quinta-feira, 31 de maio de 2012

(2012/470) Da função docente na Faculdade de Teologia

1. É duro passar pela adolescência. Para alguns, a infância em si já é terrível. Eu não sei se a Teologia acadêmica brasileira está em sua infância - e é terrível - ou em sua adolescência - e é pior ainda...

2. Mas sei que é duro.

3. O professor ou a professora de Teologia está a serviço de quem/que?

4. Da Igreja?

5. Da Fé?

6. Do Dogma?

7. De "Deus"?

8. Na maior parte dos casos, é o que os alunos "esperam". É o que eles acham que "deve" ser, isto é, que vai ser o que encontrarão lá, quando chegarem lá.

9. Compreensível. Não tanto, todavia, é quando os próprios professores têm algumas dessas respostas anteriores. 

10. Já cansei de ouvir coisas assim: na Graduação, trabalha-se para a "tradição", para a "igreja". É o arroz com feijão, o básico, a doutrina. No Mestrado, aí você pode aprofundar...

11. Hum-hum...

12. Convivi com doutores em Teologia que sabiam o que estava do outro lado da Graduação, mas assistir a uma aula de graduação deles era como estar numa aula preparatória para batismo - de nível 99, de luxo, mas nada que pusesse em risco o projeto...

13. Acho isso de mau gosto. Desonesto, até.

14. Acho que o professor de Teologia está a serviço: a) da verdade, b) da sociedade, c) dos alunos.

15. "Verdade". Nada de mentiras santas, de enganações bem-intencionadas. Mente-se a três por quatro, sonega-se, distorce-se. Uma aula de Teologia pode ser uma pantomima características de filmes pastelões de quinta categoria - para quem tem espírito sensível, algumas aulas poderiam ter efeitos colaterais irreversíveis.

16. A "verdade" está na História, na reflexão crítica, nos "fatos". Necessita de método, de rigor, de transparência, de imparcialidade, no limite do possível. Se os castelos de areia vão ruir, que seja! Verdade.

17. "Sociedade". Em última análise, são cidadãos em formação. Despertar neles o espírito crítico é normativo, imperioso, necessário. Os cursos de Teologia tradicionais, confessionais, são co-responsáveis pela robotização psicológico-hipnótica de gerações inteiras, praticamente lobotomizadas. Caso se tratasse de demência intra-muros, brincadeira de igrejas, nenhum problema: mas essas gerações estão na sociedade, são a sociedade, e não se admirem do rumo que a Igreja toma no Brasil, produzidas em série pelo mode "Bíblia e Oração", nas Igrejas, e reproduzida pelo modelo "Doutrina e Revelação", nos seminários. Os Macedos deitam e rolam - agradecidos...

18. "Alunos". Olhar para eles, nos olhos deles, e mentir para eles, com aquela conversinha de cerca Lourenço, embromando, apertando os nós que os amarram em mitos políticos, em mitos espirituais, em rotinas de submissão e controle, em heteronomia - imperdoável.

19. É criminoso o que se faz com alunos de Teologia. E temos aí um pequeno exemplo do que a religião é capaz de fazer, a despeito das coisas boas que ela pode oferecer ao espírito humano. Mas um professor de Teologia experimenta o poder de controle e manipulação de seus alunos até a próstata (ou o útero!), e exerce-o com gosto e dedicação.

20. Entretanto, educação pressupõe conhecimento, autonomia e crítica. O que fugir disso é adestramento, treinamento, inculcação, hipnose, doutrinamento.

21. Sei que o exercício crítico da Teologia põe os alunos em situações difíceis - desconstrói-se tudo, nada fica de pé. Mas a "culpa" - se há! - é da docência crítica? Ou a culpa - e, nesse caso há - é do sistema de falácias que gira em torno da fé, sistema que não suporta meia hora de aula histórico-crítica?

22. Às vezes saio da aula cansado. Ontem foi um dia. Duas aulas pesadas. Muito pesadas. Os alunos revelam sua dor, suas crises, e a desconstrução tem de continuar. Há dias que me pergunto se é lícito da parte do professor descer tão fundo, tocar tão profundamente.

23. Mas o dia nasce, o sol brilha pela janela, e recomeçamos.

24. É o destino de Prometeu: todos os dias o abutre ou a águia lhe come o fígado: mas ele cresce de novo, e renovam as suas forças!



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 30 de maio de 2012

(2012/469) "Eclesiastes" versus "Amós" - modelos sapiencial versus modelo profético


1. Ora, Osvaldo, o modelo Eclesiastes corre o risco de individualismo, de cada um por si.

2. Sim, corre, da mesma forma como o modelo profético corre o risco de querer sempre ter pobres e miseráveis a quem dar um pedaço de pão velho...

3. As paródias não são boas para a reflexão séria.

4. Como modelo de vida, para mim, a "sabedoria". Como necessidade, em razão da situação de miséria em que se vive, ações proféticas. As ações, proféticas, porque necessárias. A vida, sapiencial. Haverá algum momento para a contemplação, talvez até a canção - mas as minhas retinas se sentem doloridas quando contemplam o projeto sacerdotal.

5. Ah, Osvaldo, muitos padres se fizeram companheiros de perseguidos políticos durante o regime militar...

6. É verdade: fizeram-se profetas...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2012/468) Sobre "o modelo Eclesiastes" a que me referi no Congresso da Unida

1. Estava, agora há pouco, conversando com meu colega de Faculdade, Julio Zabatiero, e choramingávamos as mágoas com os destinos da "religião evangélica" em solo pátrio, quiçá no mundo. Somos ou estamos velhos, de modo que velhos são choramingões. Mais choramingões do que revolucionários...

2. E tocou-se no assunto de minha "reação" no Congresso.

3. Para os desatentos ou desinformados, trata-se de uma vulcânica e pulsional reação que proferi à fala de Julio Zabatiero e Wanderley Pereira (ambos, meus chefes!), no Congresso da Unida, dia 19 passado. Não estava prevista a minha fala, alguém faltou e, então, Wanderley pediu-me que reagisse, como pedia o programa, às conferências que os dois profeririam.

4. Reagi. 

5. Uma das coisas que disse foi que a Igreja se fechou em torno do modelo sacerdotal, e ela não consegue se pensar como outra coisa que não essa neurose de sacerdotes - tudo nela, é templário: os padres e pastores, o "altar" lá na frente, os cânticos intermináveis, as orações, os ritos de lavar e lavar, a auto-imagem do homem como um verme vermiforme, a imagem de Jesus como "Cordeiro" (morto no altar), o papel teocrático do poder... Tudo, aí, tem cheiro de Jerusalém.

6. Um fetiche. Um equívoco histórico de proporções incalculáveis. Isso é minha opinião - e qualquer pode sentir-se livre dela. Mas não eu.

7. Há outros modelos. O profético - da caridade - e o sapiencial - de eleger a vida como expressão da "espiritualidade", isto é: pão, vinho e sexo, ou, dito de forma mais bíblico-poética, "come o teu pão, bebe o teu vinho e goza a vida com a mulher da tua juventude" (ou o homem da tua juventude, faz-se mister registrar).

8. Eu elegi - para mim - o modelo sapiencial. Não me dou mais às práticas sacerdotais e não me fiz suficientemente desprendido para o ativismo de caridade, de resto que, no que diz respeito a meu dia a dia, assumi a dinâmica sapiencial de recorte "eclesiástico" (bem entendido, do Livro de Eclesiastes).

9. Alguém pode dizer que isso seja individualista.

10. E é. No que me diz respeito, é. Todavia, pensando enquanto modelo, não. Ele quer dizer que todo homem e toda mulher poderiam e deveriam viver assim, ter seu pão, seu vinho, seu amor. Não se trata de ser individualista. Se trata de pensar a vida como sendo seu próprio valor. Se trata de não imaginar um sentido para a vida fora da vida - num céu, em anjos, numa escatologia mitológica. Trata-se de olhar para a vida e perceber, como Eclesiastes, que a vida pede é mais vida, e que essa vida que ela pede, sem que para isso seja necessário um mito fundante!, é, com simplicidade, pão, vinho e amor.

11. Retornar a vida para a vida. Para cada um de nós e para todos. Democratizar o "shalom" bíblico - terra, casa, família, pão, saúde - para cada um e para todos os seres humanos. Para isso, voluntarismo apenas não é suficiente: mas as rotinas para alcançarmos essa situação são políticas, não são "religiosas". Não será na liturgia que isso se dará. Nesse sentido, a liturgia pode inclusive ser alienante. Ou não. Mas mesmo quando a liturgia se fizer "prozac", e não "lexotan", ainda assim não será ela a conseguir o pão, o vinho e o sexo.

12. Quando você escolhe o valor, o que é fundamental, tudo o mais se torna dispensável. O valor, para mim, é a vida, o pão, o vinho, Bel, que cada um tenha seu pão e vinho e "sua Bel" (ou "seu Bel"). Não será, decerto, sem luta, que alcançaremos essa situação.

13. Lamentavelmente, a Igreja transformou-se numa "coisa", numa "estrutura" divinizada e que se fetichizou. Um ídolo. Ela, que iniciou sua história manejando a palavra liberdade é, hoje, uma cadeia - seja operando conscientemente para isso, seja operando psicologicamente no diapasão pós-moderndo da alienação neoliberal.

14. Uma desgraça.

15. Respeitadas as exceções - que talvez sejam muito poucas, foi em relação a essa situação que me posicionei de modo crítico. Mas não está autorizada qualquer interpretação de minha fala que a tome como um "viva eu e dane-se o outro". Não. Não quero para mim. Que para mim, também, mas quero para todos. Nesse sentido, de modo bem marxista: a cada um segundo sua necessidade, e acada um conforme sua capacidade. No macro, esse Marx. No micro, aquele Eclesiastes.

16. Agora, senhores, mãos à obra: que desejá-lo está longe de ser tê-lo. É preciso, pois, construir o desejo, fabricá-lo também de barro, que a vinda não é apenas sonho, e, se é, é de corpo a sonhar com corpos.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 25 de maio de 2012

(2012/467) Quando a crise (teológica) vem


1. O que fazer, quando a crise teológica se instala?

2. Com meus 25 anos de jornada teológica acadêmica (19 dos quais como professor), acho que tenho alguma experiência. Não vou dar receita de bolo, mas apresentar algumas sinalizações.

3. Primeiro: quando a crise teológica se instala, curta-a. Ela vai passar. Tudo na vida passa, e a crise passará. Por isso, curta a crise. Pense a respeito dela, memorize os dramas que ela provoca, procure guardar na memória os sentimentos que ela suscita. De preferência, escreva. Não meça palavras, escreva. Vomite tudo no papel. E guarde. Um dia, você se verá quando em pleno parto...

4. Segundo: quando a crise teológica se instala, não a supervalorize. A crise não é nem o objetivo nem o fim da Teologia. É uma etapa. Importante. Necessária, eu diria. Mas não é um fim em si mesma. Assim, não faça dela o que ela não é. Não a subestime nem a superestime. Olhe para ela e deixe ela saber que você sabe que ela está ali - mas faça com que ela saiba que você está no controle. A crise se dá na Teologia. Mas a crise não é a Teologia...

5. Terceiro: quando a crise teológica se instala, é porque alguma coisa em você já se preparara para ela. Alguns espíritos não a experimentam, seja porque são refratários à crítica, seja porque têm outra forma de viver a religião e o mundo. Mas os espíritos que sofrem a crise teológica sofrem-na porque já a tinham sob a forma de ovo dentro de si. Foi o momento, a circunstância que fez eclodir o ovo. Assim, reconheça a crise como parte de você: ao contrário de um organismo parasita, um ser estranho, a crise é sua outra metade, desabrochando.

6. Quarto: quando a crise teológica se instala, faça como Maria: guarde as coisas em seu coração. Não as jogue fora. Não as engula com a boca. Guarde-as no coração. Espere, pacientemente, para ver aonde as coisas vão dar. Observe o caminho.

7. Quinto: quando a crise teológica se instala, aprofunde-a. Não, não a deixe sobre a mesa - encare-a de frente, olho no olho. Se a crise suspeita de que há algo atrás do muro, dê a volta e olhe lá atrás, ou suba no muro e olhe do outro lado. Não fuja da crise, enfrente. Crise é suspeita - transforme a suspeita em pesquisa, em estudo. Crise é mina: cave. Crise é asa: voe. Crise é mar: navegue. Crise é vida: envelheça.

8. Sexto: quando a crise teológica se instala, aproveite para analisar sua visão de mundo. Há crises que não passam de chiliques de seminarista. Mas há crises cosmogônicas - essas são as verdadeiras: a gente entra um dentro delas, nosso mundo é uma coisa, quando as experimentamos, mas quando saímos, somos outra pessoa, nosso mundo foi destruído e recriado - por nós mesmos. A criação foi uma crise, se o posso dizer.

9. Sétimo: quando a crise teológica se instala, fique feliz. Seu dinheiro foi bem empregado. Olhe seus mestres e sorria: fizeram seu trabalho. Olhe para o letreiro, onde se escreve o nome de sua Faculdade, e sinta orgulho. Há lugares de ensino teológico onde se castram pessoas, coíbem-se crises, demonizam-nas, onde reproduzem dogmas e doutrinas de mil anos na cabeça oca de um povo assustado. Ali, pensar é pecado, saber, danação. Ali é lugar onde a crise é o ovo do diabo. Na sua Faculdade, não: crise é parto, crise é nascimento, crise é libertação.

10. Quando alguém se dirigisse ao balcão de atendimento de um curso de Teologia, deveria perguntar assim: ei, moça, quanto custa a crise? Tanto. E você pagaria. À vista ou à prestação. E, sentado na escada que leva ao segundo andar, se esperaria pela passagem da primeira crise.

11. A fila é enorme.

12. E não dói?

13. Dói. Mas logo adormece e fica apenas uma sensação dorida e gostosa, uma nostalgia do dia que ainda não chegou.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. "Quando chegar a crise à tua porta, beije a boca de seu amor e durma em seu abraço, quando a aurora despontar à sua frente" (1,1).

(2012/466) Gente, dançar isso é muito bom - Raça Negra nos pés...


1. Raça Negra, pra dançar, enquanto o tempo passa...















OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2012/465) Lentas as Instituições? Mas só as Instituições?


1. A Teologia está no MEC desde 1996. De lá pra cá, pelo menos quatro tradições "religiosas" se fizeram representar na forma de Faculdades de Teologia - Cristianismo, Umbanda, Espiritismo (kardecista) e Messianismo (Igreja Messiânica). As Instituições não foram tão lentas assim...

2. Mas observe as conversas entre professores de Teologia  e faça isso exclusivamente com relação àqueles que são docentes em cursos credenciados pelo MEC, excluindo os professores de cursos livres, logo, "igrejeiros" ou "religiosos".

3. Você observará que "teologia", nessas conversas, é a expressão "acadêmica" da fé.

4. Na "Teologia" cristã, sequer se trabalha com a noção de "sagrado" (isso é coisa de Ciências das Religiões!), mas, diretamente, com "Deus". Para não falar de outros temas...

5. Os teólogos ainda não perceberam que, no MEC, a Teologia é, agora, "plural".

6. Pior, a despeito de todo discurso inclusivista, parece haver um espírito corporativista inconsciente, impedindo que a linguagem da teologia se faça elástica o suficiente para caber todo mundo.

7. Lentos. Muito lentos.

8. E não dá pra culpar as Instituições...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 24 de maio de 2012

(2012/464) Teologia do pé da mesa


1. Quando começam a ouvir algumas coisas "quentes" nas aulas de Teologia, coisas que começam a ameaçar o desmonte de um sem número de doutrinas e tradições, nove entre dez alunos e alunas pensam consigo mesmos assim: "se eu disser isso na Igreja, vai todo mundo embora"... E, claro, não dirão.

2. Chamo a isso "Teologia do pé da mesa". A "liberdade" na Igreja consiste em não contar nada para as pessoas que não aquilo que as faça ficarem amarradas ao pé da mesa, grudadas no rabo da saia, presas ao "culto" e ao templo - como que a Deus.

3. Teologia do pé da mesa: se, ouvindo isso, eles podem querer ir embora, então não conte, não fale, esconda, suprima, sonegue, minta - tudo isso em nome da fé, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

4. Liberdade... Palavra avacalhada.

5. Fé - a maior mentira da história: não é fé, é medo.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. em tempo necessariíssimo: não se ouvem coisas "quentes" em Seminários de catequese, ditos de "confissão". Ali, mente-se já na entrada, porque mente-se já para os próximos sonegadores, que sonegarão, todavia, nesse caso, porque sequer sabem que existe a coisa. Os primeiros sonegam por vocação.

(2012/463) Em campanha contra o Diabo


1. Pensei que o havia vencido.

2. Enfrentei-o e o venci em Diablo I.

3. Enfrenteio-o em todos os níveis de dificuldade, e o reduzi a nada em Diablo II.

4. Achei que finalmente o havia derrotado.

5. Mas ele voltou.

6. Mais forte. Mais poderoso. Mais maligno.

7. E eu fui reconvocado.

8. Para quem acha que o diabo é um mito...




9. Macedo, te cuida...




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2012/462) Da gestão e do sangue-frio


1. Não há como impedir que os partidos se organizem em torno de seus interesses. Os homens sempre gravitarão, eles e as mulheres, em torno de seus interesses. Não vem ao caso se esses interesses aparecem como reais ou se são interesses fabricados - por exemplo: usar Nike é um interesse puramente fabricado, mas, uma vez fabricado, é real, e é Nike que se quer.

2. A gestão política é a mesma coisa. Ela se põe no centro de uma colmeia de interesses - há grupos de todo jeito, modo, forma, condição, poder, recursos. Não há ouvidos suficientes para ouvir todos os interesses, e, todavia, tem-se de ouvir todos.

3. Não dá é para atender a todos.

4. Por isso, o gestor deve ter sangue-frio. Não pode ser um homem de partido. Ao menos, não pode se comportar como tal. Os homens e as mulheres de partido são aqueles que têm certezas, lado, soluções para tudo. Eles não têm dúvida - porque são o fundamento de si mesmos. O gestor precisa estar acima disso, saber considerar que a retórica do homem de partido é parte de sua fé e engajamento, de seu interesse, de sua adesão, é parte dele.

5. O gestor, pois, deve ser um homem ou uma mulher sóbrio, lúcido: seja o assunto qual for, da religião à política, passando pela magia da moda (a ecologia), há que se manter o bom senso, e pagar o preço da não-adesão aos apelos e desvarios dos partidos.

6. Porque os partidos vão e vêm conforme os dias.

7. Mas a sociedade permanece.

8. Por cima da nuvem dos interesses, há a sociedade, as informações, os cenários. É aí que reside o gestor. Se descer ao nível dos interesses, enreda-se, e não se salva mais...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO 

(2012/461) Sobre carne de boi e florestas



2. Ambientalismo é chapa quente. Já virou religião. E, em dias do "politicamente correto", qualquer um pode surfar na onda. Até a Igreja, que prega o céu, está entrando na onda verde... Da cor verde ela gosta, do coir-de-rosa, não...

3. Bem, não nos desviemos.

4. Enquanto a população for ao supermercado e puder comprar carne, estará tudo bem. A TV, a Internet, os púlpitos, as revistas, surfarão na onda green e todos ganharão suas moedas.

5. Mas espere apenas faltar boi na prateleira, e alegar-se que não tem boi, porque não tem pasto, só floresta, para se verificar que o verde ficará roxo de raiva - e a onda verde deixará de ser lucrativa.

6. Vivemos a época dos discursos. A gente come um bom bife de pasto e, depois, "curte" um post verde no face ou assina aquela lista contra desmatamento... A gente vai dormir se sentindo abençoado...

7. Quero ver é quando o bicho pegar...

8. Quando falta lucidez nos discursos, a coisa virou religião. A onda green já é religião. E tem até sacerdotes.

9. Não se trata de aprovar a destruição do meio ambiente: se trata de denunciar a enorme manipulação que se desenha sob o tema "ambientalismo". Não é, não, Al Gore?




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2012/460) Suassuna: o problema do "gosto médio" - cultura nacional e Universidades brasileiras

1. Por uma dessas agendas do cargo que acabei assumindo nos últimos dias, encontro-me em Recife para, a partir de hoje até sábado, participar do 50º Forum da ABRUEM (Associação Brasileira de Reitores das Universidades Estaduais e Municipais). O tema do encontro é interessante. Tratar-se-á sobre a qualidade e avaliação da educação superior no Brasil, bem como sobre formas de cooperação interinstitucional. Há muito gente importante no encontro, reitores, doutores, pesquisadores renomados. Vou ficando assim do meu jeito, do meu jeito caipira, vendo, observando, conversando, aprendendo...

2. Hoje foi a noite de abertura. Estava programada uma palestra do governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Contudo, em face de outras demandas, veio em seu lugar um assessor dele, um paraibano que assumiu o Pernambuco como seu estado paterno: Ariano Suassuna. Para mim foi uma troca para além de boa, ainda que nunca tenha ouvido discurso ao vivo do governador local.

3. O mestre Ariano Suassuna falou sobre as disciplinas mais importantes para ele, e que, segundo ele imaginava, provavelmente não constituem a prioridade das agendas da maioria dos presentes ao evento: História da Arte; Filosofia e Cultura brasileira. Falou sobre muitas coisas, todas interessantes. Repetiu o refrão, que já tinha ouvido dele, que as universidades brasileiras, na maior parte de sua trajetória, tinham ficado de costas para o povo, espelhando-se em grandes ícones do exterior, esquecendo ou ignorando as expressões filosóficas e culturais brasileiras.

4. Música, teatro, filosofia, sociologia e até religião deveriam ser ensinados nas escolas e universidades. Pois tratam de formas de expressão da cultura de cada povo, essa cultura que nasce sempre local e pode tornar-se universal no processo de recepção e atribuição de valor. O progresso tecnológico não pode avançar sem o lastro e o fundamento da base humanística.

5. Foi uma noite que valeu a pena; encheu o coração de alegria. Fui cumprimenta-lo, alegre em fazê-lo. Disse-lhe que o via como um o herói da obra de Cervantes, lutando contra moinhos. É um mestre. Disse que continuaria a sua luta, pois não pretende morrer tão logo. Quem faz como o mestre fez não fez como o mestre faz. Sobre a cultura vai aí uma frase de efeito dele: “A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio.”



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 23 de maio de 2012

(2012/459) Sobre (alguns?) crentes "progressistas"


1. Os "conservadores" não me interessam - compreendo-os, até certo ponto os respeito, mas não me interesso por seu discurso. Quero apenas manter a distância segura - porque o discurso conservador, bate nele a latência do perigo: a qualquer momento ele pode tornar-se um fogo consumidor, como era o Deus de Israel, antes de ser castrado.

2. Espanta-me mesmo é o crente "progressista" e, principalmente, o dito ecumênico e pluralista. Ele se considera dialógico. Nada é mais presente em sua retórica do que o outro... Ele acha que tem ouvidos para o "outro"...

3. Será?

4. Acho que depende muito de quem é o outro. O outro é uma categoria relativa para o crente progressista. E, aí, eu vejo esse progressivismo como uma válvula muito bem controlada. Há nessa válvula uma instrução: deixar passar somente o acessório, mas impedir que aquilo que de fato é radical passe para o lado de cá.

5. Assim, o outro é somente o meu igual. O menos igual, eu tolero. O mais diferente, desconsidero.

6. Por exemplo, o não-cristão. Ou, para não ir tão longe: o "cristão" que rompeu com certas doutrinas ou que nunca as abraçou. O progressista não consegue ouvir esses outros crentes e os não-crentes. Tem frases de efeito na boca, mas elas não circulam, de fato, no sangue. No fundo, vejo-me obrigado a concluir, trata-se de um conservador não-confesso, um conservador de amplo espectro, mas de profundas restrições.

7. O discurso que usa para Deus é o mesmo, aquele padrão médio da fé, um pouco mais adoçado pela paixão ética, como se isso mudasse alguma coisa. Não parece ter aprendido nada com as Ciências Humanas, e, se as ciências não significam nada, também não ouviu o que disse o não-cristão: politeísmo, deísmo, panteísmo, ateísmo, espíritos, deuses, deusas, Universo-vivo, Universo-deus, orixás, kamis... Não, o crente progressista progrediu até ali, mas não pode ir até mais adiante...

8. Se ele ouvisse os não-cristãos, e se os levasse a sério, não é que admitiria que eles "também estão certos". Mas fatalmente admitiria que há modos muito diferentes de pensar o outro lado para que se possa fiar-se num ou noutro. Uma humildade mínima seria suficiente para fazer com que olhássemos para nossos discursos e os considerássemos mais um caso de imaginação a respeito do além: todos os discursos, nada mais do que discursos...

9. Mas não é o que vejo. O que vejo, é, no máximo, o "respeito" aos outros, reduzindo-os a uma forma não-explícita de mim mesmo: nos orixás, nos kamis, nos deuses, nas deusas, nos exus, em tudo está Deus, esse a quem sirvo e creio, e por isso os respeito... Há certa dose de verdade neles porque a minha verdade está neles...

10. Reduzir os outros à minha neurose, para tolerar as neuroses deles... Conceito interessante de teologia progressista...

11. Porque, se não os reduzo a mim mesmo, e, por outro lado, não posso deixar de perceber a Babel constrangedora dos discursos de fé, só me restaria assumir que meu discurso não passa disso: discurso, e em nenhum momento eu arriscaria assumir-me como que determinado por algo que não seja isso - eu mesmo.

12. Mas, não: no meu discurso, assumo que é Deus que está. Não o tomo como imaginação minha, como criação de minha tradição - mas tomo-o como "Ele", e o tomo como dado por meio do meu discurso, que, então, seria como que o tapete mágico por meio do qual "Ele" se dá e vem - quando, a rigor, o discurso é a própria criação dele...

13. Sei que é ir um passo adiante. Mas penso que isso seria progressivo.

14. O que vejo como progressivo por aí, a meu ver, não passa de um conservadorismo envergonhado, mas não suficientemente envergonhado... 

15. Um progresso e tanto, mas sem sair do lugar.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2012/458) Três fundamentos de um trabalho acadêmico - de monografias a teses


1. Corrigir monografias e dissertações não é tarefa das mais fáceis.

2. Como descanso para minha cabeça, deixem-me dar três "dicas" sobre um trabalho monográfico, ou, dito de outro modo, deixem-me dizer quais os três pontos sobre os quais quem estiver escrevendo trabalhos acadêmicos deve se dedicar.

3. Primeiro, conteúdo. Trabalhos monográficos que são reflexões sobre livros encontrados em bibliotecas ou sobre o que o próprio pesquisador pensa são muito pobres e equivocados. Nenhum trabalho sério (pode prescindir de partir do que as "autoridades" (os fundadores de correntes de pensamento sobre o tema) já escreveram. Na prática, tenho de discutir os autores fundamentais e suas obras magnas relacionadas à minha pesquisa. Caso contrário, meu trabalho não tem valor acadêmico.

4. Segundo, e o mais desprezado: crédito a fontes. Com exceção de juízos de valor e lugares-comuns, nenhuma afirmação do trabalho pode prescindir de crédito (na prática, um parágrafo sem nota de rodapé, dizendo de onde a informação foi extraída é forte candidato a: a) plágio ou b) erro no uso de fontes - nos dois casos, reprovação do trabalho.

5. Terceiro, e o mais desagradável - a falta de fluidez do texto. Não falo em ser poético: falo em ser bem escrito. Que dor de cabeça decodificar um texto em sua dimensão gramatical, quando ele está mal redigido. Uma tortura. É preciso tomar muita atenção com subordinações, concordâncias, regências, com a estruturação dinâmica da narrativa. A leitura deve soar natural. Deve escorrer, como óleo...

6. Isso quer dizer que nenhum trabalho pode ser corrigido menos do que três vezes. Não é possível prestar atenção em todos esses itens ao mesmo tempo. Tenho que ler corrigindo conteúdo, depois, crédito, depois, narrativa. Claro que coisas de um item podem ser pegos na correção de outro - mas "liberar"o trabalho, com relação a cada um dos itens, só com leituras específicas, atentas às questões pertinentes a cada caso.

7. Dá trabalho.

8. Por isso, bons alunos são disputados a tapa.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. perguntam-me qual o mais importante. Nenhum e todos. Todavia, crédito de fonte é obrigação ética do pesquisador. Um belo texto já é dom... Se eu tiver de escolher, prefiro um texto melhor referenciado do que um belo escrito, sem créditos. Não se trata de poesia, para o pesquisador deixar escapar o conteúdo da pleura: trata-se de um relatório de pesquisa. Se belo, tanto melhor. Mas é melhor que tenha mais base do que seja mais belo...

terça-feira, 22 de maio de 2012

(2012/457) A mãe da poesia

1. Para uns, a bebida.

2. Para outros, a tristeza.

3. O parto da poesia se dá no quarto dos loucos...




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2012/456) Porque o maior que pensamos é ainda assim pequeno demais


1. Somos tolos. Tolos e cheios de ar. Somos baiacus inflados de pretensão e prepotência...

2. Não o digo como quem denuncia um defeito - ei, ele tem pés! Não, não constato uma falha - constato uma essencialidade inexorável.

3. O homem é um cisco oco e elástico - ele sorve o ar e infla-se, e, acreditem, fica do tamanho do Universo...

4. Mas - ah, ironia! - ainda assim ele é pequeno: e tudo quanto pensa é pequeno.

5. Ele cuida que é grande o que ele pensa: mas não é - é compatível com seu tamanho...

6. Por isso, a maior ideia que ele inventou em sua cabeça, seja lá para dar nome ao que quer que esteja lá fora, é, ainda assim, e por isso mesmo, pequeno. Não, menos que pequeno, menos ainda que o ainda menor...

7. Não é por outra razão que o seu Todo Poderoso tem a fragilidade de um Gondin da ressaca da fé...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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Sobre ombros de gigantes


 

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