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quarta-feira, 23 de março de 2011

(2011/192) A vida é matéria


1. "A vida - depende da physis, nasce e renasce na physis, da physis. A matéria viva é matéria física" (Edgar Morin, O Método 2 - a vida da vida, p. 285). A vidá é matéria...

2. O segundo capítulo da jornada darwiniana ainda não terminou. Mal terminamos de - muitos sequer começaram a - assimilar a evolução biológica, proposta por Darwin e já nos vemos obrigados a pensar ainda mais longe - a evolução física humana. Tanto quanto o homem é biológico, da mesma forma deve-se conceber o homem como físico - em todos os sentidos, para todos os fins.

3. E mais - a vida é matéria, é física! Quantas implicações! Uma delas, a mais difícil, talvez, de conceber - talvez mais difícil ainda do que o fato de que a Terra gire - e, no entanto, estamos "parados"! - em torno do Sol - e no entanto é ele quem passa sobre nossas cabeças todos os dias! Trata-se da implicação-mor, por assim dizer: o pensamento é material.

4. Até ontem, e desde há milênios, tínhamos o pensamento como não-material, um estrangeiro no planeta. Platão nos ensinou a ver, aí, a alma - e tão bem recebida ela foi que Descartes a manteve em seu Método - o "eu", a "alma" e "Deus".

5. Mesmo depois de Darwin, para muitos, para a grande maioria, é como se a alma houvesse convivido com os hominídeos desde sempre - ou terá a alma "descido" somente sobre os Homo sapiens? Seja como for, não sabemos quando a alma encarna, se encarna, o que ela faz. Nisso, Descartes estava errado, pois cogitava de a alma pensar, e, agora, estamos aptos a conceber o pensamento como fenômeno do conectoma humano - o sistema neuronal, elétrico, químico, neuronal, hormonal, bio-físico, cerebral, psicológico, humano. Se faz, a alma faz outra coisa. Pensar, pensa-o o homem. Quem sabe ela aperte o botão?

6. Meus queridos, quantas implicações de o pensamento advir do coração da matéria! Mas ainda convivemos com o princípio disjuntivo, dualista, separador, dicotômico, que trata o homem como "pensamento" e trata o mundo como "matéria" e estabelece aí e assim um fosso intransponível - com todos os argumentos clássicos da disjunção dualista.

7. Vai demorar. Mas temos paciência. O homem espera a milênios por esse dia. Há de esperar mais algumas décadas. Mas virá. Eventualmente...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. para um livro sobre a vida como emergência física auto-organizada, cf. o livro de um dos autores a quem Morin se diz, nesse campo, devedor - Francisco Varela, El Fenómeno de la Vida. Ainda dele, em co-autoria com outro biólogo a quem Morin se diz devedor - Francisco Varela e Humberto Maturana, De Máquinas y de Seres Vivos - autopoiesis: la organizacíon de lo vivo. Naturalmente que as referências prestam à discussão da origem física da vida - no que diz respeito às implicações disso, parece-me que Maturana considera que nada muda em relação a como cogitávamos das coisas, antes de "sabermos" que a vida é matéria - é ela lá (se é que está lá), e nós cá - mas "cá" onde?

terça-feira, 29 de junho de 2010

(2010/427) Matéria e pensamento


1. O problema do pensamento é que ele não é material, não é físico. O pensamento é a emergência dos processos da computação viva cerebral sobre si mesma. Logo, ele não é uma "coisa", como as outras, uma coisa física. Enquadra-se mais no conceito de recursividade. Não constitui, com os outros seres de matéria, um ser de matéria - trata-se propriamente de um ser de organização, como os turbilhões, que não são nem a resistência ao fluxo de energia nem o próprio fluxo de energia, mas um sistema que emerge do encontro exato entre fluxo e resistência, não sendo nem um nem outro. Assim, o pensamento não é o cérebro - mas um sistema que emerge dos sistemas em que se constitui o cérebro.

2. Essa condição fez do pensamento alguma coisa tida como essencialmente diferente do corpo. Daí, dessa diferença, para o conceito de alma, fantasma, espectro, foi um pulo. Muito provavelmente - minha aposta - uma herança oriental, esse conceito formalizou-se em Platão, e ganhou o Ocidente. A noção de "alma", e uma alma essencialmente diferente do corpo, distante dele, inclusive na origem, tornou-se tão forte que se chegou a traduzir a expressão hebraica "garganta viva" para "alma vivente". Pronto: o Ocidente platonizou-se.

3. No século XIX, ao menos Nietzsche insurgiu-se contra a idéia. Apostaria que não vem dele a intuição, mas das ciências biológicas - as pesquisas em torno da Teoria da Evolução, por exemplo, comuns e famosas na época. Mas Nietzsche afirmou que a consciência era a última etapa da evolução orgânica. Dois mil e quinhentos anos depois de Platão, o platonismo é, aí, sepultado. Daí, para as Ciências Cognitivas, mais modernas, era/foi um "pulo" natural.

4. Pois bem. O mundo físico é a casa e a origem do pensamento. Salta-se do mundo físico para o mundo vivo e, daí, para o pensamento e a consciência. Ainda não se tratou suficientemente disso. Ainda se discute a distância entre a consciência e o real, como se ambos fossem de dimensões e essências diferentes - de mundos diferentes. O mito platônico ainda ocupa nossas consciências, quando o assunto é a "consciência". Mito por mito, vale mais remontar ao aristotélico, e considerar a metáfora mitológica do logos divino que está impregnado em tudo e todos - princípio de inteligibilidade do real... Ora, é o próprio real que está em tudo e em todos: inclusive em nosso pensamento, não apenas como "morada", mas como fundamento.

5. Deve-se abandonar, sim, a idéia ingênua de um modo divino de o pensamento humano apoderar-se do "real". Se há modos divinos, reservam-se aos deuses. Aos homens, o pensamento. Todavia, o pensamento é a atualmente última etapa do cômputo vivo, da capacidade de o ser vivo mapear eficiente, efetiva e eficazmente o ecossistema no qual vive e está inserido. Não há diferença substancial entre a capacidade da amaba mapear seu meio, para daí nutrir-se, e a capacidade humana de observar nebulosas planetárias. Em última análise, trata-se de níveis diferentes de sofisticação da mesma capacidade - "dialogar" com o mundo físico.

6. Logo, penso que as discussões em torno da "verdade" como metáfora estão deslocadas, bem como são anacrônicas. Deslocadas, porque se trata de pensar no novo com os olhos velhos - se não há verdade divina, só pode haver falsas verdades, logo, verdades metafóricas... Anacrônicas, porque o século XIX já deu lugar ao XX e, agora, adentramos o XXI. Deixemos que os velhos homens permaneçam na arapuca de pensar o novo com os códigos antigos. Trabalho perdido, mas pode-se viver bem disso, inclusive. Aos novos homens, pensar o novo com categorias novas. No fundo, as que estiveram sempre aí... o tempo todo!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 30 de abril de 2010

(2010/352) Gasparzinho na veia


1. Paulo teve um ataque apoplético. Os camaradas de Corinto cismavam que o corpo era desnecessário, que, após a morte, a alma, fantasmática, voejaria faceira para os Campos Elísios, enquanto o corpo, fétido, apodreceria sob a terra, ou, que diferença faria?, seria comido pelos abutres. Judeu, Paulo foi tomado da apoplexia que acomete os ortodoxos, quando ouvem heresias - e vociferou apologéticas garantias de que, não senhores, o corpo era condição sine qua non para a sanidade e a validade da fé! Sem o corpo, sem a ressurreição, tudo era vão - a cruz, a salvação, o perdão, porque, sem o corpo, não haveria amanhã...

2. Mas não aprendemos muita coisa. Paulo podia ficar pelado, plantar bananeira e dar com a babeça no chão que, ainda assim, não o ouviríamos. Já havíamos posto Gasparzinho até em Gênesis! À fórmula semita - nefesh hayah - já havíamos agregado o sentido platônico-fantasático de "alma vivente", conquanto o sentido deva ser "garganta viva", como a garganta da corça do Sl 42, garganta a gritar de sede... Enquanto o sentido semita do mito seja um corpo vivo, um ser-vivo, um corpo que respira, a gente cristã já o lê pela cartilha de Platão: o corpo é uma casca podre com um fantasma dentro - a alma...

3. Corinto já estava estragada para a fé semita, já estava por demais familiar das concepções anímico-dualistas. Homens e mulheres são cascas inúteis, com um espectro transparente morando dentre dele. O fantasma que habita o corpo é a verdadeira pessoa. O corpo, não. O corpo é supérfluo. Só parece ser necessário, aqui e agora, porque a alma caiu vítima da vida, da encarnação. Mas, no dia em que ela se libertar, no dia em que a vida acabar, aleluia!, Garparzinho vai voar para o céu.

4. O ataque apoplético do apóstolo revela que são inúteis as cenas de desespero ortodoxo - o Cristianismo nunca mais seria semita, e a idéia de Gasparzinho encontraria sua definitiva vitória na cabeça teológica de cada cristão, que, doravante, lutará contra o corpo, cuidando que o seu verdadeiro ser seja um trasgo celeste...

5. Esse enredo re-encena-se diante de nossos olhos. O conhecimento, metaforicamente falando, é semita. O conhecimento humano é cria direta do conhecimento celular, biológico, animal. O conhecimento é a capacidade de a vida, de o ser-vivo, computar o meio, computar a si, sustentar-se, em vida, no ecossistema que o recebe. Conhecimento é a capacidade de a vida instalar-se, sobreviver, evoluir. Isso significa que conhecimento é o diálogo crítico entre o ser vivo e o meio, entre a vida e o real. Conhecimento não é imaginação, não é sonho, não é delírio, não é fantasia, não é arte...

6. Todavia, o mesmo Platão das almas fantasmáticas cuidou informar ao Ocidente que o conhecimento é um atributo do fantasma que habita os corpos humanos. Gasparzinho sabe. Saber é atributo de Gasparzinho. Mais do que isso: nada há que de fato contribua, na terra, para o saber. Gasparzinho está a mercê da memória providencial, da graça divina, ou há de permanecer um idiota, porque nada que seja não-material é veículo de conhecimento. O corpo é estorvo. A matéria, obstáculo. Só a alma fantasmática pode aprender - e do que seja imaterial, ideal, essencial, fantasmático...

7. Ah, que coisa! Os últimos séculos, pós-protestantes, foram a pouco e pouco, descuidando da alma, e aumentando a concentração de atenção no corpo. A isso chamou-se, tabém, de Empirismo. Logo, o Ocidente descobriu a matéria, a ciência, a pesquisa, a heurística. Decidiu-se distinguir entre mito e história, entre verdadede e erro, entre conhecimento e ilusão. Decidiu-se que haveria de se dialogar com... o real. O Ocidente cristão foi se tornando, pouco a pouco, semita. A ciência é semita. Não considera a hipótese de uma alma: é o corpo, vivo, quem pensa, quem conhece. E conhecimento, aí, é justamente o diálogo com o real, de onde o corpo extrai a sua vida, a sua manutenção viva. Conhecimento é função crítica da exitência biológica.

8. No entanto, milênios de platonismo e cristianismo provocam reações. A hermenêutica e a epistemologia não-fundacionais são como que "birras" reacionárias. E agora, diante delas, diante daqueles que dissolvem o conhecimento e o fazem semelhante ao gosto, à opinião, ao mero "consenso", a atributos do Gasparzinho moderno - a linguagem - eu me comporto como Paulo, flagrado em ataque apoplético. Não se trata da defesa da mesma coisa, mas do mesmo tipo de defesa. Acredito que o corpo, e não a alma, sejam agentes do conhecimento, e admito que a matéria, o real, seja, ao mesmo tempo ecossitema e objeto de conhecimento. Conhecimento, para mim, não é gosto, nem opinião, é diálogo critico com o real.

9. Mas há quem pense que não. Há quem pense que o conhecimento é um equívoco cognitivo, uma neurose, um engano da mente, e que, no fundo, o conhecimento humano é como a arte, como se a relação do sujeito com o objeto de arte fosse a mesma coisa que a relação do sujeito com esse mesmo objeto sob problematização heurística. Se o neoplatonismo epistemológico não pode assumir a alma, pode, por outro lado, dissolver o real ou, ao menos, construir a retórica da impossibilidade da relação real, concreta, viva, da vida com o real e material, convertendo a impressão humana dessa realação em mera idiossincrasia.

10. Não sei se haverá remédio para essa crise não-fundacional, não-material. Os não-fundacionais creram tanto, um dia, em Platão que, agora que descobriram que a metafísica era um mito, deixaram de crer não no sistema epistemológico platônico que gerava o conhecimento tido por divino, mas no próprio conhecimento. No fundo, para eles, ou o conhecimento é divino, ou não há conhecimento. Como descobriram que o homem é, afinal, mortal, logo, não-divino, e que seu conhecimento seria unicamente humano, logo, não divino, concluíram qe, então, o conhecimento humano, não sendo divino, não é verdadeiro conhecimento, é quimera... Exemplo crasso de como se pode sair de um paradigma pela metade... Ela já dura, pelo menos, no Ocidente, há 2.500 anos. No fundo, trata-se de decidir-se entre a vida concreta, biológica, telúrica, terrestre, e uma existência imaterial, noológica, fantasmátca, nao-situada, não ecossistêmica. Trata-se da supressão do conhecimento, da transformação do conhecimento em mera brincadeira de deslumbrados. Platão também suprimiu o conhecimento, substituindo-o pela inculcação da Norma política do governante da Cidade Bela. A supressão do conhecimento é, afinal, um gesto político - e só resta descobrir se é um gesto político de defesa, ou de conquista.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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