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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

(2010/125) Juro que eu tento...


1. Juro que eu tento. Mas não dá. Quase todos os dias, disciplinarmente, forço-me a dar uma passada em blogs "evangélicos", isto é, blogs de evangélicos que, mesmo que você não leia, já sabe o que vai ler. Eu insisto em ler por uma questão de, sei lá, teimosia, uma tentativa de dar chance ao contraditório, afinal, a despeito de minha posição crítica, minha tradição é inteiramente evangélico-protestante. Assim, mesmo com sofrimento, lá vou eu dar-me ao trabalho de "atualizar-me". Agora mesmo, acabei de ler um...

2. Mas não dá. É força demais que se faz... para não sair do lugar. É palavra demais que se usa... para dizer as mesmas coisas. É uma retórica louca, uma argumentação de doido, uma fundamentação sem pé nem cabeça.

3. O mais curioso é que se usassem o mesmo tipo de raciocínio evangélico-midiático (de resto, uma extensão do velho raciocínio evangélico), os não-crentes jamais se tornariam evangélicos - porque toda e a absolutamente totalidade dos argumentos é não sair nunca do lugar, não mudar, não se mexer, salvo se for pra cavar ainda mais fundo em direção ao mesmo.

4. Eu juro que tento. Mas está cada vez mais difícil... Na boa? Acho que nem Jesus agüenta...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 20 de abril de 2009

(2009/193) MPF de olho na mídia "evangélica"


1. Quando, ontem, eu escrevia a postagem (2009/185) Mídia evangélica e sociedade, não tinha ainda essa importante informação. Obtive-a, hoje, através do blog da redação do Le Monde Diplomatique. Trata-se de ação do Ministério Público Federal contra as redes de televisão que discriminam a fé religiosa afrobrasileira (umbanda, candomblé e congêneres) - isto é, de cheio, a mídia evangélica. Transcrevo a artigo:

2. "E se preconceito virar crime? Segunda-feira, 16 Março 2009, by Carolina Gutierrez: Ministério Público Federal pede a condenação de emissoras de TV que usam concessão pública para discriminar religiões afrobrasileiras.

2.1 A intolerância religiosa e o desrespeito às tradições afrobrasileiras levaram o Ministério Público Federal (MPF) a impetrar uma ação civil pública, com pedido de liminar, para barrar a exibição dos programas que ofendam e desmoralizem a religião afro. A ação foi ajuizada no último dia 5 de março e aguarda apreciação do juíz. O descumprimento da decisão judicial pelas TVs poderá implicar multa diária de R$10 mil.

2.2 A procuradora Regional dos Direitos do Cidadão, Adriana da Silva Fernandes, autora da ação, informou que o pedido final de condenação feita pelo MPF será uma indenização por danos morais tanto aos seguidores de toda a diversidade de religiões afros quanto à sociedade brasileira. “O abuso praticado pelas emissoras contraria a dignidade da pessoa humana, bem como os próprios objetivos de construção de uma sociedade livre, justa, sem preconceitos de origem, raça, cor, sexo, idade e quaisquer formas de discriminação”. O valor estipulado é de R$ 13,6 milhões para a Record, e R$ 2,4 milhões para a Gazeta. Isso corresponde a somente 1% do faturamento das emissoras em questão. Segundo informações do MPF, a soma será revertida para o Fundo de Defesa dos Direitos Humanos.

2.3 A ação da procuradora é resposta à insistência das duas emissoras em ridicularizar as fés ligadas à cultura negra. Entre os programas veiculados por Record e Gazeta, em espaços vendidos à Igreja Universal do Reino de Deus, estão “O Desafio da Cruz” (Gazeta), “Ponto de Fé” e “Sessão de Descarrego” (Record). O monitoramento dos mesmos, feito pela Anatel a pedido do Ministério Público, apurou que diversas vezes foram utilizadas expressões como “maldição espiritual”, “uma obra espiritual do mal”, “as obras das trevas”, “magia”, “feitiçaria”, “obras do diabo”, “bruxaria” intercaladas ao uso da palavra “macumbaria”.

2.4 O Ministério Público Federal já lida com ações contra a intolerância religiosa por parte da Igreja Evangélica desde 2003. “Houve uma ação civil anterior com direito de resposta. Foi suspensa pelo TRS”, afirmou a procuradora. Já em 2008, o ministério das Comunicações a irrisória multa de R$1.012,32 para as duas emissoras. Não foi suficiente, nem em quantia quanto em aviso. Aliás, há dúvidas até sobre a efetivação do pagamento. “Oficiamos. Houve a possibilidade de recorrer e não houve resposta. Sabemos que foi aplicada, saiu no Diário Oficial , mas não sabemos se houve recursos”, diz a procuradora.

2.5 As emissoras costumam defender os programas que veiculam preconceitos escudando-se na liberdade de comunicação. Mas segundo Adriana, esta não é absoluta, devendo submeter-se a outros direitos inseridos na Constituição Federal, como o respeito à dignidade da pessoa humana e religiosa. Os ataques às religiões afro ainda entram em confronto com a Lei Geral de Telecomunicações. Segundo esta, as emissoras, como beneficiárias de uma concessão pública, têm responsabilidade total pela programação veiculada. “Entendemos o Brasil como um Estado laico, neutro. Não deve ser omisso. Deve-se garantir a liberdade religiosa”, ressalta Adriana".

3. Se o preconceito virar crime? Pois tomara! Se, malgrado ser o Brasil uma República, a mídia evangélica, isto é, as concessões públicas de rádio e TV, e, por trás dela, o povo evangélico, não se comportam republicanamente por força da absoluta consciência do direito e da dignidade da expressão cultural de todos e de cada um, que sejam, então, forçados a fazê-lo, nem que, para isso, entupem os cofres públicos. Dinheiro é o que não lhes falta, certamente...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 19 de abril de 2009

(2009/185) Mídia evangélica e sociedade


1. O que ocorre caso se assuma a independência axiológica da religião e da teologia? Dito de outro modo, que competência tem um sisdtema não-religioso ou não teológico para analisar e julgar elementos teóricos e práticos da religião e da teologia? Dito, ainda, por meio de outras palavras: as ciências podem analisar e/ou julgar elementos da religião e da teologia? A ética pode? O que quer que se queira chamar de "especificidade" do religioso possui prerrogativas de independência em face de toda e qualquer outra área do comportamento humano?

2. Minha sonora resposta é não. A religião não constitui, sob nenhum aspecto, uma quarta pragmática. Desde Aristóteles, passando por Kant, reconhece-se a validade de se tratarem práticas teleológicas humanas, não as biológicas, sob apenas três rubricas: querer, sentir, saber, isto é, volição, afeição e cognição, respectivamente, política, estética e heurística. O que quer que um ser humano faça intencionalmente, isso que ele faz está, desde sempre, classificado em uma dessas três câmaras pragmáticas. Ou tal ação põe em confronto o homem com outro homem, ou põe em confronto o homem consigo mesmo, ou põe em confronto o homem com o não-homem. Onde quer que a religião, por extensão também a teologia, se materialize, o que aí vierem a fazer os homens, ou será política, ou estética, ou heurística (até hoje, apenas estética e política, porque a religião e a política têm pavor da heurística, tanto quanto os demônios, é o que se diz, da cruz e os vampiros da luz do sol).

3. Isso implica em dizer que a prática religiosa constitui uma prática humana como outra qualquer. Nada há que aí se faça ou possa fazer que não incorra automaticamente nas implicações de quaisquer outras práticas humanas, como esporte, trabalho, lazer, guerra, arte, sexo. Como em todas as demais atividades humanas, o que se faz na religião tem implicações legais, éticas, sanitárias, comunitárias, sociais, econômicas. Como todas as demais práticas humanas, as práticas religiosas não constituem um universo de legislação própria, e, mesmo quando assim a religião se pensa, é apenas intra-muros que encontra validade para sua proposição, entre os domésticos, porque, extra-muros, aí vale a lei do país.

4. Mais do que natural. Imagine-se uma sociedade que admita (não é ésdrúxula a hiótese) que as práticas religiosas, porque relacionadas ao sagrado, estejam livres das implicações morais, éticas e legais de um povo e uma nação. Ora, uma nação que coibisse a poligamia, deveria admiti-la a religiosos? Uma nação que proibisse o constrangimento de consciências, admiti-lo-ia para os religiosos? Uma nação que proibisse remessa de capital não declarado para o exterior, estaria impossibilitada de aplicar tal lei a religiosos? Uma nação que proibisse a intolerância religiosa, deveria tolerar uma prática religiosa intolerante? Uma nação que proibisse o cerceamento da expressão política, permitiria que uma religião controlasse o discurso político?

5. Em outra direção, que competência tem a ética e a moral para imiscuirem-se em práticas tribais, sejam brasileiras e africanas, se for aceita a alegação de que tais práticas respondem ao seu próprio mundo, à sua própria cultura, aos seus próprios valores, de modo que estão em situação de não ser possível o seu alcance por parte da crítica político-social? Faz sentido? O mal a que tais práticas tradicionais proporcionam a mulheres e crianças há de ser tolerado em nome de uma cultura, como se ampla ela fosse, quando, a rigor, é, por exemplo, machista, quiriarcal e patriarcal?

6. Desde a Reforma, inicialmente de forma lenta e, a partir das Luzes e da Revolução Francesa, cada vez de forma mais acelerada, a religião e a teologia passaram a sofrer intervenções públicas por parte da sociedade. Inicialmente, aqueles elementos mais nocivos à nova configuração das sociedades modernas - democracia, liberalismo político-econômico, emancipação cultural - foram simplesmente suspensos, como se faz com certas brincadeiras de criança que, aos olhos dos pais, tornaram-se perigosas. Assim, os Estados e as sociedades ocidentais passaram a pensar-se político-socialmente sem a presença coercitiva da religião e da teologia, relegadas ao campo privado da experiência humana.

7. Permaneceram toleradas em seu próprio nicho ecológico, desde que não interfiram nas regras laicas e básicas da sociedade. E eis o ponto: desde que a nova relação sociedade versus religião se estabeleceu, a religião e a teologia até podem ter de si idéias de megalomania, idéias de visionários, antecipações escatológicas universais, autocompreensões metafísicas, essas coisas próprias do universo infantil. Basta, contudo, que a sociedade decida, pronto, acabou a brincadeira. Por exemplo - no momento em que a República Federativa do Brasil, à luz de sua Constituição, determinar que acabou a patifaria de uma religião demonizar a outra em rede nacional, fecham-se 99% dos programas evangélicos na TV, que aí estão para demonstração universal da má consciência cristã, bem como para vergonha do evangelho.

8. Não me pego animado com o crescimento da expressão evangélica no país. Não mesmo. Talvez, com todo o seu atraso teológico característico, se ainda fosse a expressão daquele espectro mais tradicional, mais civilizado, mais educado, da tradição evangélica, mais cortez, eu diria, mais republicano no trato, ainda que não na alma, talvez, talvez eu até me animasse. Mas o que tem tomado força é justamente o espectro mais alienante, mais estupidificante, mais promotor do delírio teológico e místico, da intolerância retórica e teológica, - e ainda tem "iluminado" a dizer que o problema da Igreja no Brasil é o liberalismo! -, verdadeira contra-mão da civilidade e civilização ocidentais. O que isso significa pode-se conteplar na TV, nos discursos dos apóstolos de plantão. Alguns me causam náuseas. "Louvor", alienação, dinheiro e cura - eis a que se resume a festa evangélica da mídia evangélica - no momento, com raras exceções. Se isso reflete a orgia teológica concreta das comunidades, vamos mal, muito mal, muitíssimo mal. E à luz do dia... Uma vez que a sociedade não se manifesta, deve, de algum modo, estar a tirar bons proveitos da situação.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
PS. uma vez que está na moda Peroratio ver-se tocado por teorias de conspiração, não faria mal recomendar mais uma: Délcio Monteiro de Lima, Os Demônios Descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987. Típica "teoria da conspiração", o autor afirma que os movimentos neo-pentecostais foram introduzidos na América Latina, programaticamente, pela "inteligência" estadunidense, com o objetivo de frear os movimentos religiosos de esquerda característicos das décadas de 60 e 70, estando relacionados a um programa mais amplo de enfrentamento dos movimentos socialistas/comunistas da/na região. O leitor que leia e decida se faz sentido. Se julgarmos a suposta "causa" pelo "efeito", dá até dor de cabeça...
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