segunda-feira, 21 de outubro de 2019

(2019/027) Fragmentos Facebookianos de há um ano

I.


Você admite agora que os cristianismos falharam. Eu admiti quando refleti sobre o significado ético do monoteísmo.


II.

"Vós sois a luz do mundo e o sal da terra"... Cortaram a luz e é o tal "sal do Himalaia"...


III. 

Teu Lula tá preso!

Teu Cristo também foi preso, seu burro, e executado. Nasceu burro assim ou foi chá de Bolsonaro?


IV.

Algum ano da década de 80. No final. 89, 90, talvez 91. Era um retiro. Povo cantou "O nosso general é Cristo" e eu tinha a palavra para falar alguma coisa. "Profeticamente", eu disse que aquela letra expressava um absurdo incomensurável, que a letra representava o abandono de toda a tradição cristã ocidental moderna, pautada em avanços retóricos de justiça, fraternidade, acolhimento. Uma voz no deserto. Um silêncio sepulcral. Desprezo total...

Era, já, a invasão da desgraça veterotestamentária na fé evangélica. Os textos nazistas do Antigo Testamento (Josué é um livro nazista, do início ao fim) invadiam a linguagem cristã. Ao mesmo tempo, sem que eu soubesse, nos morros do Rio de Janeiro, na prática, igrejas evangélicas e traficantes faziam uma dupla combinação: lavagem de dinheiro e coligação para expulsão dos terreiros do povo de santo, fenômeno a que fui apresentado apenas dez anos depois...

Perguntem-me, agora, se me espanto com a degeneração total da igreja evangélica? Não. Não me espanto. Esperava por ela. Denuncio-a há vinte anos. À toa. Nunca sou ouvido. E que se danem.

A única coisa que realmente lamento, e não é a degeneração dessa igreja, porque, para mim, evangelicalmente, se tornou imprestável, joga-se fora, e eu fiz isso, joguei fora sem dó, é o fato de que, ao mesmo tempo, essa massa apodrecida foi manipulada para a política de fato, e os missionários de um Jesus Diabo decidiram imiscuir-se na vida da sociedade, paus mandados, vacas de presépio, idiotas de empresários e políticos interessados e comprometidos com os piores valores civilizatórios que se puderem imaginar. Isso, sim, me preocupa. Mas a desgraça da igreja evangélica não me afeta. Há muito dei adeus a esse movimento que se perdeu, se deteriorou, apodreceu, deu bicho e fede pelas ruas.


V.

"O meu reino não é desse mundo" foi uma das primeiras feikinius dos cristãos de bem... Nasceu com DNA de traíra esse negócio...







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2019/026) Sobre traduzir e interpretar a Bíblia


Na minha opinião, os procedimentos mais relevantes para a tradução e a interpretação da Bíblia são.

A. Para a tradução

1. Domínio da imagem mental autoral plasmada no texto
2. Domínio da Língua Portuguesa
3. Domínio da cultura teológica da Bíblia
4. Domínio do Hebraico

B. Para a interpretação

1. Domínio da imagem mental autoral plasmada no texto
2. Domínio da Língua Portuguesa
3. Domínio da cultura teológica da Bíblia

Na minha opinião, o maior problema das traduções é errar grosseiramente a ideia mental autoral plasmada no texto e findar por traduzir a ideia mental que está na cabeça do próprio tradutor. 

E, na minha opinião, o principal prolema da interpretação é igualmente não dominar a ideia mental autoral plasmada no texto.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

(2019/025) Sobre a presunção de professores de Bíblia

Quem precisa de um bombeiro, espera que ele saiba apagar o fogo. Ele diz: eu apago fogo, e ninguém interpreta isso como presunção. Na verdade, todos esperam que ele não seja um falastrão, e que realmente saiba apagar o fogo. 

O mesmo vale para todas as profissões de que a sociedade se serve e das quais precisa: medicina, segurança, transportes. Quando o carinha do Uber diz que sabe chegar em Cariacica, quem quer ir para Cariacica realmente espera que o carinha saiba mesmo chegar em Cariacica, e jamais passará pela cabeça do cliente tratar-se de presunção...

No caso de professores de Exegese isso não se dá assim. Não importa o quanto você diga e faça, o quanto mostre, com mil exemplos, os alunos parecem achar que você não vai além de uma caricatura presunçosa... 

Alguém há de retrucar: é, mas o bombeiro vai lá e apaga o fogo. Isso significa que o problema do professor de Exegese é que não há um fogo objetivo que objetivamente possa ser apagado, o que seria a prova de que ele sabe apagar o fogo. Como a interpretação que os alunos esperam receber da Bíblia e a que recebem todos os dias por todos os lados é a interpretação doméstica, quando o professor de Exegese faz a interpretação histórica, esta é percebida pelo aluno como algo no mínimo esdrúxulo, e tudo quanto o professor diz cai por terra.

O problema do critério de quem usa a Bíblia é que este se resume ao púlpito ao ao "Olavo de Carvalho" da vez. Esse povo não entende absolutamente nada de Bíblia e Exegese, mas parte do pressuposto que tem todas as respostas. O Roger deu, ontem, na entrevista... Uma desgraça.

Bem, não estou disposto a ceder. Exegese é Exegese, sejam os dias esses desgraçados dias em que vivemos... Quando essa febre de retardamento cognitivo tiver passado, talvez se deem conta do quanto perderam, do quanto estavam cegos, surdos... Pena que não mudos....






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

(2019/024) Sobre porque tradutores da Bíblia há que nos induzem a erro

Bem, traduzir a Bíblia não é difícil. Pelo contrário, é até relativamente fácil, quanto mais dispõem-se hoje de excelentes software especializados. Difícil mesmo é interpretar a Bíblia. E essa é a razão pela qual a esmagadora maioria dos tradutores da Bíblia nos induzem a erro. Penso sinceramente que a maioria nem o faz por mal, mas por incompetência mesmo. 

Não me entendam mal. Há até alguns pilantras metidos no processo de tradução comercial das Bíblia, gente que vive disso, e não estão lá muito preocupados com qualidade, mas a maioria dos tradutores é gente muito estudada, treinada, especializada. Há doutores em hebraico. O problema não é a língua em si - nenhuma língua é realmente um obstáculo intransponível. O problema é a compreensão do que o escritor disse.O problema da tradução é a hermenêutica.

O grande problema da esmagadora maioria das traduções bíblias é que o tradutor não consegue alcançar a imagem que estava na cabeça de quem escreveu. A missão do tradutor é traduzir em palavras da língua para a qual o texto está sendo traduzido a mesmíssima imagem mental que, tendo estado na cabeça do escritor, plasmou o texto na língua que está sendo traduzida. O texto em tradução é o resultado da ideia mental de uma pessoa, ideia constituída de imagens, como tudo que ocorre no cérebro humano, na mente humana. O tradutor deve apreender essa imagem, servindo-se para isso do texto na língua que vai traduzir, e, apreendendo-a, plasmá-la agora na língua para a qual está traduzindo o texto. 

Em termos práticos, o tradutor l~e o texto que deve traduzir, e imediatamente a imagem associada a essa leitura aparece em sua mente, e ele, então, converte essa imagem em uma texto na língua para a qual está traduzindo o texto. No caso dos textos bíblicos, o tradutor tem enorme dificuldade de apreender a imagem mental do autor associada ao texto em tradução, mas, como é impossível ler um texto sem estabelecer imagens associadas, a imagem que ele cria em sua mente não tem nada a ver com a imagem da mente do autor, de sorte que o que acaba ocorrendo é a "tradução" inadequada. O texto acaba que não é uma tradução realmente, mas um outro texto.

Poderia dar inúmeros exemplos. A imagem que aparece na mente do tradutor do Sl 53 não tem absolutamente nada a ver com a imagem que estava na cabeça de quem escreveu o salmo. Nada. A imagem que está na cabeça das centenas de tradutores de Pr 30,4 não tem nenhuma - absolutamente nenhuma - relação com a imagem que estava na cabeça de quem compôs a charada que ali está. Nada. E isso vale para praticamente todos os textos da Bíblia. 

O caso se torna mais grave. Uma vez que a imagem que se forma na cabeça do tradutor não tem nenhuma relação com a imagem original autoral que controla a função de cada palavra do texto, sendo então incompatíveis a imagem produzida pelo tradutor e o texto que ele traduz, ele não consegue encaixar a imagem que tem na cabeça com as palavras do texto. Então, o que ele faz? Altera o texto. De novo, poderia dar inúmeros exemplos. O Sl 53 que mencionei acima é uma vítima triste desse fenômeno, e o mesmo se pode dizer de Pr 30,4, mas isso ocorre em absolutamente todos os casos.

Quando dou aulas, mostro aos alunos, que ficam absolutamente estupefatos e, céticos alguns, me perguntam como podem todos os tradutores estar errados... Como eu acabei de mostrar, com evidências que qualquer aluno de graduação pode facilmente avaliar, não há como responder. Outra pergunta é por que ninguém corrige. A resposta é triste. Alguma coisa entre muito pouca gente está realmente habilitada a flagrar o problema (principalmente depois de ter virado moda a morte do autor) e as editoras não estão nem um pouco interessadas em alterar um fetiche que vende - qualquer tentativa de alterar o padrão estabelecido, a partir do qual corpos e mentes são controlados, a editora enfrentará a reação violenta de líderes e liderados. Já aconteceu.

Game over.

Traduzir a Bíblia hoje é um ato de subversão e rebeldia. Sapere aude... Tristes dias em que para se bem traduzir a Bíblia é-se necessária distância da igreja...







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2019/023) Como assim, desconstruindo a Bíblia?

Dou aulas de Teologia desde 1993, e, de Exegese, há pelo menos 20 anos. Desde sempre, no início menos, hoje mais, ouço que minhas aulas - e, de resto, de professores acadêmicos de Bíblia (raros, já que a maioria trabalha para a igreja e a doutrina) - desconstroem a Bíblia. Uma ou outra vez algum aluno abandonou o curso e alegou que não pode ver a Bíblia ser desconstruída. Mas mesmo os que ficam até o fim brincam sobre isso: não sobra nada na Bíblia, caçoam...

Bem, é falsa a declaração, sejam sérias, sejam brincalhonas. Falsa como quem diz que a religião melhora as pessoas. Nem a religião melhora as pessoas, apenas as controla, mas, quando ela se vai, eles se tornam piores do que eram, nem as aulas acadêmicas de Bíblia (se são aulas mesmo) desconstroem a Bíblia. O que ocorre é que aquilo que o aluno aprendeu vai pro ralo, porque aprendeu tudo errado. A ideia que ele fazia da Bíblia, o que lhe ensinaram, o que lhe disseram, o que lhe juraram, nada disso tem substância, fundamento e veracidade. Pode ter valor para a denominação religiosa, para rotinas de controle social, mas, do ponto de vista histórico, estão completamente erradas.

Trata-se da Tradição. É ela quem se esboroa, como pau comido por cupins. Vira pó. É que a Tradição é como o resultado de anos e anos e anos de terremotos, e os escombros vão cobrindo, ininterruptamente o chão. Para você realmente enxergar a Bíblia, tem de tirar todos esses seculares e milenares escombros, camadas inteiras, entulho, lixo. No final, o que você vê é tão radicalmente diferente da ideia que você fazia, da catequese, das doutrinas, daquilo pelo que você mataria e morreria, que sua defesa é dizer que a Bíblia foi desconstruída...

Uma analogia. Você casa com uma mulher. Diz que a ama. Tem fotos dela. Exibe-a nas redes sociais. Desfila com ela. Ela é uma santa. Tem a pureza do limão do Djavan... Um belo dia, contam a você que, na verdade, ela já era casada, tinha sete filhos, chamava-se por outro nome, e era funcionária de um prostíbulo bem frequentado na Augusta. Sua esposa foi desconstruída? Não. Ela é e permanece quem sempre foi. A ideia que você tinha dela é que se revelou falsa. O que você fará dependerá de seus reais sentimentos: a) se você realmente a ama, então não importa o que descobre sobre ela, ainda a amará; b) mas se na verdade você amava apenas a ideia que fazia dela, quando descobrir quem ela realmente é, passará a odiá-la. Ou ainda ocorrerá uma terceira situação: c) o tonto que lhe vier a dizer quem realmente sua esposa é, na tentativa de lhe tirar de sua situação de alienação cognitiva, há de ser objeto de seu mais profundo desprezo e ódio, e você fingirá que sua esposa não é quem ela realmente é, mas a ideia que você fez dela, e continuará amando a miragem, desfilando com a miragem, ostentando a fantasia...

Ah, e funciona.





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

(2019/022) O que não se fala é que ideologia até cega, mas dá olhos também

Fato: ideologia cega. Assim, quando se está interpretando um texto, a ideologia pode fazer com que cada palavra desse texto e todo o conjunto de palavras que o constituem sejam moldados para expressar o conteúdo prévio da ideologia do intérprete. 

Ler ideologicamente - e cegamente - ocorre na maioria das vezes, quando o leitor se entrega passivamente às páginas ou à tela. No modo automático, por assim dizer, o cérebro do leitor atualizará a polissemia textual nos moldes da ideologia que está latente na mente do intérprete. 

Discute-se se sim ou não, e minha posição é sim, é possível sim, uma mente treinada e ativa pode contornar a própria ideologia, e entrar em sintonia com a ideologia do texto, isto é, do autor do texto, sem que uma e outra se choquem a ponto de uma impedir a manifestação da outra. Há quem diga que não, mas essas pessoas que dizem que nenhuma leitura está desprovida da ideologia do intérprete devem satisfação a elas mesmas e a nós por que cargas d'água então tentam fazer os outros entender que os outros só podem entender o que eles mesmos querem, e nunca e jamais o que um comunicador quer... ou não é isso que esse pessoal diz? E se não é, é o que então, cara pálida?

Voltando ao enredo: a ideologia pode cegar, mas é possível contorná-la, com trabalho, treino, dedicação. Mas há outra coisa a ser dita: a ideologia ilumina também. A ideologia pode ser a responsável por fazer com que o que vem sendo sistematicamente ocultado em um texto seja iluminado. Se o leitor não estivesse carregado dessa ideologia específica que permite iluminar determinado aspecto dos textos, é provável que aquele aspecto iluminado permanecesse nas sombras por ainda um longo tempo.

Um caso: a questão de gênero. Sim, concordemos: a ideologia de gênero pode cegar e produzir leituras "de gênero" que acabem forçando os textos. Era o que ocorria com alguma frequência com determinadas leituras da Teologia da Libertação, que procurava ver "pobre" em tudo, e é o que pode ocorrer com qualquer ideologia. No entanto, a ideologia relacionada à perspectiva de gênero pode funcionar de modo inverso: uma determinada questão presente em um texto pode estar sendo ocultada por décadas, séculos e milênios de leitura machista, e, nesse caso, é justamente porque está com os olhos bem arregalados para a questão de gênero que determinada pessoa pode, ao contrário das demais, identificar essa precisa questão ali onde todo mundo está cego. A ideologia pode, então, iluminar, tanto quanto cegar.

Para o que me interessa, o importante é que, depois da iluminação, a pesquisa se dê o mais tecnicamente possível, sem forças os dados, sem estuprar o texto. A ideologia deve aguardar o trabalho técnico, o menos ideológico possível, para, então, de posse dos resultados, dizer a que veio.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 19 de julho de 2019

(2019/021) Religião e ética - só conheço duas possibilidades


1. Só conheço duas formas possíveis de lidar eticamente com a religião. Nos dois casos, trata-se de considerar as religiões, todas as religiões, da mesmíssima maneira.

2. De um lado, pode-se tratar todas as religiões como se trata a própria. Se a pessoa tem uma religião, então deve aplicar a todas as demais os mesmos critérios de avaliação geral que aplica à sua: seu deus existe, então, a despeito do que sua religião diga dos outros deuses, você mesmo dirá que existem, porque, se o seu existe, então os deuses das outras religiões existem também. Se um religioso diz que seu deus existe, mas os deuses das outras religiões, não, então esse religioso é um bom filho de doutrina, mas um péssimo representante da ética humana.

3. Outra possibilidade é tratar todas as religiões como criações da cultura, logo, invenções humanas, considerando-se igualmente os deuses, todos, como também invenções humanas. Não é que uma pessoa assim terá de deixar de ser religiosa. Ela pode continuar sendo religiosa, mas será uma pessoa religiosa de um tipo totalmente diferentes dos religiosos que hoje caminham pelas ruas, porque estes acham realmente que os discursos de sua religião são descrições mesmas e reais da realidade, e não são: são mitos interpretativos, construídos não pelos próprios religiosos, mas pela elite histórica. O mais comum, todavia, é que quem assim considere o conjunto das religiões assuma uma forma não religiosa de vida.

4. Como eu disse, desconheço outra forma de ser ético, ao lidar com as religiões. Conheço poucos religiosos éticos. Realmente poucos. Agora, é bastante mais fácil para não monoteístas serem, então, ao mesmo tempo, religiosos e éticos. O problema mesmo, se não a impossibilidade, é o caso do religioso monoteísta. Há até casos de pessoas que, nas ruas, aparentemente, mesmo sendo monoteístas, recebem amorosamente não religiosos ou não monoteístas. Mas quando falam na igreja, quando leem a Bíblia, expressam o discurso exclusivista que desgraçadamente está marcado naquele livro e naquela tradição. É uma contradição. E essa contradição se deve à insuficiência da operação que se iniciou na mente desse religioso: é preciso derrubar ainda mais fundo a masmorra em que se vivia...







OSVALDO LUIZ RIEIRO

quarta-feira, 3 de julho de 2019

(2019/021) Discurso de Paraninfo à turma de formandos de Teologia 2018 da Faculdade Unida de Vitória



Sobre um sal que não salga mais



Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens (Mateus 5,13). 


Há tantos séculos os cristãos experimentam a religião como ética e moral que dificilmente se dão conta de que religião é uma coisa, e ética e moral, outra. E não se pode dizer que se trata de uma percepção do cristão médio apenas. Mesmo os mais progressistas cristãos operam, hoje, o conceito de cristianismo como ética pública. Para muitos pensadores contemporâneos que articulam reflexões acerca da religião ocidental, a realização última do cristianismo seria a sua transformação em plataforma ética universal. Nesse caso, ser cristão seria agir publicamente com responsabilidade ética. Frequentar ou não templos seria apenas uma idiossincrasia sem maior relevância... Nesse sentido, e nos termos daquelas reflexões, em última análise, o cristianismo constituiria um sistema ético, dentro do qual se pode ou não oficiar ritos e experimentar-se a mística.

Não é, todavia, o caso de toda religião. Mesmo no Brasil, há religiões que não se confundem com sistemas éticos, muito menos se submetem a sistemas éticos que lhe seriam superiores em termos de conjunto. São sistemas de rito e mito que se mantêm minimamente independentes dos sistemas de ética pública e moral privada. Não é que seus adeptos não estejam preocupados com ética e moral. Estão. Tanto quanto ou até mais do que cristãos, eventualmente. Mas estão preocupados com ética e moral enquanto sistemas de ética e moral, e não como derivado filosófico de sua matriz religiosa. Para esse tipo de compreensão da realidade, religião é religião, ética é ética, e cada sistema opera em seu próprio momento e lugar.

Desde pelo menos o Novo Testamento que está assentada a máxima de que o deus cristão é bom e que, sendo bom, dele só pode vir o que é bom. O deus cristão não apenas age com amor, como se confunde com o próprio amor. O deus cristão é, acima de qualquer outra coisa, um deus ético. Pode-se tentar encontrar as origens dessa configuração teológica na crítica profética, por exemplo, e é mesmo o mais comum de se fazer. Para isso, assume-se que o deus cristão é o mesmo deus dos israelitas e judaítas bíblicos, e considera-se que, se Amós diz “corra o juízo como as águas, e a justiça, como o ribeiro impetuoso” é porque Yahweh era um deus justo e ético no Antigo Testamento, tanto quanto o é no Novo Testamento, e até hoje, considerando-se assim que Yahweh é o mesmo deus dos cristãos. Nesse caso, a ética cristã seria apenas o desdobramento da ética profética, e isso explicaria porque o cristianismo constituiria, em última análise, um sistema de valores públicos.

Há, todavia, um problema aí. Uma passagem de Isaías é reveladora de quão problemática é essa vinculação entre o deus do Antigo Testamento, o deus do Novo Testamento, o deus cristão e o cristianismo como sistema ético: “eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Is 45,7). No texto, “o Senhor”, isto é, Yahweh, afirma que é ele quem faz o bem e o mal. Os termos são shalom e ra’. Traduzimos shalom como paz. Para a cultura brasileira, paz é ausência de conflito. Para a bíblica, não: shalom é o oposto de ra’. Ra’ é desgraça, tragédia, acontecimento ruim. Não é a expressão abstrata do mal, mas a desgraça concreta da vida: fome, doença, morte. Shalom é o oposto disso. Shalom é o conjunto ótimo das condições necessárias à boa vida. Nascer uma criança e morrer uma criança, nascer de alegria e morrer de dor, as duas coisas, Yahweh diz, é ele quem faz. Yahweh não é um deus ético. É um soberano. Um soberano que está acima de qualquer lei, de qualquer injunção. Ele faz a luz e a treva, ele cria a bonança e a desgraça, ele dá e ele toma, ele faz o que lhe dá na telha, ele é dono único de seu nariz, ele não presta contas a ninguém. Se faz o bem? Claro. Um soberano faz o bem. Mas faz o mal também? Ah, sim, faz, e quando quer. Yahweh é, ao mesmo tempo, bom e mau. Ou, dito de outra forma, Yahweh não é nem bom nem mau: é soberano.

Isso até que os persas ensinassem aos judaítas que um mesmo deus não pode ser, ao mesmo tempo, bom e mau. Esse acontecimento, isto é, o encontro da teologia judaíta com a teologia persa mudou radicalmente e para sempre a teologia judaíta. Yahweh foi “castrado”, perdeu sua soberania, tornou-se um deus bom, e só bom. Nesse dia, a religião foi capturada pela ética, e o cristianismo vive ainda esse dia. Nasceu nele, cresceu nele, e nele permanece. 

É por isso que os pensadores contemporâneos reduzem o cristianismo a um sistema de ética pública. Quando se vai fazer a redução de um sistema a sua essência, quer-se perguntar pelo que há de significativo nele, e o que é residual e até dispensável. Como, no cristianismo, gravitam duas estrelas, a religião e a ética, quando se pergunta o que é mais relevante para a sociedade, é óbvio que a resposta é a ética. Por isso, reduz-se com tanta facilidade o cristianismo a injunções éticas, no campo progressista, e morais, nos reacionários. No fundo, duas faces da mesma operação, dois momentos daquele mesmo dia, que começou quando Yahweh trouxe o rei persa, Ciro, pela mão...

Nesse sentido, compreende-se que se tenha dito que “sois o sal da terra”. Há aí uma injunção ética imposta aos adeptos da religião. “Sois sal”. Reduzida a sal, a religião deve servir para salgar. O cristianismo deve salgar, então, já que é sal. Mas, e se não serve mais para salgar? E se o cristianismo se torna uma religião ideologicamente pervertida em termos éticos? E se o cristianismo passa sua existência a maldizer os deuses de outras pessoas? Esse sal presunçoso serve para salgar? E se o cristianismo institui a escravidão negra moderna e vive dela? Esse sal escravagista serve para salvar? E se o cristianismo mantém a misoginia que recebeu de judeus e de gregos? Esse sal misógino serve para salgar? E se o cristianismo assume como pecado a homossexualidade? Esse sal homofóbico serve para salgar? E se o cristianismo deixa-se instrumentalizar por políticas e valores ultra-neo-liberais, a ponto de por a serviço da entrega da nação e da usurpação de direitos suados de trabalhadores e trabalhadoras? Esse cristianismo fascista serve para salgar? E se o cristianismo recusa a ciência em nome de dogmas caducos e mitos sem pé nem cabeça? Esse cristianismo obtuso e ignorante serve para salgar?

Quando o cristianismo se assume como um sistema de valores, como um sistema de ética pública, é por meio de critérios éticos, públicos, universais e plurais que deve ser julgado. Se o cristianismo for assumido de fato como um sistema ético público, então sua ética precisa ser uma ética que leve em conta as questões públicas, a partir da perspectiva pública e com base nos atores públicos. Não é compreensível que um sistema que se considere ético constitua base para aviltamento de religiões, mulheres, negros, homossexuais e pobres. Um cristianismo fascista assim é um sal que não serve mais, que não salga mais, que deve ser jogado às ruas para ser pisado não apenas por mulheres, negros e homossexuais, mas também por todos os homens éticos.

Sois sal. Ainda há serventia no sal que sois?
_____

Discuso proferido sexta-feira, dia 28/06/2019, às turmas de formatura em Teologia da Faculdade Unida de Vitória.





Osvaldo Luiz Ribeiro

quarta-feira, 12 de junho de 2019

(2019/020) Como ler a Bíblia?

Quando alguém me pergunta como se deve ler a Bíblia, qual é a forma correta de ler a Bíblia, percebo que se está, ainda, a pensar fora da perspectiva pragmática. A pergunta "como se deve ler a Bíblia?" está totalmente fora da perspectiva pragmática - ela se pensa em termos únicos, absolutos, normativos.

A questão tem que ser posta em perspectiva. O que é que você vai fazer? Ler a Bíblia, ora. Sim, isso está claro, mas a sua leitura da Bíblia tem que objetivo? É aqui que reside toda a questão. O que é que você vai fazer com essa leitura da Bíblia? O que é que você realmente quer com essa leitura da Bíblia?

Há três respostas, e penso que apenas três, possíveis.

1. Vou virar os olhos de gozo! Leitura estética. Não há forma correta nem forma errada. Se a leitura é estética, se é para fruição pessoal, lê-se como quiser e puder, e ninguém tem absolutamente nada a ver com isso.

2. Vou ler segundo minha comunidade, minha "fé" (doutrina). Leitura política. Nesse caso, pergunte ao papa da comunidade. A leitura correta, nesse caso, é como seu mestre mandar. Na leitura política, quem tem a norma na mão decide qual é a forma correta de ler. A autoridade decide como se deve ler.

3. Quero entender o que Isaías disse de fato. Leitura heurística. Nesse caso, precisa se servir das ferramentas que permitem leitura histórico-crítica dos textos e ferramentas específicas para acesso à intencionalidade do autor. Sem isso, esquece.

Ninguém pode decidir como você vai ler. Quem decide se vai ler esteticamente, politicamente ou heuristicamente é você. Mas, depois que você escolher, não tem mais liberdade: tem de fazer como a sua escolha impõe.

Como a minha leitura é heurística e a da igreja, política, não acertamos os bigodes. A leitura política não nos ensina absolutamente nada a respeito do que os autores da Bíblia disseram, mas nos impõe a interpretação moderna das tradições de fé. Disso, enchi o saco. mas, para quem ainda tem espaço no saco a encher, é de boa... 

A notícia ruim é que as leituras estética e política da Bíblia não são formas de produção de conhecimento sobre a Bíblia. Uma, é a eleição do próprio gosto como critério e, a outra, a eleição do gosto do poder...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO


quinta-feira, 16 de maio de 2019

(2019/019) Sobre o conceito de vaidade em Eclesiastes


Eclesiastes é um dos livros mais mal compreendidos da Bíblia, matéria (incompreensão) em que as igrejas são pós-doutoras...

1. A palavra que se traduz por vaidade não tem nenhuma relação com estética ou cosmética: é a ideia de vapor, de bruma, de neblina, de coisa passageira: a vida é passageira, é breve.

2. Dizer que o pó volte à terra, que o deu, e o sopro volte para Deus, que o deu, não tem absolutamente nada a ver com alma. Eclesiastes não é greco-platônico e não concebe uma alma dentro de um corpo. Ele concebe um corpo animado, de sorte que o sopro que volta para Deus é apenas a vida indiferenciada e não a alma pessoal, que, para ele, não existe.

3. Como não há alma, mas apenas corpo e energia vital, quando esta o deixa, acabou, não há mais nada: para onde vais, não há conselho, nem sabedoria, nem conhecimento, nada.

4. Em 12,1, a palavra que as versões (como são horrorosos os nossos tradutores!) traduzem para criador é plural: criadores. Lembra-te de teus criadores, provavelmente, remete aos pais, já à porta da morte. Porque a vida é breve. O livro começa falando que a vida é breve, e mostra, ao final, como é de fato assim...









OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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