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domingo, 31 de maio de 2009

(2009/317) Reação a "(2009/315) Teologia em universidade pública (II)", de meu amigo Haroldo Reimer


1. Haroldo, louvo sua disposição para o trabalho, sua dedicação, o fato de que você faz tudo que faz com muita atenção, zelo, responsabilidade. Isso admito muito - invejo mesmo! - em você. Quanto a Peroratio ser "diferente" - e isso pelo fato de ser uma plataforma de debate (ainda que um dos debatedores, eu tenho dúvida se ele entendeu o sentido da coisa [Jimmy - ame-o ou deixe-o!] -, foi exatamente por e para isso que convidei você e Jimmy para fazerem contra-ponto comigo. Queria exatamente isso, uma ágora inflamada e sangüínea, pulsional e racional, epistemologicamente consensual, mas agônica no esforço de abrir a carne da "realidade" com a faca do "espírito humano". Não um palanque monocórdio, mas, nem por isso, uma feira pós-modena... Que bom que aceitou, e, ainda mais, que permanece fiel ao projeto, conquanto eu sei, às vezes, porto-me além da "conta"...

2. Entendi melhor agora a distinção que você fazia e fez entre Teologia na Universidade pública e Teologia na Universidade privada. Um dos dois, contudo, está pegando o dado pela face errada - talvez eu. Sim, pode ser mesmo que eu esteja equivocado. Insisto: longe de considerar-me absolutamente certo, apenas dou oportunidade às críticas que me vêm à mente. Mas eu acho que se poderia, e talvez fosse melhor, pegar o dado por outra perspectiva: não o "espaço" onde a coisa é feita (Universidades pública e privada), mas a coisa que se faz nesse espaço.

3. Vamos à sua insistência no "Pacto Republicano", que, logo afirmo, assino sem ressalvas. O Pacto, Haroldo, foi "assinado" entre o Estado e a "Religião". Não é um tema fácil, porque o Estado não o assinou com um Abstração, mas, ao mesmo tempo, não o assinou com o conjunto das "religiões" concretas. Nenhuma religião assinou coisa alguma, apenas força-se a portar-se de modo minimamente tolerável (o que os Cristianismos fazem na TV, ah, Haroldo, isso já não é "quebra" de artigos do "Pacto"?). A rigor, melhor do que Pacto Republicano, a expressão devesse ser o Axioma Republicano, a Exigência Republicana, a Norma Republicana, isto é, a decisão soberana do Estado - outro fator complicador, porque essa decisão é "popular" e pode, a princípio, ser suspensa a qualquer momento - em face de sua existencialidade político-social. O Estado não quer relações com as religiões que não sejam aquelas próprias do Estado com os organismos jurídicos que permeiam sua constituição hipônima e em que se contam, também, as "Instituições Religiosas".

4. Tanto não é um "pacto" - no sentido estrito do termo - que nenhuma religião pode, por si mesma, suspendê-lo. Mesmo o Vaticano, "promiscuidade" moderna de Estado e Religião, deve parar diante da Laicidade de Brasília... Trata-se, pois, de um modus vivendi republicano, imposto pela filosofia/política republicana, moderna, laica - o qual, diga-se, erigiu-se em face da e contra a "religião" - se não a sua face estética, certamente a sua interface política (que "heurística", aí, nunca houve - até agora)...

5. Isso posto, assumido que é o próprio Estado quem não quer intrometer-se na "religião", porque não quer a religião intrometendo-se mais no Estado, resta fazer a seguinte pergunta: Teologia virou sinônimo de religião? Eu concordo com você que o modelo MEC atual de Teologia ainda é insuficiente para a Universidade Pública - mas eu gostaria de insistir em que ele é ainda insuficiente para a própria Universidade particular, porque ele é - e esse é o ponto - insuficiente para a própria Teologia universitária.

6. Fator de complicação: a Universidade particular de Teologia há de preparar profissionais para o mercado teológico. Ora, o mercado teológico, hoje, é um mercado sacerdotal/profético e/ou político/estético. Uma vez que não há uma Teologia não-religiosa (digamos assim), não há uma pesquisa teológica não-comprometida com o "mercado", que se porta alinhado à religião. Pior, é com vistas a esse mercado não-conforme as Ciências Humanas que a Teologia se faz presente no MEC! Chegamos ao absurdo de, nesse momento, o Estado acolher em seu corpo institucional dezenas de Cursos de Graduação em Teologia que ensinam, dentre outras cosias, "missiologia", isto é, a "Missão" que a Igreja diz ter de "Deus" de converter a "Ele" - leia-se, ao Cristianismo - todas as pessoas e todas as coisas. Isso é sumamente intolerável - e, contudo, toleramos, Haroldo, porque somos nós a nos beneficiar da situação. Injustificável. Ironia: se um "ateu" processar o Estado por conta da permissão que dá à Teologia de, dentro de um de seus Ministérios - o MEC -, promover o treinamento missiológico para a sua conversão à religião, caberá ao juiz, o quê, orientá-lo a que faça o mesmo, porque ele tem esse direito? Mas onde foi parar, então, o senso republicano? A batalha entre as fés há de se travar, também agora, no ventre da Mãe-Pátria? Já não chega o crucifixo ostentado acima da cátedra da Presidênia do STF?

7. Vejamos. A Igreja tolerou a escravidão por guerra, no passado. Era o costume. A Igreja tolerou a escravidão por raça, moderna. Era o costume. A Igreja tolerou a manutenção do sub-papel da mulher na sociedade. Era o costume. A Igreja tolera o preconceito de gênero alternativo - e com isso ela apenas assume o "costume". Ora, o costume qual é? Que ser teólogo é ser cristão, e que ser cristão é desejar - com Deus - a conversão do mundo inteiro. A Teologia - nós - acostumados a tudo tolerar e disso só abrir mão à força (não foi assim?) - vamos tolerar essa circunstância, nos acomodar a essa impertinência, quando nossos olhos sabem e vêem o equívoco dela?

8. Nossa discussão tem de mudar de foco, Haroldo. Não estamos discutindo a relação entre o Estado e as Organizações Religiosas - estamos discutindo as conseqüências inegociáveis para a Teologia - ao menos como "carreira"/disciplina do Sistema Federal de Ensino, seja público, seja privado: é federal - de ela ter sido aceita na plataforma moderna, crítica, emancipada, epistemológica, das Ciências Humanas. Seja na Universidade pública, seja na Universidade privada - ela, a Teologia - é, agora, outra coisa. Não é mais da "religião" - muito menos, "religiosa" ou "religião". Se o que as Organizações Religiosas, nossas igrejas, por exemplo, se o que elas querem é formar "profissionais" domésticos, provincianos, consumíveis, que abram cursos específicos como sempre fizeram desde a República. Mas, Teologia é, agora, outra coisa: não serve mais para isso. Conquanto possa servir, tanto quanto Psicologia serve para aconselhamentos pastorais - se também eles amadurecem.

9. Faço-me mais claro, amigo meu? Pensar a Teologia no MEC, suas implicações. Não, nada de negociar com as Organizações Religiosas, porque, você sabe, elas não negociam, amigo. Todos os avanços que a República conseguiu foi a despeito delas. Valeria um bom post e uma boa discussão o combate Igreja Romana versus Maçonaria, do início do século, quando do advento dos protestantes/evangélicos "missionários" no Brasil: na titânica batalha das Igrejas, foi o "princípio republicano", manejado (de dentro e de fora) pelos maçons, quem logrou nos proporcionar espaço público - para, agora, dedicarmo-nos, com todas as forças evangélicas, a cooptar a própria República! Roma, ao menos, é mais "profissional" nessas políticas... E, agora, elas vão aprendendo a lidar com a nova situação, mas, Haroldo, você desacredita de que elas, as organizações cristãs, não estão prontas, como sempre, para, na suspensão da República, voltar ao projeto mundial? Não é ele que operamos - ainda? Não é a ele que servem os "pastores", eles mesmos, teólogos, quando deixam a cátedra e se dirigem aos púlpitos - com as exceções louváveis e raras, mas, anda assim, obtidas muitas vezes à custa não da denúncia declarada do "projeto", mas de sua "metaforização"? No MEC, pois, os teólogos devem sentar, todos, e dialogar, e pensar uma Teologia pós-religiosa. No MEC, não é mais a serviço da religião que a Teologia está, como não é mais a serviço dela que estamos - mas a serviço do pensamento emancipado e necessário da relação entre o/a homem/mulher e o sagrado. E isso até se, para tanto, tivermos de nos pôr contra ela - já fizemos uma vez, e faremos de novo, se for necessário, porque acontece com a Teologia/MEC o mesmo que com a República/Religião - o segundo termo não joga o jogo - frauda-o.

10. É urgente a tarefa. Imenso, o desafio. Agora, a hora.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. meu privadíssimo amigo, por favor, faz-me ver onde estou errado! É muito, muito, muito angustiante "enxergar" de um jeito, estar eventualmente errado, e não "perceber". Eu vejo a situação de modo tão claro, tão límpido - e, desde que li Edgar Morin, contudo, apavora-me ser tomado de self deception, de auto-engano, da "mentira para si/mim". É do mais profundo desejo de ver claramente que peço - ajuda-me a ver se e onde erro, se e onde perco a saniade em nome da super-sanidade. Para isso, amigo, a ágora é imprescindível, o outro, não-descartável, o amigo, outro "eu"...

(2009/316) Teologia à moda Pneumoderma violaceum


1. Eis aí, meu amigo Haroldo, meu re-encainhador na Exegese da Bíblia Hebraica, depois de eu (quase) ter-me desviado para outros caminhos, aos quais, contudo, agora volto, caminhos de fazer passar a Teologia pelo fogo da iniciação prometeica, meu professor. Eis aí, Haroldo, como deveria ser, a seu tempo e modo, e tomara logo! - a nossa Teologia universitária, acadêmica, "laica" e científico-humaista:


2. Ela deveria ser, assim, nua, linda, transparente - sem nada a esconder, nem as tripas. Pneumoderma violaceum - até pneuma ela tem no nome, porque tudo isso, de logos e de pneuma, é tudo muito ctônico e telúrico, não é mesmo? Ainda que abissal, muito da Terra, já sabemos...

3. Chegará o dia?

4. Seja como for - quero arriscar dizer que, quanto a isso, já estamos de acordo...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 2 de maio de 2009

(2009/244) Nem crítica, nem histórico-materialista


1. Eis um bom modo de eu acentuar a minha crítica quanto à proposição e defesa de uma pseudo-teologia critica. Digo que ela é pseudo-crítica, a despeito de auto-intitular-se "teologia crítica", porque ela parte de uma compreensão ontológico-metafísica da "verdade", da ética, do valor, imprimindo ao processo reflexivo teológico as rotinas dedutivas estabelecidas desde o teólogo dos teólogos dessa escola - Platão. Se o título que essa espécie de racionalização mitológico-política se outorga já é epistemologicamente inaceitável, o que dizer da proposta de chamar a essa teologia, dita crítica, de "teologia materialista histórica"?

2. Encontro três párágrafos muito interessantes - e reveladores - na blogosfera. Trancrevo-os e, a seguir, digo a que vim.

2.1 "Em contraposição a estas (no contexto, chamadas de teologias humanistas e existenciais) surgem as teologias políticas. Nasceram em um período da história em que a humanidade debatia e experimentava profundas e decisivas transformações na esfera da política, dos direitos civis, do comportamento social, da cultura, etc. Essas teologias – ou esse modo de fazer teologia – não possuem uma única matriz, no entanto têm como alicerce 4 principais fontes: a) O livro Teologia da Esperança, de Jügen Moltmann (1964), que apresenta uma teologia contextualizada aos problemas e desafios particulares e sociais situados na práxis histórica da sociedade do pós-guerra; b) O livro A Cidade Secular, de Harvey Cox (1965), que trata a secularidade moderna sob uma perspectiva política e incorpora as realidades política e civil à teologia, conhecida como a “teologia da mudança social”; c) O discurso do Pr. Richard Schaull na Conferência Mundial do Conselho Ecumênico de Igrejas, em 1966, que aborda a questão da “teologia da revolução”; e d) A obra de Johann B. Metz, Teologia Política (1967), em que investe contra a abordagem privatista e apolítica da teologia existencial, propondo uma eclesiologia de libertação e de crítica social.

2.2 Rapidamente a América Latina respondeu – a partir desses dados e de sua própria condição de desigualdade, opressão e exploração – às percepções da teologia política, por meio da Conferência de Medellín (1968) e da Teologia da Libertação. Seus principais e pioneiros expoentes foram Rubem Alves, Gustavo Gutiérrez, e Hugo Assmann, através das obras Da esperança (1969), Teología de la liberación (1971), e Teología desde la praxis de la liberación (1973), respectivamente. Posteriormente, autores como Juan Luis Segundo, Leonardo Boff e Clodovis Boff, Pablo Richard, Jorge Pixley, Jon Sobrino, entre outros, deram continuidade à Teologia da Libertação na América Latina.

2.3 Um outro nome – e talvez mais adequado – ao que se propõe, e que se aproxima de sua base conceitual filosófica, seria teologia materialista histórica. Mas existem complicações no uso deste termo: risco de equívocos conceituais, falta de compreensão do método, pouca clareza acerca do conceitual teórico marxista em geral, além de (e em função disso tudo) preconceito e escândalo a tudo (ou quase tudo) a que se refere o pensamento de Marx e ao socialismo. Assim, encontramos com maior freqüência as expressões teologia crítica, ou teologia política para designar uma reflexão teológica que capta, processa e retransmite suas percepções a partir das determinações e condições históricas do ser humano, bem como das estruturas sociais. Mas é importante ressaltar que surgem com base no marxismo heterodoxo da escola de sociologia crítica de Frankfurt" (Alexandre Gonçalves, Para uma leitura política do Evangelho, Teologizar, 30 de março de 2008).

3. É de todo mérito o modo como o autor do ensaio relaciona a Teologia (latino-americana) da Libertação àqueles movimentos já politicamente teológicos citados no primeiro parágrafo transcrito (2.1). No que diz respeito à "teologia crítica", vale o que acabo de dizer em resposta a Ricardo Gondim (2009/241) Crítica mesmo, Gondim?). Alexandre Gonçalvez, agora, sugere que seria conveniente - talvez, ele diz - substituir o nome: em lugar de "teologia crítica", chamar-lha "teologia materialista histórica". Marx foi consultado?

4. Quero com essa ironia dizer perguntar como é possível aplicar o termo "materialista histórica", de origem obviamente, e o autor mesmo o reconhece, marxiana, a uma plataforma de operação que, malgrado ter por objetivo a transformação da sociedade, e mesmo que isso nos termos de uma transformação "revolucionária", constitui, no entanto, regime epistemológico metafísico (e mitológico!)? Pode uma estrutura marxiana de reflexão sustentar uma rotina mitológica de legitimação? Por outro lado, uma estratégia supostamente meio-marxista, porque "teísta" - aceitemos o oxímoro - cuidaria ser mais eficiente em seus objetivos tranformadores e libertários do que aquela leninista-stalinista, atéia? Por exemplo - a TdL é de Deus, e Lênin, do diabo?

5. Foi a mesma pergunta que fiz a Norman Gottwald no II Congresso da ABIB, em Goiânia, pergunta que aguarda resposta até hoje: não há uma utopia não-mitológica, não-teológica? A humanidade só pode pensar em justiça e transformação se essa for a vontade de/dos deus(es), sejam eles metafísico-mitológicos (teísmo) ou estruturais-sistêmicos (leninismo-stalinismo)? Sozinhos, os homens e as mulheres, não podem construir um mundo politicamente justo, humano e fraterno, sem o recurso a nada mais além de suas próprias concretudes? O limite da crítica teológica é a adesão do mito dos deuses ao mito da humanidade?

6. Se chamando-se crítica, essa teologia já constitui disfunção cognitiva, o que dizer se ela decide chamar-se, de repente, "materiststa histórica"? Primeiro que não o é: se fosse "materislista histórica", começaria admitindo que não havia ido até agora além da proposição de um "Deus" na forma de mito animador, porque, sendo "materialista histórica", ultrapassaria, como Marx, Feuerbach, mas, como Marx, sem negá-lo. O fato, nunca o descarto, de o teólogo orgânico assim a considerar, em nada modifica a questão, porque a grande massa é animada, ainda, onde quer que se estabeleça a TdL ou qualquer outra "teologia crítica", como que por "Deus" - daí as estratégias hermenêuticas alegórico-instrumentais da "libertação" - o povo tem que crer que Deus o quer libertar, para que se mexa ele mesmo...

7. O "mérito" da teologia dogmática, tradicional, aquela de ter-se não apenas de acreditar-se numa ressurreição corpórea de Jesus e dos crentes, mas até na manutenção físico-química do corpo pós-ressuscitado, é que os teólogos que a professam e pregam acreditam nisso mesmo, e se, estão errados, vão eles e seus crentes para o mesmo buraco do erro, porque, ao menos, eles acreditam mesmo nisso. O problema de uma teologia crítica - que é o mesmo de uma teologia metafórica - é que, se o teólogo orgânico que a formula e prega reconhece para si mesmo o regime meramente retórico de suas formulações (ele é um neo-ortodoxo, um "existencialista", um amante da metáfora traditiva, qualquer dessas modernidades terminológicas para legitimar o uso político-eclesiástico dos termos da tradição, sem, em tese, obrigatoriamente, compactuar com o sentido dogmático deles e dela), ele, contudo, não chega a esclarecer, quanto a isso, a massa que ele anima, que, or isso, o ouve como se ele cresse ontologicamente, metafisicamente, nos termos e na tradição que defende e prega. Ah, sei, ele não "mente" - ele "apenas" omite...

8. Eu arriscaria dizer que, sem considerar a mera estratégia política consciente de levar o povo para aqui e para ali por meio de palavras, toda uma ala aparentemente "avançada" da alta teologia constitui-se por um descolamento epistemológico entre, de um lado, o "clero orgânico", a política carismático-profética, o bloco dos animadores, e de outro, a massa crente animada. É como se a organicidade, em sentido gramsciano, o "clero teológico", reconhecesse os limites da eficiência retórica - sem o vínculo entre o discurso arrebanhador e a metafísica instrumental for rompida, as massas seguirão outro pastor... Essa maior eficiência de um discurso despudoradamente metafísico, místico, não responderia pelo avanço inexorável do movimento carismático sobre o território até então sob o domínio das políticas das CEBS? Por outro lado, em território evangélico, já que a teologia aí é flagrantemente fundamentalista e metafísica - mesmo entre os que gostam de se intitular "evangelicais" - não é essa também a razão para a sua dificílima animação política?

9. Esse problema uma teologia crítica, como historicamnete construída até agora, não resolveu até hoje, nem resolverá, porque resolver, é dissipar-se. É preciso que todos os homens e todas as mulheres deixem-se levar pela retórica do "Deus que quer a libertação" ou do "Deus que liberta" para que os profetas e sacerdotes da libertação sejam eficientemente ouvidos. No entanto, se a crítica desse próprio fundamento metafísico da possibilidade da libertação é feita, quebra-se o condão, o rebanho se dispersa, ou, alternativamente, transforma-se no que é, de fato - um movimento político-revolucionário, que crê que a libertação quem a faz é o oprimido mesmo. Por exemplo, veja-se o caso do PT: "Sobre o PT, a sensação mais geral foi que é um partido que as CEBs construíram e não vão entregar assim, mesmo porque é muito difícil construir outro" (Verena Glass, Igreja progressista no limite entre desistir ou lutar pelo PT, Carta Maior, 26 de julho de 2005). O objetivo último das CEBS materializa-se naquilo que pode ser alcançado por uma organização político-partidária que, em última análise, postula o governo de uma República laica! Quando se filtra o "valor" dessa política, e o que lhe é secundário é posto de lado, resta o "partido", instrumento indispensável para a concretização da estratégia. A retórica mitológico-metafísica é dispensável, se se concentra nos objetivos, mas indispensável, se ela é, afinal, o foco...

10. Se me perguntam se eu prefiro os objetivos políticos à retórica metafísica da teologia crítica/teologia materialista histórica - respondo: sim. A retórica, a meu ver, é plenamente, e desejavelmente, descartável. O que essa teologia política, crítica, eventualmente deseja, a transformação da sociedade, a igualdade de condições de vida, a dignidade humana, isso, não, isso não é secundário. De modo que eu endossaria integralmente os objetivos políticos de uma "teologia crítica" nos moldes em que Alexandre Gonçalves a apresenta, mas denunciaria/condenaria intransigentemente o seu regime retórico-estratégico de fazer-se, fraudulentamente, porta-voz de um "Deus da libertação" - do ponto de vista epistemológico, é imoral.

11. A qualquer coisa em que se venha transformar a teologia epistemologicamente crítica, e não apenas retoricamente crítica, deixar-se-á marcar pela advertência de que a atividade humana não se pode constituir por meio de valores que sejam superires à própria condição crítica humana. A idéia-deus, a idéia de Deus, não pode assumir papel motivador na ação transformadora da sociedade, porque ela, a idéia, manterá o poder de destranformar essa mesma sociedade - não sejamos ingênuos, os agentes da idéia permanecerão com o poder da idéia nas mãos! A libertação política do homem deve começar, sobretudo, pela libertação humana dessas idéias supra-humanas. E a primeira delas é a de Deus. Imediatamente, concomitantemente, a de seus agentes...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 1 de maio de 2009

(2009/241) Crítica mesmo, Gondim?


1. "Quando tivermos coragem de fazer teologia crítica seremos como a alvorada de uma bela manhã". Fosse eu outra pessoa que não eu, trancreveria em negrito essas palavras, pintá-las-ia de vermelho-sangue e as completaria com uma interjeitiva coonestação: ah-ha! Gondin está do "meu" lado. Mas esse não seria o eu que eu sou. Não estou nem um pouco seguro de a expressão "teologia crítica", em Gondim, significar o mesmo que significa em minha ideologia.

2. Aquelas palavras transcritas constam da página da Ultimato (Fernanda B. Lobato, Mesa-redonda 3: Oportunidade de ser “cura de almas”, UltimatonaPrateleira, 02 de agosto de 2008). Com elas, ter-se-ia encerrado a participação de Gondim na Mesa Redonda patrocinada pela Ultimato. Eu não estava lá. Trato-as nos termos do informe.

3. "Quando tivermos coragem de fazer teologia crítica seremos como a alvorada de uma bela manhã". O que é que isso quer dizer, Gondim? O que você quer dizer com "teologia crítica", Gondim? Uma teologia que tenha feito a crítica de si mesma (e, para todos os fins, isso só é possível por meio do enfrentamento não-negociável, não-escamoteável, não-iludível, não-eludível, com a epistemologia científico-humanista, crítica, emancipada, e não por meio dos próprios axiomas e "valores" da Teologia)? Ou, ao conrário, Gondim, uma teologia auto-considerada "pura", jesuânica e cristológica, próximo-divina, revelada ou cripto-revelada, axiologicamente sã e soberana, a qual, por pura que se considera, pode fazer a crítica do mundo, a crítica dos valores, a crítica da relações, ser, então, o que a teologia tem pretendido ser desde que nasceu na cabeça do primeiro teólogo, alguma coisa entre alucinação e neurose do tempo, que, com o tempo, transforma-se em racionalização?

4. É muito curioso que cada geração, manejando ela mesma aquela mesma teologia manejada pelas gerações anteriores, considere que ela, sim, seja capaz de produzir aquilo que as anteriores, por culpa sua, não produziram, exceto aquela geração mítica das origens, isto é, aquilo que eventualmente seria uma teologia crítica. Para cada geração, a História da Igreja e a História da Teologia revelariam como as gerações passadas não foram capazes de fazer a teologia crítica, a encarnação pura do olhar de Deus sobre o mundo, o juízo inequívoco de uma consciência imediata da verdade e do bem, ao passo que ela, a geração contemporânea da teologia, a geração "atual", a geração do teólogo que se deslumbra, essa, sim, pode, ela, sim, é capaz. É curioso como essas gerações de teólogos sempre contemporâneos não consiga ver que o problema não é conjuntural, é estrutural - a teologia jamais será outra coisa que não uma patologia epistemológica, uma impressão intuitiva da consciência humana de que não apenas haveria um Deus, mas de que se pode ouvi-lo, impressão intuitiva essa transformada, por gesto político, patologicamente epistemolóigico, em "convicção", uma disfunção cognitiva de ouvir-se a si mesma como se fora um Deus a falar - porque, se há Deus, não se pode, decerto, saber, quanto menos ouvi-lo. Uma teologia-neurose dessas, ingênua ou de má-fé, não importa, como há de ser crítica, como há de ser lúcida, como há de salvar alguém? Ao contrário de ser potencialmente terapêutica, a teologia é concretamente um estado de patologia epistemológica, e seu mais alto grau patológico é considerar-se sã. E não se trata apenas de o problema residir no discurso teológico - essa mesma patologia epistemológico-teológica encarnou na forma de um "estado teológico", que até a União Soviética igualmente experimentou.

5. É como se os antepassados não tivessem sabido amar. O que eles fizeram de errado, os pecados cometidos, perpetraram-nos porque não haviam aprendido a fazer teologia crítica: eles não foram suficientemente bons e eficientes! Ah, meu Deus! E, quanto a eles, eis que diziam o mesmo de seus predecessores. E, contudo, a cada geração, a teologia só faz fazer mais e mais vítimas. No atacado (a política de Estado) e no varejo (a política do mini-Estado eclesiástico, seja católico, seja protestante-evangélico), a teologia jamais foi e jamais será crítica, enquanto tiver pruridos divinos em cima e embaixo, enquanto achar que a cura da alma se dá por meios de enganar-se a si mesma e enganar a todo mundo.

6. Resta a esperança, minha, de que a teologia deixe-se passar pela crítica. Ah, Gondim, perderá ela tudo quanto ela, falsamente, considera imorredouro. Ela, a teologia, se se fizer crítica, antes de fazer crítica a outras plataformas, perderá Deus, perderá a revelação, perderá a norma, perderá a força, perderá o poder - perderá até o Cristo, Gondim. Quando ela olhar nas mãos, verá, apenas, mitos - aqueles mesmos que Bultmann disse que tinha que jogar fora, disse ter jogado fora, e, quando você olha para as mãos dele, lá estão todos os mitos alegadamente jogados fora - é que ele fez que jogou... A teologia é assim, ela finge o tempo todo, ela faz-de-conta... ela depende de que a gente acredite nela, quer dizer, neles...

7. Que seja. Cura d'almas a prescrever self deception... Eu compreendo. Não é fácil prescrever o bom remédio na situação de de ser cura d'almas. É mais ou menos como a condição das grandes indústrias farmacêuticas. Depois de tantos bilhões investidos, há que se fazer muita propaganda, e, a despeito de advertências legais, desenvolver no povo o bom hábito de tomar remédios. Só assim os investimentos hão de ter compensado.

8. Quanto a mim, espero pelo dia não em que uma teologia "pura" faça a crítica "pura" ao mundo. Tolice. Espero é o dia em que a teologia reconheça que é mundo, que é humana, demasiado humana. Aí, então, veremos se acharás mesmo bela essa alvorada.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS1. texto ligeiramente corrigido em 02/05/2009.
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