quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

(2009/656) Até na França, Presidente?!








Lula, l'homme de l'année 2009




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

(2009/655) Quando Marta engole os não-fundacionalistas


1. Nao, senhores! Não existe o "real", não... A realidade é, nas contas da lousa, uma quimera da cabeça de qualquer um. Você pensa, e o resultao do pensamento - disse "do pensamento"? - não, não, nem do pensamento, das "negociações" intersubjetivas, interpessoais, as convensões, ai, ai, são elas, e não o real, que emerge... Para uma "realidade" assim, apenas, mesmo, uma epistemologia sem fundamento, não-fundacional, uma "verdade" não-verdadeira, meio-verdadeira, semi-verdadeira (tudo isso, senhores, resquícios mal digeridos do jantar teológico-metafísico de dois mil e quinhentos anos, vício de um pensamento preso ao passado - eles acreditam que só há verdade divina, e, como não há verdade divina, logo, não há verdade alguma... A Teologia pôs ovo na cabeça deles, e eles acham que não chocou!). Quem acredita no "real", senhores, é tolo, "fundamentalista", "positivista", imperialista! Porque o real, senhores, é mingau de nada...

2. Aí, vem a Marta, senhores... E o que vocês vão dizer? Que ela pensa, combina, negocia, e a bola se faz? Ou, senhores, que ela, Marta, como poucas, como poucos, domina essa esfera real, esse pedaço de verdade, e faz com ela o que quer?, como a vida, com a gente...



3. Taí, em cursos de epistemologia, esse vídeo devia ser obrigatório...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/654) Os magos coroados...


1. Nosso amigo Daniel Justi está a atracar-se com uma dissertação de mestrado a respeito de "magia" no Novo Testamento, e foi lá em Gálatas, pegar um verbo que gravita em torno do "olho mau". Bem, o Natal é uma época em que testemunhamos a "magia" sendo jogada para debaixo do tapete, quer dizer, literalmente, para debaixo da... coroa...

2. Que não eram "reis" já estamos carecas de saber. Eram "magos". Diz a narrativa - única - de Mateus que vieram do Oriente. Eram, aposte-se, "magis". Um "magi" era um sacerdote persa/babilônico, astrólogo, vidente etc. Não eram, absolutamente, reis...

3. O que eu gostararia de saber, e, aqui, apenas registro a curiosidade é: conta-se que a tradição de que eram "reis" teria surgido tão cedo qanto o século III (mais um pouquinho e caímos em Nicéia, no IV). Minha pergunta:

a) os magos foram transformados em reis, para afastar qualquer relação entre cristianismo e magia?, ou

b) os magos foram transformados em reis, para criar uma atmosfera de submissão traditiva do Imperador romano a "Deus", leia-se, a Roma?

4. Entre a narrativa de Mateus, a pôr magos - zoroastrianos? - vindos das longínquas terras iraquianas/iranianas, quer dizer, babilônicas, quer dizer, persas, e os "reis" impostores/embusteiros da tradição há uma intencionalidade escondida. Qual terá sido? Por que, afinal, transformaram-se magos em reis?

5. Seja como for, é divertido, para não dizer lastimável, ver (quase) um povo inteiro que se diz bíblico apresentar cantatas natalinas com... reis magos... Estamos mal de leitura, não?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 20 de dezembro de 2009

(2009/653) "Ser grato a Deus" - tá, agora: traduz


1. Ontem, ouvimos muito, mas muito mesmo, sobre ser grato a Deus: por meio de uma canção especial, por meio de uma canção de fundo, por meio de pronunciamentos formais e "informais". Havia, decerto, uma urgência em se reconhecer a necessidade de ser grato a Deus.

2. Muito bom. Mas - cá entre nós: na prática, o que é que isso significa?

3. Na boca do sacerdote, significa... submeter-se. À hierarquia, primordialmente, e, nisso, às doutrinas, às disciplinas, às práticas. Na boca do missionário, significa sustentá-lo, porque urgente é a missão. Na boca do professor, significa estudar, significa dedicar-se, render boas notas, estar presente. Na boca do profeta, significa a prática da justiça - bem, ao menos se esse é um dos profetas clássicos, do estilo "Amós", porque, quanto aos profetas de hoje, melhor deixar pra lá. Na boca do cantor gospel, ser grato a Deus significa alguma coisa entre comprar o CD e ir ao show, quando não as duas...

4. Se você ouve um pastor midiático da TV brasileira (finalmente um Evangelho à altura das programações culturais!), logo há de compreender que ser grato a Deus significa pagar o carnê, ir ao Templo Maior, ofertar, dar, doar, contribuir, "devolver" (ah, o argumento da jugular...).

5. Ou seja, trata-se de um jargão, uma expressão sem conteúdo próprio, uma caixinha, onde cada um põe dentro o que quer. Esse, põe dinheiro, aquele, caridade, aquele, presença no show gospel do sábado, aquele outro, seu próprio interesse. E assim vai.

6. Definitivamente, essas frases de efeito, ainda que sejam pronunciadas entre - literalmente - soluços de choro midiático, ao microfone, não me entusiasmam mais. São vazias. Ocas. Às vezes, são até sinceras. Outras, hipócritas. Outras, de má fé. Mas nada disso importa: a frase, em si, não significa nada...

7. Eu prefiro dar a ela um sentido "meu", que, de qualquer modo, não é tão meu assim, ainda que bíblico. Trata-se do sentido de viver como os pais querem que os filhos vivam - saudáveis e felizes. Pai, o que queres para mim? Que, primeiro, filho, tenhas saúde e que, então, sejas feliz. Tá, pai, mas o que queres que eu faça? Não, não, meu filho: não é o que eu quero que faças - é o que você quer fazer. Faça isso, e seja feliz. Farás, assim, teu pai - e tua mãe! - felizes...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/652) Da comunicação


1. Um bom vídeo sobre "comunicação", que, programaticamente, espelha-se no formato de Ilha das Flores. Achei a indicação no Cloaca News, que, confessa, "catou" o vídeo no Viva Babel.



Intervozes - Levante sua voz - de Pedro Ekman (Vimeo).



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/651) (Meu) discurso ontem


1. Ontem foi a Formatura da turma de Teologia 2009 do Campus Avançado Nova Iguaçu do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, campus que existe há mais de 25 - vinte e cinco! - anos, primeiro na PIB de Mesquita e, desde 86, 87, e até agora, na PIB de Nova Iguaçu. Estudei lá de 87 a 2002, e lá leciono desde 93. Tive a honra de ser escolhido Paraninfo.

2. Um dos colegas professores presentes, quando confraternizávamos, pediu-me que escrevesse o discurso. Cá vai ele, alinhavado e simplificado.

3. Propus que a "mediação" - do lado "evangélico" - da crise da Teologia, crise essa em face de seu ingresso no MEC, decorrente, então, das exigências epistemológicas por isso impostas à congregação dos teólogos (e das teólogas), fosse resolvida por meio da Pragmática.

4. Toda ação intencional humana, isto é, não fisiológica, logo, dotada de sentido, enquadra-se num de três universos pragmáticos: sentir, querer, saber, ou, dito de outro modo, estética, política, heurística. Disso se pode ler em Aristóteles, Kant, Nietzsche, Peirce, Morin...

5. Faço, pois, pôr cada aspecto da crise teológica em seu adequado nicho pragmático e, assim, revelar o quanto é falsa a crise, no sentido de que ela se instala por força de uma absoluta incompreensão do jogo, das regras do jogo e, naturalmente, das intenções não suficientemente explícitas dos jogadores.

6. Tomo três aspectos relevantes da "Teologia" (a velha) - a espiritualidade, a pastoral e ela própria, o resíduo teológico em si.

7. A espiritualidade é estética. Logo, é subjetiva, pessoal. Não pode ser julgada, avaliada. Cada qual manifesta sua espiritualidade de acordo com sua própria constituição e inserção cultutal/social. Não há f(ô)mas, conquanto se queiram fabricar espiritualidades, à quisa do modelo fordista de automóveis. Cada pessoa é livre - deve ser - para expressar-se espiritualmente, em conformidade - apenas - com sua sensibilidade. Porque a espiritualidade é o encontro do sujeito consigo mesmo, encontro esse tornado posível por meio de um "mediador" externo - um objeto, um cenário, um lugar, uma idéia... No MEC, Teologia não é espiritualidade. Não é estética...

8. A pastoral é política. Isso quer dizer que ela é a relação de pessoas com pessoas. Pastoral é cuidado com pessoas. A pastoral não é pregação, não é administração de empresa, não é catequese, não é ensino. Pastoral é "cuidado". A pastoral é o universo dos e das curas d'alma. Não é um serviço a Deus - é um serviço aos homens e às mulheres. Não é um serviço à religião - é um serviço a pessoas concretas. Não é um serviço à fé - é um serviço àquele e àquela necessitados, aqui e agora. Deus, a religião, a fé, podem tornar-se estorvos à pastoral. O espetáculo fatalmente torna a pastoral um embuste, uma farsa, uma falácia (um crime?). Não há pastoral de cinco mil... Nem no MEC...

9. À Teologia, pois, resta o campo da heurística - da pesquisa, da crítica, da investigação - e pesquisa do mundo, do real. A Teologia, não sendo nem espiritualidade nem pastoral, assume-se enquanto "ciência humana" (em formação, em crise de formulação, em fase de discussão de seu estatuto epistemológico). A pesquisa não há de confrontar-se com a espiritualidade, porque se trata de pragmáticas distintas - uma, a do fruir e experimentar, e, outra, a do saber. Também não se confrontará com a pastoral - e pela mesma razão. Conquanto, certamente, há de tornar mais lúcidas ambas: uma espiritualidade ignorante é tão perigosa quanto uma pastoral ignorante, conquanto também possam ser absolutamente inofensivas.

10. Em termos simples é isso. Naturalmente que a discussão não termina aí. Fica a pergunta: e onde pôr "as verdades dos dogmas"? Bem, a rigor, hoje, elas estão inseridas na pragmática política: declarações de fé são catequeticamente impostas às (sub)consciências humanas, tarjadas de "verdades inquestionáveis", quando, todos sabemos, trata-se de formulações históricas, datáveis, com paternidade sabida, fruto de especulações aqui, erros crassos de exegese, ali, má fé, acolá. Dogma é, nada mais, nada menos, do que política em estado poluído.

11. Um alerta, queridos e queridas. Quando tentarmos nos acomodar a esse discurso, quando considerarmos que é fácil pegar a palavra "dogma" e aplicá-la aos outros, mas não a nós, porque nós, ah, nós, somos sempre "bons", mas os outros, ah, os outros, são sempre "eles", tenhamos a coragem de reconhecer que, se tiramos os dogmas, as doutrinas, as catequeses, cai tudo - até nosso querido "Jesus", a rigor, dogma nicênico, porque o real, o histórico...

12. Se, ainda assim, quero manter esses discursos, essas prédicas, essas maneiras, posso? Posso, claro, mas no campo da estética. Quão mais profunda a espiritualidade, tanto mais manufaturada a idéia do divino, nascida em Nicéia, mas residindo, agora, em meu ventre. Se eu reconheceço isso, está tudo bem, porque não vou me pronunciar como se o mundo tivesse relação com minha percepção estética. Se eu tenho consciência da condição estética de minha fé, meu "Jesus" jamais será imposto - sequer pregado! - a ninguém. Viverá, como os serafins, voejando sobre minha cabeça - mas eu saberei disso! É, por assim dizer, um amigo "meu", mas um amigo "imaginário". Se, contudo, ainda o quero ver na face de todos, na boca de todos, de joelhos, é porque, afinal, a política ainda me carrega pelos cabelos...

13. Portanto, amigos, cuidado. Quando cuidamos pôr os outos no redil, é a nós mesmos que condenamos. Não esperem de mim discursos de fácil acomodação. Não há, senão na estética, lugar para brincarmos de cristianismo. A salvação política do cristianiso é a pastoral humana/humanitária. E a salvação da Teologia é a sua morte para ontem, e ressurreição para uma nova existência.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/650) Dá-lhe, senhor presidente!


1. Mais uma para Lula. Dessa vez, da França.




2. Bem, sendo assim, aí vai o vídeo do discurso improvisado de Lula no encerramento de Copenhague.








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 19 de dezembro de 2009

(2009/649) É tudo pose!


1. Porque são "Primeiro Mundo", acabamos achando que são "exemplo de civilidade". Em alguns aspectos, é verdade. O que, contudo, não faz do "Primeiro Mundo" um convento. Desde a Europa, tivemos as Cruzadas, a "colonização" das Américas, as neo-colonizações dos séculos XIX e XX, as duas Grandes Guerras, o espulho de bens de todos os continentes, o Nazismo, o Fascismo, o Comunismo... E, agora, a denúncia de que milhares de crianças "pobres" do Reino Unido teriam sido expatriadas durante décadas, para as "colônias" do Canadá e da Austrália, durante o que ocorreram inúmeros casos de abuso - escravidão, violência física, violência psicológica, violência sexual.

2. O Reino Unido prepara-se para um "pedido de desculpas"...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

(2009/648) Cenas em torno de uma conversa com meu amigo Élcio Sant'anna


1. Cena um. No encontro "carioca/fluminense" da ABIB, meu amigo Élcio Sant'anna me fez uma pergunta: por que coloco no mesmo "cesto" exegese e Edgar Morin? Naturalmente que a pergunta tem seus pressupostos, quero dizer, há, aí, implícita, uma "idéia" a respeito de Morin. Não vêm ao caso. Élcio mos apresentou e, assim, pude desfazer o equívoco. Foi uma boa conversa, não, Élcio?

2. Cena dois. 2009/2 é o semestre de Hermenêutica, na Faculdade Batista (FABAT). No primeiro, "dou" Epistemologia e, no segundo, Hermenêutica (ninguém passa incólume por essas sessões... não assim, seguidas, nesse pacote, com seus "convidados"). Paramos um bom tempo sobre o "primeiro" Heidegger, aquele que teria dissolvido o Ser - o Ser de Parmênides, logo, da Grécia filosófica, logo, do Cristianismo greco-judaico-romano. Heidegger acorda, o Ser está ali - no meio de sua vida, puf!, ele, com um gesto mágico, faz desaparecer a ilusão eidética...

3. Cena três. Agora há pouco, relia - sempre, sempre releio Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos. Em Nietzsche, transito entre momentos de grande aborrecimento (quando o aristocrático anti-democrático fala) e momentos de grande euforia (quando o iconoclasta fala). Há um parágrafo na seção "A Razão na Filosofia" - irônico até os ossos -, onde, com um só gesto, Nietzesche: destrói o Ser, antecipa Heidegger, recupera Heráclito e, assim, desse jeito, antecipa, em cem anos, Edgar Morin. É um parágrafo onde corpo e história se (re-)encontram - o que, mais uma vez, me faz pressentir que não se lê Nietzsche, apenas se repetem citações de citações de citações, intermináveis romarias de citados...

4. Eis, na íntegra, que parágrafo!


Os senhores me perguntam o que são todas as idiossincrasias dos filósofos?... Por exemplo, sua falta de sentido histórico, seu ódio contra a representação mesma do vir-a-ser, seu egipcismo. Eles acreditam que desistoricizar uma coisa, torná-la sub specie aeterni, construir a partir dela uma múmia, é uma forma de honrá-la. Tudo o que os filósofos tiveram nas mãos nos últimos milênios foram múmias conceituais; nada de efetivamente vital veio de suas mãos. Eles matam, eles empalham, quando adoram, esses senhores idólatras de conceitos. Eles trazem um risco de vida para todos, quando adoram. A morte, a mudança, a idade, do mesmo modo que a geração e o crescimento são para eles objeções - e até refutações. O que é não vem-a-ser; o que vem-a-ser não é... Agora, eles acreditam todos, mesmos com desespero, no Ser. No entanto, visto que não conseguem se apoderar deste, eles buscam os fundamntos pelos quais ele se lhes oculta. "É preciso que uma aparência, que um 'engano' aí se imiscua, para que não venhamos a perceber o ser: onde está aquele que nos engana?". "Nós o temos, eles gritam venturosamente, o que nos engana é a sensibilidade! Esses sentidos, que por outro lado são mesmo totalmente imorais, nos enganam quanto ao mundo verdadeiro. Moral: conseguir embaraçar-se do engano dos sentidos, do vir-a-ser, da história, da mentira. História não é outra coisa senão crença nos sentidos, crença na mentira. Moral: dizer não a tudo o que nos faz crer nos sentidos, a todo o resto da humanidade. Tudo isso é o "povo". Ser filósofo, ser múmia, apresentar o monotonoteísmo através de uma mímica de coveiros! - E antes de tudo para fora com o corpo, esta idée fixe dos sentidos digna de compadecimento! Este corpo acometido por todas as falhas da lógica, refutado, até mesmo impossível, apesar de ser suficientemente impertinente para se portar como se fosse efetivo!".

Eu coloco de lado, com elevado respeito, o nome de Heráclito (...).
5. Não é por outra razão que Morin - também - ressuscita Heráclito, o "pensador" do vir-a-ser. De modo que temos, aí, uma ponte: Heráclito - Nietzsche - Heidegger (o primeiro!, uma vez que o segundo é seu próprio assassino) - Morin. Se levarmos a sério Morin - e eu o levo! - deveríamos, ainda, pôr Marx, ali, entre Heráclito e Nietzsche.

6. Veja, Élcio, num mesmo parágrafo - a "singularidade", a História, o vir-a-ser, o corpo, os sentidos, a sensibilidade... Isso, Élcio, é ou não é, exegese? Oh, meu amigo, há ainda muita coisa em Morin que me faz ligá-lo - reconhecer a ligação! - à exegese (que eu pratico, bem sabido!): ele trata textos como "hologramas" situados...

7. Agora, deixando de falar diretamente a Élcio, falo aos re-introdutores do Ser, disfarçados em pós-modernidade a-crítica. Nietzsche chamou seu trabalho de "monotonoteísmo". E com razão! Há um ranço de "teo-cristianismo" na insistência de desestoricizar tudo, de acabar com a História, de dissolver a crítica. É a criançada "emancipada" repetindo os erros dos pais (quando não são seus crimes programáticos!)... É a vingança de Platão, tentando pisar a cabeça de Heráclito. É porque eu assim reconheço a fala não-exegética, sistemática, não histórica, eidética, não telúrica, ctônica, celeste, metafísica, "metafórica!", que meu corpo sente-se desconfortável, a cara traz esgares indisfarçáveis e a bílis projeta-se à boca... É somática a percepção de que constrói-se, a todo instante, um movimento de retorno àquilo.

8. Uma estratégia é fazer Nietzsche dizer o que nunca disse. Fazer dele um anti-histórico, anti-exegético, anti-medotológico... Levar Jesus de Nazaré para o Templo de Jerusalém! Há um problema aí, senhores - Jesus não escreveu nada, e se pode fazer dele o que se quiser, como bem o ensinam os Evangelhos. Nietzsche, contudo, escreveu - e ele bem sabia que, acima de tudo, para ser bom teólogo é mister a má filologia...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/647) História dos efeitos no pop rock


1. Losing my Religion é uma música extraordinária. O vídeo nem se fala. Não vou comentar muito, porque, ao final, remeto o leitor a um texto muito esclarecedor. Preste-se atenção à letra, observe-se o vídeo do Gregorian, grupo que regrava, em estilo gregoriano, clássicos do pop rock. Certamente, uma "idéia" a respeito da música/letra há de se formar, acentuada pela tradução literal de "losing my religion"... É como o Sl 53, que começa assim: "diz o insensato em seu coração - não há Deus", e, contudo, nada, absolutamente nada, tem de ateísmo...

2. Primeiro, os dois vídeos, começando pelo R.E.M., uma de minhas músicas prediletas. Depois, o Gregorian.






3. Agora, depois do prazer de ouvir as duas versões, atente-se para o seguinte comentário, recolhiodo junto ao blog Pensão Estrelinha:


Este vídeo sempre me fascinou desde o 1.º momento em que o vi, teria eu cerca de 13 ou 14 anos. A música faz parte do álbum Out of Time, de 1991, e durante muito tempo pensei que fosse uma espécie de confissão pública de Michael Stipe, um icréu, atormentado pela perda de fé. Nada disso! Afinal, como ele próprio disse, a expressão “losing my religion” é muito usada no Sul dos Estados Unidos e que significa “perder a cabeça”, “perder o juízo”. Stipe diz que se trata de uma música sobre alguém que deseja outra pessoa, mas não é correspondido. Nessa medida, trata-se de uma música sobre uma obsessão, daí que ele próprio a tenha comparado a “Every Breath You Take” dos The Police. E lendo bem a letra, não há muitas dúvidas!O vídeo é, para mim, extraordinário! Foi realizado por Tarsem Singh (sim, o mesmo do indescritível filme The Fall) cuja ideia era fazer algo com um estilo semelhante ao dos filmes indianos, com uma atmosfera um pouco melodramática e onírica. O vídeo está povoado de imagética religiosa, destacando-se a figura da São Sebastião e de várias divindades hindus. O conceito do qual partiu o vídeo é baseado no conto de Gabriel Garcia Marquez, Um Senhor Muito Velho Com Umas Asas Enormes, que narra a história de um anjo caído dos Céus e que é explorado pelos Homens que o exibem por dinheiro. Tarsem inspirou-se também nos quadros de Caravaggio, no que toca aos contrastes de luminosidade que vemos no vídeo, e na arte soviética. Ainda hoje, fico impressionada ao vê-lo. E, devo dizer, em jeito de confissão, que no início da minha adolescência achava a dança descoordenadamente coordenada de Michael Stipe extremamente atractiva. (Enfim, era uma miúda, mas já na altura me deslumbrava mais pelas características artísticas e criativas do sexo oposto, do que pelas características “abdominais” e “bicepais”!). O vídeo foi nomeado para 9 categorias nos MTV Video Music Awards em 1991 e ganhou 6 (Video of the Year, Best Group Video, Breakthrough Video, Best Art Direction, Best Direction, and Best Editing).

4. Viu? A letra, em si, nada tem a ver com "perder a fé"... Trata-se outra coia, de outra expressão. Esse é um bom flagrante de "história dos efeitos": na maioria das vezes, dos "defeitos". Assim, se você quer fazer de Losing my Religion uma música contra-religiosa, vai em frente. Não fizeram do Antigo Testamento um livro cristão? Não quero crer que Deus esteja esquentando a cabeça...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

(2009/646) Para relaxar...


1. Walk on by, com Diana Krall ("via" site do Nassif).







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/645) Florbela é prova de que Cantares bem pode ter autoria de mulher!


1. Não? É porque nunca leste Toledo...



Toledo
Florbela Espanca



2. Pois? Cá, não me restam mais pétalas em mim... Mais qual? O assunto não era outro? Que poderes têm teus versos, Espanca! Bruxa querida...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/644) Deixai-me, pois, fingir!


1. Disse-o, do alto de sua cátedra, o poeta:


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente


2. Deveras... E também não apenas os poetas, mas as almas sensíveis, eu o diria, forjando aí uma distinção - se é que há. Porque, deixai-me explicar, tenho que ouvir o Mendes e sentir a dor fingida, porque, depois de Bel, é impossível sentir essas dores, malgrado elas arranhem cá o coração. Coisas do Pessoa. Deveras...

3. Primeira dor que finjo doer - tão dolorida que de fato dói a dor fingida: ela deveria ser ouvida, depois ou antes de se ler Eu, de Florbela Espanca...




4. Essa me força a imaginar o inimaginável...




5. Ah, esses poetas. Ajudam-nos a fingir de dor a dor que de fato existe. O poeta é alguém a que lhe faltou uma Bel...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/643) Sinto-me velho, aos [quase] 44


1. Pensei que o sentimento de envelhecimento chegasse depois dos sessenta... No meu caso, veio mais cedo. Aos quase (faltam cinco dias) 44 anos, veo-me em plena sensação de estar velho.

2. Estou velho para o jogo atual.

3. No mundo evangélico, estou velho, poque não consigo encenar as pantomimas de palavras de ordem, os gestos extáticos da "espiritualidade" ascendente, os cânticos novos, de velhas guerras, as atitudes bovinas. Com o "deus" da oda, não dá, e com o anacrônico "diabo", pior ainda. Não, não posso. Que saudade das catedrais vazias... Mas, ai, agora, estão cheias de gente...

4. Estou velho para o mundo de modo geral, porque os dias são dos canalhas, os dias e a s noites!, cada vez mais. Não há mais espaço para a simplicidade. Ou você é sofisticado, ou está fora. Estou fora. Estou velho.

5. E, no entanto, a vida precisa continuar. Cada vez mais, refugio-me em meu lar. Sair de casa, enfrentar a vida, é, cada vez mais, um transtorno, um esforço sobre-humano, uma odisséia da vida privada...

6. Onde foi, Deus, que erramos o caminho? Eram meus olhos de criança que não me deixavam ver, então, que a vida sempre foi isso?, ou, de fato, destruímos, pouco a pouco, o bem viver? Sinto que, em vinte anos, destruímos, sem piedade, um modo antigo de estar vivo. Onde estás, esperança?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/642) Quem disse que a blogosfera só sabe falar mal do Serra?


1. Aí está a cabalíssima prova de que a blogosfera sabe, sim, ressaltar os pontos positivos do "Zé Pedágio" ou "Zé Alagão".



2. Provado está.
OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

(2009/641) Não gosto (tanto/mais) de Natal


1. Gostava, sim, quando era criança. Tenho algumas poucas, mas boas, lembranças da infância e do Natal. Pobres que éramos, bastante, não tínhamos árvore de Natal. Não criei, pois, o hábito. Brinquedos, muito poucos, e muito simples, todos.

2. O mais festejado, de dois especiais, é um em que chovia a cântaros em Mesquita. A Av. São Paulo virou - literalmente - um rio. Carros houvesse na rua, à epoca, seriam arrastados. A casa de vovó era alta. Lá de cima, da varanda da frente, assistáamos ao rio passar, arrastando o mundo, de troncos a sofás, uma senhora enxurrada...

3. Na TV, passava o anunciadíssimo desenho animado - O Natal da Mônica. Cantarolo a musiquinha até hoje - "pra Mõnica um coelhinho...". Um sentimento nostálgico me leva àquela sala, àquela tarde com chuva e sol, enxurrada e trovoada, tudo junto...

4. Hoje, não experimento magia. Sei que tudo que ocorre, ou eu ponho na mesa, ou não virá. Quando criança, você não faz nada, só espera, e, esperando, vem, nem que seja um carrinho de plástico. Hoje, você tem que trabalhar duro, e até vem, mas sem a magia...

5. Trocaria meu mundo pela magia daquela época... A única coisa que me prende aqui, agora, nesse meu mundo de gente grande, é Bel: é a única coisa que faz valer a pena ter perdido a inocência.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

(2009/640) Dido - porque somos estúpidos, não somos?










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

(2009/639) De Gadamer/Vattimo ao conflito "muçulmano" europeu

1. Perguntava-me, e ao Jimmy, dias desses: qual teria sido a razão histórico-política para que Gadamer, primeiro, e Vattimo, depois, estabelecessem uma plataforma operacional sobre a qual se podia afirmar, quanto à cultura, aquilo que flamenguistas sabem desde o berço: uma vez Flamengo, sempre Flamengo... Dizendo-o de outro modo: uma vez europeu, uma vez cristão, sempre europeu, sempre cristão (Vattimo escreveu - ser ocidental é ser cristão)... O que estaria "por trás" disso?

2. A rigor, um processo parecido começara com o segundo Heidegger, quando, depois de ter chegado ao máximo a que o pensamento emancipado/iconoclasta havia chegado - não há modelos de espécie alguma para a espécie humana, nem há fundamentos, quaisquer que sejam, salvo a condição "aberta" da espécie -, dá uma guinada de 180º em direção a um "calvinismo" secularizado, fazendo o homem ser sobredeterminado pela Linguagem.

3. À tese "psicológica" da Linguagem, em Heidegger, segue-se a (mesma) tese, mas, agora, histórico-cultural, de Gadamer - Tradição -, que Vattimo torna mais clara: Cultura. Depois de um período de "hegemonia" do sujeito sobre o meio - Schleiermacher, Dilthey e "o primeiro" Heidegger, segue-se uma reação "conservadora" - a Linguagem, a Tradição, a Cultura são, a rigor, o Ser... Platão redivivo, mas com as asas cortadas...

4. Heidegger, eu desconfio, trabalhou para tornar sua filosofia útil ao contexto alemão da década de 40/50. Gadamer produz sua filosofia em meio à Guerra Fria, aos movimentos estudantis europeus da década de 60. Vattimo, está de cara com o "problema" muçulmano.

5. Penso que Heidegger, Gadamer e Vattimo estão "na defensiva", sentindo a pressão sobre a Europa - nesse sentido, constituem plataformas de "combate". Essa pressão, com Vattimo, é ainda maior, porque os "colonizados" europeus, agora majoritariamente muçulmanos - não deviam ter-se tornado cristãos? - invadem acintosamente a "capital" do sistema colonial... Os muçulmanos das colônias européias são o equivalente nordestino em êxodo para o Sudeste (a reação da elite paulistana em face desse contingente populacional não lembra a reação européia às invasões muçulmanas...?).

6. Há uma hipótese aí, que precisa, claro, ser testada. Sugiro, a fortiori, a leitura do texto que extraio do site do Nassif, que trata justamente do conflito muçulmano na Europa, que, na Suiça, acaba de proibir a construção de minaretes... Gostamos de invadir a terra alheia e meter lá catedrais. Na hora oposta, fazemos leis. Eis, meus amigos, a hipocrisia cristã, a origem da prática capitalista da "reserva de mercado". Mas é claro que aí vão questões para muito além de cristãos versus muçulmanos. Há, aí, questões bem mais político-econômicas.

7. A Eurpoa é, hoje, um barril de pólvora...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/638) A CBB e o Acordo Brasil-Vaticano


1. A CBB - Convenção Batista Brasileira - acaba de "publicar" seu Manifesto Oficial a respeito do Acordo Brasil-Vaticano. Não me manifestei, ainda, a respeito do Acordo, e não vou me manifestar, ainda, a respeito do Manifesto da CBB. Mas conviria a sua divulgação.


2. Penso, contudo, que o título deveria ser "Manifesto da CBB alusivo ao acordo Brasil-Vaticano". A rigor, e para todos os fins, não são os "batistas brasileiros" manifestando-se. Trata-se de manifestação, ainda que oficial, da CBB. E devida.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 12 de dezembro de 2009

(2009/637) O nó górdio da Teologia


1. Minha intenção "era" escrever um post simples - acho que meus posts são complicados demais para a maioria das pessoas - eu escrevo pressupondo que meus leitores sabem do que estou falando... Assim, "ia" escrever algo bem simples - mas, já no título, meti lá o "nó górdio"... Estraguei tudo, né?

2. Trocando em miúdos - por que, no Brasil, desde o final da década de 90, a Teologia entrou numa sinuca de bico, numa camisa de sete varas, em palpos de aranha, numa furada? Por que a Teologia está - definitivamente - acuada, contra a parede, tonta, quase em coma?

3. Explico. Na prática, a Teologia tem-se dito "estudo de Deus". Nas salas de aula mais sérias, corrige-se. Mas essa correção é apenas "para inglês ver". Na hora hagá, nos púlpitos, nas capelas, nos artigos - Teologia volta a ser o que sempre foi, desde a Grécia platônica: estudo de Deus...

4. E lá se ia a venerabilis ordo theologorum - ai, de novo! - desfilando sua "ciência de Deus", de cátedra em cátedra, de púlpito em púlpito, de livro em livro... A CAPES fez que não via. Como igrejas na República, a Teologia, na CAPES...

5. Aí, deu prurido... Já que estava na Pós-graduação há tantos anos, por que não também na Graduação? Pronto... um passo maior do que a perna, uma mordida maior do que a boca, um olho maior do que a cara.

6. É que, na Graduação, a Teologia deixa de ser "cristã". Na prática, até pode "continuar a sê-lo", porque ainda não se tratou seriamente da questão. Mas, se cristã é essa aqui, aquela ali é umbandista (SP), aquela outra, messiânica (SP), e aquela mais ali é kardecista (PR). Ou seja, Teologia, agora, é coisa "multi-religiosa" (que horror!).

7. Bem, não dá mais - só por teimosia e indiferença (o cristão ou é conquistador ou indiferente - é Narciso por excelência!) - pra dizer, agora, que Teologia é "o estudo de Deus". "Deus" é uma palavra para referir-se ao modo como o(s) cristianismos pensam seu Deus (ainda que eles achem que é o de todos, é, na verdade, o deles - e só). Umbandistas têm compreensões - fés - diferentes. Kardecistas, idem. Messiânicos, nem se fala... Logo, não é mais possível dizer que Teologia é o estudo de Deus...

8. Bem, teólogos cristãos ainda vão repetir isso por anos a fio, como repetem de Adão e Eva. Ainda há quem diga que Teologia é para quem tem fé cristã! Contudo, os teólogos sérios - ao menos os atentos! -, esses hão de refletir a partir da situação em que a Teologia está - plural e em processo acadêmico. O resultado é imprevisível.

9. Pode ser que uma canetada acabe tudo. Chauí o quer(ia?). Muitos "crentes" o querem. Se a Teologia sai do MEC, a "academia" fica feliz, os evangélicos, alguns, saltam rojões, e, coitada, a Telogia, volta a ser mito... Lástima... Volta a "estudar Deus"...

10. Vamos ver como acaba essa novela. Como não somos chamados para opinar (e olha que não somos exatamente "leigos desinteressados"), como as coisas são resolvidas nas altas esferas, onde rondam as panteras, as políticas, as onças pardas, as pressões, nem Deus - qual deles? - sabe como isso vai acabar.

11. Vou sentar aqui na varanda. Enquanto isso, toda oportunidade que eu tive para denunciar que o rei está peladinho da silva eu a usarei. Como agora. Para constrangimento de muitos - para vergonha de todos nós.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/636) Por todos os lados possíveis


1. 1978. Eu tinha 13 anos. Na escola, ensaiávamos peça de teatro. Eu era o Visconde de Sabugosa. Compus uma letra para a apresentação da peça, com os nome dos personagens. A melodia foi tirada de Cartomante, de Ivan Lins, que, à época, as rádios tocavam, na voz de Elis Regina. Eu não tinha a mínima idéia do que a letra da música significava...

2. Lembro-me também da primeira e única missa a que minha vó me teria levado (não confio em minhas memórias). Cantou-se uma música lá. Anos depois, ouvi-a na rádio: Para não dizer que não falei de flores...

3. Eram dias estranhos aqueles, em que se vivia uma vida dentro de outra.

4. Aqui vão três apresentações de Cartomante. Discutir a letra dessa música dá um excelente exercício - ela, afinal, ajuda ou atrapalha o regime de exceção? Os revolucionários aguerridos e impacientes dirão que ajuda. Os pacientes, que atrapalha... Qual terá sido a intenção de Ivan Lins (lembro-me de Desesperar jamais)? E qual terá sido o efeito nos sensores? Afinal, ela chegou a ser tocada no Fantástico!, com um Ivan Lins que é a cara do Lula!...






5. É como o verso bíblico: melhor o cão vivo do que o leão morto... Bem, na boca do invasor, diz-se uma coisa, na do líder dos invadidos, outra... Sim, sim, o sentido é situação, é situado.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/635) Canto das Três Raças


1. Quando, no futuro, seja lá qual ele for - e seja lá quem lá estiver -, olhar-se para o passado, para os séculos, os cistianíssimos séculos ocidentais, e testemunhar-se uma África vermelha do sangue de escravos, uma América do Sul vermelha - do sangue dos ameríndios, lá, então, hão de perguntar onde estava, afinal, Jesus. E alguém, desses de dizer coisas impróprias em horas impróprias, dirá: no chicote, no tronco, no sal...

2. Não, Jesus não adiantou nada, absolutamente nada, porque até Jesus precisa de muita civilidade, e um Jesus, qualquer que seja ele, na mão de uma cristandade sanguinária, por sua vez na mão de pastores de sangue, é tão sanguináro quanto ela.

3. No fundo, é preciso, primeiro, uma conversão à fraqueza, à humildade, aos valores, vai ver, até "jesuânicos" (certamente não "cristológicos"), vai-se saber, para que Jesus seja, afinal, útil para uma civilização. Na mão de fanáticos, na mão de déspotas de bem, na mão de evangelizadores, Jesus chega a ser uma desgraça.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/634) Pergunto ao Haroldo


1. Nós, Haroldo, "teólogos cristãos", estamos envolvidos até a alma - a próstata! - com as Escrituras... Por outro lado, seja você, seja eu, caímos na "besteira" de adentrar os portões da crítica histórica, da hermenêutica crítica, da crítica das ideologias, ou seja, do iconoclasmo...

2. Bem, a posição de teólogos nos põe uma Bíblia diante de nós: grosso modo, a da Tradição, lida pela Tradição, m(c)ontada por ela, para ela, com ela.

3. Porém, nossa posição de "historiadores/exegetas" nos põe, quanto a essa mesma Bíblia, diante de um sem-fim de perícopes, de narrativas desmontadas, um mosaico ao contráro, pedaços de eventos perdidos na noite dos tempos.

4. Meu bom Haroldo, nesse final de 2009 - a quem, de fato, servimos? A qual das duas "versões" prestamos reverência, e, para manter uma metáfora litúrgica, culto?

5. Quem somos nós - hoje - meu amigo Haroldo?



OSVALDO UIZ RIBEIRO

(2009/633) Pergunto ao Jimmy


1. Jimmy, o que você me diria, se eu ensaiasse a seguinte "tese": o caminho para uma teologia "positiva", que tentasse superar a aporia da "esquerda", da "emancipação", da supressão de todos os fundamentos dados como "ontológicos", é o cinismo? Quero dizer: o teólogo (ou seja lá o que ele vem a ser) sabe que não há fundamento algum, mas ele - ele?, a comunidade dele, nos termos e que ele a concebe... - (agora) cuida saber que é necessário, se não um fundamento, ao menos uma crença nele, um discurso sobre ele, uma ilusão dele, poesias-pirilampos sobre ele...

2. É isso? Não creio que para um "teólogo" que trate dessas questões, isto é, para um teólogo que "viu" - de fato! - o abismo insondável e sem fundo da existência, possa simplesmente fingir que não viu, e voltar àquela "fé" da ingenuidade e inocência... Para um homem assim, tal qual esse, apenas lançar-se no sem fim, ou usar de retóricas políticas...

3. Mas o que me deixa encafifado é: quem é que precisa dessas artimanhas de pôr discursos sobre a mesa? O teólogo? O público dele, segundo sua opinião e senso de "mercado"? Sua "comunidade", o que faz dele algo muito parecido com um... charlatão, ainda que, vá lá, um "charlatão do bem" (Aldous Huxley desesperaria de ouvir isso!).

4. Jimmy, meu amigo, há salvação para a teologia? Ou apenas o redil das confissões lhe permitiria dormir tranqüila, crendo-se "salvadora" do mundo? Do que é que se trata, Jimmy, meu amigo, afinal? É o teólogo, afinal, o herdeiro do cetro do mundo, da retórica do Pastor dos Povos?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/632) Que beleza, senhor presidente!



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

 

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