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sábado, 23 de maio de 2009

(2009/283) Resposta às Quinze Questões de Adolf von Harnack - IX (pergunta sete)


1. Há mais um pouquinho do que um mês que respondi à sexta das quinze perguntas que Harnack fez aos "Teólogos que Desprezam a Teologia Científica" (1). Chega a hora de continuar a empreitada.

2. Eis a sétima pergunta que von Harnack fez aos desprezadores: "se Deus é simplesmente diferente de qualquer coisa dita sobre ele na base do desenvolvimento da cultura, na base do conhecimento recolhido pela cultura e na base da ética, como pode esta cultura e no longo prazo sua própria existência ser protegida contra o ateísmo?".

3. A pergunta de Harnack pressupõe o platonismo oracular-sacerdotal, e, todavia, o platonismo sacerdotal-oracular sequer tem ouvidos para ouvir tal questionamento, porque é sua índole a expressão constante disso que se lhe denuncia. Nos termos dessa postura clássica das religiões, e o Cristianismo não fugiù à regra, a divindade é de outro mundo, e as informações que se dispõe a respeito dela - dos deuses em geral - são informações metafísicas e reveladas aos "xamãs", aos "profetas", aos "sacerdotes" - e, conforme Paul Veyne já nos disse, crêem-se neles, nos oráculos carismático-narradores. O resto é essa mesma política...

4. Assim, o questionamento de Harnack pressupõe, de um lado, esse status quo sacerdotal-oracular, mas, por outro lado, também a possibilidade sistêmica e cultural do questionamento desse "poder" retórico. Não é tanto "Deus" a questão - mas o "sacerdote". Quem fala pela boca de Harnack é tanto um Kant quanto um Dilthey - e, claro, um Feuerbach.

5. O raciocínio é o seguinte. Se Deus é "o Totalmente Outro", como se pode esperar que a cultura não se considere impossibilitada de crer nele, já que não tem acesso a ele, não há meios de se chegar até ele, ninguém sabe, ninguém poder dizer como ele é, onde ele está, nem pôr a questão, se ele é, de fato, extra-cultural, extra-humano. A "situação" reage: ele se "revela", ou seja, os sacerdotes de plantão apresentam-no, na forma de revelação, doutrina, sermões etc., para a população sacramentalmente cega para isso. "Bento que bento é o frade, frade (...) Tudo que seu mestre mandar, faremos todos"...

6. O que está por trás da provocação de Harnack é o "embuste" pós-kantiano de um discurso "revelatório" - daí que as retóricas de revelação têm-se de driblar Kant, seja voltando para a Idade Média, seja superando a modernidade por meio do prefixo pós. Não é à toa que Barth vai ser o primeiro a responder, como se a ele tivessem sido endereçadas as provocações - e não se duvide! Barth, de um lado, baseia-se na primeira premissa de uma pseudo-fenomenologia: a incapacidade de o homem chegar a Deus, por ser ele o "Totalmente Outro", e, por outro lado, Barth se baseia na retórica da revelação - esse "Totalmente Outro" se dá a conhecer à "Igreja" - outra retórica, porque não é bem exatamente à Igreja que ele se dá a conhecer, mas aos formuladores normativos da fé-doutrina - por meio da revelação.

7. A pergunta sete de Harnack toca esse ponto, mas é muito fácil esquivar-se dela desde dentro da retórica barthiana, porque qualquer coisa, aí, é respondida por meio da "incapacidade humana", do "pecado", da "condição natural humana", essas coisas que só valem para os humanos, mas não para os gestores a fé (Platão é política pura!) - que devem ser anjos... O protestantismo de Barth é uma hierocracia envergonhada, porque, se assumir seu presuposto de fundo - uma hierocracia doutrinário-revelada -, Barth tem de submeter-se à Roma (ou submeter Roma a si!). Mas é disso que se trata - uma segunda Roma, tanto que Barth considera que todas as "denominações" do planeta têm de repetir a mesma doutrina - a dele, naturalmente...

8. Harnack viveu perto demais dos "neo-ortodoxos". Não se deu conta, contudo, de que não há argumento nesse mundo capaz de trazer um neo-ortodoxo para o plano da Epistemologia kantiano-diltheyana. Tolice de Harnack. No mundo "dialético" - e é apenas por isso que ele se diz dialético -, a Tese é Deus, a antítese, é o homem, essa toupeira-cega, esse asno-turrão, e a síntiese é a "revelação", a "doutrina": o sacerdote esconde-se num desvão do sistema...

9. A pergunta de Harnack não é uma pergunta - é um posicionamento. É Kant, Feuerbach e Dilthey, riscando a giz os limites da Teologia - a cultura. Mas observe-se como é impossível fazer com que quem queira, ainda, furar o bloqueio, o fure: Tillich, o teólogo da cultura, não brincou de Deus e Cultura, ao mesmo tempo, invertendo a Antropologia, de modo a dizer que a cultura é religião, antes que a religião ser cultura? Ora, com isso, dançou com Deus no salão da cidade... um Barth mais sutil...

10. Não sei o que se pode fazer para curar essa "indisposição". Não sei se há argumento possível. Nao sei como o processo se dá e se desenvolve. O que sei é que, um belo dia, atolado ou não na areia movediça da neo-ortodoxia (e até dos fundamentalismos do momento), você ouve falar de Kant, de Feuerbach e de Dilthey, e tudo cai, desmorona, e você só pode seguir pelo caminho de Harnack, Bonhoeffer, Küng - caminhos que não lhe são forçados, mas inexoráveis. Deve ser uma contra-revelação isso, eu acho... Também somos, nós, homens de fé, então.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Para as "questões", cf. Adolf VON HARNACK, Fifteen Questions to the Despisers of Scientific Theology, Christliche Welt, 11 de janeiro de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 86.

terça-feira, 21 de abril de 2009

(2009/199) Resposta às Quinze Perguntas de Adolf von Harnack - VIII (pergunta seis)


1. Depois de vencido o primeiro terço da caminha no esforço de responder às quinze perguntas de Adolf von Harnack, é pegar as bagagens e dar conta do segundo terço. Assim traduzo a questão seis, de Harnack: "se Deus e o mundo (vida em Deus e vida no mundo) são completamente opostos, como é que a educação na piedade, que está em Deus, tornou-se possível? Mas como a educação é possível sem conhecimento histórico e a mais alta valorização da moralidade?" (1).

2. Mais uma vez, Harnack discute a questão a partir da plataforma teológica. Seu argumento é: se o mundo de Deus é tão distinto do mundo humano, não se explica como um possa envolver-se com o outro. Daí que opta pelo mundo humano, para, nele, enconrar o mesmo mundo de Deus, mas humanizado - "liberalizado". À "piedade" (do mundo de Deus, "goodness") segue-se a "moralidade", do mundo humano. Com efeito, na prática, medidas as atitudes, os comportamentos, a moralidade é a contraparte secular, humana, liberal, da piedade. Basta que sejam suprimidos os ritos e os anexos teológicos das rotinas da piedade para que se obtenha um conjunto de práticas naturalmente morais, o núcleo significativo da piedade é a própria moralidade.

3. Trata-se de um modo de argumento relativamente comum à teologia situada na ala mais crítca do espectro teológico. Recentemente, o exegeta histórico-crítico católico-romano, Simian-Yofre, empregou-o, quando discutia o conceito de "Palavra de Deus" em relação ao texto da Bíblia Hebraica. Dada a sua argumentação, bem como sua ideologia, ele, acertadamente, questiona: "se a profundidade da palavra de Deus não está presente na palavra humana, de que serve a Escritura?" (2). A rigor, para sustentar, com a imagem dos termos grafados, a eisegese alegórica que a teologia precisa aplicar à letra morta do passado, vertendo-a em sentidos apropriados à sua própria configuração ideológico-doutrinária. Simian-Yofre sabe disso - na verdade não se trata de uma "pergunta", mas de uma denúncia.

4. Ele dirá, na conclusão: "parece haver, na base dessas formulações e posturas, uma filosofia da justaposição sem chegar à integração (...). O autor humano e o autor divino, o texto de um e o 'não-texto' do outro, permanecem lado a lado, quase sem se tocar, tornando-se assim, inútil o esforço para ler o primeiro (porque isso não nos permite chegar à Palavra divina) e inatingível o modo (espiritual, místico?) de interpretar o outro, que parece não poder exprimir-se com algum método" (3). Não se dá o mesmo entre "piedade" e "moralidade", nos termos em que colocava a questão, à época, Harnack? Vejamos: a) se a piedade não é propriamente humana, mas divina, b) se a vida em Deus não é a mesma coisa que a vida humana, c) se a educação humana não prescinde da história e da cultura, d) como educar o homem, sem história e sem moralidade, de um jeito que a isso se pudesse chamar de "piedade"? Ou a educação humana é inútil, ou a educação humana e a piedade são a mesma coisa...

5. Em termos políticos, estratégicos e didáticos, o que tanto Harnack quanto Simian-Yofre denunciam é uma disfunção cognitiva própria do poder religioso, onde quer que ele se encontre. Nada há, sob nenhuma circunstância, nas religiões e nas teologias, que não seja humano. A piedade não é divina, é humana. O êxtase? Humano. A liturgia? Humana. A mísica? Humana. Tudo é humano. Nada é não-humano. De modo que, com Simian-Yofre, faz todo sentido "descer" a "Palavra de Deus", em regime teológico, até a "palavra humana" - o que os homens e, eventualmente, as mulheres escreveram na Bíblia Hebraica, aquele sentido com que se expressaram, isso é, precisamente, a "Palavra de Deus". Nos termos de Harnack e de sua teologia liberal, a mais refinada moralidade humana, a "civilidade" ocidental, a ética, as regras sociais de relação, eis aí, ao mesmo tempo, a vida humana e a vida possível "em Deus".

6. Diria que essa percepção de Harnack, bem como a de Simian-Yofre, sejam conseqüências da aplicação irrestrita de um princípio cristológico particularmente caro à tradição protestante: a encarnação. A melhor civilização humana possível equivale à melhor configuração possível da encarnação, de modo que não apenas passa a não haver mais conflito entre a vida humana e a vida "em Deus" (quanto mais humana, mais encarnada, mais divina), acessada por meio da "quenosis", da "encarnação": além da superação do conflito subjacente à teologia teísta, essa peculiar reflexão protestante assume a vida humana como a vida "em Deus" possível e adequada ao cristão moderno.

7. A exegese histórico-crítica, ferramenta humana e moderna, constitui a chave de acesso à "Palavra de Deus", já que essa "Palavra de Deus" faz-se idêntica à palavra humana, tendo assumido também essa forma histórica - é o raciocínio de Simian-Yofre. A moral, a ética, expressão civilizatória humana, constitui a chave para a expressão da "vida em Deus" possível ao homem moderno. Na prática, a exegese de Simian-Yofre e a moralidade de Harnack torna plenamente dispensáveis até o "mito" da "Palavra de Deus" e da "vida em Deus", na medida em que elegem a dimensão humana como sendo aquela única possível ao homem moderno - o humano, isso é o divino possível...

8. No entanto, seu argumento é, ainda, teológico, porque ainda estão expressando o valor, seja da "palavra humana", seja da "vida humana", com base no valor que ambas adquirem pelo fato de constituirem, enquanto expressões humanas, também a expressão do divino. Há, certamente, um esforço de superar a dicotomia disjuntiva - a separação insuperável -, própria da teologia "sacerdotal", isto é, metafísica e ontológica, presente no discurso da relação entre "palavra humana" (texto) e "Palavra de Deus" (revelação), entre "vida humana" e "vida em Deus", esforço esse distendido na direção de trazer para baixo - quenosis - a dimensão superior da teologia.

9. Permitam-me arriscar-me a dizer que se trata, ainda, mas nos seus próprios termos e geografias, de operação comparável à de Lévinas, de "trazer" para baixo o "Outro", tornando-o manifesto na "face do outro", conquanto esse "outro", que olho, interessa-me na medida em que é o espelho do "Outro" - o "sentido" do outro, o atrator no outro, não é o "outro" em si, mas o "Outro" que posso ver nele. Talvez se trate, no entanto, apenas de retórica. Talvez Harnack e Simian-Yofre estejam selecionando argumentos que sejam válidos para uma "platéia" cristã, e que, eventualmente, precise de "acreditar", ainda, que há alguma coisa de "divino" (no sentido do "velho" conceito) no humano, e que o valor desse humano é que é assim que ele é divino: ou seja, se a platéia só tem olhos para um divino, fazer do humano esse divino é uma estratégia de adestrar a consciência dessa platéia a dedicar-se àquele humano, ainda que assim o faço por força de creditar a esse humano um status de sacramento. Feuerbach foi - e voltou.

10. O que fica de irrecusável, em Harnack, é a sua declaração de que não há educação possível que não seja constituída de história e moralidade. Todo o "tu deves" da piedade constitui um "tu deves" humano, histórico e moral. A educação, toda, mesmo a "mística" (não se vê os modernos congressos de espiritualidade? Ao final, as pessoas continuarão humanas, com atitudes e comportamentos absolutamente humanos, por mais excêntricos, esdrúxulos e esquizofrênicos que sejam - é o "congressista" quem dirá, e a "platéia" há de crer, que se trata, aí, de "piedade" não-humana, chancelada por Deus e tudo), nada mais é do que prática humana confeitada de retórica teológica. Mesmo o sentimento, a emoção...

11. Penso que ainda não é o suficiente. O caminho é esse, mas não pára aí. No ponto em que ele se encontra, uma plataforma quase-mas-não-ainda-feuerbachiana, o argumento quenósico deveria ser transformado em argumento científico-humanista feuerbachiano: não há nenhuma possibilidade (nem a doutrina da revelação [Barth é um prestidigitador, mas exige uma platéia atormentada], nem a prática da mística, nem o rito, nem o mito, nem os mistérios, nem o esoterismo) de o homem fugir à sua condição humana, e mesmo as "religiões", todas, até a "nossa", disso não passa. Depois desse banho de água fria, muito, muito fria, o espírito humano poderia retornar à sua relação com os mitos, livre, contudo, do poder de os mitos fazerem-se passar por conhecimento mais confiável do que o bom senso.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Adolf VON HARNACK, Fifteen Questions to the Despisers of Scientific Theology, Christliche Welt, 11 de janeiro de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 86.
2. Horácio SIMIAN-YOFRE (coord.), Metodologia do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2000, p. 20.
3. Idem, p. 20.

sábado, 18 de abril de 2009

(2009/174) Resposta às Quinze Perguntas de Adolf von Harnack - VII (pergunta cinco)

1. Neste sábado de um sol a lutar com o nublado da quase tarde - minha alma re-encena essa batalha entre brumas de saturnal desânimo (mas há que se alimentar Peroratio!) -, recordo-me da tarefa, a quase um terço, de responder às Quinze Perguntas de Adolf von Harnack, das quais, quatro já foram. Eis, pois, a quinta:

2. "Se Deus e o mundo (vida em Deus e vida no mundo) são completamente opostos, o que seria capaz de produzir sua estreita união, qual seja a equivalência entre o amor a Deus e o amor ao próximo, o que compõe o núcleo do evangelho? Como essa união é possível sem a maior valorização da moralidade?".

3. conquanto ele a classifique como "científica", Assim posta por Harnack, essa questão reforça minha classificação de sua teologia como racionalização ainda fideísta do cristianismo, um exercício de "secularização" lingüistica da mitologia de que se reveste o conjunto da plataforma teológico-filosófica da religião cristã, talvez uma transposição de termos, ou seja, uma tradução, uma interpretação, uma atualização do conteúdo mítico do cristianismo por meio da linguagem, da filosofia e da cultura européia de sua época - algo como Paulo fez com a tradição judaico-cristã jerosolimitana, porque, afinal, é preciso fazer-se grego, para (pegar) o grego, e judeu para (pegar) o judeu... Digo-o pelo fato de que ainda se pode flagrar "Deus" no centro do argumento de Harnack: "se Deus e o mundo...". Ora, para uma teologia realmente científica, "Deus" não é mais argumento. Não é possível que o seja. Quando o é, sabe-se que jogo aí se joga.

4. Eis o raciocínio. Para uma teologia científica, para o que implica ser ela, necessariamente, sem tergiversações, kantiana e científico-humanista, isto é, implica seu reconhecimento de que o discurso humano pára e deve parar nos limites perscrutáveis da matéria e da história (o supra-material, se existente, é inescrutável ao homem, e pôr, aí, a revelação, é propor e fazer pseudo-ciência - Barth é a reencarnação de Platão, Paulo, Agostinho e Lutero, e nada mais do que isso, o que está de bom tamanho para a fé, mas não para a ciência, bem como para nada que se diga científico, mesmo uma "teologia científica"), sondando, então, isso que lhe é prescrutável por meio das ciências (humanas, da natureza, exatas, cognitivas), todo e qualquer discurso sobre "Deus" (metafísico-mitológico) não constitui outra coisa que não imaginação humana, seja estética, seja política. Logo, não se presta a argumentações, quaisquer que sejam, seja sobre ele, seja a partir dele.

5. Quando Harnack argumenta sobre o que significaria e como se alcançaria a união estreita entre "Deus" e a "vida", ou seja, entre o dever de "amar a Deus" e "amar o próximo", "núcleo do evangelho", pergunta se não é apenas pela moralidade que se pode chegar aí. Nesse preciso momento, Harnack traz para a arena o "mito" de Deus e do "amor a Deus", eventualmente válido, em face da fé, mas inalcançável para a razão - a racionalização da fé não é um exemplo recomendável do uso adequado da razão, há de se saber, certamente.

6. O que Harnack está a fazer é tentar "vencer o adversário em seu próprio campo". Uma vez que a teologia fala de Deus e do amor a Deus, embora não o pudesse, se fosse científica, Harnack racionaliza sobre uma tal relação entre Deus e a vida, como se essa espécie de raciocínio fizesse sentido para a ciência. E não faz. Até porque ela, essa relação, é, pela ciência, reduzida não à relação entre Deus e a vida, mas entre a vida e uma criação da vida, entre a vida humana e um conceito humano, uma relação entre o homem e uma idéia desse mesmo homem, uma relação do homem consigo mesmo - uma experiência estética de projeção de si como outro. No campo científico, não se pode ir além disso - e, caso se vá (e Harnack vai), sai-se do trilho da ciência. Não é obrigatório a ninguém trafegar nesse trilho. É obrigatório, contudo, que qualquer trem que se diga científico trafegue por aí. Harnack quer uma teologia científica? Então pronto.

7. Uma teologia científica não tentará traduzir o conteúdo da teologia clássica - suas doutrinas, seus dogmas, seus mitos - em linguagem contemporânea (tarefa a que um Tillich se dedicou, com o que, a despeito da retórica "próximo-fenomenológica", só pode ser adequadamente classificado como teólogo ontológico, um outro Paulo, comparável, na ousadia, a Harnack). O que uma teologia científica faria, e fará, quando vier à existência, mas, se virá, não sei, é auto-compreender-se, a si e aos teólogos, a partir da crítica científica dos conteúdos, das práticas, das experiências religiosas cristãs, bem como das demais experiências religiosas, porque uma teologia científica, obviamente, não seria "cristã".

8. "Deus" e "amar a Deus" não são "dados" da realidade, de modo que a ciência e uma teologia científica pudessem analisar e compreender. São, antes, produtos noológicos de uma "fé", objetos de investigação crítica, científico-humanista. Logo, não podem, sob nenhuma hipótese, não para uma teologia científica, servir de plataforma de argumentação. Antes, devem tornar-se objeto de pesquisa na condição de construto noológico, de imagens do pensamento e da cultura de um povo historicamente situado.

9. O que Harnack acaba fazendo - será essa sua intenção? - é confrontar uma linguagem mitológica, aplicada a um núcleo mitológico, com uma linguagem pseudo-científica, aplicada (ainda) a um núcleo mitológico. É como se Harnack propusesse aos "teólogos que desprezam uma teologia científica" um novo modo de fazer a velha coisa, mais ou menos, mas, claro, em outra plataforma, como o que faz a Teologia da Libertação em face da teologia tradicional: lá estão os mesmos elementos, a mesma epistemologia, inclusive (platônico-ontológica): só muda o jeito de o teólogo pensar sobre a "relação estreita" entre Deus e a vida...

10. Mais uma vez, penso que aí está uma das razões pelas quais foi relativamente fácil para Karl Barth destroçar, impiedosamente, a teologia liberal (não o fez sozinho, claro, mas quem há de afirmar que Karl Barth não foi o comandante-em-chefe dessa batalha?). A teologia liberal, essa, ensaiada por Harnack, ainda é "fé", ainda opera segundo o programa da fé. Faz-se tímida, acanhada, esforçando-se por aproximar a fé do lastro lingüístico de sua cultura, de seu tempo, sem, contudo, transformar, radicalmente, o jogo. Dois mil anos de tradição e expertise foram suficientes para demonstrar que é preciso mais do que liberalismo "crente" para convencer a velha ontologia a reformular-se. O jogo vem sendo ganho a dois mil anos, porque se haveria de mexer no time?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 12 de abril de 2009

(2009/158) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - VI (pergunta 4)

1. Ei-la, sob minha tradução: "se a experiência de Deus é contrária ou discrepante em relação a qualquer outra experiência, como se dá a necessidade de uma radical retirada do mundo a ser evitado, ou como se pode escapar do sofisma de que se tem de permanecer no mundo uma vez que a retirada dele está baseada numa decisão da vontade, logo, uma coisa mundana?" (1).

2. Bem, não se trata de uma questão formulada em termos que me motivem. Barth, certamente, saberia responder a ela, porque haveria de fazê-lo a partir da ótica do mito metafísico a partir do qual opera. O máximo que Harnack poderia fazer é sacudir a cabeça, contrariado, aborrecido com o fato de Barth não "respeitar" as regras da ciência - Barth seria o primeiro teólogo na História a fazê-lo!

3. Se a questão fosse formulada hoje, apresentar-se-ia sob outra configuração: em termos científico-humanistas, o que significa o fenômeno que a fé religiosa chama de "experiência de Deus". Uma tal abordagem pode ser cientificamente apresentada e, eventualmente, respondida, porque o que estaria em jogo seria o fenômeno objetivável, seja sob recorte psicológico, antropológico, sociológico ou fenomenológico. Pôr em cheque uma posição teológica por meio de argumentos científicos é uma estratégia inútil, porque os ouvidos da teologia são surdos a argumentos científicos, soam-lhes como ruídos. As ciências partem, necessariamente, do século XIX - Kant, Schopenhauer, Feuerbach, Marx, Nietzsche, Dilthey, Peirce, isso para ficarmos, apenas, nas Ciências Humanas. Já a teologia, não se vê o caso de Hans Küng?, a primeira coisa que faz é desviar-se daí. A Teologia não quer, de forma alguma, saber...

4. Se a teologia estivesse verdadeiramente interessada e, por isso, fosse sensível a argumentos científicos, desde que aceitou que estivessem compondo a grade curricular de seus cursos (da graduação ao doutorado), a presença das Ciências Humanas já a teria transformado. Como a teologia pode dialogar - mas falo de diálogo verdadeiro, não cooptação seletivo de argumentos de interesse teológico, a que se resume a sua relação factual - com a Psicologia, a Antroologia, a Sociologia, a História, a Fenomenologia, e, ainda assim, levar a sério a metafísica? Mas é porque só ouve o que lhe agrada, a despeito da presença das Ciências Humanas em seu núcleo comum (até das grades da teologia umbandista e kardecista!), que a teologia joga seu jogo sob o regime do mito.

5. Ora, no campo do mito, posto que platônico, a realidade é dualista. O mundo físico e o mundo metafísico, para a teologia, compõem uma única realidade - não se vê a "lógica"´teológica dos sacramentos? Ora, os sacramentos são a "saída" teológica (catolico-romana) para a diferença de nível de realidade entre o mundo físico e o mundo metafísico, de modo que aquelas sete concentrações transdimensionais permitem a transfusão de graça de um para outro mundo. Ouvidos e corpos secularmente acostumados a lidar com a relação naturalíssima entre os dois diferentes níveis do real não têm nem como "ouvir" a pergunta de Harnack.

6. Não há qualquer modo de comunicação entre a perspectiva teológica e a perspectiva científica. Nenhum. Trata-se de uma questão paradigmática decidida a priori. Primeiro, você decide se vai entregar o seu padrão de raciocício e reflexão à cosmovisão das ciências - pronto, estará cego e surdo para a teologia. Alternativamente, você entrega seu padrão de raciocínio e reflexão para a teologia - pronto, estará cego e surdo para as ciências. As "conciliações", que estão na moda, basta ler os artigos recentes que discutem o estatuto epistemológco da teologia, soam ainda mais desagradáveis, porque não se dão conta, desde o início, de que a empreitada está viciada e corrompida por espíritos de partido.

7. A Harnack, eu diria o seguinte: se a teologia deixar-se fazer como procedimento científico, tudo, absolutamente tudo nela converte-se ao regime do jogo das ciências. Não sobrará nada, nem mesmo um núcleo seguro, constituido por um "fundador" - Jesus - e uma mensagem fundante - seu "evangelho" -, exceto como registro histórico-social de uma singularidade histórica - bem sabido, inescapavelmente intra-histórica!

8. Uma teologia como ciência considerar-se-á absolutamente "burra" a respeito da metafísica. Seu objeto de estudo será o discurso humano sobre o sagrado (discurso aí em sentido amplo, comportando linguagem, símbolo, mito, rito, liturgia - as expressões humanas em torno do tema "religião" e, inclusive, para além dela). Uma teologia assim não terá "experiências de Deus", da mesma forma como a Fenomenologia da Religião jamais foi apresentada, pessoalmente, ao "sagrado", conquanto investigará o que isso signifique na vida de quem as testemunhe - naturalmente que sob o regime da doutrina, uma vez que não há mística que não recoberta por uma interpretação doutrinária e cultural.

9. Não é à toa que Harnack vai perder a briga com Barth - entrou na arena em que o campeão da teologia ortodoxa está em casa, e vai levar uma surra...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Adolf VON HARNACK, Fifteen Questions to the Despisers of Scientific Theology, Christliche Welt, 11 de janeiro de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 86.

sábado, 11 de abril de 2009

(2009/155) Da proximidade entre Adolf von Harnack e Hans Küng


1. Em 1968, durante os funerais de Karl Barth, na imponente Catedral de Basiléia, Hans Küng declarava: "nosso tempo precisa urgentemente do doctor utriusque theologiae, perito em ambas as teologias, evangélica e católica. E, se alguém o foi de maneira exemplar em nosso século, este é Karl Barth" (1). Trinta e oito anos antes, morrera, então, Adolf von Harnack. Digamos que Karl Barth sepultara, inapelavelmente, a teologia liberal. À medida que Harnack avançava em idade, até sua morte em 1930, Barth ia adquirindo maturidade, de modo que, com a morte de seu antigo Professor, sepultava-se - e Barth saberia pôr aí a pá de cal - a última expressão de um momento crítico da teologia do século XIX, uma última tentativa de negociação com a cultura emancipada européia (a "negociação" de Tillich, nos EUA, não se pode comparar à da teologia liberal, porque Tillich, em lugar de optar pela abordagem histórica, enveredou pelo caminho da racionalização teológico-fenomenológica, de modo que o padrão medieval permanece muito mais latente e, por isso, óbvio, em sua teologia. Talvez, contudo, Tillich tenha tentado um atalho novo, em face da ciência que decerto tinha da frustração da tentativa histórico-metodológica harnackiana: se não vai na História, quem sabe não vai na Filosofia?).

2. Não se pode, contudo, tomar um teólogo por uma data, muito menos por um pronunciamento - ainda que tão significativo. Hans Küng também amadurecerá, e tanto que, quando compuser Teologia a Caminho e, mais adiante, a "Parte II - Novas Reflexões" no relançado Por que ainda ser cristão hoje?, o seu pronunciamento praticamente nada terá de próximo a Barth. Ao contrário, poderia ser classificado como um autêntico retorno ao acesso histórico-metodológico de Adolf von Harnack, conquanto não se vai ouvir seu nome

3. Não se duvide tão cedo, pelo fato de ser eu a dizê-lo. Deixemos que o próprio Hans Küng o confesse:

3.1 "Para mim, como teólogo, passaram-se anos até que eu chegasse a perceber com clareza que a essência do cristianismo não consiste em nenhum dogma formulado com sutileza, em nenhuma moral elevada, em nenhuma grande teoria ou visão do mundo, em nenhum sistema de organização eclesiástica. Consiste em quê?

3.2 Para mim, para minha teologia e certamente para muitos dos que me lêem, a grande virada, durante e após o Concílio Vaticano II, foi a redescoberta da figura histórica de Jesus de Nazaré! Isso não é para ser entendido de uma maneira ingênua, como uma súbita iluminação. Não. Ao longo dos anos fui construindo o perfil único do Nazareno com base na abundante pesquisa bíblica dos últimos duzentos anos, refletindo tudo laboriosamente nos mínimos detalhes (...). Qual é a essência do cristianismo? A essência do cristianismo é simplesmente este Jesus de Nazaré como o Cristo" (2).

4. Hans Küng testemunha que chegou a essa concepção depois de muitos anos. Certamente estava ainda um pouco dela, quando anunciava Barth como o amálgama dos cristianismos ocidentais. Quanto mais distante daquele dia, daquela catedral, tanto mais distante daquela teologia dogmática: "a essência do cristianismo não consiste em nenhum dogma formulado com sutileza". Mas não é apenas isso - à medida que se afastava daquele dia - sabê-lo-ia? - ia-se aproximando, inexoravelmente, da teologia sepultada por Karl Barth: a teologia de Harnack.

5. Em uma ampla sala da Universidade de Berlim, diante de uma platéia para isso ali reunida de entre 500 e 600 pessoas em cada um dos dezesseis encontros semanais realizados no semestre de inverno de 1899-1900, "abre-se o século XX teológico" (3) - Adolf von Harnack oferece o curso A Essência do Cristianismo. Seu viés, para a resposta, é, afirma, histórico (4). Mais à frente, adianta a resposta, categórica: a essência do cristianismo é Jesus de Nazaré e sua própria pregação, que, obviamente, não tinha ele mesmo como conteúdo, mas Deus e a vida eterna em Deus: "Jesus Christ and his gospel" (5).

6. O Hans Küng amadurecido tem a dimensão do teólogo liberal de Berlim, e o que eles têm em comum é a "redução" político-teológica da "essência do cristianismo" à pessoa e à pregação de seu fundador - Jesus de Nazaré. Da mesma forma como concordam quanto ao conteúdo, os dois concordam quanto ao modo adequado de se chegar aí - a perspectiva histórica. Hans Küng tem, na sua "defesa", o espírito do Vaticano II, que, para todos os fins, autoriza(va)-o a servir-se da exegese histórico-crítica, sobredeterminando-a à teologia, inclusive. Harnack não tinha um Concílio a seu favor - antes, tinha um (neo?)ortodoxo viril a combatê-lo, alguém engajado na batalha contra o liberalismo, engajado na defesa da ortodoxia objetivo-dogmática da Igreja, alguém que fez o seu trabalho muito, muitíssimo bem feito. E, no entanto, Harnack, afinal, abre o século da mesma forma como o fechará Hans Küng...

7. Se aquilo em que os três parecem crer - a vida eterna em Deus - for "verdade", e, por uma dessas ironias que a vida nos apronta, os três se encontrarem, será divertido ver o olhar de triunfo de Harnack sobre a carranca aborrecida de um Barth contrariadíssimo. O constrangimento de Hans Küng será imperdível... Talvez eu esteja lá. Não perderia por nada uma cena dessas.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Hans KÜNG, Karl Barth: 1886-1968. Gedenkfeier im Basler Munster. Zurique: EVZ-Verlag, 1969, p. 43, apud Rosino GIBELLINI, A Teologia do Século XX. São Paulo: Loyola, 1986, . 31. Faz sentito, pois, mas não aenas por isso!, que a Sistemática, na PUC-Rio, cite tanto Barth.
2. Hans KÜNG, Por que ainda ser cristão hoje? Campinas: Verus, 2004, p. 88-89.
3. Uso, aqui, não literalmente, mas na essência, as palavra com que Gibellini abre o capítulo "Teologia Dialética", em Rosino GIBELLINI, op. cit., p. 13.
4. Cf. Adolf von HARNACK, What is Christianity?, em : Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 79 (alternativamente, cf. GIBELLINI, op. cit. p. 13).
5. Idem, p. 81. Em GIBELLINI, p. 14-15.

(2009/153) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - V (pergunta 3)


1. A terceira pergunta de Harnack pode ser assim traduzida: "é a experiência de Deus diferente do despertar da fé, ou é idêntica a ela? Se for diferente, o que a distingue do fanatismo incontrolável? Se for idêntica, como poderia ser de outro modo que não através da pregação do evangelho? E como pode haver essa pregação sem conhecimento hitórico e reflexão crítica?" (1).

2. Bem, em relação às duas perguntas anteriores, percebe-se que a abordagem temática mudou. Não se trata mais da Bíblia em si, mas de como o ser humano experimenta aquilo que, em tese, está pressuposta na relação cristã com a Bíblia - "a experiência de Deus". O tema, antes, era teórico-metodologicamente histórico - como compreender, hoje, um texto escrito há séculos? Agora, a abordagem temática é teológico-filosófica e psicológica. O modus operandi do processo ainda continua ligado ao modo como o ser humano experimenta, seja "a experiência de Deus", seja o "despertar da fé".

3. Naturalmente que essa não é uma questão para teorias abertas. Ela só pode ser respondida por um sistema teórico doutrinário, logo, fechado. Não poderia ser de outro modo, porque, fora de sistemas doutrinários, não há como discutir o que viria a ser alguma coisa como "a experiência de Deus". Bem, fenomenológico-religiosamente, sim, poder-se-ia analisar o fenômeno, o que implicaria em observá-lo sob os ângulos psicológicos, antropológicos, sociológicos, histórico-religiosos, fenomenológicos, filosóficos. Se nos permitirmos a pergunta científico-humanista sobre o que vem a ser aquilo que o fiel chama de "experiência de Deus", então é possível formular a questão. Todavia, no âmbito de um interesse objetivo - teológico, metafísico e ontológico - quanto ao significado sobrenatural de uma "experiência de Deus", restaria, apenas, a racionalização do fenômeno pela ótica da fé que o experimenta - a que se reduz, com efeito, a "teologia".

4. Harnack aceitou os termos categoriais da teologia, e, com isso, tornou imprestável a questão para além da categoria teológica. Quando digo "teológica", naturalmente que me refiro à doutrina, isto é, ao discurso racionalizado e catequético-apologético da Igreja. As Ciências Humanas não têm a mínima condição de entrar nesse diálogo, não do modo como ele está posto. As Ciências Humanas só podem lidar com o que é humano, demasiadamente humano. Elas só podem ser kantianas e pós-kantianas-mas-ainda-kantianas - pelo menos nada mais do que "externamente" kantianas, ou seja, metafísicas e ontológicas, quando isso implique mitologia e sobrenaturlismo. Não é que as Ciências Humanas sejam atéias - elas são é imprestáveis para lidar com o tema "Deus" da forma como a mitologia e a fé lidam, o que atesta o fato inequívoco, eventualmente retoricamente dissimulável, de que a teologia, tal qual é e está, não tem absolutamente nada de "científico".

5. O que não significa que as Ciências Humanas não possam lidar com o tema "Deus" da forma como ele se apresenta fenomenologicamente na experiência humana. Isso significa que as Ciências Humanas só podem tratar "Deus" como objeto da consciência humana (um "ser de espírito", noológico - isso independentemente de haver alguma outra realidade para além dessa representação noológica, o que não mudaria em absolutamente nada a questão). Assim, só existe uma resposta científica possível para a primeira pergunta: "a experiência de Deus" e "o despertar da fé" são uma só e a mesma coisa.

6. Há uma pseudo-científica teologia no século XX, de recorte "luterano", que procura argumentar através da distinção retórica entre "Deus", na condição de Ser, e "Deus", na condição de termo teológico da fé, através do qual, "analogicamente", o homem se refere ao Deus-Ser, sem, contudo, "possuí-lo". Bem, essa é apenas uma estratégia cripto-teológica de manter, em plena era pós-kantiana e pós-feuerbachiana, o velho discurso da fé mitológico-metafísica. O que permanece escondido aí, o tempo todo, é o fato de que o "Deus-Ser" é, apenas, uma hipótese da mente humana (e se há alguma coisa , onde se afirma estar/haver esse "Deus-Ser", essa hipótese, contudo, não pode garantir). Fenomenologicamente, não há distinção alguma entre os dois termos "Deus" da famosa fórmula de Tillich: "Deus é símbolo para Deus", porque, o primeiro, é termo que os homens inventaram, e o segundo, conceito que os homens inventaram. Logo, uma palavra-invento para um conceito-invento. Isso, claro, para uma abordagem científica da questão.

7. A fé, todavia, mesmo aquela de um tipo assim de teologia "científica" ("científica" aí segundo os padrões dela) do século XX - a de Harnack? -, distingue ontologicamente um "Deus-Ser" de um "Deus-termo" e, com isso, pensa poder aparecer em praça pública com a aparência de consistência teórica, quando, na verdade, apenas obteve um modo não muito honesto de fazer "ciência".

8. O modo, portanto, como Harnack coloca a questão - jogando-a no tabuleiro da teologia, ainda que ele considere essa uma teologia "científica" - alerta-me para o fato de que Harnack ainda opera sob o regime da metafísica, por mais mitigado o estado em que ela se deixe flagrar. De outro modo, soaria ainda menos pertinente o endereçamento da questão a "teólogos que desprezam a teologia científica". Se Harnack partisse da ciência, ele não perguntaria aos "teólogos que desprezam a teologia científica" - mas o que é teológica científica, para Harnack? - se eles consideram a mesma coisa ou coisas diferentes "a experiência de Deus" e "o despertar da fé", ele simplesmente afirmaria como a mesma coisa - porque são. Uma vez que ele faz a pergunta, das duas uma: ou emprega muito equivocadamente a Epistemologia e a Retórica, ou assume, conscientemente, que haja uma dimensão da teologia científica (que ele chama de científica, claro) em que é possível falar de "experiência de Deus" de um modo que não signifique necessariamente a mesma coisa do que significaria, por exemplo, para a Fenomenologia da Religião, para quem "a experiência de Deus" e "o despertar da fé" são a mesma coisa.

9. Além disso, Harnack passa para a segunda parte da pergunta vinculando a "experiência de Deus" e/ou "o despertar da fé" à pregação do evangelho. Vejo aí um indício da plataforma sobre a qual Harnack reflete - apenas uma teologia enquanto norma, enquanto política, pode refletir sobre o vínvulo entre "pregação", "fé" e "experiência de Deus". Harnack parece ainda postular uma hipótese de que haja alguma forma de vinculação possível entre uma "pregação histórica" de Jesus, uma compreensão histórica dessa pregação e uma proclamação contemporânea "correta" (válida, pertinente). É a mesma atitude que percebo em Hans Küng, não necessariamente o de Teologia a Caminho, mas, agora, o de Por que ainda ser cristão hoje? Aliás, a tese fundamental de Hans Küng, aí, é rigorosamente a mesma que a de Adolf von Harnack em A Essência do Cristianismo - Jesus de Nazaré é essa essência, e o que ele teria pregado, a esência do evangelho.

10. Ora, sob que abordagem se pode falar assim? Não, certamente, a da ciência. A ciência jamais poderá servir de critério para uma atitude normativa em face da história, porque a ciência só há de nos fornecer informações, mas não um critério de orientação, tema da ética, que, enquanto conjunto de normas de conduta, constitui um conjunto propositivo característico da pragmática política, e que, quando abordada sob a perspectiva heurística (científicva), perde, automaticamente, a capacidade de orientação. Não há ontologia possível para a História, de modo que o método histórico-crítico poderia responder a pergunta pelo conteúdo histórico da pregação de Jesus, mas, jamais, desde aí afirmar que precisamente esse conteúdo, e não o de Paulo,´constitua, em termos ontológicos, o "Evangelho".

11. Quando Harnack (e Hans Küng) falam de teologia, ainda não estão pensando a partir da ciência, mas, a rigor, pensando a partir da teologia, ainda que, e essa talvez seja a sua maior virtude, aproximando-a até o limite da desintegração, das ciências. Todavia, há, ali, riscado no chão, um limite, um limite estético-político, que tanto Harnack quanto Küng se impõem - e, assim, a terceiros, já que tal limite chega a ser normativo suficientemente para um diálogo retórico com quem despreza esse paradigma teológico. Todavia, essa "virtude" de Harnack pode ter respondido pela vitória de Barth - irredutível e inflexivel defensor da ortodoxia eclesiástica.

12. Uma teologia científica não teria como responder à terceira pergunta de Harnack. Ela exige uma relação íntima e subjetiva por parte do teólogo, atitude suficientemente valorativa, logo estética, e normativa, logo, política, que pudesse crer na possibilidade de determinar o que daquela "pregação" original de Jesus de Nazaré, enquanto histórica, tenha pertinência ontológica. Em termos históricos, ela não é em nada diferente de qualquer um dos pronunciamentos de quaisquer dos fundadores de quaisquer religiões, e mesmo do que qualquer homem ou mulher discursasse ontem, hoje e amanhã. É - apenas - uma relação tradicional, subjetiva e valorativo-normativa quem pode pôr, frente a frente, o teólogo e esse Jesus, de um modo como frente a ninguém mais ele se colocaria.

13. Não, uma teologia científica (aplicada ao Cristianismo) é meramente descritiva. Descrever o conteúdo da pregação de Jesus, de Paulo, de Agostinho, de Lutero - é tudo quanto ela poderia - e quer - fazer. Se, como o fazem Harnack e Kans Küng, o teólogo vai determinar - e isso é normativo - que a pregação de Jesus, e não a de Paulo, e não Nicéia, e não os concílios universais da Igreja, e, ainda, essa pregação de Jesus conforme assinalada nos Evangelhos, os sinóticos, e não em João, bem, nada nessa atitude é "científico".

14. Não que Harnack, Hans Küng ou qualquer outro - eventualmente, eu - não possa tomar uma atitude assim, estétia e/ou política, em face da Tradição e da História: a religião não se resume à teologia científica. Quem não pode, sob nenhuma circunstância, agir asim - e, se agir assim, a impertinência do adjetivo revelar-se-á ostensivamente, alguma coisa entre o tragicômico e o reprovável, o impertinente - é uma teologia que se chama a si de científica. Se o for, não pode agir assim. Se agir assim, não é.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO1. Adolf VON HARNACK, Fifteen Questions to the Despisers of Scientific Theology, Christliche Welt, 11 de janeiro de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 85-86.

(2009/147) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - I
(2009/149) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - II (pergunta 1, parte 1)
(2009/150) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - III (pergunta 1, parte 2)

(2009/152) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - IV (pergunta 2)


1. Passo, agora, a respoder a segunda pergunta de Adolf von Harnack, que assim traduzo a partir da já tradução de Martin Rumscheidt: "é a religião da Bíblia, ou são suas revelações, tão completamente uma unidade ou tão claras que conhecimento histórico e reflexão crítica não são necessários para uma correta compreensão de seu significado? Ou elas são o inverso, isto é, tão incompreensíveis e indescritíveis que se deva esperar até que irradiem no coração humano, porque nenhuma faculdade da alma ou da mente humana pode alcançá-las? Ou são estes, ambos, pressupostos falsos? Não precisamos, para uma compreensão da Bíblia, além de uma abertura interior, conhecimento histórico e reflexão crítica?" (1).

2. Em termos formais, são três perguntas, mas, a rigor, trata-se de duas - se são necessários ou não sao necessários, ou seja, inúteis, "abertura interior, conhecimento histórico e reflexão crítica" para a compreensão da Bíblia. Duas descrições da Bíblia que, em sendo pertinentes, resultariam no caráter prescindível da crítica bíblica, abrem o questão: ou a Bíblia é auto-exlicativa, tão clara quanto as águas de um "ribeiro raso", uma unidade tão óbvia que qualquer um, de imediato, logo entende, ou, ao contrário, é um enigma indecifrável, um hieroglifo que nenhum Champollion a poderia traduzir. Nos dois casos, a crítica é desnecessária e inútil.

3. Essas perguntas apontam para duas estratégias muito comuns na teologia e na política eclesiásticas. Na ponta "erudita", desenvolvem-se argumentos no sentido de se afiançarem o caráter inacessível da mensagem bíblica, reverberações da cláusula paulina da necessidade de "regeneração" para o seu entendimento. Apenas "iluminados" ou "ordenados" têm a capacidade carismática de sua compreensão, de modo que os comuns dos homens a eles devem ouvir - ouvir a Palavra é ouvi-los. Esse é o argumento próprio da doutrinação da Igreja, quando o tema envolve a "verdade", o "dogma", quando o processo é a catequese e a apologética. Quando, no entanto, o tema volta-se para a instrumentalização da Bíblia entre o povo, como veículo de legitimação daquele dogma, muda-se o registro retórico - a Bíblia passa a ser um livro tão "simples", sua mensagem, tão translúcida, que qualquer um, até um analfabeto, desde que leiam para ele, é capaz de entendê-la ("Bíblia na mão, jornal no outro"), o que fica bastante claro quando, depois de alcançar o entendimento dessa maravilha da simplicidade arquitetônica e comunicativa, o leitor disso certifica-se, para isso consultando os manuais da catequese e da doutrina, se não já diretamente o pastor ou o padre. Para todos os fins, não estamos diante de argumentos retóricos responsavelmente metodológicos - trata-se de artifício político para a articulação da Bíblia sob as condições de necessidade da gestão do "corpo de Cristo", porque todas as partes desse corpo devem agir conforme a "cabeça" deseja, conforme sabemos desde A República, e de cuja estratégia "A Cidade de Deus" se utiliza, não importa quais sejam os prefeitos...

4. Harnack, todavia, encerra a seção retornando ao tema da pergunta número um - a necessidade de conhecimento histórico e de reflexão crítica para a compreensão da Bíblia. E, contudo, acrecenta uma nova exigência - "abertura interior". De fato, se não houver disposição interna para a assunção de uma postura crítica, seja, de um lado, a liderança teológico-eclesiástica, seja, de outro, a massa cristã, relacionar-se-ão por meio de códigos heterônomos e tradicionalizadores de interpretação, baseados em pressupostos políticos e estéticos (quando estéticos, ainda submetidos aos políticos). Ora, uma teologia científica não sobrevive num ambiente assim - ela morre, se é que nasce.

5. Uma teologia científica precisa, de um lado, de abertura interna da parte do teólogo, uma "prévia disposição de ânimo", um acordo esclarecido com os pressupostos, os métodos e os resultados da pesquisa histórico-crítica, histórico-social, indiciária - heurística. A teologia científica implica em uma disposição muito grave de se estabelecer um diálogo autônomo com a tradição, o que resultará na transformação política da relação entre o teólogo e ela. A teologia científica é, necessariamente, revolucionária. Mais do que isso, ela é, necessariamente, iconoclasta. As questões que Adolf von Harnack levanta são tão óbvias, que ele as constitui na forma de perguntas retóricas. No entanto, custo a crer que se esperava, mesmo, que "os teólogos que desprezam a teologia científica" pudessem ser "tocados" por elas...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Adolf VON HARNACK, Fifteen Questions to the Despisers of Scientific Theology, Christliche Welt, 11 de janeiro de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 85-86.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

(2009/150) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - III (pergunta 1, parte 2)


1. Resta agora, quanto à pergunta número um de Harnack, enfrentar-lhe a segunda parte, que assim traduzo: "se não é assim, pode-se deixar a determinação do conteúdo do evangelho ao conhecimento heurístico do indivíduo, à sua experiência subjetiva, ou, antes, precisamos aqui de conhecimento histórico e reflexão crítica?" (1). Se a expressão "à sua experiência subjetiva" constitui aposto, e, nesse sentido, um reforço ao sentido de "conhecimento heurístico do indivíduo" (o fato de as duas expressões estarem separadas, apenas, por vírgula, bem como a série ver-se seguida da conjunção "ou", a meu ver, reforça essa interpretação), resulta necessário dizer que essa segunda parte constitui-se da alternativa entre dois modos de procedimento metodológico - um, subjetivo (estético e político) e, outro, crítico. Não está de todo claro para mim o que é, exatamente, que Harnack está querendo dizer com a primeira alternativa, senão que, para que ela faça sentido, devo considerá-la oposta à segunda (como as duas alternativas da primeira parte da pergunta [objetividade sem unidade versus unidade com arbitrariedade]). Uma vez que a fórmula "conhecimento histórico e reflexão crítica" é absolutamente fácil de entender, interpreto o que quer que Harnack quisesse dizer com a expressão apositiva "ao conhecimento heurístico do indivíduo, à sua experiência subjetiva" como sendo o inverso da atitude e da operação críticas.

2. Isso posto, posso, agora, dedicar-me à resposta. Mais uma vez, eu diria que o modo como se deve ou se pode ler a Bíblia depende do critério com que a Bíblia foi - ela já está nas mãos do leitor - tomada. O método é escolhido em função da idéia que se faz do objeto a ser analisado - assim como a isca a ser escolhida depende do tipo de peixe que se pretende pescar. Por outro lado, a idéia de que tipo de objeto se tem nas mãos (a ideologia), é ela quem decide, portanto, que tipo de método se vai usar. Por sua vez, ainda, uma vez estabelecida a ideologia, uma vez daí decorrida a metodologia, os procedimentos conseqüentes são fáceis de ser antecipados.

3. Ora, se o leitor toma a Bíblia como deposito fidei ou como que uma unidade teórico-literária, ambas formulações não-históricas, alguma coisa entre resultado de pragmática(s) estética e/ou política, o método que ele terá escolhido será, necessariamente, alegórico. Mesmo no caso de um Childs, que estabelece o "cânon" como critério, porque a Bíblia é um livro "cristão", quando tomar "Cristo" como critério hermenêutico e o puser a "abrir" os segredos da Bíblia Hebraica, ou, mantendo-se apenas aí, quando tomar as determinações ulteriores do Segundo Templo, então por meio desse código ler todo o resto (e, se num e noutro caso, não procede assim, o que resulta de sua proposição metodológica de tratar-se o "cânon" como critério?), mesmo nesse caso, é alegoria que se pratica. Em termos teórico-metodológicos - intentio lectoris, definição que a tentativa de estabelecer papel e tinta como teleológicos não disfarça: apenas consciências humanas possuem expressão intencional, logo, apenas autores e leitores possuem "intentio" - a obra, nunca.

4. Sendo assim, Barth e Childs podem ler do jeito que desejarem. Naturalmente que suas metodologias estão a serviço de uma política eclesiástico-teológica (trata-se, a rigor, do controle e da salvaguarda de conteúdos tradicionais, que precisam de fundamentação e legitimação escriturística). Barth e Childs têm a seu favor o fato de que toda a Tradição - os autores do Novo Testamento, os Pais da Igreja, os teólogos orientais e ocidentais, os escolásticos, os ortodoxos protestantes, os pietistas, os conservadores reacionários do XIX - sempre leu assim, "alegoricamente", a Bíblia Hebraica e, mesmo, o Novo Testamento. Podem, portanto, "apelar" para essa corte bimilenar. O que não podem é desconsiderar o fato de que, aí, opera-se uma pragmática política, normativa, que se traduz, sempre, na sobredeterminação hierárquica da "verdade". Nesse sentido, Barth é mais coerente, porque não disfarça, sob rodeios supostamente "acadêmicos", uma intenção deslavadamente político-hierárquica.

5. Uma vez que os métodos a-histórcos rompem com o liame entre a narrativa e seu autor (como Croatto propunha em sua fase de "intelectual" da TdL, discurso abandonado em sua fase fenomenológco-exegética), por mais esforço que se faça (inclusive da parte de alguém como Umberto Eco) resta uma e apenas inapelavelmente uma única instância de determinação (produção) de sentido: o leitor. Nesse caso, o leitor tem o direito de ler segundo sua conveniência, não havendo qualquer outro critério que não ele próprio para a determinação de se ele, o leitor, soberano, leu bem. É ele o leitor? Ele leu? Então leu bem. Ponto.

6. Ou o leitor lê (tenta ler) segundo a intentio auctoris, ou lê segundo a intentio lectoris - não existe, a despeito dos livros, intentio operis. Assim, se a ideologia faz da Bíblia um livro para leitores, toda e qualquer leitura é legítima. Barth e Childs optaram por tratar a Bíblia como objeto da Igreja, e, assim, lê-la segundo critérios estabelecidos estético-politicamente pela Igreja - nisso estão agindo legitimamente. Todavia, quando Barth quer estabelecer, a partir da Bíblia, uma Dogmática Eclesial que seja normativa para toda a Igreja, e não apenas para uma ou outra denominação (2), aí ele vai além de suas sandálias, e deixa-se acometer de megalomania e delírios teológicos cripto-católico-romanos (mas, a rigor, toda comunidade protestante, qualquer que seja, é um fragmento hologramático do catolicismo!), porque, sendo cada e qualquer leitura legítima, de onde sai (e desde aí entra na cabeça de Barth) a idéia de que todos têm de ler da forma como Barth lê, sendo que qualquer um pode ler do jeito que desejar? Política, nada mais do que política - e se essa política considera-se movida por dedicação à vontade de Deus e congêneres argumentos espirituais, perdeu-se o bom senso.

7. Em face do quadro histórico, é bem fácil flagrar-se o significado desse movimento de Barth. Até o século XVIII, a Igreja, politicamente, determina o sentido das Escrituras. No catolicismo, monoliticamente. No Protestantismo, se bem que, de cima, para terceiros, de forma absolutamente fragmentada (cada Igreja, uma Roma), do ponto de vista de cada Vaticano protestante, também monoliticamente. Nas duas Igrejas, a alta hierarquia, confessada ou dissimuladamente, estabelece, normativamente, a "doutrina". O século XIX nasce com e como o rompimento desse sistema, e, agora, deve-se determinar qual o centro de gravidade da operação hermenêutica, já que a autoridade teológica não serve mais como base e lastro. Nesse momento, ao lado do psicologismo congenial da intentio auctoris schleiermachiana (achar o sentido do que Isaías quis dizer dentro da cabeça de Isaías), posta-se o espírito crítico, próprio de uma racionalidade emancipada. Em Harnack, isso é traduzido pela fórmula "conhecimento histórico e reflexão crítica". Ora, a reação conservadora, desde 1850 até Barth, só pode significar o enfrentamento do esvaziamento político da teologia e da "exegese" escolástica-eclesiástica, a reconquista do poder normativo sobre a massa cristã, não sendo por nenhuma outra razão de fundo que a Dogmática de Barth é uma tentativa de pôr, de novo, os poderes hermenêuticos, logo, políticos, nas mãos da Igreja.

8. Quanto a Harnack, sua proposição quanto ao espírito crítico e ao conhecimento histórico é pertinente em relação ao paradigma histórico e, em termos hermenêuticos, ao pressuposto teórico-metodológico da intentio auctoris. Se, com ler a Bíblia, trata-se de "ouvir" o que disseram, e conforme o disseram, seus escritores, não se pode entregar a tarefa quer à estética, quer à política. Apenas o trabalho histórico-arqueológico de determinação do sentido original das narrativas presta-se à empreitada.

9. Se a Bíblia é tomada como resultado de um longo e lento processo histórico, uma biblioteca de bibliotecas, cada estande contendo pronunciamentos independentes e histórico-socialmente determinados, o esforço que se deve fazer para compreender não se refere, mais, à Bíblia como suposta unidade, mas às narrativas, às centenas, milhares?, de narrativas que compõem tais bibliotecas. Nesse caso, apenas o conhecimento histórico e a reflexão crítica serão capazes de fazer frente à tarefa.

10. Uma teologia científica, quando e se aplicada à Bíblia, não tem escolha: ela assume que tem nas mãos um acervo de narrativas histórico-sociais muito antigas, e vê-se, então, obrigada a dar tratamento rigorosamente histórico aos seus procedimentos interpretativos - o que demanda dela profundo conhecimento histórico e inegociável reflexão crítica. Penso que Hans Küng, conforme se pronunciou em Teologia a Caminho, não faria qualquer ressalva a uma tal conclusão (3).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO


1. Adolf VON HARNACK, Fifteen Questions to the Despisers of Scientific Theology, Christliche Welt, 11 de janeiro de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 85.
2. "A Dogmática eclesial quer ser expressão da comunidade da Igreja, e não uma escola teológica particular" (Rosino GIBELLINI, A Teologia do Século XX. São Paulo: Loyola, 1998, p. 27).
3. Em duas passagens muito claras: "tanto a dogmática como a exegese exigem uma atitude científica ante a verdade, discussão crítica dos resultados e comprovação crítica dos problemas levantados e dos métodos. Como a Bíblia (...), o dogma requer uma interpretação histórico-crítica. Como a exegese moderna, a teologia dogmática moderna precisa seguir uma hermenêutica rigorosamente histórica e mantê-la sem compromissos. Também sua verdade deve sempre ser uma verdade arraigada na história" (p. 225-226) e "precisa-se de uma teologia feita a partir do atual horizonte de experiência, uma teologia rigorosamente científica e, portanto, aberta ao mundo e orientada ao presente. Parece-me que só essa teologia merece hoje um lugar na universidade, ao lado das outras ciências" (p. 196) - Hans KÜNG, Teologia a Caminho - fundamentação para o diálogo ecumênico. São Paulo: Paulinas, 1999.

(2009/147) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - I
(2009/149) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - II (pergunta 1, parte 1)

quinta-feira, 9 de abril de 2009

(2009/149) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - II (pergunta 1, parte 1)


1. Conforme informei, inicio aqui, então, a série de respostas às Quinze Perguntas aos Teólogos que Desprezam a Teologia Científica, as quais Adolf von Harnack endereçou aos destinatários pertinentes em 11/01/1923. Faço-o, conscientemente, na condição de "intrometido", porque, para todos os efeitos, já que dirigidas aos teólogos "que desprezam a teologia científica", nenhuma das quinze perguntas me diz respeito diretamente - até porque considero que a teologia científica de Harnack ainda precisaria tornar-se mais científica do que ele a foi capaz de conceber. É, pois, arrisco dizê-lo, um serviço que pretendo prestar à teologia pensada como ciência, absolutamente livre de qualquer controle confessional ou eclesiástico, ainda que, ao fim e ao cabo, a serviço também da Igreja - se à Igreja interessa uma teologia verdadeiramente científica. Mas, se não, apenas lamento (por ela!). Aos que por isso se interessam, eis-me cá, intrometido.

2. Assim traduzo a já traduzida pergunta número um, de Harnack: "é a religião da Bíblia, ou são suas revelações, tão completamente uma unidade que, em relação a fé, culto e vida, se possa simplesmente falar de "a Bíblia"? Se não é assim, pode-se deixar a determinação do conteúdo do evangelho ao conhecimento heurístico do indivíduo, à sua experiência subjetiva, ou, antes, precisamos aqui de conhecimento histórico e reflexão crítica?" (1).

3. A pergunta-problematização de Harnack divide-se em duas partes - 1) se a Bíblia é ou não uma "unidade" e 2) que tipo de "exame" essa unidade ou não demanda. Bem - se ela é uma unidade...? Depende. De quê? Do que "você" decidir. Em si, a Bíblia já é um artifício, um artefato. Ninguém a "compôs". O que ela veio a ser não estava previsto em nenhuma das partes/fases anteriores, partes essas que, a despeito de sua ignorância histórica do processo futuro em que eram lanças, se não tivessem sido postas a constituir esse conjunto, tal conjunto jamais teria existido. Isto é - enquanto conjunto, o todo deve "satisfação" às partes. Mas, ao contrário, nenhuma parte deve satisfação ao todo, porque as partes e o todo não são co-naturais, são artificiais, arbitrárias - aprouve a alguém ou a alguma comunidade reunir isso com aquilo, e eis a Bíblia. Mas o "isso" e o "aquilo" nada têm a ver com "a Bíblia". Naturalmente que, isso, em termos históricos.

4. Assim, cabe a quem vai tomar a Bíblia nas mãos decidir o que ela é aí, aqui e agora, quando a pego nas minhas mãos. Se quem a toma, toma-a como cânon, ela é, então, uma coisa. Se quem a toma, toma-a como biblioteca, ei-la, já, outra coisa. Mas, ainda assim, "biblioteca" aí é um conceito insuficientemente claro, porque, a rigor, cada "rolo/livro" dela é, em si, uma biblioteca, já que o que foi feito com a Bíblia foi igualmente feito com cada livro, resultado de montagens arbitrárias em relação ao projeto inicial de cada narrativa que, agora, compõe um livro da Bíblia e a própria. Não entra aí a questão de se essa arbitrariedade é boa ou ruim - ela é histórica: isso foi feito - costuraram-se pedaços de pano e fez-se uma colcha de retalhos que, aos olhos de quem fez, não era apenas bonita, mas fazia sentido. Logo, é quem pega nas mãos a Bíblia, hoje, que precisa decidir-se pelo que tem nas mãos.

5. Se optar pela consideração da Bíblia como "bibliotecas" - é-se livre para assim se agir -, pronto: acabou a "liberdade". A partir daí, da escolha paradigmática, não há mais liberdade: se a Bíblia é um conjunto de "rolos" independentes que, por sua vez, são o conjunto de narrativas também independentes, resulta inquestionável que não há a mínima possibilidade, por menor que seja (salvo a trapaça retórica) de se considerar essa Bíblia uma unidade. Nem de fé, nem de culto, nem de vida. Cada narrativa "corre o risco" de constituir um mundo peculiar, com uma "fé" peculiar, uma litrugia própria, uma vida localizada, o que será determinado, necessariamente, caso a caso. E digo que tal contatação é inquestionável, porque o critério para tratar-se a Bíblia como bibliotecas é um critério histórico e, portanto, deve ser tratado sob a rubrica da história. Selaste o touro? Monta! Pariste Mateus? Embala-o!

6. Todavia, pode-se "simplesmente" passar por cima da questão histórica (acho um crime, mas, em termos pragmáticos, é uma possibilidade legítima), e, antes que tomar nas mãos a Bíblia por meio de critérios históricos, fazê-lo por meio de critérios ou estéticos ou políticos. O critério de Barth - como de resto, de toda teologia "normativa" (não importa a quantas palavras "espirituais" se recorra) - é político. Seja por força do critério estético, seja por força do critério político, a Bíblia torna-se aquilo que se deseja. Se é estético, é, pois, uma operação subjetiva, personalíssima, que diz respeito ao sujeito que opera o critério, válido para ele - e só para ele. Se é político, resulta impô-lo a terceiras consciências - é disso que se trata quando se fala de "normativo", afinal. A rigor, ainda é da cabeça de um sujeito que sai o critério "político", mas, diferentemente do caso pragmático estético, em que o critério é válido subjetivamente, sob o regime político, o critério é imposto objetivamente à comunidade. Num ou noutro caso, não faz diferença, a Bíblia é o que se quer fazer dela.

7. Aqui se pode somar Karl Barth e Brevard S. Childs (falecido em 2007). Para Barth, a Bíblia deve ser encarada como o conjunto objetivo da revelação de Deus, entendida essa como a expressão objetiva de uma "Dogmática da Igreja", ou seja, um deposito fidei. Trata-se de um conceito platônico-político-teológico, que, por força da tradição teológico-cristológica, faz da Bíblia uma unidade doutrinária. A História, aí, bem se vê, vai pro brejo. Por sua vez, Childs afirma que a Bíblia é o "cânon" (qual, Childs?, qual? - até a sua "determinação", dentre os pelo menos cinco modelos alternativos [LXX, Tanak, Vulgata e cânon "ortodoxo" e "protestante"] - é altamente arbitrária), de modo que o cânon deve ser o critério de leitura de cada "livro". Bem, trata-se de um suposto critério "teórico-literário", mas, a rigor, estamos, como sempre, diante de argumerntações neo-ortodoxas, dessa vez voltadas a uma platéia que precise de um aparentemente mais sofisticado regime de retórica para sua "adequação" ao gosto teológico do sistema. Eu ficaria honrado, e sentir-me-ia respeitado, se cada arbitrariedade fosse assumida como tal, e eu fosse honestamente convidado a aceitar tal arbitrariedade por meio de minha própria arbitrariedade - porque, aí, tudo é arbitrário, ainda que legítimo. Entretanto, o conjunto das retóricas de convencimento que se usa para convencer-me do absurdo é ofensivo - assim o considero.

8. Como se pode depreender de minha reação "passional", aceito que haja, apenas, nada mais além disso, duas únicas opções: 1) ou aceitar-se o critério histórico (objetivo, no sentido de que é a única "ponta" controlável do processo em termos da relação genética do sentiudo da narrativa [todas as demais opções fatalmente se verão obrigadas a capitular diante de processos alegóricos de apropriação da potência polissêmica de textos - sem que o gostem de confessar, eis o drama!]), e, com isso, descobrir nas mãos um sem número - chegará a contagem à casa do milhar? - de textos independentes (objetividade sem unidade), ou 2) aceitar-se o critério ideológico: confessadamente dogmático (Barth) ou alegadamente teórico-literário (Childs), assumindo, assim, que o que se tem nas mãos é uma "unidade" semântico-teológica (unidade com arbitrariedade).

9. Bem, esse é o primeiro passo, e o segundo depende dele. A meu ver, uma teologia científica (quando referente ao judaísmo/cristianismo, porque a teologia kardecista e umbandista, por exemplo, prescinde dessa discussão, só e somente só pode constituir-se por meio do critério histórico, porque ou submete-se ao seu objeto tal qual ele se apresenta em sua própria história, ou a teologia científica só terá de científico o nome, nada mais que isso (como é o caso da teologia que, presentemente, está no MEC).

10. Sob o regime, pois, das ciências, não há qualquer tipo, sob nenhuma circunstância ou hipótese, de "unidade" na Bíblia, como não o há na "vida" e na História. Não que não haja relações, correlações e/ou interrelações. Há - e muitas. Mas isso não constitui uma "unidade". Às vezes, constitui um diálogo. Outras, um enfrentamento. Quando se trata de enfrentamento, algumas vezes resulta em cooptação de uma das partes pela(s) outra(s), às vezes, sua destruição, outras, ainda, um cisma. Cada caso é um caso. História é singularidade! Podem-se encontrar amarrações inclusive artificiais - como no caso das narrativas do dilúvio. Em outros casos, as amarrações são tão bem feitas que se julga difícil imaginar que ali haja não apenas a mão de diferentes autores, mas, sobretudo, a mão bem treinada de um redator - como no caso da narrativa da "sarça ardente".

11. A teologia científica, quando e se aplicada à Bíblia, não tem nem terá a menor preocupação em converter esse conjunto de expressões históricas, de objetivações de consciências situadas, circunstanciadas geopolitica e culturalmente, em "uma" Palavra. Não. Nem lhe interessa. O que essa teologia científica, quando e se aplicada à Bíblia, quer, é lidar, individualmente e/ou no conjunto, com cada narrativa, porque cada narrativa é, para a teologia científica, um mundo próprio e peculiar, um nicho ecológico que precisa e vai ser preservado em sua especifricidade histórica. E, se por um prurid da tradição - e porque consideraríamos isso um "pecado"? -, quer o teólogo ver, aí, o "sagrado", poderá, então, "vê-lo" em cada expressão partcular dqaquela gente agora morta, mas cujo espírito vive a nos contar das suas dores e amores.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Adolf VON HARNACK, Fifteen Questions to the Despisers of Scientific Theology, Christliche Welt, 11 de janeiro de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 85.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

(2009/147) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - I


1. Em 11 de janeiro de 1923, Adolf von Harnack fez publicar em Christliche Welt, "a revista dos teólogos liberais" (1), a "provocação" Quinze Perguntas aos Teólogos que Desprezam a Teologia Científica. Se julgarmos o objetivo dessas "perguntas" pela tréplica de Harnack à réplica que Karl Barth publicou, na mesma revista, em 08 de fevereiro, resulta compreensível que eu veja nela uma "provocação": "elas foram endereçadas a você também, sim, especialmente a você" (2). Após a tréplica de Harnack, Barth reagiu, a 26 de abril, com An Answer to Professor Adolf von Harnack's Open Letter. Finalmente, em 24 de maio, sempre na mesma revista, Harnack "encerra" a discussão - a rigor, "tirando o time de campo" - com A Postscript to my Open Letter to Professor Karl Barth. Se consigo controlar os eventos posteriores a essa "correspondência", a teologia liberal, pouco a pouco, sairá de cena, e a teologia dialética - barthiana - conquistará o século XX, inicialmente com o próprio Karl Barth e, século adentro, com as sempre monumentais Teologias Sistemáticas. O que quer que Harnack efetivamente tinha em mente quando falava de "teologia científica" não teve força suficiente para conter, muito menos superar, a reação conservadora - neo-ortodoxa - que se iniciara em meados de 1850, depois de um século de aprofundamentos filológicos aplicados às Escrituras e que, também influenciados pelas Luzes, certamente dão considerável lastro à teologia liberal. Barth ganha a batalha. O século XX, perde.

2. Vou dedicar-me a uma série de postagens para responder a cada uma das Perguntas de Harnack. Naturalmente, meus objetivos são diametralmente opostos aos que moveram Karl Barth, ele, em todos os sentidos, alguém que "desprezava" o que quer que Harnack considerava "teologia científica" e que, fosse ela o que fosse, era "liberal" demais para um neo-ortodoxo como Barth - um homem de palavras "modernas" e argumentos em estilo "acadêmico" - e mentalidade escolástico-medieval.

3. O que me motiva é o contexto da teologia no Brasil - seu ingresso no MEC - e a conseqüente (talvez meramente circunstancial, talvez logo a comunidade teológica se canse dela) discussão a reseito do estatuto teórico-metodológico [epistemológico] da teologia. As propostas que tenho lido (e criticado) são - praticamente todas - no estilo de Barth. Nessa direção em que sopra o vento, o século XXI da teologia no Brasil terá a cara confessional, dogmática e ortodoxa que Barth conferiu à teologia cristã do século XX. E no MEC! O que eu lamento.

4. Conforme se pode ler em minha postagem anterior, não estou convencido de que a teologia de Harnack possa ser classificada como "teologia fenomenológica", isso num quadro conceitual que prevê três tipos de teologia: 1) ontologia - fé e política, 2) metáfora - retórica e política e 3) fenomenologia - heurística indiciária (história das idéias). Para que eu assim me posicione, o ponto determinante é o caráter "normativo" da teologia de Harnack, conquanto seja uma normatividade "histórico-cultural". Como se expressa Gibellini, "Harnack buscava a essência do cristianismo, sem entretanto questionar o próprio conceito de cristianismo" (3) [de qualquer modo, uma posição definitiva quanto a esse ponto impõe a leitura da obra de Harnack]. Além disso, seu colega liberal, Ernst Troeltsch, teria-o criticado por ter-se dedicado a uma aproximação histórica da teologia cristã, sem no entanto, analisá-la também à luz da história das religiões (4) [o que insistentemente me lembra a crítica que se fez a Tillich: "teólogo provinciano"]. Isso eu interpreto como resultado da intenção de Harnack de "negociar" com as Luzes e o Romantismo um "território" de direito - restrito que fosse - para a "teologia científica", o que, para ele, ainda constituía um capítulo "eclesiástico". Inserir o "fenômeno" da teologia cristã dentro do universo mais amplo e substancialmente antropológico do conjunto da história das religiões significaria o reconhecimento da absoluta falta de "normatividade" - de especificidade "histórico-ontológica" do cristianismo - ainda que, para Harnack, ele se resumisse ao núcleo (Kern) da pregação original de Jesus.

5. Harnack, arrisco afirmar, ainda pensa a partir da Igreja, e talvez se situe muito menos anacronicamente em face da história do Protestantismo do que Barth, que representa, a rigor, um esforço de contenção dos processos de emancipação da sociedade européia, inicados e patrocinados, afinal, pelo "espírito Protestante". A relação de Harnack com as Luzes e o Romantismo é de negociação - como as negociações que determinaram a nova geopolítica após a Primeira Gerra Mundial (estamos em 1923!) - que território permanece sob que poder? Talvez, até, mas isso é apenas um pensamento, Harnack projete em sua negociação as perdas alemães devidas à guerra. Já Barth, não. Barth não negocia nada. Pelo contrário, quer retomar - e retoma (Barth é o retorno à Idade Média!) todo o território (falo por metáfora, naturalmente) do "Sacro Império Cristão do Ocidente". Joga-se, aí, um jogo político, no qual a "fé" anima as armas.

6. Um brasileiro da Baixada Fluminense, cá permito-me pensar a questão fora do campo político. As respostas que pretendo dar às questões de Harnack serão articuladas no campo da investigação a respeito de uma verdadeira (em termos popperianos) teologia científica. Nesse sentido - e contra toda a longa série de artigos que, presentemente, defendem que seja muito "natural" que a teologia, tal qual é e está, tenha cadeira e lugar no MEC (e essa teologia é - apenas - confissão!) -, sirvo-me das próprias palavras de Harnack: "assim como há apenas um método científico, também há apenas um objetivo científico - a pura cognição de seu objeto" (5) [naturalmente que a expressão "a pura cognição de seu objeto" deve ser compreendida como opondo-se a uma aproximação ideológica e "dogmática" - previamente determinada pela "fé" -, e não como uma defesa da possibilidade "positiva" de acesso imediato aos objetos da cognição humana).

7. Assim, pretendo "usar" as Quinze Perguntas de Harnack para aprofundar minha perspectiva de uma teologia pós-metafísica, pós-política, heurística, indiciária. Será uma aventura, porque, certamente, do encontro de minha posição em amadurecimento com as provocações de Harnack (em 1923 [7 de maio] Harnack fazia 82 anos!) poderá sair uma configuração inesperada, quem sabe? Toda aventura é um risco - você volta dela com muitas fotografias e memórias, ou, por outro lado e/ou ao mesmo tempo, com um ou dois ossos quebrados... Que a aventura, pois, valha o risco.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Rosino GIBELLINI, A Teologia do Século XX, São Paulo: Loyola, 1998, p. 17.
2. Adolf VON HARNACK, Open Letter to Professor Karl Barth, Christliche Welt, 08 de março de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 91.
3. Rosino GIBELINO, op. cit. p. 14-15.
4. Idem, p. 15.
5. Adolf VON HARNACK, A Postscript..., em Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 106.

(2009/146) Da Teologia Liberal e de seu "caráter" ainda não-fenomenológico


1. Ontem de manhã, cumpri minha "obrigação" e apresentei a aula sobre Teologia Dialética. Poderia ser meramente um "desencargo profissional", mas dá-me um certo dissabor falar de teologias reacionárias, um verdadeiro freio de mão contra o avanço das rotinas epistemológicas emancipadas que varrem o Ocidente desde o século XVI, com inacreditável velocidade a partir do XIX (depois do Empismo inglês, do Iluminismo franco-europeu e, principalmente, do Romantismo alemão). Mas é a impaciência de uma meia-idade ainda cuidando ser juventude - era pra eu estar mais manso, eu sei...

2. Seja como for, a aula me trouxe algumas coisas positivas. Uma delas, sobre o que quero falar, é a pergunta de alguns alunos, boa, sobre se a teologia liberal constitui uma teologia fenomenológica - e não ontológica, então. Boa pergunta. Eu mesmo fiquei com alguma dúvida, até que um elemento me pareceu decisivo: não, a teologia liberal ainda é, ainda que no limite, ontológica. Bem, certamente não é fenomenológica.

3. Para refletir sobre a questão é preciso tomar os três "campeões" dessa questão, a que envolve a discussão em torno do tipo de teologia que faz Harnack, por exemplo. São eles: Feuerbach, Harnack e Barth.

4. Feuerbach reduz toda a teologia, e, nesse sentido, toda ontologia metafísico-religiosa, a projeção humana: mito, na forma de projeção antropológica, de modo que os deuses correspondem a hipóstases humanas, nada mais do que isso. Essa é uma proposição (em tese) heurística, porque ela constitui uma chave de leitura de todos os fenômenos religiosos, ainda que particularmente aplicada ao cristianismo (para o campo do discurso humano, ela é incontornável, conquanto não o seja, contudo [mas isso não vem ao caso], para o campo da "ontologia metafísica"). Ora, se uma teologia fenomenológica é inegociavelmente uma expressão científica, logo, investigativa, logo, passível de refutabilidade, de modo que essa teologia constituiria, verdadeiramente, um capítulo das Ciências Humanas, segue que uma teologia que se pretenda fenomenológica deve partir de Feuerbach - qualquer contorno ou tangenciamento da tese feuerbachana denuncia o caráter não-fenomenológico dessa teologia. Certo, Feuerbach não faz teologia - mas o que quero dizer é que uma teologia fenomenológica só pode ser pós-feuerbachiana, no sentido de atender às exigências do critério por ele estabelecido.

5. Bem, quanto a Barth não há dúvidas. Barth começa sua ascensão no cenário da teologia do século XX, de quem ele será o insuperável campeão, justamente tendo por interlocutor, diretamente, Harnack e, indiretamente, via Romantismo, Feuerbach. A teologia dialética de Barth edifica-se sob (contra ela, mas coooptando-a) a plataforma romântica - para a negar - e explicitamente em confronto com o liberalismo teológico de Harnack, de quem aceita a "provocação" constituída pelas quinze questões para um teólogo tradicional, que Barth responde, e, por meio da qual, a partir de então, "engole" a teologia liberal.

6. Se, num primeiro momento, Barth tem por deuteragonistas Harnack e Feuerbach, entende-se que a primeira fase de sua teologia tenha sido "dialética": a tese: um Deus Totalmente Outro, inacessecível, a antítese: um homem preso à sua condição antropológica (cooptação do Romantismo), e a síntese: a revelação de Deus em Jesus, na Palavra, na Igreja. Daí, Barth concentrar-se-á na teologia da Palavra de Deus, e, por conta da superação de seus adversários iniciais, agora, então, cada vez mais acentuadamente numa platéia doméstica, o que o levará a "focar" de modo cada vez mais acentuado a dimensão objetiva do dogma (contra, por exemplo, a subjetivação teológica de um Schleiermacher, outro "liberal"). O "novo" público de Barth define o caráter de sua Dogmática Eclesial - monumento do século XX, quase outra Súmula Teológica, se já não uma outra.

7. Barth, então, é inescapavelmente ontológico: o dogma é não apenas uma referência explícita à realidade metafísica (platônica), mas, sobretudo, "objetivo". O dogma é "revelação" e pronto. O problema é classificar Harnack. Bem, Harnack defende o emprego do método histórico-crítico - e o emprega! Isso faz dele um teólogo fenomenológico? Talvez. No entanto, o uso de ferramental crítico não defne, necessariamente, o caráter da teologia em que ele é empregado. É verdade que, por força de seu critério "histórico", Harnack reduza o fundamento do Cristianismo, a sua "essência normativa", unicamente ao que Jesus teria "pregado" - a rigor, aos Sinóticos, reduzindo o restante, de João a Apocalipse, a um capítulo da História da Igreja. Todavia, qual a relação de Harnack com esse núcleo "fundamental"?

8. Bem, não é uma relação "científica" (e a teologia fenomenológica quer-se científica), distanciada (e a teologia fenomenolçógica quer-se distanciada) - antes, trata-se de uma relação política, "normativa", no sentido de que, na condição de teólogo, Harnack afirma que é esse Jesus, metodologicamente reduzido à sua expressão histórica "concreta", o fundamento da fé, da teologia, do Cristianismo. Isso (para mim?) só parece poder significar que Harnack pensa politicamente a questão da teologia - determinando sua base teórica e seu escopo literário. Sobretudo, Harnack determina o critério da "norma" - o "fundamento histórico" -, ainda que sob um registro não necessariamente canônico (intra-canônico) ou conciliar. No entanto, a heurística não está em condições de estabelecer instâncias normativo-políticas - tão somente de descrever eventos e relações históricas, extraindo deles as interpretações e as implicações metodologicamente controláveis. Ora, a afirmação de que é Jesus, e o histórico, e não o de João, por exemplo, nem o de Paulo, o "fundamento" (normativo!) de uma religião, a cristã, não é uma atitude fenomenológica, mas política, e, nesse sentido, se a teologia de Harnack não tem o caráter necessariamente ontológico-metafísico que tem a de Barth, tem, por outro lado, um caráter ontológico-olítico, e, de qualquer modo, certamente não tem o caráter fenomenológico que uma teologia enquanto fenomenologa deve ter.

9. Assim, arrisco afirmar que Harnack não é, ainda, um teólogo fenomenológico. Nesse caso, por uma questão básica: sua teologia ainda tem função política, função de normatização, função de determinar, para uma coletividade engajada e nisso interessada, um núcleo fundamental e fundante para a fé. Naturalmente que será uma fé muito "menor", em termos de conteúdo, que a fé de um Barth, porque a fé de Barth não difere substancialmente da de Lutero, Agostinho, Nicéia ou Paulo - a fé platônico-cristã, característica, certamente, da Tradição. Já a de Harnack, constitui uma tentativa de negociação entre o melhor Lutero possível e o melhor estado da "razão" romântico-iluminista: que anéis se podem dispensar, sem que, por outro lado, percam-se os dedos? Um dedo que seja deve ficar!...

10. Julgo, portanto, que a teologia liberal foi uma tentativa de negociar terreno (para a teologia e a Igreja) com o avanço da epistemologia emancipada européia, naquela virada do XIX para o XX. Não diria que Hans Küng (aquele de Teologia a Caminho), postule alguma coisa muito diferente (também para ele "Jesus", o Jesus histórico, e o método histórico-crítico são fundamentais). Permanece, aí, uma tensão entre método e conteúdo. Talvez o método tenha uma função iconoclasta, como deve ter, sempre, na fenomenologia. Mas há, todavia, um ressupsoto de conteúdo desde a partida - Harnack e Hans Küng são tão "cristãos" quanto Barth - a sua diferença é que estão dispostos a negociar o máximo possível com a epistemologia, preservando o mínimo - inegociável - da "fé".

11. Se meus arrazoados estão decentemente sustentados, essa - a teologia liberal - ainda não é a teologia como fenomenologia que se deveria, no entanto, postular. E que, modestamente, postulo.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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