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terça-feira, 25 de maio de 2010

(2010/391) Intentio auctoris como forma de intentio lectoris


1. Estive meio afundado em tarefas das mais variadas. Além das aulas, há demanda de vários textos para terminar até o final do mês. E também a minha monografia de graduação do curso do direito só vai a passos tímidos, embora esteja esboçada na cabeça.

2. Na Peroratio, parei quando o Osvaldo teve o final de semana atípico e foi com Dona Bel ao Rio para comprar um labrador. Que coisa boa! É um gesto de muita grandeza, ainda que no fundo desejasse mesmo só ter plantas no jardim. Cão labrador pode trazer muita alegria e muitas outras coisas mais...

3. Goiânia vive hoje a tranqüilidade de feriado municipal. Mesmo assim, acordei cedo para me preparar para uma prova prática em concurso na Universidade Estadual de Goiás. Fui lá, certinho, com os comprovantes e tudo mais. No sorteio da sequência fiquei quase no final da lista. Nessa “folga” quero reagir ao post do Osvaldo (379/2010). É aquele que trata da intentio operis de Umberto Eco.

4. Considero como flecha que acerta o centro do alvo dizer que atribuição de "sentido" é função APENAS da consciência humana, da mente humana. Não há "sentido" nas coisas, em nenhuma delas. Isso deveria ser tomado como ponto de partida nas discussões sobre hermenêutica. Somos nós, humanos, em razão da nossa capacidade de simbolização que atribuímos sentido às coisas, as quais, por si mesmas, não têm sentido. Isso, contudo, não significa dizer que os objetos, coisas, seres do mundo fenomênico não têm sua dinâmica própria na realidade do mundo que existe independentemente de nossa simbolização. Isso vale em particular para os seres animados.

5. Eco não quer voltar à hermenêutica romântica da intentio auctoris. E o faz por uma boa razão. Ela tem duas faces: uma é heurística e a outra é dogmática. É retornando ao texto, sua historicidade, sua construção lingüística, literária, à provável intencionalidade do autor etc. que se pode descobrir, ou melhor, reconstruir o sentido do texto, aqui entendido em sentido lato. Aí há chance de produzir conhecimento. Mas o modo científico pode levar a afirmações dogmáticas ou tornadas dogmáticas. Acho que Eco pensa mais nesta última possibilidade. Dizer que não se pode reconstruir a intenção do autor equivale a negar qualquer afirmação de sentido fixo em texto escrito.

6. Eco, contudo, trabalha com um dado inegável. O processo da escrita, que abriga o texto à destruição pelo tempo, opera uma dimensão mais profunda. Perdendo-se o elemento performático da comunicação primeira do texto, o texto, uma vez fixado por escrito, abre-se a muitas possibilidades de leitura. Na verdade, abre-se ao infinito das possibilidades. Esse campo foi aberto com a ênfase na subjetividade do intérprete. Cada um lê com os olhos que tem, a partir de onde os pés pisam o chão, no cotidiano, na história. Mas Eco não quer a desbastagem completa do texto ao modo dos pragmatistas não-fundacionais. Ele se nega a dar ao leitor o poder de só “usar” o texto, de deduzir do texto o que bem quiser, ainda que reconheça que o autor morre no momento da fixação do texto, especialmente por escrito.

7. Por isso a saída pela intentio operis. Também acho que isso não constitui uma saída verdadeira, real. É uma fuga. Pois a obra não tem vida própria. Como expressão literária ou artística, saída da mente simbolizadora do homo hermeneuticus, ela por atuar sobre a consciência do leitor ou admirador. Mas é este que, até por razões involuntárias, atribui sentido. O sentido que se afigura na consciência do leitor, melhor: dos leitores, é operação própria destes e não a contemplação de um sentido fixo na ou da obra. Não se trata de negar a existência de um sentido lá colocado pelo autor; trata-se da dificuldade de descobrir, de atinar ou de reconstruir este sentido.

8. Isso, agora, nos mete nas aporias a serem consideradas na intentio auctoris. Comungo dela como prática exegética. Vejo-a como uma forma controlada de acessar o sentido, melhor é sempre falar no plural: os sentidos, de um texto. Porque tanto no que tange ao autor quanto à sua obra, salvo se ainda vivos, como Eco, aqueles não têm interlocução própria. Não são capazes de responder às minhas indagações. Eu é que jogo uma ou mais possibilidades de interpretação sobre o texto e trato de encontrar argumentos no próprio texto para sustentar a minha hipótese. Aí começo a fazer o que se poderia chamar de ‘ciência’. Exercito o método científico. Mas, devo ser cauteloso; não posso transformar o meu resultado em “verdade”, pois isso me levaria ao campo do dogmatismo.

9. Então, com base no exposto, deixaria para reflexão esta afirmação: também a intentio auctoris é uma forma de intentio lectoris¸ porém, com o diferencial de que um modo metodologicamente controlado de fazer a leitura.


HAROLDO REIMER

domingo, 21 de junho de 2009

(2009/367) Profecia ante eventu


1. A chamada "profecia bíblica" é constituída, em boa medida, de um conjunto de releituras "ex eventu", isto é, interpretações feitas após o evento acontecido, colocando-se na boca de um profeta palavras que anteveem eventos de um futuro, visto a partir de um passado realizado no presente da enunciação. Aí não tem muito perigo de erro.

2. Claro, há também os personagens carismáticos, 'históricos', que, no caso da literatura bíblica, deram origem a um conjunto de textos. Para chegar a esses há somente um caminho por meio de um intrincado conjunto de enunciação de hipóteses, que devem ser 'verificadas' por meio árduo trabalho de análise literária, com cotejo do maior número de informações históricas. Não temos mais 'acesso direto' ao personagem histórico. Qualquer acesso se dá, necessariamente, por meio (através?) das construções textuais em torno do personagem.

3. Gosto de trabalhar com textos proféticos. Aprendi a gostar em idos tempos na Faculdade de Teologia, em São Leopoldo, com meu mestre Milton Schwantes. Depois, nos meus estudos doutorais, andei nas sendas de Amós, um profeta radical. Vi, na época - elá já vão quase 20 anos -, coisas, que, hoje, vejo de forma diferente. O "meu" Amós diminuiu em termos de base literária e histórica. Ele não desapareceu. Também não é simples "invenção". Um personagem, provavelmente com este nome - Amós - mantém uma referencialidade com os textos sobrepostos ao personagem. Uma série de textos, para mim, passaram de ante para ex eventu.

4. Transpondo os tempos, sem abandonar o gênero, gostaria que permanecesse - mesmo sob o risco da "falsa profecia", conforme a normatização deuteronômico-deuteronomista -, como profecia ante eventu a seguinte previsão: "OSVALDO É HISTORIADOR".

5. Se eu errar, erro eu. Porque é intenção, é desejo, é voto!


HAROLDO REIMER

domingo, 14 de junho de 2009

(2009/357) Da cozinha


1. ... vem-me o cheio do bacon que Bel frita, a água quer-me escorrer canto da boca afora, enquanto olfato e memória somam forças na tarefa de me levar ao passado. Há diferença entre comer e degustar...

2. Como, meu amigo, vamos ler-te, provar do teu gosto - mas do teu? Querem que brinquemos com as palavras, também c'as tuas (brincam, com elas, Nietzsche!...), que as amarremos em nossos próprios dedos, cada um nos seus, e as façamos, nós, bailar, alguma coisa entre acordos de gueto e teocracia normativa, dita confessional, com o que vou-me tornando averso à palavra "confissão"...

3. Mas, amigo, cá está quem te entende, e, por isso, busca entender-te:

AO MEU LEITOR
Boas maxilas, bom estômago,
Eis o que te desejo.
Depois de teres digerido o meu livro
Hás-de entender-te certamente comigo.
(Nietzsche, A Gaia Ciência, Aforismo 54)

4. Ler-te, Nietzsche, ou é entender o que disseste, ou não é ler-te - ou melhor: é não-ler-te... E há, decerto, razões inúmeras e de sobra para fugirem de ti, como crianças, do banho, seja o cristão de Nicéia, seja o não-fundacional Deus-sabe-de-onde (ainda há de revelar-se a sua pátria!).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 10 de abril de 2009

(2009/150) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - III (pergunta 1, parte 2)


1. Resta agora, quanto à pergunta número um de Harnack, enfrentar-lhe a segunda parte, que assim traduzo: "se não é assim, pode-se deixar a determinação do conteúdo do evangelho ao conhecimento heurístico do indivíduo, à sua experiência subjetiva, ou, antes, precisamos aqui de conhecimento histórico e reflexão crítica?" (1). Se a expressão "à sua experiência subjetiva" constitui aposto, e, nesse sentido, um reforço ao sentido de "conhecimento heurístico do indivíduo" (o fato de as duas expressões estarem separadas, apenas, por vírgula, bem como a série ver-se seguida da conjunção "ou", a meu ver, reforça essa interpretação), resulta necessário dizer que essa segunda parte constitui-se da alternativa entre dois modos de procedimento metodológico - um, subjetivo (estético e político) e, outro, crítico. Não está de todo claro para mim o que é, exatamente, que Harnack está querendo dizer com a primeira alternativa, senão que, para que ela faça sentido, devo considerá-la oposta à segunda (como as duas alternativas da primeira parte da pergunta [objetividade sem unidade versus unidade com arbitrariedade]). Uma vez que a fórmula "conhecimento histórico e reflexão crítica" é absolutamente fácil de entender, interpreto o que quer que Harnack quisesse dizer com a expressão apositiva "ao conhecimento heurístico do indivíduo, à sua experiência subjetiva" como sendo o inverso da atitude e da operação críticas.

2. Isso posto, posso, agora, dedicar-me à resposta. Mais uma vez, eu diria que o modo como se deve ou se pode ler a Bíblia depende do critério com que a Bíblia foi - ela já está nas mãos do leitor - tomada. O método é escolhido em função da idéia que se faz do objeto a ser analisado - assim como a isca a ser escolhida depende do tipo de peixe que se pretende pescar. Por outro lado, a idéia de que tipo de objeto se tem nas mãos (a ideologia), é ela quem decide, portanto, que tipo de método se vai usar. Por sua vez, ainda, uma vez estabelecida a ideologia, uma vez daí decorrida a metodologia, os procedimentos conseqüentes são fáceis de ser antecipados.

3. Ora, se o leitor toma a Bíblia como deposito fidei ou como que uma unidade teórico-literária, ambas formulações não-históricas, alguma coisa entre resultado de pragmática(s) estética e/ou política, o método que ele terá escolhido será, necessariamente, alegórico. Mesmo no caso de um Childs, que estabelece o "cânon" como critério, porque a Bíblia é um livro "cristão", quando tomar "Cristo" como critério hermenêutico e o puser a "abrir" os segredos da Bíblia Hebraica, ou, mantendo-se apenas aí, quando tomar as determinações ulteriores do Segundo Templo, então por meio desse código ler todo o resto (e, se num e noutro caso, não procede assim, o que resulta de sua proposição metodológica de tratar-se o "cânon" como critério?), mesmo nesse caso, é alegoria que se pratica. Em termos teórico-metodológicos - intentio lectoris, definição que a tentativa de estabelecer papel e tinta como teleológicos não disfarça: apenas consciências humanas possuem expressão intencional, logo, apenas autores e leitores possuem "intentio" - a obra, nunca.

4. Sendo assim, Barth e Childs podem ler do jeito que desejarem. Naturalmente que suas metodologias estão a serviço de uma política eclesiástico-teológica (trata-se, a rigor, do controle e da salvaguarda de conteúdos tradicionais, que precisam de fundamentação e legitimação escriturística). Barth e Childs têm a seu favor o fato de que toda a Tradição - os autores do Novo Testamento, os Pais da Igreja, os teólogos orientais e ocidentais, os escolásticos, os ortodoxos protestantes, os pietistas, os conservadores reacionários do XIX - sempre leu assim, "alegoricamente", a Bíblia Hebraica e, mesmo, o Novo Testamento. Podem, portanto, "apelar" para essa corte bimilenar. O que não podem é desconsiderar o fato de que, aí, opera-se uma pragmática política, normativa, que se traduz, sempre, na sobredeterminação hierárquica da "verdade". Nesse sentido, Barth é mais coerente, porque não disfarça, sob rodeios supostamente "acadêmicos", uma intenção deslavadamente político-hierárquica.

5. Uma vez que os métodos a-histórcos rompem com o liame entre a narrativa e seu autor (como Croatto propunha em sua fase de "intelectual" da TdL, discurso abandonado em sua fase fenomenológco-exegética), por mais esforço que se faça (inclusive da parte de alguém como Umberto Eco) resta uma e apenas inapelavelmente uma única instância de determinação (produção) de sentido: o leitor. Nesse caso, o leitor tem o direito de ler segundo sua conveniência, não havendo qualquer outro critério que não ele próprio para a determinação de se ele, o leitor, soberano, leu bem. É ele o leitor? Ele leu? Então leu bem. Ponto.

6. Ou o leitor lê (tenta ler) segundo a intentio auctoris, ou lê segundo a intentio lectoris - não existe, a despeito dos livros, intentio operis. Assim, se a ideologia faz da Bíblia um livro para leitores, toda e qualquer leitura é legítima. Barth e Childs optaram por tratar a Bíblia como objeto da Igreja, e, assim, lê-la segundo critérios estabelecidos estético-politicamente pela Igreja - nisso estão agindo legitimamente. Todavia, quando Barth quer estabelecer, a partir da Bíblia, uma Dogmática Eclesial que seja normativa para toda a Igreja, e não apenas para uma ou outra denominação (2), aí ele vai além de suas sandálias, e deixa-se acometer de megalomania e delírios teológicos cripto-católico-romanos (mas, a rigor, toda comunidade protestante, qualquer que seja, é um fragmento hologramático do catolicismo!), porque, sendo cada e qualquer leitura legítima, de onde sai (e desde aí entra na cabeça de Barth) a idéia de que todos têm de ler da forma como Barth lê, sendo que qualquer um pode ler do jeito que desejar? Política, nada mais do que política - e se essa política considera-se movida por dedicação à vontade de Deus e congêneres argumentos espirituais, perdeu-se o bom senso.

7. Em face do quadro histórico, é bem fácil flagrar-se o significado desse movimento de Barth. Até o século XVIII, a Igreja, politicamente, determina o sentido das Escrituras. No catolicismo, monoliticamente. No Protestantismo, se bem que, de cima, para terceiros, de forma absolutamente fragmentada (cada Igreja, uma Roma), do ponto de vista de cada Vaticano protestante, também monoliticamente. Nas duas Igrejas, a alta hierarquia, confessada ou dissimuladamente, estabelece, normativamente, a "doutrina". O século XIX nasce com e como o rompimento desse sistema, e, agora, deve-se determinar qual o centro de gravidade da operação hermenêutica, já que a autoridade teológica não serve mais como base e lastro. Nesse momento, ao lado do psicologismo congenial da intentio auctoris schleiermachiana (achar o sentido do que Isaías quis dizer dentro da cabeça de Isaías), posta-se o espírito crítico, próprio de uma racionalidade emancipada. Em Harnack, isso é traduzido pela fórmula "conhecimento histórico e reflexão crítica". Ora, a reação conservadora, desde 1850 até Barth, só pode significar o enfrentamento do esvaziamento político da teologia e da "exegese" escolástica-eclesiástica, a reconquista do poder normativo sobre a massa cristã, não sendo por nenhuma outra razão de fundo que a Dogmática de Barth é uma tentativa de pôr, de novo, os poderes hermenêuticos, logo, políticos, nas mãos da Igreja.

8. Quanto a Harnack, sua proposição quanto ao espírito crítico e ao conhecimento histórico é pertinente em relação ao paradigma histórico e, em termos hermenêuticos, ao pressuposto teórico-metodológico da intentio auctoris. Se, com ler a Bíblia, trata-se de "ouvir" o que disseram, e conforme o disseram, seus escritores, não se pode entregar a tarefa quer à estética, quer à política. Apenas o trabalho histórico-arqueológico de determinação do sentido original das narrativas presta-se à empreitada.

9. Se a Bíblia é tomada como resultado de um longo e lento processo histórico, uma biblioteca de bibliotecas, cada estande contendo pronunciamentos independentes e histórico-socialmente determinados, o esforço que se deve fazer para compreender não se refere, mais, à Bíblia como suposta unidade, mas às narrativas, às centenas, milhares?, de narrativas que compõem tais bibliotecas. Nesse caso, apenas o conhecimento histórico e a reflexão crítica serão capazes de fazer frente à tarefa.

10. Uma teologia científica, quando e se aplicada à Bíblia, não tem escolha: ela assume que tem nas mãos um acervo de narrativas histórico-sociais muito antigas, e vê-se, então, obrigada a dar tratamento rigorosamente histórico aos seus procedimentos interpretativos - o que demanda dela profundo conhecimento histórico e inegociável reflexão crítica. Penso que Hans Küng, conforme se pronunciou em Teologia a Caminho, não faria qualquer ressalva a uma tal conclusão (3).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO


1. Adolf VON HARNACK, Fifteen Questions to the Despisers of Scientific Theology, Christliche Welt, 11 de janeiro de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 85.
2. "A Dogmática eclesial quer ser expressão da comunidade da Igreja, e não uma escola teológica particular" (Rosino GIBELLINI, A Teologia do Século XX. São Paulo: Loyola, 1998, p. 27).
3. Em duas passagens muito claras: "tanto a dogmática como a exegese exigem uma atitude científica ante a verdade, discussão crítica dos resultados e comprovação crítica dos problemas levantados e dos métodos. Como a Bíblia (...), o dogma requer uma interpretação histórico-crítica. Como a exegese moderna, a teologia dogmática moderna precisa seguir uma hermenêutica rigorosamente histórica e mantê-la sem compromissos. Também sua verdade deve sempre ser uma verdade arraigada na história" (p. 225-226) e "precisa-se de uma teologia feita a partir do atual horizonte de experiência, uma teologia rigorosamente científica e, portanto, aberta ao mundo e orientada ao presente. Parece-me que só essa teologia merece hoje um lugar na universidade, ao lado das outras ciências" (p. 196) - Hans KÜNG, Teologia a Caminho - fundamentação para o diálogo ecumênico. São Paulo: Paulinas, 1999.

(2009/147) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - I
(2009/149) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - II (pergunta 1, parte 1)

quinta-feira, 26 de março de 2009

(2009/113) Ah, o Romantismo...


1. Haroldo "me" (nos) brinda com um texto que me remete às nossas aulas, no Batista, durante os dias do mestrado e daquele doutorado "livre". Mais do que ao conteúdo, reportei-me ao modo haroldiano de dar aulas - absolutamente diferente do modo como eu dou as minhas, e, por isso, objeto de uma tremenda "inveja" da qual não me penitencio. Gostaria imensamente de ser assim, de conseguir dar aulas como você dá, meu amigo, mas sou outra pessoa. Sinto saudades imensas, gigantescas, imorredouras, daqueles dias. Deus é cruel: nos dá um doce do qual nunca mais provaremos o gosto. Maldade de Deus.

2. Mais do que isso, o post de Haroldo me transporta para meu mundo por adoção - o XIX: Romantismo. Mais do que o período em que os árabes introduzem Aristóteles no Ocidente ("parto" do Humanismo - a tese de que o Cristianismo deságua, naturalmente, no Humanismo não se concretiza sem Aristóteles, sem os árabes), mais do que o período da Reforma (o seu período "de pedra", não, obviamente, a sua eternidade "de telhado"), mais do que período do Empirismo e do Iluminismo, minha casa é o XIX - Romantismo. E Hadoldo acerta em cheio ao dizer de que Romantismo se trata - em toda a sua relevância, o Romantismo de um Dilthey, fundador das Ciências do Espírito, resultado mais do que conseqüente em face das reflexões de Kant a Nietzsche, passando por Schopenhauer, Schleiermacher e Feuerbach (Peirce, do outro lado do Atlântico, não pode ser esquecido!). Eis a afirmação-chave de Haroldo: "dos céus, o olhar baixou para a terra".

3. Gostei muito da inteligência de sua abordagem - a história da intentio auctoris como a história da superação do princípio da autoridade, o pouso da inteligência na história, na terra, como Nietzsche preconizava. Isso - exatamente isso - sou eu. Eu diria, Haroldo, que vivi, de 1984 (ano de minha "conversão") até 1989 (ano em que assumi uma posição incipiente, mas suficientemente crítica) a saga do ocidente: primeiro, dogmática, mística e entusiasticamente cristão, depois, inclinadamente humanista e ousadamente questionador, e, finalmente, irremediavelmente romântico. Não há volta, eu creio. Entre o primeiro, cristão, e o último, romântico, apenas uma mística sobrevive - uma mística sem conteúdo, se há de compreender...

4. Obrigado pelo texto, Haroldo. Diga a seus alunos (você não dirá, eu sei) que eu os invejo, que eu gostaria imensamente de estar no lugar deles.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 16 de novembro de 2008

(2008/48) Intentio, intentio, intentio - nada mais do que intentio


1. Homens e mulheres são seres de cultura. Sim, Dawkins está certo, habemus DNA, mas demos um jeito de entregar a ele(s) divisões da Instituição Homo sapiens propriamente animais. Aquelas mais distintivamnte "humanas", essas, aquilo a que convencionamos chamar de "consciência" assumiu-lhes o "controle". O que faz de nós seres teleológicos. Dito em recorte epistemológico, "pragmáticos" (para a "virada" pragmática nas Ciências Humanas, cf. a Introdução de O Império do Sentido, de François Dosse - eventualmente, ler minha Série Pragmática, na http://www.ouviroevento.pro.br/).

2. A era pós-estruturalista descobriu-se pragmática - uma tentativa epistemológica de conciliar "objetividade" e "subjetividade", de entrever o perfil emancipado do sujeito em meio às sobredeterminações constantes da cultura e da sociedade. A ação dotada de sentido, não mais mecânica e desprezível, mas teleológica, passou a ganhar interesse - "de novo", já que ela se encontrava já discutida tão cedo quanto em Aristóteles e Kant (saber, querer, sentir).

3. Intentio. Aplicando o conceito aos textos, a modernidade desenhou-se sobre o autor dos textos - como Schleiermacher queria (e, até certo limite, também eu: recuperar os processos de pensamento do autor de um texto): intentio auctoris. Não apenas o método histórico (Lourenço Valla) e o histórico-crítico (séculos XVII em diante), mas o proto-hermenêutico (eu preferiria ter dito, "o período dos pioneiros da hermenêutica", mas a "hermenêutica" que se vai apropriando de seu próprio passado vai matando o sujeito e pondo em seu lugar ou uma Linguagem [Heidegger] ou uma perigosíssima Tradição [Gadamer] - um retorno surpreendente [e sub-reptício!] a uma metafísica não-mitológica, mas tão mítica quanto a platônica]: em Vattimo, que bebe até a embriaguez de um copo de Gadamer , a Hermenêutica é uma Senhora que tem o que dizer, que tem conteúdo!, como aquela Sabedoria, de Provérbios, a falar pelas ruas), de Schleiermacher e Dilthey (aí, a hermenêutica ainda é "método" e "modo"), que reconheciam na intencionalidade situada do sujeito-escritor a chave hermenêutica do discurso ali objetivado.

4. Logo criticou-se essa "escola". De "positivismo" pra baixo (Croatto, ideologicamente, chamou-a de "eisegese", em 1984, antes, contudo, de ele mesmo descobrir a Fenomenologia da Religião, e ir meter-se ele mesmo em exegese, em sua série Isaías). Como as críticas, na sua esmagadora maioria, dão-se por cima, elas tendem a posicionar-se polarmente ao discurso que enfrentam. Postulou-se, então, o oposto da intentio auctoris - a intentio lectoris.

5. Que, contudo, é a mais antiga que sua rival. A alegoria ateniense e o midrash rabínico-judaíta (que marcam inexoravelmente toda - toda! - a tradição e teologia do Cristianismo) são modelos milenares de intentio lectoris - logo, de ideologia assumida como critério. Epistemologicamente, trata-se de assumir, programaticamente, o "leitor" - não mais o autor - como critério para a interpretação do texto. É o leitor quem diz, não o autor - tecnicamente e epistemologicamente morto. Na prática, o leitor "atualiza" (termo técnico) um sentido próximo de si para cada palavra e relação sintático-semântica do texto, construindo, com ele, uma rede semântica de si e para si. Cada leitor, uma leitura. Todas certas. Cada vez, alguma coisa entre estética e política.

6. Fica o teórico tendo de decidir entre a reconstrução psicológica da mente de um defundo ou a assunção da própria ideologica como critério de leitura. Exegese ou eisegese. Numa, nunca se sabe quando se está certo - porque não se pode "checar" se o que se está entendendo é mesmo o que o autor teria querido dizer. Noutra, sempre se está certo, não importa quem leia, como se leia.

7. Há quem não goste dessa encruzilhada. Inventou-se uma "saída" - a meu ver, a do leão da montanha, aquela, do desenho animado dos anos 70 e 80. Inventou-se de dizer que textos falam por si mesmos. Chamou-se a isso de intentio operis. Até Umberto Eco nadou nessas águas. Elas são assépticas. Você pode dizer que não faz ideologia descarada (intentio lectoris), nem que lida com anacronismos metodológicos (psicologismos démodé - intentio auctoris). Mas é isso, apenas que pode fazer - dizer que não faz. Mas faz. Toda intentio operis nada mais é, em termos fenomenológicos, que intentio lectoris não assumida.

8. Textos não têm intenção alguma. Têm estrutura, que, contudo, não falam por si mesmas. Falassem, qualquer que adotasse a "saída" leria, sempre, o que o texto eventualmete teria a dizer. Não é, contudo, o caso. Pessoas utilizam-se das estruturas do texto para "falar". Sempre se cai na mesma situação - cada leitor, uma leitura. Por quê? Porque apenas seres humanos, de carne e osso, têm intencionalidades discursivas desdobráveis e desdobradas culturalmente. Textos, por outro lado, são coisas, não pessoas (nem seus personagens!), são objetos culturais, que pessoas fazem, mas que não falam por si mesmos.
9. Chamou-se à teoria intentio operis, de "opus", "obra", tomando o termo de empréstimo às artes. Já aí era pra se ter percebido a improcedência da retórica: museus são lugares especiais para desdobramento das experiências estéticas de sujeitos históricos. Cada um olha um quadro, e "experimenta-o" a partir de si mesmo. Não é o quadro que fala, mas o sujeito que se projeta, esteticamente, e cria uma singularidade relacional, "situada", produzida teleologicamente pelo sujeito. Ainda que sem o quadro, a obra, o sujeito não se expressasse, não é ao quadro que cabe a tarefa da expressão, e nem tampouco e a ele que ela é devida. Ele é apenas medium - e mudo. É o sujeito quem o "usa", para "exprimir-se".

10. O fato de que, entretanto, se pode pegar esse mesmo quadro e "estudá-lo" em sua classe de História da Arte recoloca as coisas, a meu ver, onde devem estar. Diante de um quadro, ou você o apreende ou esteticamente (também, politicamente), ou heuristicamente. Ele, nada, nunca, nada faz. É sempre você, leitor, quem usa textos - seja para encontrar-se, teórico-metodologicamente, com a intencionalidade (psicológica, sim!) do autor dele, ou com sua própria ideologia. Nunca, leitor, há de se encontrar com alguma coisa como uma "intenção da obra", do texto, porque isso, simplesmente, inexiste. Como disse, há, ali, estruturas, eixos de força (sintaxe, semântica, estilo). Mas são como os eixos de força da Natureza: quando o salmo fala que os céus falam sobre a glória de Deus, é o salmista que fala, e, é bom saber, os céus não falam nada, não, é o admirador crente deles quem põe palavras de louvor na boca das nuvens, que, contudo, só têm dentro de si, água.

11. Intentio. Arrisco dizer - consciente e cultural, teleológica, não-DNÁdica, só há uma: a humana. Ela pode estar em dois pólos relativos a um texto - no passado, o autor, no presente, o leitor. É aí que se deve enfrentar a questão do critério hermenêutico. O texto não tem vida, não tem corpo, não tem mente, não tem intenção alguma. Voltemos, então, a discussão que me parece produtiva: é meu direito fazer o texto dizer o que eu quero que ele diga? Se sim, porque, quando se trata de um receituário médico, eu quero que o balconista da farmácia me dê exatamente o remédio que a mente do médico escreveu, usando a mão do médico, ali, no texto? Por que quero que, ali, onde está escrito meu nome na Escritura de Compra e Venda de minha casa, que todo mundo leia meu nome - e não, por exemplo, o seu próprio?

12. Intentio lectoris - qui prodest?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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