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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

(2009/476) Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica

1. Por estes dias aconteceu na UNISINOS, em São Leopoldo, um simpósio internacional sob o tema "Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica". Acabo de receber release da palestra de encerramento feita por um professor da Universidade de Madras. Mesmo não tendo tempo para um comentário, compartilho o conteúdo.


HAROLDO REIMER


domingo, 21 de junho de 2009

(2009/368) Haroldo e a postagem nrº 500!


1. Posso escrever vinte postagens, mas é quando Haroldo escreve que fico realmente excitado. No caso de Jimmy, penso que a cadeira quebraria, e eu cairia para trás. Quando acordasse do desmaio, veria que tinha sido um sonho... Já Haroldo, quando escreve, ainda que pouco (para meus padrões e minha ansiedade), meu coração bate - seja de alegria, seja de curiosidade. Terá aprovado meus devaneios? Terá se aborrecido? Dessa vez - terá ele se dado conta de que escreveu a postagem de nrº 500 de Peroratio?

2. Se possível fora repetir os adágios da infância da consciência, mas, esteticamente, anda posso, diria que sua boca fosse a de mil anjos. Eu quero tornar-me historiador, Haroldo. Mas não sou - não ainda. Penso que esteja a um passo, tanto no que diz respeito ao direito, quanto ao fato.

3. De direito, essa semana que o dia de hoje abre tem alguma chance de me garantir o desejo - faço a prova na Rural, você sabe. Acho até que sua declaração cripto/pseudo (escolhe) profética brinca, fraternalmente, com essa informação, que você detém. Chances há. Mas só a terça dirá, e, se passar de segunda, então só a sexta...

4. Quanto ao fato. Bem, sem que eu soubesse, venho me preparando para uma guinada historiográfica. Você foi uma das dobradiças, você sabe... Tornei-me professor, primeiro, de Hermenêutica. Desde sempre, de Metodologia. Recentemente, de Epistemologia. Minhas veias deixam correr Morin, complexidade e transdisciplinaridade. Penso estar maduro (ou quase). Para a prova de Historiografia e Teoria da História, quase tudo já tinha lido e comprado. Comprei só o atualíssimo.

5. No outro extremo do espectro, apaixonei-me por Ginzburg e o paradigma indiciário. Aliei a isso a minha experiência com Exegese e uma atenção heurística dedicada à Fenomenologia da Religião - daí saíram Nehushtan e A Cosmogonia de Inauguração do Templo de Jerusalém. São trabalhos feitos em ambiente "teológico", mas que são, funamentalmente, histórico-fenomenológicos - sobretudo, indiciários...

6. Quanto à profecia, meu amigo, escrevi as duas postagens mais pesadas de Peroratio até aqui. Não se trata de uma bravata, mas de uma nudez. Não posso aplicar o que disse à profecia bíblica, a nenhum deles, a nenhuma delas - que, você sabe, leio-os, contudo, como a homens e mulheres, e não como a oráculos. Em tudo, concordo com o que você disse. Quando disse o que disse a respeito de profecia, disse-o em relação ao homem contemporâneo, duzentos anos depois de Kant, cento e cinqüenta, depois de Feuerbach e Marx, cem, depois de Freud, tantos, depois de Schopenhauer, Nietzsche, Dilthey, Peirce, Heidegger - Morin. E nem fala das ciências duras...

7. Eventualmente o homem não leu nada disso: não devia ter-se metido em teologia, então. Meteu-se: está bem, peca por ignorância. E, contudo, a despeito do "direito germânico", leva multidões para o buraco... Leu-os? E, ainda assim, abre a bocarra escancarada e cheia de dentes teocráticos? Cínico! Canalha! Tudo se resume a isso: ou se entrou por Kant, ou se ficou na Idade Média - com todos os riscos que isso carrega consigo. Todos. Méritos? Você vê algum? Se nem Gottwald, você se lembra, gostaria de trocar sua Califórnia pela "idade de ouro libertária das tribos israelitas", quanto mais, nós, pelo barroco e o gótico...

8. Quem me arrancou aquelas postagens foi um blog de um pastor que se diz evangelical, ele e um outro grupo de pastores que igualmente assim se chamam, para, sempre, diferenciarem-se dos demais. Eles, os bons, os outros, os maus. Eles, os éticos, os outros, embusteiros - pois eu digo que embusteiros eles o são mais do que aqueles, porque leram todo o XIX, aqueles, não. Se leram, cospem-lhe na cara. Mas os "evangelicais" até estudam em instituições "progressistas"... Mas vá a uma de suas igrejas, amigo, e verás o que sai daqueles púlpitos: a mesma Nicéia... Ou não entenderam nada do XIX, ou têm-se em alta conta demais...

9. Sabe, amigo, o direito germânico viciou-nos a olhar os pecados pelo viés do pecador. Aí pesa a inocência, a ignorância, coisas de culpa e dolo. No entanto, do ponto de vista das multidões arrastadas na alienação, não faz nenhuma diferença serem-no por meio de hipócritas ou de santos: o buraco é mesmo.

10. É como se quiséssemos que todos os povos tivessem acesso a luz elétrica e água tratada, avanços da modernidade, mas que permanecessem mansos e fiéis aos deuses, na fé plácida da pré-modernidade... ou da pós, dá no mesmo! Só podia sair isso da cabeça de teólogo mesmo... dentre os quais, aqui vai um. O segredinho, contudo, é que não é bem na mão dos deuses que se quer que eles fiquem...

11. A propósito, um dos meus Aforismos preferidos:

129 - As condições de Deus - 'o próprio Dus não poderia subsistir sem os homens sábios' - disse Lutero, e com muita razão, mas 'Deus ainda menos poderia permancer sem os insensatos', foi o que esse bom Lutero não disse" (Nietzsche, A Gaia Ciência).

OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 31 de maio de 2009

(2009/317) Reação a "(2009/315) Teologia em universidade pública (II)", de meu amigo Haroldo Reimer


1. Haroldo, louvo sua disposição para o trabalho, sua dedicação, o fato de que você faz tudo que faz com muita atenção, zelo, responsabilidade. Isso admito muito - invejo mesmo! - em você. Quanto a Peroratio ser "diferente" - e isso pelo fato de ser uma plataforma de debate (ainda que um dos debatedores, eu tenho dúvida se ele entendeu o sentido da coisa [Jimmy - ame-o ou deixe-o!] -, foi exatamente por e para isso que convidei você e Jimmy para fazerem contra-ponto comigo. Queria exatamente isso, uma ágora inflamada e sangüínea, pulsional e racional, epistemologicamente consensual, mas agônica no esforço de abrir a carne da "realidade" com a faca do "espírito humano". Não um palanque monocórdio, mas, nem por isso, uma feira pós-modena... Que bom que aceitou, e, ainda mais, que permanece fiel ao projeto, conquanto eu sei, às vezes, porto-me além da "conta"...

2. Entendi melhor agora a distinção que você fazia e fez entre Teologia na Universidade pública e Teologia na Universidade privada. Um dos dois, contudo, está pegando o dado pela face errada - talvez eu. Sim, pode ser mesmo que eu esteja equivocado. Insisto: longe de considerar-me absolutamente certo, apenas dou oportunidade às críticas que me vêm à mente. Mas eu acho que se poderia, e talvez fosse melhor, pegar o dado por outra perspectiva: não o "espaço" onde a coisa é feita (Universidades pública e privada), mas a coisa que se faz nesse espaço.

3. Vamos à sua insistência no "Pacto Republicano", que, logo afirmo, assino sem ressalvas. O Pacto, Haroldo, foi "assinado" entre o Estado e a "Religião". Não é um tema fácil, porque o Estado não o assinou com um Abstração, mas, ao mesmo tempo, não o assinou com o conjunto das "religiões" concretas. Nenhuma religião assinou coisa alguma, apenas força-se a portar-se de modo minimamente tolerável (o que os Cristianismos fazem na TV, ah, Haroldo, isso já não é "quebra" de artigos do "Pacto"?). A rigor, melhor do que Pacto Republicano, a expressão devesse ser o Axioma Republicano, a Exigência Republicana, a Norma Republicana, isto é, a decisão soberana do Estado - outro fator complicador, porque essa decisão é "popular" e pode, a princípio, ser suspensa a qualquer momento - em face de sua existencialidade político-social. O Estado não quer relações com as religiões que não sejam aquelas próprias do Estado com os organismos jurídicos que permeiam sua constituição hipônima e em que se contam, também, as "Instituições Religiosas".

4. Tanto não é um "pacto" - no sentido estrito do termo - que nenhuma religião pode, por si mesma, suspendê-lo. Mesmo o Vaticano, "promiscuidade" moderna de Estado e Religião, deve parar diante da Laicidade de Brasília... Trata-se, pois, de um modus vivendi republicano, imposto pela filosofia/política republicana, moderna, laica - o qual, diga-se, erigiu-se em face da e contra a "religião" - se não a sua face estética, certamente a sua interface política (que "heurística", aí, nunca houve - até agora)...

5. Isso posto, assumido que é o próprio Estado quem não quer intrometer-se na "religião", porque não quer a religião intrometendo-se mais no Estado, resta fazer a seguinte pergunta: Teologia virou sinônimo de religião? Eu concordo com você que o modelo MEC atual de Teologia ainda é insuficiente para a Universidade Pública - mas eu gostaria de insistir em que ele é ainda insuficiente para a própria Universidade particular, porque ele é - e esse é o ponto - insuficiente para a própria Teologia universitária.

6. Fator de complicação: a Universidade particular de Teologia há de preparar profissionais para o mercado teológico. Ora, o mercado teológico, hoje, é um mercado sacerdotal/profético e/ou político/estético. Uma vez que não há uma Teologia não-religiosa (digamos assim), não há uma pesquisa teológica não-comprometida com o "mercado", que se porta alinhado à religião. Pior, é com vistas a esse mercado não-conforme as Ciências Humanas que a Teologia se faz presente no MEC! Chegamos ao absurdo de, nesse momento, o Estado acolher em seu corpo institucional dezenas de Cursos de Graduação em Teologia que ensinam, dentre outras cosias, "missiologia", isto é, a "Missão" que a Igreja diz ter de "Deus" de converter a "Ele" - leia-se, ao Cristianismo - todas as pessoas e todas as coisas. Isso é sumamente intolerável - e, contudo, toleramos, Haroldo, porque somos nós a nos beneficiar da situação. Injustificável. Ironia: se um "ateu" processar o Estado por conta da permissão que dá à Teologia de, dentro de um de seus Ministérios - o MEC -, promover o treinamento missiológico para a sua conversão à religião, caberá ao juiz, o quê, orientá-lo a que faça o mesmo, porque ele tem esse direito? Mas onde foi parar, então, o senso republicano? A batalha entre as fés há de se travar, também agora, no ventre da Mãe-Pátria? Já não chega o crucifixo ostentado acima da cátedra da Presidênia do STF?

7. Vejamos. A Igreja tolerou a escravidão por guerra, no passado. Era o costume. A Igreja tolerou a escravidão por raça, moderna. Era o costume. A Igreja tolerou a manutenção do sub-papel da mulher na sociedade. Era o costume. A Igreja tolera o preconceito de gênero alternativo - e com isso ela apenas assume o "costume". Ora, o costume qual é? Que ser teólogo é ser cristão, e que ser cristão é desejar - com Deus - a conversão do mundo inteiro. A Teologia - nós - acostumados a tudo tolerar e disso só abrir mão à força (não foi assim?) - vamos tolerar essa circunstância, nos acomodar a essa impertinência, quando nossos olhos sabem e vêem o equívoco dela?

8. Nossa discussão tem de mudar de foco, Haroldo. Não estamos discutindo a relação entre o Estado e as Organizações Religiosas - estamos discutindo as conseqüências inegociáveis para a Teologia - ao menos como "carreira"/disciplina do Sistema Federal de Ensino, seja público, seja privado: é federal - de ela ter sido aceita na plataforma moderna, crítica, emancipada, epistemológica, das Ciências Humanas. Seja na Universidade pública, seja na Universidade privada - ela, a Teologia - é, agora, outra coisa. Não é mais da "religião" - muito menos, "religiosa" ou "religião". Se o que as Organizações Religiosas, nossas igrejas, por exemplo, se o que elas querem é formar "profissionais" domésticos, provincianos, consumíveis, que abram cursos específicos como sempre fizeram desde a República. Mas, Teologia é, agora, outra coisa: não serve mais para isso. Conquanto possa servir, tanto quanto Psicologia serve para aconselhamentos pastorais - se também eles amadurecem.

9. Faço-me mais claro, amigo meu? Pensar a Teologia no MEC, suas implicações. Não, nada de negociar com as Organizações Religiosas, porque, você sabe, elas não negociam, amigo. Todos os avanços que a República conseguiu foi a despeito delas. Valeria um bom post e uma boa discussão o combate Igreja Romana versus Maçonaria, do início do século, quando do advento dos protestantes/evangélicos "missionários" no Brasil: na titânica batalha das Igrejas, foi o "princípio republicano", manejado (de dentro e de fora) pelos maçons, quem logrou nos proporcionar espaço público - para, agora, dedicarmo-nos, com todas as forças evangélicas, a cooptar a própria República! Roma, ao menos, é mais "profissional" nessas políticas... E, agora, elas vão aprendendo a lidar com a nova situação, mas, Haroldo, você desacredita de que elas, as organizações cristãs, não estão prontas, como sempre, para, na suspensão da República, voltar ao projeto mundial? Não é ele que operamos - ainda? Não é a ele que servem os "pastores", eles mesmos, teólogos, quando deixam a cátedra e se dirigem aos púlpitos - com as exceções louváveis e raras, mas, anda assim, obtidas muitas vezes à custa não da denúncia declarada do "projeto", mas de sua "metaforização"? No MEC, pois, os teólogos devem sentar, todos, e dialogar, e pensar uma Teologia pós-religiosa. No MEC, não é mais a serviço da religião que a Teologia está, como não é mais a serviço dela que estamos - mas a serviço do pensamento emancipado e necessário da relação entre o/a homem/mulher e o sagrado. E isso até se, para tanto, tivermos de nos pôr contra ela - já fizemos uma vez, e faremos de novo, se for necessário, porque acontece com a Teologia/MEC o mesmo que com a República/Religião - o segundo termo não joga o jogo - frauda-o.

10. É urgente a tarefa. Imenso, o desafio. Agora, a hora.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. meu privadíssimo amigo, por favor, faz-me ver onde estou errado! É muito, muito, muito angustiante "enxergar" de um jeito, estar eventualmente errado, e não "perceber". Eu vejo a situação de modo tão claro, tão límpido - e, desde que li Edgar Morin, contudo, apavora-me ser tomado de self deception, de auto-engano, da "mentira para si/mim". É do mais profundo desejo de ver claramente que peço - ajuda-me a ver se e onde erro, se e onde perco a saniade em nome da super-sanidade. Para isso, amigo, a ágora é imprescindível, o outro, não-descartável, o amigo, outro "eu"...

quinta-feira, 26 de março de 2009

(2009/112) Situacionalidades


1. Ando meio sumido. Tarefas demais têm absorvido praticamente a totalidade do meu tempo. São tarefas que exigem a escrita, a concentração. E são temas diversos. Aí, quando dou por mim, Osvaldo já 'andou' dezenas de postagens. Por isso, trato agora de aproveitar uns minutos na 'janela' entre uma aula e outra para escrever umas linhas e, assim, continuar caminhando neste blog.

2. Hoje foi uma experiência boa na aula de hermenêutica aqui na pós em ciências da religião. O tema que propus foi um passo gigantesco em termos cronológicos e históricos. Queria cobrir o período do Humanismo até o Romantismo. Claro que aí há tantas questões históricas, minúcias, detalhes. Porém, a mim me interessava marcar bem a tese de fundo: os humanistas levantaram corajosamente o questionamento à autoridade por trás dos textos, fontes ou documentos. Emblemático aí são Lorenzo Valla com sua afirmação de que o documento da doação de terras à igreja por Constantino estaria eivado de erros e falsidades. Também Erasmo com sua edição crítica do Novo Testamento em grego contribuiu para colocar em xeque a autoridade por trás do texto oficial da cristandade medieval, que era sabidamente a Vulgata, claro, em latim. Lutero e outros também foram por estas sendas, corajosamente. Isso não se poder. Claro, o que veio depois foi a readequação de relações habituais.

3. O que retrojetou os avanços humanistas rumo à medievalidade foram as reações tanto romano, via Concílio de Trento, quanto a ortodoxia protestante, que não soube responder de outra forma do que com a fidelidade ao dogma. Nas hostes judaicas, o recrudescimento tambem foi similar; o caso Spinoza versus sinagoga mostra bem a questão.

4. O idealismo e racionalismo kantiano ajudaram a situar a racionalidade no plano das discussões. Mas foram os românticos que redescobriram essa veia subjetiva da criação e da recriação, também no processo interpretativo. Neste sentido, Schleiermacher com sua tese da congenialidade ou dos conhecimentos histórico-gramaticais constitui um marco fundamental, embora em termos teológicos muitas das suas posições estão alinhadas com as decisões dogmáticas tradicionais.

5. Schleiermacher e, depois dele, Dilthey ajudaram a formular um postulado fundamental no campo da teoria hermenêutica: a intentio auctoris.

6. Assim, o largo passo do Humanismo até o Romantismo é este: do questionamento da autoridade por trás do texto rumo à descoberta da intenção do autor. Com isso os românticos situaram o autor em termos históricos, perguntando por sua linguagem, seu contexto, suas intencionalidades, suas sensibilidades, etc. Com isso a autoridade por trás do texto, como garantidor de suas verdades e como fundamento de estruturas sociais baseadas em autoridade perderam sua sustentação. A discussão foi trazida ao chão da história. Dos céus o olhar baixou para a terra.

7. Para quem lida, neste campo, com interpretação de textos de quilates distintos, é importante perceber esta dimensão do condicionamento histórico de determinados postulados hermenêuticos. Assim, por exemplo, as teses sobre a inerrância, autoridade e infalibilidade do texto bíblico, que ainda têm tanta recepção no mundo evangélico atual, emergem num momento em que o protestantismo se autocatapulta rumo à medievalidade. A situacionalidade pode ser entendida, compreendida, mas não deveria ser eternizada sob qualquer manto dogmático.


HAROLDO REIMER

segunda-feira, 2 de março de 2009

(2009/044) Jimmy ressuscitou (X) - epílogo


1. Ufa! Negociei aqui com meus neurônios abarcar no "epílogo" (da série!) os parágrafos finais (10 a 13) do post de Jimmy ((2009/030) Racionalismo blasé e experiência religiosa: a razão cega diante do intratável), para antecipar o fim do (meu) constrangimento público. Tenho a meu favor, contudo, o fato de que não se trata de uma idiossincrasia minha - a reação. István Mészáros diz o mesmo de Marx: "o método de análise de Marx é mais reativo do que positivo e auto-sustentado: ele deixa que sua mão seja guiada pela problemática do objeto imediato de sua crítica, ou seja, pelos escritos dos economistas políticos" (István Mészáros, A Teoria da Alienção em Marx, Boitempo, p. 95). De igual modo, Jimmy arranca de mim essa série de reações. Mérito seu? Culpa sua!

2. Pois bem, o fechamento - a cereja do bolo - do post é a defesa do pathos profético. Nesse ponto, até o até agora "cego" Haroldo é citado como fundamento, conquanto o texto não se ache à disposição. Mas não é necessário: todos sabemos a ênfase que Haroldo concede ao profetismo clássico e crítico - Amós é sua tese doutoral. O meu problema com esse Jimmy desse post é que ele quer tirar o profetismo de sua esfera pragmática - a política e a estética - e, com isso, sugerir a supressão da "cegueira heurística" por ele pressuposta e denunciada - em mim, inclusive.

3. Eis a expressão de força: "pathos divino". Nossa, com esse designativo aí, eu até devia falar "aleleuia!", pôr-me de joelhos ou abaixar os olhos, humílimo, como convém. Bah! Jimmy não pode estar falando sério! Jimmy quer que eu leve a sério a retórica do profeta, que se diz tomado pelo divino? É isso? Simples assim? Quando o profeta africano, daquela tripo africana, disser que é tomado pelo pathos divino que ele extirpará o clitóris da menina, Jimmy dirá aleluia?, ou cairá sobre ele com sua ética secularizada de dignidade feminina? Quando, hoje são os fundamentalistas muculmanos, ontem, éramos nós, fundamentalistas cristãos, tudo é a mesma patologia incurável, um profeta se deixa tomar pelo pathos divino e de mais alguns apetrechos que fazem bum! na cara de Jimmy, Jimmy dirá aleluia?, ou, antes, reclamará aparatos de segurança e denunciará a estreiteza do olhar dialogal do xiita? Segundo sua lógica, deveria chegar ao céu às cambalhotas, e agradecendo as tripas que arrasta ventre afora: quero mais, quero mais, gostei desse negócio de pathos divino... Ah, Jimmy, fala sério!

4. Deixe-me dizer o que você está fazendo, o que Lévinas faz, o que Buber faz, e que quer(em) que eu faça, mas não faço, porque isso é fraude epistemológica disfarçada de mística e espiritualidade: uma determinada ética, e como ética, cultura, é tomada, determinados valores, determinadas circunstancialidades noológicas histórico-condicionadas, no caso dos senhores citados, você dentro, humanismo inconfessado, explicado até a próstata por Feuerbach, que você, agora, defenestra (claro, não o pode ouvir mais!, senão desaparece seu chão divino), uma ética assim é sacada é - digo-o com todas as letras: ela é a base. Aí, ela é projetada numa idéia difusa de "Outro" (Lévinas é escorregadio, e eu tive de fazer o que você não fez / não quer fazer para pegá-lo no contra-pé). Desde lá, como se essa ética fora, desde sempre, do "Outro", ditada por ele, "divina", ela volta para a cara do "outro", esse aqui, do meu lado. E isso é o grito profético, o "grito da filosofia". Feuerbach 1 x Lévinas, Buber, Jimmy, 0. Isso para não falar de Marx...

5. Quem conhece minhas pesquisas sobre os séculos VI e V em Judá sabe do "ódio" visceral que adquiri aquele sacerdócio - de modo geral, condeno toda e qualquer forma de sacerdócio, mesmo aquele aparentemente bonitinho, evangélico, disfarçado, cínico, católico até o reto, mas posando de "protestante". Ao mesmo tempo, descobrirá que via no profetismo daquele momento um adversário do poder sacerdotal, e tanto que foi aniquilado por ele, mas não apenas ele, o profetismo, mas todas as demais instâncias de intermediação do sagrado, até as sacerdotizas, imagens, templos, altares, tudo. Foi uma guerra ideológica extraordinária. Mas não é por isso que, século XXI, eu vá sair por aí fazendo apologia do profetismo, como se a índole da profecia não tivesse a mesma constituição da índole sacerdotal - o seu "saboroso" pathos divino... Jimmy!

6. Coloquemos o profeta em seu lugar. Se ele dá ouvidos às próprias tripas, e sente-se tomado por essa comichão, esse "pathos divino" (que só o é nos termos de sua ética, não Jimmy?), se ele está minimamente que seja, assim, por meia página de um Tratado de Psicologia da Religião, inteirado das rotinas psicológicas desse fenômeno, que saída ele tem, Jimmy? Rasgar o Tratado, dirá sua retórica de berros proféticos! Mas, se ele respira fundo, deixa passar a ressaca do vinho, e olha ao seu redor, há de esclarecer-se, e saber que as idéiais humanas assumem formas as mais extravagantes, inclusive essas que, nascendo da indignação ética, metamorfoseiam-se em "revelação" e "pathos divino", como aquilo que dizia Amós sobre leões bramando e Yahweh falando, interessante para a retórica política, mas, para nós, gente já crescida, manipulação religiosa. Se "Amós", à época, o sabia? Não me faz a mínima diferença - eu sei.

7. Não é necessário ter fogo nas tripas - pathos divino - para mover-se em favor dos pobres. E se o movimento tem por justificativa esse pathos, sequer é o pobre que o move. Não existisse o "Outro", talvez Lévinas não se interessasse pelo outro... Contudo, se o "outro" demanda a caridade a despeito do "Outro", para que a retórica do "Outro" para o exercício da caridade?

8. Além disso, que tem a ver o absurdo da vida com a caridade, o profetismo? De novo, é misturarem-se as estações. É a visão estreita de alguém provincianamente situado - América Latina - cuidando solucionar universalmente a questão mal colocada. Já disse que a Noruega não precisa de seus profetas, Jimmy, mas, eventualmente, experimenta, em profusão, o senso do absurdo...

9. Eu até encorajaria a todos que ousassem pôr a mão em coisas cada vez maiores, a enfrentar assuntos cada vez mais profundos. Mas faria duas advertências: primeiro, não sair por aí chamando de cegos aqueles que têm um recorte específico de tratamento da rede complexa de relações da vida, e, principalmente, que não ataquem por cima tais questões, porque o peso delas, quando se chega à sua base, pode esmagar irremediavelmente um esforço eventualmente honesto. Alternativamente? Agüentar o tranco...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

(2008/12) O lugar da exegese nos programas de ciências da religião

1. Nestes dias acontece em São Paulo, na PUC, o I Congresso da Associação Nacional dos Programas de Pós-Gradução em Teologia e Ciências da Religião (ANPTECRE). Eu estava previsto para estar numa mesa de comunicações sobre o lugar da exegese ou dos estudos de textos sagrados em programas de ciências da religião. Acabei não podendo ir para atender 'tarefas'. Lá diria mais ou menos o seguinte.

2. Não há, na atualidade, clareza epistemológica sobre o procedimento dos estudos nos campos das Ciências da Religião. A nomenclatura não é unificada. Discute-se se é uma disciplina ou se são várias ciências em olhar multidisciplinar. Se se supõe uma pluralidade de ciências, o método e a pertinência de algumas ciências também não são claras.

3. Por extensão dessa discussão no campo das Ciências da Religião, a Teologia também não tem (mais) clareza de sua epistemologia. O reconhecimento “oficial” da Teologia enquanto “ciência cidadã" na academia impõe novas demandas e desafios. A grande desconstrução no campo da Filosofia no século XIX pede um repensar do fazer teológico sem o lastro da Metafísica clássica.

4. Apesar desses desencontros e demandas, Ciências da Religião e Teologia estão juntas como subárea da Filosofia na Capes/CNPq. A relação com a própria subárea de Filosofia carece de precisão e aproximação; há mais desencontros do que encontros. Enquanto Teologia e Ciências da Religião não constituírem área própria não terão alcançado a cidadania acadêmica, pois 'cidadania' presspõe igualdade, ainda que com diferenças.

5. As Ciências da Religião se nutrem epistemologicamente da chamada “virada antropológica”. Fé, crença, religião, teologia são entendidos como frutos da potencialidade e capacidade humana de simbolização. Todo o aparato religioso é entendido como parte constitutiva da construção cultural. Dentro dessa perspectiva, a Teologia precisa prestar contas, epistemologicamente e metodologicamente, do caráter próprio do conceito de “revelação” com que sempre trabalhou e ainda trabalha.

6. Nos cursos de Teologia, de forma tradicional, a exegese ou os estudos sobre a interpretação de textos sagrados – no contexto ocidental trata-se classicamente da exegese e interpretação de textos bíblicos – tem tido lugar assegurado no labor acadêmico. A Renascença e o espírito científico “moderno” ajudaram a fomentar e desenvolver um “método histórico” para o acesso aos conteúdos e à história dos textos. No desenvolvimento de um método “histórico” já se vislumbrava certa tendência de superação de um “método dogmático”, tradicionalmente típico da Teologia. Os estudos de exegese e interpretação, com seu aparato lingüístico, filológico, gramatical, arqueológico, constituem/constituíram elemento emancipador e via de acesso privilegiado às “essências” da religião ou das religiões sem constituir (somente) mero processo de justificação de “verdades” teológicas próprias nas confissões cristãs e entendidas como recebidas por revelação divina.

7. Esse caráter emancipador da exegese e dos processos hermenêuticos tem sido fomentado nas últimas décadas com o acréscimo de novas perspectivas como a “história dos efeitos”, com influência inegável das reflexões de Gadamer. Mais recentemente, a epistemologia e a metodologia da história social têm deixado suas marcas nos estudos de textos sagrados, buscando situar os conteúdos de textos sagrados no campo da história das mentalidades e na própria reconstrução do cotidiano de grupos, comunidade e povos que estão por trás da produção de tais textos.

8. Essa perspectiva, aliada aos estudos em campos conexos como a Arqueologia e a Etnologia possibilitam superar as formulações dogmático-doutrinárias em prol de um acesso (mais) histórico à materialidade e à vida das pessoas e dos grupamentos humanos que projetaram em textos suas realidades, utopias, interdições, leis etc.

9. Agrega-se ainda a perspectiva fenomenológica na análise do processo de produção social de textos (sagrados). Com a perspectiva fenomenológica, busca-se focar o próprio fenômeno do processo e não somente os conteúdos eventualmente aproveitáveis em termos doutrinários ou supra-históricos. Creio que a exegese latino-americana, em boa medida, deu passos importantes neste tipo de estudo, claro em sintonia com o que faz em outros espaços acadêmicos na Europa e Estados Unidos. Há aí um processo de questionamento da tradição e da autoridade que lastreiam a Teologia. Os estudos exegéticos têm a potencialidade de subverter o arco da tradição na medida em que se foca sobre a materialidade e a historicidade dos textos sagrados, em geral tão vitais para as construções das confissões religiosas em particular.

10. É evidente que “novas” perspectivas hermenêuticas como as de classe, gênero, cultura e etnia (feminista, negra, ecológica, homoafetiva) tornam os olhares múltiplos e mais atentos sobre os textos sagrados, suas construções, seus interditos. Interesses de leitor ou leitora podem ajudar a redescobrir e acessar sentidos de textos sagrados dantes não assim percebidos. Aí haverá que se perguntar se o interesse do leitor serve como luz e guia heurístico ou somente como canalizador de interesses.

11. Com isso, a “exegese” tem lugar garantido, honrado e privilegiado na Teologia, com reais chances e possibilidades intrínsecas ao seu método e epistemologia de realizar estudos transdisciplinares e interdisciplinares.

12. A pergunta que fica é quanto ao lugar da “exegese” ou “estudo de textos sagrados” em programas de Ciências da Religião. Aparentemente, a Sociologia e a Antropologia da Religião capitaneiam, ou querem capitanear, os estudos multidisciplinares sobre o fenômeno religioso. Nisso há razões e certa razão, uma vez que estas ciências têm epistemologia e metodologia elaboradas e reconhecidas no campo acadêmico. Mas, o multidisciplinar não pode se esgotar aí.

13. É necessário assegurar, pleitear, propor, defender o lugar justo, digno e honrado da “exegese” ou de “estudos sobre religião e literatura sagrada” em programas de Ciências da Religião. A exegese há tempo já deixou de ser mera fornecedora de conceitos atemporais para a construção de edifícios teológicos dogmáticos para ser uma disciplina crítica e propositiva no acesso às realidades de grupos e comunidades em tempos e espaços diversos. Como justificativa, toma-se o próprio desenvolvimento da epistemologia e da metodologia histórica inter- e transdisciplinar deste campo de estudos. Ciências da Religião deve ter olhares múltiplos sobre o fenômeno religioso em diversos recortes de tempo e espaço – contextos locais e distantes; tempos presentes e tempos passados. A exegese e os estudos de textos sagrados devem ter aí o seu lugar assegurado, não por concessão tradicional, mas por mérito de sua operacionalidade metodológica e epistemológica. É sobre isso gostaria de conversar.

HAROLDO REIMER
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