segunda-feira, 9 de novembro de 2009

(2009/600) Meu Presidente...





De Lula, no Congresso do PCdoB:


Obviamente que nós não temos a sapiência de um sociólogo. Ou de alguns... ou de alguns... esta semana, é engraçado, eu fui chamado de analfabeto, essa semana eu fui chamado de ditador porque indiquei a Dilma pelo dedaço e essa mesma semana eu ganhei o título de estadista do ano ... eu compreendo o ódio que isso causa. Eu compreendo, porque o intelectual ficar assistindo um operário que só tem o quarto ano primário e nao tem vergonha de dizer... ganhar tudo o que ele imaginava que ele pudesse ganhar e não ganhou por incompetência... é muito difícil... é muito engraçado porque tem gente que acha que a inteligência está ligada à quantidade de anos de escolaridade que você tem. Não tem nada mais burro que isso. A universidade te dá conhecimento, te dá aperfeiçoamento. Inteligência é outra coisa. É outra coisa. E a política é uma das ciências que exige mais inteligência do que conhecimento, muito mais inteligência. A inteligência de saber montar uma equipe não está no livro. Está na sensibilidade. A inteligência de saber tomar as decisões não está no livro, ela está no caráter, no caráter e no compromisso que tenha o dirigente que governa esse país. Mas de qualquer forma a vida é assim. As pessoas falam o que querem, ouvem o que não querem ... porque a vida é assim, a vida é dura. O que as pessoas não percebem é que diferentemente de qualquer outro presidente do Brasil, este presidente nunca precisou provar nada, porque a elite não tem o que provar. Saiu um, não deu certo, entra outro, não deu certo, todos vão fazer um curso de dois ou três anos lá fora, volta, se candidata com a maior cara de pau outra vez. Eu, eu tenho que provar a cada dia, desde que eu nasci, eu tenho que provar que tenho competência. Porque eu tenho que provar. Porque sei o fracasso do Walesa na Polônia, foi eleito presidente da República e foi concorrer e teve 0,6% [dos votos], menos de 1%. E eu tenho clareza e tinha clareza e o PCdoB sabe disso, que se nós fracassassemos ia levar mais 150 anos para um operário pensar em ser candidato a presidente da República deste país.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

(2009/559) Ronaldo Cavalcante invade a área...


1. Há algum tempo, escrevi o post (2009/508) Linguagem agonística e paixão, uma reação a meu amigo Ronaldo Cavalcante, reação a um e-mail que ele me escrevera, quase como a dizer assim: bem-feito, não quer ficar dando estocada em todo mundo, agora agüenta o tranco e pára de choramingar a solidão... Fazer o quê? Ele estava certo, um tanto "vingativo" de eu ter "estocado" um amigo comum - quanto a um outro ele dissera até que era, também, bem-feito, mas, "fogo amigo", ele dizia, era gol contra.

2. Interessante. Francos, os dois, dissemos coisas diretas, e nem por um segundo, nos ofendemos, nos mal-dizemos, nos mal-queremos. Vamos assim começando a arriscar uma consideração de amizade. Meio "ignorantão", ele, mandando-me uma no peito, mas, fazer o quê, não provoco? O coice é melhor do que o meneio de cabeça... Ou seja: o "passa fora" é melhor do que o desprezo...

3. Agora, meio lerdo, ele (alega muito trabalho - tá...), responde-me de modo "magistral". Diz-se coisas muito interessantes. Peço para postar. Ele autoriza, mas pede para trocar uma palavra: uma acusação de diarréia verbal para incontinência verbal. Troco, não. Vai assim. Não me ofendi, conquanto a imagem não seja nada agradável, nem o produto imaginado...

4. Com vocês, Ronaldo Cavalcante, em resposta ao post mencionado:

Oi Osvaldo,

Estou muito sem tempo pra responder dignamente aos seus alunos. Verei o que posso fazer. Estou estrangulado de tempo, companheiro, com muita coisa atrasada.

Acabo de entrar no seu site: Vc. disse que ia postar parte da nossa conversa e meus elogios e postou mesmo hein! De ouviroevento e peroratio, gosto não pelo formato, pela moldura, mas pelas cores, pela ousadia, pelo turbilhão de ideias, pelo iconoclasmo, iconoclasmo que, aliás, poderia ser aplicado igualmente (na mesma intensidade) ao século XIX, aí sim o epíteto de agônico-agonístico estaria perfeito, do contrário, o que vc. chama de "argumento" não passa de retórica também. Quer dizer, é uma agonia que vc. sabe lá no fundo onde vai dar, como aquele "salto no escuro" kierkegaardiano, que pela consciência cristã existencial que ele tinha, desfrutava de uma certeza de que cairia nos braços seguros de Deus. Quer dizer, a agonia durava dois segundos desesperantes, mas a apoteose do abraço divino valia o "risco". No final, vc. sabe exatamente como a história terminará Osvaldo, num é verdade?!? Lembra de William de Baskerville (Ockham), do Nome da Rosa? Ele investigavamas na verdade conhecia o desfecho...

A analogia com o futebol é perfeita, poderias postar (minha sugestão) a pérola buarqueana "O Futebol" que entre outras coisas diz:

"Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha"

De qualquer maneira, Pelé, Romario e Zico não te fazem justiça, foram sempre muito "certinhos", até mesmo o Romario. Garrincha te caberia melhor -"parafusar algum joão na lateral" essa sim se identifica contigo e sua "pena impiedosa" - apesar de não desrespeitosa, não pérfida, não dissimulada, fraterna. A propósito, o parágrafo 7 é uma total auto-louvação - que se utiliza de baioneta - palavras, Osvaldo, palavras desnecessárias, a meu ver, antipático até - como um sermão repetitivo. Seu mérito maior é sua perspicácia desconcertante. O resto é o resíduo escatológico que produzimos e que a Rita Lee (nossa eterna rainha) tão bem traduziu na música que vc. postou magistralmente aí. De fato, essa música caberia muito bem dentro da diarréia verbal do parágrafo 7.

Já me sinto um grande amigo seu, ainda que virtual e anseio (pero no mucho) nosso encontro face to face (por favor não vá de baioneta!), estou curioso pra saber se aguentaremos um round de 10 minutos que seja hahahahahaha. Me preocupou essa coisa de sonda uretral no Jimmy, to por fora disso!!!!

Saudações desde a paulicéia cada vez mais desvairada

Ronaldo Cavalcante

5. Não é de todo uma qualidade de resposta? Ah, tá, tem o negócio da diarréia do parágrafo 7, mas fazer o quê? Digamos que eu tinha de me "defender". Sim, sou agonístico, sou agônico, minha veia se constrói de metáforas bélicas, mas há um código de honra, um código de samurai - foi o que quis dizer. Mas aceito a impressão dele, tão constrangida que, logo, quer que eu troque por um eufemismo: diarréia tem efeito, é forte, é um vulcão ao contrário, ao passo que incontinência é pinga-pinga... Pinga-pinga, Ronaldo! Não, senhor - sou vulcão. Uns expelem lava, vá lá, eu... Bem, melhor ficar quieto...

6. Obrigado pelas considerações, e, de novo, pelos elogios a Peroratio e ouviroevento. Não fosse eu bem-resolvido com a questão da vaidade, ter-me-ia sentido tentado. Mas a vaidade é como roupa de grife. Não compro roupa de grife há vinte anos.

Um abraço,


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/558) Morreu de parto


1. Na maternidade Nossa Senhora da Teologia, morreu de parto a Transdisciplinaridade. Apostava-se que tal se daria, e logo, mas, assim?, de parto? Bem, é verdade que, há séculos, Tomás de Aquino castrou Aristóteles, emasculou a fera grega, pai, decerto de todas as revoluções ocidentais, da Renascença à Reforma, e do Empirismo inglês ao Iluminismo francês, fazendo-o miar como um gatinho castrado. Também é certo que se repete à exaustão, ao vômito, que a Teologia daquele senhor se fez aristotélica... mas, cá pergunto, na terra de quem?, em que planeta?, em que mundo dos sonhos e quimeras? Na Terra é que não foi. Por que usa "termos" aristotélicos, é aristotélica a teologia dele?

2. O mesmo acontece com a Teologia e a Transdisciplinaridade. Das duas uma - ou a Teologia (ou os teólogos), não entendem nada de Transdisciplinaridade - e bem fariam em ficar quietos, então, se não vão se dar ao trabalho de pesquisar [mas os teólogos são bons pesquisadores, conquanto não tirem daí boas conseqüências...] - ou, o que é pior, sim, tão pior quanto pior é a má fé do que a ignorância, sabem, sim, mas está em curso uma emasculação, de novo, do elemento subversivo...

3. A Transdisciplinaridade exige que uma disciplina rasgue a outra. Ora, a Teologia jamais permite - nunca! - que nenhuma disciplina a rasgue. A Teologia pôs - fez que pôs, fingiu que pôs - Antropologia, Sociologia, Psicologia e todas as demais ciências moles em sua "grade", mas, insisto, nunca lhes deu conseqüência - ao contrário, controla-as, como a Igreja a seus fiés. A Teologia e tudo o que ela diz não possui nenhuma compatibilidade com nenhuma das Ciências Humanas. O que ela diz e ensina é gnose, se não exotérica, esotérica, contudo, certamente impositiva, privilegiada, solipsista. Mesmo essas quase espectrais que andam a assombrar os umbrais da consciência teológica dita pós-moderna (o que importa para a Teologia é assassinar o moderno, seja ela medieval, seja ela pós-moderna, porque o diabo é a crítica!, e a alma teológica é exorcista desde o Novo Testamento...).

4. E eu sou obrigado a ver a minha profissão, a Teologia, envengonhando-se em público, escrevendo sobre Transdisciplinaridade, o que se traduz numa impropriedade insuportável. Ver a massa evangélica tornar-se cada vez mais obscurantista já me causa constrangimentos... Assistir à Teologia participar de joguetes político-retóricos, ai, dói tanto quanto. Primeiro, Teologia, converta-se, honestamente, verdadeiramente, sinceramente, às Ciências Humanas. Depois, caso se converta, aí, sim, venha falar em (e escrever sobre) Trasdisciplinaridade. Antes, é vergonhoso. Antes, chega a ser cínico. Além de cômico...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 31 de outubro de 2009

(2009/557) "Kit" Eclesiastes. Enjoy!


1. Meu kit, o kit Eclesiastes. Mesmo em dias turvos e gris, ainda me ronda essa mitologia, que sem mitologia a vida é puro carbono...



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2. O restante, todo o restante, para mim, doravante, é outra estrada.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

(2009/557) Saber-fazer


1. Disseram-me, em tom alguma coisa entre professoral e epifânico: se não sabes, rapaz, como fazer melhor, não critiques! Nossa, fiquei assim impressionado. Gastei anos refletindo na profundidade da fórmula: se não sei como fazer melhor, engulo a língua...

2. Aí, dia desses, visitei a casa de minha prima de consideração, Iara. Uma casa de altos e baixos. Eis, lá, um andar novo, uma escada - terrível! - nova. Fui lá eu subindo aquela escada que mais parecia vertical e, então, deparo-me com aquela visão horrível: uma parede supostamente da sala, mas com uma inclinação de uns 93, 95 graus - super inclinada, torta mesmo, a parede, fazendo que vai cair em cima da gente. Iara, que coisa é isso aqui? Ah, Osvaldo, é a porcaria da parede que meu pedreiro fez...

3. E eu me peguei criticando uma parede torta. Está lá ela até hoje, primeiro, porque nem Iara nem eu somos pedreiros, de modo que não sabemos fazer melhor, e, segundo, porque já está de pé, e derrubar sairá mais caro... Com uma parede torta, vive-se.

4. Mas uma coisa Iara e eu sabemos - aquela parede está torta. Isso para mim resume a longa noite daquela reflexão filosófica... era falaciosa a coisa...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/556) Do prurido evangelístico


1. Recebo um "spam" agora há pouco. Curioso - no final do "spam", o missivista insistia: "isto não é um spam". Pronto, não é um spam. No tribunal, o juiz pergunta ao acusado: como se julga? Inocente, senhor! Pronto, inocente...

2. O spam me convidada ao Evangelho e à fé. Não li tudo. Parei assim que tomei pé da coisa. Um dia, cedo, domingo, bateram-me à porta. Eram testemunhas de Jeová. Enquanto me dirigia a eles, educadamente, por dentro, mandava-os aos quintos dos infernos, por me encherem a paciência tão cedo já... E, não tardou, minha consciência me fuzilou - ué!?, mas e quando é você a bater de porta em porta (sim, já fiz isso muito)? Isso mudou minha prática.

3. O spam, poranto, era um "folheto" digital. Num primeiro momento, fiquei aborrecido. Mas, então, lembrei de 1988. Trabalhava na Dardo Transportadora. Eram os dias dos primeiros amores evangelísticos. Eu passava o dia datilografando conhecimentos de frete. Centenas por dia. Eu comia os teclados, tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá. Oito vias. Você praticamente martelava cada tecla... Não, não havia PC, ainda...

4. Lembro-me bem: no canto superior de cada conhecimento de frete, eu escrevia mensagens evangelísticas. Fiz isso durante semandas. Um dia, meu chefe proibiu-me. Achava eu fazer a vontade de Deus, e não é difícil imaginar que interpretei a proibição como uma "prova". Insisti. Uma enfermidade me tirou do emprego, e não sei como a coisa terminaria...

5. Recordo-me que eu "tinha" que fazer aquilo. Tinha que escrever. Era uma pulsão, uma compulsão. Se podes, e não fazes, pecas. Eu podia (bem, na verdade, não), e fazia e fiz. Era uma questão psicológica. A verdade e o mundo como eu os cria me obrigavam a fazer aquilo. Não havia como não fazer, pelo menos para quem decidisse, como eu decidira, a viver seriamente a fé. Ora, a fé mandava eu fazer. Eu fazia. Não seria eu a questionar os imperativos da fé.

6. Assim, tenho de, com uma válvula cardíaca, compreender o spam. Pulsão. Com outra, criticá-lo, como fiz com minha própria experiência, superada, eu acredito, por força de maturidade. Meus conhecimentos de frete andam por aí, em algum arquivo morto. O spam, deletei.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

(2009/555) Da tentação do divino


1. Mais do que a tentação do sexo. Mais do que a tentação do dinheiro. Há que se temer a tentação do divino. Mais do que a tentação do vinho. Mais do que a tentação do luxo. Há que se temer o brilho dos olhos do divino. Perigoso é o hmem tentado pelo divino. Perigoso é o homem em que a sensação do divino tocou.

2. Ah, ele olha para a sua platéia, as hostes da adoração à sua divindade, e sente prazer. É aí, nesse ponto, que a pastoral torna-se demoníaca. Não tem mais ovelhas a cuidar, mas hostes de anjos que lhe adorem, que lhe obedeçam. Não é mais servo. Nunca mais o será. Nem de Deus, o maior de seus anjos-adoradores...

3. Pobres de nós, ovelhas... as safras que Deus nos vai dando são por demais tentadas para contarmos com elas.

4. Espremos as colheitas de amanhã. As de hoje, o bicho roeu por dentro.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. Salvador Dali - A Tentação de Santo Antonio.

(2009/554) Quando Deus fez o homem


1. Quando Deus fez os homens, o primeiro, os primeiros, fazendo todos, fazendo-os homens, naquele dia, ele nos olhou, obra de suas mãos, obra de artista exímio, de escultor de dentes postiços, que os faz, de tão perfeitos, com defeitos, criador de criaturas criadoras, nós, os homens, para nós, dentro de nós, ele olhou e viu...

2. E, quando viu, viu que seríamos deicidas, porque logo descobriríamos as ciências, que ele, enquanto criador de criaturas barulhentas, criava criadores da solidão e do silêncio tumulares. Viu-nos nus, por dentro, e soube que o mataríamos em breve...

3. E nos amou de tal modo que nos fez uma mulher, uma para cada, se não somos cruéis e déspostas, e as fez primorosas e deliciosamente esculturadas, e nos deu a sorte de perambularmos pelas savanas, e darmos de cara com seus corpos e suas almas. Nessa ordem.

4. E ele disse, naquele dia. Pronto. Quando me matarem, as minhas criaturas, estará tudo bem, porque ter-lhes-ei dado um pedaço de mim, u'a mulher a que amarem, a quem entregarem a dor de sua tragédia.

5. E foi assim a manhã e a noite que interessam. As outras, a memória há de apagar.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/553) Nietzsche, Heidegger e Eclesiastes para crianças


1. Ponto.





2. Depois de dois mil anos de dogma e destino, um futuro aberto bem poderia ajudar-nos a nos salvarmos de nós mesmos. Por que não tentamos? Hum?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/552) Para que serve monografia?


1. Há três categorias de TCC - monografias de bacharelado, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Não são a mesma coisa. Não têm a mesma função.

2. A meu ver, a função da monografia de bacharelado é uma só: a demonstração, a prova, da parte do estudante, de que domina as técnicas de pesquisa, de redação/comunicação de relatório de pesquisa. Mais nada. O conteúdo é irrelevante. O processo é que está em jogo. Estudante e orientador de estudante que transformam a monografia de bacharelado em outra coisa, não diria que estejam errados, mas estão saindo da função objetiva do trabalho. Posso fazer uma monografia para publicar? Posso - mas não é isso que está em jogo. O que está em jogo, e é isso que conta, é se aprendi a pensar, ler, pesquisar, redigir. O restante é perfumaria. Eventuamente útil. Mas não para o processo em si. Para além dele. Inútil dizer que há publicações inúteis, ceklulose para o bolor... Mas, monografias, nenhuma - se cumpriram o papel que lhes cabe.

3. Uma dissertação de mestrado tende à demonstração de que, agora, o mestre domina um assunto. Ele é mestre. Já tendo demonstrado a capacidade de pesquisa (bacharelado), agora demonstra domínio de conteúdo. Aqui, sim, é o conteúdo que conta, é o que se diz, por que se diz, como se diz. Há que se ter em vista que o que difere uma dissertação de mestrado de uma monografia de bacharelado é que o que está sendo medido, numa e noutra, são coisas absolutamente diferentes. Não se pode pensar monografia como quem pensa dissertação. Oientadores massacram estudantes, quando esquecem disso - se aprenderam. Talvez tenham sido vítimas do processo, e o reproduzem.

4. Já a tese é outra história: o doutoradno tem a obrigação de acrescentar "novidade" ao conhecimento. Não se trata de ter domínio de processos de pesquisa (monografia), nem de ter domínio de um assunto (dissertação). Trata-se de apresentar algo inédito, novo, seja em termos de conteúdo, de abordagem, seja de correção crítica de conteúdos. Mas te que ser novo. Há inúmeras teses que não passam de dissertações de mestrado - luxuosas e caras - mas nada mais do que isso.

5. É uma pena quando fazemos e fazemos fazer coisas pontuais, sem a visão do conjunto. Julgamos-nos inteligentes, dominantes, profissionais, e, na verdade, agimos atabalhoadamente, desinteligntemente, presunçosamente. É preciso abaixar a bola. É preciso dar a João que é de João, e a Maria que é de Maria. É preciso saber que o melhor a se fazer é fazer o que se deve fazer. À vezes, o mais, é menos.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

Reações:

Relevante! Mas ficou-me uma dúvida quanto à monografia: se o que está em jogo é se o aluno aprendeu a ler, pesquisar, redigir e ao mesmo tempo o conteúdo é irrelevante, como mensurá-lo, avaliá-lo? Seria apenas na "forma", na estrutura do trabalho? Concordo que há, e muito, um desvio da função objetiva do trabalho, e outros fins à ela propostos, como ressalta muito bem, só não entendi como conjulgar um trabalho que não fuja a sua função objetiva, mas que tem um "conteúdo irrelevante". Ou seja, como se "materializa" um trabalho que cumpra com sua real função.
Abs,
Edemir.

Edemir, obrigadeo por sua reação. Quando eu disse que o conteúdo da monografia de bacharelado é irrelevante, quis e quero dizer é que não é o conteúdo, a proposição, a hipótese defendida, que interessa. Interessa, sim, se essa hipótese está sustentada nos termos da teoria/metodologia científica - no "meu" caso, as Ciências Humanas. Nesse caso, deve ser óbvio dizer que o conteúdo será, sim, avaliado, mas não por si mesmo, ou seja, por sua ortodoxia, sua hegemonia de cátedra, sua autoridade traditiva, sua pertinência mercadológica ou qualquer outro critério. O conteúdo será avaliado por meio da análise crítica dos processos de desenvolvimento empregados, das rotinas de argumentação, do método, da retórica de "prova".

Assim, ressalvadas as imposições teórico-metodológicas das ciências, no interior das quais se deve dar a liberdade de pesquisa do estudante, é a relação entre problema central, problemas corolários, quadro teórico-metodológico, fontes primárias, abordagem e, conseqüentemente, hipotese(s) que o trabalho deve ser avaliado. Não é o que ele diz. É como ele diz, com base em que. Isso quer dizer: pensar, ler, redigir e comunicar.

(2009/551) Se vier a ser, o céu também será secular


1. Ao fiel que está diante da porta do templo, e que nele nao podE entrar, porque, no templo, oficiam apenas os sacerdotes, a esse fiel se chama "profano" - isto é, aquele que está diante da porta (onde a manifestação ["fania"] se dá). Em oposição, ao profano,, definindo-o e sendo definido por ele, o "templo" é o espaço sagrado. Se o templo for retirado, o profano não tem onde estar - não há porta, não há manifestação, não há sagrado. Se o profano for retirado, não há a quem o sagrado se manifestar, não há onde ele se manifeste, não há sagrado.

2. Segredo da Fenomenologia da Religião - o sagrado depende do profano, os deuses, dos homens. Bem que o sabiam os mitos - uma vez nascidos, os deuses logo criam os homens... A bem da verdade, é bem inverso, mas tanto faz...

3. Foi o protestantismo quem, necessariamente, secularizou o mundo. E o fez, tentando alcançar o efeito contrário - super-sacralizar o mundo. Todos os dias são sagrados - logo, não há dia profano, logo, não há dias sagrados. Onde não há profano, não há sagrado. Onde o tempo todo é sagrado, o tempo todo é profano - anulam-se, perde-se a noção da sacralidade. Onde todo lugar é sagrado, todo ele é profano, aliás, nada aí é sagrado, nada é profano, é, tudo, secular. "Lutero" pariu a modernidade secular, a consciência do desencantamento - e não era isso que queria, pelo contrário.

4. Ora, ora, ora - eis que me pego refletindo sobre o fato de que me venderam um céu todo-sagrado. E, então, fiz as contas: se todo o céu será sagrado, logo, não haverá profano. Se não haverá profano, logo, não haverá sagrado. Logo, o céu será dessacralizado. O céu é como a sociedade moderna... A crítica mata Deus, a confissão, o céu... Deicidas, somos todos.

5. Os alunos retrucaram: mas haverá inferno... Bem, se você, no céu, tiver consciência do inferno, e, então, passar a eternidade cantando corinhos de Lagoinha a Jesus, Deus teha misericórdia da tua alma. Aliás, um Deus que, tendo consciência do inferno, goze bovinamente da adoração de seus crentes-de-céu, ai, quem terá misericórdia de sua alma? O de Jack Miles o sabia...

6. Não, o inferno, das duas uma: ou existirá, e não teremos consciência dele, e, logo, não afetará nossa percepção de sagrado, logo, tudo será sagrado, logo, nada será sagrado, ou, ao contrário, teremos, sim, conciência dele, e provado está que a religião cristã consegue unir o ápice da bondade com o cúmulo da perversão... Ou, simplesmente, não haverá nada. Pruridos eclesiásticos, quero dizer, à guisa de Eclesiastes, de quem outros hagiógrafos não guardam boa percepção: a vala comum do carbono...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/550) Minha música gospel


1. Não posso fazer nada a respeito. Não gosto de música gospel. Beiram-me à mais profunda artificialidade, à espiritualidade produzida, fabricada, planejada, pensada, em tubo de ensaio, em estúdios de marketing. Não posso nem mais ouvi-las. Sim, é mea culpa, mea maxima culpa... Mas vivo bem com ela. Confesso outro pecado: orgulho-me dela, dessa culpa.

2. Agora, deixem-me dizer-lhes de que gospel eu gosto. Se entenderem, bem-vindos ao time. Se não, não dá pra explicar, mas tento. Sou telúrico, ctônico, da terra - da Terra. Fosse antes de 1984, eu diria que se trata de meu signo, capricórnio, mas, a despeito de que o que se diz dele encaixar-se quase que irretocavelmente em mim, direi que telúrico sou, e ctônico, por força da crítica e da encarnação da alma louca de Nietzsche em mim, ou, quem sabe, Deus não lhe tenha feito um anjo da guarda desta alma angustiada.

3. Não me agradam as coisas do céu, quero dizer, em ficar imaginando aquele dia, aquele lugar, que, se a Fenomenologia da Religião me ensina alguma coisa, logo estará secularizado, porque onde só há o sagrado, daí desaparece o sagrado. Por sso, as coisas profanas me cercam, e amo-as, porque amo o sagrado, e um depende do outro. Gosto da terra, de casa, de chorar.

4. O termo "crente" não me define mais, porque criou-se um esteriótipo dessa figura, que não me define mais. Mudei eu. Mudou o esteriótipo. Tornamo-nos estranhos um ao outro. Acho que a cultura de massa, a cultura pop-capitalista, fez a cabeça da massa evangélica, de modo que eu não posso arrebanhar-me. Precisamos - eu preciso! - de um nome novo pra usar. Porque não consigo me identificar com esse que, um dia, me deram.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/549) Dá-lhe, Senhor Presidente!









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

(2009/548) Um HD que vai pifando...


1. Alguém me disse ano passado que meu HD esquenta muito, e que seria salutar esfriá-lo. É verdade - esquenta. Não sei o que é não pensar. Alguém sabe? Não sei o que é relaxar. Isso significa que não é que eu esteja em estado de vigília, apenas, mas que nesse eterno estado de vigília, meu "processador" não pára de esquentar, de rodar, de passar e repassar milhares de coisas, às vezes, ao mesmo tempo. Não há descanso para minha alma, exceto no colo de Bel.

2. Trata-se de uma ansiedade crônica. Quando o HD está quente demais, quando ele vai pifar, parece que ele conhece um interruptor interno, e, então, ele vai lá e desliga. Parece que começo a entrar nessa fase. Por que acho isso? Porque estou morrendo de vontade de jogar Asda Story, meu novo MMORPG. O tempo todo meus pensamentos são para Navarre... Furfle e Isabeau ficam para mais tarde, depois do lvl 45 do Cavaleiro.

3. E, então, nasce um sentimento de culpa: gastar tempo, quando há tanto a fazer... Bem, ao menos é uma crise minha, que não fere ninguém, que Bel entende, e que, quando supero, vomito toneladas de reflexões, que parecem ter sido gestadas no fundo da inconsciência.

4. Dessa vez, contudo, coisas de extrema importância estão acontecendo, de modo que relaxar está mais difícil. Além disso, não deixei Peroratio. É um sinal. De quê? Não faço a mínima idéia. Apenas conto as horas - 18:43, agora, até as 22:30... Então, vou pra casa, beijo Bel, e, quem sabe?, não mato a saudade...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/547) Comentário Geral - TV Brasil


1. ATENÇÃO.

2. Mudou a data do episódio Fé, do Programa Comentário Geral, da TV Brasil. Será domingo próximo, 25/10, às 19:30 horas. Entrevistaram-me, e, atenciosíssimos, ligaram para avisar da alteração da data.


Domingo, às 19h30
Especial
- 25 de outubro de 2009

O professor de teologia Osvaldo Luiz Ribeiro, autor do livro O que é fé? descreve-a através de quatro sentidos: fé enquanto ensino, fé enquanto encontro, fé enquanto encanto e fé enquanto entrega. Por outro lado, o filósofo André Martins define a má-fé e mostra porque as pessoas agem dessa maneira.

O crítico de cinema do jornal O Globo, Rodrigo Fonseca, participa do programa para falar sobre o filme Anjos e Demônios, que foi condenado pelo Vaticano antes mesmo de estrear nas salas de cinema. O filme é estrelado por Tom Hanks, que interpreta o professor de simbologia Robert Langdon que, a mando da Igreja Católica, investiga o
misterioso desaparecimento de cardeais. O programa ainda exibe dois curtas-metragens: Santo de casa e Deus é pai. O comentário é do cartunista Allan Sieber.

Para explicar os conflitos no Oriente Médio e a estreita relação entre política e religião naquela parte do mundo, Comentário Geral convida o professor de História da UFRJ, Francisco Teixeira. E, como a igreja interferiu ou ainda interfere na política do Brasil e Europa? Quem responde a essa pergunta é o deputado federal do PSOL, Chico Alencar (RJ).

A fé é um termo tão abrangente que influencia até a moda. A empresária e designer, Maria Isabel Gasparian, da loja Santa Cor, do Rio de Janeiro mostra como esse mercado vem crescendo. Já o termo jurídico “fé pública” é assunto do advogado de família e presidente de honra da União Internacional dos Advogados (UIA), Paulo Lins e Silva.

Ciência versus fé. O professor de filosofia da PUC- RJ, Leandro Konder, fala sobre essa questão. E, o tema também está nos palcos. Sucesso de crítica e de público no Rio de Janeiro, a peça A alma imoral, uma adaptação do livro do rabino Nilton Bonder, agora está em cartaz em São Paulo. O espetáculo consiste em um monólogo em que a atriz Clarice Niskier faz o papel de si mesma enquanto conversa com o público citando parábolas judaicas e passagens da Bíblia.


(para o site do Comentário Geral, clique acima ou aqui)



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/546) Sempre a mesma ladainha...


1. Ainda que, a cada vez, o beato seja outro. Deve ser, pois, uma hipnose coletiva... Hoje, mais uma vez, tive de ouvir que as Ciências Humanas têm de compreender a particularidade de a Teologia ser epistemologicamente diferenciada...

2. Têm, não. Digamos assim: republicanamente, a Teologia tem direito a estar aí. E está. Mais fácil nuns lugares - Argentina. Menos fácil em outros - Uruguai. Mas está. Republicanamente, a velha teologia, de púrpura e trono e cetro e aleluia, ela tem o direito de estar aí. Ontem, estava porque se dizia ela mesma detentora do poder de dizer que podia e devia estar aí. Hoje, está porque a República não foi, afinal, boa aluna da Teologia (isso se, no fundo, a Teologia não se disfarçou de República, mas essa é outra história): houvera sido, e a teria tratado como ela mesma tratara seus rivais.

3. Vivemos numa encruzilhada. Há um novo paradigma por aí. A Teologia, a velha, naturalmente, não gosta disso. Não quer isso. Os deuses não gostaram do século XIX. Nem os deuses, nem os anjos, nem os diabos. Nem os homens de deus. E os outros, também....

4. As Ciências Humanas aceitam, apenas, um tipo de verdade - verdades diltheyanas, schleiermacherianas, heiddegerianas. As verdades agostianianas eram - e são - projeções humanas, invenções humanas, e nada mais do que isso. O que, eventualmente, haja do outro lado das Ciências Humanas, não cabe na boca humana. Se há algo na boca humana, é humana essa coisa.

5. Assim, a Teologia pode - e eu quero - estar ao lado das Ciências Humanas. Com uma condição: despir-se do divino. Sem exceções. Sem reservas. Sem, privilégios. Ela quer? Se quer, oba!, se não quer, lamento...

6. Não, as Ciências Humanas não são as novas verdades divinas. São o que são - conjuntos de proposições humanas, eventualmente verdadeiras. Há verdades entre nós, sim, elas não morreram. Mas são verdades humanas. Logo, postulantes a possíveis erros. Uma Teologia que seja boca humana e reconheça que pode estar sempre equivocada, que deve ouvir tudo muito atentamente, ela, que gosta tanto de falar tudo sob máxima atenção, essa Teologia, eventualmente, pode, sim, sentar-se à mesa.

7. Ela quer? Eu quero que sim.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/545) Teologia Hermenêutica?


1. Almocei com Jimmy, ele e sua sonda renal-uretral. Falamos de algumas coisas, das quais sempre falamos. Uma delas foi sobre o caráter da "Teologia Hermenêutica". Um colega de ambos admirou-se de que, em meu sistema classificatório para a Teologia (ontologia, metáfora, fenomenologia) não coubesse lugar, por exemplo, para a Teologia Hermenêutica.

2. Jimmy, automaticamente, retrucou: mas a Teologia Hermenêutica é metáfora! Bem, aí, agora, foi Jimmy e eu que entramos em conflito. Eu já acho que Teologia Hermenêutica não é metáfora, é ontologia. De qualquer forma, seja uma coisa, seja outra, cabe, sim senhor, no sistema.

3. Ensaio uma solução para o conflito. Jimmy e eu estávamos falando de coisas diferentes. Com "Teologia Hermenêutica", Jimmy se referia a alguma coisa pós e pró-vattimoniana. Aí, sim: Vattimo é um campeão da metáfora - a "teologia cristã", dessacralizada, virada pó e pigmento de cultura, é, mesmo, a tinta que recobre a sociedade ocidental, e não haveria de ser outra coisa. Uma Teologia que beba na fonte de Vattimo, só pode ser metafórica, ter delírios de metáfora. Se Vattimo é citado, e a Teologia conseqüente não se assume metafórica, algo está errado - eventualmente, até, deixo consignado a hipótese, em meu entendimento.

4. Todavia, com Teologia Hermenêutica não me refiro a Vattimo. Aos vattimonianos, teólogos, aí, sim, classifico-os, se conseqüentes (nem sempre é o caso), de metafóricos. Mas falava eu da Teologia de G. Ebeling e E. Fuchs, que tentaram resolver o problema do excesso de objetividade/positividade de K. Barth e o problema do excesso de subjetividade/negatividade em R. Bultmann. Ora, e todos, ali, senhores, a tese, Barth, a antítese, Bultmann, e as sínteses, Ebeling e Fuchs, são ontológicos. Todos. Sem exceção.

5. Vattimo é a ponta nova do afloramento rochoso na crosta da "Hermenêutica". Está, ainda, por ser feita, uma teologia que realmente confesse, escancaradamente, o postulado de Vattimo - não se espere seja eu a fazê-lo. Já li até quem o cita, mas descita, que se diz basear-se nele, mas o nega. Já a ontologia, goteja pelos poros da pastoral. Ou é ela, ou outra coisa. Mas, nesse caso, prefiro não comentar...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/544) E, finalmente...


1. Disse a um amigo, segunda-feira: de duas coisas constrói-se um homem - ou ele "confia em Deus" [não saberia exatamente dizer do que estou falando, mas acho que cada um saberá interpretar essa fórmula mística em sua própria mundanidade], ou ele confia em si mesmo, ou, o que seria sempre melhor, nas duas coisas.

2. Por conta de um duplo não, recorre-se à política, e, com política, não me refiro, aqui, à política com P maísculo, mas à política das aproximações interessadas, das auto-promoções articuladas, das recomendações transversais de bastidor, dos acordos de alcova - com vistas a. É moderno? Bem, eis-me um troglodita.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/543) Da tua boca-manicômio


1. Há quem me considere "louco". Não se trata, nesse caso, de um diagnóstico. Trata-se, nesse caso, de um desdém, de uma "desculpa", de uma "justificativa". Ele é louco...

2. Eu penso assim: se há algo interessante nos Evangelhos, não se me dá que seja interessante porque foi Jesus a dizê-lo. É-o, se o é, porque seu conteúdo é interessante. Não acho sublime a fala de Jesus, diante dos apedrejadores da mulher supostamente adúltera, pelo fato de ter sido Jesus a dizê-la. Fosse Satanás, ainda seria sublime. E nem mais, nem menos...

3. Sou louco? Está bem. Mas deixem-me quieto. Mas... e quanto às minhas loucuras? É para desviar-te delas que me fazes louco? Tua boca é meu manicômio, suponho... e que tormento, então, a tua alma?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/542) Parábola dos pardaizinhos


1. Voeja o bando de pardaizinhos, irrequietos, ávidos, quérulos, desejosos. Parecem articulados, o bando dos pardaizinhos, pardaizinhos de perto e de longe. Piri-piri-piri, pardoejam daqui e dali, excitadíssimos. Os corredores enchem-se de suas asas e de seus pezinhos ligeríssimos, seus biquinhos trinadores. As janelas, delas, entram e saem, em vôos pássaros apressados, um vai e vem, um entra e sai, o coraçãozinho deles a bater bum-bum a mais de duzentas por minuto, e subindo... Vão tomar banho de areia! Vão fazer a festa!

2. No teto, mora o ouriço. E ele olha, divertindo-se, o alvoroço das penas. Ri-se, mas não pode rir muito alto, que, se o pegam no forro do telhado, arrancam-lhe os espinhos do corpo...

3. Ele queria, coitado, subir até a cumeeira, e, de lá, gritar aos pregos que saltam de galho em galho o quão reveladora e divertida é a algazarra passarinha. Mas ele não pode. Tem seus segredos de forro de telhado...

4. Como terminará a história? Bem, logo veremos.


OSVALDO OURIÇO RIBEIRO
PS. o ouriço bem devia compreender a farra dos pardaizinhos, porque, afinal, talvez seja a faina de toda gente pardalar. Mas é que o ouriço não sabe fazer festa. Logo, deve considerá-la com uma ponta de inveja, vai ver. Mas esse tipo de festa não se há de ver o ouriço organizar.

(2009/541) Anotações sobre Jean Louis Ska


1. Trata-se do livro Metodologia do Antigo Testamento, que adotei na disciplina de Metodologia Exegética do Antigo Testamento. O livro tem uma curiosidade - ele trata quatro grandes abordagens epistemológico-metodológicas com nomes interessantes: diacronia, acronia, sincronia e anacronia. Comete um erro, me parece, ao classificar tais abordagens como "metodologias", ferramentas. Não são, são postulados epistemológicos.

2. Explico. Entre o leitor e as Escrituras, não há um vácuo. Quanto ao "uso" das Escrituras, há, aí, uma intencionalidade pragmática, que se traduz em pressuposto epistemológico, ao qual estão associados, aí sim, métodos. Se eu quero saber "o que foi", faço diacronia. Se eu quero saber "o que pode ser", faço sincronia. Se eu quero determinar "o que deve ser", faço anacronia. Se eu desejo saber "como funciona", faço acronia.

3. Diacronia trabalha no tempo do escritor. Sincronia, no tempo das personagens. Anacronia, no tempo do leitor. Diacronia é investigação crítica. Sincronia, percepção estética. Anacronia, tradição normativa. Acronia é supressão de tempo e de sentido.

4. Cada uma dessas abordagens possui sua própria caixa de ferramentas, as quais, contudo, podem ser compatilhadas, ocasião em que passam a operar não mais nos termos do pressupsoto epistemológico de origem, assumindo, nessa nova situação, as sobredeterminações do novo "olhar".

5. Método é "caminho escolhido". Mas só há caminho escolhido depois de se escolher o destino. Logo, primeiro você escolhe o destino (intenção/abordagem). Só depois você, então, submete-se aos métodos tradicionais, ou cria novos, relacionados ao destino por você escolhido. Há liberdade na escolha do destino (abordagem). Uma vez, contudo, usada essa liberdade, escolhido o destino, os caminhos já estão inicialmente traçados.

6. Não há como dizer, a priori, de forma "ideal", qual a abordagem melhor ou certa. Isso depende. Do quê? Ora, da sua intenção. Se você me pergunta: qual a melhor abordagem?, eu digo: para quê? O que é que você quer fazer exatamente? Se é saber o que o autor disse, só existe uma possível - diacronia. Usar outras é erro grosseiro. Se o que se deseja é a experimentação estética das narrativas, sincronia (seria uma alternativa pacificadora para a pastoral). Se o que se quer é a manutenção da verdade normativa e dogmática, anacronia. Aonde você quer ir? A Paris. E como vai? Andando. Bem, andando, não vai, não. Entende? Há um mar entre você e Paris - só de navio ou avião...

7. Ora, Jean Louis Ska escreveu sobre sincronia. Na p. 47, ele escreveu: "esses diferentes modos de praticar a exegese muito mais se completam do que se excluem". Bem, sim e não. O não - e um não bem vistoso - é: se estamos falando de abordagens (e estamos!), elas não são complementares, não - são mutuamente excludentes. Agora, se falamos das caixas operacionais de cada uma delas (crítica das fontes, sintaxe, análise do discurso, narratologia etc.), aí, sim, são complementares.

8. Na seqüência, ele ainda afirma: "(o exegeta) examina longamente o material a trabalhar e só depois escolhe os instrumentos mais adequados para o trabalho que deve realizar". A formulação não está adequada, me parece. Não é o "exame longo" do "objeto de trabalho" que revelará ao exegeta as ferramentas adequadas. Próximo-positivista a declaração, conquanto, eventualmente, não tenha sido exatamente essa a intenção de Ska.

9. O "objeto de trabalho", aparentemente, é o mesmo, em cada abordagem. Mas, na realidade, não. Para a diacronia, o objeto de trabalho não é a Bíblia, mas cada narrativa, cada "perícope", situada em seu contexto histórico-social. Para o sincrônico, a narrativa, isolada de seu contexto de origem, com o que ele se aproxima do leitor acrônico. Para o anacrônico, o objeto de trabalho é a releitura traditiva da narrativa bíblica.

10. Importa: é a intencionalidade e a abordagem do leitor que - atenção! - "cria" o objeto de trabalho. Conquanto cada um esteja diante da Bíblia, cada um tem, diante de si, uma "coisa" diferente, construída pelo recorte intencional/pressuposicional de sua abordagem. Logo, não é o exame longamente aplicado ao texto, mas a opção apriorística de como olhar para ele que determina a metodologia, nesse caso, sim, concordemos, mais adequada.

11. O pecado maior que vejo nos livros de exegese, nas aulas de exegese, nas práticas de exegese, é que se corre a praticar, sem, antes, confessar-se, evantualmente, até, sem reconhecer-se, sob que jogo, sob que pressuposto epistemológico, sob que abordagem. Método é conseqüência. Uma aula de metodologia com(o) receita de bolo só tem alguma validade - se tem alguma - quando o ambiente epistemológico em que a receita é aplicada está muito, absolutamente claro. Para quem não assume tal ambiente, a receita não tem valor nenhum, não serve para nada.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
PS. Horácio Simian-Yofre e outros. Metodologia do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2000.

sábado, 10 de outubro de 2009

(2009/540) Da consciência - "via" Searle


1. "Espero ter esclarecido, no decorrer deste livro, que, a meu ver, é possível aceitar a existência e a irredutibilidade da consciência como fenômeno biológico sem admitir a ontologia do dualismo tradicional, segundo a qual há dois tipos de esferas metafísica e ontologicamente diferentes nas quais vivemos, ou dois tipos distintos de propriedades no mundo (...) [E assim] o dualismo parece fora de questão. Aceitá-lo é o mesmo que negar a visão científica de mundo alcançada com muito esforço no decorrer de vários séculos" (John R. Searle, O Mistério da Consciência. São Paulo: Paz e Terra, 1998, p. 208).

2. Searle busca uma "explicação biológica da consciência". Sim, uma explicação, porque a intuição já está entre nós, desde A Gaia Ciência, do extemporâneo louco de Turim... Para a questão, eu sugiro, além de Searle, a inadjetivável coleção do também inadjetivável Edgar Morin, O Método.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/539) Do peso de ser gente


1. De Florbela Espanca


Não Ser
Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
- Mantos rotos de estátuas mutiladas!
Ah! Arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! Poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!



Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!
Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de ouro de uma flor aberta!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/538) Crying in the rain...


Um sábado de chuva...


(2009/537) Até que enfim, heim PT!

Desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, a imprensa brasileira, em geral, tem procurado esconder os avanços sociais e econômicos do Brasil. Em contrapartida, nos Estados Unidos e na Europa, não se cansa de assinalar os êxitos do governo do PT e aliados.

No exterior, dá-se ênfase ao novo papel do País no mundo, à redução da pobreza e a outras conquistas. Lula foi chamado pela revista americana Newsweek de "o político mais popular do mundo", mas o tratamento que recebe no Brasil é o oposto.

A diferença de abordagem tem sido denunciada na Câmara por deputados do PT. "A imprensa brasileira virou um partido político e tem relações preferenciais com a oposição a Lula", denuncia o deputado Emiliano José (PT-BA). Segundo ele, a realidade é falseada e manipulada. "Há uma verdadeira distorção política e ideológica com a pretensão de controlar e influenciar o comportamento da população", afirma.

"Enquanto Lula e seu governo são celebrados em todo o mundo, quem lê a imprensa brasileira vai achar que existem dois ‘brasis' diferentes", observa Emiliano. Até o ex-presidente de Portugal, Mário Soares, percebeu a existência de duas "realidades" bem distintas, a do Brasil real e a mostrada pelos grupos de comunicação. Dois "países" que não se comunicam e se estranham.

O fenômeno da partidarização da mídia ocorre há décadas e coincide com mandatos de governos de caráter popular como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart e, agora, Lula. "Hoje não se observam mais os manuais de redação que preconizam ouvir todas as partes envolvidas numa mesma matéria", sublinha Emiliano, que é jornalista e professor universitário aposentado de Comunicação Social.

Não falta má vontade. O deputado Fernando Ferro (PT-PE) lembra que, em junho, na Suíça, em evento na Organização Internacional do Trabalho, Lula foi aplaudido de pé, numa consagração reservada a poucos na história da entidade. No Brasil, porém, os jornais e emissoras de TV ignoraram o fato. "O Brasil e seu presidente estão ‘bombando', mas quem quiser se informar tem que procurar fontes externas de informação, com raras exceções", disse o parlamentar.

Outro caso é a superação, pelo Brasil, da turbulência econômica iniciada há um ano. O fato foi noticiado e comemorado por órgãos estrangeiros como o Le Monde, BBC, El País, Financial Times e The Economist, mas a mídia nacional relatou o fato tardiamente. "Sob o comando de Lula, ficamos praticamente blindados à crise, mas nossa imprensa tentou aterrorizar a população de que estaríamos no pior dos mundos", relembra Emiliano José.

Procura-se, sempre, criar notícias que levem ao pânico ou à distorção da imagem de um governo ligado aos interesses do povo, observa o deputado Pedro Wilson (PT-GO). "A imprensa brasileira é conservadora e, com sua abordagem distorcida, torna-se uma verdadeira ameaça à democracia. As oligarquias que detêm o controle dos meios de comunicação não toleram um governo popular", comenta.

O deputado Nilson Mourão (PT-AC) cita como exemplo de mau jornalismo brasileiro a cobertura sobre o abrigo dado pelo Itamaraty, na embaixada em Honduras, ao presidente deposto daquele país, Manuel Zelaya. "Enquanto o Brasil tinha a solidariedade da comunidade internacional, de instituições como a ONU e OEA e até do presidente dos EUA, Barack Obama, a mídia brasileira tratou a diplomacia do governo Lula como adepta de uma suposta atitude ilegal." diz.

Para os deputados do PT, as distorções atuais devem ser um dos eixos centrais da 1ª Conferência Nacional de Comunicação, em dezembro. "A democratização do Brasil supõe a democratização da comunicação, com informações confiáveis e a superação da concentração da propriedade no setor", afirma Pedro Wilson.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

 

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