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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

(2009/541) Anotações sobre Jean Louis Ska


1. Trata-se do livro Metodologia do Antigo Testamento, que adotei na disciplina de Metodologia Exegética do Antigo Testamento. O livro tem uma curiosidade - ele trata quatro grandes abordagens epistemológico-metodológicas com nomes interessantes: diacronia, acronia, sincronia e anacronia. Comete um erro, me parece, ao classificar tais abordagens como "metodologias", ferramentas. Não são, são postulados epistemológicos.

2. Explico. Entre o leitor e as Escrituras, não há um vácuo. Quanto ao "uso" das Escrituras, há, aí, uma intencionalidade pragmática, que se traduz em pressuposto epistemológico, ao qual estão associados, aí sim, métodos. Se eu quero saber "o que foi", faço diacronia. Se eu quero saber "o que pode ser", faço sincronia. Se eu quero determinar "o que deve ser", faço anacronia. Se eu desejo saber "como funciona", faço acronia.

3. Diacronia trabalha no tempo do escritor. Sincronia, no tempo das personagens. Anacronia, no tempo do leitor. Diacronia é investigação crítica. Sincronia, percepção estética. Anacronia, tradição normativa. Acronia é supressão de tempo e de sentido.

4. Cada uma dessas abordagens possui sua própria caixa de ferramentas, as quais, contudo, podem ser compatilhadas, ocasião em que passam a operar não mais nos termos do pressupsoto epistemológico de origem, assumindo, nessa nova situação, as sobredeterminações do novo "olhar".

5. Método é "caminho escolhido". Mas só há caminho escolhido depois de se escolher o destino. Logo, primeiro você escolhe o destino (intenção/abordagem). Só depois você, então, submete-se aos métodos tradicionais, ou cria novos, relacionados ao destino por você escolhido. Há liberdade na escolha do destino (abordagem). Uma vez, contudo, usada essa liberdade, escolhido o destino, os caminhos já estão inicialmente traçados.

6. Não há como dizer, a priori, de forma "ideal", qual a abordagem melhor ou certa. Isso depende. Do quê? Ora, da sua intenção. Se você me pergunta: qual a melhor abordagem?, eu digo: para quê? O que é que você quer fazer exatamente? Se é saber o que o autor disse, só existe uma possível - diacronia. Usar outras é erro grosseiro. Se o que se deseja é a experimentação estética das narrativas, sincronia (seria uma alternativa pacificadora para a pastoral). Se o que se quer é a manutenção da verdade normativa e dogmática, anacronia. Aonde você quer ir? A Paris. E como vai? Andando. Bem, andando, não vai, não. Entende? Há um mar entre você e Paris - só de navio ou avião...

7. Ora, Jean Louis Ska escreveu sobre sincronia. Na p. 47, ele escreveu: "esses diferentes modos de praticar a exegese muito mais se completam do que se excluem". Bem, sim e não. O não - e um não bem vistoso - é: se estamos falando de abordagens (e estamos!), elas não são complementares, não - são mutuamente excludentes. Agora, se falamos das caixas operacionais de cada uma delas (crítica das fontes, sintaxe, análise do discurso, narratologia etc.), aí, sim, são complementares.

8. Na seqüência, ele ainda afirma: "(o exegeta) examina longamente o material a trabalhar e só depois escolhe os instrumentos mais adequados para o trabalho que deve realizar". A formulação não está adequada, me parece. Não é o "exame longo" do "objeto de trabalho" que revelará ao exegeta as ferramentas adequadas. Próximo-positivista a declaração, conquanto, eventualmente, não tenha sido exatamente essa a intenção de Ska.

9. O "objeto de trabalho", aparentemente, é o mesmo, em cada abordagem. Mas, na realidade, não. Para a diacronia, o objeto de trabalho não é a Bíblia, mas cada narrativa, cada "perícope", situada em seu contexto histórico-social. Para o sincrônico, a narrativa, isolada de seu contexto de origem, com o que ele se aproxima do leitor acrônico. Para o anacrônico, o objeto de trabalho é a releitura traditiva da narrativa bíblica.

10. Importa: é a intencionalidade e a abordagem do leitor que - atenção! - "cria" o objeto de trabalho. Conquanto cada um esteja diante da Bíblia, cada um tem, diante de si, uma "coisa" diferente, construída pelo recorte intencional/pressuposicional de sua abordagem. Logo, não é o exame longamente aplicado ao texto, mas a opção apriorística de como olhar para ele que determina a metodologia, nesse caso, sim, concordemos, mais adequada.

11. O pecado maior que vejo nos livros de exegese, nas aulas de exegese, nas práticas de exegese, é que se corre a praticar, sem, antes, confessar-se, evantualmente, até, sem reconhecer-se, sob que jogo, sob que pressuposto epistemológico, sob que abordagem. Método é conseqüência. Uma aula de metodologia com(o) receita de bolo só tem alguma validade - se tem alguma - quando o ambiente epistemológico em que a receita é aplicada está muito, absolutamente claro. Para quem não assume tal ambiente, a receita não tem valor nenhum, não serve para nada.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
PS. Horácio Simian-Yofre e outros. Metodologia do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2000.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

(2009/533) Simples assim


1. O problema da Teologia Sistemática é um só - ela quer dizer-se bíblica, por força das circunstâncias (Lutero, século XVI e Vaticano II, século XX), mas não resiste à meia hora de confronto com o texto bíblico - se não usar suas próprias armas. No campo onde vige a Exegese, não cresce um ramo de Sistemática. Por isso, terá de eternamente inventar modos de dizer-se bíblica, sem o ser...

2. Toda a Teologia Sistemática, católica, ortodoxa ou protestante, é fruto da Histórica Cristã, elaborada pela força da história da recepção de textos bíblicos em contextos totalmente dissociados dos pronunciamentos originais, recepção essa materializada de modo político e alegórico-cristológico. Logo, não há a menor chance, qualquer que seja, de a Teologia sustentar-se biblicamente - salvo por meio de um fundamentalismo biblicista irracional, mas racionalizador (o "caso" estadunidense), ou por meio de relativizações hermenêuticas programaticamente estabelecidas para a defesa desse dizer tradicional (o "caso" europeu).

3. Resta à Teologia, para continuar a dizer o que vem dizendo há dois mil anos, destruir sua assassina - a modernidade. Assim, passarão a conviver duas Teologias Sistemáticas no mercado, cada qual conforme o modus operandi do crime: uma, fundamentalista, de estilo barthiano, dogmática e pré-moderna, medieval, que assassina a critica e a exegese pela força da autoridade. Outra, "hermenêutica", metafórica, pós-moderna, pós-crítica, que assassina a crítica e a exegese pela força da relativização dos discursos. Simples assim.

4. O comum entre elas? O controle homilético das massas. E, naturalmente, a supressão do espírito crítico, encarnado na Exegese. É que uma coisa dá na outra... Se assim se faz na cátedra, o que não se estará fazendo no púlpito...!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/531) A Sistemática respira aliviada...


1. Ainda não foi nem vai ser dessa vez - se o será um dia... Desde que Lutero pôs na cabeça a malsã idéia de deixar a Bíblia à mão dos leigos que a Teologia Sistemática e a assim nascente Exegese tornaram-se irreconciliáveis. Até então, e, na prática, também daí pra frente, a Bíblia sempre foi interpretada de acordo com a doutrina. Mesmo depois de Lutero. Mesmo por Lutero. Nunca, em nenhum lugar institucional, a Bíblia foi interpretada segundo as regras histórico-críticas.

2. Regras essas, no entanto, que o fato de a Bíblia ter sido posta à mão dos leigos suscitou. Foi a própria Igreja, tomada aí como estudiosos dentro dela, que inventou o método histórico-crítico. Mas essa invenção assumiu aparências diferentes, conforme fosse o método operado, seja na Igreja, seja na Univrsidade, ora por "religiosos comprometidos", ora por pesquisadores, ainda que religiosos, não tão comprometidos assim com a "tradição" normativa.

3. Os protestantes dominaram os séculos da Exegese, e também eles levaram-na a separar-se irremediavelmente da Teologia. Há mais ou menos 225 anos, se tomarmos 1787 como data didática, que Exegese, Teologia Bíblica e História da Religião de Israel tornaram-se um continente que muito pouco dialoga com a Teologia Sistemática, Dogmática ou Fundamental. Os protestantes racharam não apenas a Igreja (que fragmentaram até não mais poder - mas sempre se pode mais), mas, também, a própria Bíblia - agora cortejada, de um lado, pela Teologia, e, de outro, pela Exegese.

4. Os católicos começaram a entrar na briga por volta da década de 1940, com a Divino Aflante Espírito, e, após o Vaticano II, com a Dei Verbum, que, na década de 90, consubstancia-se na forma de "manual", no livrinho A Interpretação da Bíblia da Igreja. A orientação para a leitura por meio do método histórico-crítico fora uma surpresa - nenhuma Igreja do planeta, nenhuma, ousara afirmá-lo. Pelo contrário, as Igrejas apavoram-se - e com razão - diante da metodologia histórico-crítica. Roma, contudo, mandava que seus fiéis o usassem na leitura das Sagradas Palavras...

5. Todavia, parece que as coisas vão voltar para o lugar. Eis um trecho do comunicado de Sua Santidade, o papa Ratzinger, ano passado, a respeito justamente desse tema:

La "Dei Verbum" 12 ofrece dos indicaciones metodológicas para un adecuado trabajo exegético. En primer lugar, confirma la necesidad de la utilización del método histórico-crítico, cuyos elementos esenciales describe brevemente. Esta necesidad es la consecuencia del principio cristiano formulado en Juan 1, 14: "Verbum caro factum est". El hecho histórico es una dimensión constitutiva de la fe cristiana. La historia de la salvación no es una mitología, sino una verdadera historia y, por lo tanto, hay que estudiarla con los métodos de la investigación histórica seria.

Sin embargo, esta historia posee otra dimensión, la de la acción divina. En consecuencia la "Dei Verbum" habla de un segundo nivel metodológico necesario para la interpretación justa de las palabras, que son al mismo tiempo palabras humanas y Palabra divina. El Concilio dice, siguiendo una regla fundamental para la interpretación de cualquier texto literario, que la Escritura hay que interpretarla en el mismo espíritu en el que fue escrita y para ello indica tres elementos metodológicos fundamentales cuyo fin es tener en cuenta la dimensión divina, pneumatológica de la Biblia: es decir se debe 1) interpretar el texto teniendo presente la unidad de toda la Escritura; esto hoy se llama exégesis canónica; en los tiempos del Concilio este término no había sido creado aún, pero el Concilio dice la misma cosa: es necesario tener presente la unidad de toda la Escritura; 2) también se debe tener presente la viva tradición de toda la Iglesia, y finalmente 3) es necesario observar la analogía de la fe.

Sólo allí donde los dos niveles metodológicos, el histórico-crítico y el teológico, son observados, se puede hablar de una exégesis teológica - de una exégesis adecuada a este Libro. Mientras que con respecto al primer nivel la actual exégesis académica trabaja a un altísimo nivel y nos ayuda realmente, la misma cosa no se puede decir del otro nivel. A menudo este segundo nivel, el nivel constituido por los tres elementos teológicos indicados por la "Dei Verbum", casi no aparece. Y esto tiene consecuencias más bien graves.


6. Nos termos em que o Papa põe a questão, pode-se usar o método histórico-crítico, desde que seja submetido ao controle da fé, que é o que se deve entender pelo "retorno" da consideração hermenêutica do "divino" no texto. Ora, uma vez que se parte de uma leitura sobrenatural da Bíblia, o método torna-se imprestável. O método chama-se histórico-crítico, justamente porque aplica os critérios críticos da historiografia moderna aos textos constitutivos das Sagradas Escrituras. Ora - o que Ratzinger chama de "exegese canônica" e "analogia da fé" simplesmente inviabiliza completamente qualquer crítica conseqüente, reservando-a apenas àquelas narrativas que convém ao "sistema" criticar. Já se vinha namorando esse "cannocical approach" nos Estados Unidos e na Alemanha - em ambiente "protestante". A tendência tornou-se romana, agora...

7. Cedo demais Ratzinger se pronuncia. É o indicativo de que não vai ser dessa vez, a despeito de um Concílio, que as Escrituras serão, finalmente, lidas à luz de seu próprio contexto, cada narrativa em seu lugar. O "cânon", a "tradição", a "fé", ainda que sejam vários e várias!, essas injunções manipuladoras, permanecerão praticando a preservação de um cadáver doutrinário, e escondendo a História viva por debaixo de tanto mofo e bolor.

8. De minha parte, lamento, mas nem se me dá. Há muito não me pauto por clero algum, seja católico, seja protestante. Há muito tento, no limite de minhas forças e no contexto de minhas limitações (poucas, aquelas, muitas, estas), compreender histórico-criticamente a Bíblia. Vejo nesse pronunciamento papal apenas o sinal de que Lutero fora, afinal, bastante católico em seu gesto: lá, um livre-exame cínico e de faz-de-conta; aqui, um método histórico-crítico castrado e silenciado. Nos dois casos, um tapa na cara da história. Mais uma razão para não se ver sentido algum na separação dos cristãos - somos todos, afinal, da mesma índole...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 21 de abril de 2009

(2009/202) Má vontade?


1. Não perdi, ainda, a capacidade de refletir sobre minhas atitudes de fundo, as quais controlam, quantas vezes inconscientemente, minhas reflexões. Que parte de mim, quais dos meus eus, de fato, pensam assim, escrevem assim, dizem isso? Fico sempre muito temeroso de ter pensado errado, escrito errado, dito errado. Acho que morrerei experimentando essas sensações alguma coisa entre desagradáveis e necessárias.

2. Perguntei-me sobre uma provável má vontade de minha parte em relação a trabalhos como o de J. Harold Ellens. Então, retornei ao seu livro The destructive power of religion. Reli sua "Conclusion" (p. 254). O que ali se pode encontrar não deixa de ser teologia, mas aproxima-se muito mais de um sistema filosófico-religioso que eu descreveria como um "teísmo filosófico".

3. Nos termos dessa concepção, "Deus", teisticamente compreendido, é axiomático. Ainda que retoricamente baseado nas Escrituras Cristãs, na prática faz-se passar o conjunto das narrativas por um filtro filosófico-religioso, de constituição fundamentalmente helênica (platônica, é melhor dizê-lo), de modo que resulta daí uma formulação bastante refinada de um "Espírito-Deus", nos moldes de um teísmo filosófico moderno.

4. O mito que está por trás desse refinamento abstrativo-filosófico é o mesmo mito criacionista cristão, mas a compreensão de "Deus", aí, recorre às formulações intelectualizadas de uma racionalização em estilo greco-platônico. Pode-se, com isso, antepor essa configuração de "Deus" a toda materialização cultural da fé consignada nas Escrituras. Onte se lê Yahweh, entenda-se esse Deus. Onde se lê Theos, leia-se esse Deus. Salte-se dessas configurações histórico-culturais para a apreensão filosófico-teológica de "Deus", e, por meio dela, acessem-se os conteúdos histórico-culturais das Escritureas por meio de uma chave extra-temporal, metafísica, capacitada para transladar da dimensão humana e circunstancial para uma dimensão divina e eterna. O que era um construto da cultura róximo-oriental, transforma-se num axioma platônico-teológico a-histórico e supracultural.

5. Não se está fazendo outra coisa do que "teologia", aí, de um tipo "sofisticado", se com sofisticado queremos nos referir a um determinado modo cultural (de estilo "ocidental") de fazer, modernamente, teologia. No entanto, não se pode pegar nada aí com a mão, porque tudo escorrega, escapa, escapole, se você tenta pegar algo de concreto. É sempre por meio de um espírito sacerdotal que se pronuncia esse teólogo, portador de uma revelação sempre proposta - e, nesse caso, não hpa difrenla entre aquele fundamentalista rançoso, aquele evangelical inculturado e esse teólogo refinado e racionalizado. Também não há nada de concreto, aí. O axioma é ideológico. O método, performativo, imaterial, alegórico. O resultado, abstrato. Nada se pode pegar, nada, refutar.

6. Uma exegese histórico-crítica pode ser fiscalizada. Se for competente (mas qualquer um o pode ser), você pode denunciar uma operação equivocada, negligente, negativamente ideológica, de uma ferramenta qualquer da caixa de ferramentas histórico-críticas. Você pode controlar o resultado dessa exegese, controlando o seu processo. Qualquer um pode fazê-lo, e, quando o faz, deve fazê-lo, porque os procedimentos são refutávéis. Uma teologia daquele tipo - como de resto, toda teologia clássica, não. Tudo ali é retórico, apologético, catequético, axiomático, apriorístico - normativo, até. Sobretudo, racionalizado.

7. É diante desse recorte, dessa característica, da teologia, que tenho, sim, má vontade. Não é "pessoal". Não tem nada a ver, diretamente, com J. Harold Ellens ou qualquer outro teólogo moderno e sofisticado. É desse jeito platônico de dizer coisas que aprendi a desgostar, adquirindo uma intolerância - patológica? - a qualquer mecanismo retórico (racionalização é o nome) que o utilize. E a teologia, até hoje, não aprendeu a fazer outra coisa que não o que Platão ensinou, mesmo quando, com Bultmann, chamou-se existencialista, e, com Tillich, fenomenológica. Era nada, era sempre a mesma boa e velha teologia de nossos velhos pais da tradição. Ou nos fazemos parricidas, ou vamos patinar nessa lama até a morte.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/199) Resposta às Quinze Perguntas de Adolf von Harnack - VIII (pergunta seis)


1. Depois de vencido o primeiro terço da caminha no esforço de responder às quinze perguntas de Adolf von Harnack, é pegar as bagagens e dar conta do segundo terço. Assim traduzo a questão seis, de Harnack: "se Deus e o mundo (vida em Deus e vida no mundo) são completamente opostos, como é que a educação na piedade, que está em Deus, tornou-se possível? Mas como a educação é possível sem conhecimento histórico e a mais alta valorização da moralidade?" (1).

2. Mais uma vez, Harnack discute a questão a partir da plataforma teológica. Seu argumento é: se o mundo de Deus é tão distinto do mundo humano, não se explica como um possa envolver-se com o outro. Daí que opta pelo mundo humano, para, nele, enconrar o mesmo mundo de Deus, mas humanizado - "liberalizado". À "piedade" (do mundo de Deus, "goodness") segue-se a "moralidade", do mundo humano. Com efeito, na prática, medidas as atitudes, os comportamentos, a moralidade é a contraparte secular, humana, liberal, da piedade. Basta que sejam suprimidos os ritos e os anexos teológicos das rotinas da piedade para que se obtenha um conjunto de práticas naturalmente morais, o núcleo significativo da piedade é a própria moralidade.

3. Trata-se de um modo de argumento relativamente comum à teologia situada na ala mais crítca do espectro teológico. Recentemente, o exegeta histórico-crítico católico-romano, Simian-Yofre, empregou-o, quando discutia o conceito de "Palavra de Deus" em relação ao texto da Bíblia Hebraica. Dada a sua argumentação, bem como sua ideologia, ele, acertadamente, questiona: "se a profundidade da palavra de Deus não está presente na palavra humana, de que serve a Escritura?" (2). A rigor, para sustentar, com a imagem dos termos grafados, a eisegese alegórica que a teologia precisa aplicar à letra morta do passado, vertendo-a em sentidos apropriados à sua própria configuração ideológico-doutrinária. Simian-Yofre sabe disso - na verdade não se trata de uma "pergunta", mas de uma denúncia.

4. Ele dirá, na conclusão: "parece haver, na base dessas formulações e posturas, uma filosofia da justaposição sem chegar à integração (...). O autor humano e o autor divino, o texto de um e o 'não-texto' do outro, permanecem lado a lado, quase sem se tocar, tornando-se assim, inútil o esforço para ler o primeiro (porque isso não nos permite chegar à Palavra divina) e inatingível o modo (espiritual, místico?) de interpretar o outro, que parece não poder exprimir-se com algum método" (3). Não se dá o mesmo entre "piedade" e "moralidade", nos termos em que colocava a questão, à época, Harnack? Vejamos: a) se a piedade não é propriamente humana, mas divina, b) se a vida em Deus não é a mesma coisa que a vida humana, c) se a educação humana não prescinde da história e da cultura, d) como educar o homem, sem história e sem moralidade, de um jeito que a isso se pudesse chamar de "piedade"? Ou a educação humana é inútil, ou a educação humana e a piedade são a mesma coisa...

5. Em termos políticos, estratégicos e didáticos, o que tanto Harnack quanto Simian-Yofre denunciam é uma disfunção cognitiva própria do poder religioso, onde quer que ele se encontre. Nada há, sob nenhuma circunstância, nas religiões e nas teologias, que não seja humano. A piedade não é divina, é humana. O êxtase? Humano. A liturgia? Humana. A mísica? Humana. Tudo é humano. Nada é não-humano. De modo que, com Simian-Yofre, faz todo sentido "descer" a "Palavra de Deus", em regime teológico, até a "palavra humana" - o que os homens e, eventualmente, as mulheres escreveram na Bíblia Hebraica, aquele sentido com que se expressaram, isso é, precisamente, a "Palavra de Deus". Nos termos de Harnack e de sua teologia liberal, a mais refinada moralidade humana, a "civilidade" ocidental, a ética, as regras sociais de relação, eis aí, ao mesmo tempo, a vida humana e a vida possível "em Deus".

6. Diria que essa percepção de Harnack, bem como a de Simian-Yofre, sejam conseqüências da aplicação irrestrita de um princípio cristológico particularmente caro à tradição protestante: a encarnação. A melhor civilização humana possível equivale à melhor configuração possível da encarnação, de modo que não apenas passa a não haver mais conflito entre a vida humana e a vida "em Deus" (quanto mais humana, mais encarnada, mais divina), acessada por meio da "quenosis", da "encarnação": além da superação do conflito subjacente à teologia teísta, essa peculiar reflexão protestante assume a vida humana como a vida "em Deus" possível e adequada ao cristão moderno.

7. A exegese histórico-crítica, ferramenta humana e moderna, constitui a chave de acesso à "Palavra de Deus", já que essa "Palavra de Deus" faz-se idêntica à palavra humana, tendo assumido também essa forma histórica - é o raciocínio de Simian-Yofre. A moral, a ética, expressão civilizatória humana, constitui a chave para a expressão da "vida em Deus" possível ao homem moderno. Na prática, a exegese de Simian-Yofre e a moralidade de Harnack torna plenamente dispensáveis até o "mito" da "Palavra de Deus" e da "vida em Deus", na medida em que elegem a dimensão humana como sendo aquela única possível ao homem moderno - o humano, isso é o divino possível...

8. No entanto, seu argumento é, ainda, teológico, porque ainda estão expressando o valor, seja da "palavra humana", seja da "vida humana", com base no valor que ambas adquirem pelo fato de constituirem, enquanto expressões humanas, também a expressão do divino. Há, certamente, um esforço de superar a dicotomia disjuntiva - a separação insuperável -, própria da teologia "sacerdotal", isto é, metafísica e ontológica, presente no discurso da relação entre "palavra humana" (texto) e "Palavra de Deus" (revelação), entre "vida humana" e "vida em Deus", esforço esse distendido na direção de trazer para baixo - quenosis - a dimensão superior da teologia.

9. Permitam-me arriscar-me a dizer que se trata, ainda, mas nos seus próprios termos e geografias, de operação comparável à de Lévinas, de "trazer" para baixo o "Outro", tornando-o manifesto na "face do outro", conquanto esse "outro", que olho, interessa-me na medida em que é o espelho do "Outro" - o "sentido" do outro, o atrator no outro, não é o "outro" em si, mas o "Outro" que posso ver nele. Talvez se trate, no entanto, apenas de retórica. Talvez Harnack e Simian-Yofre estejam selecionando argumentos que sejam válidos para uma "platéia" cristã, e que, eventualmente, precise de "acreditar", ainda, que há alguma coisa de "divino" (no sentido do "velho" conceito) no humano, e que o valor desse humano é que é assim que ele é divino: ou seja, se a platéia só tem olhos para um divino, fazer do humano esse divino é uma estratégia de adestrar a consciência dessa platéia a dedicar-se àquele humano, ainda que assim o faço por força de creditar a esse humano um status de sacramento. Feuerbach foi - e voltou.

10. O que fica de irrecusável, em Harnack, é a sua declaração de que não há educação possível que não seja constituída de história e moralidade. Todo o "tu deves" da piedade constitui um "tu deves" humano, histórico e moral. A educação, toda, mesmo a "mística" (não se vê os modernos congressos de espiritualidade? Ao final, as pessoas continuarão humanas, com atitudes e comportamentos absolutamente humanos, por mais excêntricos, esdrúxulos e esquizofrênicos que sejam - é o "congressista" quem dirá, e a "platéia" há de crer, que se trata, aí, de "piedade" não-humana, chancelada por Deus e tudo), nada mais é do que prática humana confeitada de retórica teológica. Mesmo o sentimento, a emoção...

11. Penso que ainda não é o suficiente. O caminho é esse, mas não pára aí. No ponto em que ele se encontra, uma plataforma quase-mas-não-ainda-feuerbachiana, o argumento quenósico deveria ser transformado em argumento científico-humanista feuerbachiano: não há nenhuma possibilidade (nem a doutrina da revelação [Barth é um prestidigitador, mas exige uma platéia atormentada], nem a prática da mística, nem o rito, nem o mito, nem os mistérios, nem o esoterismo) de o homem fugir à sua condição humana, e mesmo as "religiões", todas, até a "nossa", disso não passa. Depois desse banho de água fria, muito, muito fria, o espírito humano poderia retornar à sua relação com os mitos, livre, contudo, do poder de os mitos fazerem-se passar por conhecimento mais confiável do que o bom senso.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Adolf VON HARNACK, Fifteen Questions to the Despisers of Scientific Theology, Christliche Welt, 11 de janeiro de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 86.
2. Horácio SIMIAN-YOFRE (coord.), Metodologia do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2000, p. 20.
3. Idem, p. 20.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

(2009/195) A boa exegese

1. Assim é a boa exegese, e, como boa, quero dizer, necessariamente, a histórico-social, a rigor, histórico-crítica: você sabe onde está entrando, só não sabe como vai sair...

OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 20 de março de 2009

(2009/094) Verdade e poder


1. Haroldo disse: "verdade é questão de poder" (Haroldo Reimer, (2009/091) Interpretação e Verdade, § 7). Entendo sua afirmação. Em seu contexto, ela estabelece um juízo sobre a "história" que ele narra, para ilustrar o modo com a "verdade" é construída, retoricamente. A despeito de eu apostar minhas fichas na afirmação de que a história é falsa e montada, ela ilustra bem o que Haroldo quer dizer com a afirmação. No entanto, o parágrafo seguinte põe as coisas em seu devido lugar: "Somente a pesquisa indiciária consequente é capaz de evidenciar as falácias das verdades 'estabelecidas'" (Haroldo Reimer, loc. cit., § 8).

2. Mas, não - a verdade não é uma questão política, não. É verdade, sim, que a política, em todas as suas expressões históricas, acaba por apropriar-se dos mecanismos retóricos da construção do que ela, a política, pretende seja assumido como "verdade". Mas, a despeito de ser eventualmente bem sucedida, a retórica política produz tão somente uma fraude, possivelmente desmascarada pelo que Haroldo mesmo chama de pesquisa indiciária - veja o caso famoso da Doação de Constantivo, ou, em outro campo, o exemplo da leitura "cristológica" da Bíblia Hebraica, insustentável fora da operação alegórico-teológica da Tradição, o que o demonstra cabalmente, sem sofismas, a boa exegese histórico-crítica (histórico-social).

3. A verdade é, antes, uma questão de correlação heurística entre objetos. A relação sujeito/sujeito (estética) não gravita em torno da noção de verdade. A relação sujeito/outro (política) não gravita em torno da noção de verdade. É a relação sujeito/mundo - objeto/objeto (heurística) - que estabelece o princípio da verdade - o princípio da adequação. Não vem ao caso se a verdade, nesse caso, constitui-se, também, de um quadro conceitual-representacional antropológico. O que vem ao caso é que o âmbito pragmático da verdade é a heurística, não a estética, muito menos a política.

4. Logo, é apenas em sentido fenomenológico - denúncia! - que se pode dizer que a verdade é uma questão de poder. E a própria denúncia, constituindo uma correlação entre objetos, é, em si, verdadeira: o poder subverte a verdade, instrumentaliza-a, degrada-a. Nas condições éticas presumíveis do descortinamento da verdade, e verdade verdadeira, verdade heurística, ela, a verdade, não tem relação com o poder - ao menos não o poder político. É a pesquisa, a capacidade investigativa, o manejo das teorias e dos métodos o plano no qual a verdade opera.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

(2008/51) Da palavra-discurso


1. A palavra usada, escrita ou falada, é um ponto na superfície de uma bolha - pode-se imaginar uma boa bola de sabão! Se você tirar um pequeno ponto dessa superfície, a bolha estoura - puf! Aqui, você tem a bolha de sabão, agora, puf!, não tem mais.

2. Há outro aspectro da palavra que se pode esclarecer por meio da mesma metáfora: é preciso, sempre, reconstruir toda a bolha, para saber-se algo da palavra que se encontra, hologramaticamente, na superfície dela. Não há absolutamente nenhuma semelhança entre a palavra "lealdade", quando numa bolha, e a palavra "lealdade", num dicionário. A palavra usada é aquilo que a bolha em que ela é usada faz com que ela seja. E não outra coisa.

3. Isso significa que, em termos exegéticos - adorei, Haroldo: em termos histórico-sociais com viés fenomenológico (quando eu empregar o termo histórico-crítico é a isso que me refiro), definitivamente, trata-se, sempre, de reconstruir a bola de sabão, de cuja reconstrução depende, inexoravelmente, o sentido de cada palavra, de todas elas, do conjunto delas. Não se trata de ouvir a palavra, mas de ouvir o evento.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

(2008/42) Reagindo ao post 2008/42, de Haroldo

1. Mas, ah, meu amigo Haroldo, estávamos falando de Teologia, não de Exegese. Quero dizer, o tema sob foco, o debate, a ágora, que Marcel Dettiene diz eram, também, as próprias palavras em combate, tanto quanto os combatentes e o lugar público do debate, nossa ágora, então, era a Teologia. Não a Exegese.

2. A Exegese, a meu ver, está resolvida. Sabe-se e faz-se ciência. Não estou falando da "leitura" dos textos, propriamente, porque há muita, muita, mas bota muita e muita "leitura" por aí que nada tem de Exegese, de modo que, por menos politicamente correto, ao menos de menos adequado ao gosto e à etiqueta pós-modernos, temos de diferenciar os gatos, ainda que pardos. Mas a Exegese que você - de forma rigorosamente adequada -, corrigindo-me, chama de exegese histórico-social com recorte fenomenológico constitui uma prática controlada, crítica, metodológica, rigorosa, adequada ao espírito da academia, universal, falseável, logo, testável. Para mim, nada há de mais importante do que a Exegese - se estamos falando de "textos". Todo o resto, em relação a isso, é desdobramento. Ou erro.

3. Desde já coloco-me na fila para ler o primeiro volume da tradução que faz. Irretocável o trecho que você transcreveu. Vejo-me lá dentro, em cada detalhe. Que faço, tendo escolhido como locus exegético os séculos VI e V de Judá, olho do processo ideológico e programático mais bem sucedido de que a humanidade já foi alguma vez informada - ainda que por meio de acontecimentos históricos que a própria Judá e seus mitólogos não podiam sequer imaginar - além de denunciar as nossas comtemporâneas e próprias opressões? Se não me engajo socialmente, engajo-me, a meu modo, na denúncia do poder. Disso tenho ciência - não há aula minha sem dor. E esse retorno à Exegese, quando já ia eu para a Filosofia, devo-a a você - tu sabes!

4. Sim, sim, ler a história como quem nada contra a corrente - mas também a nossa própria, a protestante! Muito fácil denunciar a impostura judaíta. Nada, nada difícil denunciar Nicéia. O mais difícil é enxergar o mesmo em nosso quintal. E não o há? Há - sabemos. O preço é não fecharmos os olhos jamais. Nós, protestantes, parimos a crítica - que orgulho! Mas também nós parimos a contra-crítica - que vergonha! Fique à vontade para dizer que "não me conhece" - mas Barth nos fez perder cem anos!

5. Mas corrijo o rumo de nossa prosa, de nossa agonística ágora - é da Teologia, essa presunçosa criatura humana, era dela que falávamos, e era dela que eu dizia que, enquanto confessional for, é impostora, se está onde não pode haver confissão. Quer-se confessional, arrebanhe ovelhas, as bestas de carga, que foi assim, ou de algo assim, que Nietzsche, por isso, assim nos chamou. E por quê? Por causa das cargas que deixamos pôr em nossos ombros, quando não nós mesmos as pomos nos dos outros, tanto faz, cristão é gente que gosta de canga, e, as mais das vezes, apavora-se quando pressente que o peso se lhes arrisca sair do costado. Mas há algo de perverso em dizer isso, porque, a rigor, aprenderam que assim deve ser, coitados, e são boa gente - bovina gente. Foi mesmo Deus quem lhas ensinou assim.

6. E eis a questão - como a Exegese pode ser crítica, deve ser crítica, o é, fez-se e faz-se histórico-social, fenomenológica, logo, iconoclasta - "escrever a história a contrapelo!" - e, contudo, como?, a Teologia, que lhe deveria ser serva, sob todos os aspectos, confessional? Um cristão fundamentalista, que afirma ser o método histórico-crítico nocivo à Igreja, e que, portanto, trate a Teologia que prega aos outros como "revelação", esse eu entendo. Mas eu, tu, nós que devoramos Exegese - banquete, não? -, que destrinchamos as narrativas como quem come costelas de carneiro ao alecrim, que reviramos pedra e pau como tamanduás à cata de formigas, que dissecamos perícopes como Jean Astruc textos e cadáveres, como?, ainda assim, depois disso, conceber uma Teologia confessional?

7. Quando digo que Lutero não sabia o que fazia, apenas usou a Bíblia para dar na cabeça do Papa, mas que, no fundo, não tinha lá intenções histórico-críticas (nem as podia, era meio cedo [para ele!], se bem que a Menocchio o tempo já não era tão cedo assim!), é disso que falo: do poder iconoclasta da Exegese em face da Teologia. Que fica de pé, amigo? Apenas o que fideisticamente, voluntaristicaamente, queremos - para traição da Exegese, contudo. Porque ou se vai pela "mão" da tradição, ou se vai pela "crítica", quero dizer, ou a tradição é mar, medium, via, âmbito, topos, locus, apenas isso, no qual vivemos, ou é porto e rumo, norma, norte, fonte e destino. É como o mito - fugir da condição mítica?, impossível!, escapar desse mito?, necessário e urgente. Sair da tradição?, não há como!, render-se, abdicar?, jamais.

8. Por isso não posso conceber uma Teologia confessional nem mesmo em mim, quanto mais na academia. Exegese já é isso: crítica e arriscada, ajeitadinha para a academia. Viu a mesa da UNICAMP em São Paulo? Mas sua irmã de carne, não. Queria que fosse. Cri, entendes-me, que era isso que significava a Teologia na academia. E, amigo, cá entre nós, o fato de ela estar na CAPES não lhe conferiu, ainda, esse status. Basta ler os artigos sobre o estatuto teórico da teologia publicados pela Estudos Teológicos 42. Se me conseguir fazer ver - e, juro!, serei todo boa-vontade -, que ali se defende Teologia como ciência, rendo-me, e calo-me, e meto-me em "meu lugar". Um, explicitamente diz que a teologia, mesmo na Universidade, é, deve ser e é natural que seja confessional (Fábio, um mestrando, cuida ter sido esse um artigo "político" - se for, não sei se é, perde em duas frentes). Outro, quase me faz crer que a esperança seria uma utopia aberta, mas, no final, a harpia confessional me quase arranca os olhos, eu, que já ia gostando do artigo, palavra de honra, enquanto o outro quer a Teologia fora da Universidade, porque ela, a Teologia, já é "saber racional público" (Habermas e suas tudo-racionalidades inventando a roda! - política, no fundo e no raso). Ou eu discordava dos três programas, ou eu não me olhava mais no espelho, entende? Temo não gostes desse meu lado, mas a Teologia está na cidade, sim, mas não é, ainda não, cidadã. Chegará a ser? Quer ser?

9. É isso que eu quero discutir - Teologia como ciência. Em Exegese, somos iguais demais, irmãos demais para gerar, por meio do tema, uma boa "agonia". Da exegese, apenas o que devemos temer é que a arrogância técnica nos contamine, e que esqueçamos que os olhos são sempre enganadores - você sempre nos alertou quanto a isso. Da Teologia, penso que devíamos muito rapidamente assassinar o Deus que ainda a nutre mitologicamente - e isso devíamos fazer rápido, Haroldo, antes que a República acabe (crês que a República é para sempre?). Na calada da noite, nos corações crentes, nas confissões, a fogueira aguarda, Haroldo, ardendo nos olhos santos da fé. Talvez, Haroldo, se matarmos o Deus que anima essa demência, talvez, Haroldo, talvez, haja, à nossa frente, um futuro diferente de nosso próprio passado. Freud inventou o mito do assassinato do Pai na Origem. É nossa hora de levar esse Nietzsche a sério, e realizar ex eventu aquele seu vaticinium.

10. E que Derus nos ajude!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

(2008/11) Metáfora e midrash



1. Haroldo e Jimmy. Os temas de nossas conversas martelam-me a cabeça. O tempo todo. São como "possessões", espíritos que me tomam, e que precisam ser exorcisados. Tenho duas estratégias para expulsá-los de meu corpo: a) capturá-los, o que faço por meio de argumentos, e b) recalcá-los, deixando que o tempo os leve ao cansaço, e eles, então, cansados, durmam. Mas, aí, um belo dia, eles despertam, acesos, e, ai, começa tudo de novo.

2. O tema da teologia como metáfora é meu demônio da vez. Dormitava. Meu post "Por uma nova classificação teórico-metodológica da Teologia" despertou-o, sonolento, e o post de Haroldo, "Sem pedras o arco não existe" deixou-o atarantado. Por isso, respondi com o post "Arcos que sustentam velhas pedras e pedras que formam novos arcos". Com isso, entretanto, não, ele não voltou a dormir, o danado. Sapateia na minha cabeça. E, ontem, Jimmy ainda me pôs contra a parede - retoricamente falando -, propondo-me uma certa pax com Gadamer e sua doutrina hermenêutica da "tradição".

3. Ora, insisto que meu problema com a "metáfora" não se dá no campo da utopia (política) nem da literatura (estética). Eu amo metáforas, bolas de sabão que criamos com nossa boca, e sopramos, e elas voam, coloridas, até estourar. O que eu absolutamente não posso suportar é metáfora entrometendo-se na exegese (heurística). Talvez, como apoio metodológico (analogia), sim - é mesmo imprescindível. Mas como ferramenta de - que termo! - "produção de sentido", na exegese, não.

4. Vejam o caso do midrash. Olha que caso lindinho eu escolhi para ilustrar o que queria dizer. Encontram-se no Bereshit Rabba 1:10 e Midrash Tanhuma Bereshit, c. 5. Respectivamente, diz-se que a primeira letra do Tanak é beth - que é fechada em cima, em baixo e atrás, sendo aberta, apenas, na frente, o que ensinaria que se pode investigar apenas o que está à frente da criação, mas, não, o que está atrás, em cima e embaixo. Além disso, beth é a segunda consoante do alfabeto hebraico, e não a primeira, e o Tanak começou com a segunda, e não com a primeira, porque beth é a consoante incial de "bênção", ao passo que, alef, de "maldição", e, ao contrário do que os gnósticos diziam, continua o Midrah, a criação é boa, e não ruim.

5. Não é "lindinho"? Muito criativo. Chega a ser artístico - e comovente. Mas, cá entre nós, o que isso ensina sobre Gn 1,1?, quero dizer, em termos histórico-críticos, se com isso queremos dizer a intenção de pesquisa semântico-arqueológica e histórico-social da perícope? Rigorosamente nada, não é? Mais do que isso - eu também poderia achar estranho que esse mesmo alef seja a primeira letra do nome "Deus" ('elohim), em hebraico - e brincar de dizer que "Deus" e "maldição" tramam a mesma malha. Mas tudo isso é puro artifício. Sabemos que alegoria e midrash, parentes, não têm por interesse e intenção e o sentido original de uma passagem, mas a "produção de sentido" - lembro-me do Croatto de 84 - como projeto hermenêutico intencional. Midrah e alegoria são recursos estéticos, políticos ou estético-políticos. Nunca, heurísticos. Úteis, se o que você quer é produzir sentido político para comunidades situadas em seu horizonte de sentido, ou se deseja fruir e experimentar subjetivamente a plástica e a imagética das palavras (sem o arco!). Mas, se você quer ouvir o que quem as escreveu quis dizer - e disse - com as palavras que escreveu, deixam de ser úteis, e transformam-se em entraves, estorvos, entorpecentes.

6. Aí reside meu problema com o uso da metáfora na Teologia, quando ela, a Teologia, insiste, nesse caso, equivocadamente, em postular que seu projeto de utopia encontra-se "no texto" (como expressão de consciência histórica). Não, não se encontra, não. Encontra-se na história da recepção desse texto - quando muito -, na história da fé, na história do Cristianismo, na história da Teologia, na história narrativa do mundo e das idéias do mundo. Na consciência do autor daquele texto, não. Na palavra (não no arco) que ele pôs no papel, sim e não. Não, se perguntar a ele o que ele disse. Sim, se fizer dessa palavra uma caixa de Pandora, um brinquedo da cabala, uma potência semântica, um metamorfo, uma massa de modelar, um caleidoscópio.

7. Não acredito que o auxílio que a exegese pode ou deve prestar à Teologia (e à utopia) seja o da subserviência metafórica. Penso que seja, antes, o da denúncia (análise do discurso!) - rasgar a carne dos textos e mostrar a nudez dos agentes que operaram o evento que os consubstanciou. Isso chegará até a revelar - ai de nós! - que muitas das desgraças que hoje podemos observar através da pesquisa arqueológico-semântica desses textos foram geradas por tantos outros projetos de utopia e tantas outras produções de sentido. O que me deixa trêmulo de medo - crer que nossas utopias são melhores do que as deles, porque somos melhores do que eles, e, de qualquer modo, melhor intencionados (o que faz de nossa alegoria, de nossa metáfora, de nosso midrash, algo mais legítimo ou mais eficiente do que os deles) pode ser o primeiro passo para que cometamos os mesmos erros que condenamos. Se, de fato, os condenamos - não evangelizamos, ainda?

8. Um deles, o de que mais tenho pavor e medo - a manipulação do sagrado, a manipulação (bem intencionada!) de consciências por meio da manipulação do sagrado. Meu Deus - isso tem cura? E, se tem, meu organismo suporta o remédio? E, se sim, saberei viver depois de o tomar?

9. Não estou pronto. Nasci antes do tempo. Ah, dominasse eu as técnicas da letargia e da hibernação. Talvez quisesse despertar em cem anos. Mas isso é tolice - nenhuma de nossas utopias pode garantir que, eventualmente, o bem vencerá, e a vida humana, finalmente, dar-se-á à luz. Navegar é preciso, mas, viver, viver não é preciso... é puro risco. Ou para o dizer pela boca de um gênio: "o observador não pode nunca conhecer o ponto exato de encontro entre o real e o dever-ser, a teoria e a prática, o positivo e o negativo. Não pode nunca dominar, ao mesmo tempo, os dois sistemas, o da determinação e o do dever-ser, sendo que o controle de uma das coordenadas exclui o controle da outra. É o salto na indeterminação" (Edgar MORIN, "Os ersatz sintéticos", em: Edgar MORIN, Em Busca dos Fundamentos Perdidos - textos sobre o marxismo. 2 ed. Porto Alegre: Sulinas, 2004, p. 49). Temo que a metáfora, quando a Teologia a usa, seja a atualização dessa fraude, de fingir-se fundar no real o que, de fato, só existe no sonho utópico. O artigo de Morin é um oportuno alerta.

10. PS. Jimmy, terá sido o eco de sua Dissertatio que me fez unir os temas "metáfora na Teologia", "utopia" e "marxismo"?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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