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sábado, 30 de outubro de 2010

(2010/543) Poesia de ourives e sob medida para o anel mágico de Djavan


1. Que letra! Simples na construção das frases, inusitada na construção das metáforas, das comparações, uma beleza! Djavan é um momento especial na música brasileira, e Faltando um Pedaço, um momento especial desse momento especial, um como-que-Quintana num oceano de criatividade.



Faltando um pedaço
Djavan

O amor é um grande laço, um passo pr'uma armadilha
Um lobo correndo em círculos pra alimentar a matilha
Comparo sua chegada com a fuga de uma ilha:
Tanto engorda quanto mata feito desgosto de filha

O amor é como um raio galopando em desafio Abre fendas cobre vales, revolta as águas dos rios Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho Na pureza de um limão ou na solidão do espinho O amor e a agonia cerraram fogo no espaço Brigando horas a fio, o cio vence o cansaço E o coração de que ama fica faltando um pedaço Que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços.





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 27 de março de 2010

(2010/261) Djavan


O amor é um grande laço, um passo pr'uma armadilha Um lobo correndo em círculos pra alimentar a matilha Comparo sua chegada com a fuga de uma ilha: Tanto engorda quanto mata feito desgosto de filha O amor é como um raio galopando em desafio Abre fendas cobre vales, revolta as águas dos rios Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho Na pureza de um limão ou na solidão do espinho O amor e a agonia cerraram fogo no espaço Brigando horas a fio, o cio vence o cansaço E o coração de quem ama fica faltando um pedaço Que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 25 de março de 2009

(2009/107) Exegese, Popper e Djavan


1. Por isso gosto do modo como Karl Popper entende o critério da cientificidade de uma declaração. Talvez eu esteja esticando demais o âmbito de aplicação de seu postulado crítico, mas, a rigor, aceito, sem restrições, que a tese de que a verificação crítica dos enunciados, a possibilidade de demonstração em caso de ser inverídica, falsa ou equivocada, constitui um bom critério para as ciências (quanto ao tema da falseabilidade como critério para a crítica de postulados científicos, cf. Karl Popper, Conjecturas e Refutações, bem como [com menos ênfase, já que tenho críticas a fazer ao livro (há um sintoma de "ciumite" teológico-filosófica das ciências em suas páginas...)], Rubem Alves, Filosofia da Ciência - introdução ao jogo e suas regras).

2. Explico-me. Um aluno cantarolava Djavan pelo corredor do térreo da Faculdade Batista do Rio de Janeiro - FABAT, e eu, de pé, no saguão, como de praxe, não me furtei a uma brincadeira. Ele, então, me faz saber que acabara de descobrir, e, por isso, emocionado, cantarolava-a, que a composição Flor de Liz, de Djavan, referir-se-ia a um trágico sinistro: a morte de sua esposa no parto da filha. O aluno estava muito encantado com a descoberta, mas, a despeito disso, meu cérebro pôs-se a trabalhar e, enquanto mantinha a conversa com o rapaz, de memória, comparava a letra à interpretação. Nada, absolutamente, na letra, no seu todo, permitia aquela interpretação. Só podia estar errada.

3. Despedi-me e corri à sala dos professores. O Oráculo - Google, esse deus onipresente (salvo nos casos de pane!, e já houve algumas) -, quando você sabe fazer as perguntas, sabe dar as mais adequadas respostas. Imediatmamente descobri, no site do próprio Djavan, tratar-se de uma "lenda urbana", circulando pela Internet (cf. em http://www.djavan.com.br/main.php, janela AGENDA, data de 11 de setembro, sem indicativo do ano [2008?]). Sabia!

4. Por que me fora extremamente fácil "antecipar" o juízo de que a interpretação era falsa? Ora, porque ela tem, em si, a principal característica das interpretações superficiais, capengas, sem base nem fundamento: baseia-se não sobre a totalidade do poema, mas sobre uma ou outra palavra, pinçada ideologicamente, e, desde aí, inflacionada sob o regime das polissemias. Assim interpretam-se os livros bíblicos, por exemplo - não é por conta das expressões "Egito" e "meu filho" que Mateus pode servir-se de Os 11,1, para fundamentar aí uma interpretação (sua?, da comunidade?, da tradição?) quanto ao retorno de José e Maria do Egito como evento profético? Sim, mas isso a despeito do conteúdo geral do texto, que é de acusação e condenação desse "filho". Basta um olho, ainda que meio cego, para logo se perceber que Mateus não "lê" Os 11,1, apenas "usa" a polissemia do texto para fazê-lo dizer o que ele, Mateus, quer que ele, o texto, diga.

5. Um pouco de treinamento e a gente "pega" facilmente os erros graves e escandalosos, e, logo, também os sutis, das interpretações correntes - o problema é tornar-se por isso imprestável aos sermões, quaisquer que sejam, porque, como já o disse Nietzsche, o bom teólogo é (necessariamente?) um mau filólogo. Não se trata de magia, de dom, de carisma - trata-se de adestrar a mente a trabalhar com o conjunto do texto, com cada palavra e com todas, ao mesmo tempo, exigindo que o sentido do texto seja sustentado, ao mesmo tempo, tanto pela unidade semântica de cada palavra, quanto pelo conjunto sintático da geografia narrativa. Não é nem difícil. Difícil é perder a mania de escolher, como quem cata feijões, palavras-chave de um texto para, daí, inventar uma interpretação até literariamente criativa, vá lá, mas, sob nenhuma circunstância, "exegética", histórica, e, nesse sentido, "verdadeira" (quer dizer, "plausível").

6. O que isso tem a ver com Popper? Bem, é que a conseqüência do enfoque popperiano para a "verdade" científica (sem dúvida quanto às Ciências Humanas, mas Popper generaliza a sua aplicação) é que a rotina é eficiente apenas sob o regime iconoclasta - se o ídolo é de barro, é fácil destruir e demonstrar que era falso: como fiz com a interpetação de Flor de Liz (basta, como disse Nietzsche, cavar, porque a fonte está embaixo). Todavia, você nunca poderia demonstrar inequivocamente que uma interpretação estaria absolutamente correta, porque, ainda que ela pudesse ser sustentada pelo recurso a cada uma das palavras, individualmente, tanto quanto pelo conjunto de todas elas, sintaticamente articuladas, ainda assim tratar-se-ia de uma hipótese. Sim, ainda que num nível de plausibilidade ótimo, apenas uma hipótese, já que a proposição científica é, em última análise, demonstrável apenas sob seu aspecto negativo - o da eventual falseabilidade da proposição, em sendo, então, falsa.

7. Essa característica do enfoque popperiano, aplicado às Ciências Humanas, torna a "verdade" uma grandeza sempre a um passo de nós, conquanto não permita, em nenhuma circunstância, um relativismo pós-moderno e fantasmático, porque aquilo que destoa da "verdade", ah, é fácil bater-lhe com três pancadas de marreta, e isso vira pó... É como a caspa: você passa a mão no ombro, e ela se vai... Mas esteja atento: sempre caem mais dessas malditas...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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