quarta-feira, 8 de abril de 2020

(2020/050) Sobre vento, sopro e espírito em hebraico não ser exatamente o que você pensava


Os dicionários - todos - de hebraico traduzem o termo ruah como ou vento, ou sopro ou espírito. Vento e sopro a gente entende de primeira - o sopro é uma espécie de vento, ou o vento é uma espécie de sopro. No entanto, o que vento e sopro têm a ver com espírito, ou o que espírito tem a ver com vento e sopro.

Bem, a questão está mal colocada. Primeiro, o problema da relação entre espírito, vento e sopro nada tem a ver com hebraico, mas com nossa própria língua. Tenha em mente que o judeu e o israelita usavam uma só e a mesma palavra - ruah - para se referir a vento e a sopro, bem como áquilo que, hoje, considera-se espírito.

Pois esse é o problema: o que hoje se considera espírito. Para o usuário da Bíblia, "espírito" - que aparece nas traduções - é uma espécie de fantasma. Eu brinco em sala de aula, dizendo que a alma ou o espírito é o Gasparzinho. É a esse Gasparzinho, a esse fantasma, à alma, que a mente se remete quando lê a palavra espírito. Para o leitor cristão da Bíblia, há um fantasma dentro de cada pessoa, e, a rigor, a pessoa realmente seria a sua alma, esse fantasma, esse Gasparzinho, e não o corpo em si. O termo hebraico ruah, então, referi-se-ia a esse fantasma que habita provisoriamente o corpo das pessoas, que teologicamente o chamam de alma.

Entretanto, esse conceito não é suportado pelo termo hebraico. O sentido de ruah relacionado ao corpo humano tem a ver com aquela cena de Yahweh soprando nas narinas do Adão - o sopro da vida, o vento da vida. É a essa mesma ideia de sopro da vida que o livro de Eclesiastes se refere: que o pó volte à terra, e o sopro ao deus que o deu. Não há aí qualquer ideia, conceito ou figura de alma, fantasma, Gasparzinho. E não há nada aí de identidade vinculada a essa alma - que não existe nesses textos. Quando Almeida traduz "alma vivente", está pintando com as cores de Platão, o grego, o texto de um judeu - em hebraico, nefesh hayah não significa alma vivente, mas garganta viva, e a garganta é viva porque a respiração, o sopro, o vento passa por ela: ruah, ruah, ruah, ruah... Não é da alma que se trata, mas apenas da vida, dom da divindade, que se traduz na manutenção da respiração, do sopro, do vento, disso que se chama hoje de "espírito", mas se interpreta à moda grega, que nada tem a ver com a moda bíblica.

Agora se pode compreender porque o israelita e o judeus mais antigos aplicam ao vento, ao sopro, à respiração o mesmo termo: ruah. Não era porque estavam pensando em alma. Para que esse mito impere, primeiro Alexandre terá que conquistar o mundo...

Uma última palavra. Há tradições diferentes no Antigo Testamento, tradições que passam pela crença no duplo. Não é nem o conceito de respiração vital (ruah) judaico nem o conceito de alma grega, mas um conceito mais antigo e mais universal, que antropólogos chamam de duplo. Cria-se que a pessoa morria e ia, ela mesma, para o mundo dos mortos. Esse duplo da pessoa passa a viver em outro andar, abaixo da criação, no sheol. Não se aplicava a esse duplo a palavra ruah, as outra, muito interessante: 'elohim (a mesma para designar os deuses). Quando Saul consulta a profetiza mágica e ela invoca Samuel, o termo que descreve o ser que sobe do sheol é 'elohim, e não ruah. Estamos aí diante de tradições mais antigas, mas nem por isso menos interessantes...







OSVALDO LUIZ RIBEIRO




(2020/049) Por causa do feriado religioso

Há trocentas religiões. Apenas em um sentido se pode colocar todas no mesmo saco: todas elas imaginam um mundo além deste mundo, digam sobre ele o que disserem, e constroem para este códigos de vida com base no que imaginam para aquele. É o império do faz-de-conta (que pra o religioso não é faz-de-conta, claro está) sobre o real.

Ah, o real. O século XX é o século dodo Hinduísmo e do Budismo fazendo passar sua filosofia sobre o Ocidente. O real é maya, ilusão. É a tese fundamental do extremo oriente, e ela é reacionária até a próstata. Relaxa e goza, é o princípio da vida naquelas bandas. A única realidade real é a do outro lado, a imaginária, chamada de "espiritual". Esse pensamento contaminou tudo no século XX, e quanto mais se fazia força para a religião sair da praça, mais essa filosofia ocupava os bancos vagos. Porque o discurso científico de que a realidade é ilusão é, na verdade, Hinduísmo secularizado. A pós-modernidade vive em castas!

Não apenas ilusão, e a realidade pode ser moldada. É o que eles dizem. O cara que inventou o Pensamento Positivo de matou. Pelo visto, não funciona. Outro carinha, pastor de uma das maiores igrejas do mundo, na Coreia, David Yonggy Cho e praticamente toda a diretoria da igreja foram condenados - mas são velhos demais para as grades - por terem fraudado a igreja, a despeito de terem ensinado milhões no mundo a orar de modo eficiente. Pelo jeito, precisaram de artifícios do demônios, porque a técnica de bosta que inventariaram só funciona para enganar bobo. Mais próximo dos livros, os que se encantam com a religião tudo é interpretação, tudo é metáfora vão se cagando de medo do SARS-Cov-2. Também essas patacoadas cripto-religiosas não funcionam.

Na verdade, tudo isso é tão velho quanto andar pra frente. As pessoas querem crer. Elas querem boas notícias, adoram ser enganadas. A ralidade dói demais. Já se disse que os fatos são amigos (Carl Roger), mas as pessoas não são amigos dos fatos, e preferem mil conversas e lorotas religiosas, mil promessas fáceis, porque a vida é uma merda só. Não precisa ser. Mas é. E é também por um acordo tácito (às vezes, assinado mesmo, pelo qual até religiões podem ganhar um país inteiro, murado, bonito, no meio da Itália) entre pilantras da política e do governo e pilantras da fé e da religião: a religião promete que os deuses estão no controle, a despeito dos diabos, e o poder instalado pode deixar morrer dez mil à tua direita, dez mil à tua esquerda, que já aprendemos na Bíblia que fodam-se os da direita e os da esquerda, que meu deus é mais!

As modas passam, o auto-engano permanece, e não sei se algum dia ele será superado. Eu queria que sim, Marx dizia que com certeza será, e os amigos dessa operação status quo alegram-se de que tão cedo ele não se vá, que os templos se enchem, se não no Velho Mundo, certamente no Novo e nas terras de ninguém...

Vamos comer peixe, que é Semana Santa. O peixe, criação divina, dizem, eu mato e como, e louvo. O SARS-Cob-2, também criação divina, me come vivo e eu não louvo. Não faz sentido nenhum... Mas está tudo bem. O mundo é maya mesmo, não é?










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 2 de abril de 2020

(2020/048) É duro o choque de realidade

É duro o choque de realidade.

Eu vivo no meio de religiosos e acadêmicos de todo o Brasil. Sem generalizações, grassa um cada vez mais a(celerado) pós-modernismo no meio das Humanas. O real é uma construção da mente! O real é fabricado pelo cérebro! Tudo é interpretação! Um monte de patacoadas, que você tem que ouvir. No outro polo, a pessoa religiosa, que vê a alma do mundo, que não tem alma, que vê deuses, e, entre os deuses, um deus só, que só existe sozinho e sem ninguém mais (esses são os piores), que para tudo têm explicação religiosa (cada uma mais varrida do que a outra), sobrenatural, espiritual, doutrinária, essa lenga-lenga mitológica e patológica, que tem gente que diz que faz bem (só olhar para a janela e ver o bem que faz).

Aí, vem um vírus como esse. A realidade líquida que os pós-modernos tanto amam de repente caga na cabeça - literalmente - de todo mundo. Interpreta agora, meu amigo! Reduz tudo à linguagem, meu caro! Transforma tudo em interpretação, gente boa!

Hoje, 02 de abril, ainda que os números sejam todos subnotificados, sem exceção, batemos a casa dos 1.000.000 de infectados testados. É uma infecção hermenêutica! Na verdade, não há quarentena, não há vírus, não há mortes rondando cada porta - tudo é linguagem, e só, um a que contamina, um b que para a respiração, um c que enterra... Tudo é metra construção da mente, tudo é uma coisa que meu cérebro vai criando...

Há algum tempo, a pessoa que eu conhecia que mais dizia e escrevia que tudo é interpretação morreu em uma curva. Talvez tenha pedido ao deus de sua crença, se ainda a tinha, que tudo fosse interpretação e que a curva fosse uma hermenêutica visual. Mas não era. A morte é material, biológica, real, incontestável. Não era interpretação. Não era o cérebro criando. Não era realidade líquida. Era o concreto material na frente. Game over.

Deveremos chegar à casa das centenas de milhares de mortes, na melhor das hipóteses. E eu vou levantar e sair da sala toda vez que, estando eu nela, um idiota qualquer venha falar de realidade hermenêutica.

A realidade, hoje, é escarro, pulmão em falência, e horror. Nada mais real. 






OSVALDO LUIZ RIBEIRO


quarta-feira, 1 de abril de 2020

(2020/047) Deixem-me dizer por que o cristianismo é intrinsecamente mau

Pares de olhos mais arregalados do que os de Aye-Aye se me dirigem quando digo que o cristianismo é intrinsecamente mau. Dos dois lados, à direita e à esquerda, balançam-se as cabeças e grunhem-se as goelas. É uma besta, declaram. E talvez estejam certos.

Entretanto, tenho uma razão para eu dizer o que eu digo. Eventualmente ela é uma razão errada. Mas esse é o problema de todas as razões - eventualmente, podem estar erradas.

A única forma de você julgar é conhecendo a razão dada. No caso de minha declaração quanto a ser intrinsecamente mau o cristianismo, tudo se deve ao fato de que ele se ergueu sobre a plataforma sacerdotal de Jerusalém, e, que eu saiba, aquela é a doutrina religiosa mais pervertida que alguma vez alguma religião já inventou. 

A teologia sacerdotal de Jerusalém, e, até onde eu saiba, a única desse tipo em toda a história, inventou uma narrativa assim: os camponeses judeus e suas senhoras são maus, a divindade vai matar todo mundo, e a única forma de a divindade não matar todo mundo, salvando só os justíssimos funcionários dele, é um judeu e uma judia irem ao templo de Jerusalém com um animal para que o sacerdote sacrifique o animal no lugar do judeu e, assim, a divindade tenha sua sede de "justiça" - faz-me rir! - saciada... até o próximo ano. No ano que vem, de novo a matança santa...

Se não me crê, leia o livro de Hebreus, no Novo Testamento e assista a vídeos sobre a celebração do Kaparot no Youtube. Enjoy yourself!

O que Paulo e outros teólogos fizeram? Fizeram isso, Colocaram cada ser humano no mesmo lugar que o desgraçado do coitado do camponês judeu, e todo ser humano virou um ser que a divindade quer matar e vai matar, porque a teologia é a mesma de Jerusalém, sem tirar nem pôr. Depois disseram que a morte de Jesus era o mesmo que o cordeiro no altar, mas que bastava aquela morte. Pronto: uma teologia da graça com anabolizante, já que Jesus é o cordeiro com suprimentos alimentares: "este é o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo"...

Olhando assim, parece bom: acabou a coisa toda. Mas não é. No alicerce permanece sem nenhuma crítica, nenhuma, absolutamente nenhuma, a declaração de que todo homem e mulher não presta, que a divindade tem sede de sangue ("sem derramamento de sangue não há perdão de pecados", diz o boníssimo apóstolo da graça!) e que só se está vivo porque a divindade deixou. No extremo, ainda aparecem celerados teológicos a inventar que meia dúzia é eleito e meia dúzia vai fritar no óleo quente, essa doutrina celerada feita por celerados para celerados. Já tem severos problemas psicológicos quem admite a base da teologia paulina, e acrescentar a eles toques de elitismo a ela é assinar atestado de insanidade ética!

Quando a pessoa leva o cristianismo para casa, leva a plataforma sacerdotal. Ali, a psicologia profunda da doutrina entranha nos ossos. A pessoa começa a imitar a divindade, a olhar para todos com olhar de acusação e condenação, impede-se de perdoar, porque não há perdão no cristianismo, mas execução do inocente pelos assim declarados pecadores. Cada século do cristianismo real é exatamente a sobreposição incessante da plataforma fundamental do cristianismo, a sacerdotal, sobre a alegada boa notícia da graça. O cristão deve odiar-se enquanto pessoa, e, odiando-se, odeia a tudo e todos - impossível amar ao próximo como a si mesmo, quando a sua doutrina ensina que você é intrinsecamente uma perversão, um acúmulo corporal de nojos e pecados. Não há Evangelho que cure isso, prova-o a história cristã.

Boa notícia teria sido anunciar ao mundo que as teologias de condenação pelo pecado são perversões políticas de um bando de religiosos dementes. Algo como Zaratustra a dizer no ouvido do funâmbulo, que vai morrer, que não tem inferno. Mas não: Paulo e todos os teólogos armaram sua barraca de vender limões sobre a carcaça dos cordeiros mortos, e a graça fede a cadáver até hoje... Graça teria sido libertar os homens da teologia sacerdotal. Antes, enfiaram aquela podridão teológicas na carne do Ocidente inteiro.

Bastaria repetir o que Jesus disse à mulher acusada de ser adúltera: não te condenam os que te acusavam? Nem eu te condeno! Ora, se nem ele condenava, mandemos Paulo ir cagar no mato - e já!






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2020/046) Miserere, essa obra-prima, e o que eu acho do Cristianismo


Miserere é uma das composições mais espetaculares que a humanidade uma vez criou, e essa performance é uma das imbatíveis. Houve dias em que ouvi dezenas de vezes seguidas. Há momentos da execução que são simplesmente estupefacientes, de fazer você parar e se perguntar como alguém pode compor tão bem assim, e alguém pode cantar tão bem assim...

Para mim, isso é o que restou de dois mil anos de cristianismo. Naturalmente que vivo e sobrevivo de cristianismo, já que sou professor de curso de Teologia, e professor especialista em Bíblia e suas ferramentas. Mas a experiência religiosa em si se foi há mais de uma década completamente, e há duas, aos poucos.

Eu entendo que alguém possa gostar de sua idealização do cristianismo. Mas se trata disso - de sua própria idealização. Porque o cristianismo real, histórico, o que realmente se pode chamar concretamente de cristianismo, esse é assassino em todos os sentidos, desde o corpo até as ideias, e ainda hoje, quando insiste estupidamente no mito monoteísta, essa bestificação filosófica incompatível com a Modernidade, a pluralidade cultural e a consciência humana.

Mas eu nem mesmo idealização mantenho. Não vejo esperança alguma na religião, e principalmente na religião monoteísta de modo geral. Em momentos como a de crise de saúde, religião serve para a gente se esconder debaixo da cama ou para tornar mais estúpidas ainda pessoas naturalmente já estupidificadas pelos mitos e pelas batinas e ternos.

Quanto eu sinto alguma saudade, ouço canções como Miserere. Não tanto pela letra, mitológica como tudo na religião, mas pelo efeito místico-estético que a performance me proporciona, conquanto eu saiba absolutamente sempre que são minhas enzimas e células a produzir cada sensação. É como uma vontade enorme de urinar, a bexiga vai explodir, você corre e urina, e é das coisas mais prazerosas da vida. É assim: a bexiga de minha alma, que nada é além da mente, se enche, e eu preciso correr e ouvir a memória do que devia ter sido, do que podia ter sido, mas nunca nem jamais será, porque não tanto sejam maus os homens e a mulheres, que também são, mas porque intrinsecamente má é a plataforma, e sem cura possível...










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2020/045) Estética, política e heurística - o óbvio desprezado


As discussões sobre leitura e interpretação estão totalmente viciadas, para não dizer equivocadas. À direita e à esquerda, a torto e a direito, lançam-se teses sobre leitura, e, no conjunto, considero-as, todas, deficientes. E a razão é porque elas nunca - pelo menos eu nunca identifiquei a questão em todos os textos que li - circunscrevem a tese ao jogo de leitura ao qual a tese seria pertinente. Para os propugnadores de teses, há um jogo de leitura e pronto. Para eles, ler é uma coisa só... E não é. Ler são três coisas diferentes.

Como praticamente ninguém discute ou leva a sério a questão fundamental da pragmática, os discursos sobre teorias de leitura encontram-se viciados. Se você leva a sério a pragmática, sabe que, quando estamos fazendo qualquer coisa, estamos atualizando uma atitude ou uma ação ou estética, ou política, ou heurística. Cada jogo pragmático desse estabelece um universo com regras, objetivos e resultados condicionados e próprios.

Ler esteticamente é uma coisa, que nada tem a ver com ler politicamente, que é outra coisa, que nada tem a ver com ler heuristicamente, que é ainda outra coisa. Não há regras a priori de leitura. As regras devem-se ao jogo. Se o jogo é estético, as regras para leitura são umas. Se o jogo é político, as regras de leitura, então, são outras. Se o jogo é heurístico, as regras de leitura são ainda outras. 

Mas você não lerá livros nem ouvirá teses nem participará de aulas em que o jogo em que a leitura se dá é anteriormente a qualquer outra coisa situado. As regras de leitura são apresentadas como se as regras fossem absolutas e válidas para qualquer tipo de leitura.

Depois que você toma consciência disso, isto é, tanto do fato de que há três jogos de leitura diferentes, que impõem diferentes regras para as atualizações da prática de leitura circunscritas a cada um deles, bem como do fato de que as teses em circulação desconsideram solenemente essa questão fundamental, é absolutamente improdutivo discutir sobre leitura... É mesmo pura perda de tempo.

A única forma lúcida de discutir leitura é, antes de tudo, circunscrever o jogo no qual a leitura se dará - se estética, se política, se heurística. Como esses jogos estabelecem eles mesmos e só eles a regra da leitura, a partir daí faz sentido discutir. Antes, é tolice e perda de tempo.





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 28 de março de 2020

(2020/044) Fui para o seminário teológico por causa da Bíblia


Preste atenção no que eu vou dizer, mas isso apenas se você REALMENTE pode olhar no espelho e dizer, honestamente, para você mesmo: como eu gostaria de compreender a Bíblia!... Mas não precisa prestar atenção no que eu vou dizer nem mesmo ler o que vou escrever se: a) você acha que já conhece a Bíblia, b) quer a Bíblia para afastar os demônios, c) quer a Bíblia para curar dor de barriga, d) quer a Bíblia para saber os segredos da vida eterna, e) quer a Bíblia para saber como Deus quer que as pessoas vivam etc. Só continue a ler se a única coisa que você realmente quer é entender a Bíblia.

Pois bem: se você está lendo a Bíblia, e está se sentindo em casa, escute o que vou lhe dizer: você não está lendo direito. A Bíblia, principalmente o Antigo Testamento, mas, ainda assim, também o Novo Testamento, não tem nada a ver com a sua igreja de hoje, suas doutrinas, sua fé, sua compreensão do mundo, da vida e da morte. Na Bíblia, tudo é diferente em relação ao que você acredita hoje, mesmo que você ache que sua fé é bíblica. Repetindo: se você se sente em casa, não esta lendo de fato, está é enfiando seu mundo na Bíblia.

Eu fui para o seminário teológico em 1987 porque descobri um ou dois anos antes que a Bíblia tinha sido escrita em hebraico. Nesse dia, eu descobri que o que eu lia não era a Bíblia, mas a tradução. Hoje, sei que além de tradução, é uma tradução ruim. Mas na época, só o fato de eu ter descoberto que era tradução já me fez querer aprender hebraico, e no seminário você aprende.

Estudei hebraico, passei a traduzir eu mesmo a Bíblia, tornei-me professor de teologia e Bíblia, também de hebraico, sempre em cursos de teologia, adotei a perspectiva histórico-crítica de leitura da Bíblia e considero poder dizer com segurança que nada do que você aprende na igreja sobre a Bíblia tem algo realmente a ver com a Bíblia. Tem a ver como a sua igreja interpreta a Bíblia, e só pelo fato de a sua igreja ser cristã e a Bíblia, não, a Bíblia é judaica, já devia servir para um bom entendedor saber que qualquer leitura cristã da Bíblia não corresponde à própria Bíblia, mas à fé cristã.

Para quem tem a Bíblia por uma das razões do primeiro parágrafo, não faz diferença nenhuma se a Bíblia é bem traduzida ou não ou se a pessoa entende direito a Bíblia. Ela usa a Bíblia como um amuleto e pronto, então está de boa, vai ser feliz. Mas se você quer mesmo entender aquele livro, esquece o que aprende na igreja e vai estudar seriamente. Você vai descobrir, juro, que a sua fé é mais próxima do Islamismo e do Judaísmo, até da Grécia!, do que da própria Bíblia.

Não vou dizer que mentiram para você, porque quem ensinou a você o que você acha que sabe pode ter sido ensinado assim também, e é o caso de um cego a guiar outro cego. Mas dependendo de quem tenha ensinado a você, você pode ter sido enganado de propósito. Mas isso é irrelevante. O que é relevante é isso: você realmente quer entender a Bíblia? Pare imediatamente de tratá-la como um objeto mágico, trate-a como um texto antigo, vá estudar em algum lugar sério (pelamordedeus, não vá estudar em seminário confessional, que vão enrolar você de novo, e, aí, de propósito) e, finalmente, conheça o livro que você tem por sagrado.

Posso garantir que é a segunda melhor coisa da vida.





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2020/043) As igrejas praticam o método confessional em teologia bíblica?

À primeira vista, as igrejas de modo geral aplicariam o método confessional em teologia bíblica. Quero aqui dizer que essa consideração é equivocada. É correto afirmar que as igrejas são organismos confessionais. Cada igreja tem sua própria confissão doutrinária, e ela se expressa o tempo todo a partir dessa confissão. Logo, toda igreja é confessional, e todo crente é confessional. Mas ser a igreja confessional não significa que ela leia a Bíblia, confessadamente, por meio do método confessional.

Vou explicar o que estou querendo dizer. Tomemos um autor e teólogo confessional - Gerhard Hasel. Ele publicou um excelente livro na década de 70, que foi publicado pela antiga editora batista, JUERP (de tristíssima memória), livrinho chamado Teologia do Antigo Testamento - questões do debate atual. No capítulo dois, descrevem-se cinco métodos de teologia bíblica. O segundo método que Hasel apresenta é o método confessional.

Hasel é um teólogo conservador, confessional. Mas não e típico. Ele não sonega informações da pesquisa crítica. Via de regra, teólogos confessionais portam-se desonestamente no mercado da literatura teológica. Pode-se dizer que grassa a mentira nesse mercado. Mas em Hasel se pode confiar. 

Sua apresentação do método confessional é honesta. Nos termos desse método, a teologia bíblica, isto é, a leitura teológica da Bíblia deve ser feita pelo prisma da fé - isto é, da doutrina. A teologia bíblica é, para esse método, uma ciência teológica cristã e, além disso - mas tudo isso é a mesma coisa, no fim das contas - a leitura da bíblica se deve dar, segundo o método confessional, com base em pressupostos teológicos.

Pois bem. Eu sou um leitor histórico-descritivo da Bíblia, para usar como referência o primeiro método que Hasel apresenta naquele mesmo capítulo. Uma vez que sou um teólogo descritivo em termos de teologia bíblica, não pratico e nem me interesso pelo método confessional, que acho totalmente inútil. Todavia, ele é honesto. O método confessa que não tenta ler a Bíblia em termos históricos. O método confessional - ele confessa - lê a Bíblia teologicamente. E, considerando-se que cada igreja tem sua própria teologia, cada igreja lê a Bíblia de acordo com seus próprios conteúdos teológicos.

O procedimento, a despeito de a meu ver ser inútil, já que você vai na Bíblia encontrar o que já tem antes de ir lá, ou seja, a doutrina que você já confessa, o procedimento é honesto, porque o método confessa que é isso que ele está fazendo. Um teólogo bíblico confessional honesto (mas há tão poucos desse tipo!) não engana a igreja dizendo que a doutrina que ele prega está na Bíblia. Dizer isso é mentir. Ele dirá que a doutrina que a igreja encontra na Bíblia é doutrina da própria igreja, e se a igreja fosse outra, encontraria outra doutrina, porque cada igreja encontra na Bíblia apenas a sua própria doutrina.

Pois bem: nenhuma igreja, exceto a católica, ensina que a sua doutrina é fruto de sua tradição, e que encontrá-la na Bíblia é uma questão de ler a Bíblia por meios teológicos, controlando a leitura pela doutrina. Desconheço casos. Na prática, as igrejas dizem que a confissão que elas encontram na Bíblia, que é a confissão doutrinária dessa mesma igreja, está na Bíblia. Isso é uma deslavada mentira. Na melhor das hipóteses, pura ignorância.

Em cada púlpito, cada igreja, a despeito de pregar doutrinas diferentes, diz que essa doutrina é bíblica, está na Bíblia e é o que a própria Bíblia diz. Por outro lado, o método confessional reconhece que não, que a doutrina confessional controla a leitura da Bíblia e, na prática, coloca a doutrina lá. Logo, para que se pudesse dizer que as igrejas empregam o método confessional na leitura bíblica, as igrejas, primeiro, teriam de parar de mentir. 

Confissão, doutrina, fé - isso é única e exclusivamente resultado da Tradição. A Bíblia não tem nada a ver com isso. Para poder ter, o leitor tem de confessar - se é honesto - que é ele, leitor, é ela, a igreja, quem retroage a sua Tradição até as páginas da Bíblia.

Uma igreja que assim agisse poderia ter meu respeito, porque ninguém pode dizer que uma igreja não tem o direito de projetar sua Tradição nos textos. Ms uma igreja que ou se engana, achando que a sua doutrina está na Bíblia, ou mente deslavadamente, dizendo o mesmo, precisa de urgente tratamento.

Só a Tradição salva a doença ética da igreja.







OSVALDO LUIZ RIBEIRO


(2020/042) Por que escravos se tornaram cristãos

Um dos livros mais poderosos que li foi Em torno a Galileu, de Ortega y Gasset. Simplificando sua tese poderosa: a história recomeça a cada três gerações. Na época em que ele escreveu o seu poderoso livro, isso correspondia, em média, a 45 anos. A tese quer dizer que, a cada três gerações, a história se altera, podendo tomar rumos completamente diferentes do rumo que até então estava em curso.

Isso tem a ver com a influência de avós sobre os netos. Bisavós não têm tanta influência, porque são mais raros. O pacote cultural vai de pai para filho e de avô para neto, e, então, pode simplesmente desaparecer.

Acho que essa tese de Ortega y Gasset explica uma das coisas mais surpreendentes na história americana. Cristãos, miseráveis e desgraçados cristãos, roubaram pessoas negras da África e as escravizaram. Torturaram-nas, estupraram-nas, prenderam-nas, perseguiram-nas, violentaram-nas, feriram-nas, e, acima de tudo, quebraram suas raízes. Ao mesmo tempo em que se faziam os desgraçados que eram, hipócritas como sempre, enfiavam Jesus goela abaixo dos escravos - como odeio a evangelização do mundo!

Quando você olha para os negros estadunidenses e brasileiros hoje, quase todos são religiosos e, sobretudo, cristãos. Tratam o deus que lhes estuprou como se fosse um bom deus. Vão aos seus cultos. Dão dinheiro aos seus agentes. Repetem a evangelização que lhes arrancou a alma do corpo e lhes roeu o corpo negro.

Por quê? Porque não existe memória. Nada mais falso do que falar em memória. Isso não há. O que h[a é uma roda que gira no curso de três gerações. O sofrimento dos negros está fresco no escravo original, em seu filho e em seu neto. Mas o filho de seu neto já começa a viver outro mundo, e a roda gira. A evangelização hipócrita (e toda evangelização é hipócrita) dos cristãos entra na mente do bisneto com muito mais facilidade do que nos ouvidos das primeiras gerações. O verme de Jesus se enfia nas curvas do cérebro da criança preta de quarta geração, e de quinta, e de sexta. 10 gerações depois, o pequeno negro, ainda escravo, ama Jesus. 

Fico pensando nos primeiros negros e no que as gerações de hoje lhes prestam de homenagem. Ei, dizem as gerações de hoje, sabe aquele deus cujos agentes lhes arrancaram as carnes dos ossos? Pois então, agora nós somos os agentes deles, e, em nome dele, fazemos as mesmas coisas. Convencemos o mundo de que fazemos diferente, mas, no fundo, fazemos as mesmas coisas. No fundo, no fundo, o estado cultural da negritude evangelizada é o resultado preciso, e de longo prazo, da verdadeira escravidão. Seus pais tiveram seus corpos em correntes amarrados. Seus filhos têm as almas... 

Depois de três gerações, o carrasco dos pais se torna o salvador dos bisnetos.





OSVALDO LUI RIBEIRO

(2020/041) Ler é igual a ouvir - você sabe ouvir?

Leia esse diálogo:


_ Pai, posso pegar a bicicleta?
_ Filho, já falei que sou eu que vou à padaria.


Qual é a relação entre as duas partes do diálogo? O que tem a ver o filho pedir para pegar a bicicleta e o pai falar a ele que é ele, o pai, que vai à padaria?

Entender a relação entre essas duas partes do diálogo é uma questão de saber que ler é uma questão de saber ouvir. Se você ler em voz alta e tentar pronunciar o tom de voz que o diálogo sugere, fica bem mais fácil entender.

A primeira parte é um pedido. Leia em voz alta como se você mesmo fizesse o pedido. Já a segunda parte é a resposta obviamente negativa ao pedido, de sorte que, ao ler também em voz alta, procure emular o tom.

Se fez o exercício, conseguiu entender a relação? A resposta não se dá no mesmo nível do pedido. Se a resposta fosse no nível do pedido, o pai teria dito:

- Filho, você não pode pegar a bicicleta.

Mas o que ele disse foi que ele, o pai, é quem iria à padaria, como se o filho tivesse pedido isso. Veja:

- Pai, posso ir à padaria?
_ Filho, já lhe disse que eu é que vou à padaria.

Será se o pai entendeu errado o filho? Não. O que ocorre é que no diálogo, o filho apenas faz um pedido, mas sem dizer para que ele queria o que estava pedindo. Por sua vez, o pai percebe a verdadeira intenção do pedido, e responde não ao pedido aparente, mas à intenção do pedido. Veja:

 _ Pai, posso pegar a bicicleta, (para eu ir à padaria)?
_ Filho, (você não pode pegar a bicicleta para ir à padaria, porque) já falei que sou eu que vou à padaria.

Na resposta, está implícito que o pai não autorizou o filho a pegar a bicicleta, mas ele passou sua resposta para outro nível: o nível da razão do pedido, da intenção do pedido. Uma vez que o pai disse que quem vai na padaria é o próprio pai, e não o filho, então está implícito que o que realmente o filho queria era ir à padaria. Mas então porque ele pediu a bicicleta? Ora, porque ele queria a bicicleta para ir à padaria.

Esse tipo di diálogo ocorre muitas vezes no nosso dia a dia. É preciso ler textos tendo sempre isso em mente.

Agora, interprete esse trecho de Êxodo 33,18b-19a:

- Mostra-me por favor a tua glória.
- Eu é que farei passar a minha bondade diante de ti.

Se conseguiu interpretar bem a frase anterior, conseguirá interpretar essa.  Se desejar, diga-me o que entendeu nos comentários que eu respondo.








OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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