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domingo, 20 de dezembro de 2009

(2009/651) (Meu) discurso ontem


1. Ontem foi a Formatura da turma de Teologia 2009 do Campus Avançado Nova Iguaçu do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, campus que existe há mais de 25 - vinte e cinco! - anos, primeiro na PIB de Mesquita e, desde 86, 87, e até agora, na PIB de Nova Iguaçu. Estudei lá de 87 a 2002, e lá leciono desde 93. Tive a honra de ser escolhido Paraninfo.

2. Um dos colegas professores presentes, quando confraternizávamos, pediu-me que escrevesse o discurso. Cá vai ele, alinhavado e simplificado.

3. Propus que a "mediação" - do lado "evangélico" - da crise da Teologia, crise essa em face de seu ingresso no MEC, decorrente, então, das exigências epistemológicas por isso impostas à congregação dos teólogos (e das teólogas), fosse resolvida por meio da Pragmática.

4. Toda ação intencional humana, isto é, não fisiológica, logo, dotada de sentido, enquadra-se num de três universos pragmáticos: sentir, querer, saber, ou, dito de outro modo, estética, política, heurística. Disso se pode ler em Aristóteles, Kant, Nietzsche, Peirce, Morin...

5. Faço, pois, pôr cada aspecto da crise teológica em seu adequado nicho pragmático e, assim, revelar o quanto é falsa a crise, no sentido de que ela se instala por força de uma absoluta incompreensão do jogo, das regras do jogo e, naturalmente, das intenções não suficientemente explícitas dos jogadores.

6. Tomo três aspectos relevantes da "Teologia" (a velha) - a espiritualidade, a pastoral e ela própria, o resíduo teológico em si.

7. A espiritualidade é estética. Logo, é subjetiva, pessoal. Não pode ser julgada, avaliada. Cada qual manifesta sua espiritualidade de acordo com sua própria constituição e inserção cultutal/social. Não há f(ô)mas, conquanto se queiram fabricar espiritualidades, à quisa do modelo fordista de automóveis. Cada pessoa é livre - deve ser - para expressar-se espiritualmente, em conformidade - apenas - com sua sensibilidade. Porque a espiritualidade é o encontro do sujeito consigo mesmo, encontro esse tornado posível por meio de um "mediador" externo - um objeto, um cenário, um lugar, uma idéia... No MEC, Teologia não é espiritualidade. Não é estética...

8. A pastoral é política. Isso quer dizer que ela é a relação de pessoas com pessoas. Pastoral é cuidado com pessoas. A pastoral não é pregação, não é administração de empresa, não é catequese, não é ensino. Pastoral é "cuidado". A pastoral é o universo dos e das curas d'alma. Não é um serviço a Deus - é um serviço aos homens e às mulheres. Não é um serviço à religião - é um serviço a pessoas concretas. Não é um serviço à fé - é um serviço àquele e àquela necessitados, aqui e agora. Deus, a religião, a fé, podem tornar-se estorvos à pastoral. O espetáculo fatalmente torna a pastoral um embuste, uma farsa, uma falácia (um crime?). Não há pastoral de cinco mil... Nem no MEC...

9. À Teologia, pois, resta o campo da heurística - da pesquisa, da crítica, da investigação - e pesquisa do mundo, do real. A Teologia, não sendo nem espiritualidade nem pastoral, assume-se enquanto "ciência humana" (em formação, em crise de formulação, em fase de discussão de seu estatuto epistemológico). A pesquisa não há de confrontar-se com a espiritualidade, porque se trata de pragmáticas distintas - uma, a do fruir e experimentar, e, outra, a do saber. Também não se confrontará com a pastoral - e pela mesma razão. Conquanto, certamente, há de tornar mais lúcidas ambas: uma espiritualidade ignorante é tão perigosa quanto uma pastoral ignorante, conquanto também possam ser absolutamente inofensivas.

10. Em termos simples é isso. Naturalmente que a discussão não termina aí. Fica a pergunta: e onde pôr "as verdades dos dogmas"? Bem, a rigor, hoje, elas estão inseridas na pragmática política: declarações de fé são catequeticamente impostas às (sub)consciências humanas, tarjadas de "verdades inquestionáveis", quando, todos sabemos, trata-se de formulações históricas, datáveis, com paternidade sabida, fruto de especulações aqui, erros crassos de exegese, ali, má fé, acolá. Dogma é, nada mais, nada menos, do que política em estado poluído.

11. Um alerta, queridos e queridas. Quando tentarmos nos acomodar a esse discurso, quando considerarmos que é fácil pegar a palavra "dogma" e aplicá-la aos outros, mas não a nós, porque nós, ah, nós, somos sempre "bons", mas os outros, ah, os outros, são sempre "eles", tenhamos a coragem de reconhecer que, se tiramos os dogmas, as doutrinas, as catequeses, cai tudo - até nosso querido "Jesus", a rigor, dogma nicênico, porque o real, o histórico...

12. Se, ainda assim, quero manter esses discursos, essas prédicas, essas maneiras, posso? Posso, claro, mas no campo da estética. Quão mais profunda a espiritualidade, tanto mais manufaturada a idéia do divino, nascida em Nicéia, mas residindo, agora, em meu ventre. Se eu reconheceço isso, está tudo bem, porque não vou me pronunciar como se o mundo tivesse relação com minha percepção estética. Se eu tenho consciência da condição estética de minha fé, meu "Jesus" jamais será imposto - sequer pregado! - a ninguém. Viverá, como os serafins, voejando sobre minha cabeça - mas eu saberei disso! É, por assim dizer, um amigo "meu", mas um amigo "imaginário". Se, contudo, ainda o quero ver na face de todos, na boca de todos, de joelhos, é porque, afinal, a política ainda me carrega pelos cabelos...

13. Portanto, amigos, cuidado. Quando cuidamos pôr os outos no redil, é a nós mesmos que condenamos. Não esperem de mim discursos de fácil acomodação. Não há, senão na estética, lugar para brincarmos de cristianismo. A salvação política do cristianiso é a pastoral humana/humanitária. E a salvação da Teologia é a sua morte para ontem, e ressurreição para uma nova existência.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 1 de agosto de 2009

(2009/408) Teologia e experiência religiosa


1. Há que se distinguir entre a pragmática teológica estética e política, de um lado, e a pragmática teológica heurística, de outro. Dizê-lo requer duas explicações.

2. Primeira explicação: aplica-se o nome "teologia" a diferentes pragmáticas, de modo que práticas absolutamente diferentes são tratadas pelo mesmo termo. Por exemplo: o culto, a educação teológica, a devoção, a pesquisa. Não há, e talvez, lamentavelmente, nenhuma relação entre pesquisa teológica e "educação" teológica, por exemplo, uma vez que a "educação" teológica, quase que invariavelmente, tem-se materializado como "doutrinamento", e nada é mais contrário à pesquisa do que o espírito de doutrinamento, de que o Cristianismo jamais se desvencilhou até hoje (naturalmente que, aqui, restrinjo, apenas metodologicamente, o conceito à teologia cristã, ainda que, mais do que nunca, "teologia", agora, não seja mais um termo particularmente "cristão").

3. Segunda explicação: pragmática diz respeito ao comportamento intencional humano. Tudo quanto um ser humano possa fazer "teleologicamente", não-fisiologicamente (apenas) [por exemplo, "respirar", "comer" {para "matar a fome, porque comer em restaurante francês, por exemplo, já é "estético"}, "defecar" - as funções meramente biológicas, próprias da "vida", qualquer que seja sua expressão], tudo isso está restrito a três comportamentos hiperônimos. Esses três macro-comportamentos podem ser expressos por três verbos: querer, sentir, saber.

4. Desdbrados os três verbos pragmáticos, resultam nas três câmaras pragmáticas: querer = volição (vontade) = política; sentir = afeição = estética; saber = cognição = heurística. É a partir da identificação das pragmáticas pressupostas que os comportamentos humanos podem - e devem - ser avaliados.

5. Voltemos, pois, à proposição inicial. Na prática, descrevem-se teologias de pragmática estética/política, de um lado, e teologias de pragmática heurística, de outro. As teologias de pragmática estética/política são aquelas ditas "práticas", próprias ao culto, à devoção, à "comunidade". É o que se faz nas comunidades religiosas. Em torno delas, gravitam todas as experiências religiosas, enquanto vividas como tais. A teologia-enquanto-estética é aquela dimensão subjetiva, pessoal, da experiência religiosa. A política, aquela expressão social, "eclesiástica". Lá, a intenção é "fruição" do gozo religioso. Aqui, administração das coisas religiosas. Nem lá, nem cá, está-se, em primeiro lugar, interessado em "saber" - pelo contrário, o "saber", aí, muitas, muitas vezes, é tomado como "diabólico", porque desintegrador seja do "gozo", revelado como alienação, seja do "controle", revelado como usurpação.

6. A teologia-enquanto-heurística, contudo, não está ela interessada, em primeiro lugar, nem em gozos estéticos e devoções espirituais, nem em controle de tradição, perpetuação de práticas e costumes, "salvação" de almas ou qualquer outra coisa que caracterize, aí sim, aquelas pragmáticas anteriores. A teologia-heurística quer "saber": de si, do homem, dos pensamentos do homem, da vida. Nada mais. Ela é - por isso - necessariamente iconoclasta.

7. Ora, se se leva a sério essa distinção, resulta inadmissível que religiões, hoje, considerem-se "verdadeiras", ao passo que, ao mesmo tempo, denunciem outras como "falsas". Heuristicamente, isso é absolutamente equivocado. Em termos estéticos, patológico, porque toda experiência estética é "verdadeira" - esteticamente verdadeira. Em termos políticos, presunção e violência. No campo estético, toda e qualquer expriência religiosa (ressalvadas as questões ético-legais, naturalmente) tem idêntico valor: as cerimônias do Daime têm o mesmo valor estético que a Missa do Galo. Politicamente, todas são práticas comunitárias, internas, válidas assim e por isso, e, apenas, aí. Não há nada de mais válido no congregacionalismo protestante do que no sacerdotalismo umbandista (ou católico): são práticas políticas, relativas, e só.

8. Assim, no campo estético e político, as "teologias" são obrigadas a considerarem-se mitos comunitários. Qualquer religião, hoje, que considere suas práticas estéticas e políticas como "absolutas", porta-se anacronicamente, ignora tudo quanto se aprendeu a respeito da espécie humana nos últimos séculos - seja isso por pura negligência, seja isso por política programática clerical.

9. Aí, nessa prática estética e política, aí, sim, vale uma teologia como "metáfora", ainda que isso seja muito pobre e pouco - se for só isso. Cada participante dessas práticas deve saber e reconhecer que cada crença sua, cada gesto seu, cada experiência é mito e rito, e nada mais do que isso, de modo que, num primeiro e mais raso nível, a teologia que aí se pratica é "metáfora", mas metáfora não de coisas superiores que eventualmente se cogitam existir, mas de anseios da alma e expressões sociais. Se a comunidade "brinca" de dizer metáfora o que ela aina trata, existencialmente, cmo ntlogia, ela está a enganar-se - a si mesma, a seus ouvintes - o que também é válido para "teologias" de todo tipo. Tillich, por exemplo, reveste de aparência metafótrica (no nível das palavras) uma realidade ontológica (no campo metafísico) - não há nada de realmente novo aí. Vattimo, por outro lado, já rompe, aí, sim, com a metafísica, mas, aí, está-se no campo da política, e resta saber se os "teólogos" que gostam de seguir Vattimo hão de expressar-se assim também em plena liturgia - metáforas de nada, metáforas de tradição, metáforas de gostos e costumes...

10. Já uma teologia-pesquisa, uma teologia-heurística, uma telogia enquanto "ciência humana", aí não - não há a mínima possibilidade, remota, que seja, de ela fazer-se metáfora. Essa teologia-pesquisa não borboleteia em torno de mitos, como se a manutenção do mito "Deus", do mito "Espírito", do mito "graça e pecado", traduzisse algum "conhecimento". Pelo contrário - munida, ou melhor, acompanhada das demais "ciências humanas" (e também, "naturais"), essa teologia-pesquisa é capaz de tornar pó cada um desses mitos, de denunciá-los como, eventualmente, delírio e instrumento de manipulação, sendo o caso - e o é, as mais das vezes...

11. Logo, uma teologia como ontologia só pode ser vivida enquanto mito, e, de imediato, ela se dissolve. A manutenção da ontologia metafísica na teologia é sinal de anacronismo, seja qual for a razão dessa manuteção: negligência ou estratégia. A tentativa de transformar a teologia em metáfora seria válida para as práticas reigiosas (justo lá, onde ela não se apresenta com essa roupagem, mas ainda se porta como "verdade" e "revelação" - e poder!) [uma comunidade "cristã" trocaria as salvações, as bênçãos, os exorcismos, as mágicas, os olhos virados, do "evangelho" brasleiro contemporâneo, pelo discurso abstrato-instrumental de metáforas?]. No campo da pesquisa, na academia, só há lugar para uma teologia - investigação crítica.

12. Seria desejável que as religiõs descobrissem-se em sua condição inexorável, incontornável, ineludível, de mito, todas elas. Adviria daí uma nova "era", em que aprenderíamos a manter as relações inter-religiosas niveladas por baixo, e não, por cima, como o quer, ingenuamente (?), a estratégia do "diálogo inter-religioso" (tudo é "sagrado", quando se deveria reconhecer que "tudo é antropológico" - mas mesmo aí não se educam as massas, mas se articulam discursos para as fazer conduzir melhor...).

13. Por outro lado, qualquer tentativa de fazer com que estética e política intervenham na pesquisa (e a estratégia da metáfora redunda nisso) esconde o risco de trazer para a pesquisa a desgraçada situação das religiões - rotinas pragmáticas antropologicamente cegas a querer salvar os homens.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 5 de junho de 2009

(2009/329) Não-fundacionismo - equívoco de diagnóstico e prescrição


1. O "bom" da Hermenêutica barra Epistemologia não-fundacional é que você pode dizer o que quiser, sem medo de errar, porque, se for contestado, basta dizer que é uma questão de consenso comunitário, desde que a comunidade tenha pelo menos dois elementos e, o consenso, uma estrutura discursiva pragmatista-utilitarista. Se o discurso "serve", está bem assim. Um pensamento não-fundacional pode dormir tranqüilo, de noite, porque não o perseguem os critérios críticos, que ele exorcizou definitivamente. Deve ser bom conseguir viver assim, isto é, se a isso não corresponde uma baita dose de self deception consciente... Quanto a mim, nunca mais dormi tranqüilo...

2. No meu caso, cada vez que abro a boca, como me imponho critérios críticos, corro o risco de errar, de me equivocar, porque, no campo do saber, o critério crítico não reside em nem é meu próprio discurso - mas o/no "real". Não há nada, abolutamente nada, em meu discurso - isolado em si mesmo, separado do real - que possa servir de critério para que eu decida se ele é certo ou errado. É quando em o ponho em perspectiva, aí é que aparece a sua lucidez - ou o seu delírio. Por isso há quem prefira fechar os olhos, tapar os ouvidos...

3. Meu diagnósticoo para as teorias não-fundacionais: recalque freudiano do real (consciente ou não, não vem ao caso), um império do princípio de prazer, um desprezo axiomático ao princípio de realidade. Neurose ou esquizofrenia programáticas - como crianças que, assustadas, tapam os olhos, ou fecham-nos, e tapam os ouvidos, e o medo vai embora... Até que se tornem adultas, e descubram que o medo está é bem dentro de nós, porque, quando a gente cresce, a gente aprende que, mesmo fechando os olhos, tapando os ouvidos, o real está lá fora... ainda. E - como disse Carl Rogers, ele é nosso amigo...

4. Eis onde vejo o incorrigível erro da Epistemologia não-fundacional (e ela não tem salvação - só a terapia há de fazê-la ver-se a si mesma como esforço de recalque). Ela começa abandonando completamente a noção de ecossitema. Ela se fecha, apenas, e olhe lá, na noção de "comunidade de comunicação". Para ela, o que existe, de fato, é o grupo discursivo, o conjunto das pessoas que manejam palavras-discursos, e vão, arbitrariamente, dando sentido a palavras e, daí, a proposições. Nesse caso, quer palavras, quer proposições, elas têm sentido em função do consenso - e mais nada. Dado serem não-fundacionais (os corpos deles nasceram de um "bate-papo" entre mamãe e papai!), o real não aparece, aí, como plataforma crítica de esclarecimento dos sentidos e dos discursos aí fundados (em sendo o caso). Como o tempo, na Física de Newton, o espaço, na Hermenêutica não-fundacional de Rorty/Habermas/Vattimo, o real é uma ilusão da mente humana... Os mais "esclarecidos" somente considerarão que o real é por demais inacessível, criticamente, para ser levado em conta...

5. Erro que me parece primário - e, se eu erro no que alego ser a identificação do erro, tanto mais primária é minha falha e impertinência: o não-fundacionismo nem sabe mais o que é o Homem. Para ele, sobrou, apenas, uma coisa chamada Linguagem e Comunicação... Não me assuta mais saber que o centro nervoso do capitalismo está por trás dessa moda pragmátista/não-fundacionista... O qe me assusta, e muito, é ver "progressistas" entrando na onda...

6. Ora, o homem, desde Aristóteles se sabe - e, depois de dois mil anos de "teocracia" (isto é, "cristianocracia"), Kant renovou a perspectiva - que o homem lida, ao mesmo tempo, com três interfaces: o mundo/real, o homem/outro e si mesmo. Cada uma dessas três interfaces estabelece um regime de ação - uma teleologia situada, uma "pragmática". Porque o homem age significativamente, porque suas ações são significativas, isto é, não são operadas meramente por comandos genético-biológicos, mas por intenções e estratégias, o que quer que ele, o homem, esteja fazendo, agora, aqui e agora, corresponde a uma ação situada em uma dessas três interfaces: ou, agora, ele lida com o mundo, ou lida com o outro, ou lida consigo mesmo.

7. Lidar consigo mesmo. Aí, o fundamento significativo é o própro sujeito. Trata-se da dimensão, da interfacce, do gosto, da afeição. Trata-se da afetividade. As experiências, aí, são, todas, estéticas. Não há certo e errado, aí, porque, sendo o fundamento, o próprio pathos subjetivo, o que se deseja é bom, aquilo de que se gosta, excelente. Não é que não haja fundamento nessa dimensão pragática - há, mas ele é o próprio sujeito estético. Cada sjeito, um fundamento.

8. Lidar com o outro. Aí, claro, o fundamento dependerá do regime político. O Cristianismo brincou de "monarquia" e de "teocracia" até não mais poder - e não enjoou: se deixar, volta o circo romano, de novo, seja sob a direção protestante/evangélica, seja sob a direção da velha cúria. No jogo democrático, contudo, só cabe um fundamento - o diálogo político. Em termos pragmáticos, a interface homem-outro é a interface do querer, da vontade, da volição - campo dos conflitos de vontades. Aí, encarando o "outro" e a "vontade do outro", o homem se depara com uma limitação no mesmo nível de sua vontade. Querer não é poder - aí -, porque meu querer pode chocar-se - e, de fato, se choca - com o querer do outro. Vale o tacape, vale o cetro, ou vale a negociação. A política, a pragmática das relações inter-humanas, tem por fundamento o jogo dialogal, e, na sua hiponomia democrática, no consenso negociado.

9. Lidar com o real. Ah, aqui as teorias não-fundacionais revelam, todas, toda a sua miopia. A placenta ensagüentada entre as pernas da mãe foi esquecida, e do canal vaginal daquele corpo saiu alguma coisa entre um ectoplasma e um discurso! Nada disso. Saiu um pedaço de carbono. Carbono com perdas, que vive do carbono, com bcoa e cloaca. Ser-de-carbono.

10. Aí se está na esfera do saber, do conhecer, do sensível. Aí se está na esfera da cognição. Aí se está na esfera da heurística. Aí, o critério crítico não é, não, um senso estético solipsista - cada um tem sua "verdade". Mentira. Cadaum tem seu gosto - "verdade" não é uma questão de gosto: não se se trata de "conhecimento", que é uma questão crítica de confronto hermenêutico-epistemológico com o real. Também aí não é critério crítico o voto, a negociação. Não se trata de uma questão política - e esse é o mais grosseiro erro das filosofias não-fundacionais, delírios pós-religiosos da mente mítica humana, eventualemnte, contudo, ainda também a serviço da "Teologia".

11. O fundamento da heurística, queiram ou não os não-fundacionalistas - não importa seu "voto" nesse caso - é o real. Uma vez que não lidamos diretamente, imediatamente, contemplativamente, com o real, mas lidamos com ele de modo antropológico, hermenûtico, semiótico - resta-nos tornar complexa a relação entre o critério crítico que é o real, fundamento do conhecimento humano, e a performance representacional da mente humana, cuja lucidez está em ater-se o mais firmemente possível ao real, sem, contudo, ingenuidades positivistasas - o que não quer dizer, por outro lado, delírios relativistas... Uma decisão política: tirar o sofá da sala - não tem qualquer eficiência nesse campo...

12. Para questões estéticas, fundamento subjetivo, soluções estéticas. Para problemas políticos, fundamento antropológico, soluções políticas. Para problemas heurísticos, fundamento físico-ecológico, soluções heurísticas.

13. O não-fundacionismo exorcizou um espírito. Devia ter exorcizado o espírito de solipsismo, o espírito de arbitrariedade, e, contudo, exorcizou o único critério de lucidez epistemológica possível - o real "objetivo" (no campo heurístico, bem sabido). E o fez pelas mais nobres da razões - com o que me filio e irmano a essa corrente, conquanto ela erre, e feio, e de cheio, quer na aplicação do remédo, quer no dignóstico da doença. Para superar o autoritarismo, quer da religião/teologia, quer da política, a Epistemologia não-fundacional transformou toda a questão, todas as questões, em questão política. Em seguida, falseou se caráter, transformando a descrição do problema - que é político - em problema de "racionalidade" (Habermas). Ao cabo, receitou, como saída para a paz, o consenso. Em que mundo - vivem?

14. No campo político - e exclusivamente para as questões políticas - a saída não é outra: é o consenso pragmático-político, negociação em todos os sentidos, o ganha-perde em benefício do bem-comum. Contudo, errou-se a mão, errou-se o olho (pudera!, fecharam-no...), errou-se a pele, errou-se, errou-se, perdeu-se o melhor do programa - o desejo de paz - escamoteando a questão de fundo. A verdade heurística não se presta a consensos - um só, contra todos, pode estar certo. Não adianta querer conseguir paz - aí - arrancando os olhos: a paz é uma questão política! Sempre nascerão novos homens, novas mulheres, com olhos na cara, e capazes de dizer, como Gaileu, que o rei tem as vergonhas à mostra...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 28 de maio de 2009

(2009/302) Depois de Deus


1. A frase acima pode ser aplicada em inúmeros sentidos. Nessa postagem, penso naquela preocupação que se iniciou desde que o Cristianismo passou a ser sistematicamente enfrentado contra sua pretensão de gestor do mundo (pensemos em Descartes, inicialmente), até o momento em que, eu diria, felizmente, a sociedade Ociental "emancipou-se" (ao menos policitamente - o que já é um grande avanço) do controle político-jurídico das Igrejas. Estou falando das Repúblicas Modernas e do Estado Democrático de Direito, naturalmente.

2. Ora, o fato de a Teologia ter sido, por quase dois mil anos, a gestora jurídica do mundo, resultou na presunção de que havia "fundamento" líquido e certo para as expressões humanas, quaisquer que fossem - a saber: o fundamento estava, por sua vez, assentado sob a Ordem e a Verdade. Divinas, ambas. Teocráticas, em tese. Autocráticas, na prática. Heterônomas, sempre.

3. Bem, sabemos que essa presunção/pretensão acabou. Ela até deseja retornar - uma leva de des-historicizados protestantes/evangélicos, tendo aprendido a pensar com cabeças medievais, não acredito que se tenham desinteressado da utopia instalada de uma "teocracia" - mesmo nos fronts de esquerda. Contudo, até o momento, trata-se de viver numa sociedade laica e secularizada, e de expressar-se, eventualmente, a mística particular em regime comunitário facultativo e plural. Isso, sim, nos caberia.

4. O problema é que, com a suspensão do fundamento ontológico-teológico de que se servia o homem ocidental, como estabelecer uma base segura para aquelas expressões humanas, até então alicerçadas naquela plataforma?

5. Não é por acaso que a análise dessas expressões teleológicas, intencionais, humanas, cabe, num extremo, em Artistóteles e, no outro, em Kant. Ambos estão interessados em perguntar pelo conjunto hiperônimo das práticas humanas, e chegam, ambos, aos verbos-rubricas "querer", "sentir" e "saber".

6. De imediato, não há "fundamento" para o sentir. Há plataformas a partir das quais ele, o verbo, ela, a estética, ela a "afetividade valorativa", se desdobra. Isso significa que "gostar de" é uma questão cultural. Aí cabem a mística, a arte, o gosto, a afeição. Tudo quanto gravita em torno do sentir não apenas é absolutamente subjetivo, mas, ao mesmo tempo, cultural, filho do tempo, filho do lugar, filho da terra, filho da carne.

7. Quanto ao verbo "querer", isto é, quanto à volição, à vontade, e por extensão, quanto à "política", não há fundamento "ontológico" para isso. Trata-se, nesse caso, da expressão sócio-política de uma pulsão biológica - a "vontade de poder" expressando a pulsão tronco-cerebral da manutenção da vida - a violência (predação e defesa) e a sexualidade. Nos humanos, tal pulsão entra em diálogo com a consciência, a possibilidade de dizer não às próprias pulsões. Isso nos difere, absolutamente, dos demais animais - que igualmente somos.

8. O único fundamento possível para a política é circunstancial e organizacional - ele depende do regime político que, por sua vez, depende das relações sociais. Naturalmente que um regime autocrático há de transformar-se numa cripto-teocracia (porque toda teocracia nada mais é do que um regime autocrático). Seja como for, o "rei", o "papa", o "sacerdote", o "presidente do partido", aí, é o fundamento. Em regimes democráticos, o fundamento é o diálogo construtivo, sobre cuja base elevam-se as leis. Não há chão firme, aí, nada é absolutamente definitivo, certo e acabado. Tudo é frágil. Tudo é circunstancial. Tudo é provisório. Há que se legisferar, há que se legislar, há que se dialogar interminavelmente a respeito do sistema e da sociedade. Não há descanso, aí. Construir, desconstruir, reconstruir. Para sempre.

9. Finalmente, quanto ao "saber", ou, extensivamente, à cognição e, naturalmente, à heurística. Trata-se, aí, sim, de um diálogo com o "real", ou não há "saber". Cada "verbo", a rigor, expressa a relação humana com uma das três grandezas relacionais que o cercam: 1) o homem consigo mesmo: sentir, afeição, estética; 2) o homem com o outro homem: querer, volição, política; 3) o homem com o "mundo" (em sentido ecossistêmico, e não como em João): saber, cognição, heurística.

10. Ora, resulta imediatamente claro e inexorável que, ou o homem é dotado de estrutura cognoscente - e isso em face do real -, ou não se explica a vida, vida essa que é "computação", "cálculo", sensorial do "meio" vital por um sujeito vivo. Ocorre, contudo, que estrutura cognoscente, aí, nada tem a ver com o que se considerava "saber" no regime teológico medieval: uma visada como que "desde Deus" sobre a Verdade. Não, nada disso mais é possível - conquanto os teólogos ainda continuem a expressar-se assim, um crime de lesa-civilização.

11. O regime do "saber" - nos termos da pragmática pós-teológico-jurídica, pós-ontológico-metafísica, pós-sacramental, pós-"cristã" (em termos da gestão do Ocidente) é histórico, é situado, é "sensorial/hermenêutico", é antropológico/lingüístico. Não se pode, de um lado, retornar ao olhar divino, mas não se pode, também não, abandonar o regime sensorial. Certo, além de nos descobrirmos "antropológicos" - e não "teológicos" (a Teologia, já sabemos, é Antropologia - esperneia, contudo, a Velha Dama) -, descobrimo-nos, também, hermenêuticos: mas isso não significa que voltamos à condição fantasmática e ectoplasmática do Homem de Platão. Somos de carbono e mitocôndria, e é nesse contexto que a nossa condição antropológico-hermenûtica deve ser analisada.

12. Pouco, muito pouco tempo, ainda, dedicamos a refletir sobe isso. De um lado, a Teologia ainda brincando - e com fogo! - de conquistar o mundo, ora para si, ora para Deus, como se isso implicasse em alguma diferença! De outro, forças reacionárias de todo tipo, às vezes sem perceber o regime em que operamos a racionalidade pós-medieval, dispersam-se em pós-fundacionalidades no fundo cartesiano-platônicas, a-críticas. É urgente a necessidade de lucidez. Talvez, também, para mim.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 26 de abril de 2009

(2009/224) Hans Urs von Balthasar


1. Não é a hora de eu tentar aproximar-me de Hans Urs von Balthasar. Foi considerado por Henri de Lubac, "que o teve como discípulo, 'o homem mais culto de nossa época'" (1). Como, Paulo, posso, então, me aproximar? Somente de longe, olhando pela fresta do grande salão, porque, nesse festa, ainda estou longe de entrar.

2. Mas uma coisa me deixa curioso. Como alguém pode desenvolver o que se tem chamado de "teologia estética", e, tendo escrito um comentário sobre a teologia de Karl Barth - e Karl Barth é ontologia pura, quer dizer, não tão pura, posto que é ontologia política, sobretudo -, o próprio Karl Barth chegue a dizer que "foi aquela na qual foi melhor compreendido" (2)? O próprio von Balthasar percebe nesse Barth um ponto de contato entre catolicismo e protestantismo (3).

3. Além disso, ouvi a respeito, ainda, uma outra coisa. Se bem que a fonte eu não a endossaria sem mais nem menos, uma vez que se trata de um libelo anti-Boff, do tipo próximo-inquisitorial, e, de qualquer forma, de um pronunciamento pela direita mais radical da teologia, consta que Hans Urs Von Balthasar teria afirmado que "a Igreja do século XXI deveria se preparar para receber um ataque de dentro, promovido pelos falsos cristos e falsos profetas que apareceriam como herança do iluminismo humanista" (4). Ora, como a "estética" pode receber e/ou perpetrar ataques? A "estética" não é pura subjetividade seletiva? Ou, para o teólogo da "estética teológica", estética é só a "teologia", a "mística", mas a Igreja, essa é política mesmo? Sim, até porque como há de se explicar - mesmo conceber! - uma estética "coletiva"? Só mesmo aquela programada, patrocinada e mantida por mecanismos de massificação de "tipos", como faz a mídia. O que estaria bem de acordo com um programa de catequese, afinal de contas... Mas, aí, já não estamos diante de um fenômeno de estétioca, mas da manipulação política da estética.

4. Aqui, sou obrigado a fazer aquilo de que menos gosto, porque me sinto em falta comigo mesmo - devo recorrer a um terceiro: a Mondin. Mondin assim explica o ponto de virada "estética" de von Balthasar. As primeiras teologias teriam sido "cosmológicas". Tratava-se aí de uma possibilidade em face da "sacralidade" de um mundo assim concebido, fosse nas filosofias de origem grega, nas filosofias de origem romana, fosse já na própria teologia cristã. A modernidade teria posto um fim no caminho cosmológico da teologia, a partir daquele momento em que o nascimento das ciências emancipadas começava a tomar posse das rotinas de conhecimento humano (5).

5. A essa altura, migrou-se, então, continua Mondi, para uma teologia de caráter antropológico. Uma vez que as ciências recém-nascidas/emancipadas tomavam para si o mundo da Natureza, a teologia tomava para si o mundo humano. No entanto, ao passo que o paradigma cosmológico da teologia teria durado mais de dois mil anos, o antropológico não dura nem duzentos - posto em crise, diz Mondin, por eles - sempre eles - Feuerbach, Marx e Nietzsche (6).

6. É nesse ponto que, à guisa tanto de uma descoberta, quanto de uma saída, Hans Urs Von Balthasar postula o paradigma "estético" para a teologia, ao mesmo tempo nem "a fé fanática dos simples", nem a "arrogante presunção gnóstica dos sabichões" (7). Quando von Balthasar fala de "estética", trata-se, a rigor, da noção de beleza (8).

7. Sempre segundo Mondin, o princípio hermenêutico do conceito transcendental da beleza para a teologia, conforme postulado por von Balthasar, seria compatível com o homem do século XX pelas seguintes razões: a) o paradigma, ao contrário dos dois anteriores, não é reducionista, e alcança a "mensagem revelada (...) em toda a sua complexidade", b) sem o componente estético, "não é possível nenhum conhecimento verdadeiro", c) somando-se ainda o fato de que "na intuição estética se encontra o outro como outro; e (...) desinteressadamente". bem como o fato de que "o belo como princípio arquitetônico da teologia" é um dos "princípios constitutivos intrínsecos essenciais" da teologia (9).

8. A rigor, a estética constituiria um dos três pilares de toda uma teologia que von Balthasar quisesse e pudesse ter pensado e composto. Começando pela estética, caminharia para a "bondade", e, então, finalmente, para a "verdade" (10), com o que, então, agora sou eu a dizê-lo, von Balthasar organizaria a teologia - em tese - sob um programático regime pragmático. Com isso, quero referir-me à noção epistemológica que compreende o conjunto das ações intencionais humanas organizadas em três eixos independentes e mutuamente relacionados - estética, política e heurística, ou, para o dizer nos termos de von Balthasar - o belo, o bom e o verdadeiro.

9. Von Balthasar não chegou a completar sua obra, conforme planejada, antes de sua morte, em 1988. Planejava-se compor um monumento - Herrlichkeit ("Gloria") - que deveria ser composto em três partes: Estética, Dramática e Lógica. Eine Theologische Aestetik, em sete volumes, constitui o pilar propriamente estético de sua "trilogia", aos quais se fazem acompanhar os volumes Theologik (1968) e Theodramatik (1980), que constituem, respectivamente, esboços das contrapartes "lógica" ("heurístca") e "dramática" ("política") de sua Teologia. Apesar de constituírem o coração mesmo de seu empreendimento teológico, esses vlumes compreendem apenas uma pequena parcela de sua gigantesca produção impressa.

10. Da qual nem me arrisco a pretender dar cabo. Como? O que não significa que me furtaria a comentar um ou dois pontos. O primeiro deles é que não posso evitar uma comparação entre von Balthasar e Descartes. Este, diante da tentativa de construir um novo acesso à velha pretensão - conhecimento - estabelece o princípio, ainda platônico, do "pensamento" como "fundamento - conquanto, nesse caso, programaticamente emancipado do princípio da "autoridade", deve-se insistir, porque é um avanço em relação ao idealismo político de Platão. Von Balthasar não faz o mesmo, quando, escapando de uma confissão teológica de caráter cosmológico ou antropológico, refugia-se, para início de conversa, num argumento "estético"? Ora, mas o estético não se transforma, automaticamente, em ontológico, quando é tratado em si mesmo, independentemente da subjetividade humana? Tirem-se as mitocôndrias do homem, e Descartes fica sem ter onde enfiar seu "cogito". Suprima-se o fundamento antropológico, e a "estética" de von Balthasar há de ser reduzida a nada. Mesmo a estética, é, em von Balthasar, já, ontologia. E isso simplesmente me parece um problema epistemológico muito sério, que faz de todo esse colocassal monumento a sombra de uma racionalização da tradição.

11. Além disso, não vejo como um modelo teológico clássico poderia sobreviver a uma abordagem verdadeiramente pragmática. No momento em que se entregasse à heurística, mas isso de forma comprometidamente científico-humanista (a teologia de von Balthasar não quer falar ao homem moderno?), sentiria todas as suas carnes tradicionais ruírem, confessando-se mito, mesmo que aí se encarasse, de frente, a tradição. Mas não. Tudo permanece como sempre, independentemente da "lógica" - a rigor, racionalização a serviço do sistema. Da mesma forma como Aquino coopta e coonesta Aristóteles, e imuniza a teologia tradiconal contra o vírus anti-metafísico potencial aristotélico, von Balthasar, parece-me, coopta e coonesta o princípio pragmático, subdeterminando ao discurso estético-político a dimensão crítica do sistema - heurística -, transformando-o em mero legitimador racionalizador da arquiterura. Com o que subverte a pragmática - adultera-a. Porque o princípio heurístico ou é refutável, ou não se trata, realmente, desse princípio...

12. Mas o leitor de Peroratio há de saber que não li a obra de von Balthasar. Deve saber que essas observações servir-me-iam de roteiro. Lendo-o, eventualmente, eu estaria muito, muitíssimo interessado em saber como o teólogo pôde - pôde mesmo? - ter suprimido uma teologia antropológica (improcedente, como ele mesmo reconhece) ao mesmo tempo em que afirma uma "estética", e isso, ainda por cima, "logicamente" fundamentada. Suspeito que os nomes sejam novos, mas o espírito ainda é o de Platão.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Batista MONDIN, Os Grandes Teólogos do Século Vinte. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 207.
2. Idem, p. 209.
3. Idem, p. 211-212.
4. Marcus BOEIRA, O Surrealismo na Teologoa da Libertação. Mídia Sem Máscara, n. 163, 09 de abril de 2009, disponível em 26/04/2009 no endereço http://www.midiasemmascara.org/index.php?Itemid=36&catid=92:religiao&id=105:o-surrealismo-na-teologia-da-libertacao&option=com_content&view=article.
5. Batista MONDIN, op. cit., p. 214-215.
6. Idem, p. 215-216.
7. Idem, p. 216.
8. Idem, p. 216.
9. Idem, p. 216-218.
10. Idem, p. 218-219.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

(2009/215) Religião e ciência


1. Há milhares de anos, quem sabe?, milhões, nasceu a religião. Já o disse que, na minha opinião, ela nasce como estética. Ato contínuo, assume aquela forma de expressão que, muito tempo depois, há de se tornar a ciência. Lá e então, ela, essa expressão, é, apenas, um impulso explicativo, próprio da religião, da teologia e, agora, próprio das ciências. Mais cedo ou mais tarde, de estética (e explicativa), a religião torna-se política.

2. Provavelmente ela tornou-se política, isto é, passou a ser controlada por interesses políticos, assim que as comunidadees humanas tornaram mais sofisticados os seus relacionamentos. Mas será com o surgimento das monarquias, das cidades, que a religião se transformará na parceira mais importante da política. O rei logo tornou-se ou representante, ou encarnação, ou imagem, ou filho dos deuses.

3. Com isso, a religião agora domina todos os espaços da cultura: a estética, o belo, as "explicações", a "verdade" - e a política, o dever. Não há, então, nenhum espaço da sociedade, da cidade e do campo, onde lá não esteja o olho e a mão da religião - e, com isso, o olho e mão dos poderes políticos, sejam os puramente sacerdotais, sejam, já, os da coroa.

4. Quanto tempo na longa estrada da História esse foi o quadro encenado, dia e noite? Séculos e séculos se perdem na noite dos tempos. Em que partes do planeta isso se sucedeu? Em todas. Não há expressão religiosa humana, no planeta, que não tenha caído nessa mesma situação. Todos os povos o fizeram. Uns mais, quanto mais organizada e urbana ela fosse, uns menos, mas mesmo as culturas menos sofisticadas, mais "tribais", mais silvícolas, experimentaram a hiperonomia da religião, isto é, a submissão de todas as esferas da vida à esfera religiosa.

5. Até que, no Ocidente, inicia-se um processo de descoalização. Não foi determinante o que aconteceu na Grécia, por volta do século V e IV. Platão está a serviço do mesmo princípio - só há, parece, um certo movimento para o esconder. Aristóteles, talvez, tenha desenvolvido reflexôes mais autonomizantes, quero crer. Seja como for, essa Grécia é o equivalente, para a Reforma, a John Huss - não deu em nada de concreto enquanto acontecia, ainda que seus desdobramentos serão percebidos séculos depois - mas somente séculos e séculos depois.

6. Aristóteles simplesmente "desaparece" no Oriente. No Ocidente, a própria cultura helênica será o estofo para uma civilização teológica inteira - o Ocidente Cristão. Platão é seu parteiro. Paulo, seu pai. E lá se vão mais mil anos, desde aí até aqueles dias em que os árabes introduzirão Aristóteles na Península Ibérica. Mil anos de "morte", dirão os próprios europeus, quando se chamarem, depois deles, de renascentistas. Grécia falhara. Tentemos de novo.

7. É somente aí que um processo realmente transformador se inicia. Desdobrar-se-á, desde a Renascença e o Humanismo, primeiro, na Reforma, depois, no Empirismo, depois, no Iluminismo, na Revolução Francesa, no Romantismo e, voilá, re-inventa-se não uma civilização, mas uma nova forma de configuração da própria condição histórica humana.

8. Depois de uma longa série de fluxos e refluxos relacionados aos processos de emancipação política (Iluminismo e Revolução Francesa) e heurística (Iluminismo, Empirismo e Romantismo), a condição hiperônima da religião perdeu substância. De sob o poder da religião, tirou-se quer a política, quer a heurística. Tornada assunto privado, logo, estético, restou a ela a manutenção esquizofrênica de fingir para si mesma que as coisas continuavam como antes.

9. Na sociedade, inicia-se uma nova forma de existência humana. Para a política, a democracia, as rotinas, sempre ainda muito imperfeitas, de representatividade política, a criação do Estado dividido em três poderes - Legislativo, Executivo e Judiciário, o estabelecimento dos Direitos Humanos.

10. Ao mesmo tempo, aquele princípio "explicativo", embrionário e mítico, converte-se num impulso programático e metodologicamente discutido de investigação - a heurística (que Aristóteles já pressupusera na forma do "saber", ao lado do querer e do sentir). Surgem as ciências, primeiro as matemáticas, depois, as empíricas, então, as humanas.

11. Estabelecem-se as câmaras pragmáticas, política, estética e heurística. A sociedade se emancipa, se organiza. O que antes constituía a câmara hiperônima de tudo o que se fazia e dizia na cultura, converte-se, agora, em uma das rotinas privadas que a constitui - a religião.

12. Mas a religião não aceita esse jogo, não. A religião quer, para si, aquela velha vida de senhora, rainha e mãe. Intra-muros, age como se nada tivesse acontecido. Intra-muros, é tão política quanto antes - todo "sacerdote" é rei e chefe. A "verdade" é o que ela diz, e pronto. O gozo, ela dita as regras litúrgicas para a sua expressão. Ela, a religião, padece de uma doença - esquizofrenia e extemporaneidade.

13. Na relação com a sociedade, a religião não aprendeu - aprenderá? - a lidar com o que considera uma usurpação de seus poderes. No campo político, mesmo os batistas, tão intimamente relacionados à sepração entre Igreja e Estado, no fundo, consideram que é Deus, logo, seu patrono, o verdadeiro gestor do planeta, seja dentro da Igreja, seja fora dela, de modo que, sendo ela a mais entendida das coisas de Deus, também a política, para ela, é uma coisa religiosa, a democracia, um instrumento de Deus, e os resultados da política, condenáveis, se ferem seus "princípios" divinos, para o que basta nos lembrarmos das questões relacionadas às células-tronco, aos direiros civis de homossexuais e às questões relacionadas ao aborto. Se a religião pudesse, assinava ela mesma as leis que ela entende divinas. Não aprendeu nada até hoje, a velha professora.

14. No campo das ciências, a esquizofreinia chega às raias do intolerável. Os mitos milenares são sacados para o enfrentamento das pesquisas. A EBD entra em batalha contra o laboratório. As crianças, coitadas, não sabem se respondem do jeito que a professora quer, ou do jeito que o pastor quer. Na prática, responde, pra um, de um jeito, pra outro, de outro, aprendendo desde cedo a sutil arte de ser adaptável. Quando não, pais enfiam goela abaixo de seus filhos os mitos que eles, os pais, decidiram ser verdadeiros.

15. No campo da estética, separa-se o belo em sagrado e profano. Veja-se o caso da música, por exemplo. Uma vez que o belo é apenas o que está no âmbito do sagrado, quando o âmbito do sagrado sofre de patologias incuráveis no campo da beleza - pelo amor de Deus, como se canta mal! -, o belo se torna irremediavelmente feio. Pior do que a mais expressiva parcela da música gospel nacional, só a mais expressiva parcela do funk nacional.

16. E tudo porque a religião não é capaz de admitir que o seu tempo de rainha acabou. Resta a ela aquela dimensão original, estética, de, eventualmente, dar sentido à existência efêmera humana. Não é necessário que a religião simplesmente se considere um fóssil, que não é, mas igualmente não é aquilo que imaginara por toda uma História das Civilizações. No sistema ocidental, cabe a ela apenas uma participação significativa na dimensão estética pessoal, mas não mais nem na política (tecnicamente falando), nem na heurística.

17. Tomara a religião ponha a mão na consciência e se converta. Poderia trocar seu papel de alienadora das consciências para um papel de expressividade estética, de agente patológico, em terapêutico. Porque até o que ela chama cura, hoje, constitui, a rigor, uma disfunção psicológica. Todavia, não é algo que um religioso possa fazer sozinho...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 19 de abril de 2009

(2009/185) Mídia evangélica e sociedade


1. O que ocorre caso se assuma a independência axiológica da religião e da teologia? Dito de outro modo, que competência tem um sisdtema não-religioso ou não teológico para analisar e julgar elementos teóricos e práticos da religião e da teologia? Dito, ainda, por meio de outras palavras: as ciências podem analisar e/ou julgar elementos da religião e da teologia? A ética pode? O que quer que se queira chamar de "especificidade" do religioso possui prerrogativas de independência em face de toda e qualquer outra área do comportamento humano?

2. Minha sonora resposta é não. A religião não constitui, sob nenhum aspecto, uma quarta pragmática. Desde Aristóteles, passando por Kant, reconhece-se a validade de se tratarem práticas teleológicas humanas, não as biológicas, sob apenas três rubricas: querer, sentir, saber, isto é, volição, afeição e cognição, respectivamente, política, estética e heurística. O que quer que um ser humano faça intencionalmente, isso que ele faz está, desde sempre, classificado em uma dessas três câmaras pragmáticas. Ou tal ação põe em confronto o homem com outro homem, ou põe em confronto o homem consigo mesmo, ou põe em confronto o homem com o não-homem. Onde quer que a religião, por extensão também a teologia, se materialize, o que aí vierem a fazer os homens, ou será política, ou estética, ou heurística (até hoje, apenas estética e política, porque a religião e a política têm pavor da heurística, tanto quanto os demônios, é o que se diz, da cruz e os vampiros da luz do sol).

3. Isso implica em dizer que a prática religiosa constitui uma prática humana como outra qualquer. Nada há que aí se faça ou possa fazer que não incorra automaticamente nas implicações de quaisquer outras práticas humanas, como esporte, trabalho, lazer, guerra, arte, sexo. Como em todas as demais atividades humanas, o que se faz na religião tem implicações legais, éticas, sanitárias, comunitárias, sociais, econômicas. Como todas as demais práticas humanas, as práticas religiosas não constituem um universo de legislação própria, e, mesmo quando assim a religião se pensa, é apenas intra-muros que encontra validade para sua proposição, entre os domésticos, porque, extra-muros, aí vale a lei do país.

4. Mais do que natural. Imagine-se uma sociedade que admita (não é ésdrúxula a hiótese) que as práticas religiosas, porque relacionadas ao sagrado, estejam livres das implicações morais, éticas e legais de um povo e uma nação. Ora, uma nação que coibisse a poligamia, deveria admiti-la a religiosos? Uma nação que proibisse o constrangimento de consciências, admiti-lo-ia para os religiosos? Uma nação que proibisse remessa de capital não declarado para o exterior, estaria impossibilitada de aplicar tal lei a religiosos? Uma nação que proibisse a intolerância religiosa, deveria tolerar uma prática religiosa intolerante? Uma nação que proibisse o cerceamento da expressão política, permitiria que uma religião controlasse o discurso político?

5. Em outra direção, que competência tem a ética e a moral para imiscuirem-se em práticas tribais, sejam brasileiras e africanas, se for aceita a alegação de que tais práticas respondem ao seu próprio mundo, à sua própria cultura, aos seus próprios valores, de modo que estão em situação de não ser possível o seu alcance por parte da crítica político-social? Faz sentido? O mal a que tais práticas tradicionais proporcionam a mulheres e crianças há de ser tolerado em nome de uma cultura, como se ampla ela fosse, quando, a rigor, é, por exemplo, machista, quiriarcal e patriarcal?

6. Desde a Reforma, inicialmente de forma lenta e, a partir das Luzes e da Revolução Francesa, cada vez de forma mais acelerada, a religião e a teologia passaram a sofrer intervenções públicas por parte da sociedade. Inicialmente, aqueles elementos mais nocivos à nova configuração das sociedades modernas - democracia, liberalismo político-econômico, emancipação cultural - foram simplesmente suspensos, como se faz com certas brincadeiras de criança que, aos olhos dos pais, tornaram-se perigosas. Assim, os Estados e as sociedades ocidentais passaram a pensar-se político-socialmente sem a presença coercitiva da religião e da teologia, relegadas ao campo privado da experiência humana.

7. Permaneceram toleradas em seu próprio nicho ecológico, desde que não interfiram nas regras laicas e básicas da sociedade. E eis o ponto: desde que a nova relação sociedade versus religião se estabeleceu, a religião e a teologia até podem ter de si idéias de megalomania, idéias de visionários, antecipações escatológicas universais, autocompreensões metafísicas, essas coisas próprias do universo infantil. Basta, contudo, que a sociedade decida, pronto, acabou a brincadeira. Por exemplo - no momento em que a República Federativa do Brasil, à luz de sua Constituição, determinar que acabou a patifaria de uma religião demonizar a outra em rede nacional, fecham-se 99% dos programas evangélicos na TV, que aí estão para demonstração universal da má consciência cristã, bem como para vergonha do evangelho.

8. Não me pego animado com o crescimento da expressão evangélica no país. Não mesmo. Talvez, com todo o seu atraso teológico característico, se ainda fosse a expressão daquele espectro mais tradicional, mais civilizado, mais educado, da tradição evangélica, mais cortez, eu diria, mais republicano no trato, ainda que não na alma, talvez, talvez eu até me animasse. Mas o que tem tomado força é justamente o espectro mais alienante, mais estupidificante, mais promotor do delírio teológico e místico, da intolerância retórica e teológica, - e ainda tem "iluminado" a dizer que o problema da Igreja no Brasil é o liberalismo! -, verdadeira contra-mão da civilidade e civilização ocidentais. O que isso significa pode-se conteplar na TV, nos discursos dos apóstolos de plantão. Alguns me causam náuseas. "Louvor", alienação, dinheiro e cura - eis a que se resume a festa evangélica da mídia evangélica - no momento, com raras exceções. Se isso reflete a orgia teológica concreta das comunidades, vamos mal, muito mal, muitíssimo mal. E à luz do dia... Uma vez que a sociedade não se manifesta, deve, de algum modo, estar a tirar bons proveitos da situação.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
PS. uma vez que está na moda Peroratio ver-se tocado por teorias de conspiração, não faria mal recomendar mais uma: Délcio Monteiro de Lima, Os Demônios Descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987. Típica "teoria da conspiração", o autor afirma que os movimentos neo-pentecostais foram introduzidos na América Latina, programaticamente, pela "inteligência" estadunidense, com o objetivo de frear os movimentos religiosos de esquerda característicos das décadas de 60 e 70, estando relacionados a um programa mais amplo de enfrentamento dos movimentos socialistas/comunistas da/na região. O leitor que leia e decida se faz sentido. Se julgarmos a suposta "causa" pelo "efeito", dá até dor de cabeça...

sexta-feira, 20 de março de 2009

(2009/094) Verdade e poder


1. Haroldo disse: "verdade é questão de poder" (Haroldo Reimer, (2009/091) Interpretação e Verdade, § 7). Entendo sua afirmação. Em seu contexto, ela estabelece um juízo sobre a "história" que ele narra, para ilustrar o modo com a "verdade" é construída, retoricamente. A despeito de eu apostar minhas fichas na afirmação de que a história é falsa e montada, ela ilustra bem o que Haroldo quer dizer com a afirmação. No entanto, o parágrafo seguinte põe as coisas em seu devido lugar: "Somente a pesquisa indiciária consequente é capaz de evidenciar as falácias das verdades 'estabelecidas'" (Haroldo Reimer, loc. cit., § 8).

2. Mas, não - a verdade não é uma questão política, não. É verdade, sim, que a política, em todas as suas expressões históricas, acaba por apropriar-se dos mecanismos retóricos da construção do que ela, a política, pretende seja assumido como "verdade". Mas, a despeito de ser eventualmente bem sucedida, a retórica política produz tão somente uma fraude, possivelmente desmascarada pelo que Haroldo mesmo chama de pesquisa indiciária - veja o caso famoso da Doação de Constantivo, ou, em outro campo, o exemplo da leitura "cristológica" da Bíblia Hebraica, insustentável fora da operação alegórico-teológica da Tradição, o que o demonstra cabalmente, sem sofismas, a boa exegese histórico-crítica (histórico-social).

3. A verdade é, antes, uma questão de correlação heurística entre objetos. A relação sujeito/sujeito (estética) não gravita em torno da noção de verdade. A relação sujeito/outro (política) não gravita em torno da noção de verdade. É a relação sujeito/mundo - objeto/objeto (heurística) - que estabelece o princípio da verdade - o princípio da adequação. Não vem ao caso se a verdade, nesse caso, constitui-se, também, de um quadro conceitual-representacional antropológico. O que vem ao caso é que o âmbito pragmático da verdade é a heurística, não a estética, muito menos a política.

4. Logo, é apenas em sentido fenomenológico - denúncia! - que se pode dizer que a verdade é uma questão de poder. E a própria denúncia, constituindo uma correlação entre objetos, é, em si, verdadeira: o poder subverte a verdade, instrumentaliza-a, degrada-a. Nas condições éticas presumíveis do descortinamento da verdade, e verdade verdadeira, verdade heurística, ela, a verdade, não tem relação com o poder - ao menos não o poder político. É a pesquisa, a capacidade investigativa, o manejo das teorias e dos métodos o plano no qual a verdade opera.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

(2008/70) Da tradição - dos termos


1. Recebo seu post, Haroldo (2008/69 - Concordâncias), com um composto de surpresa e de alegria. Surpresa, digo-o rápido, não pelo fato de você ter chegado a um acordo comigo, mas pelo fato de que tenha sido tão rápido - esperava que ainda terçássemos armas através dos trigais, como Brancaleone e seu "inimigo", até caírem, ambos, exaustos, ceifado todo o campo em volta... Alegria, porque não contive uma única palavra, não sopesei termos, não usei a fita métrica, desnudei-me e disse o que pensava ser necessário, fosse você Haroldo Reimer ou não - e, que maravilha! - foi exatamente assim que nos "encontramos".

2. Estou enfadado do tom "monocórdio", monótono, da literauta teológica brasileira - talvez seja assim também a estrangeira: só se fala, só se escreve, cada qual a dizer o que lhe vem à cabeça, e, não importa a montanha de impropriedades (epistemológicas, metodológicas, formais, lógicas, retóricas), ninguém fala nada, como se, ter aquilo sido escrito, ou não ter, diferença alguma faz, artigos como que escritos - apenas! - para contar pontos na lattes, e, aqueles de verdadeiro conteúdo, passando em branco, merecendo, quando muito, uma resenha comportada aqui, uma citação ali, sem que, contudo, se produza verdadeiro debate, verdadeira "batalha". Ah, essa aura retórica de pós-modernidade, esse acordo do dizer qualquer coisa pela obrigação de dizer, de ter que dizer, não importa o que, essa convenção a-crítica, cavalheiresca, comporativista... Bel, ontem mesmo, lendo seus e meus posts - Jimmy, quem sabe, ressuscita - sim, porque está morto da silva - ia dizendo que para isso inventamos Peroratio. É para pôr sangue aqui, para deixar pedaços de carne como quem cruza campos de arame farpado. Não é uma casa de chá, o Peroratio, é uma arena, uma ágora (agorá, como o quer a tradução de Detienne). Aqui, só se diz o que se endereça à crítica - honesta, verdadeira, sincera, profunda, sem malícia, sem maldade, mas aquela de pôr o dedo, fundo, na chaga, sem dó da dor. É a dor que se quer.

3. Nossa primeira prova foi vitoriosa. Para nós dois. Não considero que ela esteja, de todo, resolvida, mas penso que os clarões dos primeiros canhões iluminaram bem a noite da blogosfera monotônica. Dois homens se enfrentaram, e aprenderam a se enfrentar, e a ter coragem de pensar e de dizer. Isso é aprendizado. Mas - rápido o digo - se, de um lado, há aprendizado, Haroldo - e há - não é verdade que haja ensino. Não estou aqui para ensinar. Eventualmente, para aprender. Logo, se aprendeu alguma coisa, não foi porque ensinei - que não acredito em ensino. Foi porque você era maior do que a idéia que você tinha ou pensava ter, e maior do que a idéia que você julgava que eu tinha.

4. Jogo RollerCoaster Tycoon, um simulador de parque de diversões. Num dos brinquedos que você constrói, o labirinto, cabem até dezesseis bonequinhos/visitantes (é uma delícia vê-los andando pelo parque, divertindo-se nos brinquedos). Eles entram no labirinto, caminham por algumas galerias e, logo, impacientes, começam a olhar por cima do muro, para ver o que tem do outro lado. Penso que é assim que vamos discutindo - ambos, caminhando pelo labirinto, e, às vezes, parando, esticando pés e pescoço, olhando por sobre o muro. É preciso ser "maior" do que o muro, esticar-se sobre ele, aprender.

5. É preciso que continuemos a pensar a respeito do tema "tradição" versus "Tradição". Confesso que ainda não vejo a "necessidade" de substituição dos termos, mas vou refletir sobre isso. Digo que não vejo, ainda, a necessidade, porque, na prática, não há diferença nenhuma entre os conteúdos de uma e de outra, sendo que ambas se fazem constituir de conteúdos noológicos. A diferença é o modo como uma e outra se pretendem relacionar com o homem e a mulher concretos. A tradição-com-t-minúsculo é aberta, dialogal, fecundando e sendo fecundada pela relação temporal com a sociedade que a engendra e que por ela é engendrada - ela é a própria condição da espécie humana, inexorável, ou seja (adoro essa definição do dicionário): que não se pode mover a rogos... Já a Tradição-com-T-maiúsculo sequer é necessária, pelo contrário, é necessário que ela sufoque até a morte, ela é cancerígena, ela é um câncer que nasce naquela condição ecológica. A tradição é, assim, por isso, ecológica. A Tradição, progrom noólógico, patologia megalomaníaca e sacerdotal de tipo platônico.

6. Tentemos uma aproximação pragmática - o que é a tradição? Ela é a atualização de pragmática heurística? Não. Estética? Não. Política? Estou inseguro - responderei, contudo, "não". Ora, mas como? Não há uma quarta categoria, sabem-no Aristóteles, Kant, Lévinas. Então? Penso, então, que a tradição é a contraparte noológica da "terra firme" sobre a qual o corpo material e biológico do homem caminha - seu corpo, na terra, seu pensamento, na tradição, e com a tradição, o homem, a mulher, o Homo sapiens, então, cava a terra, com a qual, por sua vez, "suja" a tradição. Lembremo-nos que, acima de tudo, o Homo sapien é um ser de líquidos, que escorrem-lhe por todos os orifícios, desde dele, e para fora, e desde fora, e para dentro. Tenho usado a metáfora do caramujo e de sua gosma, a gosma com a qual o Homo sápiens recobre a terra para, por meio dela, da gosma, sobre a terra poder andar. É sobre o que anda o caramujo? Sobre a terra?, sobre a gosma? Escolha um, e erra! Escolhe, pois, os dois - ao mesmo tempo. Por isso não posso, jamais!, aceitar as teses não-fundacionais (nostalgia platônico-medieval), tanto quanto aprendi a não aceitar as teses apenas-materialistas. Morin, meu gênio preferido - obrigado!

7. E a Tradição? É essa gosma? Não - mil, mil vezes mil vezes: não. Ela, sim, é pragmática - é produto teleológico, intencional, programático. Heurístico? Não. Estético? Não. Político? Sim. Político. Está por trás dela a vontade de domínio - seja lá em nome do que for, até do Bem, de Deus, do Diabo. Trata-se, sempre, da apropriação indébita da tradição, de um recorte do medium hermenêutico, que, sendo programaticamente petrificado - tu és Pedro -, mumificado, monolitizado, e, em seguida, elevado à condição de norma e lei, passa a operar sobre a consciência heterônoma dos sujeitos humanos, degradados à condição de sub-humanos: humano não é o que sai da vagina da fêmea - esse aí, sujo de sangue e da gosma amniótica é mamífero, está a caminho, precisa, ainda, parir-se a si mesmo. O fiat vaginal é "apenas" uma cosmogonia física, mecânica, biológica, milagre comum à vida, desde o rato até a orca. Falta a esse Marduque, a esse Yahweh, enfrentar o Dragão da autonomia - matá-lo, vencê-lo, e criar um mundo: o seu, aquele que, com propriedade - que Lévinas chama de genial, e quanta força o faz para reconhecê-lo! -, Heidegger (mas só o primeiro - o segundo aborta).

8. Essa Tradição, pois, é a mesma Figura do Deus sacerdotal, do Deus platônico. Todas a vezes que eu repetir, e essa será, quem sabe, a sétima?, que Nietzsche chamou a nós, cristãos, com propriedade, de "a besta humana de carga", é a essa idéia de Deus/Tradição (tolos somos - de Igreja/Tradição) que se refere, e eu também. A Tradição não é a canga, apenas, ela é aquela que nos junge, que nos põe a cangalha nos ombros, e lá vamos nós, burros, literalmente, a carregar, felizes, boninos, a cruz... Crime de lesa-humanidade! E, porque se faz em nome de Deus, crime de lesa-divindade... Mas, para quem come a carne do povo (cf. Sl 53), Deus nada significa.

9. Minha carne abomina a Tradição. Não sei que reação teria, diante dela, se me forçasse. Não sei se conseguiria dar pão a meus filhos, jungido por ela. Talvez daria, porque sofreria pelo pão, mas como a ter vermes a me comer os ossos, a carne, a dignidade - com a mão ofertaria minha carne a meus filhos, mas não pdoeria olhar nos olhos deles. Deus me proteja de ter de enfrentar a Tradição, olho no olho, e ver-me obrigado a sacar da lança. Minha carne treme, literalmente, diante de pessoas que se servem dela. E, Haroldo, seja quem seja - da direita (as igrejas evangélicas e católicas estão repletas de atualizações de Tradições de direita) ou da esquerda (há muita prática pretensamente libertadora que, em última análise [ri-se a Tradição!], só faz aumentar o nível de heteronomia dos oprimidos, que liberdade é algo que se conquista a começar de dentro, caso contrário, troca-se, apenas, de senhor). O problema não é Deus-Direita ou Deus-Esquerda - o problema é Deus.

10. Já a tradição, ah, ela é a nossa casa. Pense em todas as emulsões de seu corpo, amigo, do suor às ejaculações, o que exprime profundamente nossa pertença à cosmogonia aqúatica, a pertença a esta terra. A tradição é o equivalente disso. Ora, amigo, são coisas que produzimos, usamos, fazemo-nos, refazemo-nos, e vamos seguindo. Não guardamos suor e sêmen, nossas fêmeas não têm relicários para suas lubrificações íntimas - são pedaços de nós, que lançamos à terra, para o encontro com o corpo do outro, para o equilíbrio de nossos corpos, para a manutenção de nossa temperatura no seu limite - ah, e o sexo ferve até o limite da combustão!, como as idéias fracas, lúcidas, que querem morrer (de amor), para viver amando.

11. A tradição não é coisa para se grudar a ela. Nada como um bom banho antes e outro bom banho depois... do amor! Para, no dia seguinte, cheio de memória - ah, mas também de desejos e fantasias! - re-inaugurar o Ano Novo, a cosmogonia de Eros.

12. Aí está, Haroldo - preparei o enredo para o dizer com o máximo de pertinência: tradição é sexo, Tradição, estupro. Estupro é sexo. Mas é a forma mais hedionda de sexo - e tanto, e tão ignominiosa, que transformou o que era doce e bom em dor profunda inimaginável, a ponto de poder tornar imprestável para a delícia a pessoa violentada. A Tradição é estupro - se não do corpo, daquilo que é mais telúrico que o próprio carbono, que, Nietzsche já o sabia, a consciência é parida pela carne.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 16 de novembro de 2008

(2008/48) Intentio, intentio, intentio - nada mais do que intentio


1. Homens e mulheres são seres de cultura. Sim, Dawkins está certo, habemus DNA, mas demos um jeito de entregar a ele(s) divisões da Instituição Homo sapiens propriamente animais. Aquelas mais distintivamnte "humanas", essas, aquilo a que convencionamos chamar de "consciência" assumiu-lhes o "controle". O que faz de nós seres teleológicos. Dito em recorte epistemológico, "pragmáticos" (para a "virada" pragmática nas Ciências Humanas, cf. a Introdução de O Império do Sentido, de François Dosse - eventualmente, ler minha Série Pragmática, na http://www.ouviroevento.pro.br/).

2. A era pós-estruturalista descobriu-se pragmática - uma tentativa epistemológica de conciliar "objetividade" e "subjetividade", de entrever o perfil emancipado do sujeito em meio às sobredeterminações constantes da cultura e da sociedade. A ação dotada de sentido, não mais mecânica e desprezível, mas teleológica, passou a ganhar interesse - "de novo", já que ela se encontrava já discutida tão cedo quanto em Aristóteles e Kant (saber, querer, sentir).

3. Intentio. Aplicando o conceito aos textos, a modernidade desenhou-se sobre o autor dos textos - como Schleiermacher queria (e, até certo limite, também eu: recuperar os processos de pensamento do autor de um texto): intentio auctoris. Não apenas o método histórico (Lourenço Valla) e o histórico-crítico (séculos XVII em diante), mas o proto-hermenêutico (eu preferiria ter dito, "o período dos pioneiros da hermenêutica", mas a "hermenêutica" que se vai apropriando de seu próprio passado vai matando o sujeito e pondo em seu lugar ou uma Linguagem [Heidegger] ou uma perigosíssima Tradição [Gadamer] - um retorno surpreendente [e sub-reptício!] a uma metafísica não-mitológica, mas tão mítica quanto a platônica]: em Vattimo, que bebe até a embriaguez de um copo de Gadamer , a Hermenêutica é uma Senhora que tem o que dizer, que tem conteúdo!, como aquela Sabedoria, de Provérbios, a falar pelas ruas), de Schleiermacher e Dilthey (aí, a hermenêutica ainda é "método" e "modo"), que reconheciam na intencionalidade situada do sujeito-escritor a chave hermenêutica do discurso ali objetivado.

4. Logo criticou-se essa "escola". De "positivismo" pra baixo (Croatto, ideologicamente, chamou-a de "eisegese", em 1984, antes, contudo, de ele mesmo descobrir a Fenomenologia da Religião, e ir meter-se ele mesmo em exegese, em sua série Isaías). Como as críticas, na sua esmagadora maioria, dão-se por cima, elas tendem a posicionar-se polarmente ao discurso que enfrentam. Postulou-se, então, o oposto da intentio auctoris - a intentio lectoris.

5. Que, contudo, é a mais antiga que sua rival. A alegoria ateniense e o midrash rabínico-judaíta (que marcam inexoravelmente toda - toda! - a tradição e teologia do Cristianismo) são modelos milenares de intentio lectoris - logo, de ideologia assumida como critério. Epistemologicamente, trata-se de assumir, programaticamente, o "leitor" - não mais o autor - como critério para a interpretação do texto. É o leitor quem diz, não o autor - tecnicamente e epistemologicamente morto. Na prática, o leitor "atualiza" (termo técnico) um sentido próximo de si para cada palavra e relação sintático-semântica do texto, construindo, com ele, uma rede semântica de si e para si. Cada leitor, uma leitura. Todas certas. Cada vez, alguma coisa entre estética e política.

6. Fica o teórico tendo de decidir entre a reconstrução psicológica da mente de um defundo ou a assunção da própria ideologica como critério de leitura. Exegese ou eisegese. Numa, nunca se sabe quando se está certo - porque não se pode "checar" se o que se está entendendo é mesmo o que o autor teria querido dizer. Noutra, sempre se está certo, não importa quem leia, como se leia.

7. Há quem não goste dessa encruzilhada. Inventou-se uma "saída" - a meu ver, a do leão da montanha, aquela, do desenho animado dos anos 70 e 80. Inventou-se de dizer que textos falam por si mesmos. Chamou-se a isso de intentio operis. Até Umberto Eco nadou nessas águas. Elas são assépticas. Você pode dizer que não faz ideologia descarada (intentio lectoris), nem que lida com anacronismos metodológicos (psicologismos démodé - intentio auctoris). Mas é isso, apenas que pode fazer - dizer que não faz. Mas faz. Toda intentio operis nada mais é, em termos fenomenológicos, que intentio lectoris não assumida.

8. Textos não têm intenção alguma. Têm estrutura, que, contudo, não falam por si mesmas. Falassem, qualquer que adotasse a "saída" leria, sempre, o que o texto eventualmete teria a dizer. Não é, contudo, o caso. Pessoas utilizam-se das estruturas do texto para "falar". Sempre se cai na mesma situação - cada leitor, uma leitura. Por quê? Porque apenas seres humanos, de carne e osso, têm intencionalidades discursivas desdobráveis e desdobradas culturalmente. Textos, por outro lado, são coisas, não pessoas (nem seus personagens!), são objetos culturais, que pessoas fazem, mas que não falam por si mesmos.
9. Chamou-se à teoria intentio operis, de "opus", "obra", tomando o termo de empréstimo às artes. Já aí era pra se ter percebido a improcedência da retórica: museus são lugares especiais para desdobramento das experiências estéticas de sujeitos históricos. Cada um olha um quadro, e "experimenta-o" a partir de si mesmo. Não é o quadro que fala, mas o sujeito que se projeta, esteticamente, e cria uma singularidade relacional, "situada", produzida teleologicamente pelo sujeito. Ainda que sem o quadro, a obra, o sujeito não se expressasse, não é ao quadro que cabe a tarefa da expressão, e nem tampouco e a ele que ela é devida. Ele é apenas medium - e mudo. É o sujeito quem o "usa", para "exprimir-se".

10. O fato de que, entretanto, se pode pegar esse mesmo quadro e "estudá-lo" em sua classe de História da Arte recoloca as coisas, a meu ver, onde devem estar. Diante de um quadro, ou você o apreende ou esteticamente (também, politicamente), ou heuristicamente. Ele, nada, nunca, nada faz. É sempre você, leitor, quem usa textos - seja para encontrar-se, teórico-metodologicamente, com a intencionalidade (psicológica, sim!) do autor dele, ou com sua própria ideologia. Nunca, leitor, há de se encontrar com alguma coisa como uma "intenção da obra", do texto, porque isso, simplesmente, inexiste. Como disse, há, ali, estruturas, eixos de força (sintaxe, semântica, estilo). Mas são como os eixos de força da Natureza: quando o salmo fala que os céus falam sobre a glória de Deus, é o salmista que fala, e, é bom saber, os céus não falam nada, não, é o admirador crente deles quem põe palavras de louvor na boca das nuvens, que, contudo, só têm dentro de si, água.

11. Intentio. Arrisco dizer - consciente e cultural, teleológica, não-DNÁdica, só há uma: a humana. Ela pode estar em dois pólos relativos a um texto - no passado, o autor, no presente, o leitor. É aí que se deve enfrentar a questão do critério hermenêutico. O texto não tem vida, não tem corpo, não tem mente, não tem intenção alguma. Voltemos, então, a discussão que me parece produtiva: é meu direito fazer o texto dizer o que eu quero que ele diga? Se sim, porque, quando se trata de um receituário médico, eu quero que o balconista da farmácia me dê exatamente o remédio que a mente do médico escreveu, usando a mão do médico, ali, no texto? Por que quero que, ali, onde está escrito meu nome na Escritura de Compra e Venda de minha casa, que todo mundo leia meu nome - e não, por exemplo, o seu próprio?

12. Intentio lectoris - qui prodest?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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