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sexta-feira, 30 de abril de 2010

(2010/351) Metáfora e sacramento


1. Se admitirmos que a Teologia como metáfora é uma classificação adequada para um tipo de Teologia que, apesar de articular-se politicamente com as "palavras da fé", não assume qualquer modalidade de reserva metafísica, isto é, que não parte do pressuposto de que, às palavras da fé, correspondem realidades extra-físicas, "celestes", nesse caso, então, penso não ser possível classificar Bultmann como um teologo metafórico. É verdade que a teologia metafórica rompe com a relação "histórica" das palavras da fé - elas são, apenas, "palavras instrumentais", drágeas de encenação litúrgico-psicológica, poética. Do mesmo modo, Bultmann - e ainda mais radicalmente - cortou a relação retoricamente genética entre as palavras da pregação - o querigma - e a historicidades das cenas que elas descrevem. No entanto, ao passo que Bultmann continua fiel a uma eficiência salvífica da pregaão, a teologia metafórica lida com as mesmas palavras fazendo delas palavras performativas, roteiro narratológico e cênico, plástico, para o "cuidado", para a "manutenção" da comunidade de fé - o uso político da estética. Ambos são pastorais, mas apenas um é realmente metafórico - e não é Bultmann.

2. Para Bultmann, as cenas descritas nos Evangelhos são mito. O nascimento virginal é mito. A ressurreição é mito. A ascenção é mito. A parousia, mito. As curas, mito. Apesar disso, é justamente a pregação dessas cenas que constitui a pregação, o querigma. Para Bultmann, não são as palavras em si que "salvam": é o jogo da pregação, da proclamação, porque, nos termos da racionalização do teólogo "existencialista", é durante a proclamação do querigma que se abre o momento em que Deus põe diante de si o homem, que, em face de sua abertura ou seu fechamento ao jogo querigmático, à pregação, autentica ou não a sua exitência em Deus.

3. O resultado do querigma de Bultmann é uma pregação, ou melhor, o conteúdo de uma pregação que é pura metáfora, mas igualmente um conjunto de palavras "mágicas" que têm um poder sacramental, quando articuladas no formato da liturgia da proclamação. Não é a morfologia, a semântica, a sintáxe, a prosódia - é o fato de elas serem proclamadas. Para Bultmann, querigma é sacramento. O sacramento de Bultmann é um saquinho homilético de metáforas...

4. Se alguém questionar (o) um querigma (por não ter) sem lastro histórico, isto é, que se possa conceber que, sendo mito, logo, imaginação humana, tais palavras não têm qualquer fundamento, Bultmann poderia argumentar que a hóstia não passa de farinha de trigo com água, e, no entanto, a eucaristia constitui, para a fé, o momento do agraciamento místico, mágico, do homem. Se Deus pode utilizar-se de farinha de trigo, por que não pode utilizar-se de... mito? Assim como não é a farinha de trigo, igualmente não é o mito que "salva" - é a sua função sacramental. Fora do sacramnto, são idéias humanas: na encenação litúrgica, transubstancia-se o mito em sacramento, o que era metáfora, vira graça...

5. A teologia metafórica não chegará aí. Não pode. E, se chega, não é teologia metafórica - permanece, nesse caso, a modalidade bultmanniana de metáfora-sacramento. Bultmann tem um compromisso com a pregação, mais do que com o século XIX. Sim, Bultmann reconhece a propriedade crítica do século XIX - e tanto que aceita a classificação de mito para as narrativas do Novo Testamento. Mas Bultmann empreende todo esforço para manter o caráter soteriológico do jogo cristão, razão pela qual recorre ao conceito de "sacramento", ainda que aplicando-o ao "valor" protestante - a pregação do Evangelho. Já a teologia metafórica tem cmpromissos muito mais sérios - se os tem (mas, se não os tem, não é metafórica!) com o século XIX. De um lado, não pode tratar as narrativas neotestamentárias, nem as da fé, como "história", e, de outro, não pode olhar (mais) para as mansões celestes. Assim, seu amor pela comunidade, seu engajamento pastoral, impõe que torne a fé alguma coisa próxima da poesia, da festa, da celebração, cujo fundamento começa e termina aí mesmo, sem recurso à história ou à ontologia metafísica sobrenatural. Para a teologia metafórica, a metáfora não é sacramento - é metáfora mesmo...

6. Essa é uma questão muito importante, porque é possível identificar retóricas que, à superfície, parecem próprias da teologia como metáfora. Mas, a rigor, não são. Não são, porque, no fundo, o teólogo que as maneja ainda as articula, de alguma maneira, com o Ser, com Deus, ainda as emprega mágica e miticamente - dir-se-ia: ainda há "fé", aí. O ambiente onde se flagra com mais freqüência esse fenômeno de dar aparência metafórica ao que é, de fato, ontológico, é o ambiente que se assume como "plural". Aí, se decide respeitar as demais religiões, logo, os demais discursos religiosos. Como cada religião tem seus próprios discursos, os teólogos que se movimentam nesse abiente são forçados a aceitar diferentes discursos que descrevem realidades muito diferentes, iguais apenas no fato de apontarem, todos, para o supra-hmano, supra-físico.

7. É aí que acontece um fenômeno curioso, sub-reptício. O teólogo assume implicitamente (é seu "segredo"!) uma realidade metafísica - que é ontologia e metafísica, sob todos os aspectos. Não importa a fé das religiões, só há uma dimensão metafísica, um so "céu", uma só "divindade". Na seqüência, continua a racionalização: os discursos religiosos, todos, são metáforas para esse mesmo mundo metafísico. Assim, o teólogo consegue olhar para seu discurso e vinculá-lo à metafisica enterrada sob a metáfora que ele mesmo usa, mas, ao mesmo tempo, pode "aceitar" a retórica do amigo/irmão religioso, porque, afinal, o discurso dele refere-se à mesma realidade metafísica a que ele mesmo se refere por meio de sa própria metáfora. Ainda que à sperfície pareça que o outro fala de outra coisa, não, a metáfora do outro refere-se, se bem interpretada, àquela única realidade espiritual por trás de todas as metáforas...

8. Ora, a estratégia cristã sempre foi trazer as consciências para seu mundo teológico, fazê-las catequisadas, convertidas. Esse tipo sub-reptício de teologia ainda faz o mesmo, mas "retoricamente", apenas. O teólogo faz-se acreditar no fato de que, se o discurso não-cristão é, ao fim e ao cabo, uma referência metafórica à verdade - cristã! -, seque que a "missão", afinal, chegou ao fim... É um jeito curioso de resolver as questões.

9. O problema é quando o jogo é revelado. Aí fica claro que não se resolveu foi coisa nenhuma, e que o que se chamou de pluralismo fora, o tempo todo, maquiagem evangelística. E a metáfora sai da sala com o rabo entre as pernas, envergonhada de ser flagrada como ontologia metafísica dissolvida em estratégia política.


OSVALDO LUIZ RBEIRO

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

(2009/545) Teologia Hermenêutica?


1. Almocei com Jimmy, ele e sua sonda renal-uretral. Falamos de algumas coisas, das quais sempre falamos. Uma delas foi sobre o caráter da "Teologia Hermenêutica". Um colega de ambos admirou-se de que, em meu sistema classificatório para a Teologia (ontologia, metáfora, fenomenologia) não coubesse lugar, por exemplo, para a Teologia Hermenêutica.

2. Jimmy, automaticamente, retrucou: mas a Teologia Hermenêutica é metáfora! Bem, aí, agora, foi Jimmy e eu que entramos em conflito. Eu já acho que Teologia Hermenêutica não é metáfora, é ontologia. De qualquer forma, seja uma coisa, seja outra, cabe, sim senhor, no sistema.

3. Ensaio uma solução para o conflito. Jimmy e eu estávamos falando de coisas diferentes. Com "Teologia Hermenêutica", Jimmy se referia a alguma coisa pós e pró-vattimoniana. Aí, sim: Vattimo é um campeão da metáfora - a "teologia cristã", dessacralizada, virada pó e pigmento de cultura, é, mesmo, a tinta que recobre a sociedade ocidental, e não haveria de ser outra coisa. Uma Teologia que beba na fonte de Vattimo, só pode ser metafórica, ter delírios de metáfora. Se Vattimo é citado, e a Teologia conseqüente não se assume metafórica, algo está errado - eventualmente, até, deixo consignado a hipótese, em meu entendimento.

4. Todavia, com Teologia Hermenêutica não me refiro a Vattimo. Aos vattimonianos, teólogos, aí, sim, classifico-os, se conseqüentes (nem sempre é o caso), de metafóricos. Mas falava eu da Teologia de G. Ebeling e E. Fuchs, que tentaram resolver o problema do excesso de objetividade/positividade de K. Barth e o problema do excesso de subjetividade/negatividade em R. Bultmann. Ora, e todos, ali, senhores, a tese, Barth, a antítese, Bultmann, e as sínteses, Ebeling e Fuchs, são ontológicos. Todos. Sem exceção.

5. Vattimo é a ponta nova do afloramento rochoso na crosta da "Hermenêutica". Está, ainda, por ser feita, uma teologia que realmente confesse, escancaradamente, o postulado de Vattimo - não se espere seja eu a fazê-lo. Já li até quem o cita, mas descita, que se diz basear-se nele, mas o nega. Já a ontologia, goteja pelos poros da pastoral. Ou é ela, ou outra coisa. Mas, nesse caso, prefiro não comentar...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

(2009/532) Exegese e Teologia - "via" Bultmann


1. Para quem tiver vontade e paciência, apresento o link para um artigo recente a respeito da relação entre Exegese e Teologia: Dogmática como Exegese Conseqüente? Sobre a relevância da exegese para a Teologia em conexão com Rudolf Bultmann. Dessa vez, não vou comentar parágrafo a parágrafo. O "tom" geral e a abordagem do artigo não me satisfazem, uma vez que dá por "superada" a condição moderna, e por caminhos que, a meu ver, não se sustentam. No entanto, trata-se de um considerável artigo - certamente erudito.

2. Não vejo como Bultmann possa servir de critério para resolver o impasse entre Exegese e Teologia. Não vou gastar muito tempo com a questão. Direi apenas o seguinte:

a) Bultman permaneceu na Alemanha, e não me surpreende que sua teologia tenha dissolvido a historicidade judaica de Jesus e do Evangelho. Tudo quanto era judaico, tornou-se mito. O que era "cristão", contudo, transformou-se em "querigma". Esse movimento, essa operação, essa tática, essa estratégia - cheiram-me muito mal...

b) O conceito de querigma de Bultmann reflete a manutenção do conceito de sacramento da Igreja, mas, agora, transposto para a "pregação". Para Bultmann, o valor central, o momento fndamental do cristianismo, é a homilética, que ele toma como "sacramento": momento de enfrentamento existencial entre homem e Deus...

c) Tomar a pregação como sacramento, para Bultman, está, ainda, de acordo com a planificação existencial de sua reflexão teológica. Não se trata, é verdade, de um autêntico existencialismo, mas da "adaptação" (mal-feita, em perspectiva crítica, excepcional, em perspectiva retórica e teatral) do existencialismo: um querigma a-histórico como sacramento para um encontro a-histórico entre Deus e o homem existencialmente dado.

d) a hermenêutica que daí decorre, isto é, o modo como a Bíblia passará a ser lida, refletirá isso e nada mais do que isso - cada palavra das Escrituras, principalmente de João, será decodificada a partir do projeto teológico-existencial de um querigma cristão germanicamente palatável.

3. Todo o mais, cansa-me, agora, comentar. Palavras demais, mas, eis a questão, com que mão se pegam tais palavras? Onde a base crítica está dissolvida, onde uma hermenêutica de circunstância, uma muitíssimo mal-formulada "intentio operis" - não importa seu genitor, é mal-formulada - é instrumentaizada, só pode dar em algo solipsista, algo entregue ao gosto da multidão, como quem escolhe a cor do algodão-doce. Talvez a realidade seja isso mesmo, uma quermesse estética - que me faria, nesse caso, abandonar definitivamente a pesquisa, coisa inútil e enfadonha, se o mundo é relativo...

4. Recordo-me de Croatto. O primeiro, de 1984. Gritava - e era "ouvido" - em seu pequeno livrinho - Hermenêutica Bíblica -, mas gritos retóricos, decerto, porque ele se tentava fazer entender!, que não havia exegese, só eisegese, e que toda tentativa de exegese era, ou auto-engano, ou fraude... Eram dias de construir um arcabouço teórico para a pouco sustentável prática de fazer textos bíblicos afirmarem o que a teologia da libertação queria. Era preciso uma teoria hermenêutica que desse um ar de fundamento à leitura "engajada" - tudo é engajamnto!, nada é crítico, tudo é subjetivo, ideológico, "produção de sentido". Fez escola. Ainda outro dia estávamos discutindo que texto "usar", depois que Êxodo ficou pesado demais para o empreendimento engajado...

5. Então, uma década depois, vejo o mesmo Croatto escrevendo, de um lado, um manual de Fenomenologia da Religião, e de outro, três comentários a Isaías. Rasgue-se o livrinho de 1984, senhores e senhoras, que, nas duas obras citadas, Croatto reabilita a História e a Exegese... É que o projeto, agora, é outro...

6. Quando se produz reflexão a partir de uma defesa de posição, cai-se no partidarismo, na apologética. Penso que qualquer tentativa de sustentar um "consenso" entre duas palataformas irreonciliáveis - uma, heurística, Exegese, outra, política, Teologia - só pode dar em naufrágio. Uma auto-afirmação de perspectiva.

7. Agora - é ou não é muito divertido observar o esforço objetivo para se fundamentar a... ausência de objetividade...? Resta ver se é um caso para Nietzsche ou Freud... Seja como for, não é, certamente, um caso para exegetas...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 22 de maio de 2009

(2009/281) Três homens que se foram


1. Rudolf Bultmann (1884-1976), Paul Tillich (1886-1965) e Dietrich Bonhoeffer (1906-1945). Três homens. Uma pátria. Um tempo. Uma Igreja. Uma história.

2. Uma história? 1933. Dá-se a subida de Hitler ao poder. Nesse mesmo 1933, Tillich é expurgado da cátedra - o primeiro professor não-judeu a sofrer a intervenção do Estado. A Decisão Socialista é apreendida pela polícia alemã. Nesse mesmo ano, bom matemático, Tillich deixa a Alemanha, e emigra para os Estados Unidos da América. É provável que, se ficasse, tivesse que optar entre pregar , ensinar e escrever "conveniências" e enfrentar a acusação de "alta traição", escolher entre a vida e a morte, escolher entre a consciência e a rendição. Escolheu. Talvez eu tivesse feito o mesmo. O que não muda os fatos.

3. Rudolf Bultmann permaneceu na Alemanha. Não estou inteirado de sua relação com a alta política alemã. A colaboração formal e informal entre a Igreja e o Estado Nacional-socialista alemão não foi privilégio católico... Rudolf tinha inclinações nacional-socialistas? Apenas "acomodou-se"? Os casos de Tillich e de Bonhoeffer sugerem questões nervosas - que implicações há em "permanecer"? Seja como for, é sugestivo o trabalho de Bultmann no centro nervoso de uma Alemanha nazista, anti-sionista, judeo-fóbica. O Antigo Testamento - judeu - é "marcionizado" - a Igreja não lhe deve satisfações, nem o tem como "fundamento". O Novo Testamento é arrancado de seu chão histórico - chamou-se a isso desmitologização, mas, fosse mesmo isso que se diz ter sido, o querigma teria sido necessariamente jogado fora, já que também o querigma é mito, de modo que o nome é bem outro... O resultado é um Cristianismo não-judeu - sob medida para um Império Contra-judeu. Constantino e Hitler são perfeitos paralelos para a relação institucional da Igreja... Aliás, Pinochet e Brasília, também... A Itália de Mussoline que o diga! A "Igreja" ama o poder... porque se pensa sê-lo... Restam as resistências locais, lúcidas, loucas...

4. 1939. Há um cheiro de guerra no ar. Há teólogos saindo da Alemanha e emigrando para os Estados Unidos. É aí, em 1939, que se encontra Dietrich Bonhoeffer. Seu olhar atravessa o Atlântico. Permanecer fora da Alemanha, nessa hora, parece-lhe fuga. Ele volta. Ele faz a travessia contrária. É como Neo, em Matrix. Juntas, as gargantas de Deus e do Diabo esperam por ele... E ele o sabe.

5. Esse Bonhoeffer é inspirador. Será preso - obviamente. Estará só. A Igreja lhe tem por constrangedora figura, porque sua presença basta para denunciar o compromisso da Ávida com o Ávido. A Ireja Confessante é seu reduto - um espinho nos olhos de tantos, de todo poder constituído. O cárcere é seu destino. Não basta - a morte, seu algoz. Todos estão aliviados, agora.

6. Não quero transformar Bonhoeffer em mártir - que foi. Assumiu sua consciência, não deve nada a ninguém, ningém lhe deve nada. Resta-nos o espelho a nos encarar... Mas é impossível não medir a distância entre ele e os demais, ele, onde a Teologia se fez pastoral mesmo. E, contudo, é um dos poucos, dos raros, quase um dos únicos teólogos do século XX que levaram a sério o século XIX. Não, nenhum outro, que eu possa me lembrar, exceto, a seu tempo e modo, um von Harnack, seu mestre, e um Hans Küng, respectivamente, entrada e saída dessa rolha reacionária que foi a Teologia do século XX, tão reacioária que, mesmo onde se fez libertação, ainda é por meio da alienação que ela opera, com "crianças" e "bestas de carga", mas, não, com gente adulta.

7. E Bonhoeffer pensava isso do homem europeu: um mundo em estado adulto. Barth, ele dizia, é medieval (e eu achando que fora eu a ter cunhado a expressão - desculpe, Bonhoeffer: créditos seus...). Bultmann, um homem que faz hermenêtica pela metade, ou seja, pára onde convém (onde lhe disseram convir?). Bonhoeffer, na cadeia, escrevendo as cartas a seu amigo Eberhard Bethge, preparava seu espírito para enfrentar a Transformação da Teologia (parodio, aqui, Transformação da Filosofia, de Karl-Otto Apel). Eis que parágrafo comovente:

7.1 "O mundo adulto (...), ou o mundo tornado adulto, é um conceito, genericamente, de derivação kantiana, mas (...) Bonhoeffer baseou-se sobretudo em Dilthey, do qual deriva diretamente o conceito e a descrição do processo histórico que levou à maioridade (...) do mundo moderno, que Bonhoeffer sintetiza na carta de 16-7-1944. Ele aceita a legitimidade do processo, mas é justamente daí que provém a questão: 'Cristo e o mundo tornado adulto'; quer dizer, a questão é como conjugar o processo do mundo em direção à autonomia com a fé em Cristo. A originalidade de Bonhoeffer não está na elaboração do conceito de 'mundo adulto', nem sequer na reconstrução histórica desse processo - elementos derivados diretamente de Dilthey -, e sim na formulação do problema teológico que daí provém" (Rosino GIBELINI, A eologia do Século XX, p. 116-117).

8. Barth, Bultmann, Tillich, Moltmann, Pannenberg - a lista é interminável -, não "levaram (apenas não suficientemente?) a sério" o séclo XIX (quanto a Tillich, cf. meus Por uma teologia pós-metafísica – diálogo com um epílogo circunstancial e Por que se escondeu esse menino? – a Teologia de Tillich à luz da Semiótica de Peirce). Hans Küng diz que apenas Edward Schillebeeckx o fez. Bonhoeffer disse que o faria - mataram-no. Nós, brasileiros, quem? O século XIX para nós é alguma coisa entre o século do diabo ou dos "ingênuos" crítico-materialistas... De lá sacamos a reação e o ácido sulfúrico da corrosão dos fatos... Ou seja: o que nos interessa. Bonhoeffer, não - ele bebe a losna e o fel. Deus do céu, ele vê, ele diz - e agora? E isso quando está a um ano da morte... Ele viu que havia mais coisa morta do que apenas seu corpo, às vésperas dela...

9. Não sei o que sairia de sua Teologia. Ficou a enigmática fórmula, inacabada, não explicitada: "cristianismo a-religioso num mundo tornado adulto". Talvez Vattimo pense seguir por aí - ao preço de dissolver a realidade com seu frasquinho alquímico de ácido sulfúrico, convertendo tudo em "interpretação" - que é tudo, menos levar a sério o XIX. Estremece-me o espírito em pensar no enfrentamento da tarefa, talvez inimaginável para a Baixada Fluminense. Todavia, é o cheiro da pulsão de morte que me move. Alguém tem de terminar a tarefa, e não na forma das negociações que empreenderam Tillich, Bultamann e os demais teólogos - como manter o mesmo, no novo... Não, é como o velho se faz nesse novo, se faz e se refaz, se desfaz, se transfaz.

10. Para mim, uma Teologia no MEC só pode ser pós-bonhoefferiana. Uma Teologia no MEC, a meu ver, tem de voltar àquela cela, recolher as anotações, e pôr-se em marcha, tendo diante de si um mundo adulto, não uma platéia hipnotizada pelo mito. É com o contra-Olimpo, o contra-Seir/Sinai, o contra-Gólgota, que a Teologia, no MEC vai dialogar. Sentar no chão, não nas nuvens. Varar os tímpanos com gravetos de árvores, para não mais ouvir cânticos de anjos - nem de diabos. Diabos - bastem-nos aqueles do século XIX...

11. Alguém vai encarar? Se não, sai da frente, que lá vou eu...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 21 de abril de 2009

(2009/202) Má vontade?


1. Não perdi, ainda, a capacidade de refletir sobre minhas atitudes de fundo, as quais controlam, quantas vezes inconscientemente, minhas reflexões. Que parte de mim, quais dos meus eus, de fato, pensam assim, escrevem assim, dizem isso? Fico sempre muito temeroso de ter pensado errado, escrito errado, dito errado. Acho que morrerei experimentando essas sensações alguma coisa entre desagradáveis e necessárias.

2. Perguntei-me sobre uma provável má vontade de minha parte em relação a trabalhos como o de J. Harold Ellens. Então, retornei ao seu livro The destructive power of religion. Reli sua "Conclusion" (p. 254). O que ali se pode encontrar não deixa de ser teologia, mas aproxima-se muito mais de um sistema filosófico-religioso que eu descreveria como um "teísmo filosófico".

3. Nos termos dessa concepção, "Deus", teisticamente compreendido, é axiomático. Ainda que retoricamente baseado nas Escrituras Cristãs, na prática faz-se passar o conjunto das narrativas por um filtro filosófico-religioso, de constituição fundamentalmente helênica (platônica, é melhor dizê-lo), de modo que resulta daí uma formulação bastante refinada de um "Espírito-Deus", nos moldes de um teísmo filosófico moderno.

4. O mito que está por trás desse refinamento abstrativo-filosófico é o mesmo mito criacionista cristão, mas a compreensão de "Deus", aí, recorre às formulações intelectualizadas de uma racionalização em estilo greco-platônico. Pode-se, com isso, antepor essa configuração de "Deus" a toda materialização cultural da fé consignada nas Escrituras. Onte se lê Yahweh, entenda-se esse Deus. Onde se lê Theos, leia-se esse Deus. Salte-se dessas configurações histórico-culturais para a apreensão filosófico-teológica de "Deus", e, por meio dela, acessem-se os conteúdos histórico-culturais das Escritureas por meio de uma chave extra-temporal, metafísica, capacitada para transladar da dimensão humana e circunstancial para uma dimensão divina e eterna. O que era um construto da cultura róximo-oriental, transforma-se num axioma platônico-teológico a-histórico e supracultural.

5. Não se está fazendo outra coisa do que "teologia", aí, de um tipo "sofisticado", se com sofisticado queremos nos referir a um determinado modo cultural (de estilo "ocidental") de fazer, modernamente, teologia. No entanto, não se pode pegar nada aí com a mão, porque tudo escorrega, escapa, escapole, se você tenta pegar algo de concreto. É sempre por meio de um espírito sacerdotal que se pronuncia esse teólogo, portador de uma revelação sempre proposta - e, nesse caso, não hpa difrenla entre aquele fundamentalista rançoso, aquele evangelical inculturado e esse teólogo refinado e racionalizado. Também não há nada de concreto, aí. O axioma é ideológico. O método, performativo, imaterial, alegórico. O resultado, abstrato. Nada se pode pegar, nada, refutar.

6. Uma exegese histórico-crítica pode ser fiscalizada. Se for competente (mas qualquer um o pode ser), você pode denunciar uma operação equivocada, negligente, negativamente ideológica, de uma ferramenta qualquer da caixa de ferramentas histórico-críticas. Você pode controlar o resultado dessa exegese, controlando o seu processo. Qualquer um pode fazê-lo, e, quando o faz, deve fazê-lo, porque os procedimentos são refutávéis. Uma teologia daquele tipo - como de resto, toda teologia clássica, não. Tudo ali é retórico, apologético, catequético, axiomático, apriorístico - normativo, até. Sobretudo, racionalizado.

7. É diante desse recorte, dessa característica, da teologia, que tenho, sim, má vontade. Não é "pessoal". Não tem nada a ver, diretamente, com J. Harold Ellens ou qualquer outro teólogo moderno e sofisticado. É desse jeito platônico de dizer coisas que aprendi a desgostar, adquirindo uma intolerância - patológica? - a qualquer mecanismo retórico (racionalização é o nome) que o utilize. E a teologia, até hoje, não aprendeu a fazer outra coisa que não o que Platão ensinou, mesmo quando, com Bultmann, chamou-se existencialista, e, com Tillich, fenomenológica. Era nada, era sempre a mesma boa e velha teologia de nossos velhos pais da tradição. Ou nos fazemos parricidas, ou vamos patinar nessa lama até a morte.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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