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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

(2010/581) Teologia pública na República - não vai dar certo isso



1. Se os leitores desejarem conferir uma constrangedora exposição de combate, neste corner, a Teologia, a religião, a fé, a "Bíblia, Palavra de Deus", com direito à referencia explícita ao "chanceler" do Mackenzie, naquele corner, posições nem um pouco acanhadas e comedidas, de caráter, digamos, "republicano", favor reportarem-se, e depois retornem!, ao post A teologia do chanceler do Mackenzie, no blog do Nassif, sendo necessária a leitura dos comentários. É alguma coisa para fazer corar.

2. Dá-se ocasião para que eu comente, então, sobre "Teologia pública". Digo-o de pronto: se não se tratar de uma teologia telúrica, quero dizer, epistemologicamente presa à cultura e à história, sem acesso privilegiado ao céu ou ao inferno, sem tergiversações "malandras" de disfarce "confessional" - chama-se confessional ao que é ainda e sempre medieval, político e anacrônico, como se isso justificasse o anacronismo, como se o termo "confissão" fosse um abrakadrabra, um shazan -, logo, uma autência "ciência humana", qualquer Teologia pública é uma indecência na República. Se está pressuposta a argumentação com base em supostas revelações, iniciações de mistérios e arcanos, viagens e visagens e que tais, não há a mínima possibilidade de a Teologia ser e estar pública. Sejam os teólogos minimamente educados, minimamente civilizados, trancafiar-se-ão dentro de seus templos, e aí, e só aí, despejarão suas palavras, seus mitos, suas crenças.

3. Sob a perspectiva republicana, a pregação pública, catequética, "evangelizadora", ouso dizer, é indecente. Por quê? Pela óbvia - caso contrário, estou absolutamente perdido e louco (pode ser!) - consideração de que, na República, a plataforma de argumentação tem de ser obrigatoriamente universal. Não é possível um jogo republicano em que João vá ao Céu, Maria, ao Inferno, José, ao Nirvana, Antonio, ao Hades, Miriam, ao Sheol, aquele, a Jesus, esse, a Exu, aquele outro, a Iemanjá, aquela, a Manitu, aquele ainda, a Buda, e, de lá, cada qual traga suas muito fundamentadas argumentações ontológicas - o argumento de um soará mito aos ouvidos do outro, o deus de um é o diabo do outro. O jogo republicano é um jogo não-religioso, não-teológico, não-metafísico, pela razão histórica, logo, inescamoteável, mesmo para os profissionais da fé, de que o jogo republicano foi inventado para superar justamente o jogo teológico, teocrático: os homens até se deixem governar pelo deuses - o "povo", não..

4. Não estou dizendo que as diversas crenças deveriam acabar. Não sei se fariam falta, é verdade, porque as necessidades que hoje temos delas, na sua ausência, nos levariam a criar outros mecanismos de satisfação, dado que não acredito que as religiões sejam meros caprichos humanos - todavia, não duvido que vivêssemos bem sem o sistema religioso tal qual inventado até agora. Mas recupero o fio de argumentação: estou dizendo que o jogo republicano impõe a mim e a você que, na ágora, na praça, quando estamos diante um do outro, reduzamos nossa base de argumentação ao que é comum a mim e a você ao mesmo tempo. No espaço da cidadania, da República, da "nação", não posso empregar argumentos cristãos, quero dizer, baseados nas doutrinas do Cristianismo, quando tenho, como interlocutores, não-cristãos - e, mesmo se todos nós fôssemos partícipes da mesma fé, ainda assim teríamos que, por força do jogo, reduzir nossa base retórica ao que é humano, demasiadamente humano...

5. Aí, que belo flagrante de infração do jogo republicano os argumntos desse senhor reverendo. Envergonha-me o fato de ele não ter vergonha. A isso se chama Apologética, nos cursos de Teologia - a cara-de-pau de defender o republicanamente indefensável. A Apologética é a arma do desarmado - mas se lhe dão um fuzil e o direito de usá-lo, eis a Inquisição, senhores... Ele não é capaz de ter aprendido que a Bíblia pode ser tratada como Palavra de Deus por ele e por seus féis - e só entre eles, mas que a República tem nela, nas Escrituras, apenas a consideração de que sejam livros sagrados de uma determinada fé, tão sagrados, para a República, quanto o Corão e os sonetos de Bocage. Todavia, nos argumentos desse senhor, profissional da Teologia, o fato de ele crer na Bíblia como Palavra de Deus pode e deve ser usado como argumento sobre todos os cidadãos. Não há como não concluir que esse senhor vive como que na Idade Média, como se a retórica pública se desse em meio a um regime teocrático, do qual, claro, ele fosse porta-voz. Se lhe ensinaram algo no Seminário, temo que tenha esquecido, se é que aprendeu. Vá um sacerdote do candonblé argumentar na mesma base, esse senhor reverendo há de satanizá-lo, revelando o grau de cidadania republicana a que se pode chegar, quando se troca o jogo republicano pelo jogo teocrático.

6. Naturalmente que a academia tenta - mas tenho medo das tentativas dessa academia! Mas a Teologia que se produz a partir de dogmas não tem qualquer parentesco com a academia universitária, ainda que a fachada dos prédios ostentem lá um letreiro com a mesma expressão. No entanto, a academia teológica, quando vai a público, falar de "Teologia pública", terá ela a noção do desastre republicano que defende? O que ela quer? Uma praça em que cada religioso palreie suas crenças, todas, para si mesmas, verdadeiramente verdadeiras, de granito e mármore de tão "duras", numa pantomina sem sentido? Ora, que isso se pratique dentro dos templos! Mas não! O que as religiões de conquista queriam e querem há séculos e ainda hoje, lá e então, é a conquista das massas - e, por isso, devem esforçar-se para ter acesso, ainda que anti-republicano - porque Deus é maior do que a República, naturalmente!... - à mente dos cidadãos republicanos, nessa feira de deuses e deusas, nessa Babel de crenças e descrenças, de graças e desgraças que é o mercado religioso.

7. Que os reverendos bradem suas espadas, quero dizer, seus argumentos velhos, ocos, puídos, descontextualizados, anacrônicos, superados, vá lá - digamos que faz parte de sua "profissão", e, quantas vezes, não é para o "mercado interno" que falam? Mas a Teologia universitária, antes de arvorar-se em portadora de uma "Teologia pública" (se não me engano, inventada no país em que a fé evangélica justifica a invasão do Iraque e legitimava, ainda ontem, um governo mentiroso e invasor), deveria é fazer um acerto de contas civilizatório, e decidir se, afinal, é, de fato, republicana. Se for, deverá, imediatamente, converter - transformar - a plataforma em que opera, transferindo-se da retórica confessional e metafísica, para a plataforma das Ciências Humanas. Caso contrário, não terá nada de republicana, conquanto tenha nas mãos a chave da sala de aula.

8. Os teólogos devem pagar o preço - ou não honrarão a vocação. Não se pode mais ser teólogo e sacerdote, estar a serviço da fé e da crença, ao mesmo tempo em que se deseja inserir-se na cidadania e na civilização republicana. Se o desejo é o sacerdócio, escolheu-se o interior dos templos, e é aí que se deve ficar. Se se optou pela cidadania, não há mais espaço para a boca de Deus - e aí só cabe uma Teologia, não-confessional, crítica, heurística. Ou se está a serviço do dogma, o que exigirá um discurso interno, de defesa do obscurantismo e do atraso - que é como julgo o discurso do reverendo - ou se está a serviço da República, desse modo novo de ser habitante de uma nação que não nega o direito à fé, mas solicita, muito gentilmente, que seja assunto de foro íntimo. Não há lugar na República para uma Teologia pública - ao menos enquanto a Teologia não se der conta de que "Deus está morto".


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 11 de abril de 2010

(2010/313) Do deslocamento tectônico de certas teologias


1. Não sei se o futuro revelará sucesso para a classificação que postulo para a Teologia pós-MEC - teologia ontológica, teologia metafórica e teologia fenomenológica. Deixemos que o futuro tome conta de si. Todavia, essa semana tornei a enfrentar uma questão nervosa em torno da teologia como metáfora, questão que eu já enfrentara, no mesmo contexto, ao passado. Quando apresentados à teologia como metáfora, a primeira coisa que os alunos comentam é: ora, como o teólogo metafórico pode tratar as palavras da fé como metáfora, se as "ovelhas" as tratam como representações fidedignas do mundo de "Deus"? Ou seja, como pode o teólogo ser metafórico, se a comunidade é ontológica?

2. A questão é muito bem levantada, mas, convenhamos, ela decorre de um problema tectônico: a teologia como metáfora é resultado do enfrentamento das Luzes e do Romantismo europeus, e é, em todo sentido, o resultado de um enfrentamento dessa questão européia. A teologia metafórica é uma saída pastoral - ao estilo europeu. Logo, se estamos em solo não-europeu, se estamos diante de comunidades ontológicas - e estamos: as comunidades cristãs brasileiras são, sem exceção?, medievais, logo, metafísicas e ontológicas -, resulta natural que a teologia metafórica encontre-se, aí, aqui, absolutamente deslocada. A teologia metafórica só logrará encontrar aceso natural em comunidades "esclarecidas" iluminista-romanticamente, em comunidades que compreendem que a metáfora é a forma escolhida por essa parcela da pastoral para, ao mesmo tempo que manter as "palavras que curam", desviar-se da metafísica doutrinária da Idade Média. Fora desse ambiente, não há lugar para ela - salvo na experiência subjetiva do teólogo tectonicamente deslocado. Arrisco dizer que esse é o caso da totalidade dos teólogos metafóricos atuais. Considerando-se os que conheço, sem dúvida. Já o disse pessoalmente a um representante "forte" dessa modalidade de teologia...

3. O mesmo se deve dizer da teologia fenomenológica - somente onde se desejar verdadeiramente, sem tergiversações, sem dissimulações, sem prestidigitações, uma teologia verdadeiramente científico-humanista, só aí, em nenhum lugar mais, emergirá a teologia fenomenológica - que ainda precisa emergir enquanto "fato" para além dos imites de sua simples formulação teórica. Também a teologia fenomenológica é uma reação ao Iluminismo e ao Romantismo europeus, conquanto não seja uma saída pastoral - pelo cntrário. Ela é uma saída heurística, científica - ao menos é o que postula. Mas, nesse sentido, é tão deslocada quanto sa "irmã" de berço, a teologia metafórica.

4. Já a teologia ontológica, não. Ela sequer é necessária e exclusivamente "cristã". Quando nasceu a teologia cristã, já havia pelo meos 100.000 anos que a teologia ontológica adensava seus domínios planetários. Seja o Brasil cristão, seja a África animista, seja o Oriente politeísta, impera aí, inconteste, a teologia ontológica - e, não se enganem, também os cristianismos europeus, todos, o são. Todo o planeta é sua casa. Todo país é sua morada. Ela está em casa em qualquer templo. Ela só não resiste àquele evento secular que, começando com as invasões árabes na Europa (século X), redundou na invenção tectônica das repúblicas modernas (século XIX/XX). Quer dizer, resistir, resiste, mas ao preço ou da sonegação de informação, ou ao preço de sua demonização. Na prática, encontrou um modo de sobreviver nas repúblicas - e, qem sabe?, à República...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 4 de junho de 2009

(2009/325) Sobre "laicismo", apud Saramago


1. Saramago, que leio e que gosto (o certo seria "que leio e de quem gosto", mas o efeito de "que leio e que gosto" soou-me mais sonoro), Saramago, então, tem um blog. É O Caderno de Saramago. Mas ele não deixa você postar comentários - provavelmente porque haveria de querer ler e responder a todos, e seria um deus-nos-acuda. No entanto, você fica com vontade de reagir às provocações. Eu, por exemplo.

2. Seu último post, ainda quente do forno, parte dele diz:

2.1 "(...) o laicismo aparece-me mais como uma posição política determinada mas prudente que como a emanação de uma convicção profunda da não existência de deus e portanto da impertinência lógica das instituições e dos instrumentos que pretendem impor o contrário à consciência da gente. Discute-se o laicismo porque, no fundo, se teme discutir o ateísmo. O interessante do caso, porém, é que a Igreja Católica, na sua velha tradição de fazer o mal e a caramunha, anda por aí a queixar-se de ser vítima de um suposto laicismo “agressivo”, nova categoria que lhe permite insurgir-se contra o todo fingindo atacar apenas a parte. A duplicidade sempre foi inseparável das tácticas e das estratégias diplomáticas e doutrinais da cúria romana.

2.2 Seria de agradecer que a Igreja Católica Apostólica Romana deixasse de meter-se naquilo que não lhe diz respeito, isto é, a vida civil e a vida privada das pessoas. Não devemos, porém, surpreender-nos. À Igreja Católica importa pouco ou nada o destino das almas, o seu objectivo sempre foi controlar os corpos, e o laicismo é a primeira porta por onde começam a escapar-lhe esses corpos, e de caminho os espíritos, já que uns não vão sem os outros aonde quer que seja. A questão do laicismo não passa, portanto, de uma primeira escaramuça. A autêntica confrontação chegará quando finalmente se opuserem crença e descrença, indo esta à luta com o seu verdadeiro nome: ateísmo. O mais são jogos de palavras"
.

3. Já reagi uma vez à verve apologétco-ateísta de meu Nobel de cabeceira... Reajo outra vez. Não se pode "discutir" - muito menos "seriamente" - ateísmo. Não vê aquela obra triste e lamentável do Michel Onfray? Esperava eu um verdadeiro Tratado de Ateologia, e achei lá aquilo, tão velho que qualquer bom - bom, eu digo! - teólogo do século XX já tinha denunciado. O próprio Saramago, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo fizera muito melhor: a cor do cristianismo é o vermelho - sangue... Mas isso não fala do ateísmo tanto quanto fala de um Deus sanguinário. Ou será que nosso amigo ateu considera provável a máxima teológico-dualista de que, se é Deus, é bom?

4. Não, meu caro Saramago, de quem adorei Memorial do Convento (deves-me umas lágrimas pardias à dor ali). Não se pode "discutir" ateísmo. Pelo menos tanto quanto não se pode discutir "teísmo" ou qualquer outra madalidade de "aposta" metafísico-ontológico-mitológica. Se há ou não há deus, deusa, deuses ou deusas, pessoais ou energéticos, anímicos ou ectoplasmáticos, não se pode saber. Crer, sim. E, nesse caso, tanto crer que há, quanto crer que não há, porque as duas atitudes são fideístas.

5. Se você crê em Deus, e se se julga tão certo disso que, comissionado, passa a falar disso para todo mundo - um missionário, vejam só! -, que diferença há entre esse e um idêntico catequista ateu, que, crendo que "Deus" não existe, prega isso, anuncia isso aos ventos? Ambos poderão, com um muchocho, choramingar - "quem deu crédito à nossa pregação?".

6. Saramago, um pregador... Quem diria...

7. De qualquer forma, sua leitura a respeito de Roma - o que se poderia, além disso, dizer de todos os demais modus eclesiásticos - é bastante pertinente. Falar de laicismo é um modo de falar, indiretamente, de ateísmo, sem o constrangimento de ter de lidar com a questão, como quem fala de uma doença pelo nome de "mal" - "ele está com aquele mal" (Rorty também adotou a "moda" - ele não é mais ateu, é anti-clerical. Quer dizer, era, porque não tem mais como resolver a questão, já que estava certo, e se foi...). Assim, você não "atrai" a coisa... Mas isso apenas se o discursador é a Igreja. Porque, em sentido antropológico, "laico", logo, "laicismo", diz respeito a uma distinção relativa ao "clero", seja dentro da Igreja, seja, contudo, também fora, porque o Estado, a República, são laicas, e não se vai deixar de referir-se nunca a isso, uma vez que foi contra a Igreja, essa mesma, que a República se insurgiu, fazendo-se o que é. Contra a Igreja - mas não contra, necessariamente, Deus - ou Não-Deus.

8. "Graças a Deus", se me faço entender... Ou ao Não-Deus, tanto faz... Nesse caso, não faz a menor diferença...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 31 de maio de 2009

(2009/317) Reação a "(2009/315) Teologia em universidade pública (II)", de meu amigo Haroldo Reimer


1. Haroldo, louvo sua disposição para o trabalho, sua dedicação, o fato de que você faz tudo que faz com muita atenção, zelo, responsabilidade. Isso admito muito - invejo mesmo! - em você. Quanto a Peroratio ser "diferente" - e isso pelo fato de ser uma plataforma de debate (ainda que um dos debatedores, eu tenho dúvida se ele entendeu o sentido da coisa [Jimmy - ame-o ou deixe-o!] -, foi exatamente por e para isso que convidei você e Jimmy para fazerem contra-ponto comigo. Queria exatamente isso, uma ágora inflamada e sangüínea, pulsional e racional, epistemologicamente consensual, mas agônica no esforço de abrir a carne da "realidade" com a faca do "espírito humano". Não um palanque monocórdio, mas, nem por isso, uma feira pós-modena... Que bom que aceitou, e, ainda mais, que permanece fiel ao projeto, conquanto eu sei, às vezes, porto-me além da "conta"...

2. Entendi melhor agora a distinção que você fazia e fez entre Teologia na Universidade pública e Teologia na Universidade privada. Um dos dois, contudo, está pegando o dado pela face errada - talvez eu. Sim, pode ser mesmo que eu esteja equivocado. Insisto: longe de considerar-me absolutamente certo, apenas dou oportunidade às críticas que me vêm à mente. Mas eu acho que se poderia, e talvez fosse melhor, pegar o dado por outra perspectiva: não o "espaço" onde a coisa é feita (Universidades pública e privada), mas a coisa que se faz nesse espaço.

3. Vamos à sua insistência no "Pacto Republicano", que, logo afirmo, assino sem ressalvas. O Pacto, Haroldo, foi "assinado" entre o Estado e a "Religião". Não é um tema fácil, porque o Estado não o assinou com um Abstração, mas, ao mesmo tempo, não o assinou com o conjunto das "religiões" concretas. Nenhuma religião assinou coisa alguma, apenas força-se a portar-se de modo minimamente tolerável (o que os Cristianismos fazem na TV, ah, Haroldo, isso já não é "quebra" de artigos do "Pacto"?). A rigor, melhor do que Pacto Republicano, a expressão devesse ser o Axioma Republicano, a Exigência Republicana, a Norma Republicana, isto é, a decisão soberana do Estado - outro fator complicador, porque essa decisão é "popular" e pode, a princípio, ser suspensa a qualquer momento - em face de sua existencialidade político-social. O Estado não quer relações com as religiões que não sejam aquelas próprias do Estado com os organismos jurídicos que permeiam sua constituição hipônima e em que se contam, também, as "Instituições Religiosas".

4. Tanto não é um "pacto" - no sentido estrito do termo - que nenhuma religião pode, por si mesma, suspendê-lo. Mesmo o Vaticano, "promiscuidade" moderna de Estado e Religião, deve parar diante da Laicidade de Brasília... Trata-se, pois, de um modus vivendi republicano, imposto pela filosofia/política republicana, moderna, laica - o qual, diga-se, erigiu-se em face da e contra a "religião" - se não a sua face estética, certamente a sua interface política (que "heurística", aí, nunca houve - até agora)...

5. Isso posto, assumido que é o próprio Estado quem não quer intrometer-se na "religião", porque não quer a religião intrometendo-se mais no Estado, resta fazer a seguinte pergunta: Teologia virou sinônimo de religião? Eu concordo com você que o modelo MEC atual de Teologia ainda é insuficiente para a Universidade Pública - mas eu gostaria de insistir em que ele é ainda insuficiente para a própria Universidade particular, porque ele é - e esse é o ponto - insuficiente para a própria Teologia universitária.

6. Fator de complicação: a Universidade particular de Teologia há de preparar profissionais para o mercado teológico. Ora, o mercado teológico, hoje, é um mercado sacerdotal/profético e/ou político/estético. Uma vez que não há uma Teologia não-religiosa (digamos assim), não há uma pesquisa teológica não-comprometida com o "mercado", que se porta alinhado à religião. Pior, é com vistas a esse mercado não-conforme as Ciências Humanas que a Teologia se faz presente no MEC! Chegamos ao absurdo de, nesse momento, o Estado acolher em seu corpo institucional dezenas de Cursos de Graduação em Teologia que ensinam, dentre outras cosias, "missiologia", isto é, a "Missão" que a Igreja diz ter de "Deus" de converter a "Ele" - leia-se, ao Cristianismo - todas as pessoas e todas as coisas. Isso é sumamente intolerável - e, contudo, toleramos, Haroldo, porque somos nós a nos beneficiar da situação. Injustificável. Ironia: se um "ateu" processar o Estado por conta da permissão que dá à Teologia de, dentro de um de seus Ministérios - o MEC -, promover o treinamento missiológico para a sua conversão à religião, caberá ao juiz, o quê, orientá-lo a que faça o mesmo, porque ele tem esse direito? Mas onde foi parar, então, o senso republicano? A batalha entre as fés há de se travar, também agora, no ventre da Mãe-Pátria? Já não chega o crucifixo ostentado acima da cátedra da Presidênia do STF?

7. Vejamos. A Igreja tolerou a escravidão por guerra, no passado. Era o costume. A Igreja tolerou a escravidão por raça, moderna. Era o costume. A Igreja tolerou a manutenção do sub-papel da mulher na sociedade. Era o costume. A Igreja tolera o preconceito de gênero alternativo - e com isso ela apenas assume o "costume". Ora, o costume qual é? Que ser teólogo é ser cristão, e que ser cristão é desejar - com Deus - a conversão do mundo inteiro. A Teologia - nós - acostumados a tudo tolerar e disso só abrir mão à força (não foi assim?) - vamos tolerar essa circunstância, nos acomodar a essa impertinência, quando nossos olhos sabem e vêem o equívoco dela?

8. Nossa discussão tem de mudar de foco, Haroldo. Não estamos discutindo a relação entre o Estado e as Organizações Religiosas - estamos discutindo as conseqüências inegociáveis para a Teologia - ao menos como "carreira"/disciplina do Sistema Federal de Ensino, seja público, seja privado: é federal - de ela ter sido aceita na plataforma moderna, crítica, emancipada, epistemológica, das Ciências Humanas. Seja na Universidade pública, seja na Universidade privada - ela, a Teologia - é, agora, outra coisa. Não é mais da "religião" - muito menos, "religiosa" ou "religião". Se o que as Organizações Religiosas, nossas igrejas, por exemplo, se o que elas querem é formar "profissionais" domésticos, provincianos, consumíveis, que abram cursos específicos como sempre fizeram desde a República. Mas, Teologia é, agora, outra coisa: não serve mais para isso. Conquanto possa servir, tanto quanto Psicologia serve para aconselhamentos pastorais - se também eles amadurecem.

9. Faço-me mais claro, amigo meu? Pensar a Teologia no MEC, suas implicações. Não, nada de negociar com as Organizações Religiosas, porque, você sabe, elas não negociam, amigo. Todos os avanços que a República conseguiu foi a despeito delas. Valeria um bom post e uma boa discussão o combate Igreja Romana versus Maçonaria, do início do século, quando do advento dos protestantes/evangélicos "missionários" no Brasil: na titânica batalha das Igrejas, foi o "princípio republicano", manejado (de dentro e de fora) pelos maçons, quem logrou nos proporcionar espaço público - para, agora, dedicarmo-nos, com todas as forças evangélicas, a cooptar a própria República! Roma, ao menos, é mais "profissional" nessas políticas... E, agora, elas vão aprendendo a lidar com a nova situação, mas, Haroldo, você desacredita de que elas, as organizações cristãs, não estão prontas, como sempre, para, na suspensão da República, voltar ao projeto mundial? Não é ele que operamos - ainda? Não é a ele que servem os "pastores", eles mesmos, teólogos, quando deixam a cátedra e se dirigem aos púlpitos - com as exceções louváveis e raras, mas, anda assim, obtidas muitas vezes à custa não da denúncia declarada do "projeto", mas de sua "metaforização"? No MEC, pois, os teólogos devem sentar, todos, e dialogar, e pensar uma Teologia pós-religiosa. No MEC, não é mais a serviço da religião que a Teologia está, como não é mais a serviço dela que estamos - mas a serviço do pensamento emancipado e necessário da relação entre o/a homem/mulher e o sagrado. E isso até se, para tanto, tivermos de nos pôr contra ela - já fizemos uma vez, e faremos de novo, se for necessário, porque acontece com a Teologia/MEC o mesmo que com a República/Religião - o segundo termo não joga o jogo - frauda-o.

10. É urgente a tarefa. Imenso, o desafio. Agora, a hora.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. meu privadíssimo amigo, por favor, faz-me ver onde estou errado! É muito, muito, muito angustiante "enxergar" de um jeito, estar eventualmente errado, e não "perceber". Eu vejo a situação de modo tão claro, tão límpido - e, desde que li Edgar Morin, contudo, apavora-me ser tomado de self deception, de auto-engano, da "mentira para si/mim". É do mais profundo desejo de ver claramente que peço - ajuda-me a ver se e onde erro, se e onde perco a saniade em nome da super-sanidade. Para isso, amigo, a ágora é imprescindível, o outro, não-descartável, o amigo, outro "eu"...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

(2009/303) Parecer Mec


1. Primeiro, devo agradecer ao Osvaldo pela indicação feita à nova configuração da minha página. Na verdade, tenho uma página porque Osvaldo, como bom amigo, deu-me a página. Ele a criou. Eu mesmo estou ainda num estágio de desenvolvimento que não consigo 'dominar' esse instrumental. A 'nova' página continua, no fundo, a mesma: um armazém de textos, que vão sendo produzidos e publicados em diversos lugares. Claro que tenho sonhos e interagir mais e melhor por este meio da presença virtual. Mas são demais, no momento, as demandas que pedem a minha atenção. E, no mais, "ando devagar porque já tive pressa...".

2. Osvaldo e Zabatiero travaram uma troca de correspondências, com questões profundas, amabilidades e pontos de tensão. Estes, claro, são necessários ao debate e, como bom debate, expõe necessariamente as divergências.

3. Não tenho a pretensão de fazer rebate de detalhes. Ocorreu-me opinar especialmente numa questão reclamada por Zabatiero. Ele diz que o Parecer é paternalista, que o CNE dita questões sem consulta às pessoas diretamente envolvidas nos cursos de Teologia. Aqui cabe lembrar que as discussões no CNE tiveram um 'nó' que desencadeou e deu causa ao Parecer. Trata-se do pedido de vistas da conselheira Marilena Chauí quanto ao processo de autorização de uma Faculdade de Teologia dita confessional. Sem entrar no mérito do pedido de vistas, aí se manifestava, porém, uma preocupação necessária. Se a Teologia vem para ocupar um espaço no mundo da academia, no espaço universitário, ela deve propiciar espaços e momentos de interdisciplinariedade. A isso, assim me parece, relacionam-se as exigências do Parecer quanto a um número mínimo de disciplinas 'afins'. E isso é salutar. Saúdo essa decisão.

4. Quanto à questão de um entendimento sobre um conteúdo mínimo do que seja propriamente 'teológico', o CNE não poderia prescrevê-lo e, salvo melhor juízo, nem poderia fomentá-lo. Aí se estaria ultrapassando acentos constitucionais previstos no pacto republicano. Neste, sabidamente, Estado e Igreja, melhor seria dizer, Estado e Organizações Religiosas atuam em searas distintas, com limites assentados. Ao Estado cabe a obrigação negativa de se manter isento em questões de crença, não podendo sobrepor-se e, assim, invadir as prerrogativas individuais frente ao Estado em questões de crençã.

5. Como, neste pacto republicano, se poderia colocar à mesma mesa de discussão tradições religiosas tão diferentes a partir de sua matriz para discutir algo como 'parâmetros curriculares' em termos de Teologia? Dificilmente uma tradição afro-brasileira estaria aberta a colocar em seus currículo de 'teologia' uma disciplina de 'cristologia'. Inversamente também haveria dificuldades, como já as há em se tratando de cursos de teologia de cristã, porém de confissões diferentes. Este não poderia ser o caminho. O CNE, como braço do Estado, deve frear seus passos no ponto em que o Parecer parou.

6. Discutir o estatuto da Teologia é tarefa interna dos manejadores dos cursos de Teologia. Claro, aí a composição da mesa deve ser a mais plural possível. As dificuldades nesta seara de discussão podem antevistas, a exemplo do que se dá quando o tema é 'diálogo interreligoso'.

7. A Teologia numa universidade pública, plural, não dominantemente cristã, é outra demanda. O que o pacto republicano poderia aí permitir ou possibilitar?


HAROLDO REIMER

segunda-feira, 20 de abril de 2009

(2009/193) MPF de olho na mídia "evangélica"


1. Quando, ontem, eu escrevia a postagem (2009/185) Mídia evangélica e sociedade, não tinha ainda essa importante informação. Obtive-a, hoje, através do blog da redação do Le Monde Diplomatique. Trata-se de ação do Ministério Público Federal contra as redes de televisão que discriminam a fé religiosa afrobrasileira (umbanda, candomblé e congêneres) - isto é, de cheio, a mídia evangélica. Transcrevo a artigo:

2. "E se preconceito virar crime? Segunda-feira, 16 Março 2009, by Carolina Gutierrez: Ministério Público Federal pede a condenação de emissoras de TV que usam concessão pública para discriminar religiões afrobrasileiras.

2.1 A intolerância religiosa e o desrespeito às tradições afrobrasileiras levaram o Ministério Público Federal (MPF) a impetrar uma ação civil pública, com pedido de liminar, para barrar a exibição dos programas que ofendam e desmoralizem a religião afro. A ação foi ajuizada no último dia 5 de março e aguarda apreciação do juíz. O descumprimento da decisão judicial pelas TVs poderá implicar multa diária de R$10 mil.

2.2 A procuradora Regional dos Direitos do Cidadão, Adriana da Silva Fernandes, autora da ação, informou que o pedido final de condenação feita pelo MPF será uma indenização por danos morais tanto aos seguidores de toda a diversidade de religiões afros quanto à sociedade brasileira. “O abuso praticado pelas emissoras contraria a dignidade da pessoa humana, bem como os próprios objetivos de construção de uma sociedade livre, justa, sem preconceitos de origem, raça, cor, sexo, idade e quaisquer formas de discriminação”. O valor estipulado é de R$ 13,6 milhões para a Record, e R$ 2,4 milhões para a Gazeta. Isso corresponde a somente 1% do faturamento das emissoras em questão. Segundo informações do MPF, a soma será revertida para o Fundo de Defesa dos Direitos Humanos.

2.3 A ação da procuradora é resposta à insistência das duas emissoras em ridicularizar as fés ligadas à cultura negra. Entre os programas veiculados por Record e Gazeta, em espaços vendidos à Igreja Universal do Reino de Deus, estão “O Desafio da Cruz” (Gazeta), “Ponto de Fé” e “Sessão de Descarrego” (Record). O monitoramento dos mesmos, feito pela Anatel a pedido do Ministério Público, apurou que diversas vezes foram utilizadas expressões como “maldição espiritual”, “uma obra espiritual do mal”, “as obras das trevas”, “magia”, “feitiçaria”, “obras do diabo”, “bruxaria” intercaladas ao uso da palavra “macumbaria”.

2.4 O Ministério Público Federal já lida com ações contra a intolerância religiosa por parte da Igreja Evangélica desde 2003. “Houve uma ação civil anterior com direito de resposta. Foi suspensa pelo TRS”, afirmou a procuradora. Já em 2008, o ministério das Comunicações a irrisória multa de R$1.012,32 para as duas emissoras. Não foi suficiente, nem em quantia quanto em aviso. Aliás, há dúvidas até sobre a efetivação do pagamento. “Oficiamos. Houve a possibilidade de recorrer e não houve resposta. Sabemos que foi aplicada, saiu no Diário Oficial , mas não sabemos se houve recursos”, diz a procuradora.

2.5 As emissoras costumam defender os programas que veiculam preconceitos escudando-se na liberdade de comunicação. Mas segundo Adriana, esta não é absoluta, devendo submeter-se a outros direitos inseridos na Constituição Federal, como o respeito à dignidade da pessoa humana e religiosa. Os ataques às religiões afro ainda entram em confronto com a Lei Geral de Telecomunicações. Segundo esta, as emissoras, como beneficiárias de uma concessão pública, têm responsabilidade total pela programação veiculada. “Entendemos o Brasil como um Estado laico, neutro. Não deve ser omisso. Deve-se garantir a liberdade religiosa”, ressalta Adriana".

3. Se o preconceito virar crime? Pois tomara! Se, malgrado ser o Brasil uma República, a mídia evangélica, isto é, as concessões públicas de rádio e TV, e, por trás dela, o povo evangélico, não se comportam republicanamente por força da absoluta consciência do direito e da dignidade da expressão cultural de todos e de cada um, que sejam, então, forçados a fazê-lo, nem que, para isso, entupem os cofres públicos. Dinheiro é o que não lhes falta, certamente...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 6 de abril de 2009

(2009/142) "Revelação" segurando vela...


1. Encontro e leio o artigo Teologia e Política (Francisco de Aquino Júnior, "Teologia e Política", Rever, ano 8, março, 2008, p. 92-118). Não vou entrar nos seus detalhes - o fato de o artigo pronunciar-se a partir da retórica da revelação cristã impede-me de levá-lo a sério, já que o seu tema é a relação entre Teologia (cristã e revelada) e Política (laica e emancipada). Não, o "doutorando em teologia na Westfälischen Wihelms-Universität de Münster" não se pronuncia fenomenologicamente, ou seja, como se descrevesse, distanciadamente, logo, criticamente, a relação entre uma Teologia que se pretendesse revelada e uma Política democrático-republicana ocidental: Francisco de Aquino Júnior pronuncia-se ideologicamente, assumindo, para todos os fins, essa condição da Teologia - ainda que a retórica empregada seja, na "forma" (mas não na "matéria"), "cadêmica".

2. Ainda é mais grave: fala-se, aí, de uma "ciência teológica", e, no contexto da relação entre Política ("ciências sociais e políticas") e Teologia ("ciência teológica"), chega-se a declarar:

2.1 "O que caracteriza o discurso teológico é que sua abordagem dos processos históricos, da configuração das relações sociais, da constituição das forças políticas, da produção e eficácia dos discursos ideológicos e da participação dos crentes e de suas igrejas /religiões nesses processos dá-se a partir da fé da comunidade religiosa em que ele está enraizado e é produzido e em função dela.

2.2 Enquanto as ciências sociais e políticas procuram analisar a função, o papel e a importância da religião na constituição e configuração dos processos históricos, das relações sociais e das forças políticas, a teologia procura analisar todos esses processos e a participação dos crentes e de suas igrejas/religiões nesses mesmos processos a partir da fé - no sentido de ver se estão mais ou menos de acordo com as exigências fundamentais da fé e de discernir, entre as diversas possibilidades históricas, caminhos, posturas e
ações para os crentes e suas comunidades religiosas em vista da eficácia da fé. Não existe, necessariamente, contradição entre ambas as perspectivas. Trata-se, antes, de acessos diferenciados à mesma realidade (relação teologia e política). E acessos que podem permitir, promover e potenciar o conhecimento de dimensões ou aspectos diversos da mesma realidade. Indo mais longe, ousaríamos afirmar, inclusive, que se trata de abordagens que de uma forma ou de outra se implicam mutuamente. Afinal, se as ciências sociais e políticas querem compreender realmente a função, o papel e a importância da religião nos processos sociais e políticos, não podem, sem mais, desconsiderar a perspectiva própria e específica (cosmovisão, as tradições, os interesses...) dos crentes e de suas igrejas/religiões. Por outro lado, se à teologia interessa, antes de tudo, a eficácia da fé, ela não pode ficar indiferente aos resultados reais e concretos da práxis dos crentes e de suas igrejas/religiões nos processos históricos. Tem que levá-los a sério, sob pena de se reduzir a especulações teóricas sem eficácia histórica ou, o que é mais provável, ser transformada (por comissão ou por omissão) em instrumento de legitimação ideológica de determinadas práticas contrárias à fé" (p. 93-94).

3. Logo se vê, por isso, que a relação entre a Política e a Teologia é o flagrante da intercessão de dois mundos (ainda que o artigo postule a referência da Teologia e da Política a "uma mesma realidade"): esse momento, o "encontro" entre a Política e a Teologia, acontece naquele espaço em que um mundo e o outro se sobrepõem, porque, ambos, afinal, estão pousados sobre a mesma placa tectônica (mas não a mesma "realiade", conforme a perspectiva "revelada", metafísica e sobrenatural com que a Teologia, mas não a Política, interpreta a "realidade"). No entanto, se a Teologia encontra, aí, propostas, atitudes e práticas "contrárias à fé", está desde sempre pronta para reagir à altura, para defender-se e a seu mundo. A Teologia - também essa aí - vive em outro mundo. Ela não é "daqui", nem "daqui" são seus soldados. A República, o Estado Democrático de Direito, os valores emancipados da sociedade laica, a liberdade, são são seus valores: constituem, apenas, uma instância política a que a Teologia precisa operar, porque a isso fora forçada pela conjuntura histórica. A Teologia, contudo, não há de negociar, não senhor, nenhum de seus "valores de fé". Pelo contrário!

4. É sempre na condição de porta-voz do "Reino" - o que significa que a realidade última e ontológica se soprepõe em valor à realidade histórica e humana, conseqüentemente, a Teologia, arauto do Reino, à Política -, que a Teologia fala: "o problema reside nas formas práticas e teóricas de articulação e interação entre teologia e política. Por sua própria natureza, a teologia cristã nem pode ser reduzida à política, nem pode prescindir da política. É uma teologia política, sim; mas não é política, sem mais. Por sua vez, a política tem seus dinamismos e suas instituições próprias. Mas estes nem são “naturais” nem são neutros. São produtos da práxis humana - individual e/ou institucional - e estão a serviço de certos interesses. Interesses que dizem respeito aos cristãos e às igrejas cristãs. E não apenas enquanto membros da sociedade ou enquanto força social, mas também na medida em que objetivam ou negam a objetivação do reino na história" (p. 116). A relação que a Teologia tem em vista é a defesa dos interesses da fé e do Reino - é apenas quando os interesses da Política perfilam-se aos da fé e do Reino que a Teologia estende a mão à Política. Caso contrário, a Teologia ali está para garantir a segurança da fé, a vigência do Reino.

5. E não é que não se compreenda a "relativa independência" dos dois setores da vida, porque o que está em jogo é o risco de uma Teologia "litúrgico-carismática" dissociada dos enfrentamentos político-sociais: "daí que não apenas não possam ser indiferentes aos processos e organizações sociais e políticos da sociedade, mas que tenham que agir - dentro de seus limites, de suas possibilidades e de seu dinamismo próprio - de modo a fermentar esses mesmos processos e organizações com o dinamismo e a força do reino (1 Cor 4,20). E isso sem negar a especificidade e a relativa autonomia da fé e da instituição eclesial frente a outros aspectos e forças sociais e políticas, nem a especificidade e a relativa autonomia dos processos e organizações sociais e políticas frente à fé e à instituição eclesial" (p. 117).

6. Não estou dizendo que a Teologia deveria assumir o interesse concreto desse ou daquele grupo político. Falo em termos filosóficos: o jogo da Política - a inegociável compreensão de que os valores, as regras, as lutas, dão-se entre gente humana. Mas, não, a Teologia apenas tolera a presença humana, mesmo quando é ela que fala. No fundo, é "Deus" o legitimador dos conteúdos teológicos, apesar de que se sabe, mesmo os teólogos o sabem, que o conteúdo, todo, sem exceção, da Teologia, é humano, demasiadamente humano. No entanto, porque os teólogos gostam de acreditar que o vento que sai de seus corpos constitui expressão do divino, também os não-teólogos deveriam aceitar essa retórica enferrujada, envelhecida, anacrônica e senil, a boa "política" de que a Teologia teria boas coisas a dizer.

7. A Teologia resiste, persevera, suporta, agüenta, tolera, sofre, padece, angustia - pacientemente. Talvez ela pense (e talvez não esteja equivocada!) que essa fase do jogo político, afinal, chegue a passar, e que as coisas voltem a ser como antes, como quando ela, a Teologia, era, ela e só ela, a Política, como bem ensinara Platão, em A República, assim devia ser (quando a Teologia "manda", é semre a Política que "manda", uma Política manejada por sacerdotes, para interesse de sacerdotes e, eventualmente, dos reis que os paguem a soldo - e A República não apenas sabe disso, mas legitima e sistematiza isso). Uma vez que nada na História é definitivo (tanto assim que a Teologia perdeu seu trono [mas não sua mania de rainha!]), faz sentido que a Teologia, de sangue azul e filha de Zeus, conte as horas, na esperança de voltar a dar as cartas. Se permanecer firme em sua auto-compreensão revelada, terá mantido a força necessária para retomar seu posto - posto que, não nega, ela não entregou, conformada, mas cedeu, por força da Revolução e da Luz.

8. Quando caiu a Bastilha e acenderam-se as Luzes, alguém jura tê-la ouvido, dentes rangendo: "perdi a batalha, mas não a guerra".


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 27 de março de 2009

(2009/119) Minha indignação, meu pecado


1. Mas nem de longe acato, mais, a doutrina platônico-paulina-agostiniana de um "pecado original", um "estado" amaldiçoado e determinista de pecaminosidade, o que não significa que não reconheça meus próprios pecados, no sentido de ações que me ferem a mim mesmo, ferem pessoas, ferem regras. Há pecado, sim, é minha constatação, conquanto, não, original.

2. Assim, à luz daquela belíssima passagem do Evangelho, nos termos da qual Jesus reconhece haver pecado no mundo ("vai em paz, e não peques mais"), conquanto recuse toda forma de condenação, mesmo a sua ("onde estão teus acusadores? Não te condenam mais? Nem eu. Vai em paz [passagem essa em que bem o cristianismo paulino poderia ter-se arrimado para constituir-se, antes que sobre o ideário sacrificial/sacerdotal do templo]), toda indignação contra o pecado - alheio - é um pecado, porque "esquece" o próprio pecado cotidiano.

3. Assim, minha postagem anterior é representação inequívoca de meu pecado diário, eu, pecador - e o sou, Deus o sabe! -, elevando-me à altura de pôr o dedo em riste... Pecado. Que, contudo, pratiquei com consciência, numa aritmética de somar e subtrair prós e contras. É melhor pecar esse pecado, do que passar ao largo - há ocasiões em que somente se pode escolher entre um pecado maior e um menor (e, sim, há pecados maiores e menores, não sejamos cínicos). Todavia, é um pecado a minha indignação com a teologia, porque eu mesmo carrego os meus pecados. Se minhas acusações são pedras, dois pecados cometi. No entanto, postulam apenas a constação do pecado da teologia, que, não obstante, não suprime os meus, e não são pedras que lanço, mas lamentos.

4. O teólogo que eventualmente se sinta ofendido, a esse peço sinceras desculpas. Entretanto, pode ser que um teólogo se sinta no dever de, em nome de Deus, promover a "libertação" - seja do diabo, seja do pecado, seja da opressão, seja em recorte teólógico-metafísico, seja em recorte político-sociológico. Nesse caso, vejo-me forçado a pecar outra vez.

5. E eis meu novo pecado: dizer que, onde quer que uma pessoa, uma comunidade e/ou uma instituição presumam e/ou postulem a "libertação" de si ou de terceiras consciências em nome - isso é importante - de Deus, o resultado do eventual engajamento em torno dessa cruzada constituirá, não obstante, não-libertação, ou, em outros termos, troca de senhor. Não há a mínima possibilidade de uma libertação em nome de qualquer coisa que não a própria consciência - naturalmente que se deve reconhecer que falo, aqui, da libertação da consciência humana, autonomia, em face de qualquer autoridade, heteronomia, questão essa que não deve ser posto sobre a questão mais concreta da libertação político-econômica humana, nos termos em que, por exemplo, Marx a coloca. Deus, a rigor, essa idéia, não promove libertação, conquanto a substituição de um senhor por outro possa, efetivamente, melhorar as condições do escravo: por pior que fossem as condições da escravidão, em sentido humanista, eu o digo, seria, para o escravo concreto, imensamente mais feliz a sua sorte se caísse nas mãos de um "bom senhor", um Boaz, digamos, do que cair nas mãos de um déspota cruel. No entanto, num ou noutro caso, o escravo é o que é - escravo.

6. Liberdade absoluta, do tipo metafísico, que a ontologia filosófica postula, é quimera. Não existe. O homem não é, nesse sentido, nem jamais será, livre. Mas a condição humano-ecológica de liberdade pode, sim, ser alcançada, a depender das condições sociais, se para isso elas trabalham, se para isso se constituem. Não será, é a minha hipótese, por meio da idéia de Deus - e de nenhuma idéia semelhante - que a sociedade se libertará, mas, somente, por seus próprios meios, por meio do estabelecimento de leis e condições sociais que tenham por objetivo a manutenção de liberdade humana, limitada essa liberdade, sempre, pela liberdade do outro e a liberdade da sociedade como um todo, gravitando elas, essas liberdades de um, do outro, e de todos, em torno do sol igualdade, animadas pela fraternidade.

7. Não foi, até hoje, nenhuma religião, nem nenhuma teologia, nem nehuma fé, aquela teoria humana que conseguiu constituir o melhor modelo concretamente possível para a expressão, para a emergência dessas liberdades necessárias - de um, do outro, de todos. Foi, apenas, a idéia do Estado Democrático de Direito, a idéia da República, a idéia do Estado Moderno. Se, num sentido, ele carrega consigo a idéia de "controle", essa idéia sustenta, como garantidora, a possibilidade das liberdades gerais, articuladas e negociadas na ágora e no diálogo. Nesse modelo, nesse jogo, Deus não é libertador - antes, foi por meio de sua exclusão do jogo que ele se pode constituir como tabuleiro. Uma teologia que disso não faz caso ou é convictamente medieval, ou se fez defintivamente cínica.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/118) Política e teologia


1. Sem muitos rodeios, digo-o de vez: a política nacional me dá náuseas. Com política, aí, quero-me referir à prática concreta, formal, institucional, partidária, da gestão legislativa, executiva e judiciária da sociedade. Falo, para empregar uma metonímia, de "Brasília" (mas, também, das "capitais" e das "municipalidades" - naquilo que o termo "Brasília" tem de metonímico para a prática política. Há exceções? Deve haver, e tão raras, contudo, que, para o que me interessa, aqui, de exceções raras não passam.

2. O que me causa asco na política nacional constitui-se de uma hendíade (dois termos que constituem um só): corrupção e cinismo. O grau de corrupção, de que, nós mortais, cidadãos, suspeitamos (apostaríamos braços e pernas nisso) é tão grande, tão óbvio, tão ululante, chegou-se a um ponto de não-retorno tão grande, é tão endêmica, tão entranhada nas artérias dos Poderes (para o que conta com a ajuda dedicada de gigantesca parte da sociedade civil e do empresariado nacional, bem como da mídia, porque não há corrupção de um só lado), que a distinha senhora Corrução faz-se, agora, acompanhar de um distinto amigo, o senhor Cinismo.

3. No caso da política nacional, o cinismo é a capacidade de o política praticar toda sorte de ilegalidades, imoralidades públicas e que tais sem, com isso e por isso, constranger-se, de modo que não tem vergonha de mostrar a cara onde quer que seja, dizer as mais deslavadas e disparatadas mentiras (o repórter sabe que é mentira, o âncora sabe que é mentira, eu sei, tu sabes, ele sabe, todos sabem, e, contudo...) diante de Deus e do mundo. O cinismo é o estado da alma afundada num modus vivendi absolutamente desligado da civilidade humanista, dos valores republicanos, dos cânones éticos do Estado Democrático de Direito.

4. Desse status quo, aquilo que me parece ter contaminado a teologia é o cinismo. Não que não haja casos de corrupção também na teologia (quando teologia, por exemplo, funciona como um conjunto onde cabem todas as práticas profissionais - do exercício do "sacerdócio" à catedra, às assessorias, às escrevinhações, às capelanias, às missões etc.), mas o que me parece fundamentalmente endêmico - porque, nesse caso, a corrução não me parece endêmica, ainda, na teologia, nesse amplo sentido com que aqui a emprego - é o cinismo.

5. Por que cinismo? Porque a teologia se manifesta, publicamente, como se o mundo fosse sua varanda, como se ela, ainda, fosse, como foi durante dois mil anos, por duaz vezes tratados como túmulo (cf. Renascimento) e trevas (cf. Iluminismo), o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, porque ela, a Teologia, é Deus na terra - faz-me rir...

6. Assim, o pastor e o padre falam como que se de Deus tivessem ouvido alguma coisa - não ouviram coisa alguma! Teólogos falam como se tivessem papéis lavrados no cartório do céu - quando a sociedade bem-informada sabe que não passam de conteúdos intestinos do delírio sacerdotal e profético de teólogos no máximo medievais. Professores se pronunciam como se a cada articulação sintática uma verdade fosse parida, materializada, hóstia verborrágica de Ml 2,7.

7. Se tal quadro se pintasse do século XVIII para lá, para bem lá, até o olho de onde ele saiu - Platão e congêneres (há congêneres de Platão quer na teologia, quer na política eclesiástica milenar do Cristianismo), tudo recobraria um ar muito apropriado, porque era do feitio daquela época fingir que a Igreja e a Coroa eram representantes de Deus - ou do diabo, a gosto do freguês. Mas hoje? Depois do século XIX? No século XXI, a teologia ainda se comportar desse jeito? Chega a ser desagradável, em termos de gosto civilizatório, chega a ser deboche, é mesmo profundamente cínico.

8. Isso a política nacional e a teologia têm em com um - acham-se donos do mundo...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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