sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

(2017/008) Sexo é água na boca

Procriação é procriação. Procriação é pura mecânica. Tudo bem?

Sexo é outra coisa. Sexo não tem nada a ver com procriação - I am sorry, católicos! Sexo tem a ver com desejo, Religiões puritanas - as de controle da subjetividade - tendem a tratar o desejo como luxúria... E é. Desejo é tesão. Isso é sexo.

Nesse sentido, há espaço para a mecânica? Claro. Mas sexo não é mecânica. Sexo é jogo, brincadeira, diversão, é olho, é boca, é nariz, é ouvido, é mão. Sexo não é nem neve nem deserto: sexo é floresta. Floresta tropical. Tipo Congo. Floresta úmida. Sons, cheiros, sensações...

Esquece isso de procriação. Procriação é coisa de mãe e pai: vamos ter um filho? Vamos. E fazem. Sexo é outra coisa. É ela passando, ele olha. Olhou, fodeu. Modo de dizer, que foder mesmo é só depois. Olhou, fodeu no sentido de que o olho caiu no laço, preso pelas curvas de carne, pela memória que dá água na boca...

Sexo é isso: água na boca.











OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2017/007) Ler, pensando em quem escreveu

No contexto da pragmática heurística, cujo objetivo é ler um texto a partir de seu sentido original, dado a ele por seu autor, exegese não é sinônimo de "entender" a narrativa. Para mim, esse é o principal erro, ou, pelo menos, a principal insuficiência das metodologias (um tanto pragmaticamente confusas, porque você nunca sabe o que o intérprete está de fato querendo, se entender o texto, se usar o texto em comunidades de "vida"!) correntes: um esforço colossal para... entender a narrativa!

A narrativa não é o ser. Para empregar essa terminologia do campo filosófico, o ser é o projeto autoral. Aquilo que o autor pretendeu fazer com sua composição, sua razão de ser, esse é o objeto do exegeta heurístico-pragmático. Logo, a função do exegeta é, a partir da narrativa, saltar para a função textual genética.

Nesse caso, personagens são epifenômenos. O enredo narrativo é epifenômeno. Os discursos das personagens são epifenômenos. Há, no texto, um e apenas um fenômeno: a ação programática da consciência autoral, articulando sua obra em razão de um projeto de intervenção social, para o que emprega personagens, que ele controla, as falas desses personagens, que ele elabora, a trama narrativa, que ele roteiriza, o desfecho narratológico, que ele decide.

Se o exegeta gasta sua vida a enamorar-se das personagens, sem dar-se conta de que não têm existência real fora do projeto autoral, ele não é um exegeta.







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2017/006) Sobre a "alta Teologia"

1. Pessoal da "alta Teologia" me fala que minha crítica de que a Teologia é mera racionalização de mitos não condiz com a sofisticação filosófica, história, tradicional, instrumental e técnica da Teologia, que eu confundo a "alta Teologia" dos manuais pesadíssimos europeus com a Teologia de igrejas de bairro, que Teologia nas grandes instituições teológicas não se compara à dos seminários confessionais de esquina... E eu fico me perguntando se o teólogo que assim argumenta com esse cidadão tem alguma ideia da complexidade e sofisticação dos mapas astrológicos: a compreensão das órbitas planetárias, que teólogo nenhum domina, o cálculo das conjunções planetárias e das constelações de fundo, que teóloga nenhuma sequer imagina, da instrumentalidade dos ábacos, aplicados às datas de nascimento, e, todavia, não passa a Astrologia de outro tipo de Teologia...

2. Vai lá, cara, faz sua "alta Teologia". Mas esse capricorniano, teólogo também, não segue mais horóscopos - por mais sofisticados que eles sejam...


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OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2017/005) Quem trabalha para "Deus"...

1.

Quem trabalha para "Deus", e não para pessoa de carne e osso, é podre.

Quem trabalha para a Igreja, e não para pessoas concretas, é pútrido.

"Deus" e "Igreja" fazem algum sentido se e somente se aí se trabalha para pessoas reais, Marias e Joões. Quando se colocam "Deus" e a "Igreja" acima das pessoas de verdade, tornaram-se idólatras os religiosos, tornaram-se pecadores, tornaram-se inimigos da espécie humana.








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2017/004) Sobre certa canalha institucional-religiosa e o Ensino Religioso

1.

Um bando de religiosos, cujo crânio a jumenta de Balaão, a jumenta do presépio e aquela camela no cio de Jeremias 2,4 usam de penico, andaram por Brasília, vermes rastejantes de Jesus, a pressionar homens e mulheres públicos a não votarem a inclusão do Ensino Religioso na BNCC. É a Instituição e aqueles que vivem dela, para ela, à custa dela, trabalhando contra as pessoas. Tiveram a coragem de dizer que o crime do EREP é tornar as pessoas autônomas e críticas: mas eles não querem - eles querem a massa bovina cada vez mais bovina, para que possam ordenhar as vacas e pôr os touros a cruzar e lhes dar mais crias... Voltaire chamou-os de velhacos e sacripantas. E são. Querem a massa ignorante, heterônoma e alienada, porque é disso que eles vivem: da ignorância, da heteronomia e da alienação.









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2017/003) Sem contexto, sem sentido fixo

1. Self deception? Planejamento? Memória? Fora do contexto, qualquer interpretação é possível. Por isso não levo a sério jogos de interpretação: são bolhas de sabão, efêmeras, sem fundamento algum outro que não o sopro do hermeneuta...



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OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2017/002) Fragmentos facebookianos

1.
Os reacionários, como arma, e os progressistas, como escudo: "Deus" é sempre um equipamento de guerra...



2.

A "questão de gênero" é a "questão comunista" dessa década: tem o mesmo poder de arrebanhar toda a estupidez, toda a imbecilidade, toda a cegueira, toda a ignorância, toda a maldade, toda a desfaçatez, toda a hipocrisia, todo o medo, todo o pavor, toda a covardia desse povo alienado que se chama de "povo de Deus".



3.

Há mais de 20 anos isso. Éramos colegas de trabalho. Batistas, ambos, situação em que ele permaneceu e eu, mais tarde, e até agora, não. Reencontrei-o na rede social dos likes. Percebi o que ter ficado na igreja lhe fez: aprovar a sandice, a estupidez, a imbecilidade dos Poderes de Rio Bonito proibindo discussão de gênero...

Com raras, muito raras, mas muito, muito raras exceções, as igrejas são antros de estupidez: vertiginosas alturas de imbecilidade, vendida como santidade. Passar 30 anos nesses lugares atrofia de tal modo o juízo, que o sujeito se torna imprestável para o bem pensar, o bem julgar, o bem ser...



4.

Mito ou não, quando Jesus nasceu, havia um usurpador no Poder. Nesse Natal, também.



5.

Com a Instituição, os Cristianismos não valem um centavo furado. Sem a Instituição, os Cristianismos não duram dois dias. Agora senta a bunda aí e tenta fechar a conta.










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2017/001) Sobre empresários e as "novas leis trabalhistas"

1.
Com exceção de meia dúzia, empresário tem orgasmos com livros de História: ele abre na seção que trata da escravidão nas Américas e sonha com esses dias... A reformulação das leis trabalhistas deu a eles um tesão que você não faz ideia...



2. 

Patriotismo se tem por vocação. Anti-patriotismo, por dinheiro. Não tem um, mas um só nesse Governo de golpistas desgraçados que não seja anti-patriota, porque recebe para isso. O espírito de se vender por dólar é maior do que o defender a soberania da Pátria. Isso é traição. Deve ser tratado literalmente como tal.



3.

Esses inúmeros casos de demissão, diminuição de valores de horas-extras em feriados, corte de remunerações, tudo feito após a maravilhosa reformulação das leis trabalhistas, é a prova irrefutável de que, com raríssimas exceções, empresário é tudo filho da puta. O que pagam aos empregados, pagam porque são obrigados, pagam porque é lei: se pudessem não pagar um centavo, que se fodessem os empregados, que ele não está ali para sustentar vagabundos! Sem lei trabalhistas e sem respeito às leis trabalhistas, empresário se revela como o que é: um déspota escravocrata.







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 15 de novembro de 2016

(2016/129) Sobre o dízimo


Sobre dízimo.

Dou aulas de teologia ha quase 25 anos. Aprendi uma coisa: os alunos entram todos encenando o papel de crentões, não importando se sejam ou não, porque, na prática, as pessoas encenam um papel, e se comportam como a média do grupo social em que estão inseridos. Passa um tempo, começa a poda dos galhos...

O assunto, então, que mais lhes interessa é dízimo. Parece que estão com tanta vontade de parar de dar dinheiro para igreja que se tornam ávidos por um argumentozinho que seja para justificar sua mão de vaca. Macaco velho, há anos deixei de tratar do tema. Esse semestre, todavia, dei conta do programa antecipadamente, e ontem me pediram para falar sobre o tema.

A aula transcorreu sobre as forma de sustento dos diversos aparelhos de culto em Israel e Judá, antes do período sacerdotal, durante e depois. Chegamos até a Alemanha luterana, cujos dízimos são descontados em contra-cheque...

E concluí assim. Deixando a patifaria larápia e mafiosa de lado, a vinculação a uma comunidade é uma questão de amor. Quem ama, se importa, quem ama se sente responsável, comprometido. Quando você começa a desejar não dar mais dinheiro para a igreja, é porque não gosta mais da(quela) igreja.

Bem, pode ser uma de duas coisas. Não gosta mais da igreja. Pois, então, saia e vá cuidar da vida. Largue igreja pra lá. Vá gastar seu dinheiro com coisas que você realmente ame. Todavia, pode ser que não seja o caso de você não amar mais a igreja, mas de não amar mais aquela ali, onde você está. Pois saia dela e vá para outra. Procure uma comunidade que você ame e, porque ama, tenha desejo e alegria de dar dinheiro.

Quando você tem dó de gastar, você não ama. Ficar numa comunidade que não se ama é doentio. Seja indo embora da igreja, seja indo embora daquela igreja, resolva sua vida, cure sua alma. Se precisa de comunidade para ser feliz, então procure uma comunidade que mereça seu dinheiro, e que faça com ele o que você julgue dever da comunidade fazer...












OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2016/128) Quatro cenas após a morte


Vida após a morte: quatro cenas.

Eventualmente, um ou outro detalhe das cenas abaixo precisem de alguma correção, porque não é exatamente fácil tratar do tema, quando se trata de discernir o que se cria antes do cativeiro babilônico da elite judaíta. Dito isso, às cenas...

I. Os israelitas e abraaamitas/judaítas criam em um mundo com três andares: mundo dos deuses, mundo dos vivos e mundo dos mortos. Acreditam em trânsito de cima para baixo: seres do mundo dos deuses podem descer ao dos vivos, e os vivos, quando morrem, vão para o dos mortos. Raramente, mas não é impossível, vivos vão para o mundo dos deuses (Elias, Enoque), e os mortos sobem ao mundo dos vivos. Não se trata de alma, não se trata de inferno. Trata-se de passar para o outro lado, e se trata de um quarto do grande cômodo da existência.

II. Eclesiastes, e acho que só ele, cria que só há dois andares: o dos deuses e o dos vivos. Neste, a vida é efêmera e, quando se morre, acabou. Não há mundo dos mortos, só pó, e a vida retorna para a divindade, que a deu e sustentou. Não há identidade fora do corpo, de sorte que, morto o corpo, acabou a pessoa.

III. Porque era persa, sendo judeu, Paulo acreditava em ressurreição, mas não em alma. Quando tenta catequizar os gregos, riem dele, porque, ao contrário dos gregos, que consideram o corpo a prisão deletéria da alma, que suporta a identidade e eternidade da pessoa, o judeu de Jesus não cria em alma, mas, crendo nas teologias persas, adaptadas pelos judeus, e aguardando o Juízo e a Restauração da criação, ensinava a ressurreição do corpo, sem a qual a fé que ele mesmo pregava não valia um centavo, um grama de prata suja...

IV. E tem você. Você é um híbrido. Sabe aquele chiclete em que vinham figurinha de bichos misturados: tubacão, mistura de tubarão e cão? Pois é. Você não é o judeu da cena I, não é o judeu da cena II. É Paulo? Não. Você é uma cruza de Paulo com neoplatonismo... Como Paulo, você acredita em ressurreição. Mas, como os coríntios, você acredita em alma, aquele fantasma que vive dentro do corpo. Como você crê em Gasparzinho, imagina que, ao morrer, Gasparzinho tem que ficar em algum lugar, esperando a ressurreição do corpo. Os teólogos escrevem livros de 700 páginas para discutir se o fantasma que você é dorme esse tempo todo ou fica cantando para Jesus. É muito séria a questão, bem se vê... No dia D, o corpo ressuscita, a alma, pluft, entra de novo dentro dele, e você está de volta... Você é bem sincrético, não?

Dá pra escrever outra cenas, porque essas não esgotam todas as crenças disponíveis. Essas, todavia, são as que tocam diretamente o povo bíblico, cuja fé nunca é bíblica, todavia...










OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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