terça-feira, 15 de novembro de 2016

(2016/129) Sobre o dízimo


Sobre dízimo.

Dou aulas de teologia ha quase 25 anos. Aprendi uma coisa: os alunos entram todos encenando o papel de crentões, não importando se sejam ou não, porque, na prática, as pessoas encenam um papel, e se comportam como a média do grupo social em que estão inseridos. Passa um tempo, começa a poda dos galhos...

O assunto, então, que mais lhes interessa é dízimo. Parece que estão com tanta vontade de parar de dar dinheiro para igreja que se tornam ávidos por um argumentozinho que seja para justificar sua mão de vaca. Macaco velho, há anos deixei de tratar do tema. Esse semestre, todavia, dei conta do programa antecipadamente, e ontem me pediram para falar sobre o tema.

A aula transcorreu sobre as forma de sustento dos diversos aparelhos de culto em Israel e Judá, antes do período sacerdotal, durante e depois. Chegamos até a Alemanha luterana, cujos dízimos são descontados em contra-cheque...

E concluí assim. Deixando a patifaria larápia e mafiosa de lado, a vinculação a uma comunidade é uma questão de amor. Quem ama, se importa, quem ama se sente responsável, comprometido. Quando você começa a desejar não dar mais dinheiro para a igreja, é porque não gosta mais da(quela) igreja.

Bem, pode ser uma de duas coisas. Não gosta mais da igreja. Pois, então, saia e vá cuidar da vida. Largue igreja pra lá. Vá gastar seu dinheiro com coisas que você realmente ame. Todavia, pode ser que não seja o caso de você não amar mais a igreja, mas de não amar mais aquela ali, onde você está. Pois saia dela e vá para outra. Procure uma comunidade que você ame e, porque ama, tenha desejo e alegria de dar dinheiro.

Quando você tem dó de gastar, você não ama. Ficar numa comunidade que não se ama é doentio. Seja indo embora da igreja, seja indo embora daquela igreja, resolva sua vida, cure sua alma. Se precisa de comunidade para ser feliz, então procure uma comunidade que mereça seu dinheiro, e que faça com ele o que você julgue dever da comunidade fazer...












OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2016/128) Quatro cenas após a morte


Vida após a morte: quatro cenas.

Eventualmente, um ou outro detalhe das cenas abaixo precisem de alguma correção, porque não é exatamente fácil tratar do tema, quando se trata de discernir o que se cria antes do cativeiro babilônico da elite judaíta. Dito isso, às cenas...

I. Os israelitas e abraaamitas/judaítas criam em um mundo com três andares: mundo dos deuses, mundo dos vivos e mundo dos mortos. Acreditam em trânsito de cima para baixo: seres do mundo dos deuses podem descer ao dos vivos, e os vivos, quando morrem, vão para o dos mortos. Raramente, mas não é impossível, vivos vão para o mundo dos deuses (Elias, Enoque), e os mortos sobem ao mundo dos vivos. Não se trata de alma, não se trata de inferno. Trata-se de passar para o outro lado, e se trata de um quarto do grande cômodo da existência.

II. Eclesiastes, e acho que só ele, cria que só há dois andares: o dos deuses e o dos vivos. Neste, a vida é efêmera e, quando se morre, acabou. Não há mundo dos mortos, só pó, e a vida retorna para a divindade, que a deu e sustentou. Não há identidade fora do corpo, de sorte que, morto o corpo, acabou a pessoa.

III. Porque era persa, sendo judeu, Paulo acreditava em ressurreição, mas não em alma. Quando tenta catequizar os gregos, riem dele, porque, ao contrário dos gregos, que consideram o corpo a prisão deletéria da alma, que suporta a identidade e eternidade da pessoa, o judeu de Jesus não cria em alma, mas, crendo nas teologias persas, adaptadas pelos judeus, e aguardando o Juízo e a Restauração da criação, ensinava a ressurreição do corpo, sem a qual a fé que ele mesmo pregava não valia um centavo, um grama de prata suja...

IV. E tem você. Você é um híbrido. Sabe aquele chiclete em que vinham figurinha de bichos misturados: tubacão, mistura de tubarão e cão? Pois é. Você não é o judeu da cena I, não é o judeu da cena II. É Paulo? Não. Você é uma cruza de Paulo com neoplatonismo... Como Paulo, você acredita em ressurreição. Mas, como os coríntios, você acredita em alma, aquele fantasma que vive dentro do corpo. Como você crê em Gasparzinho, imagina que, ao morrer, Gasparzinho tem que ficar em algum lugar, esperando a ressurreição do corpo. Os teólogos escrevem livros de 700 páginas para discutir se o fantasma que você é dorme esse tempo todo ou fica cantando para Jesus. É muito séria a questão, bem se vê... No dia D, o corpo ressuscita, a alma, pluft, entra de novo dentro dele, e você está de volta... Você é bem sincrético, não?

Dá pra escrever outra cenas, porque essas não esgotam todas as crenças disponíveis. Essas, todavia, são as que tocam diretamente o povo bíblico, cuja fé nunca é bíblica, todavia...










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2016/127) A ciência endossaria alguma tradição religiosa sobre o além?

Um livro como Comparar o Incomparável sugere, mas ao meu modo. Todos os modelos histórico-culturais de crença no além, da crença no aniquilamento até a crença na vida eterna cantando para Jesus... O efeito é você se dar conta de que entrega a vida a mitologias, mata e morre por elas, invenções sempre, inventadas todas as vezes...

Osvaldo, mas você disse que a ciência endossaria Eclesiastes, que diz que morreu, acabou. Essa perspectiva não é religiosa também? Você não está assumindo que a própria ciência abraça mitologias religiosas?

Não, meu amigo, não. Dizer, com Eclesiastes, que morreu, acabou, é retirar da narrativa justamente a mitologia... A ciência termina a reflexão onde o pó se dissolve: a fé, qualquer fé, toda fé, sem exceção, vai além, e inventa, porque fé não é nada, absolutamente nada, além de invenção, alguma narrativa para usar...









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2016/126) O maior inimigo do estudo da Bíblia


A maior inimiga do estudo da Bíblia é a fé. Ignorante, mentiram pra ela e ela mente para si dia e noite, a fé crê que é bíblica, e não é: de cabo a rabo, a fé é invenção da tradição, fruto da catequese, produto da repetição infinita, mas se vende como leitura bíblica... Se a fé aprendesse - mas pode? - que é tradicional, a Bíblia estaria liberta, e o portador da fé poderia estudar e aprender. Preso, com seu ovo de vespa a comer-lhe o cérebro, ignorante é e assim morrerá, com gozos de vaidade... Cena triste, não?











OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2016/125) Fragmentos facebookianos

I.
O engraçado da reação do crente progressista indignado de que não se deve tomar os evangélicos como um todo, porque ele não se pode medir pela canalha da fé, é que, tirando a canalha da fé e sua visibilidade medonha, sobra o quê?


II.

A única forma de se manter um discurso religioso exclusivista é tornar-se surdo. O monoteísmo é surdez, nada além disso. Naturalmente que "surdez" aqui consiste em metáfora, porque o termo adequado é insensibilidade, que se traduz em insuficiência e seletividade ética.

https://www.facebook.com/osvaldo.l.ribeiro/posts/1161554690591766


III.

Como pode uma igreja que reproduz exatamente a mesma estrutura socioeconômica da sociedade capitalista pretender transformar a sociedade capitalista? Nunca será transformadora - jamais irá além de "reforma"... Aliás, faremos 500 anos amanhã...










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2016/124) Fragmentos facebookianos

I.
O engraçado da reação do crente progressista indignado de que não se deve tomar os evangélicos como um todo, porque ele não se pode medir pela canalha da fé, é que, tirando a canalha da fé e sua visibilidade medonha, sobra o quê?


II.

A única forma de se manter um discurso religioso exclusivista é tornar-se surdo. O monoteísmo é surdez, nada além disso. Naturalmente que "surdez" aqui consiste em metáfora, porque o termo adequado é insensibilidade, que se traduz em insuficiência e seletividade ética.

https://www.facebook.com/osvaldo.l.ribeiro/posts/1161554690591766


III.

Como pode uma igreja que reproduz exatamente a mesma estrutura socioeconômica da sociedade capitalista pretender transformar a sociedade capitalista? Nunca será transformadora - jamais irá além de "reforma"... Aliás, faremos 500 anos amanhã...










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2016/123) Anacrônica é a tua seletividade, senhor especialista...

Você pode encontrar em Gênesis 2-3 o programa que ainda roda na tradição judaico-cristã até hoje. Aqui, falarei do principal, que roda inclusive nos espaços progressistas, que se julgam superiores em relação aos espaços conversadores.

Não se trata de bem e mal. Já falei várias vezes, e repito, trata-se de bom e mau. No mito, a divindade (isto é, quem escreveu o texto, os sacerdotes) não quer que os camponeses (Adão e Eva) decidam por si mesmos o que é bom e o que é mau - porque seriam, então, como os deuses, que se autodeterminam! O que a divindade quer - não perca isso de vista: o que os sacerdotes querem! - é que os camponeses (Adão e Eva) façam apenas o que a divindade (os sacerdotes) decidirem que é bom. Não se trata de moral, mas de autonomia. Adão e Eva são tratados como se fossem crianças...

O religioso da tradição judaico-cristã (mas qual não?) é tratado como criança. Não é concedida a ele autonomia, não lhe é ensinada a autonomia, a emancipação, a crítica, a liberdade. A fé é cabresto. E é assim, a cabresto, que caminha a fé por dois mil e quinhentos anos, e temo que assim e só assim caminhará, enquanto caminhar...

Sei que algumas pessoas lerão esse texto e (imagino até o nome de algumas!) dirão que é anacrônico... Eu também acho anacrônico um sacerdote da fé tratar pessoas como um texto as tratava há dois mil e quinhentos anos...








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

(2016/122) Só se não se tratava de literatura


Se os textos da Bíblia foram produzidos como literatura, não me interessam. Se quem os escreveu estava elaborando peças semanticamente abertas, textos sem nenhum sentido específico, sem nenhuma mensagem própria, caixas de sentido, esperando que algum gênio da literatura os viesse atualizar, então, juro pelos deuses, nunca mais leio uma linha sequer, porque texto de literatura bíblica algum chegará aos pés de duas horas de The Witcher 3...

Só me interesso por textos da Bíblia Hebraica, porque os considero instrumentos de intervenção social. Para mim, são como ancinhos, enxadas, pás, martelos, garfos e facas, instrumentos de uso específico, que se pode até aproveitar para algum uso desviante, mas foram produzidos para uma função determinada e certa. Para mim, um texto bíblico é um instrumento que alguém escreveu para com ele fazer pessoas fazerem cisas, deixarem de fazer coisas, pensarem coisas ou deixarem de pensar coisas.

Não me interesso pela criatividade do escritor, pela beleza do texto - interesso-me pelas relações histórico-sociais entre quem os produz e as pessoas a quem seu uso se destinava. Como instrumentos de intervenção social, escritos para tentar controlar a vida de pessoas, seus efeitos ainda estão presentes, tanto neles quanto na esmagadora maioria indiscutível de quem os instrumentaliza nos espaços religiosos: descortinar sua intenção genética, descobrir para que foram escritos, é, para hoje, uma tarefa de defesa e denúncia. O resto é aproveitar-se da instrumentalização intrínseca que os caracteriza...








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 16 de maio de 2016

(2016/121) Sobre Zacarias 13 e a Indonésia de 1965

Os comentaristas acham que é retórica, mas Zacarias 13 diz que, se alguém se levantar como profeta, pai e mãe devem matá-lo a espada. Para não morrer nas mãos dos próprios pais, o profeta deve renunciar a sua vocação e retornar para o campo. Retornando para o campo e renunciando às suas visões e vocação, ele deve dizer que as os cortes (rituais?) que carrega nos braços são cortes de trabalho na roça...

Não acho que seja retórica. Um povo religioso, crédulo e amedrontado pode facilmente entregar-se à carnificina. Foi exatamente o que aconteceu na Indonésia de 1965. O Governo utilizou-se de propaganda para fazer a população crer que os comunistas eram gente cruel, irreligiosa e promíscua: não eram crentes em 'Aláh, nem iam às mesquitas; eram violentos com os inimigos; e dormiam uns com as mulheres dos outros. Os verdadeiros religiosos e nacionalistas deviam matá-los. Sim, matá-los. Sem piedade...

Comandos Aksi estabeleceram-se em todas as vilas da Indonésia. Um milhão de pessoas foram assassinadas a facão, trucidadas, esquartejadas, jogados os seus corpos nos rios - o Rio Snake, por exemplo. Famílias inteiras foram dizimadas e, dentro de uma mesma família, metade foi morta pela outra metade. Não foi o Exército a matar - foi a população, protegida pelo Exército, e a mando do Governo. Tudo dentro da lei e com as bênçãos de 'Aláh...

O documentário que trata disso é pesado de assistir: The Look of Silence, e encontra-se disponível na Netflix...


Voltando aos judaítas... Eu acho que os sacerdotes bem podem ter desenvolvido propaganda semelhante entre os camponeses judaítas. O texto de Zacarias 13 pode refletir esse procedimento.

Um fato é certo: depois que os sacerdotes assumiram o poder, depois de Zacarias 13, os profetas literalmente desapareceram...








https://www.facebook.com/osvaldo.l.ribeiro/posts/1024669464280290

OSVALDO LUIZ RBIEIRO

sábado, 14 de maio de 2016

(2016/120) O Lúcido Diplomado de Jesus vai até Bonhoeffer...

I.

O lúcido de Jesus Diplomado teve a bênção carismática de retornar no tempo, e eis que aparece ao lado de Bonhoeffer, que, naquele momento, dirige-se às coordenadas estabelecidas para o atentado contra o Temer-Cunha-Gilmar-Aécio-Moro-Globo-Obama da Alemanha... O lúcido de Jesus Diplomado está que não se aguenta de gozos... Um abraço fortíssimo no falta-pouco-para-ser-um-mártir, uma selfie e, finalmente, as primeiras palavras: "Bonhoeffer, Bonhoeffer, quanta honra... Que bom encontrar você. Vamos aqui abrir uma igreja e ficar orando ao Senhor até o orgasmo final"! Foi esse o corpo que acharam apodrecido na estrada, e nunca descobriram de quem era...



II.

Você deve conhecer também... Mas eu certamente conheço um monte de babacas de Bíblia e teologia que têm orgasmos lendo Bonhoeffer, que deliram de excitações genitais lendo sobre a Igreja Confessante, que gemem gemidos de coito, quando falam do martírio do grande teólogo... Aí, o mancebo e a manceba progressistas ao cubo comentam: o Osvaldo está agressivo, não? Tem gente que tem bosta na cabeça... Não conseguem sequer enxergar o ridículo que são... Povo das idealidades: eles devem achar que Bonhoeffer ter sido executado é uma nota de ópera... Gente imbecilizada de Jesus Diplomado...










OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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