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terça-feira, 29 de junho de 2010

(2010/427) Matéria e pensamento


1. O problema do pensamento é que ele não é material, não é físico. O pensamento é a emergência dos processos da computação viva cerebral sobre si mesma. Logo, ele não é uma "coisa", como as outras, uma coisa física. Enquadra-se mais no conceito de recursividade. Não constitui, com os outros seres de matéria, um ser de matéria - trata-se propriamente de um ser de organização, como os turbilhões, que não são nem a resistência ao fluxo de energia nem o próprio fluxo de energia, mas um sistema que emerge do encontro exato entre fluxo e resistência, não sendo nem um nem outro. Assim, o pensamento não é o cérebro - mas um sistema que emerge dos sistemas em que se constitui o cérebro.

2. Essa condição fez do pensamento alguma coisa tida como essencialmente diferente do corpo. Daí, dessa diferença, para o conceito de alma, fantasma, espectro, foi um pulo. Muito provavelmente - minha aposta - uma herança oriental, esse conceito formalizou-se em Platão, e ganhou o Ocidente. A noção de "alma", e uma alma essencialmente diferente do corpo, distante dele, inclusive na origem, tornou-se tão forte que se chegou a traduzir a expressão hebraica "garganta viva" para "alma vivente". Pronto: o Ocidente platonizou-se.

3. No século XIX, ao menos Nietzsche insurgiu-se contra a idéia. Apostaria que não vem dele a intuição, mas das ciências biológicas - as pesquisas em torno da Teoria da Evolução, por exemplo, comuns e famosas na época. Mas Nietzsche afirmou que a consciência era a última etapa da evolução orgânica. Dois mil e quinhentos anos depois de Platão, o platonismo é, aí, sepultado. Daí, para as Ciências Cognitivas, mais modernas, era/foi um "pulo" natural.

4. Pois bem. O mundo físico é a casa e a origem do pensamento. Salta-se do mundo físico para o mundo vivo e, daí, para o pensamento e a consciência. Ainda não se tratou suficientemente disso. Ainda se discute a distância entre a consciência e o real, como se ambos fossem de dimensões e essências diferentes - de mundos diferentes. O mito platônico ainda ocupa nossas consciências, quando o assunto é a "consciência". Mito por mito, vale mais remontar ao aristotélico, e considerar a metáfora mitológica do logos divino que está impregnado em tudo e todos - princípio de inteligibilidade do real... Ora, é o próprio real que está em tudo e em todos: inclusive em nosso pensamento, não apenas como "morada", mas como fundamento.

5. Deve-se abandonar, sim, a idéia ingênua de um modo divino de o pensamento humano apoderar-se do "real". Se há modos divinos, reservam-se aos deuses. Aos homens, o pensamento. Todavia, o pensamento é a atualmente última etapa do cômputo vivo, da capacidade de o ser vivo mapear eficiente, efetiva e eficazmente o ecossistema no qual vive e está inserido. Não há diferença substancial entre a capacidade da amaba mapear seu meio, para daí nutrir-se, e a capacidade humana de observar nebulosas planetárias. Em última análise, trata-se de níveis diferentes de sofisticação da mesma capacidade - "dialogar" com o mundo físico.

6. Logo, penso que as discussões em torno da "verdade" como metáfora estão deslocadas, bem como são anacrônicas. Deslocadas, porque se trata de pensar no novo com os olhos velhos - se não há verdade divina, só pode haver falsas verdades, logo, verdades metafóricas... Anacrônicas, porque o século XIX já deu lugar ao XX e, agora, adentramos o XXI. Deixemos que os velhos homens permaneçam na arapuca de pensar o novo com os códigos antigos. Trabalho perdido, mas pode-se viver bem disso, inclusive. Aos novos homens, pensar o novo com categorias novas. No fundo, as que estiveram sempre aí... o tempo todo!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 15 de novembro de 2009

(2009/603) Encarar a Teologia de frente


1. Ela é velha, muito, muito velha, a Teologia. Nasceu junto com o primeiro homem que inventou de ver coisas além/aquém/através das cosias, coisas invisíveis e vivas atrás das coisas visíveis, coisas que ele interpretou como gente viva, de outro mundo, logo, almas, logo, deuses... A certidão de nascimento da Teologia tem o bolor das coisas antigas.

2. É nobre o seu nascimento. Conquanto Freud tenha muita razão, quando diz que a religião é uma neurose humana - e o é -, ainda assim é nobre essa neurose, porque atende a demandas muito profundas da espécie humana. Não é por outra razão que foram precisos quantos?, cem?, duzentos?, milênios para que o homem pudesse olhar de frente seus mitos de infância... Os que podem fazê-lo...

3. Mas a Teologia, não. Ela não quer admitir que é, ainda, imaginação fértil da fertilíssima imaginação humana, primeiro assombro estético do medo e do assombro, e, depois, astucíssima política do Poder... Esquecida de que é mito, esquecida de que é imaginação, às voltas, contudo, com Poder, onde quer que a Teologia esteja, cega-se, cega-lhe o Poder. De modo que ela não quer, de modo algum, encarar-se de frente. Eu, mito? Não, eu sou é a Verdade...

4. Mas acabaram seus dias. Talvez voltem - é verdade. Talvez os homens e as mulheres que estão a nascer arranquem os olhos, vazem os ouvidos, tornem-se conscientemente cegos e surdos, e voltem para o Barroco. Talvez. Talvez não. Talvez os homens e as mulheres que estão nascendo desejem encarar de frente essa Senhora, e, olhando-a nos olhos, arrostar-lhe a condição mítica. Quem há de saber?

5. Confissão é um nome político para mito. Se eu digo que sou confessional, vá lá, há ai uma certa dose de condescendência com o tempo. Mas como eu posso me dizer adepto de mitos? Logo eu, a bater de porta em porta, a invadir o mundo... Não... mito, não. É Verdade.

6. Mas não, é não. E passou da hora de o admitirmos. Não se sente o cheiro?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 23 de maio de 2009

(2009/287) Uma questão de perspectiva


1. "A razão exige dos que são verdadeiramente piedosos e filósofos que, desprezando as opiniões dos antigos, se estas são más, estimem e amem apenas a verdade". Para você, caro/cara leitor(a), essas são palavras de:

a) Immanuel Kant, referindo-se às novas condições epistemológicas estabelecidas pela situação iluminista-empírica-romântica, isto é, crítico-transcendental, do ser humano, na virada do século XVIII para o XIX.

b) Edgar Morin, falando sobre a condição da verdade na era do Pensamento Complexo, que tenta a conciliação entre a filosofia e as cências, por meo de uma re-organizaão transdisciplinar do conhecimento humano.

c) Karl-Otto Apel, tratando da necessidade de articulação fecunda entre a hermenêutica do primeiro Heidegger e a semiótica de Peirce, o que significa dizer conciliar o empiriso crítico com o perspectivismo cultural.

d) Friedrich W. Nietzsche, que preconizava um retorno do pensanmento às suas condições telúricas/orgânicas de produção: mente, cultura, história, perspectiva.

e) Justino de Roma, considerado primeiro mártir do Cristianismo, falando da fé cristã ao Imperador Tito Élio Adriano Antonino Pio César Ausguto, em Apologia I.

2. "Estimem e amem apenas a verdade" (1). Mas, ai de nós, e se a verdade é como chamamos um sistema ideológico fechado, um sistema de idéias-verdades-reveladas organizadas em torno de uma epistemologia platônica e uma política sacerdotal, cujo argumento é a revelação e cuja chave hermenêutica é a alegoria monopolista a fé? Danou-se! Só a força há de conter o chá na xícara, porque qualquer um que olhar para o líquido fervente, há de percebê-lo envenenado (é por isso que nem a melhor moral do Novo Testamento, sozinha, consegue curar o mundo, porque a máxima de fazer ao outro o que se gostaria fosse feito consigo mesmo é justamente o que aí se faz - enfiar na cabeça do outro o de que se gosta até o êxtase... O Islã faz o mesmo, agora - e talvez mande no mundo em 2050).

3. Você deve fazer assim para que essa declaração caiba, certinha, na boca de quem a proferiu: estabelecer-se numa posição axiomática/axiológica como aquela que Müeller sugere para a "Teologia" - "desde fora". Lá de fora, então, você, ao lado de Deus, vê segundo a verdade - o que bem sabe Barth, herdeiro da fórmula citada. Desde aí, então, você alegoriza toda a tradição judaica, põe aí uns paramentos sobre o corpo, à moda dos sacerdotes, e sai a dizer a todos que Deus está contigo. Pronto. Meia dúzia de crédulos, e a coisa está feita...

4. Para romper essa casca, esse ovo do diabo, só alterando o modo como nos aproximamos do conceito de verdade - para Justino, pai da fórmula da perplexidade, a verdade é uma proposição revelada e de posse da Igreja - desde que a Igreja seja ele, Justino, naturalmente. Depois de Paulo, toda Teologia não-conforme é anátema, já sabemos, ele o havioa aprendido, enquanto espancava cristãos, e, agora, há de usar a seu favor...

5. A alteração necessária faz-se assim: a verdade, em lugar de ser conteúdo, é método. É tão-somente uma visada em direção ao real, sob certas condições negociadas. Substitui-se o conteúdo verdadeiro pelo processo "verdadeiro", isto é, pelo processo negociado pela comunidade de interesse pela questão da verdade. Um fundamentalismo de método, sim, mas um fundamentalismo aberto, quero dizer, uma discussão em torno dos processos epistemológicos necessários e possíveis para se obter a melhor visada possível do real. Isso - e apenas isso - é crítica. A isso - e apenas a isso - se pode, decentemente, chamar crítica.

6. É o que faz serem a mesma coisa tanto o fundamentalismo teológico-alegórico de Justino e o relativismo não-fundacional da contemporânea pós-modernidade: são defesas de conteúdos. Para a sustentação de seus conteúdos, a-críticos, o primeiro mata o que lhe aparecer à frente - eis a que se resume a História da Telogia -, e, o segundo, dá de ombros em face de quaisquer conteúdos, porque tudo é verdade (e se o negar, mente sobre ser não-fundacional). Nos dois casos, a verdade é a fé - e nega-se a quem quer que seja o diretio de criticar/analisar o conteúdo dessa fé.

7. Soa constrangedoramente despropositada, na boca de Justino, a classificação do amontoado de doutrinas como "verdade". Mas é comrpeensível que assim fosse, já que a verdade, aí, é puro platonismo solipsista. Igualmente o é a verdade pós-metafísica, para quem a água pode ter cinco ou dezoito átomos de hidrogênio... ou bismuto, tanto faz...

8. A racionalização é uma desgraça. O seu antídoto, a crítica incessante dos fundamentos e das retóricas, é nossa única esperança. Mas o que fazer quando os melhores dentre os envolvidos sequer se percebem em perigo?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Justino DE ROMA, Apologia I, em: Justino DE ROMA, I e II Apologias e Diálogo com Trifão. 2 ed. São Paulo: Paulus, 1995, p. 2.

quarta-feira, 25 de março de 2009

(2009/107) Exegese, Popper e Djavan


1. Por isso gosto do modo como Karl Popper entende o critério da cientificidade de uma declaração. Talvez eu esteja esticando demais o âmbito de aplicação de seu postulado crítico, mas, a rigor, aceito, sem restrições, que a tese de que a verificação crítica dos enunciados, a possibilidade de demonstração em caso de ser inverídica, falsa ou equivocada, constitui um bom critério para as ciências (quanto ao tema da falseabilidade como critério para a crítica de postulados científicos, cf. Karl Popper, Conjecturas e Refutações, bem como [com menos ênfase, já que tenho críticas a fazer ao livro (há um sintoma de "ciumite" teológico-filosófica das ciências em suas páginas...)], Rubem Alves, Filosofia da Ciência - introdução ao jogo e suas regras).

2. Explico-me. Um aluno cantarolava Djavan pelo corredor do térreo da Faculdade Batista do Rio de Janeiro - FABAT, e eu, de pé, no saguão, como de praxe, não me furtei a uma brincadeira. Ele, então, me faz saber que acabara de descobrir, e, por isso, emocionado, cantarolava-a, que a composição Flor de Liz, de Djavan, referir-se-ia a um trágico sinistro: a morte de sua esposa no parto da filha. O aluno estava muito encantado com a descoberta, mas, a despeito disso, meu cérebro pôs-se a trabalhar e, enquanto mantinha a conversa com o rapaz, de memória, comparava a letra à interpretação. Nada, absolutamente, na letra, no seu todo, permitia aquela interpretação. Só podia estar errada.

3. Despedi-me e corri à sala dos professores. O Oráculo - Google, esse deus onipresente (salvo nos casos de pane!, e já houve algumas) -, quando você sabe fazer as perguntas, sabe dar as mais adequadas respostas. Imediatmamente descobri, no site do próprio Djavan, tratar-se de uma "lenda urbana", circulando pela Internet (cf. em http://www.djavan.com.br/main.php, janela AGENDA, data de 11 de setembro, sem indicativo do ano [2008?]). Sabia!

4. Por que me fora extremamente fácil "antecipar" o juízo de que a interpretação era falsa? Ora, porque ela tem, em si, a principal característica das interpretações superficiais, capengas, sem base nem fundamento: baseia-se não sobre a totalidade do poema, mas sobre uma ou outra palavra, pinçada ideologicamente, e, desde aí, inflacionada sob o regime das polissemias. Assim interpretam-se os livros bíblicos, por exemplo - não é por conta das expressões "Egito" e "meu filho" que Mateus pode servir-se de Os 11,1, para fundamentar aí uma interpretação (sua?, da comunidade?, da tradição?) quanto ao retorno de José e Maria do Egito como evento profético? Sim, mas isso a despeito do conteúdo geral do texto, que é de acusação e condenação desse "filho". Basta um olho, ainda que meio cego, para logo se perceber que Mateus não "lê" Os 11,1, apenas "usa" a polissemia do texto para fazê-lo dizer o que ele, Mateus, quer que ele, o texto, diga.

5. Um pouco de treinamento e a gente "pega" facilmente os erros graves e escandalosos, e, logo, também os sutis, das interpretações correntes - o problema é tornar-se por isso imprestável aos sermões, quaisquer que sejam, porque, como já o disse Nietzsche, o bom teólogo é (necessariamente?) um mau filólogo. Não se trata de magia, de dom, de carisma - trata-se de adestrar a mente a trabalhar com o conjunto do texto, com cada palavra e com todas, ao mesmo tempo, exigindo que o sentido do texto seja sustentado, ao mesmo tempo, tanto pela unidade semântica de cada palavra, quanto pelo conjunto sintático da geografia narrativa. Não é nem difícil. Difícil é perder a mania de escolher, como quem cata feijões, palavras-chave de um texto para, daí, inventar uma interpretação até literariamente criativa, vá lá, mas, sob nenhuma circunstância, "exegética", histórica, e, nesse sentido, "verdadeira" (quer dizer, "plausível").

6. O que isso tem a ver com Popper? Bem, é que a conseqüência do enfoque popperiano para a "verdade" científica (sem dúvida quanto às Ciências Humanas, mas Popper generaliza a sua aplicação) é que a rotina é eficiente apenas sob o regime iconoclasta - se o ídolo é de barro, é fácil destruir e demonstrar que era falso: como fiz com a interpetação de Flor de Liz (basta, como disse Nietzsche, cavar, porque a fonte está embaixo). Todavia, você nunca poderia demonstrar inequivocamente que uma interpretação estaria absolutamente correta, porque, ainda que ela pudesse ser sustentada pelo recurso a cada uma das palavras, individualmente, tanto quanto pelo conjunto de todas elas, sintaticamente articuladas, ainda assim tratar-se-ia de uma hipótese. Sim, ainda que num nível de plausibilidade ótimo, apenas uma hipótese, já que a proposição científica é, em última análise, demonstrável apenas sob seu aspecto negativo - o da eventual falseabilidade da proposição, em sendo, então, falsa.

7. Essa característica do enfoque popperiano, aplicado às Ciências Humanas, torna a "verdade" uma grandeza sempre a um passo de nós, conquanto não permita, em nenhuma circunstância, um relativismo pós-moderno e fantasmático, porque aquilo que destoa da "verdade", ah, é fácil bater-lhe com três pancadas de marreta, e isso vira pó... É como a caspa: você passa a mão no ombro, e ela se vai... Mas esteja atento: sempre caem mais dessas malditas...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 20 de março de 2009

(2009/094) Verdade e poder


1. Haroldo disse: "verdade é questão de poder" (Haroldo Reimer, (2009/091) Interpretação e Verdade, § 7). Entendo sua afirmação. Em seu contexto, ela estabelece um juízo sobre a "história" que ele narra, para ilustrar o modo com a "verdade" é construída, retoricamente. A despeito de eu apostar minhas fichas na afirmação de que a história é falsa e montada, ela ilustra bem o que Haroldo quer dizer com a afirmação. No entanto, o parágrafo seguinte põe as coisas em seu devido lugar: "Somente a pesquisa indiciária consequente é capaz de evidenciar as falácias das verdades 'estabelecidas'" (Haroldo Reimer, loc. cit., § 8).

2. Mas, não - a verdade não é uma questão política, não. É verdade, sim, que a política, em todas as suas expressões históricas, acaba por apropriar-se dos mecanismos retóricos da construção do que ela, a política, pretende seja assumido como "verdade". Mas, a despeito de ser eventualmente bem sucedida, a retórica política produz tão somente uma fraude, possivelmente desmascarada pelo que Haroldo mesmo chama de pesquisa indiciária - veja o caso famoso da Doação de Constantivo, ou, em outro campo, o exemplo da leitura "cristológica" da Bíblia Hebraica, insustentável fora da operação alegórico-teológica da Tradição, o que o demonstra cabalmente, sem sofismas, a boa exegese histórico-crítica (histórico-social).

3. A verdade é, antes, uma questão de correlação heurística entre objetos. A relação sujeito/sujeito (estética) não gravita em torno da noção de verdade. A relação sujeito/outro (política) não gravita em torno da noção de verdade. É a relação sujeito/mundo - objeto/objeto (heurística) - que estabelece o princípio da verdade - o princípio da adequação. Não vem ao caso se a verdade, nesse caso, constitui-se, também, de um quadro conceitual-representacional antropológico. O que vem ao caso é que o âmbito pragmático da verdade é a heurística, não a estética, muito menos a política.

4. Logo, é apenas em sentido fenomenológico - denúncia! - que se pode dizer que a verdade é uma questão de poder. E a própria denúncia, constituindo uma correlação entre objetos, é, em si, verdadeira: o poder subverte a verdade, instrumentaliza-a, degrada-a. Nas condições éticas presumíveis do descortinamento da verdade, e verdade verdadeira, verdade heurística, ela, a verdade, não tem relação com o poder - ao menos não o poder político. É a pesquisa, a capacidade investigativa, o manejo das teorias e dos métodos o plano no qual a verdade opera.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 19 de março de 2009

(2009/091) Interpretação e Verdade


1. Neste semestre toca-me novamente dar uma disciplina de Tópicos de Hermenêutica. É uma atividade que gosto de fazer. Há tanta coisa interessante para refletir sobre a típica 'atividade de Hermes'. A pergunta pela verdade, portanto, uma questão heurística está sempre presente.

2. Recebi hoje um daqueles emails que chegam todos os dias. Voce abre, dá uma olha e, em geral, deleta. Deste peguei só a primeira parte, porque a segunda era crítica superficial a Lula. A historinha do email é a seguinte:

3. Judy Wallman é uma pesquisadora na área de genealogia nos Estados Unidos. Durante pesquisa da árvore genealógica de sua família deu de cara com uma informação interessante. Um tio-bisavô, Remus Reid, era ladrão de cavalos e assaltante de trens. No verso da única foto existente de Remus (em que ele aparece ao pé de uma forca) está escrito: "Remus Reid, ladrão de cavalos, mandado para a Prisão Territorial de Montana em 1885, escapou em 1887, assaltou o trem Montana Flyer por seis vezes. Foi preso novamente, desta vez pelos agentes da Pinkerton, condenado e enforcado em 1889".

4. Acontece que o ladrão Remus Reid é ancestral comum de Judy e do senador pelo estado de Nevada, Harry Reid. Então Judy enviou um email ao senador solicitando informações sobre o parente comum. Mas não mencionou que havia descoberto que o sujeito era um bandido.

5. A atenta assessoria do Senador respondeu desta forma: "Remus Reid foi um famoso cowboy no Território de Montana. Seu império de negócios cresceu a ponto de incluir a aquisição de valiosos ativos eqüestres, além de um íntimo relacionamento com a Ferrovia de Montana. A partir de 1883 dedicou vários anos de sua vida a serviço do governo, atividade que interrompeu para reiniciar seu relacionamento com a Ferrovia. Em 1887 foi o principal protagonista em uma importante investigação conduzida pela famosa Agência de Detetives Pinkerton. Em 1889, Remus faleceu durante uma importante cerimônia cívica realizada em sua homenagem, quando a plataforma sobre a qual ele estava cedeu."

6. Diante disso, ocorreu-me prontamente a definição de Nietzsche sobre a verdade no fragmento "Acerca da Verdade e da Mentira" , no volume junto com O Anticristo (São Paulo: Rideel, 2005, p.13):
"O que é então a verdade? Um exército móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que, foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso, parecem a um povo fixas, canônicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal".

7. Verdade é questão de poder.

8. Somente a pesquisa indiciária consequente é capaz de evidenciar as falácias das verdades 'estabelecidas'.


HAROLDO REIMER

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

(2008/60) Da crítica e da face


1. Rubem Alves explicou com uma metáfora muito simples - a do labirinto. É como se o pesquisador/cientista (escolha o termo de sua preferência) estivesse sempre em um labirinto. Claro, do qual ele nunca pode sair. Nessa situação, andar pelos longos corredores, escuros, eventualmente úmidos, eis a caminhada da pesquisa/ciência: incerta, provisória, histórica, inexorável. Há, aí, apenas uma certeza - aquela equivalente a dar-se de cara com o muro/a parede. Dentro de um labirinto, quando se dá cara com uma parede, acaba-se de descobrir que se estava no caminho errado - era uma galeria sem saída aquela em que se entrara. Dê meia volta, e recomece a caminhada...

2. Eu não sei como as coisas da epistemologia e da pesquisa/ciência funcionam na cabeça das pessoas. Na minha é assim: se eu aprendo/apreendo um conceito, ele imediatamente passa a circular em meu sangue, a correr em minhas veias. Ora, essa metáfora do labirinto ilustra o fato de que a ciência - o nome como hoje o "conhecimento" sói ser conhecido - vive uma condição insuperável de indemonstrabilidade de fundo. Aqui e ali algumas "demonstrações" podem ser ostentadas - e são mesmo "certas" (cf., entretanto, o teorema de Gödel). No fundo, contudo, naquilo que diz respeito a uma visada geral sobre a vida, aí as coisas ficam muito, muito difíceis. Particularmente no campo das Ciências Humanas, aí então é que as condições de verificação da "verdade" (ou seja, dos "discursos sobre o real) assume complicações enormes.

3. Ora, essa metáfora ensina que, de concreto, só podemos ter certa garantia sobre o "erro". Os acertos são eventualmente indemonstráveis - em sentido rigoroso. Demonstrar o erro de uma afirmação é relativamnte fácil - demonstrar que uma afirmação (que sobreviva à crítica) esteja efetivamente correta já é uma questão epistemológica delicada.

4. Suponhamos que eu faça uma declaração de caráter exegético. Se alguém demonstrar que há um equívoco, digamos, de tradução, a declaração, imediatamente, cai - perde completamente seu valor. Por exemplo, a Teoria da Revolução Campesina, de Gottwald (cf. Tribos de Yahweh) - a despeito de sua "beleza", e malgrado nos ter, a nós latino-americanos, "encantado" por quase três décadas, à luz do resultado das pesquisas arqueológicas de Israel Finkelstein está errada - nem as montanhas de Israel/Judá foram povoadas, num surto, por volta dos séculos XIII/XII (eram-no desde o século XX), nem a cal e o ferro foram introduzidos na Palestina por ocasião do "tempo do êxodo" - estavam já lá desde o século XVIII. Ponto. Isso encerra a questão. O resto é juris esperniandi - salvo, naturalmente, que se demonstre que a pesquisa de Finkelstein está errada.

5. Uma declaração, contudo, que não pode ser - ainda - demonstrada como errada: qual o status dela? Certa? Não - plausível. Uma declaração no campo das Ciências Humanas tem o caráter de plausibilidade, enquanto está "de pé". Se dez pessoas concordam com ela, ela é plausível. Se mil, nada muda. Se um milhão, nem uma gota a mais de "certeza". Se todos os habitantes do planeta concordarem com uma afirmação dessas, nem por isso ela é mais certa do que se apenas uma lhe fiasse crédito. Basta, contudo, que uma pessoa, só uma, mostre e demonstre o "erro" dela, e as demais seis bilhões de almas, das duas uma, ou aceitam o óbvio, ou amargam um fundamentalismo cego.

6. Com esse comentário, gostaria de ilustrar, eventualmente justificar, meu "jeito". Por que sou tão crítico com os artigos que leio - mesmo dos amigos? Por que não há nenhum benefício em passar a mão por cima, nenhum. Precisamos ter em mente o objetivo final da pesquisa, que é aperfeiçoar nossa maneira de ver o mundo e a vida. Apoiar o que um amigo diz, só porque é amigo, não é sério. Falar mal do que um não-amigo diz, só porque é um não-amigo, não é sério. Tento - honestamente - criticar tudo que me vem à mão, seja de amigos, seja de não-amigos. E, quando alguma coisa que me vem à mão, sobrevive à minha hiper-crítica, considero-a um bom rumo para a caminhada.

7. Há pouca coisa que me tenha passado à mão e sobrevivido até a última gota: Edgar Morin é uma jóia raríssima. Imediatamente abaixo, colocaria Karl-Otto Apel e Carlo Ginzburg. A partir daí, Marcel Detienne vai se tornando um "campanheiro". Mircea Eliade - sem comentários. A lista, claro, não se esgota aí, mas esses são especiais. Muito especiais. Uma fotografia de minhas hemoglobinas revelaria parte da alma deles... que eu digeri, antropofagicamente...

8. Gostaria de deixar claro para meus amigos e eventuais não-amigos que não os critico - critico seus textos. Para quê? Para garantir que eu tenha em mãos algo a que dar crédito - porque, e isso faz toda a diferença: quando alguma coisa que me vem às mãos faz sentido, não duvide, imediatamente ela entra em minha circulação. É seriedade demais, risco demais, para deixar passar alguma coisa que não absolutamente à prova de crítica... Ora, se as próprias Escrituras não estão imunes à minha espada...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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