quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

(2020/005) "Há perigo na esquina"

1. A Revista da Arquidiocese de Vitória/ES, Vitória é seu nome, pediu-me que escrevesse texto breve que tratasse do Artigo 5º, inciso VI da Constituição. O artigo foi publicado no último número da revista, na p. 27. O artigo pode ser lido abaixo.


“Há perigo na esquina”

Osvaldo Luiz Ribeiro

“Artigo 5° (...) VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias” (Constituição Federal do Brasil).

O texto em epígrafe é a última grande etapa legislativa que se inaugurou formalmente com o Decreto 119-A. Cem anos depois, a Constituição Cidadã recepcionou e aprofundou a expressão da norma. Acho lindo isso.

Acho impensável que alguém pretenda determinar a crença de terceiros. Penso que apenas a sede de poder e o desejo pelo controle dos corpos e das mentes das pessoas, além de problemas psíquicos profundos, levam pessoas a sentirem-se no direito de arbitrarem a confissão dos cidadãos. Na verdade, considero doentio, perverso e intolerável que alguém pretenda determinar como as pessoas devem se relacionar. Incluo nesse tópico todas as expressões humanas, dentre aos quais considero conveniente ressaltar a religião, a política e a sexualidade.

Quando o Estado assumiu a responsabilidade de conceder/reconhecer direitos de livre expressão de fé aos cidadãos e às cidadãs, deu o primeiro passo para o que seria uma das marcas do século XX: a emancipação social dos costumes teologicamente sustentados e político-patriarcalmente herdados. Mesmo com a decisão política do Estado de reconhecer/conceder a liberdade de expressão religiosa, somente com muita disputa política se foi muito lentamente transformando em prática o que constava da letra da lei. Para as religiões de matriz cristã não católica, a batalha foi mais fácil desde o início, conquanto tenha sido capitaneada naquela ocasião por maçons aliados aos valores da República. Para as religiões do povo preto, todavia, é legítimo considerar que a luta está longe de ser concluída. Depois da política de branqueamento que o país conheceu no início do século XX, no final daquele século o Rio de Janeiro foi palco de outro branqueamento, resultado da aliança entre evangélicos e o tráfico, do que decorreu a expulsão de terreiros tradicionais de religiões de matriz africana dos morros cariocas. Não vos constrange isso?

Desde o Decreto 119-A, o Brasil se transformou. A despeito das tentativas institucionais de branqueá-lo, revelou-se preto e mestiço. Religiões dessa cor foram marginalizadas e os cristianismos continuaram – a despeito de sua luta fratricida interna – a dominar o campo religioso. Recentemente, todavia, a matriz cristã apresenta transformações, com cada vez maior representação do contingente evangélico de tradição fundamentalista. No campo católico, a Teologia da Libertação viu seus espaços serem tomados pelos movimentos carismáticos. No conjunto, com o sugestivo título “Os demônios descem do norte”, já se sugeriu ver aí movimentos políticos orquestrados.

A matriz cristã que se publiciza na política e na mídia expressa palavras de ordem que não são constitucionais, e assume tal condição transformando a divindade em uma espécie de garoto propaganda da intolerância e do totalitarismo teocrático. Acho isso muito feio.

Há perigo na esquina. De novo.





OSVALDO LUIZ RIBEIRO



quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

(2020/004) Fundamentalismo e juventude

1. Ora, claro que é uma visão dantesca um jovem fundamentalista! A seiva da juventude apodrecida tão cedo! Mas à juventude se perdoa tudo, pelo fato de ser a juventude. Tenho que pensar assim, porque, quando eu era jovem, há décadas atrás, vi-me fundamentalista. Por isso, forço-me a considerar justo perdoar aos jovens o fundamentalismo...

2. Mas o burro velho? Esse estrupício de décadas? Não. A esse não cabe o perdão, mas uns safanões, a ver se acorda de seu delírio de retardamento cognitivo, sua burrice sem fim, sua tacanhez de alma, sua ignorância infinita e, eventualmente, sua maldade incurável...

3. Nem todo fundamentalista é mal. Sem exceção, são deficientes cognitivamente falando, mas não necessariamente são perversos. Acho que os de boa "alma" se curam. Os que não se curam, temo ser essa uma verdade, é porque além de muito ignorantes, são maus.







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2020/003) Modernidade e crença religiosa

1. Claro que há "defensores" da crença. Não diria que exclusivamente, mas diria que quase que absolutamente todos eles, de alguma forma, orbitam o universo da crença. Todavia, o contrário também seria verdadeiro: aqueles que não defendem a crença abandonaram a órbita da fé... No entanto, pelo menos um teólogo admitiu que a condição de crença constitui infantilidade - Bonhoeffer. Não é surpresa que tenha se engajado em atividades subversivas de tentativa de assassinato de Hitler. Acho que a conclusão a que Bonhoeffer chegou se deve à questão que ele mesmo teria levantado: como a Igreja alemã pode ter apoiado esse monstro? E a resposta é clara: instrumentalizando a fé infantilizada e manejando a boiada imatura de crentes. Talvez, se não fossem infantilizados, mas maduros, adultos, não tivessem se tornado instrumento da Besta...

2. A consciência da crença como fenômeno antropológico não é um efeito da Modernidade, como alguns querem fazer crer. Mesmo na Antiguidade já se sabia e escrevia que a fé constitui projeção e fenômeno humano. Aristóteles, por exemplo, dizia que os deuses assumem papeis de monarcas, porque os homens que creem nos deuses têm monarcas... É Feuerbach, mais de dois mil anos antes de Feuerbach.

3. A diferença entre a Modernidade e os períodos antigos é a fecundação social dessas ideias, e isso tem a ver com as mudanças políticas do jogo social, e não com a invenção de ideias novas. As "revoluções" burguesas e a invenção dos modelos cada vez mais republicanos e laicos de sociedade foram, pouco a pouco, permitindo que tais ideias críticas, hoje banais e óbvias, pudessem ser esposadas sem os riscos do passado. Sócrates fora executado pelo Estado como subversivo, porque ensinaria os jovens a descrer dos deuses. Na Idade Média, "hereges" eram executados. A Modernidade, não do dia para a noite, mas lentamente, promoveu condições político-sociais que favoreceram a publicização sem medo das ideias antigas. Ateísmo e agnosticismo deixaram de ser atitudes secretas e perigosas.

4. Esse fenômeno é paralelo à emancipação das mulheres, e pela mesma razão. No século XX, sociedades emancipadas em termos político-legais, isto é, que não operavam mais a partir da órbita das divindades - do deus cristão basicamente - criaram condições para que as mulheres libertassem-se das operações políticas baseadas em dogmas. Na prática, no século XX, os homens não tinham "Deus" a seu lado para colonizarem - como fizeram por séculos - as mulheres, de sorte que elas puderam, passo a passo, alcançar doses cada vez maiores de liberdade civil. Mas nem isso é uma invenção Moderna, conquanto seja, aí sim, uma condição Moderna.

5. E essa é a questão: a Modernidade constrange a crença. Não pelo fato de ter inventado a crítica e a consciência de crença, mas porque o crente não tem a justificativa de que é constrangido a crer. Apenas a imaturidade pessoal e social permite tratar o estado de alienação que caracteriza a fé e a crença como virtude. Não, não é virtude de espécie alguma. E, menos virtude ainda é aquela fé que, além de desconhecer ou fingir que desconhece o fato de que ela é o que é, assume que só ela é a verdadeira fé. Aqui já nos aproximamos daquele tipo de fé que não constitui apenas um conjunto de tolices infantis, mas crimes de gente grande.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

(2020/002) Conhecimento não vale de nada, se...

1. A meu ver, só é conhecimento de fato aquilo que entra no sangue do sujeito, que vai à veia e, daí, ao cérebro, ao corpo, à "alma"... Ouvir coisas, ler coisas, e não dar a elas as consequências devidas não é aprender coisa alguma, não é adquirir conhecimento algum, é apenas assistir a discursos, como quem vai ao teatro e esquece tudo...

2. É por isso que se engana profundamente quem acha que o conhecimento da humanidade encontra-se disponível a qualquer um - no Google. Bem, no sentido de uma feira-livre, em que todos os tipos de batatas sul-americanas podem ser adquiridas, vá lá, o Google é isso. Mas, considerando-se que (conforme aqui avalio) conhecimento é o dado transformado em informação e levado às suas implicações últimas, ter acesso ao Google não é, nem de longe, ter acesso a conhecimento. 

3. Lido há 30 anos com pessoas que em tese estudam Teologia. Não há lugar mais propício para adquirir conhecimento do que sala de aula, provavelmente. E, no entanto, sou testemunha que a esmagadora maioria, para não dizer a absolutamente quase totalidade dos alunos com que lidei esses 30 anos simplesmente não transforaram os dados a que tiveram acesso em conhecimento. E devo acrescentar: não apenas estudantes!

4. O que mudou neles o contato com os dados da Antropologia? Talvez alguma coisa periférica. Mas, radicalmente, nada. E o que foi alterado neles em razão do contato com os dados da Psicologia? A rigor, nada. O que diziam sobre seus sentimentos durante cultos religiosos é o mesmo que dizem hoje, depois do contato com os dados, de sorte que os dados da Psicologia, que deveriam dar a elas uma compreensão totalmente nova e radicalmente diferente da forma como interpretavam suas lágrimas em culto nunca resultou em verdadeiro conhecimento. Por quê? Porque não aprenderam nada, não assimilaram. Não permitiram que os dados evoluíssem para informação e, desde aí, alterassem a autocompreensão e a compreensão do mundo que o estudante tinha antes do acesso aos dados.

5. De que adianta um Google inteiro, se as pessoas não transformam os dados - bilhões deles - que vivem ali em informação, e se, pior ainda, não levam a sério as informações daí resultantes? Bem, a notícia ruim não é essa aparente inutilidade do Google. É outra. E pior. Quanto mais dados deixam de ser transformados em informação, e quanto mais informação é tangenciada e nunca levada às suas consequências óbvias, mais obliterada vai ficando a mente das pessoas, mais refratário ao conhecimento vai se tornando aquele corpo, mais bruta vai ficando aquela vida, até a completa estupidificação...

6. Entende porque é fácil ter tanta gente maluca falando em terra plana, mesmo com o Google...? 

7. Mas, se você acha que a pior coisa é o ignorante orgulhoso que fala entusiasmado em terra plana está enganado. Em pior estado encontra-se aquele que teve todos os dados nas mãos, mas ainda acha que ele chora no culto por força do Espírito Santo, enquanto é o diabo quem faz os hereges chorarem em suas seitas... Esse, sim, vive no inferno e não sabe. O da terra plana é só um paspalho besta.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

(2020/001) Crença sem consciência de crença

1. Em tese, ser religioso não é necessariamente bom ou ruim. Isso significa que a religião, em si, não é nem boa nem ruim. A avaliação dependerá de uma série de fatores, nos limites do que está correto dizer que tudo depende de como se avaliam as coisas.

2. Avaliada desde a perspectiva da consciência do que é a religião em si, então sou forçado a dizer que a religião, necessariamente, constitui ou implica em deficiência cognitiva. O religioso - verdadeiramente religioso - é aquele que acha que a religião é o que a própria religião diz para ele que é. Nesse sentido, entram em cena conceitos como revelação, mundo após a morte, essas coisas "metafísicas" ou sobrenaturais que constituem, sem exceção, o conteúdo das religiões.

3. Nos termos epistemológicos propriamente modernos, a condição do sujeito que acredita que as coisas são como a religião diz que são e que avalia a própria religião nos termos em que ela mesma se apresenta experimenta uma existência tecnicamente alienada. Nesse sentido, religião é alienação.

4. Em termos modernos, considerando-se os valores cognitivos válidos para a experiência de autocompreensão, atrelados aos insumos cognitivos da Antropologia e das diversas ciências humanas, cá entre nós, o sujeito que acredita que a religião é o que a própria religião diz que é encontra-se totalmente alienado. Pode até ser uma boa pessoa, isso não tem nada a ver necessariamente com a discussão sobre a condição de alienação a que o religioso está vinculado. A questão é que ele acha que o que sente é produzido de um jeito, quando as ciências sabem que não é do jeito que ele acredita que é. Nós sabemos por que um religioso se emociona no culto. Já ele, acha que é por outra razão. Como eu disse, alienação.

5. Nesse sentido, não é necessário que a religião leve esse sujeito a cometer atrocidades éticas para que seu estado seja considerado negativo. Em termos epistemológicos, a alienação é um obstáculo à maturidade. Para usar o conceito de um teólogo - pois é! - trata-se de um indivíduo em estado infantil. Não é um adulto. Ele conversa com amigos imaginários. Nenhum problema em conversar com amigos imaginários... Desde que se saiba que essa conversa é isso: uma conversa com amigos imaginários...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

(2019/041) Fazer textos dizer o que queremos é como fazer pessoas fazerem o que queremos

Será uma regra: toda pessoa que faz os textos dizerem o que ela quer que ele diga (a despeito do que o próprio autor tenha escrito) é a mesma que está engajada em fazer a sociedade funcionar do jeito que ela entende que deve funcionar. Mas como faz? Da mesma forma: manipulando. Geralmente são gente progressista e "do bem", porque os conservadores geralmente são burros demais para conseguir manipular textos com sutileza... A manipulação, quando se instala na alma de uma pessoa, é para o que der e vier.

Esses pensamentos me vieram à mente, enquanto lia o aforismo 377 de A gaia ciência, de Nietzsche. Em um parágrafos mortal, ele se desnuda: "não somos 'liberais', não trabalhamos para o 'progresso' (...) A ária dos 'direitos iguais', a canção da 'sociedade livre', e 'acabem os senhores e os escravos', nada disso nos atrai". Não está claro o suficiente quem é Nietzsche? Felizmente, ele não é hipócrita, e confessa: "necessidade de uma nova ordem, de uma nova escravatura, se for necessário - porque não há reforço, elevação do tipo humano que não exija nova espécie de escravatura (...) Não é verdade que é muito difícil encontrarmo-nos como em nossa casa, numa época que gosta de se vangloriar de ser a mais humana, a mais suave, a mais justa que alguma vez existiu debaixo do Sol?" (NIETZSCHE, A Gaia ciência. Lisboa: Guimarães, p. 276). A despeito dessas palavras, que se repetem em praticamente toda a obra do filósofo, como demonstra irrefutavelmente Losurdo, Nietzsche se tornou, no século XX e XXI, a patrono dos libertadores da alma, dos emancipadores do povo. Faz-me rir...

Falando em Losurdo... Dia desses conversava com um doutor em Filosofia. Falei-lhe da obra prima de Losurdo, mais de mil páginas sobre Nietzsche, que provam cabalmente que Nieztsche não é quem os filósofos do século XX nos fizeram crer, e ele, entre aborrecido de um outsider se meter onde não é chamado e afrontado pela ousadia: prefiro meus autores. Uni-duni-tê. Isso virou a Filosofia?

O século XX mentiu para nós sobre Nietzsche. Das duas uma: ou não sabem ler, e se metem a sábios, ou sabem, e se metem a deformadores programáticos. E penso que é exatamente pelo fato de que têm até ideias "liberais", querem até o "progresso", querem a sociedade livre, a justiça - e o que fazem para isso? Manipulam textos e pessoas! Minha avó dizia que de boas intenções está cheio o inferno.

No fundo, são religiosos, mesmo que não confessem. Mas entre eles se conta até quem diga que a sociedade ocidental do século XX e XXI é o cristianismo em sua essência não religiosa! São religiosos, pensam como religiosos. E religiosos são especialistas em manipulação. Na sua prática, a lógica, a retórica, o discurso, as ideias, tudo trabalha única e exclusivamente para uma única direção:

Bento que bento é o frade (frade)
na boca do forno (forno)
tudo que seu mestre mandar
faremos todos
Se não fizer
levaremos bolo (bis)

Trata-se de moldar a sociedade não aos critérios da sociedade, mas aos seus próprios, que devem ser os da sociedade. Não me aleguem, por favor, que o fazem por via da educação, porque uma educação que não emancipa, mas instrumentaliza a partir da manipulação não é educação: é encabrestamento. 

Se os "mestres" e "frades" não sabem ler, ou, se sabem, manipulam o que leem, e, assim fazendo, ensinam a sutil arte da manipulação dos textos e das almas, que tipo de sociedade teremos?







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

(2019/040) Todo marido violento tem um pouco de Deus

"Por que te espanco?", pergunta o marido violento, já dando ele mesmo a resposta à surrada: "é que não me amas em troca do amor que te reservo!". E arremata: "quando eu te amo, porque eu te amo, tu tens que me amar de volta, e, se não me amas de volta, te arrebento". E mais: "tu deves ser grata pelo meu imenso amor; deves ser submissa ao meu tremendo amor; deves amar meu amor, desejar meu desejo, sofrer minha paixão". E dá as razões: "porque meu amor quer cuidar de você, proteger você, guardar você em relicário. Meu amor quer fazer de você a pessoa mais feliz do mundo!"... 

Bem, naturalmente que a mulher violentada por esse amor violentíssimo não está interessada em nenhum desses argumentos, e está ali, amarrada, exatamente por isso: porque está amarrada, sejam quais forem as cordas, reais ou psicológicas.

Nisso tudo não está, também, a relação de Deus com os homens? Deus nos ama, ensinam-nos os atravessadores do amor divino, os cafetões de Deus: Deus ama vocês! Essa é a notícia mais importante do Universo, eles dizem: Deus amar os vermes! Agora, vem o que eles realmente mercadejam: em troca, vocês devem amá-lo. Nunca haverão de amá-lo tão intensamente quanto ele os ama, mas devem esforçar-se para que ao menos a sombra do amor dele por vocês se pareça com a penumbra de seu amor.

Que significa amar? Submeter-se. Sua vida não é mais sua vida, é a dele. E a isso há quem chame amor! Loucos!

E se não amamos em troca? Ora é saudável fugir desse amor, como é bom para os ossos fugir do marido violento, possessivo... Ah, mas Deus não é assim? Não, é? E o que significam os castigos de amor? E o que significa o inferno, que não é outra coisa que não o hospital de quebraduras para onde o marido manda a mulher que não o ama suficientemente, isto é, que não se submete ao seus caprichos de macho amoroso...?

O Estado do Espírito Santo é, proporcionalmente, um dos Estados mais cristãos do Brasil. Ao mesmo tempo, é um dos campões de espancamento de mulheres que não amam suficientemente seus amorosos maridos. Há quem não entenda isso. Pois este aqui entende perfeitamente.

Agora, quando você não entender porque há mulheres espancadas que não apenas não denunciam seus carrascos, mas com eles ficam até a morte, olhe para as igrejas lotadas. Se ainda assim não entender, deve ter alguma gosma psicodélica embaçando sua visão...







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

(2019/039) Fake news e religião

Pós-modernos podem ler esse post, sem se aborrecer. Poderão até me zoar. Mas os outros, só leiam se forem crescidos. Se forem ainda infantilizados - e, em tese, religiosos convictos o são - é melhor ir ler outra coisa.

Pois bem: considerando que fake news é um nome do tipo modinha para a velha e crassa mentira, não há religião, nem religioso, que viva sem fake news. Todas. Todos. Nascem com fake news e se mantêm com fake news. Por isso é fácil enredar religiosos - evangélicos e católicos - em redes bolsonarianas de fake news: é leitinho morno para eles. Certo que as eleições se decidiram em golpe, e eu não estou dizendo aqui que as fake news ganharam as eleições. O que estou dizendo é que quem gosta de fake news e se alimenta delas é basicamente um ser religioso.

O religioso quer crer. Ele deseja. E quer e deseja crer aquilo que lhe interessa. Não importa se faz sentido, se tem lógica, se tem pé e cabeça, o religioso vai crer. É sua essência. É o que o define. Sem isso, religião não dura uma semana. E, no entanto, dura 100.000 anos, talvez já. Entra ano sai ano, moderniza-se a cultura, a cabeça do religioso permanece exatamente a mesma... E será a mesma daqui a dez mil anos...

Fui religioso. Evangélico. Quando fui fazer teologia, a crise de fé me levou a questionar as fake news que eram a essência e a sustentação do sistema inteiro. Mas podia ser mentira só o que a minha religião me ensinava. Então, fui atrás de outras. Numa das que busquei caminho por quatro anos, enquanto ainda estava naquela de senta levanta nos bancos da igreja, desisti quando me deram pra ler textos que diziam que as verdades que eu estava aprendendo eram ensinadas por seres espirituais do outro plano. Morreu ali a caminhada: outra mentira. Aí, fui tentar Teosofia. Li Ísis sem véu. A teósofa está em batalha tanto contra a teologia como contra a ciência, mas empolga. Lá vou eu lendo e me deliciando, até que pelas tantas, leio que os espíritos revelam as verdades de Ísis sem véu... Fim.

Perdi a capacidade de seguir uma religião. Não posso ouvir uma coisa desse tipo - fake news metafísica, sobrenatural, fantasmagórica - e fingir que aceito e acredito. Não dá. Eu olho e imediatamente tenho vontade de sair correndo, porque considero que é realmente humilhante uma pessoa dar crédito a essas patacoadas. No seu estado de infantilização, compreende-se. Mas homens e mulheres adultos, como concluiu Bonhoeffer, só podem praticar um cristianismo não religioso. Adultos que gostam de mentira são os seguidores do Bolsonaro. Os outros, são saudáveis...

É por isso que nazismo e fascismo foram movimentos político-sociais intimamente relacionados à religião: gado. Provavelmente dá-se a mesma coisa com o capitalismo, ao qual, todavia, se deve acrescentar o cinismo do bom mocismo, que falta nos anteriores. Massas delirando de desejo por acreditar. No quê? Não faz diferença: crer é o delírio. Terra plana, por exemplo...

O quê? Você conhece religiosos que não gostam de mentira? Bem, talvez haja exceções. Ou talvez não sejam mais realmente religiosos, e estejam apenas fazendo jogo. Há mais de uma razão para alguém para entrar em um templo... O que também não deixa de ser uma mentira...








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

(2019/038) Biafra (hoje Byafra) e os dias bolsonarianos de ontem e de hoje


1. Sim, os dias bolsonarianos são horrorosos, porque a gente desse tipo é horrorosa. Mas os dias bolsonarianos são apenas a saída para a luz do dia dos vermes que sempre estiveram enfiados em troncos podres e ocos, nas sombras, desde sempre. Se é possível impedir que dias bolsonarianos venham á luz (e esses só vieram por conta de conluios da direita e da classe média, que contrataram seus monstros de aluguel para fazer o serviço sujo que eles não podiam fazer), parece não ser possível extirpar esses monstros que, quando o dia de seu festim público acaba, retornam para as privadas de onde nunca deviam ter saído...

2. O Brasil sempre esteve carregado pelos valores que hoje assustam. Às vezes, tais valores estão sob controle social, mas, de quando em quando, eles vão para as manchetes, as TV e a internet. Homofobia, machismo, misoginia, racismo, preconceito, todo esse lixo está pousado no fundo do lago Brasil. Basta que alguém mexa no lodo em repouso e as águas se tornam pútridas e envenenadas pelo que sai de cada um dos seres covardes que ali vivem...

3. Olhem esse trecho da canção Sonho de Ícaro, de Biafra, dos anos 80:

"Fugir meu bem
Pra ser feliz
Só no pólo sul
Não vou mudar
Do meu país
Nem vestir azul"

4. Já naquela época, ser gay e ser feliz ao mesmo tempo era um desafio. Fugir do país? Mas há algum lugar em que se possa, nessa condição, ser feliz? Só no polo sul! Não vou fugir do meu país! Parecem os dias de hoje, não parecem? Mas eram os "cândidos" anos 80, anos de armário como regra, fazer-se de hétero: "vestir azul", que, na letra da música, me parece uma alusão à letra da famosa canção "Vesti azul", do Simonal, cuja referência nesse caso me parece dizer que fingir-se hétero não é uma opção.

5. Biafra cantava uma letra sutil, mas, nessa estrofe, declaradamente de resistência, de enfrentamento. Os dias de então estavam cheios dos mesmos monstros horríveis que vemos hoje por aí. O lago não estava mexido, os dias não eram os dias do esgoto bolsonariano, mas os monstros estavam lá. "Fugir, meu bem? Pra ser feliz? Ah, só no polo sul! Pois eu não vou mudar do meu país nem vestir azul!





 








OSVALDO LUZI RIBEIRO

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

(2019/037) O desejo e o erotismo em Cântico dos Cânticos: uma leitura histórico-social - curso online interativo


Se você clicar na imagem acima, será direcionado/a ao site da Faculdade Unida de Vitória, que oferece institucionalmente o curso anunciado. Eu gravei o curso, e ele é oferecido formalmente pela Unida. É um curso interativo: durante o tempo em que você assistir ao vídeo pré-gravado, poderá encaminhar perguntas ao professor (nesse caso, eu), que as responderá. O curso faz jus a certificado, caso se conclua pelo menos 75% de sua carga horária, que é controlada pelo próprio sistema.

Sou suspeito para falar, porque sou o professor do curso. Mas você não lerá nem ouvirá em nenhum outro canto o que ouvirá nesse curso. A leitura que faço do livro bíblico, Cântico dos Cânticos, é diferente das que comumente se encontram na literatura. Não é que eu goste de ficar inventando leituras, muito pelo contrário, porque não sou nada pós-moderno, acredite, e essa história de que cada um lê como quiser não me encanta. Sou um exegeta histórico-crítico, e o que eu digo encontrar no livrinho é o que eu acho que realmente o autor (ou a autora!) quis dizer. Mas vai ver estou errado...

O livro de Cântico dos Cânticos não é um livro sobre amor, desejo e sexo. Ele tem amor, tem desejo e tem sexo. Aliás, muito. E mais: com detalhes. A "lua de mel" do casal é descrita em detalhes. Mas o tema é político-teológico. Trata-se da questão da autonomia (da mulher, naturalmente), e por isso a questão do desejo, já que o desejo foi tratado pelos religiosos judeus da época como a prova de que a mulher viveria em constante estado de condenação pela divindade: Eva, uma maldita... O livro se insurge contra isso frontalmente. A Amada recusa-se a admitir que seu desejo seja expressão de maldição e condenação. No final, a Amada vai dar três reboladas bem dadas e o Amado cai de quatro, literalmente, arfando de desejo, ocasião em que ela nos olha nos olhos e, invertendo de propósito Gênesis 3,15, diz: eu sou do meu amado, e o desejo DELE o traz a mim! Ela argumenta que o desejo a toma tanto quanto toma seu homem, de sorte que o vento que venta cá, venta lá, e maldita é a...

É um texto extremamente inteligente, sofisticado, mesmo "moderno", porque ele começa, volta para o passado, retorna ao ponto do começo, e segue normalmente, como muitos filmes modernos fazem. E foi escrito para ser encenado, de sorte que não há narrador.

Não tratarei de tudo isso no curso. Só um aperitivo.

Sirva-se.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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Sobre ombros de gigantes


 

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