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sexta-feira, 30 de abril de 2010

(2010/352) Gasparzinho na veia


1. Paulo teve um ataque apoplético. Os camaradas de Corinto cismavam que o corpo era desnecessário, que, após a morte, a alma, fantasmática, voejaria faceira para os Campos Elísios, enquanto o corpo, fétido, apodreceria sob a terra, ou, que diferença faria?, seria comido pelos abutres. Judeu, Paulo foi tomado da apoplexia que acomete os ortodoxos, quando ouvem heresias - e vociferou apologéticas garantias de que, não senhores, o corpo era condição sine qua non para a sanidade e a validade da fé! Sem o corpo, sem a ressurreição, tudo era vão - a cruz, a salvação, o perdão, porque, sem o corpo, não haveria amanhã...

2. Mas não aprendemos muita coisa. Paulo podia ficar pelado, plantar bananeira e dar com a babeça no chão que, ainda assim, não o ouviríamos. Já havíamos posto Gasparzinho até em Gênesis! À fórmula semita - nefesh hayah - já havíamos agregado o sentido platônico-fantasático de "alma vivente", conquanto o sentido deva ser "garganta viva", como a garganta da corça do Sl 42, garganta a gritar de sede... Enquanto o sentido semita do mito seja um corpo vivo, um ser-vivo, um corpo que respira, a gente cristã já o lê pela cartilha de Platão: o corpo é uma casca podre com um fantasma dentro - a alma...

3. Corinto já estava estragada para a fé semita, já estava por demais familiar das concepções anímico-dualistas. Homens e mulheres são cascas inúteis, com um espectro transparente morando dentre dele. O fantasma que habita o corpo é a verdadeira pessoa. O corpo, não. O corpo é supérfluo. Só parece ser necessário, aqui e agora, porque a alma caiu vítima da vida, da encarnação. Mas, no dia em que ela se libertar, no dia em que a vida acabar, aleluia!, Garparzinho vai voar para o céu.

4. O ataque apoplético do apóstolo revela que são inúteis as cenas de desespero ortodoxo - o Cristianismo nunca mais seria semita, e a idéia de Gasparzinho encontraria sua definitiva vitória na cabeça teológica de cada cristão, que, doravante, lutará contra o corpo, cuidando que o seu verdadeiro ser seja um trasgo celeste...

5. Esse enredo re-encena-se diante de nossos olhos. O conhecimento, metaforicamente falando, é semita. O conhecimento humano é cria direta do conhecimento celular, biológico, animal. O conhecimento é a capacidade de a vida, de o ser-vivo, computar o meio, computar a si, sustentar-se, em vida, no ecossistema que o recebe. Conhecimento é a capacidade de a vida instalar-se, sobreviver, evoluir. Isso significa que conhecimento é o diálogo crítico entre o ser vivo e o meio, entre a vida e o real. Conhecimento não é imaginação, não é sonho, não é delírio, não é fantasia, não é arte...

6. Todavia, o mesmo Platão das almas fantasmáticas cuidou informar ao Ocidente que o conhecimento é um atributo do fantasma que habita os corpos humanos. Gasparzinho sabe. Saber é atributo de Gasparzinho. Mais do que isso: nada há que de fato contribua, na terra, para o saber. Gasparzinho está a mercê da memória providencial, da graça divina, ou há de permanecer um idiota, porque nada que seja não-material é veículo de conhecimento. O corpo é estorvo. A matéria, obstáculo. Só a alma fantasmática pode aprender - e do que seja imaterial, ideal, essencial, fantasmático...

7. Ah, que coisa! Os últimos séculos, pós-protestantes, foram a pouco e pouco, descuidando da alma, e aumentando a concentração de atenção no corpo. A isso chamou-se, tabém, de Empirismo. Logo, o Ocidente descobriu a matéria, a ciência, a pesquisa, a heurística. Decidiu-se distinguir entre mito e história, entre verdadede e erro, entre conhecimento e ilusão. Decidiu-se que haveria de se dialogar com... o real. O Ocidente cristão foi se tornando, pouco a pouco, semita. A ciência é semita. Não considera a hipótese de uma alma: é o corpo, vivo, quem pensa, quem conhece. E conhecimento, aí, é justamente o diálogo com o real, de onde o corpo extrai a sua vida, a sua manutenção viva. Conhecimento é função crítica da exitência biológica.

8. No entanto, milênios de platonismo e cristianismo provocam reações. A hermenêutica e a epistemologia não-fundacionais são como que "birras" reacionárias. E agora, diante delas, diante daqueles que dissolvem o conhecimento e o fazem semelhante ao gosto, à opinião, ao mero "consenso", a atributos do Gasparzinho moderno - a linguagem - eu me comporto como Paulo, flagrado em ataque apoplético. Não se trata da defesa da mesma coisa, mas do mesmo tipo de defesa. Acredito que o corpo, e não a alma, sejam agentes do conhecimento, e admito que a matéria, o real, seja, ao mesmo tempo ecossitema e objeto de conhecimento. Conhecimento, para mim, não é gosto, nem opinião, é diálogo critico com o real.

9. Mas há quem pense que não. Há quem pense que o conhecimento é um equívoco cognitivo, uma neurose, um engano da mente, e que, no fundo, o conhecimento humano é como a arte, como se a relação do sujeito com o objeto de arte fosse a mesma coisa que a relação do sujeito com esse mesmo objeto sob problematização heurística. Se o neoplatonismo epistemológico não pode assumir a alma, pode, por outro lado, dissolver o real ou, ao menos, construir a retórica da impossibilidade da relação real, concreta, viva, da vida com o real e material, convertendo a impressão humana dessa realação em mera idiossincrasia.

10. Não sei se haverá remédio para essa crise não-fundacional, não-material. Os não-fundacionais creram tanto, um dia, em Platão que, agora que descobriram que a metafísica era um mito, deixaram de crer não no sistema epistemológico platônico que gerava o conhecimento tido por divino, mas no próprio conhecimento. No fundo, para eles, ou o conhecimento é divino, ou não há conhecimento. Como descobriram que o homem é, afinal, mortal, logo, não-divino, e que seu conhecimento seria unicamente humano, logo, não divino, concluíram qe, então, o conhecimento humano, não sendo divino, não é verdadeiro conhecimento, é quimera... Exemplo crasso de como se pode sair de um paradigma pela metade... Ela já dura, pelo menos, no Ocidente, há 2.500 anos. No fundo, trata-se de decidir-se entre a vida concreta, biológica, telúrica, terrestre, e uma existência imaterial, noológica, fantasmátca, nao-situada, não ecossistêmica. Trata-se da supressão do conhecimento, da transformação do conhecimento em mera brincadeira de deslumbrados. Platão também suprimiu o conhecimento, substituindo-o pela inculcação da Norma política do governante da Cidade Bela. A supressão do conhecimento é, afinal, um gesto político - e só resta descobrir se é um gesto político de defesa, ou de conquista.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 21 de abril de 2010

(2010/325) Eu escrevia, em 01 de setembro de 2008


(2008/17) Do pêndulo e da práxis:

1. Equívoco pré-marxista - "interpretar o mundo".

2. Equívoco pós-marxista - "transformar o mundo".

3. Complexidade marxista - "Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert; es kommt aber darauf an, sie zu verändern" ("os filósofos apenas têm interpretado o mundo de forma diferente. Mas o que é importante é que ele seja mudado" - tradução minha; "os filósofos apenas interpretaram o mundo de forma diferente, o que importa é mudá-lo" - cf. Georges LABICA, As "Teses sobre Feuerbach" de Karl Marx. Trad. de Arnaldo Marques. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990, p. 29 e 35).

4. Marx, quanto aos pré-marxistas - "apenas" interpretam.

5. Marx, quanto aos pós-marxistas - querem "apenas" transformar.

6. A Tese 11 não estabelece uma opção pendular - mas uma articulação entre "ciência/filosofia" e "práxis".

7. Nesse sentido, não se deveria descolar o conhecimento da práxis - nem tampouco descolar a práxis do conhecimento.

8. Ora, ora, ora - a Teologia sequer conhecimento é. Imagine-se o Mito - e apenas o Mito, dissociado de toda e qualquer relação lúcida/lúdica com a realidade/o real - engajada na "transformação" do Mundo.

9. Ora, é o Mito que liga o conhecimento do mundo à práxis transformadora. Mas, se o Mito entrega-se à transformação do mundo, e negligencia o conhecimento do mundo, eis não o trágico - o que seria bom -, mas o alienante.

10. Que Mito e Metáfora dediquem-se ao seu papel - dobradiça entre o conhecimento do real e a transformação do real, ao mesmo tempo em que a gosma hermenêutica que recobre os dois. Saber e Fazer são míticos - mas, cada um, a seu tempo e modo.

11. Lucidez não é um estado. É um processo. Alguma coisa entre o "não apenas" e o "o que realmente importa".


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 11 de abril de 2010

(2010/310) Um parágrafo de tirar o fôlego - de Nietzsche


1. "A hostilidade dos alemães contra a Época das Luzes. Que se faça um levantamento das contribuições que os alemães trouxeram com o seu trabalho intelectual para a cultura universal na primeira metade deste século e que se considere em primeiro lugar os filósofos alemães: eles retornaram ao primeiro e mais antigo grau de especulação, pois procuravam a sua satisfação nos onceitos e não nas explicações, tal como os pensadores das épocas senhadoras - eles ressucitaram uma forma pré-científica da filosofia. Em segundo lugar, os historiadores e os românticos alemães: todo o seu esforço tendia a atribuir um lugar de honra aos sentimentos primitivos mais antigos, particularmnte ao cristianismo, à alma popular, às lendas populares, à linguagem popular, ao espírito medieval, à ascese oriental, ao hinduísmo. Em terceiro lugar, os estudiosos da natureza: eles lutaram contra o espírito de Newton e de Voltaite, e tentaram, como Goethe e Schopenhauer, restabelecer a idéia de uma natureza divinizada ou satanizada, com tudo o que isto significa comumente do ponto de vista ético e simbólico. A tendência maior dos alemães se opunha inteiramente ao Iluminismo e à revolução da sociedade que, por um erro grosseiro, passava como sendo a conseqüência daquele. A piedade por tudo o que ainda existia tentava se transformar em piedade por tudo o que tinha existido, simplesmente para que o coração e o espírito recobrassem mais uma vez a sua plenitude, e não mais abrissem qualquer espaço para os fins futuros e inovadores. O culto do sentimento foi erigido no lugar no culto da razão, e os músicos alemães, enquanto artistas do invisível, do onírico, do lendário, do nostálgico, realizaram a construção do novo templo com mais sucesso do que todos os artistas da palavra e do pensamento. Mesmo levando em consideração o fato de que muitas boas coisas fossem ditas, e descobertas no detalhe, e que mais de uma tenha sido julgada desde então com mais eqüidade do que nunca, não permanece menos verdadeiro, quando se considera o todo, que o risco geral não era negligenciável, sob a aparêcia de um conhecimento tal e definitivo do passado, de sujeitar o conhecimento em geral à dominação do sentimento, e - para falar como Kant, que definia assim a sua própria tarefa - "reabrir o caminho para a fé, mostrando para o conhecimento os seus limites". Respiremos novamente um ar livre: o tempo desse perigo passou! E coisa estranha: os espíritos que os alemães evocaram com tanta eloqüência se tornaram exatamente com o tempo os adversários mais perigosos dos desígnios daqueles que o evocaram - a história, a compreensão da origem e da evlução, a simpatia para com o passado, a paixão novamente desperta do sentimento e do conhecimento, depois de parecerem todas por algum tempo, emprestaram seu concurso compassivo ao espírito obscurantista, visionário e retrógrado, envolveram um dia uma natureza diferente, elas voam hoje com asas bem maiores, deixando longe, atrás e acima de si, os seus antigos evocadores, para se tornarem os gênios novos e mais fortes destas "luzes" contra as quais, justamente, se tinha feito a evocação. Estas luzes, devemos hoje fazê-las progredir - sem nos preocupar com o fato de ter havido uma "grande revolução", depois de uma "grande reação" contra esta, nem com o fato de que uma e outra ainda perdurem: elas são apenas um movimento de ondas em comparação com o fluxo verdadeiramente grande no qual "somos levados", e queremos sê-lo" (NIETZSCHE, Friedrich, Escritos sobre a História, Rio: PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2005, p. 209-211).

2. É muito "reconfortante", digamos assim: para a "vaidade intelectual", encontrar num só parágrafo toda uma longa série de postulados históricos com os quais tenho trabalhado há já consideravel tempo, particularmente depois de meu "encontro" com José Carlos Reis, na disciplina de Teoria da História. Esse período - séculos XVIII e XIX (conquanto suas verdadeiras raízes avançam tão fundo quanto a cultura greco-romana, o século das invasões árabes na Península Ibérica e o século XVI alemão, de que tudo o mais é desdobramento "criativo") - define a modernidade ocidental. É aí que tudo que conhecemos hoje como Ocidente está em gestão acelerada, em revolução, em reação - é isso tudo uma grande metáfora de batalhas civilizatórias, de mundos colimados, de políticas, de culturas... A Modernidade é uma invenção ocidental, situada entre uma estrutura pré-moderna planetária e uma reação pós-moderna ocidental. A Modernidade é a Geni da história ocidental contemporânea...

3. O "encontro" entre uma França iluminada e napoleônica, de um lado, com uma Alemanha mística e medieval, de outro, produziu o fenômeno mais extraordinário da cultura Ocidental, se considerarmos os últimos 200 anos: foi justamente aí que conceberam-se as Ciências Humanas, essas, sim, verdadeiras iconoclastas, incontroláveis: a Teologia pôde cooptar para si a "razão" - mas as Humanidades... a essas, só os falsos teólogos e humanistas, híbridos de fraude e desmedida.

4. Se o leitor quiser deliciar-se com uma história ambientada nesse período crítico, no olho do furacão da guerra napoleônica de invasão à Alemanha que, em reação, vai parir o Romantismo, divirta-se com Os Irmãos Grimm. É necessário inglês. As demais partes estão disponívesi no Youtube, e reproduzo aqui, apenas, a primeira.

5. Esse filme encena de modo magnífico, conquanto não seja nem de longe esse o seu objetivo, o enfrentamento histórico das luzes francesas contra a mística alemã. É também sobre isso que fala Nietzsche. Mas ele o diz de modo (para mim) curiosamente novo: a idéia que tenho carregado comigo é a de que o Romantismo foi uma reação programática de anulação dos efeitos políticos da razão napoleônica, que, da mesma forma como "Deus" era usado pelo imperialismo cristão, utilizava-se da "deusa" razão para justificar seu alegado direito, assim vicário, de libertar os povos... Para anular o direito retórico francês, os alemães, que não o podiam vencer nas armas, retiraram de seus depósitos a tese do desvario da razão, a tese do assombro humano como fundamento do "mundo" hermenêutico humano, o estado de solidão e perdição humanos em face do mundo e do Universo, a história, enfim, como cenário único da espécie humana.

6. Já Niezsche considera que tudo isso se resumiu a uma defesa da mística... Talvez tenha sido assim, de fato. Mas o que me interessa é que o próprio Nietzsche reconhece que, no final dessa "reação" romântica contra as luzes, o estado da "mística" (a rigor, da Teologia) resulta pior do que antes, porque, ao passo que a Teologia podia suster-se diante do Iluminismo - a rigor, não houve reação alguma de monta contra o Iluminismo -, o Romantismo, por sua vez, retira toda a base de argumentação metafísica, o homem, aí, torna-se pura contingência inexorável, de modo que, pressentindo, aí, sim, o perigo, as igrejas - todas - reagiram de modo violento: Vaticano I, Karl Barth e The Fundamentals. Sim, os gênios voam, agora, com asas mais fortes, maiores, do que antes.

7. Ainda que a intenção - primeira?, segunda? - de Kant tenha sido "abrir [manter] caminho para a fé", delineando os limites do conhecimento, no final das contas, o que a Crítica da Razão Pura consegue é anular as argumentaões racionais a respeito da metafísica, das doutrinas, da fé - tudo isso cai por terra de uma só vez. A Crítica da Razão Prática sustenta-se, abrindo caminho para a fé, somente onde a Crítica da Razão Pura não é levada a sério. De modo que não importa tanto para quem Kant prestava serviços - seus serviços, a médio prazo, tornaram a Alemanha cada vez menos "atual".

8. Não é revelador que a Teologia se faça, ai, como se fora ciência, quando não passa de mito e metafísica? Não há racionalidade na Teologia - ela, lamentavelmente, cnostitui-se um bolsão reacionário de racionalização: para o constatar, leiam-se quaisquer das obras magnas dos sistemáticos da moda. O que da Teologia tornou-se verdadeiramente ciência, a exegese, ainda sequer tornou-se fundamento das "ciências teológicas", todas, sem exceção, agarradas à Nicéia (cada uma a seu modo, naturalmente). O Ocidente vive dividido em dois mundos, ainda - o político-teológico, medieval e obscurantista, e o científico-humanista, perdido, ainda, por falta de verdadeira adesão civilizatória: as "máquinas" são científico-humanistas, mas seus operadores, medievais.

9. Perfeito o parágrafo de Nietzsche. Eu o poderia ter usado em Teologia no Divã, se o conhecesse à época... Mas não é tarde...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 17 de junho de 2009

(2009/362) Cômputo e cogito


1. Na ouviroevento, eu tenho um adágio: "se eu fosse você, parava de fazer tudo o que estava fazendo e lia O Método"... E é verdade. Não se trata de apenas uma expressão de efeito. Eu considero, com todos os riscos de o dizer, que, no campo do "conhecimento", qualquer coisa que esteja sEndo feita e que não leve em consideração O Método tende, ou ao anacronismo, ou ao obsoletismo.

2. Acabamos de estudar o volume 3, Conhecimento do Conhecimento, na turma de Epistemologia da Faculdade Batista do Rio de Janeiro. Com essa, é a terceira vez que leio O Método 3. Vou ler de novo... E-x-t-r-a-o-r-d-i-n-á-r-i-o.

3. Apenas uma breve comentário: a vida sustenta-se por meio de uma rotina básica - a computação viva, isto é, a capacidade/necessidade que o sujeito vivo tem de "computar-se" (tenho fome, tenho sede, preciso escretar, estou em perigo, está frio, estou ferido etc.) e de "computar" o meio ambiente (tem comida, tem predador, tem esconderijo, tem água etc.). A base da vida é a informação, logo, o cômputo - o regime de coleta de informações do meio ambiente à luz das necessidades intrínsecas do sujeito vivo. Assim, é por meio de sua perfeita adaptabilidade ao real enquanto real que a vida se sustenta.

4. Simples assim: na vida real, comida tem de ser comida. Se a computação viva erra e trata como comida veneno, morre. Se a computação viva erra e trata como presa o predador, nhac! Se a computação viva erra e trata como esconderijo a toca da raposa, nham!, nham!, nham!

5. A espécie humana é dotada de uma terceira capacidade de computação: a vida humana, o corpo humano, a máquina humana viva, computa a si mesma (fome, sede, frio, calor, medo etc.), computa o meio (comida, bebida, presa, predador, esconderijo etc.) e - diferentemente de todas as demais espécies (pelo que se sabe!), dada a extrema complexidade organizacional de sua massa cerebral - computa o próprio movimento/processo de computação. A consciência humana seria a retroação do cômputo vivo sobre si mesmo, a computação da computação - reflexividade da máquina viva sobre o processo de a máquina viva se computar... Consciência.

6. Ora, a cada passo na "evolução", isto é, desde as células mais básicas até os animais superiores, cada aumento de complexidade neuro-cerebral implica em maior capacidade de esquadrinhamento do real, de melhoria na performance de tratamento do real... Por que cargas d'água inventou-se de se tratar o conhecimento humano como alguma coisa vinda de outro mundo (Platão)? E, pior ainda - por que cargas d'água inventou-se, recentemente (epistemologia não-fundacional) que o conhecimento humano é um véu não-repousável sobre o real? Por que, em nome de que intenção, se pode dizer que a maior complexidade sináptica do planeta seria justamente aquela cuja operação epistemológica, em lugar de aperfeiçoar sua relação dialogal com o real, escapa dele, ou a ela lhe escapa o real?

7. Não faz o menor sentido...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 13 de junho de 2009

(2009/352) Nietzsche, morto duas vezes - e mais ainda


1. Daquela Minha maneira notoriamente hiperbólica e dramática de o dizer, di-lo-ei: ninguém conhece Nietzsche! Disse-o. Pronto. Agora, o leitor subtraia o coeficiente de retórica, o algoritmo de exagero e a alíquota do estilo e terá uma idéia do que quero dizer: fala-se muito de Nietzsche, mas de tudo quanto se diz dele, a maioria não tem nada dele, outro tanto, é pura disfunção - e um punhado, despeito.

2. Vendem-ne em esquinas. Citam-no à mão cheia. As notas de rodapé nem mais o cumprimentam, de tanto que o conhecem, de freqüentá-las tanto. É monografia, é dissertação, é tese. Ele é niilista, dizem uns, com o dedo levantado, Deus sabe para onde. Ele é a-histórico, verborrajam aqueles, citando aquela única expressão, pinçada, solta, descolada, extoplasmaticamente não-fundada. Ele é o pai do não-fundacionalismo, axiomatizam! Essa é a estocada de morte, o coup fatale... Pai do náo-fundacionalismo! Deus do céu - sou a Branca de Neve!...

3. Vou citá-lo: "249 - Suspiro do homem que procura o conhecimento - 'Maldita avidez! Nesta alma não há nenhum desinteresse; muito pelo contrário, um eu que deseja tudo e que quereria, através de mil indivíduos, ver com os seus olhos, agarrar como se o fizesse com as suas mãos... um eu que prende a totalidade do passado e não quer dar nada, seja o que for, que lhe possa pertencer! Maldita chama da avidez! Ah! Pudesse eu reencarnar em mil seres!'. / Quem não conhece por experiência este suspiro, ignora tudo da paixão do pesquisador do conhecimento" (Nietzsche, A Gaia Ciência, Aforismo 249).

4. Eu padeço, meus amigos, dessa avidez, dessa doença, desse mal, dessa desgraçada fome da alma pela cheiro da terra, pelo grão da vida, de carbono, de pó. Porque não está em mim o conhecimento, quero agarrá-lo. Porque não o posso agarrar, só, quero todos os olhos, todas as mãos. Porque o ontem me é preciosíssimo, quero-o, todo, completo - e ele não está aqui, em mim, está lá, nele mesmo, no que ele foi, e não será mais...

5. Quem faz de Nietzsche um desinteressado, um hermeneuta "blasé" (Jimmy-toupeira, em que buraco te enfiaste, homem?), um "esteta de vitrine", ah, faz-se em Nietzsche, busca nele a si mesmo, e o plasma, o molda, o forja, o frauda - à sua própria imagem.

6. Tua avidez, meu aigo, contaminou-me a alma... A alma? Não, não, a alma, não, ao menos não apenas a alma, mas o corpo todo, cuja chama mais ardente que a que o queima apenas é aquela - da língua de Bel...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 1 de maio de 2009

(2009/237) De uma nova atitude religiosa


1. Mas, talvez, nem tão nova assim. Todavia, é invariável - todas as vezes em que manifesto em classe minha opinião a respeito de a religião deixar-se passar pelo crivo da autoconsciência científico-humanista, sempre há que se reagir afirmando que, então, a religião acaba, que, então, a igreja fecha, que, então, os homens se tornarão, todos, irreligiosos. Ou seja: a religião só é religião enquanto o é tal e como é hoje - epistemologicamente alienada das condições de sua emergência desde a mente e o corpo humanos.

2. Para os menos inteirados da questão, uma resenha: a religião constitui um regime social de crenças, valores e práticas sob, sobre e por meio dos quais uma comunidade, historicamente situada, se organiza e vive. Consciente ou inconscientemente, tais sistemas sociais não faziam (nem fazem) distinções epistemológicas acerca da dimensão física e metafísica da realidade - pelo contrário: uma vez que surge na consciência social o conceito cosmogônico de "mundo dos deuses", a realidade passa a constituir-se tanto por esse nível quanto pelo nível trivial da corporeidade, sendo que este deixa-se, doravante, sobredeterminar-se por aquele. Nesses termos - fé e conhecimento tornam-se a mesma coisa - indistintamente.

3. A partir da emancipação da razão humana, o que, em última análise, foi possível a partir da Reforma, mas se conscubstanciou socialmente, a rigor, a partir das revoluções epistemológicas da Inglaterra e da Europa, séculos XVII e XVIII, materializando-se na forma de cultura emancipada, laica, a partir do século XIX, consolidando-se nas Repúblicas do século XX, fé e conhecimento foram distinguidos. O mundo cosmogônico foi rachado ao meio - a placa tectônica da ciência assumiu o conhecimento, a da religião, a fé. E a placa tectônica do conhecimento, das ciências, a despeito de todo esforço da religião, vai, ano após ano, sobrepondo-se ao território da fé, tornando-o cada vez menor, e, por isso, mais reacionário. Somente à força do tempo, uma vez que as gerações mais fundamentalistas vão retornando ao pó de onde tudo sai, é que a fé se vai deixando adaptar às novas condições "geopolíticas" da "criação".

4. Minha tese é a seguinte: a religião deveria compreender, definitivamente, que nada que ela sustente como fundamental tem a condição do conhecimento - é fé. Se a religião o admitisse, passaria a refletir sobre si mesma, sobre a condição do que é a fé, isto é, a doutrina explicativa, a cosmovisão religiosa, bem como o que significa a sua expressão, da fé e da religião, num mundo emancipado de conhecimento e ciência. A insistência de a religião agarrar-se aos modelos de "resposta" pré-modernos (e, agora, estrategicamente, pós-modernos!) é a sua absoluta vontade de manter-se tal qual se viu nascer, há milênios.

5. A religião, contudo, deveria admitir, de uma vez por todas, que ela não "sabe". Deveria admitir, de uma vez por todas, que as esperanças que ela diz engendrar, são meramente imaginativas, criativas, imaginárias. Que o conforto que eventualmente o regime mitológico em que ela opera produz não pode ser justificativa para a alienação da consciência religiosa, como se o preço para a não-dor fosse o não-saber. A não-consciência da traição não gera a dor da consciência de sabê-lo, mas não desfaz o fato de que se é vítima da traição...

6. Não se trata, por favor, de dizer que o conhecimento, que a ciência, passe a assumir as funções da religião, e que a religião desapareça. Trata-se de assumir que a religião tem de abrir mão de sua auto-compreensão mitológica, e assumir que os regimes de compreensão devem ser operados segundo a epistemologia do conhecimento. Ora, sabendo-se que os mitos, as crenças, os valores, os ritos, as práticas, são engendrados pela mente humana, operando social e historicamente, a auto-compreensão que a religião tem de si deve, hoje, obrigatoriamente, deixar-se animar por essa informação. Cada vez que a religião esquece, cada vez que a religião esconde, cada vez que a religião coíbe - ela mente, ela míngua, ela mata.

7. Se, por um lado, a religião não se tornará em ciência - a dimensão mitológica é uma condição da cosnciência humana, e há de se lidar, digamos, de modo "religioso" com ela -, por outro lado ela não poderá mais dizer de si aquilo que seja incompatível com o que ela sabe de si, e sabe de si por meio das rotinas humanístico e cognítivo-científicas. O mito permanecerá, mas sabendo-se mito, sabendo-se imaginação.

8. Segue-se, pois, que tenho consciência de que a religião, então, mudará. E os alunos: acabará, ninguém mais vai lá. Mesmo? Bem, essa reação apenas prova a consciência que os alunos têm de que a religião acredita que tem de mentir, primeiro para si mesma e, depois, para seus fiéis, para que ela e eles permaneçam "lá". Neurose, já o disse Freud. Ópio, já o disse Marx. Poder, já o disse Nietzsche. Não é à toa que todo regime de defesa da teologia-que-aí-está começa, primeiro, batendo nesses senhores de respeito - mesmo Hans Küng: se esses senhores não forem assassinados, a religião sempre estará desnudada. A função do teólogo, hoje, é a mesma do alfaiate do rei...

9. Por outro lado, o erro fundamental desses alunos, é meu juízo a respeito, é aquele erro clássico de julgar-se um paradigma novo por meio dos fundamentos do paradigma antigo. Como, no paradigma antigo, o conhecimento é puro mito normativo, uma vez que, no paradigma novo, a alma da religião permanece sendo o mito, mas, agora, não mais normativo, deduz-se, pois que, já que todos estavam ali não por conta do mito, mas por causa da norma, suprimida a condição normativa do mito, ninguém ali fique mais.

10. Também a religião deveria, contudo, pensar nesse "lá". Há espaço, sim, na mística moderna, numa eventual religião de recorte epistemológico moderno, para o mito - mas não mais para o mito "homogeinizante". Cada consciência, um mito, cada sujeito, uma "religião". O que se pode esperar, nessas condições, seria a comunhão horizontal, dada a igualdade da condição mítica da esperança humana universal, cada homem, uma esperança, e não mais uma comunhão de recorte supostamente vertical, como o querem, pelo menos, Cristianismo e Islamismo, cada qual crendo ser dever de ofício fazer de todos cópia da norma-padrão. Ms não há norma, conquanto haja mito...

11. Não me importa a manutenção dos sistemas fósseis da religião pré-moderna, como não me importam mais os sistemas políticos igualmente pré-modernos. Importame-me a lucidez, o esclarecimento, a emancipação da conciência moderna - e crítica - que sabe do que se trata quando ela balbucia "Deus, tende misericórdia de mim"...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 24 de abril de 2009

(2009/218) Nó górdio



1. Se não sabemos o que é o pensamento, a consciência, então não sabemos é nada. Se não sabemos como o cérebro faz, para, desde suas circunvoluções de carbono, deixar escapar - emergir - a consciência, o pensamento, a crítica, então sabemos é menos ainda. E, contudo, é por meio desse mesmo não-conhecido pensamento que devemos chegar o conhecer o conhecimento e o cérebro que o permite...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

(2008/17) Do pêndulo e da práxis


1. Equívoco pré-marxista - "interpretar o mundo".

2. Equívoco pós-marxista - "transformar o mundo".

3. Complexidade marxista - "Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert; es kommt aber darauf an, sie zu verändern" ("os filósofos apenas têm interpretado o mundo de forma diferente. Mas o que é importante é que ele seja mudado" - tradução minha; "os filósofos apenas interpretaram o mundo de forma diferente, o que importa é mudá-lo" - cf. Georges LABICA, As "Teses sobre Feuerbach" de Karl Marx. Trad. de Arnaldo Marques. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990, p. 29 e 35).

4. Marx, quanto aos pré-marxistas - "apenas" interpretam.

5. Marx, quanto aos pós-marxistas - querem "apenas" transformar.

6. A Tese 11 não estabelece uma opção pendular - mas uma articulação entre "ciência/filosofia" e "práxis".

7. Nesse sentido, não se deveria descolar o conhecimento da práxis - nem tampouco descolar a práxis do conhecimento.

8. Ora, ora, ora - a Teologia sequer conhecimento é. Imagine-se o Mito - e apenas o Mito, dissociado de toda e qualquer relação lúcida/lúdica com a realidade/o real - engajada na "transformação" do Mundo.

9. Ora, é o Mito que liga o conhecimento do mundo à práxis transformadora. Mas, se o Mito entrega-se à transformação do mundo, e negligencia o conhecimento do mundo, eis não o trágico - o que seria bom -, mas o alienante.

10. Que Mito e Metáfora dediquem-se ao seu papel - dobradiça entre o conhecimento do real e a transformação do real, ao mesmo tempo em que a gosma hermenêutica que recobre os dois. Saber e Fazer são míticos - mas, cada um, a seu tempo e modo.

11. Lucidez não é um estado. É um processo. Alguma coisa entre o "não apenas" e o "o que realmente importa".


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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