sexta-feira, 19 de julho de 2019

(2019/021) Religião e ética - só conheço duas possibilidades


1. Só conheço duas formas possíveis de lidar eticamente com a religião. Nos dois casos, trata-se de considerar as religiões, todas as religiões, da mesmíssima maneira.

2. De um lado, pode-se tratar todas as religiões como se trata a própria. Se a pessoa tem uma religião, então deve aplicar a todas as demais os mesmos critérios de avaliação geral que aplica à sua: seu deus existe, então, a despeito do que sua religião diga dos outros deuses, você mesmo dirá que existem, porque, se o seu existe, então os deuses das outras religiões existem também. Se um religioso diz que seu deus existe, mas os deuses das outras religiões, não, então esse religioso é um bom filho de doutrina, mas um péssimo representante da ética humana.

3. Outra possibilidade é tratar todas as religiões como criações da cultura, logo, invenções humanas, considerando-se igualmente os deuses, todos, como também invenções humanas. Não é que uma pessoa assim terá de deixar de ser religiosa. Ela pode continuar sendo religiosa, mas será uma pessoa religiosa de um tipo totalmente diferentes dos religiosos que hoje caminham pelas ruas, porque estes acham realmente que os discursos de sua religião são descrições mesmas e reais da realidade, e não são: são mitos interpretativos, construídos não pelos próprios religiosos, mas pela elite histórica. O mais comum, todavia, é que quem assim considere o conjunto das religiões assuma uma forma não religiosa de vida.

4. Como eu disse, desconheço outra forma de ser ético, ao lidar com as religiões. Conheço poucos religiosos éticos. Realmente poucos. Agora, é bastante mais fácil para não monoteístas serem, então, ao mesmo tempo, religiosos e éticos. O problema mesmo, se não a impossibilidade, é o caso do religioso monoteísta. Há até casos de pessoas que, nas ruas, aparentemente, mesmo sendo monoteístas, recebem amorosamente não religiosos ou não monoteístas. Mas quando falam na igreja, quando leem a Bíblia, expressam o discurso exclusivista que desgraçadamente está marcado naquele livro e naquela tradição. É uma contradição. E essa contradição se deve à insuficiência da operação que se iniciou na mente desse religioso: é preciso derrubar ainda mais fundo a masmorra em que se vivia...







OSVALDO LUIZ RIEIRO

quarta-feira, 3 de julho de 2019

(2019/021) Discurso de Paraninfo à turma de formandos de Teologia 2018 da Faculdade Unida de Vitória



Sobre um sal que não salga mais



Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens (Mateus 5,13). 


Há tantos séculos os cristãos experimentam a religião como ética e moral que dificilmente se dão conta de que religião é uma coisa, e ética e moral, outra. E não se pode dizer que se trata de uma percepção do cristão médio apenas. Mesmo os mais progressistas cristãos operam, hoje, o conceito de cristianismo como ética pública. Para muitos pensadores contemporâneos que articulam reflexões acerca da religião ocidental, a realização última do cristianismo seria a sua transformação em plataforma ética universal. Nesse caso, ser cristão seria agir publicamente com responsabilidade ética. Frequentar ou não templos seria apenas uma idiossincrasia sem maior relevância... Nesse sentido, e nos termos daquelas reflexões, em última análise, o cristianismo constituiria um sistema ético, dentro do qual se pode ou não oficiar ritos e experimentar-se a mística.

Não é, todavia, o caso de toda religião. Mesmo no Brasil, há religiões que não se confundem com sistemas éticos, muito menos se submetem a sistemas éticos que lhe seriam superiores em termos de conjunto. São sistemas de rito e mito que se mantêm minimamente independentes dos sistemas de ética pública e moral privada. Não é que seus adeptos não estejam preocupados com ética e moral. Estão. Tanto quanto ou até mais do que cristãos, eventualmente. Mas estão preocupados com ética e moral enquanto sistemas de ética e moral, e não como derivado filosófico de sua matriz religiosa. Para esse tipo de compreensão da realidade, religião é religião, ética é ética, e cada sistema opera em seu próprio momento e lugar.

Desde pelo menos o Novo Testamento que está assentada a máxima de que o deus cristão é bom e que, sendo bom, dele só pode vir o que é bom. O deus cristão não apenas age com amor, como se confunde com o próprio amor. O deus cristão é, acima de qualquer outra coisa, um deus ético. Pode-se tentar encontrar as origens dessa configuração teológica na crítica profética, por exemplo, e é mesmo o mais comum de se fazer. Para isso, assume-se que o deus cristão é o mesmo deus dos israelitas e judaítas bíblicos, e considera-se que, se Amós diz “corra o juízo como as águas, e a justiça, como o ribeiro impetuoso” é porque Yahweh era um deus justo e ético no Antigo Testamento, tanto quanto o é no Novo Testamento, e até hoje, considerando-se assim que Yahweh é o mesmo deus dos cristãos. Nesse caso, a ética cristã seria apenas o desdobramento da ética profética, e isso explicaria porque o cristianismo constituiria, em última análise, um sistema de valores públicos.

Há, todavia, um problema aí. Uma passagem de Isaías é reveladora de quão problemática é essa vinculação entre o deus do Antigo Testamento, o deus do Novo Testamento, o deus cristão e o cristianismo como sistema ético: “eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Is 45,7). No texto, “o Senhor”, isto é, Yahweh, afirma que é ele quem faz o bem e o mal. Os termos são shalom e ra’. Traduzimos shalom como paz. Para a cultura brasileira, paz é ausência de conflito. Para a bíblica, não: shalom é o oposto de ra’. Ra’ é desgraça, tragédia, acontecimento ruim. Não é a expressão abstrata do mal, mas a desgraça concreta da vida: fome, doença, morte. Shalom é o oposto disso. Shalom é o conjunto ótimo das condições necessárias à boa vida. Nascer uma criança e morrer uma criança, nascer de alegria e morrer de dor, as duas coisas, Yahweh diz, é ele quem faz. Yahweh não é um deus ético. É um soberano. Um soberano que está acima de qualquer lei, de qualquer injunção. Ele faz a luz e a treva, ele cria a bonança e a desgraça, ele dá e ele toma, ele faz o que lhe dá na telha, ele é dono único de seu nariz, ele não presta contas a ninguém. Se faz o bem? Claro. Um soberano faz o bem. Mas faz o mal também? Ah, sim, faz, e quando quer. Yahweh é, ao mesmo tempo, bom e mau. Ou, dito de outra forma, Yahweh não é nem bom nem mau: é soberano.

Isso até que os persas ensinassem aos judaítas que um mesmo deus não pode ser, ao mesmo tempo, bom e mau. Esse acontecimento, isto é, o encontro da teologia judaíta com a teologia persa mudou radicalmente e para sempre a teologia judaíta. Yahweh foi “castrado”, perdeu sua soberania, tornou-se um deus bom, e só bom. Nesse dia, a religião foi capturada pela ética, e o cristianismo vive ainda esse dia. Nasceu nele, cresceu nele, e nele permanece. 

É por isso que os pensadores contemporâneos reduzem o cristianismo a um sistema de ética pública. Quando se vai fazer a redução de um sistema a sua essência, quer-se perguntar pelo que há de significativo nele, e o que é residual e até dispensável. Como, no cristianismo, gravitam duas estrelas, a religião e a ética, quando se pergunta o que é mais relevante para a sociedade, é óbvio que a resposta é a ética. Por isso, reduz-se com tanta facilidade o cristianismo a injunções éticas, no campo progressista, e morais, nos reacionários. No fundo, duas faces da mesma operação, dois momentos daquele mesmo dia, que começou quando Yahweh trouxe o rei persa, Ciro, pela mão...

Nesse sentido, compreende-se que se tenha dito que “sois o sal da terra”. Há aí uma injunção ética imposta aos adeptos da religião. “Sois sal”. Reduzida a sal, a religião deve servir para salgar. O cristianismo deve salgar, então, já que é sal. Mas, e se não serve mais para salgar? E se o cristianismo se torna uma religião ideologicamente pervertida em termos éticos? E se o cristianismo passa sua existência a maldizer os deuses de outras pessoas? Esse sal presunçoso serve para salgar? E se o cristianismo institui a escravidão negra moderna e vive dela? Esse sal escravagista serve para salvar? E se o cristianismo mantém a misoginia que recebeu de judeus e de gregos? Esse sal misógino serve para salgar? E se o cristianismo assume como pecado a homossexualidade? Esse sal homofóbico serve para salgar? E se o cristianismo deixa-se instrumentalizar por políticas e valores ultra-neo-liberais, a ponto de por a serviço da entrega da nação e da usurpação de direitos suados de trabalhadores e trabalhadoras? Esse cristianismo fascista serve para salgar? E se o cristianismo recusa a ciência em nome de dogmas caducos e mitos sem pé nem cabeça? Esse cristianismo obtuso e ignorante serve para salgar?

Quando o cristianismo se assume como um sistema de valores, como um sistema de ética pública, é por meio de critérios éticos, públicos, universais e plurais que deve ser julgado. Se o cristianismo for assumido de fato como um sistema ético público, então sua ética precisa ser uma ética que leve em conta as questões públicas, a partir da perspectiva pública e com base nos atores públicos. Não é compreensível que um sistema que se considere ético constitua base para aviltamento de religiões, mulheres, negros, homossexuais e pobres. Um cristianismo fascista assim é um sal que não serve mais, que não salga mais, que deve ser jogado às ruas para ser pisado não apenas por mulheres, negros e homossexuais, mas também por todos os homens éticos.

Sois sal. Ainda há serventia no sal que sois?
_____

Discuso proferido sexta-feira, dia 28/06/2019, às turmas de formatura em Teologia da Faculdade Unida de Vitória.





Osvaldo Luiz Ribeiro

quarta-feira, 12 de junho de 2019

(2019/020) Como ler a Bíblia?

Quando alguém me pergunta como se deve ler a Bíblia, qual é a forma correta de ler a Bíblia, percebo que se está, ainda, a pensar fora da perspectiva pragmática. A pergunta "como se deve ler a Bíblia?" está totalmente fora da perspectiva pragmática - ela se pensa em termos únicos, absolutos, normativos.

A questão tem que ser posta em perspectiva. O que é que você vai fazer? Ler a Bíblia, ora. Sim, isso está claro, mas a sua leitura da Bíblia tem que objetivo? É aqui que reside toda a questão. O que é que você vai fazer com essa leitura da Bíblia? O que é que você realmente quer com essa leitura da Bíblia?

Há três respostas, e penso que apenas três, possíveis.

1. Vou virar os olhos de gozo! Leitura estética. Não há forma correta nem forma errada. Se a leitura é estética, se é para fruição pessoal, lê-se como quiser e puder, e ninguém tem absolutamente nada a ver com isso.

2. Vou ler segundo minha comunidade, minha "fé" (doutrina). Leitura política. Nesse caso, pergunte ao papa da comunidade. A leitura correta, nesse caso, é como seu mestre mandar. Na leitura política, quem tem a norma na mão decide qual é a forma correta de ler. A autoridade decide como se deve ler.

3. Quero entender o que Isaías disse de fato. Leitura heurística. Nesse caso, precisa se servir das ferramentas que permitem leitura histórico-crítica dos textos e ferramentas específicas para acesso à intencionalidade do autor. Sem isso, esquece.

Ninguém pode decidir como você vai ler. Quem decide se vai ler esteticamente, politicamente ou heuristicamente é você. Mas, depois que você escolher, não tem mais liberdade: tem de fazer como a sua escolha impõe.

Como a minha leitura é heurística e a da igreja, política, não acertamos os bigodes. A leitura política não nos ensina absolutamente nada a respeito do que os autores da Bíblia disseram, mas nos impõe a interpretação moderna das tradições de fé. Disso, enchi o saco. mas, para quem ainda tem espaço no saco a encher, é de boa... 

A notícia ruim é que as leituras estética e política da Bíblia não são formas de produção de conhecimento sobre a Bíblia. Uma, é a eleição do próprio gosto como critério e, a outra, a eleição do gosto do poder...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO


quinta-feira, 16 de maio de 2019

(2019/019) Sobre o conceito de vaidade em Eclesiastes


Eclesiastes é um dos livros mais mal compreendidos da Bíblia, matéria (incompreensão) em que as igrejas são pós-doutoras...

1. A palavra que se traduz por vaidade não tem nenhuma relação com estética ou cosmética: é a ideia de vapor, de bruma, de neblina, de coisa passageira: a vida é passageira, é breve.

2. Dizer que o pó volte à terra, que o deu, e o sopro volte para Deus, que o deu, não tem absolutamente nada a ver com alma. Eclesiastes não é greco-platônico e não concebe uma alma dentro de um corpo. Ele concebe um corpo animado, de sorte que o sopro que volta para Deus é apenas a vida indiferenciada e não a alma pessoal, que, para ele, não existe.

3. Como não há alma, mas apenas corpo e energia vital, quando esta o deixa, acabou, não há mais nada: para onde vais, não há conselho, nem sabedoria, nem conhecimento, nada.

4. Em 12,1, a palavra que as versões (como são horrorosos os nossos tradutores!) traduzem para criador é plural: criadores. Lembra-te de teus criadores, provavelmente, remete aos pais, já à porta da morte. Porque a vida é breve. O livro começa falando que a vida é breve, e mostra, ao final, como é de fato assim...









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2019/018) Puddles Pity Party - Losing my religion










Oh, life is bigger
It's bigger
Than you and you are not me
The lengths that I will go to
The distance in your eyes
Oh no, I've said too much
I set it up

That's me in the corner
That's me in the spotlight
Losing my religion
Trying to keep up with you
And I don't know if I can do it
Oh no, I've said too much
I haven't said enough

I thought that I heard you laughing
I thought that I heard you sing
I think I thought I saw you try

Every whisper
Of every waking hour
I'm choosing my confessions
Trying to keep an eye on you
Like a hurt lost and blinded fool, fool
Oh no, I've said too much
I set it up

Consider this
Consider this
The hint of the century
Consider this
The slip that brought me
To my knees failed
What if all these fantasies
Come flailing around
Now I've said too much

I thought that I heard you laughing
I thought that I heard you sing
I think I thought I saw you try

But that was just a dream
That was just a dream

That's me in the corner
That's me in the spotlight
Losing my religion
Trying to keep up with you
And I don't know if I can do it
Oh no, I've said too much
I haven't said enough

I thought that I heard you laughing
I thought that I heard you sing
I think I thought I saw you try

But that was just a dream
Try, cry
Why try?
That was just a dream, just a dream, just a dream

Dream
(Compositores: Bill Berry / Michael Stipe / Mike Mills / Peter BuckLetra de Losing My Religion © Warner/Chappell Music, Inc, Universal Music Publishing Group)







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 10 de maio de 2019

(2019/017) Fragmentos facebookianos

I.

Começa chamando crença religiosa de conhecimento. Termina com fake news substituindo a realidade.

Vai, brinca de ser pós-moderno.


II.

Toda alegorização do texto bíblico visa a alguma espécie de manipulação, e sempre se dirige a pessoas sem conhecimento de causa.


III.

A estupidez da massa evangélica, estatisticamente, pelo menos metade dela, revelou-se-me quando os seus primeiros líderes-jumentos acusavam todo mundo de liberais. Ali dei-me conta de que estava diante da gente mais imbecil do mundo religioso...

A teologia liberal foi, como evento datado do final do século XIX e início do XX, uma tentativa de "salvar" os cristianismos para aqueles que ainda haviam preservado pelo menos dois neurônios. Era impossível para quem decidia levar-se a sério, bem como a religião, admitir doutrinas religiosas como veículos de qualquer tipo de verdade ou revelação, porque não eram nada além de criações culturais. Doutrina é mito. Ponto.

Mas como pretendiam salvar assim os cristianismos? Eles pensaram em um jeito de, ainda que admitindo tratar-se as doutrinas de mito, haver garantias da presença de Deus entre eles. E como acharam uma solução? Os sentimentos: Deus está presente entre o povo crente e a prova são os sentimentos, a experiência profunda, não mediada pelas doutrinas, mas pela experiência aqui e agora...

Ora, qualquer ameba pré-Mobral sabe que toda essa segunda parte é o discurso evangélico brasileiro, sem tirar nem por: a experiência, os sentimentos, o culto, que faz chorar, essa é a prova da verdade e da presença de Deus... Todas as igrejas evangélicas são liberais: todas, sem exceção, e vinha a besta de Jesus me falar que os liberais são hereges... Eu percebi que tinha diante de mim um ignorante, um celerado burro até o tutano, ou um canalha sem-vergonha. É exatamente esse tipo de crente que está com o candidato fascista: metade gente burra, metade gente canalha.


IV.

Eu não estou em casa. Esse mundo não é meu. Esse mundo não é meu mundo. Pariram-me, sem me dizer se queria, e eu não queria. Não nesse mundo. Que mundo é esse de experimentar medo? Que mundo é esse de desejar o medo nas pessoas, de querer feri-las? Não, não estou em casa.


V.

Primeiro, admitir, sim, que temos medo.

Segundo, a despeito do medo, dizer que estamos de pé, firmes, e que resistiremos, haja o que houver.

Terceiro, dizer que, se nós mesmos não formos vítima direta da violência, mas nossos compatriotas forem, tomarem sua defesa como nossa obrigação e honra.

Quarto, dizer que venceremos, de um jeito ou de outro.

Quinto, dizer que não haverá paz para quem for desumano, degenerado, racista, homofóbico, misógino: um formigueiro há de comer a sua carne.


VI.

O cristão típico perdeu, se algum dia teve, a capacidade de aprender, de estudar, de avaliar. Sua mente opera única e exclusivamente na reprodução de suas doutrinas, de sua cosmovisão, do que ele assumiu como dogmática verdade divina.

Por exemplo: ele é capaz de tomar textos de diferentes épocas, um de 2.700 anos, um de 2.400 anos, um de 2.000, juntar tudo isso e ler a partir do sermão dominical, como se as palavras de todos esses textos significassem a mesma coisa.

A teologia faz isso. Mesmo a alta teologia. Quando esse procedimento chega ao púlpito, já chega deteriorado. Na cabeça do cristão médio, é chorume puro.

O mais difícil de ser exegeta em um mundo teológico é que as pessoas acham que você está fazendo o que elas fazem.


VII.

Ah, amigos meus que detratavam dia e noite a Modernidade como violência... Ah, os delírios fantasiosos, psudeoutópicos (porque lisérgicos)... Jogaram fora os princípios da racionalidade e o que temos é um estado dantesco, uma aberração social, uma depravação ético-moral contra a qual não se pode argumentar, porque a racionalidade moderna não tem nenhum lugar nesse status quo... Meus amigos devem estar todos alegres, felizes, pelo fato de a Modernidade ter sido finalmente vencida em solo brasileiro...


VIII.

A facada é fake,
Os fakes são fakes.
A família é fake.
Menos a fortuna.





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 6 de maio de 2019

(2019/016) Entre a vergonha e o crime

1. Acertadamente, Hegel propôs que a questão da caridade cristã seja assumida pelo Estado - isto é, que se torne uma responsabilidade da sociedade a erradicação da pobreza. Isso tem, em números redondos, duzentos anos.

2. Pois bem: um país que não erradica a sua pobreza é um país cuja sociedade não erradicou a sua pobreza. Esse país encontra-se em vergonha. O Brasil não erradicou a sua pobreza. O Brasil é um país em completa vergonha.

3. Um país que podia ter resolvido a questão da pobreza, erradicando-a, não se encontra em vergonha, mas em estado criminoso. O Brasil podia - e pode - ter erradicado a pobreza. N]ao p vez. O Brasil é um país criminoso. A sociedade brasileira jaz em crime há 500 anos.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO




sábado, 4 de maio de 2019

(2019/015) Por que o cristianismo nega o sacerdócio às mulheres?

1, 99,9% dos cristianismos não ordenam mulheres ao sacerdócio. O mesmo se dá no Islã. No Judaísmo, a coisa não é nada muito diferente. Por quê?

2. Você vai ler por aí que se trata da batalha homens versus mulheres. Mas muitas outras religiões ocidetais, ou no Ocidente, não seguem essa interdição - as religiões de matriz africana, por exemplo, desconhecem essa briga "homens versus mulheres". Uma das mais famosas líderes budistas brasileiras é uma mulher...

3. Esboço um explicação. Primeiro, tenha-se em mente que em Israel e em Judá, antes do século VI a.C. havia tanto sacerdotisas quanto profetizas. Na Grécia, idem. O mais famoso oráculo grego era uma mulher. A importância da liderança religiosa feminina era tão grande em Judá que o texto da suposta reforma de Josias precisa situá-la no contexto de uma consulta à Hulda, a profetiza. 

4. De repente, elas desaparecem de Judá. Isso se dá quando os sacerdotes assumem o poder. Nesse período, desaparece quase que por completo a profecia, e as mulheres são interditadas ao ofício religioso. O serviço foi tão bem feito que a presença de uma apóstola entre os seguidores de Jesus deixa muito teólogo diplomado constrangido, e é do desconhecimento praticamente total dos cristãos de banco de igreja.

5. Parece seguro afirmar que os sacerdotes de Judá foram os responsáveis por impedir que as mulheres pudessem ser profetizas e sacerdotisas. A questão é como fizeram isso.

6. Bem, a ação política se dá em dois níveis: no curto prazo e no longo prazo. No curto prazo, primeiro se toma a faculdade do oráculo, passando a afirmar que quem é o mensageiro de Yahweh são os sacerdotes (Malaquias 2,7), e, em segundo lugar, prescrevendo o fim categórico da profecia (Zacarias 13). Morte aos profetas! Há quem interprete essa passagem muito convenientemente como se tratando de "falsos profetas". Mas essa é uma questão ridícula, naturalmente...

7. No longo prazo, é preciso convencer as próprias mulheres que elas são indignas. Como isso foi feito? Minha resposta - e risco: Levítico 15. A menstruação foi usada como argumento, sendo transformada em universal causa de imundície feminina e, por isso, condição interditante para o ofício religioso. 

8. Escrevi sobre isso em um artigo publicado pela Revista Brasileira de História das Religiões e não vou desenvolver o argumento aqui. Mas uma lei existente, na qual homens e mulheres podiam incorrer igualmente em situações de interdição ritual foi transformada em uma lei em que a menstruação é causa de imundície. Na lei, ainda hoje, permanecem o fato de que homens que ejaculam, têm doenças venéreas e fazem sexo ficam igualmente imundos, mas isso certamente você jamais ouviu na igreja. Um pastor que faça sexo com sua esposa não se considera imundo, conquanto considere compreensível que a menstruação seja tratada como imundície. Para mim, os sacerdotes transformaram a lei em um instrumento de argumentação quanto à condição imunda da mulher, com isso impedindo-as de exercerem o ofício religioso. Em 500 anos, a lei já estava tão aprofundada na cultura, que você conhece a cura de Jesus da mulher com hemorragia menstrual, mas Jesus não precisou curar nenhum homem que ejaculou ou fez sexo, porque essa parte da lei foi simplesmente descartada do uso político, ao passo que a parte da lei que tratava da menstruação tornou-se a coisa mais importante das relações de pureza.

9. Por que hoje não se repete que a mulher não pode ser pastora, madre, o raio que o parta, porque menstrua? Porque depois de algum tempo ensinando as meninas, as jovens, as mulheres e as velhas que elas são intrinsecamente imundas, não se precisa mais dar a razão: todo mundo sabe que a mulher é imunda e pronto. Mas, no começo, elas não eram. Por isso, os sacerdotes tiveram que inventar uma forma de fazê-las ter de si essa imagem, que perdura até hoje.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 2 de maio de 2019

(2019/014) Sobre lesbianismo em Assassin's Creed Odyssey

1. Assassin's Creed Odyssey, o último jogo - e mais fantástico de todos - da série Assassin's Creed inovou: você escolhe se jogará com uma personagem masculina ou feminina. Escolhi feminina, a Kassandra (nome e fisionomia são fixos).
Kassandra, Assassin's Creed: Odyssey, 5K

2. As implicações são curiosas. Porque tanto o personagem masculino pode ter relação amorosa com homens quanto a feminina, com mulheres, além, claro, das relações hétero de parte a parte e, mesmo, as múltiplas. Ou seja, você decide se o personagem vai ser hétero, homo ou bi.

3. Escolhi que Kassandra seria lésbica. Como virei o jogo três vezes já, estando no segundo Novo Jogo +, na primeira vez ela foi comportadinha, e só ficou com Kyra. Nessa terceira vez, pegou todas (também porque eu queria ver como eram as cenas). Na verdade, não foi com todas. Com quase todas.

4. Há gente resmungando. Não joga, ora bolas! A única coisa que eu achei meio chata, mas compreendi, é que tive de ter um relacionamento hétero com um carinha, um zé arruela sem nenhum carisma - uma couve-flor tem mais carisma que a porcaria do carinha. É que ela precisava ter um filho, para manter a saga. E eram os dias gregos de 430. Logo, nada de tubos de ensaio. É ao modo natural mesmo. Mas ela deixou claro para o carinha que era assim, coito ao modo católico, se me entendem... E depois ele morreu, o filho foi embora e ela está, de novo, na pista...

5. Tem mesmo uns manés. Nos fóruns, gente reclamando que eram forçados a relacionamentos homo. Mentira. As opções que surgem permitem que você simplesmente diga não. Há xis casos previstos, de ambos os sexos. Quando você interage com esses personagens previamente marcados como potenciais crushs, você diz sim, vamos lá, ou não, não rola. Ninguém é forçado a nada - salvo quando tem que "casar" com aquele xarope sem sal, oh sujeitinho sem feeling, sem sex appeal, sem água, sem vida. Mas tem lá os frustrados enrustidos resmungando...

6. Sei que o que e vou falar é uma besteira, mas não tive nem tenho problema nenhum com Kassandra beijando as minas no jogo (é o máximo que você vai ver). Em The Witcher 3, jogo putamerdamente fascinante, tem cenas tórridas, de nu, mamas, tanto masculino quanto feminino, e cenas demoradas e elaboradas. Em ACO, cenas de meio segundo e meio, um beijo e mais nada... Bah... Mas, se eu tivesse nascido mulher, seria lésbica. Essa gente mal resolvida sexualmente é que emperra a fila do pão...







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2019/013) Fragmentos facebookianos

I.
Todo aquele que nos últimos anos ensinou que não podemos ver nada objetivamente, mas apenas nos termos de nossa própria ideologia, e assumiu essa como sendo a condição sine qua non humana, é um pouco culpado por tudo que ocorre hoje. Porque os fatos objetivos estão aí, para qualquer um que queira ver. Mas, segundo essa plataforma miserável, pós-moderna, contra-materialista, contra-objetiva, cada um é o que sua ideologia faz dele e vê o que sua ideologia permite, o que torna totalmente inútil tanto o conhecimento quanto o diálogo.

Eu os culpo. Eu culpo você. Porque, por sua culpa, fake news e verdade são a mesma coisa.


II.

Não reclame dos alienados religiosos de direta, se você produz alienados religiosos de esquerda. Lute pela autonomia.


IV. Fenomenologia do abacate.

Verde...
Verde...
Verde...
Verde...
Verde...
Verde...
Maduro, corre!
Podre...


V.

Ele é único e é o Único. Ele não reconhece nenhuma autoridade acima dele. Quem o apoia, ele recompensa. Quem não o apoia, ele tortura.

Bolsonaro? Não, estou falando do deus da Teologia cristã.


VI.

Em O Marxismo ocidental. Domenico Losurdo desmonta impiedosamente a recepção de Marx e a leitura conjuntural que fazem expoentes do marxismo Ocidental. Como Domenico Losurdo mata a cobra e mostra o pau, ou seja, cita o que o expoente disse e mostra o que está escrito no texto que aquele diz interpretar, eu me pergunto: esses filósofos não sabem ler, possuem traduções tão ruins quanto as da Bíblia ou simplesmente deturpam ideologicamente o que está escrito, para poderem comprar sorrisos do mercado editorial?


VII.

A dimensão mitológica da religião é um lixo só: não há nada aí que se aproveite para a perspectiva da cidadania, por mais esforço que mil e oitocentos junguianos exerçam para fazer chorume virar refresco. Salva-se, na religião, com severíssimas críticas, a dimensão ética: um sistema de tentar fazer pessoas viverem como gente civilizada. Modernamente, ou a religião é um sistema de produção de valores ou é lixo, serve para alienação e mais nada.

Ora, esse cristianismo miserável de bolsonarianos serve para quê? Não tem nenhum valor enquanto mitologia e perdeu todo o valor ético, tornando-se aberração ética, desgraça ética, lixo ético.

Favor levar para o lixão mais próximo.


VIII.

Reparem como Ditaduras e Igrejas são muito parecidas: a primeira coisa que fazem é calar a crítica. Sempre em nome de Deus.





OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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