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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

(2010/586) Gn 1,1 como oração subordinada adverbial temporal reduzida


1. Ensinar hebraico aos alunos da graduação em Teologia não é tão difícil - o que resulta difícil é fazer com que saibam do que estamos falando, quando, por exemplo, dizemos que determinada extensão do texto hebraico corresponde a uma oração subordinada adverbial temporal reduzida. Não é tanto a forma gráfica tão diferente do hebraico quanto o seu relativamente pobre domínio da Língua Portuguesa o responsável pelo baixo rendimento dos alunos na disciplina - sempre com as exceções. Nada há mais importante no hebraico - claro, é força de expressão - do que o domínio do (próprio) vernáculo.

2. Sendo assim, dizer que Gn 1,1 constitui uma oração subordinada adverbial temporal reduzida produz um inferno conceitual na cabeça dos alunos, e é preciso, então, retornar à Gramática. Um exemplo de oração subordinada adverbial temporal (não reduzida): "Quando você se separou de mim / Quase que a minha vida teve fim", a clássica letra da música de Roberto Carlos. A poesia começa com uma oração subordinada adverbial, porque toda a primeira oração, que é a suboerdinada, circunstancia a segunda oração, e depende dela. Essa oração subordinada não se sustenta sozinha. Quando você a pronuncia, a própria leitura se encarrega, se corretamente feita, de informar que falta alguma coisa, falta essa que a oração principal se incumbirá de suprir. E é, ainda, temporal, porque a circunstancialidade de que a oração subordinada reveste a oração principal tem a ver com o tempo, com o momento em que o que aí está declarado se estasbeleceu. Ou seja, o poeta quase morreu, isto é, no momento, quando a sua suposta amada se separou dele.

3. As reduzidas são formas de construção daquela mesma circunstancialidade, mas sem o recurso direto à conjunção adverbial correspondente, usando-se, alternativamente, para isso, o particípio, o gerúndio e o infinitivo verbais. Por exemplo, poderia reescreveu a estrofe do Roberto, reduzindo-a a infinitivo, por exemplo: "em você se separar de mim, quase que a minha vida teve um fim". Em lugar da conjunção adverbial temporal "quando", criei uma locução temporal reduzida de infinitivo, utilizando0-me do verbo, naturalmente, no infinitivo. O resultado é o mesmo que antes, mas a forma de o obter é diferente.

4. Bem se vê que, até tudo isso ser explicado delicadamente aos alunos, os créditos acabaram, e é a hora do recreio... Duro o trabalho de professor de hebraico - pior ainda o nosso, meros exegetas, para quem o hebraico constitui uma língua instrumental. Mas, muito bem, dirijamo-nos para Gn 1.1. Almeida reconsagrou a já consagrada fórmula de Gn 1,1, tratando-a como uma oração absoluta, independente - uma oração "coordenada assindética", diríamos, provavelmente: "No princípio, Deus criou os céus e a terra", ponto. Assim pronunciada, porque assim traduzida, a Bíblia abre-se com uma declaração de caráter - Deus, criador da criação, criação, criatura de Deus!

5. Para o efeito "Almeida", basta que se traduza mais ou menos literalmente o texto hebraico conforme recebido pela tradição. Tomado na sua vocalização grafada, o verbo bará constitui, de fato, um "perfeito" - digamos, nosso pertérito perfeito, vá lá. Se é assim, a tradução não se pode condenar. Nesse caso, a Bíblia abrir-se-ia mesmo com a declaração triunfal do provedor cósmico: Deus criou o mundo...

6. No entanto... Pelo menos três "dados" põem-nos a pensar. Primeiro, o segundo texto da criação, Gn 2,4b-3,24, que segue o primeiro, G 1,1-2,4a, começa com uma oração subordinada adverbial temporal reduzida de inifitivo: "No dia de fazer Yahweh Elohim terra e céus...". Segundo, a clássica "cosmogonia" babilônica, o Enuma 'elish, começa com uma oração subordinada adverbial temporal: "Quando no alto...". Terceiro, uma longa série de cosmogonias do Antigo Oriente Próximo - mesopotâmicas (sumerianas e caldaicas), ugaríticas e egípcias - começam com oração subordinada adverbial temporal. E a questão que se impõe, então, é se Gn 1,1 seria uma exceção. Poderia ser...

7. Não é, todavia, o que pensava Rashi, "erudito" judeu do século XI, que considerava que os massoretas, que inseriram as vogais no texto consonantal hebraico, fixando, assim, sua vocalização definitiva, erraram, quando vocalizaram a raiz br' de Gn 1,1 como "perfeito" (bará). Para Rashi, a sua vocalização adequada é "infinitivo" (berô). Se Rashi estiver correto, e para mim, está, resulta inapropriada a tradução clássica de Almeida, e o correto seria, então, literalmente, essa tradução: "No princípio do criar de 'Elohim os céus e a terra...", fazendo de Gn 1,1 não mais a oração independente da tradição, mas uma oração subordinada adverbial temporal reduzida de infinitivo, porque construída com o infinitivo - berô - de br'.

8. Nesse caso, a declaração de criação, mesmo, só se encontra em Gn 1,3: "e disse 'Elohim, seja a luz, e a luz foi", que, no contexto, não acontece no momento em que o verso é escrito, porque o escritor circunstancializa essa criação lá, naquele momento, no início, quando 'Elohim criou os céus e a terra. Mas a implicação mais importante é que Gn 1,2 transforma-se, assim, numa cláusula parentética, um "parêntesis", cujo objetivo é descrever o estado da terra, no princípio do criar 'Elohim os cés e a terra, isto é, quando "Deus" começou a criar os céus e a terra, a terra estava um deserto e uma desolação. Na prática, é como se centro da questão fosse justamente esse: meus irmãos, a terra estava uma desolação terrível, um deserto angustiante, quando Deus começou a criação - mas, então, Deus disse, seja a luz, e eis que a terra se tornou, de novo, a nossa terra... Ah, meus amigos, e desde aí e diante cabe uma longa série de observações que, ao fim e ao cabo, desconstroem não apenas a imagem que temos desse texto, mas, ainda mais contundentemente, seu significado.

9. Não é aqui o espaço para tentar os detalhes. O leitor provocado pode, se interessado, ler minha tese de doutorado, que trata rigorosamente disso. Como "moral" dessa história, eu diria que Deus está nos detalhes, conquanto o diabo, também. Mas o mais alvissareio dessa história é que a tradição pousa sobre uma base "objetiva", um texto, e o exercício de crítica desse texto reverbera significativamente num exercício inexorável de crítica da tradição - não por outra razão se disse que o método histórico-crítico é nocivo à Igreja, declaração, obviamente, de um legítimo representante do poder reacionário que sustenta a manutenção fossilizante da tradição - sempre nos limites de seus interesses. Não importa por onde você comece, se pela tradição, se pela base redacional em que ela se sustenta - a crítica, mais cedo ou mais tarde, desenterra o passado, e revela as entranhas dos processos de legitimação retórica de um longo jogo de poder. E, meu caros leitores, vocês não fazem idéia de como eu adoro isso... Do interor de meu "gabinete", fazer e ver ruirem os milênios de pedra com os quais se me pretendem enredar...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 24 de outubro de 2010

(2010/530) Ler como a aranha


1. Não falo da "literatura" - falo da leitura que toma o texto como discurso e comunicação, como fala situada, intencional, engajada. Falo, pois, de exegese, e, de mais a mais, de textos feitos para isso (poesia, enquanto arte, enquanto estética, desde a gênese, não se presta à exegese, conquanto textos performativos, políticos, pois, ainda que em "estilo" poético, sim: são, antes, como nuvens, a cujo gosto dos olhos se pode aplicar a imagem do que quer que se queira, incontestavelmente - a fala, não!).

2. Digo, pois, que ler é pôr-se no centro da teia em que o discurso se estabeleceu, teia essa que "representa", em sentido diltheyano de "objetivação", o mundo à volta do que fala - e, por isso, escreve. Para escrever, o sujeito, a sua mente, carregada de sua intencionalidade genética, postou-se no centro do seu mundo, e construiu, ao redor de si, a teia de relações, de referências, de apontamentos, de juízos, de controles. Cada personagem, palavra, idéia, ação, do discurso, é controlado desde o centro, as pernas da aranha-escritor controlando-os por meio dos fios da teia narrativa.

3. Não há pluralidade de fato numa narrativa - há um discurso, uma única fala, articulada por meio da manipulação aracnídea e ventríloqua, operada deasde o centro de gravidade da trama.

4. O leitor há de se pôr ali, no centro, no lugar da aranha, e há de reproduzir a teia, e há de perceber como cada elemento da cena é comandada desde esse centro inexorável - exegeticamente falando.

5. Sim, a teia só é controlada absolutametne desde o seu centro na dimensão da recuperação de seu evento histórico, de sua discursividade engajada e situada, nos termos metodológico de a pôr tal qual lá e então. A aproximação estética - ou política - dessa teia, dessa narrativa, isto é, uma leitura com base na própria teia do leitor, desconstrói a trama, e, com ela, seu centro. Perdido o centro, perde-se a teia, e, com ela, tudo. Ganha-se em plasticidade (estética, política), perde-se em historicidade (heurística).

6. O que e estou dizendo não é diferente do que Schleiermacher dizia. Só é mais - tem, além de Schleiermacher, Dilthey. Para mim, a leitura histórico-social, se não passa por aí, não é leitura histórico-social, por mais que lhe carregue o nome, e, se o é, conquanto goste das cores da bandeira de Gadamer, não tem nada de gadameriano, em que pese o constrangimnto de ultrapassar um grande ícone...








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 14 de maio de 2010

(2010/379) De certo uso do termo semiótica e saída pela direita


1. Não vou aqui arriscar um status quaestionis. Talvez outra hora. Quero apenas fazer referência ao fato de que Umberto Eco saiu-se com a opção pela "intenção do texto". Em seu livro Interpretação e Superinterpretação, decidiu fugir de um dentre dois constrangimentos. E fez, a meu ver, papel ainda mais constrangedor.

2. Eco não queria assumir e não assumiu uma cada vez mais criticada em dias cada vez mais pós-modernos "intentio auctoris" - isto é, não queria estabelecer como "objetivo" da interpretação o alcance da "psicologia intencional" do autor de um texto. De fato, é problemática essa opção, conquanto eu a adote conscientemente. Saltar do pergaminho à psiquê...

3. Eco não queria, ainda, adotar a absolutamente e assumidamente relativística "intentio lectoris" - isto é, assumir que não importa o que o escritor tenha escrito, o leitor entende o que ele, leitor, quiser e pode. De fato, perde-se totalmente a "objetividade crítica", quando se opta pela subjetividade incontrolável do leitor, e, de mais a mais, ninguém há de querer ter escrito xis e ser acusado de ter escrito ypsilon, de modo que igualmente resulta constrangedor afirmar-se, publicamente, que sou eu, leitor, que decido o que vou ou não vou entender do texto, não importa nem quem o tenha escrito nem quando.

4. Como se de fato existisse uma terceira via, Eco postula e defende uma alegada "intentio operis", isto é, ler não a partir do autor nem do leitor - mas do próprio texto. Alega-se que o texto, em si, contém uma "estrutura" significativa... Resta demonstrá-lo. O problema é que estamos em dias em que se pode dizer coisas... sem demonstrá-las. De fato, Interpretação e Superinterpretação não demonstra coisa alguma quanto a essa "decisão".

5. Corro o risco de simplificar demais a questão - mas assumo o risco: tem-se usado o termo "semiótica" para contornar, a meu ver sem nenhuma satisfação pública, a questão fundamental da "sede", do topos, do sentido hermenêutico. Ora, "sentido" é função APENAS da consciência humana, da mente humana. Não há "sentido" nas coisas, em nenhuma delas. Um texto é uma coisa - e nada mais do que uma coisa, se você o descola das pessoas, as únicas, que o podem sustentar: o escritor ou o leitor.

6. O que se tem chamado de leitura do texto em si, chamdo, então, de "semiótica", fugindo, assim, à satisfação de demonstrar em que pé as coisas se dão, se se ouve, de fato, o autor, ou, na verdade, se se projeta a própria voz na carne morta do texto, é, na verdade, projeção de sentido - o que Croatto chamava de eisegese. E aqui há uma questão importante, um parêntesis, ao menos.

7. Intentio lectoris é eisegese assumida. Intentio auctoris tem na eisegese um risco. Intentio lectoris é, assumidamente, produção de sentido - é isso que ela quer fazer e faz. Intentio auctoris corre o risco de ser produção de sentido, mas o que ela quer fazer e deve fazer - faz? - é recuperar sentido: o sentido humano projetado pela consciência humana no texto humano. Intentio lectoris é arte (quando "personalíssima") ou política (quando "pública"). Intentio auctoris - se existe isso - é heurística.

8. Nesse sentido, o que é o que se tem chamado de semiótica, como tentativa de contornar essas duas incoveniências metodológicas? A meu ver - intentio lectoris, sem assumir que é intentio lectoris. A coisa se me apresenta como o mesmo flagrante de Umberto Eco desviando a questão, e propondo uma saída ao estilo do Leão da Montanha - pela direita: ah, eis aqui a salvação da lavoura, a politicamente correta intenção do texto... ou, a "semiótica".

9. Sei lá, posso estar delirando, errado, incomodado. Se for o caso, saberão me demonstrar o equívoco. Ou não, porque está na moda dizer e pronto. Demonstração, satisfação do próprio discurso é alguma coisa cada vez mais comemoradamente anacrônica... É que é muito constrangedor assumir intentio auctoris ou intentio lectoris. Aí, vamos de semiótica mesmo... Não?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 23 de abril de 2010

(2010/339) Da leitura popular da Bíblia


1. Não é que eu tenha "problemas" com a "leitura popular da Bíblia". Também não é que vá ser eu a praticá-la. Ela lá, eu cá, e estamos bem entendidos. A questão é uma apenas, isto é, a que eu quero levantar: Gramsci é quem sabe de "leitura popular da Bíblia". Não conheço um bom "animador" que não seja "muito bem" formado e diplomado - exegeticamente, até. E, no entanto, chama-se "leitura popular da Bíblia". O doutorado é alemão, mas a leitura é "popular"...

2. O quê? Se eu prefiro a catequese de direita? Mas claro que não. Mas, cá entre nós, no formato, na estrutura - ainda que não no "partido" político que se toma - não há diferença, não. Um animador de primeira linha "treina" a "leitura popular da Bíblia", escreve em manuais, faz "círculos", e os "animadores" de segundo nível "repetem" o processo. Não é lá isso muito diferente da Escola Bíblia Dominical e suas classes de professores... É que uma é de direita, e a outra, de esquerda. No mais, mesmo processo. Ele é conteudístico, e as mais das vezes, "crítico" da crítica de conteúdos...

3. Deixem-me, então, dizer porque escrevo esse "desabafo": é que os adeptos da "leitura popular da Bíblia", em lugar de se dedicarem a seu ministério missionário, ciosos da estrutura epistemológica em que operam, insistem em destratar uma exegese técnica e acadêmica - é como se a existência de quem insiste numa exegese indiciária e não-política denunciasse o artifício retórico que embasa os projetos engajados de libertação. No mais, há um resíduo mais ou menos carismático de sindrome profética e quase-sacerdotal pairando sobre a auto-compreensão engajada. Todavia, quando eu digo que não consigo mais conviver com profetas e sacerdotes, não é retórica. Daí, uma indisposição somática a tudo que me soa paternalista e messiânico.

4. Que cada misionário pregue o que cuidar ser seu dever. Mas seria bom não esquecer as orignens, não é não? Ah, e mais do que as origens, até de onde extraiu-se a "capacidade" para abrir as Escrituras...

5. Não era preciso nem ter vergonha nem despeito da exegese acadêmica, histórico-crítica, histórico-social. Bastava um pouquinho só de auto-crítica. Porque um bom intelectual orgânico há de ter, ao menos, um pouco de compresnsão histórica...

6. Não seria conveniente fazer ao povo saber que o caminho é o estudo crítico, a pesquisa histórica, a crítica dos fundamentos? Mais do que fazerem como a gente diz é fazerem como a gente mesmo fez, mais do que ensiná-los sobre Yahweh e Jesus, é ensiná-los a estudar sobre Yahweh e Jesus, com o risco, até, de eles desmontarem nosso Yahweh e nosso Jesus, quantas vezes não passam de ídolos programáticos... Enquanto esse dia não chega, pelo menos vamos chamar pelo nome apropriado as coisas que fazemos, e eu não estou nem um pouco convencido de que a "leitura popular da Bíblia" seja mesmo leitura popular da Bíblia. Tem um quê de Gramsci aí - com todas as implicações, as boas... e as ruins.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 21 de abril de 2010

(2010/327) Zabatiero e o Hermenêutica Bíblica, de Croatto


1. Meu amigo Zabatiero considera que seja urgente a necessidade de re-edição do Hermenêutica Bíblica, do Croatto. Respeito sua percepção do fato. Eu somente diria que, se o fizerem, o três comentários a Isaías, de Croatto, vão ficar severamente envergonhados... Sem falar no seu "manual" de Fenomenologia... Das duas uma: ou o Hermenêutica Bíblica não tem pé nem cabeça, ou Isaías e As Linguagens da Experiência Religiosa são fraudes conceituais - e editoriais... Em todo caso... Prefiro achar que Hermenêutica foi um livrinho de missão, como costuma dizer Schwantes, nesse caso, a cumprir missionariamente um serviço de sustentação do, de outro modo, insustentável. Prefiro - e acho que tem mais base - o Croatto pós-90. O de 84 não se segura em pé, não. Até o Croatto pós-90 lhe dá rasteira...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 14 de março de 2010

(2010/220) Um livro de... Biologia?, História?


1. Vida Maravilosa, de Stephen Jay Gould... Se, quando eu morrer, puder levar comigo 10 livros, esse será um deles. É tanto um ivro de Biologia, de Paleontologia, quanto um livro de História: "este livro tenta abordar (...) a natureza da própria história" (p. 11). Os fósseis "moles" de Busgess Shale "fizeram com que nossa visão tradicional a respeito do caráter progressivo e previsível da história da vida tivesse de se confrontar com o desafio da questão história da contingência - o 'cortejo' da evolução é visto como uma sucessão extremamente improvável de acontecimentos, bastante razoáveis, é verdade, mas completamente impossíveis de prever e praticamente irreproduzíveis" (p. 12), já que "o romance da vida é a história de remoções maciças seguidas de diferenciações das poucas populações sobreviventes, e não a fábula convencional de uma caminhada segura em direção a uma excelência, complexidade e diversidade cada vez maiores" (p. 21). Ah, a História... Arisca e iconoclasta História. Beija-te, a tua filha, a Exegese... Nesses dois países fantásticos repousa meu coração.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 1 de março de 2010

(2010/174) De Paulo e dos bereanos


1. É conhecido de todo "bom" cristão o elogio que Paulo faz aos bereanos, porque, nos termos de Paulo, não lhe creram imediatamente, mas foram, antes, conferir nas Escrituras se as coisas eram mesmo assim tal qual Paulo as apresentava.

2. Fico me perguntando, por exemplo, agora, enquanto descanso do almoço, sobre qual teria sido a reação de Paulo se, depois de terem consultado as Escrituras, os bereanos chegassem a conclusão de que Paulo estava completamente errado.

3. O exercício da especulação - do "e se" - não é recomendável, porque nossas bases são, geralmente, muito frágeis. Mas, se a atitude de Paulo diante dos gálatas, afirmando que quem pregasse outro evangelho seria "anátema" (ou seja "maldito" - é mais do que isso, mais baste essa imprecisão), puder servir de parâmetro para auxiliar-me em minha dúvida, parece que, se os bereanos não tivessem concordado com a "hermenêutica" e a "homilética" paulinas, dificilmente receberiam elogios do apóstolo...

4. Mas deixo o benefício da dúvida - Paulo elogiou o método (conferir, você mesmo, o sentido das Escrituras) ou o resultado (convencer-se de que a interpretação das Escrituras é, mesmo, aquela da autoridade religiosa)? Ou seja - nesse episódio, foi pedagogo ou catequista?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

(2010/124) Considerações hermenêuticas sobre cavernas e crânios de ursos


1. Seja lida a oração: "como esses depósitos (de crânios e ossos largos de ursos em carvenas dos Alpes, datados do período interglaciário) pareciam intencionais, os cientistas se dedicaram a desvendar-lhes o significado" (Mircea Eliade, História das Crenças e das Idéias Religiosas, Zahar, 2010, p. 26). Quero chamar a sua atenção para a relação entre os termos "intencionais" e "significado" - os cientistas decidiram desvendar o significado dos depósitos de crânios e ossos largos de ursos em cavernas dos Alpes, datadas do último período interglaciário, porque tais depósitos pareciam intencionais.

2. No início do século XX, inúmeros achados de crânios de ursos, acomodados em nichos naturais de cavernas alpinas, tudo indica, intencionalmente, acompanhados de ossos largos posicionados na direção leste-oeste, suscitaram a pergunta pelo significado de tais depósitos. Ora, nada mais natural, porque, se os ossos estivessem simplesmente espalhados, dando a impressão de tratar-se de restos de mortes naturais ou acidentais de ursos, deixados ali, ao sabor da sorte e do tempo, ninguém precisaria incomodar-se em perguntar pelo "sigificado" da posição desses ossos, porque não haveria significado algum. Só há significado na intencionalidade.

3. Claro que ossos "naturalmente dispostos" também representam "informações" arqueológico-paleontlógicas, mas são informações mais ou menos do mesmo tipo que as camadas distintas em uma pedra pomes: nem o vulcão "decidiu" unir diferentes tipos de magma numa única pedra, nem os ursos "planejaram" deixar os ossos, próprios ou de terceiros, desse ou daquele jeito - simlesmente, aconteceu. Não há intencionalidade nas coisas naturais. Somente nas humanas (deixando aqui de lado a questão complexa de certos comportamentos animais que, contudo, representariam desvio no conceito de "natural" que eu aqui manejo). Logo, para os limites aqui impostos, só há significado nas ações intencionais humanas.

4. Eu quero saltar entre disciplinas. Deixo as ossadas de Eliade em suas cavernas primitivas. Quero pinçar daí o tema da intencionalidade como condição de sentido/significado. Quero, então, trazer essa questão para o campo de pesquisa dos textos antigos. Não há texto que não tenha sido produzido por um ato intencional humano. Todos, do mais simples, da óstraca mais banal, ao mais complexo, do mito cosmogônico mais sofisticado, todos, foram produzidos intencionalmente. E - atenção! - o significado está preso àquela intenção original. O sigfiicado da óstraca ou do mito cosogônico são - única e exclusivamente - aquele pretendido por quem os produziu.

5. Alternativamente, alguém pode descolar intenção e significado. Que seja. O que faz? Ele toma o texto, mas joga fora a intenção original. O que ele tem? Bem, agora, ele tem u'a massa de modelar nas mãos, um punhado de argila maleável. O que ele faz? Modela a massa, emprega as mãos e dá, à massa, a forma que ele quer - em outras palavras: aplica sua própria intenção à massa, ou, para sair da metáfora, emprega sua própria intenção ao texto, e faz o texto dizer o que ele quer. O nome disso é alegoria.

6. A alegoria tem servido à religião e à política. É, contudo, um desastre, um transtorno, uma desgraça, para a ciência. No campo religioso, a alegoria - atenção! - importa no seguinte: o oráculo passa a ser o intérprete, porque é ele que dá sentido ao texto. Todo leitor que se sirva da alegoria para produzir sentido reigioso faz-se de "demiurgo". Em termos históricos, a alegoria é fraudulenta. Em termos éticos, é uma farsa. A alegoria só me parece justificável no campo da estética - e em mais lugar nenhum...

7. A leitura histórico-crítica é como a paleontologia, como a arqueologia, como a história. Às favas as abordagens pós-modernas e metafóricas: aplicadas ao texto, é como se pudéssemos, por exemplo, dizer que foi a Cachinhos de Ouro quem organizou os ossinhos dos seus amigos ursos nas cavernas alpinas... Não? A alegoria é minha, o achado é meu, faço com eles o que eu quiser... Parece arrogância?, petulâcia? Mas é a isso que se resumem interpretações político-teológicas das Escrituras: para além do risível, manda quem pode, obedece quem é desinformado... E disso já sabia o moleiro de Ginzburg há quinhentos anos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

(2010/066) Do problema de uma obra em camadas


1. O corpo reacionário inteiro da "Exegese" de cabestro (aquela produzida em ambientes em que, com u'a mãom bradam-se respeito à Bíblia, enquanto com a outra tornam-na um fetiche mágico) encontrou, finalmente, uma parceria em plena era contemporânea - as abordagens pós-modernas (cujo nome me causa arrepios à nuca, como se zumbis horripilantes me encarassem à meia noite...). Juntas, entre que desconsideram o fato assentado de que obras inteiras das Escrituras Cristãs constituem-se de níveis redacionais mais ou menos numerosos e a máxima normativa de que se deve ler a Bíblia inteira como um livro só. Quando entrarem em coito procriativo, os filotes dessa concepção não hão de ser nada agradáveis à vista...

2. Nos dois casos, trata-se de uma evidência inequívoca do que Freud chamou de "princípio de prazer", necessário, em dose equilibrada, mas que, quando patológico, subjuga e recalca o "princípio de realidade". Nesse sentido, o "prazer" das hordas reacionárias é puramente político-teológico, manifestação da síndrome de teocracia dissimulada - sacerdotalismo escrachado ou constrangido (há casos de Síndrome de Estocolmo na Teologia!). Já o prazer dos vagalhões pós-modernos é a superação da exigência do discurso crítico, da necessidade de satisfação dos discursos, dos fundamentos. No final das contas, tragédia. Quem diria que se iriam enamorar nesse canto escuro do quarto histórico, conquanto se espinafrem em frente às câmeras...

3. Cá no meu canto - em minha "torre de marfim" -, vou mantendo distância de ambos ambientes, não sem, de quando em quando, mirar algum obus e dar alguns tiros. Terminada a marcação da posição política, retorno à prancheta. Podem espernear conservadores e ultra-relativistas: inúmeros (quase que a totalidade) "livros" da Bíblia são obras escritas no tempo, um pouco hoje, um pouco amanhã, um pouco daqui a duzentos anos. Não é uma voz que fala ali - são várias. Não há uma mensagem ali - há várias.

4. O Evangelho de João é uma dessas obras. R. E Brown já escreveu, em A Comunidade do Discípulo Amado, que pelo menos quatro fases redacionais - preste-se atenção: pelo menos quatro comunidades no tempo estiveram envolvidas com a redação de João - escreveram o quarto Evangelho. Ah, quando lemos "João" como se fosse um livro... Certo, quem o queira o faça, e cada um encontre aí o que queira: chama-se a isso alegoria, e é disso que se trata, afinal, quer na Norma medieval (disfarçada em Dogma), quer na malemolência pós-moderna, travestida em polissemia. Do ponto de vista histórico, contudo, não há um "João" - há vários (quatro?, cinco?).

5. Sugiro ao leitor ler, por exemplo, Jo 5,1-18 e, daí, saltar para Jo 9,1-41. Sugiro anotar as semelhanças e as diferenças. Eu aposto um braço, amigos, que João 9 segue-se a João 5,1-18. Não quero dizer que tudo que esteja entre João 5,1-18 e João 9 seja psoterior. Talvez haja alguma coisa aí dentro que pudesse fazer parte de um "recheio" eventualmente original - é coisa para se pensar mais tarde. No entanto, a distância que, agora, separa Jo 5,1-18 e Jo 9 trai a possibilidade concreta de compreensão da retórica que anima as duas passagens....

6. Mas, cá entre nós - se é assim, se é verdade que há camadas redacionais, que há distâncias cunhadas entre passagens que, agora, estão distantes, mas que, à época da redação, eram unidadas ou próximas, o que esperar de nossa leitura? Que esforços, amigos, não são demandados de nós, para além da Norma e das facilitações retórico-políticas da pós-modernidade...?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 17 de janeiro de 2010

(2010/047) Usar a força contra os textos


1. Há uma sessão de Os Demônios de Loudun, de Aldous Huxley, que gosto de usar para ajudar estudantes a aperfeiçoarem sua capacidade de leitura. Em minha versão, encontra-se entre as p. 72 e 78 (Aldous Huxley, Os Demônios de Loudun. São Paulo: Círculo do Livro, 1992). Trata-se de uma discussão acerca do "desejo humano de autotranscendência". Uma vez que o texto é extraordinariamente bem escrito, e dado que as argumentações são refinadas e quase aritméticas, resulta num exercício muito bom de leitura, porque você, além de ler, pode, digamos assim, fazer a "prova real" da leitura. Depois do exercício é que a gente vê o quanto lê... mal...

2. Na p. 75, lê-se: "A Verdade e o Dever fundamental podem ser formulados, de forma mais ou menos adequada, no vocabulátrio de todas as religiões mais importantes". Na seqüência, Huxley empregará o vocabulário da "Trindade" para "abrir" a Filosofia Perene, isto é, expressões das "verdades tradicionais" - esotéricas. A leitura faz pressupor que seja o Cristianismo, seja a Tradição Hermética, está-se diante do mesmo "universo" e "conteúdo".

3. Na verdade, o que Huxley faz é "alegoria". Ele emprega termos de uma plataforma, e os "abre", isto é, os "maneja" a partir de outra plataforma, guiando os olhos e a consciência do leitor a aceitar pacificamente a caminhada. Trata-se de um jogo muito interessante, cujo resultado pode ser a convergência de todas as fórmulas filosóficas, religiosas e científicas para uma única "interpretação". Na prática, você pode fazer isso com qualquer coisa - fazer qualquer coisa dizer o que você quer que ela diga. Se fosse a fala viva de uma pessoa presente, ela poderia retrucar e asseverar que não é nada disso que ela está dizendo. Mas, tratando-se de textos... como?

4. Veio-me à mente esse fenômeno, dessa vez!, por conta da leitura de um trecho de A Doutrina Secreta, de Helena Pretovna Blavatsky. Trata-se de uma "exegese" de Madame Blavatsky, aplicada a Gn 1,1-3ss. Ora, trata-se dos versos de minha Tese... É, pois, para mim, muito fácil observar o movimento alegórico da "exegese" proposta.

5. Eis o exercício de Madame Blavatsky, que, evidentemente, além de não ter como seguir, reputo exegeticamente equivocadissimo, conquanto exemplar para a ilustração do, digamos, "princípio de Huxley", que, a despeito de uma exegese histórico-crítica sempre disponível, assenta o fato de que qualquer coisa pode ser dita a partir de qualquer coisa:

Que se leiam os primeiros capítulos do Gênese e se reflita no que eles dizem. Ali 'Deus'' ordena a outro 'Deus', que lhe obedece a ordem. É o que se lê até mesmo na cuidadosa tradução dos protestantes ingleses, autorizada pelo rei Jaime I.

No 'princípio' (a língua hebraica não dispõe de palavra para exprimir a idéia de Eternidade), 'Deus' fez o Céu e a Terra; e a Terra 'estava vazia e sem forma, ao passo que o primeiro não era propriamente o Céu, mas o 'Abismo', o 'Caos', com as trevas sobre a sua face.

'E o Espíito de Deus se movia sobre a face das Águas', isto é, sobre o Grande Abismo do Espaço Infinito. E este Espírito é Nârâyana ou Vishnu.

'E Deus disse: Faça-se o firmamento...' e 'Deus', o segundo, obedeceu, e 'fez o firmamento'. 'E Deus disse: Faça-se a luz', 'houve a luz'. Mas esta última não significa absolutamente a luz fisica, mas, como na Cabala, o Adão Kadmon andrógino, ou Sephira (a Luz Espiritual) (...)" (H. P. Blavatsky, A Doutrina Secreta - síntese da ciência, da religião e da filosofia. V. II. Simbolismo arcaico universal. São Paulo: Pensamento, s/d).

6. A "doutrina secreta" encontra-se de posse de Madame Blavatsky. Ela, então, de posse da "doutrina", encaminha-se a Gn 1,1-3ss. Como quem toma um véu e, com ele, recobre uma superfície, ela pousa a doutrina sobre o texto. Agora, basta que vá transmutando cada palavra do texto no seu necessário, à luz da doutrina, para que tenha a sua interpretação - e de tal modo que aquele que não tiver nenhum treino de exegese, ou nada souber, de fato, da cultura judaíta, enxergará exatamente aquilo que Madame Blavatsky nos convida a enxergar...

7. Naturalmente que não se trata de um artifício esotério - necessariamente. A Teologia Sistemática, e mesmo as modernísimas teologias de recorte pós-moderno, fazem a mesma coisa, por exemplo, insistindo, ainda - masi sso é um crime! - em pôr a Trindade lá. Onde está a negligência?, onde está a ignorância?, onde está a má fé?

8. Seria curioso pôr um "bom" sistemático diante de Madame Blavatsky, ele, com sua doutrina na caixa, ela, com a dela, e pedir-lhes a ambos que nos "demonstrem" o fundamento do exercício. Imediatamente, desviarão nossos olhos do texto, e nos imporão atentar para... a doutrina que carregam! Pedirão que, primeiro, deixemo-nos hipnotizar pela lucidez e obviedade da "verdade" contida na doutrina e, então, só depois, que olhemos para o texto bíblico. O apaixonado por Blavatsky enxergará Blavatsky, o apaixonado pela Sistemática teológicoa cristã, enxergará a Trindade a borboletear sobre as águas...

9. Naturalmente que um crítico da exegese dirá o mesmo da exegese. Eu sugeriria a leitura de minha Tese, se, de fato, o tema é relevante, ou, no fundo, tudo não passará, nesse caso, de pirraça infatil. Como não vou dar atenção à manha de criança, apenas esclareço que, quando se trata de exegese - e, com exegese, quero me referir à interpretação crítico-histórica e crítico-social -, quer-se os olhos do leitor pousados, o tempo todo, sobre o processo, as passadas, os movimentos de mão, e, não, sobre uma "verdade" prévia. Não apenas a exegese é crítica, mas ela está aberta à crítica. Não é o caso do esoterismo ou da Sistemática...

10. Para encerrar, uma consideração. Não estou em condições de refutar o esoterismo. Não tenho meios de desconsiderar seja Ísis sem Véu, seja A Doutrina Secreta. Confesso, até, que, de vez em quando, leio as obras, e experimento sensações curiosas. Apenas quis dizer que, em se tratando de Gênesis 1,1-3, A Doutrina Secreta erra - e feio (salvo, naturalmente, se aplicava propositadamente o "princípio Huxley" - o que, contudo, não está esclarecido no texto).

11. A mesma smpatia eu não posso ter, contudo, com a Sistemática. A razão é simples: ela diz-se bíblica, isto é, ela diz que a sua fonte é a Bíblia. Mas não é verdade. Não há Sistemática que eu conheça que sobreviva a dez minutos de exegese. Nesse caso, Blavatsky tem a favor de si o fato de que apela para verdade milenares, reveladas a ela por "entidades espirituais". Um sistemático afirma-me que sua fonte é a Bíblia - o que faz dele mau filólogo, mau exegeta, mau leitor. No fundo, um alegorizador normativo, ou, vai ficando na moda, um animador de tradições plurais. Naturalmetne que esse bom sistemático oderá, cntradizendo sua índole protestante, fundamentar-se numa revelação do Espírito - mas, com isso, terá lançado na lata do lixo o fundamento não-católico do Cristianismo - as Escrituras... Lutero, Lutero, que fizeste?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
PS1. Para ler mais: Contra a Tortura
PS2. Para minha Tese sobre Gn 1,1-3, cf. aqui.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

(2009/648) Cenas em torno de uma conversa com meu amigo Élcio Sant'anna


1. Cena um. No encontro "carioca/fluminense" da ABIB, meu amigo Élcio Sant'anna me fez uma pergunta: por que coloco no mesmo "cesto" exegese e Edgar Morin? Naturalmente que a pergunta tem seus pressupostos, quero dizer, há, aí, implícita, uma "idéia" a respeito de Morin. Não vêm ao caso. Élcio mos apresentou e, assim, pude desfazer o equívoco. Foi uma boa conversa, não, Élcio?

2. Cena dois. 2009/2 é o semestre de Hermenêutica, na Faculdade Batista (FABAT). No primeiro, "dou" Epistemologia e, no segundo, Hermenêutica (ninguém passa incólume por essas sessões... não assim, seguidas, nesse pacote, com seus "convidados"). Paramos um bom tempo sobre o "primeiro" Heidegger, aquele que teria dissolvido o Ser - o Ser de Parmênides, logo, da Grécia filosófica, logo, do Cristianismo greco-judaico-romano. Heidegger acorda, o Ser está ali - no meio de sua vida, puf!, ele, com um gesto mágico, faz desaparecer a ilusão eidética...

3. Cena três. Agora há pouco, relia - sempre, sempre releio Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos. Em Nietzsche, transito entre momentos de grande aborrecimento (quando o aristocrático anti-democrático fala) e momentos de grande euforia (quando o iconoclasta fala). Há um parágrafo na seção "A Razão na Filosofia" - irônico até os ossos -, onde, com um só gesto, Nietzesche: destrói o Ser, antecipa Heidegger, recupera Heráclito e, assim, desse jeito, antecipa, em cem anos, Edgar Morin. É um parágrafo onde corpo e história se (re-)encontram - o que, mais uma vez, me faz pressentir que não se lê Nietzsche, apenas se repetem citações de citações de citações, intermináveis romarias de citados...

4. Eis, na íntegra, que parágrafo!

Os senhores me perguntam o que são todas as idiossincrasias dos filósofos?... Por exemplo, sua falta de sentido histórico, seu ódio contra a representação mesma do vir-a-ser, seu egipcismo. Eles acreditam que desistoricizar uma coisa, torná-la sub specie aeterni, construir a partir dela uma múmia, é uma forma de honrá-la. Tudo o que os filósofos tiveram nas mãos nos últimos milênios foram múmias conceituais; nada de efetivamente vital veio de suas mãos. Eles matam, eles empalham, quando adoram, esses senhores idólatras de conceitos. Eles trazem um risco de vida para todos, quando adoram. A morte, a mudança, a idade, do mesmo modo que a geração e o crescimento são para eles objeções - e até refutações. O que é não vem-a-ser; o que vem-a-ser não é... Agora, eles acreditam todos, mesmos com desespero, no Ser. No entanto, visto que não conseguem se apoderar deste, eles buscam os fundamntos pelos quais ele se lhes oculta. "É preciso que uma aparência, que um 'engano' aí se imiscua, para que não venhamos a perceber o ser: onde está aquele que nos engana?". "Nós o temos, eles gritam venturosamente, o que nos engana é a sensibilidade! Esses sentidos, que por outro lado são mesmo totalmente imorais, nos enganam quanto ao mundo verdadeiro. Moral: conseguir embaraçar-se do engano dos sentidos, do vir-a-ser, da história, da mentira. História não é outra coisa senão crença nos sentidos, crença na mentira. Moral: dizer não a tudo o que nos faz crer nos sentidos, a todo o resto da humanidade. Tudo isso é o "povo". Ser filósofo, ser múmia, apresentar o monotonoteísmo através de uma mímica de coveiros! - E antes de tudo para fora com o corpo, esta idée fixe dos sentidos digna de compadecimento! Este corpo acometido por todas as falhas da lógica, refutado, até mesmo impossível, apesar de ser suficientemente impertinente para se portar como se fosse efetivo!".

Eu coloco de lado, com elevado respeito, o nome de Heráclito (...).
5. Não é por outra razão que Morin - também - ressuscita Heráclito, o "pensador" do vir-a-ser. De modo que temos, aí, uma ponte: Heráclito - Nietzsche - Heidegger (o primeiro!, uma vez que o segundo é seu próprio assassino) - Morin. Se levarmos a sério Morin - e eu o levo! - deveríamos, ainda, pôr Marx, ali, entre Heráclito e Nietzsche.

6. Veja, Élcio, num mesmo parágrafo - a "singularidade", a História, o vir-a-ser, o corpo, os sentidos, a sensibilidade... Isso, Élcio, é ou não é, exegese? Oh, meu amigo, há ainda muita coisa em Morin que me faz ligá-lo - reconhecer a ligação! - à exegese (que eu pratico, bem sabido!): ele trata textos como "hologramas" situados...

7. Agora, deixando de falar diretamente a Élcio, falo aos re-introdutores do Ser, disfarçados em pós-modernidade a-crítica. Nietzsche chamou seu trabalho de "monotonoteísmo". E com razão! Há um ranço de "teo-cristianismo" na insistência de desestoricizar tudo, de acabar com a História, de dissolver a crítica. É a criançada "emancipada" repetindo os erros dos pais (quando não são seus crimes programáticos!)... É a vingança de Platão, tentando pisar a cabeça de Heráclito. É porque eu assim reconheço a fala não-exegética, sistemática, não histórica, eidética, não telúrica, ctônica, celeste, metafísica, "metafórica!", que meu corpo sente-se desconfortável, a cara traz esgares indisfarçáveis e a bílis projeta-se à boca... É somática a percepção de que constrói-se, a todo instante, um movimento de retorno àquilo.

8. Uma estratégia é fazer Nietzsche dizer o que nunca disse. Fazer dele um anti-histórico, anti-exegético, anti-medotológico... Levar Jesus de Nazaré para o Templo de Jerusalém! Há um problema aí, senhores - Jesus não escreveu nada, e se pode fazer dele o que se quiser, como bem o ensinam os Evangelhos. Nietzsche, contudo, escreveu - e ele bem sabia que, acima de tudo, para ser bom teólogo é mister a má filologia...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 12 de dezembro de 2009

(2009/634) Pergunto ao Haroldo


1. Nós, Haroldo, "teólogos cristãos", estamos envolvidos até a alma - a próstata! - com as Escrituras... Por outro lado, seja você, seja eu, caímos na "besteira" de adentrar os portões da crítica histórica, da hermenêutica crítica, da crítica das ideologias, ou seja, do iconoclasmo...

2. Bem, a posição de teólogos nos põe uma Bíblia diante de nós: grosso modo, a da Tradição, lida pela Tradição, m(c)ontada por ela, para ela, com ela.

3. Porém, nossa posição de "historiadores/exegetas" nos põe, quanto a essa mesma Bíblia, diante de um sem-fim de perícopes, de narrativas desmontadas, um mosaico ao contráro, pedaços de eventos perdidos na noite dos tempos.

4. Meu bom Haroldo, nesse final de 2009 - a quem, de fato, servimos? A qual das duas "versões" prestamos reverência, e, para manter uma metáfora litúrgica, culto?

5. Quem somos nós - hoje - meu amigo Haroldo?



OSVALDO UIZ RIBEIRO

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

(2009/541) Anotações sobre Jean Louis Ska


1. Trata-se do livro Metodologia do Antigo Testamento, que adotei na disciplina de Metodologia Exegética do Antigo Testamento. O livro tem uma curiosidade - ele trata quatro grandes abordagens epistemológico-metodológicas com nomes interessantes: diacronia, acronia, sincronia e anacronia. Comete um erro, me parece, ao classificar tais abordagens como "metodologias", ferramentas. Não são, são postulados epistemológicos.

2. Explico. Entre o leitor e as Escrituras, não há um vácuo. Quanto ao "uso" das Escrituras, há, aí, uma intencionalidade pragmática, que se traduz em pressuposto epistemológico, ao qual estão associados, aí sim, métodos. Se eu quero saber "o que foi", faço diacronia. Se eu quero saber "o que pode ser", faço sincronia. Se eu quero determinar "o que deve ser", faço anacronia. Se eu desejo saber "como funciona", faço acronia.

3. Diacronia trabalha no tempo do escritor. Sincronia, no tempo das personagens. Anacronia, no tempo do leitor. Diacronia é investigação crítica. Sincronia, percepção estética. Anacronia, tradição normativa. Acronia é supressão de tempo e de sentido.

4. Cada uma dessas abordagens possui sua própria caixa de ferramentas, as quais, contudo, podem ser compatilhadas, ocasião em que passam a operar não mais nos termos do pressupsoto epistemológico de origem, assumindo, nessa nova situação, as sobredeterminações do novo "olhar".

5. Método é "caminho escolhido". Mas só há caminho escolhido depois de se escolher o destino. Logo, primeiro você escolhe o destino (intenção/abordagem). Só depois você, então, submete-se aos métodos tradicionais, ou cria novos, relacionados ao destino por você escolhido. Há liberdade na escolha do destino (abordagem). Uma vez, contudo, usada essa liberdade, escolhido o destino, os caminhos já estão inicialmente traçados.

6. Não há como dizer, a priori, de forma "ideal", qual a abordagem melhor ou certa. Isso depende. Do quê? Ora, da sua intenção. Se você me pergunta: qual a melhor abordagem?, eu digo: para quê? O que é que você quer fazer exatamente? Se é saber o que o autor disse, só existe uma possível - diacronia. Usar outras é erro grosseiro. Se o que se deseja é a experimentação estética das narrativas, sincronia (seria uma alternativa pacificadora para a pastoral). Se o que se quer é a manutenção da verdade normativa e dogmática, anacronia. Aonde você quer ir? A Paris. E como vai? Andando. Bem, andando, não vai, não. Entende? Há um mar entre você e Paris - só de navio ou avião...

7. Ora, Jean Louis Ska escreveu sobre sincronia. Na p. 47, ele escreveu: "esses diferentes modos de praticar a exegese muito mais se completam do que se excluem". Bem, sim e não. O não - e um não bem vistoso - é: se estamos falando de abordagens (e estamos!), elas não são complementares, não - são mutuamente excludentes. Agora, se falamos das caixas operacionais de cada uma delas (crítica das fontes, sintaxe, análise do discurso, narratologia etc.), aí, sim, são complementares.

8. Na seqüência, ele ainda afirma: "(o exegeta) examina longamente o material a trabalhar e só depois escolhe os instrumentos mais adequados para o trabalho que deve realizar". A formulação não está adequada, me parece. Não é o "exame longo" do "objeto de trabalho" que revelará ao exegeta as ferramentas adequadas. Próximo-positivista a declaração, conquanto, eventualmente, não tenha sido exatamente essa a intenção de Ska.

9. O "objeto de trabalho", aparentemente, é o mesmo, em cada abordagem. Mas, na realidade, não. Para a diacronia, o objeto de trabalho não é a Bíblia, mas cada narrativa, cada "perícope", situada em seu contexto histórico-social. Para o sincrônico, a narrativa, isolada de seu contexto de origem, com o que ele se aproxima do leitor acrônico. Para o anacrônico, o objeto de trabalho é a releitura traditiva da narrativa bíblica.

10. Importa: é a intencionalidade e a abordagem do leitor que - atenção! - "cria" o objeto de trabalho. Conquanto cada um esteja diante da Bíblia, cada um tem, diante de si, uma "coisa" diferente, construída pelo recorte intencional/pressuposicional de sua abordagem. Logo, não é o exame longamente aplicado ao texto, mas a opção apriorística de como olhar para ele que determina a metodologia, nesse caso, sim, concordemos, mais adequada.

11. O pecado maior que vejo nos livros de exegese, nas aulas de exegese, nas práticas de exegese, é que se corre a praticar, sem, antes, confessar-se, evantualmente, até, sem reconhecer-se, sob que jogo, sob que pressuposto epistemológico, sob que abordagem. Método é conseqüência. Uma aula de metodologia com(o) receita de bolo só tem alguma validade - se tem alguma - quando o ambiente epistemológico em que a receita é aplicada está muito, absolutamente claro. Para quem não assume tal ambiente, a receita não tem valor nenhum, não serve para nada.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
PS. Horácio Simian-Yofre e outros. Metodologia do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2000.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

(2009/533) Simples assim


1. O problema da Teologia Sistemática é um só - ela quer dizer-se bíblica, por força das circunstâncias (Lutero, século XVI e Vaticano II, século XX), mas não resiste à meia hora de confronto com o texto bíblico - se não usar suas próprias armas. No campo onde vige a Exegese, não cresce um ramo de Sistemática. Por isso, terá de eternamente inventar modos de dizer-se bíblica, sem o ser...

2. Toda a Teologia Sistemática, católica, ortodoxa ou protestante, é fruto da Histórica Cristã, elaborada pela força da história da recepção de textos bíblicos em contextos totalmente dissociados dos pronunciamentos originais, recepção essa materializada de modo político e alegórico-cristológico. Logo, não há a menor chance, qualquer que seja, de a Teologia sustentar-se biblicamente - salvo por meio de um fundamentalismo biblicista irracional, mas racionalizador (o "caso" estadunidense), ou por meio de relativizações hermenêuticas programaticamente estabelecidas para a defesa desse dizer tradicional (o "caso" europeu).

3. Resta à Teologia, para continuar a dizer o que vem dizendo há dois mil anos, destruir sua assassina - a modernidade. Assim, passarão a conviver duas Teologias Sistemáticas no mercado, cada qual conforme o modus operandi do crime: uma, fundamentalista, de estilo barthiano, dogmática e pré-moderna, medieval, que assassina a critica e a exegese pela força da autoridade. Outra, "hermenêutica", metafórica, pós-moderna, pós-crítica, que assassina a crítica e a exegese pela força da relativização dos discursos. Simples assim.

4. O comum entre elas? O controle homilético das massas. E, naturalmente, a supressão do espírito crítico, encarnado na Exegese. É que uma coisa dá na outra... Se assim se faz na cátedra, o que não se estará fazendo no púlpito...!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/532) Exegese e Teologia - "via" Bultmann


1. Para quem tiver vontade e paciência, apresento o link para um artigo recente a respeito da relação entre Exegese e Teologia: Dogmática como Exegese Conseqüente? Sobre a relevância da exegese para a Teologia em conexão com Rudolf Bultmann. Dessa vez, não vou comentar parágrafo a parágrafo. O "tom" geral e a abordagem do artigo não me satisfazem, uma vez que dá por "superada" a condição moderna, e por caminhos que, a meu ver, não se sustentam. No entanto, trata-se de um considerável artigo - certamente erudito.

2. Não vejo como Bultmann possa servir de critério para resolver o impasse entre Exegese e Teologia. Não vou gastar muito tempo com a questão. Direi apenas o seguinte:

a) Bultman permaneceu na Alemanha, e não me surpreende que sua teologia tenha dissolvido a historicidade judaica de Jesus e do Evangelho. Tudo quanto era judaico, tornou-se mito. O que era "cristão", contudo, transformou-se em "querigma". Esse movimento, essa operação, essa tática, essa estratégia - cheiram-me muito mal...

b) O conceito de querigma de Bultmann reflete a manutenção do conceito de sacramento da Igreja, mas, agora, transposto para a "pregação". Para Bultmann, o valor central, o momento fndamental do cristianismo, é a homilética, que ele toma como "sacramento": momento de enfrentamento existencial entre homem e Deus...

c) Tomar a pregação como sacramento, para Bultman, está, ainda, de acordo com a planificação existencial de sua reflexão teológica. Não se trata, é verdade, de um autêntico existencialismo, mas da "adaptação" (mal-feita, em perspectiva crítica, excepcional, em perspectiva retórica e teatral) do existencialismo: um querigma a-histórico como sacramento para um encontro a-histórico entre Deus e o homem existencialmente dado.

d) a hermenêutica que daí decorre, isto é, o modo como a Bíblia passará a ser lida, refletirá isso e nada mais do que isso - cada palavra das Escrituras, principalmente de João, será decodificada a partir do projeto teológico-existencial de um querigma cristão germanicamente palatável.

3. Todo o mais, cansa-me, agora, comentar. Palavras demais, mas, eis a questão, com que mão se pegam tais palavras? Onde a base crítica está dissolvida, onde uma hermenêutica de circunstância, uma muitíssimo mal-formulada "intentio operis" - não importa seu genitor, é mal-formulada - é instrumentaizada, só pode dar em algo solipsista, algo entregue ao gosto da multidão, como quem escolhe a cor do algodão-doce. Talvez a realidade seja isso mesmo, uma quermesse estética - que me faria, nesse caso, abandonar definitivamente a pesquisa, coisa inútil e enfadonha, se o mundo é relativo...

4. Recordo-me de Croatto. O primeiro, de 1984. Gritava - e era "ouvido" - em seu pequeno livrinho - Hermenêutica Bíblica -, mas gritos retóricos, decerto, porque ele se tentava fazer entender!, que não havia exegese, só eisegese, e que toda tentativa de exegese era, ou auto-engano, ou fraude... Eram dias de construir um arcabouço teórico para a pouco sustentável prática de fazer textos bíblicos afirmarem o que a teologia da libertação queria. Era preciso uma teoria hermenêutica que desse um ar de fundamento à leitura "engajada" - tudo é engajamnto!, nada é crítico, tudo é subjetivo, ideológico, "produção de sentido". Fez escola. Ainda outro dia estávamos discutindo que texto "usar", depois que Êxodo ficou pesado demais para o empreendimento engajado...

5. Então, uma década depois, vejo o mesmo Croatto escrevendo, de um lado, um manual de Fenomenologia da Religião, e de outro, três comentários a Isaías. Rasgue-se o livrinho de 1984, senhores e senhoras, que, nas duas obras citadas, Croatto reabilita a História e a Exegese... É que o projeto, agora, é outro...

6. Quando se produz reflexão a partir de uma defesa de posição, cai-se no partidarismo, na apologética. Penso que qualquer tentativa de sustentar um "consenso" entre duas palataformas irreonciliáveis - uma, heurística, Exegese, outra, política, Teologia - só pode dar em naufrágio. Uma auto-afirmação de perspectiva.

7. Agora - é ou não é muito divertido observar o esforço objetivo para se fundamentar a... ausência de objetividade...? Resta ver se é um caso para Nietzsche ou Freud... Seja como for, não é, certamente, um caso para exegetas...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

(2009/525) Da memória e das tradições


1. Eu não me recordo de absoluta nada ( se o absolutamente permite uma ou duas exceções que já nem sei se são "reais") de minha infância. Minha vida começa aos cinco, seis anos. Daí para trás, nao me perguntem nada que não sei/lembro. Daí em diante, lembro algumas coisas. Poucas. As cenas que me ficam, são aquelas extraordinariamente felizes ou infelizes. Na média, minha memória descarta. Bel me conta coisas de nossa vida juntos. Foi, Bel? Foi, amor, você não lembra? Não. Quase nunca. Às vezes, não lembro de coisas de há um ano... E meus alunos ainda acham que tenho boa memória - não, teho muita dedicação.

2. Aí eu acho muito engraçado que se fale em "memória" dos povos e de "tradições". Dificilmente, diz-se que são invenções, articulações em torno de palavras e/ou cenas mais ou menos distantes, um nome histórico, e mais nada - todo o resto, invenção. Há os que o dizem. Mas os divulgadores, os que se instalam nas franjas das teorias da memória, raramente o confessam. Mas é a moda. É como na pesquisa bíblica - é mais fácil você escrever sobre a história da recepção de textos, do que falar dos próprios textos. O que me parece uma situação reveladora - se não se consegue captar o sentido de um texto, como captar a sua recepção... por meio de textos? Há, certamente, uma razão psicológica/sociológica para se abandonar os textos, e se dedicar à sua recepção... Bem, certamente é bem menos necessário prestar contas (se me faço entender)...

3. Eu não me importo com a moda das memórias e das tradições. Na prática, isso dá ocasião para muita abordagem superficial, que você mal consegue segurar com a mão. Mas não me incomoda. Com uma exceção - se tais tradições começam a se dizer "históricas", se o discurso raso e mal-acabado faz dessas tradições vestígio exegético... Tradições dos povos, memória coletiva, ai, ai.. Se um grupo não sabe nem ler seus próprios textos, o estatuto de suas memórias só pode ser mítico, só pode ser imaginativo, só pode ser inventado, fabricado, construído. Resta ver "por quem".

4. Cada vez que desço até os porões do Antigo Testamento, e, cuidadosamente, vasculho seus escombros, até agora, pouco invariavelmente, descubro que o que se diz dos textos nada ou quase nada tem a ver com o que eles diziam (não posso fazer muita coisa em relação aos que duvidam de que seja possível recuperar o sentido que eles diziam - dou de ombros, e continuo meu trabalho). Os textos falavam de coisas absolutamente diferentes do que eles, hoje, são forçados a falar - então, quando discursos de memória e tradição se fazem basear nesses textos, sinto-me ofendido. Minha "inteligência" é ofendida.

5. A exegese, para mim, é uma defesa. Porque me vejo afrontado por construções performativas o tempo todo, monopolizações "espirituais" e "culturais" de memórias fabricadas nas masmorras da política - por isso é que me dedico à desconstrução sistemática da base das memórias. Uma a uma, as pedras que sustentam a catedral da memória e da tradição vão sendo arrancadas, a catedral vê-se, aos meus olhos, construída sobre nada, sobre pó, sobre má filologia, e, então, assopro, e, como a casa dos porquinhos, ela rui... A exegese é o lobo mau, e, espero, não caia o exegeta em óleo fervente... E, se cair, também, que se dane... Inventam uma memória pra mim. Nesse caso, contra os textos que eu deixar...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

(2009/479) As Marianas, a Bíblia e eu


1. Ontem à tarde, vi-me assistindo a um documentário no History Channel a respeito de como se chegou à "teoria das placas tectônicas" que compõem a superfície rochosa da Terra - nove placas principais, independentes umas das outras, que "flutuam" sobre o magma do interior do planeta. Nada melhor para ilustrar que, apesar de tratar-se de um "desdobramento" daquele, a "ciência" tem - além disso - pouco a ver com o "senso comum": é o Sol que se move, e não a Terra, diz o olho, e, além disso, como assim a crosta terrestre são ilhas sobre um mar de lama incandescente? Rubem Alves vai ter que se esforçar um pouquinho mais para nos convencer de que "ciência" e "senso comum" são, digamos, quase a mesma coisa, como ele insiste, em Filosofia da Ciência...

2. Segundo o vídeo, o Challenger, um navio da Marinha inglesa, no final do século XIX, saiu a medir o fundo do mar usando marujos, cordas e pesos de chumbo. Foi aí que se deu conta de que havia uma porção do solo marinho, no Pacífico, que chegava - foi a medida da época - a mais de seis mil metros de profundidade. Eram as Fossas Marianas - região mais funda da crosta terrestre.

3. No século XX, após diversas pesquisas e lances espetaculares, até imprevisíveis, constatou-se que as Marianas eram uma enorme "fossa" - um canyon - com cerca de 2.40o quilômetros de extensão, e que seu ponto mais profundo - o Challenger Deep - chegava a quase 11.000 metros sob a for d'água.

4. A milhares de quilômetros dali, erguia-se a Cadeia do Pacífico. Descobriu-se, então, que a crosta terreste ia sendo produzida aí, no ponto de junção de placas tectônicas, onde o magma fluido do interior do planeta ia "expelindo" a massa mineral, que, esfriando, ia-se tornando o solo marinho, avançando, numa das direções, numa velocidade de cerca de 5 metros por ano, em direção às Marianas. Quando chegava lá, essa imensa placa tectônica enfiava-se por baixo da placa adjacente. Por isso havia, aí, a famosa depressão. A terra é uma máquina térmico-dinâmica - quase "viva"... Aqueles marujos britânicos, quando lançavam metros e metros de cordas sob a superfície do mar, jamais imaginariam - como? - que estavam iniciando uma jornada das mais espetaculares que já se testemunhou: o desvendamento do modus operandi da Terra - num de seus aspectos mais "visíveis" (não, certamente, ao "senso comum") -, a história da crosta terrestre, que se vai produzindo anos após ano, sob nossos pés, diante de nossos olhos, e nem nos damos conta.

5. Eu penso que a Exegese é algo assim - cordas, fiapos de cordas, lançadas ao profundo do abismo do tempo por marujos desajeitados. No caso bíblico, dois mil e quinhentos, três mil anos nas profundezas nos separam do fundo. Lá no fundo do Challenger Deep, há onze mil metros de profundidade - um Everest mais um Pico da Neblina juntos, um sobre o outro! - o homem seria esmagado como um ovo sob a roda de um trator. E - contudo! - há peixes lá! Quero dizer com isso que o que vão encontrar, através das cordas da Exegese, é vida, mas vida muito diferente da que imaginamos.

6. Não há cristãos lá. Nem judeus. Há ancestrais. Em dois trabalhos meus, a dissertação de mestrado, sobre Nehushtan, e a tese de doutorado, sobre Gn 1,1-3, penso que, a meu tempo e modo, fiz como os desbravadores, que, há sessenta anos, desceram até o fundo do Challenger Deep. Acho que esses dois trabalhos são análogos àquela descida - ir lá e ver, ao que tudo indica, com os primeiros olhos, a vida estranha daquele mundo estranho. Fui e voltei. Fui, voltei e contei o que vi.

7. Não, acredito cada vez menos que a Bíblia tenha algo a nos dizer sobre deuses e diabos. Acredito cada vez mais que ela tem a nos dizer sobre nós, sobre os que vieram antes de nós, sobre a vida que nos antecede, os homens e as mulhres que fenderam a terra, antes de nós, saindo dela, e voltando para ela. Assim como lançar cordas ao fundo do mar, e medir sua profundidade, há cento e cinqüenta anos, lançar ferramentas exegéticas até o solo profundo do passado é um modo ainda imperfeito de enxergar aquela terra e aquela gente. Sinto-me, assim, um desbravador, um pesquisador, um "cientista", um arqueólogo. Talvez - marujo - ainda trabalhe com cordas e pesos de chumbo, ao passo que já se tenham desenvolvido sonares sofisticadíssimos. Mas não é das ferramentas em si que falo - mas do olho e da mão que as utilizam. Sinto que nas minhas veias corre um sangue de ciências. O problema é que minha nau encalhou no Mar da Teologia, onde se pensa poder mandar cordas para o passado e pescar deuses... tarrafas para Deus...

8. Quando eu era pequeno, aprendi com meu primo - mesmo errado - a capturar formigas, pô-las em garrafas de vidro com terra, e observá-las a cavar túneis. Morriam, com o tempo, sem ar suficiente e por conta de proliferação de fungos. Passei à fase de adotar formigueiros "reais". Amarrava linhas em algumas delas para vê-las entrar e, mais tarde, sair dos formigueiros. Capturava insetos e brincava de oferecê-los a elas, com pedras em cima, para forçá-las a chamar tropas. A batedora achava a presa, tentava arrastar, retornava à base e, poucos segundos depois, voltava ela, acompanhada, agora, de umas vinte companheiras. Aí eu as deixava levar a comida... Foram minhas companheiras, num quintal sem amigos reais.

9. Não sei por que cargas d'água fui me meter em Teologia. Aqui, não se faz (nem se quer fazer!) "ciência". Aqui, racionalizam-se dogmas embolorados. Não se cava a terra da Bíblia para ver o que tem debaixo, mas se colocam "coisas" lá, para fazer com que, quem a leia, as encontre - ah, e encontram... Contudo, a Exegese, depois de cento e cinqüenta anos de submissão arisca à Teologia, separou-se dela, tornou-se filologia, histórica, arqueologia. Desde 1750, mais ou menos, que a Exegese não segue as ordens da irmã mais velha. Deve ter sido por isso que, dentro da Teologia, escolhi a Exegese, e, fazendo-o, tornei-me imprestável para o "jogo" teológico. Parece que aquela alma de criança a observar formigas esteve preservada o tempo todo, entre catequeses e liturguias. Quando olhou aquela frase hebraica no quadro, renasceu das cinzas, e fez-se, de novo, "cientista".

10. Assistindo ao vídeo, lamentei minha história. Queria ter podido estar em outra fronteira. Eu teria dado um bom cientista. Teria podido ajudar muito, não tenho dúvidas, às ciências, com minha cabeça especialista em quebrar paradigmas, meu iconoclasmo "natural", conquanto tenha seus defeitos e vícios muitos, eu sei. Mas, fazer o quê?, foi aqui que aportei, e aqui estou. Confesso uma tristeza de fundo, um lamento da alma, uma inveja tremenda, quase-um-pecado da alma, em face dos macro-geólogos, dos macro-oceanógrafos, de homens e mulheres que receberam da vida a melhor parte... Eu, marujo, resta-me lançar cordas e medir o fundo. Talvez, daqui a cinqüenta anos, macro-cientistas possam dar a um acidente geográfico qualquer do vasto país Bíblia Hebraica um nome que lembre minha efêmera passagem - como Challenger Deep, homenagem aqueles marujos, a quem a vida, essa desumana deusa, impôs um papel central, mas inconsciente: para eles, lançavam cordas e pesos de chumbo, trabalhavam pelo pão - mas não tinham a mínima idéia de que, assim o fazendo, enquanto o faziam, tocam com os dedos os segredos da Terra, que isso são os homens - reveladores de segredos da Terra... de seus próprios segredos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 18 de maio de 2009

(2009/268) Exegese e holograma


1. Estou a morrer de dor de cabeça. Melhor dar uma parada. Meu carro está a vazar gasolina desde ontem, e o cheiro está impregnado em tudo, em todos, em cada canto. Daqui a pouco é hora agendada para o mecânico, e lá se vão alguns dias a pé - de novo... Além disso, a dor de cabeça vem de eu estar há alguns dias em cima da Bíblia Hebraica, atrás dos bene 'adam, dos bene 'ish e, agora, do ben 'adam. A honestidade intelectual cobra caro, e o troco são dores de cabeça - literalmente... É o preço de meter-me onde não fui chamado.

2. Não é tarefa fácil - não mesmo! - tentar reconstruir o sentido original de determinados termos do passado - no meu caso, na Bíblia Hebraica. Regra incontornável: o sentido do termo é aquele com que ele foi grafado, nada mais, nada menos. A tradição faz uma sujeira danada, montanhas de lixo em cima dos sentidos originais. Sua (minha) ideologia faz um barulho danado - uma gritaria infernal vem desde dentro de você, ecos de "verdades" de tribo, de mercado, de caverna, de teatro, para citar Bacon.

3. Poluição!

4. Para realizar meu trabalho, não me resta outra alternativa que não reconstruir o contexto de leitura da narrativa que interpreto. Não adianta só ler a narrativa - isso de pouco vale. Tenho de lê-la na medida em que ela foi lida, de modo que tenho de lê-la como ela foi lida. Isso significa que tenho de lê-la como ela foi lida para quem foi lida, naquele lugar e naquela circunstância, com aqueles referênciais, com aqueles objetivos. Não tenho papel nas mãos. Tenho voz e fala. Não é com os olhos que tenho que ler - é com os ouvidos. Os olhos, reservo-os para o salmista, de pé, o rei, o liturgo, o orante, aquele que, se não redigiu a peça, a lê. Os ouvidos, empresto-os a essa audição.

5. Há uma estratégia lá. Lê-se para um fim. Há um contexto lá. O contexto é o alvo da leitura. Mesmo as pessoas que lá estão, ouvindo, mesmo elas constituem o contexto. O destinatário, singular ou plural, não é uma grandeza isolada - é contextual. Estar situado é tornar-se mais do que ser apenas citado, porque o contexto acrescenta sentido à presença da platéia, se é uma liturgia ordinária, uma convocação extraordinária, um encontro subversivo. Karl-Otto Apel disse que textos respondem. Sim. Mas mentem, também. Para não mentirem, é preciso ouviro eco que reverbera de sua lição primeira...

6. E, todavia, puff!, tudo desapareceu na lava imemorial do tempo. Quis a ironia dos ponteiros que sobrevivesse tão somente o veículo de um elemento desse evento - uma página. Mas a página fora, apenas, veículo. O que ali vai escrito, no suporte físico, é, contudo, apenas, também, suporte, agora da intenção noológica, do pensamento, da vontade de um sujeito, de dois, de dez, históricos. São mortos, agora. Pó. Os ossos de um estão naquela flor, os do outro, no corpo de um roedor, os do outro, esperam pela curiosidade mamífera de um arqueólogo. E, contudo, é a intenção deles, aquela, daquele dia, naquele evento, que me abre a porta da compreensão dos termos, das frases, das orações dessa narrativa. Sem isso, tudo é pura literatra, em que só é necessário arte, uma lufada de criatividade, e pronto. Ou autoridade para o dizer, sem que pudesse.

7. Holograma. A narrativa é um holograma exegético de um pedaço do passado. Não sou mero exegeta. Sou um arquiteto e cenógrafo, a reconstruir uma circunstância situacional. Sou um historiador e arqueólogo, a reconstruir vozes, pessoas, perfis, intencionalidades. Sou um hermeneuta e exegeta, a relacionar linguagem e fala mortas, narrativa e discurso mumificados. Sou, enfim, um mágico que tem de dar conta das prestidigitações - cada ato de magia e necromancia uma prestação de conta. Finalmente, nada mais do que um bisbilhoteiro.

8. E, claro, alguém qe tem uma dor de cabeças daquelas...


OSVALDO LUZI RIBEIRO

domingo, 17 de maio de 2009

(2009/265) Depois dos "de Adão", os "filhos de homem"


1. Enquanto passam de sessenta as ocorrências de "filhos de Adão", são apenas seis, em cinco passagens, as ocorrências de "filhos de homem" na Bíblia Hebraica - os primeiros, "bene 'adam", os segundos, "bene 'ish". Se eu estiver certo, a tradição fez uma confusão dos diabos: o que me parece ser os "bene 'adam", ela diz ser os "ben 'ish". O artigo está disponível para ser lido, ainda não publicado formalmente em revista indexada: Osvaldo Luiz RIBEIRO, Bene 'ish - os "filhos de homem" na Bíblia Hebraica (16/05/2009). Depois de o ler, pode-se ler, também, o anterior: Bene 'adam - os "filhos de Adão" na Bíblia Hebraica (11/05/2009).

2. É impressionante como a tradição agiu nesses casos. Salvo melhor juízo, ela - tanto a tradição judaica quanto a cristã, tanto a medieval quanto a moderna - assumiu (desde Maimônides e Calvino) que "bene 'ish" são os nobres e que "bene 'adam" são os pobres, e essa definição inexorável pulula a hegemônica e inexorável maioria das publicações. Resinto-me de uma consulta aos alfarrábios histórico-críticos "imperialistas" (fui chamado assim, uma vez) alemãos, aqueles das estantes empoeiradas, para ver se um deles disse a mesma coisa que estou dizendo. Não consigo crer que uma evidência tão à sperfície tenha passado despercebida.

3. O que eu faço é ir a todas as ocorrências e analisá-las uma a uma, segundo os contextos semântico, fonético, poético e pragmático. É meio que nadar contra a corrente, mas me parece bastante historiográfico e arqueológico. Foi assim que descobri que os serafins são representações da serpente de bronze - Nehushtan. Foi assim que descobri que "criar", na Bíblia Hebraica, é "construir". Foi assim que descobri, agora, que "bene 'adam" são os nobres, e não, os plebeus, e que "bene 'ish" são os plebeus, e não, os nobres. Quer dizer, se é que descobri mesmo.

4. Não pense que se trata de tema "menor". Não estou interessado em "ir para a frente" com ele. O que eu quero está "lá atrás", já disse, é o 'adam de Gn 1,26 - para mim, o rei. Mas os mesmos termos estão na base da identidade de quem Jesus de Nazaré dizia ser quando empregava o título "Filho do Homem" para si - ou quando a tradição lhe aplicou, tanto faz. O Filho do Homem dizia de si ser ou "pobre", ou dizia de si ser o Rei? Ora, a tradição fez dele tanto um carpinteiro, e aí ele não é um "nobre", quanto lhe deu um epitáfio real: "et imposuerunt super caput eius causam ipsius scriptam: 'hic est Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum" (Mt 27,37).

5. Confesso que não me interessa esse desdobramento, conquanto ele seja relevante. Interessa-me a identidade do "Adão" de Gn 1,26-31, que a história da interpretação fez aproximar-se do "terroso" agricultor de Gn 2,7, mas que, aposto minhas fichas todas, trata-se, antes, daquele que, assentado sobre o trono de Jerusalém, "domina" sobre toda a criação (cf. Sl 8). Quando descobri que a criação em Judá é a própria Judá, caiu-me a ficha. Ou vi miragens. Hum?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 15 de maio de 2009

(2009/263) De cavar sozinho e incertamente


1. Não há nenhuma razão vital para se saber o que é que um sujeito que viveu há três mil anos queria dizer quando usava uma determinada palavra. Posso viver meus anos de vida inteiros sem precisar responder a essa pergunta. Eu até só chego a saber que alguém que viveu há mais de dois mil anos usava esta ou aquela palavra por mero acidente histórico: sobreviveu, por exemplo, o texto que ele escreveu, e aprouve à história que ele chegasse até mim, de modo que apenas incidentalmente me parece por algum modo necessário saber o que aquela palavra ali significava. Bem, mas eu poderia continuar a minha vida sem nunca fazer essa pergunta... e ser muito feliz!

2. A questão é: mas e se fiz a pergunta? E se tenho diante de mim esse texto? E se vejo ali uma palavra? E se essa palavra me desperta o interesse? E se eu quero saber o que ela significa? Ora, o que eu faço em relação à Bíblia Hebraica, aquilo que considero ser um traço peculiar de minha exegese (não conheço significativamente trabalhos sistematicamente parecidos com o meu, se bem que o que Gottwald fez com o termo yoshev/yoshevim (governante/habitante - governantes/habitantes) tenha me inspirado, é certo: por esse caminho andaria melhor a TdL) - é justamente esse trabalho de perguntar pelo preciso sentido com que esse ou aquele termo eram usados lá e então.

3. Para o fazer, não recorro primeiro a dicionários. São bons, mas, às vezes, pecadores. Uso-os, mas os controlo por meio de uma operação que chamo levantamento semântico-fenomenológico. É simples, mas envolve tempo, paciência e independência. Tomo cada uma de todas as ocorrências de uma palavra na Bíbia Hebraica, traduzo todas as passagens (o que dá trabalho, quando é uma palavra que ocorre, digamos, cem vezes - mas há algumas que chegam à casa dos dois mil!), determino "antropológico-literariamente" o sentido histórico-social daquele termo ali e em cada caso e, então, crio um sistema semântico-fenomenológico de sentidos desse termo na Bíblia Hebraica. É possível estabelecer até uma cronologia relativa, uma história da evolução do termo internamente à Bíblia Hebraica... É possível e necessário até corrigir "bons" dicionários.

4. É engraçado, depois, ler dicionários. Veja o caso de tselem e demut. São os termos de Gn 1,26. Sua Bíblia, certamente, há de usar a palavra "semelhança" - Adão é criado à semelhança de 'elohim. Os dicionários, mesmo os bons, trazem a informação. Você, cioso, vai lá, consulta, e fica satisfeito. Coitado! Faça o seguinte - pegue todas as ocorrências das duas palavras. Mas deixe Gn 1,26 de lado. Encontrará, sem exceção, um único sentido - imagem bi/tridimensional, ou seja, escultura, imagem, estátua, figura, alto/baixo-relevo. Jamais, "semelhança". Ou seja, os dicionários trazem "semelhança", porque a "teologia" lhes informa sobre o fato de que ali, em Gn 1,26, é "semelhança". E dá-lhe teologia... Belo trabalho!

5. Pois bem: acabo de mandar meu artigo sobre os bene 'adam para uma revista. A pessoa responável respondeu-me que não concorda com minha tese de que os bene 'adam referem-se ao rei e aos seus oficiais civis, religiosos e militares, porque - pasmem - os grupos judeus com que essa pessoa trabalha - hoje! - usam o termo como referência aos seres humanos... Se essa pessoa leu o artigo? Não, apenas o resumo. E ainda queria que eu o reduzisse para dez laudas. Claro, para quem não se importa com argumentos, mas apenas confronta "idéias", qual a diferença entre vinte páginas de argumentos ou uma e meia?

6. Há uma tonelada e oitocentos quilos de lixo, lama, terra, pedra, árvores mortas, ossos, cascalhos, insetos, húmus, poeira e fungo soterrando a Bíblia Hebraica. Qualquer um que a pegue e saia por aí repetindo o que se diz por aí, corra dele! Principalmente se é alguém "engajado"... Cá, no meu canto, vou fazendo como os arqueólogos. Sentado, com dor nas costas, pego o pincel-vassourinha e vou varrendo o pó daqui, o pó dali, tirando cascalho. Às vezes são pedregulhos a carregar. Trabalho lento. Mas alguém tem de fazer. O bom é que vivo em dias de Internet. Minha produção vai toda para a Internet. Se quem devia prestar atenção, não presta, não tem problema. É para o amanhã que trabalho. Tenho consciência de que mais cedo ou mais tarde, alguém que está esperando por isso há de encontrar o que passou a vida toda procurando. E há de ficar espantado de isso ter sido feito na Baixada Fluminense.

7. É uma espécie de sentido de missão essa, não é? Mas é solitário. Muito. E encontra críticas, de todos os lados. Céticos? Cem mil. Espero saber a diferença entre teimosia e convicção, entre ser cabeça-dura e ser consciente do trabalho. Se eu errar a dose, quem sabe não perca a vida inutilmente atrás de palavras mortas e insepultas? Mas, se eu estou certo, grassa uma mediocridade irresponsável e pseudo-culta à minha volta. Estarei vivo quando a resposta se fizer notória?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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