquanto hipóstase formal e oficial de nossa reflexão e debate, não pode "negociar" exceções: ou as Universidades e Faculdades privadas pensam e praticam Teologia universitária - científica, acadêmica (científico-humanista) -, ou não abram o curso. Os "colégios" confessionais que mantenham curso(s) de formação ministerial, e está muito bom, porque é a isso, afinal, que se resume o que têm chamado de "Teologia".

8. Reconheço minha "intransigência", meu amigo. Não o sou tanto em questões ético-políticas, mas, quanto à heurística, ou o que se faz é pesquisa, ou não é. Assim como há "Histórias" compradas e pagas por Estados e Instituições - as quais não passam de política e fraude. Também haverá uma Teologia que tente driblar a seriedade, as regras indiciárias da investigação histórica, o paradigma histórico-antropológico kantiano-diltheyano. As Universidades públicas não estão a salvo delas, mas, cá entre nós, seu ninho são as particulares - onde os "donos" da tradição, pastores, teólogos, bispos, padres, "apóstolos", Deus e o Diabo, hão de se aproveitar - já o fazem - do MEC - logo, de você e de mim, de nossas carreiras e seriedade - para manterem a a produção viciada de consmo político-ideológico - dito "religioso".

9. Isso não pode ser permitido. Se a Teologia científica - que não nasceu ainda, tavez, vá lá, você diz que há delas por aí, sendo ensaiadas, vou crer-lhe - não nascer incontaminada, nunca mais a descontaminaremos. Ainda que "sin perder la ternura jamás", Haroldo, essa é, sobretudo, a hora em que "hay que endurecerse". Assim, meu lema, aqui, é: por uma única Telogia científica, privada e pública, posto que a Teologia não deve existir para as Universidades, mas as Unviersidades, para a Teologia - e esta, quem a deve conceber e parir, somos nós.

10. Finalmente, considero que sua recomendação a que os atores da Teologia acadêmica - cristãos, umbandistas, kardecistas e quanto mais venham ao festival - sentem e discutam juntos essa (por minha conta) nova disciplina seja o melhor de seu já muito bom post. Aqui reside o que de melhor se pode fazer nesse momento - pôr em uma sala, reunidos, teólogos dessas tradições díspares e, até, antagônicas - monoteísmo e politeísmo juntos! -, com alguém a lhes dizer que, a despeito do que dizem de si mesmas e das outras, fazem, todas, a mesma coisa, porque não se trata de falar de deuses e de deusas como que "de verdade", mas de deuses e de deusas conforme os concebem os homens. A Teologia, Haroldo, vai se transformar em Noologia - e esse terá sido o feito mais extraordinário de um homem - Feuerbach - depois que o primeiro homem ou a primeira mulher inventaram de dar nome a um impulso hermenûtico bio-antropológico.

11. Excita-me a idéia. A você, também? Nada que se fez até hoje, meu amigo, assemelha-se a isso. Não no campo da "Teologia". Claro que a Exegese passou por isso há duzentos e cinqüenta anos, quando transformou-se em Filologia (e, contudo, quanta recaída ela sofre, por força da sobrevivência do "espírito de Teologia", essa patologia e morbidez platônicas, entre nós...). Farejo no ar uma oportunidade. Ela é de ouro. Ela foi forjada pelo confronto subterrâneo de Aristóteles, trazido sobre puros-sangues árabes, com Platão, entronizado em Roma. Pariu-se Wittenberg, mas Platão - íncubo - possuiu a alma luterana, apoderando-se de seu "corpo" - de novo. A luta foi longa - quantos mártires... Três séculos de fermentação (França/Alemanha/Inglaterra). A Revolução! As Repúblicas! Nós. Depois de milênios, Haroldo, tratando a Teologia como coisa dos deuses, chegou a hora de lidar com ela, definitivamente, como coisa humana - e não como "coisa humana" para se chegar aos deuses (ah, a retórica apologética do século!), mas "coisa humana" para lidar com e ficar na solidão humana, solidão tanto maior quanto maior é o grito pelo sagrado. Solidão fria que apenas o calor do corpo esquenta...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 19 de abril de 2009

(2009/183) Sapere aude


1. Outro dia, Jimmy me provocava com insinuações de que eu me considerava um "iluminista" e um "jacobino", provocação que ele justificara, pessoalmente, mais tarde, com o argumento de que estava a "ver até onde ia" a "saída" pondeiana, de que ele mui recentemente se acercara. Soavam assim um tanto recriminatórias aquelas provocações, como se à proximidade de um pecado contemporâneo se constituíssem as "luzes". Como nunca sabemos exatamente o que uma pessoa quer dizer com os termos e rótulos que utiliza, imediataqmente manifestei-me, fazendo registrar em ata que não me considerava emancipado, pelo contrário, porque um homem pobre da Baixada Fluminense não tem nenhuma razão para assim se considerar, salvo sob o controle ideológico de uma self deception. Nenhum "pobre" está emancipado - conquanto sua mente profundamente o deseje. Emancipação (apenas) idealista, contudo, não é verdadeira emancipação, ainda que a verdadeira não se materialize sem ela.

2. Eis que, agora, chegam-me pelas mãos de Joege Grespan descrições de um Iluminismo que eu abaixo-assinaria sem reservas de qualquer espécie, ainda que isso constituísse pecado de morte contra Deus. Ei-las:

3. "Sempre está presente (...) uma marca de nascença: o Iluminismo, em suas várias vertentes, guarda da revolução o princípio da crítica. Tudo pode ser examinado, dissecado, exposto; não há assuntos ou questões que possuam o direito de ser furtado ao esclarecimento, de ser ocultado na sombra sob o pretexto da autoridade ou do dogma" (Jorge GRESPAN, Revolução Francesa e Iluminismo. São Paulo: Contexto, 2008, p. 38).

4. Com esse Iluminismo aí eu me dou muito bem. Não há dogma que eu não disseque, seja ele religioso, científico ou político. Outro dia, por exemplo, Jô Soares dizia das chamadas "cláusulas pétreas" da Constituição que elas são, por isso, absolutas, não-sujeitas a alterações. Ri-me a desmanchar-me de gases. Nada, absolutamente nada há, em face do que os homens estabeleceçam como regimes político-sociais, que inalterável seja, conquanto há interesses da elite e do capital de alterarem, rápido, legislações trabalhistas, enquanto se esforçarão para manterem inalteradas legislações que lhes garantam o status quo. Jô Soares, ali, enganava-se, ou tentava me enganar?

5. Dogmas religiosos nem mais os analiso um a um - caíram todos. No campo do saber, nada há que a religião e a teologia teologia me digam que eu leve a sério. As únicas pragmáticas possíveis no campo religioso são a estética e a política - o saber, a heurística, passa a quilômetros de distância dos fóruns de religião e teologia.

6. Quanto aos dogmas científicos, não os há. Se os há, científicos é o que não são. A ciências produzem proposições a respeito da relação entre nossos quadros conceituais e a matéria - sim, são fundacionais, sim, conquanto se alardeie, para benefício Deus sabe de quem, que a epistemologia não-fundacional dá as cartas, hoje (onde?, não certamente em Apel ou Morin, por exemplo). É com tais proposições, críticas, refutáveis, que lido/lidamos.

7. Nesse sentido, há uma exigência tremenda da parte do programa iluminista - a crítica incessante de todas as posições fechadas e autoritárias, dogmáticas - de poder. Essa foi a única parcela da revolução que me restou. E não é pouca, reconheço...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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