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domingo, 13 de fevereiro de 2011

(2011/074) E não é que a Teologia, agora, é plural?


1. Poucas ironias da vida têm a substância dessa... E bota ironia nisso... A Teologia, depois de dois mil (e quinhentos) anos perseguindo os outros, negando aos outros o estatuto da verdade, apresentando-se em praça pública - a "Teologia pública" - como "voz de Deus", a única, do único, depois de bulas excomungatórias de todos os tipos e tamanhos, depois de milhares de volumes de santíssima verdade, quem diria, ela, meus amigos, agora, é plural - ela, a "Teologia" cristã, é mais uma, dentre todas as outras - e isso lá, no "mercado", na ágora, onde há cidadania, onde as coisas não são apenas o que ela diz que é

2. Teologia, agora, não é mais sinônimo de "Teologia cristã". Agora, para você referir-se à Teologia cristã, você tem que dizer "Teologia cristã". O "cristã" tornou-se mais um adjetivo, ao lado de outros, iguais, equivalentes - dizer Teologia cristã é como dizer Teologia umbandista, ou Teologia kardecista, ou Teologia messiânica, todas elas igualmente reconhecidas pelo MEC.

3. Nós não vamos ouvir tão assim explicitamente isso da boca dos teólogos cristãos - ainda levará tempo. Todavia, o seu silêncio reverberará profundamente nos ouvidos de quem está perfeitamente informado da situação da Teologia. Meus ouvidos, por exemplo, recentem-se, e se incomodam, desse silêncio. Logo, oxalá, outros ouvidos igualmente se sintam afrontados...

4. E, sobretudo, eu diria que é boa essa situação, isto é, esse fato de a Teologia, agora, ser muitas - conquanto, por isso mesmo, uma só. Ela é essa disciplina que se vai inventando, montando, configurando, ensaiando, no conserto das Humanas, e todavia, divide-se em muitas, em conformidade com sua aproximação (ainda?) tradicional/confessional. O que considero bom, aí, é que assim, plural, ela é, aí, sim, republicana. De outro modo, seria uma afronta...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

(2010/582) A crítica da ideologia tem "carga neutra" - o resultado que tem em vista depende da ideologia de quem a opera


1. Ainda reverbera em minha cabeça a demonstração límpida que fez Losurdo de um fenômeno muito comum na filosofia - a crítica da ideologia é relativamente neutra: é a posição, por sua vez igualmente ideológica, logo, política, de quem opera a crítica da ideologia que determinará, ao fim e ao cabo, o rumo da argumentação. Flagrada em pleno desenrolar-se, não se pode saber, ai, agora, em que resultará a crítica.

2. Não tratarei disso, e uso o caso apenas como uma ilustração argumentativa: Marx e Nietzsche descrevem o mesmo caso político-social: os operários das fábricas modernas (século XIX) não estavam em situação assim tão substancialmente diferente da situação dos escravos ligeiramente mais antigos, e, a rigor, ainda existentes nas colônias européias e nos Estados Unidos. Aliás, a situação de vida de certos escravos era até melhor do que a de muitos operários. Todavia, essa critica que fazem não trabalha para o mesmo fim. Marx vai, com isso, denunciar a mais-valia, a opressão do trabalhador pelos seus "donos", os donos do capital. É, digamos assim, "profética", em sentido clássico, a crítica da ideologia, em Marx. Já em Nietzsche, ela está a serviço de um estoicismo às avessas, por isso cínico: é a conclamação dos pobres para a resignação, dos ricos, para o endurecinmento do coração, diante do risco da compaixão, de resto, anti-civilizatória, a defesa da própria escravatura como condição indispensável da civilização. Na crítica, estão aqui, ambos, mas um vai para a direita, outro, para a esquerda.

3. Vejo o mesmo fenômeno na Teologia e na crítica à metafísica. Duas pessoas argumentam que a metafísica se foi, que o século XIX é como uma ação de terraplenagem em larga escala. Dois teólogos podem tratar o século XIX como uma nova Torre de Babel às avessas - no mito bíblico, Deus derruba a torre, porque não quer que os homens cheguem a incomodar seu reinado celeste soberano. No XIX, são os homens mesmos que derrubam a torre, porque se dão conta de que não há como atravessar o firmamentum que nos separa do mundo feérico - noológico! - da divindade. Assim, para esses dois teólogos, o mundo metafísico dos deuses é dissolvido em pó, dilúído em água e derramado na terra árida do nunca mais.

4. Todavia... Um o faz a partir da consciência de que não apenas o discurso está superado, mas a realidade que se construiu por meio daquele discurso igualmente ruiu, juntamente com os tijolos da torre. Para ele, a queda da metafísica não significa apenas um detalhe referencial a menos, mas a retirada, abrupta, de uma peça que, sem ela, todas as demais perdem escora, e caem conjuntamente, de sorte que cai a metafísica, cai o discurso que a engendrava, cai a realidade assim sustentada, caem as relações daí conseqüentes, cai o jogo, cai a prática, cai o mundo. Trata-se de uma iconoclastia inegociável que apenas a mentira-para-si, a self deception, escamoteia.

5. Já o outro... Cai a metáfisica, ele mesmo o diz. Mas, ai, seu coração observa, nostálgico, o circo comunitário. O sábio de Zaratustra desce do monte, e surpreende-se de que, quem suba, não esteja informado da morte do Ancião de Dias. Nosso teólogo, ao contrário, consciente que está, vá lá, da passamento divino, ele se pergunta se vale a pena tornar pública a novidade. Conclui que não, conquanto as contas não estejam, por assim dizer, tornadas públicas - seu coração é pastoral, ele dirá. Pergunta-se como pode, ao mesmo tempo, conciliar o XIX e a prática pré-XIX, isto é, como pode manter tudo como está, como se nada tivesse acontecido, ao mesmo tempo em que possa dizer, para si mesmo, à noite, que, sim, aconteceu, sim. E descobre a magia das palavras - o feitiço da metáfora, a arte da prestidigitação poética: basta que diga as palavras que todos conhecem, trate-as como algodão doce, não tem importância, porque apenas o que se requer é que as palavras sejam ditas, que a língua toque o açúcar mágico das homilias, porque as pessoas querem ser enfeitiçadas, pedem por encantos, clamam por magia, porque a força das palavras está nelas mesmas, e não no referencial que eventualmente representam. Morto o referencial, vivas as palavras, lá vai ele, guia de anjos, porque a fé vem pelo ouvir...

6. Por isso, não se pode julgar como irmãos dois discursos que tocam a mesma "verdade". As informações são neutras, sempre. O que se faz com elas é que revela de que lado você está. E aqui, não se trata de dizer se há um lado bom ou um ruim - estou apenas dizendo que não se trata do mesmo lado, absolutamente. E bastaria uma única pergunta: aos canalhas da fé, aos impostores da doutrina, aos levianos do Evangelho - importa que sejam apenas palavras? Não, naturalmente, porque eles são os primeiros a se servirem delas para a operação do opróbrio teológico, espetáculo aviltante do circo evangélico contemporâneo - embora não só dele. Ora, meus amigos, não vos parece muito a calhar uma "saída" que nada mude, mas que, no alto da academia, tenha ares de genialidade? A questão é: a calhar... para quem?






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2010/581) Teologia pública na República - não vai dar certo isso



1. Se os leitores desejarem conferir uma constrangedora exposição de combate, neste corner, a Teologia, a religião, a fé, a "Bíblia, Palavra de Deus", com direito à referencia explícita ao "chanceler" do Mackenzie, naquele corner, posições nem um pouco acanhadas e comedidas, de caráter, digamos, "republicano", favor reportarem-se, e depois retornem!, ao post A teologia do chanceler do Mackenzie, no blog do Nassif, sendo necessária a leitura dos comentários. É alguma coisa para fazer corar.

2. Dá-se ocasião para que eu comente, então, sobre "Teologia pública". Digo-o de pronto: se não se tratar de uma teologia telúrica, quero dizer, epistemologicamente presa à cultura e à história, sem acesso privilegiado ao céu ou ao inferno, sem tergiversações "malandras" de disfarce "confessional" - chama-se confessional ao que é ainda e sempre medieval, político e anacrônico, como se isso justificasse o anacronismo, como se o termo "confissão" fosse um abrakadrabra, um shazan -, logo, uma autência "ciência humana", qualquer Teologia pública é uma indecência na República. Se está pressuposta a argumentação com base em supostas revelações, iniciações de mistérios e arcanos, viagens e visagens e que tais, não há a mínima possibilidade de a Teologia ser e estar pública. Sejam os teólogos minimamente educados, minimamente civilizados, trancafiar-se-ão dentro de seus templos, e aí, e só aí, despejarão suas palavras, seus mitos, suas crenças.

3. Sob a perspectiva republicana, a pregação pública, catequética, "evangelizadora", ouso dizer, é indecente. Por quê? Pela óbvia - caso contrário, estou absolutamente perdido e louco (pode ser!) - consideração de que, na República, a plataforma de argumentação tem de ser obrigatoriamente universal. Não é possível um jogo republicano em que João vá ao Céu, Maria, ao Inferno, José, ao Nirvana, Antonio, ao Hades, Miriam, ao Sheol, aquele, a Jesus, esse, a Exu, aquele outro, a Iemanjá, aquela, a Manitu, aquele ainda, a Buda, e, de lá, cada qual traga suas muito fundamentadas argumentações ontológicas - o argumento de um soará mito aos ouvidos do outro, o deus de um é o diabo do outro. O jogo republicano é um jogo não-religioso, não-teológico, não-metafísico, pela razão histórica, logo, inescamoteável, mesmo para os profissionais da fé, de que o jogo republicano foi inventado para superar justamente o jogo teológico, teocrático: os homens até se deixem governar pelo deuses - o "povo", não..

4. Não estou dizendo que as diversas crenças deveriam acabar. Não sei se fariam falta, é verdade, porque as necessidades que hoje temos delas, na sua ausência, nos levariam a criar outros mecanismos de satisfação, dado que não acredito que as religiões sejam meros caprichos humanos - todavia, não duvido que vivêssemos bem sem o sistema religioso tal qual inventado até agora. Mas recupero o fio de argumentação: estou dizendo que o jogo republicano impõe a mim e a você que, na ágora, na praça, quando estamos diante um do outro, reduzamos nossa base de argumentação ao que é comum a mim e a você ao mesmo tempo. No espaço da cidadania, da República, da "nação", não posso empregar argumentos cristãos, quero dizer, baseados nas doutrinas do Cristianismo, quando tenho, como interlocutores, não-cristãos - e, mesmo se todos nós fôssemos partícipes da mesma fé, ainda assim teríamos que, por força do jogo, reduzir nossa base retórica ao que é humano, demasiadamente humano...

5. Aí, que belo flagrante de infração do jogo republicano os argumntos desse senhor reverendo. Envergonha-me o fato de ele não ter vergonha. A isso se chama Apologética, nos cursos de Teologia - a cara-de-pau de defender o republicanamente indefensável. A Apologética é a arma do desarmado - mas se lhe dão um fuzil e o direito de usá-lo, eis a Inquisição, senhores... Ele não é capaz de ter aprendido que a Bíblia pode ser tratada como Palavra de Deus por ele e por seus féis - e só entre eles, mas que a República tem nela, nas Escrituras, apenas a consideração de que sejam livros sagrados de uma determinada fé, tão sagrados, para a República, quanto o Corão e os sonetos de Bocage. Todavia, nos argumentos desse senhor, profissional da Teologia, o fato de ele crer na Bíblia como Palavra de Deus pode e deve ser usado como argumento sobre todos os cidadãos. Não há como não concluir que esse senhor vive como que na Idade Média, como se a retórica pública se desse em meio a um regime teocrático, do qual, claro, ele fosse porta-voz. Se lhe ensinaram algo no Seminário, temo que tenha esquecido, se é que aprendeu. Vá um sacerdote do candonblé argumentar na mesma base, esse senhor reverendo há de satanizá-lo, revelando o grau de cidadania republicana a que se pode chegar, quando se troca o jogo republicano pelo jogo teocrático.

6. Naturalmente que a academia tenta - mas tenho medo das tentativas dessa academia! Mas a Teologia que se produz a partir de dogmas não tem qualquer parentesco com a academia universitária, ainda que a fachada dos prédios ostentem lá um letreiro com a mesma expressão. No entanto, a academia teológica, quando vai a público, falar de "Teologia pública", terá ela a noção do desastre republicano que defende? O que ela quer? Uma praça em que cada religioso palreie suas crenças, todas, para si mesmas, verdadeiramente verdadeiras, de granito e mármore de tão "duras", numa pantomina sem sentido? Ora, que isso se pratique dentro dos templos! Mas não! O que as religiões de conquista queriam e querem há séculos e ainda hoje, lá e então, é a conquista das massas - e, por isso, devem esforçar-se para ter acesso, ainda que anti-republicano - porque Deus é maior do que a República, naturalmente!... - à mente dos cidadãos republicanos, nessa feira de deuses e deusas, nessa Babel de crenças e descrenças, de graças e desgraças que é o mercado religioso.

7. Que os reverendos bradem suas espadas, quero dizer, seus argumentos velhos, ocos, puídos, descontextualizados, anacrônicos, superados, vá lá - digamos que faz parte de sua "profissão", e, quantas vezes, não é para o "mercado interno" que falam? Mas a Teologia universitária, antes de arvorar-se em portadora de uma "Teologia pública" (se não me engano, inventada no país em que a fé evangélica justifica a invasão do Iraque e legitimava, ainda ontem, um governo mentiroso e invasor), deveria é fazer um acerto de contas civilizatório, e decidir se, afinal, é, de fato, republicana. Se for, deverá, imediatamente, converter - transformar - a plataforma em que opera, transferindo-se da retórica confessional e metafísica, para a plataforma das Ciências Humanas. Caso contrário, não terá nada de republicana, conquanto tenha nas mãos a chave da sala de aula.

8. Os teólogos devem pagar o preço - ou não honrarão a vocação. Não se pode mais ser teólogo e sacerdote, estar a serviço da fé e da crença, ao mesmo tempo em que se deseja inserir-se na cidadania e na civilização republicana. Se o desejo é o sacerdócio, escolheu-se o interior dos templos, e é aí que se deve ficar. Se se optou pela cidadania, não há mais espaço para a boca de Deus - e aí só cabe uma Teologia, não-confessional, crítica, heurística. Ou se está a serviço do dogma, o que exigirá um discurso interno, de defesa do obscurantismo e do atraso - que é como julgo o discurso do reverendo - ou se está a serviço da República, desse modo novo de ser habitante de uma nação que não nega o direito à fé, mas solicita, muito gentilmente, que seja assunto de foro íntimo. Não há lugar na República para uma Teologia pública - ao menos enquanto a Teologia não se der conta de que "Deus está morto".


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 9 de novembro de 2010

(2010/565) Um caminho poético para a Teologia?


1. Primeiro ponto: os místicos medievais não fazem rigorosamente poesia - fazem teologia, mistica, devoção. Quando sentam para escrever, não estão pensando em "fazer poesia": estão pensando em "contemplar a face de Deus". Não são Quintanas - sao Ícaros. Se o caminho de que se servem para chegar até o lugar diante do trono é a poesia, bem, isso é irrelevante para a definição do estatuto pragmático dessa mística. Se o leitor concordar comigo que, pensando a letra do Hino Nacional Brasileiro, não se está, aí, diante de "poesia", mas de narrativa mítico-política instrumental e performativa, agora sim, na forma de poesia, mas, sobretudo, instrumento político, então não vejo como não há de concordar que o fato de o místico servir-se da "forma" da poesia para expressar sua devoção e contemplação deva ser tratado de forma diferente - o que determina o caráter da coisa que se faz é a intenção com que ela está carregada: poesia é poesia, mística, mística, e não será difícil encontrarmos poesias místicas, que são poesia, e não mística, e místicas poéticas, que são mística, e não, poesia.

2. Segundo ponto: o século XIX foi um século iconoclasta. A Teologia só pode passar "incólume" por ele por duas formas: a) desviando-o, como se não tivesse existido ou anatematizando-o, como o faz a Teologia fundamentalista, seja aquela que tecnicamente merece o adjetivo, sejam aquelas que o recebem mais por sua carga de conservadorismo doutrinário e reacionarismo sócio-cultural, tanto faz; e b) cooptando-o de modo acintosamente programático, desfazendo-o sutilmente, transmutando suas declarações de fundo, fazendo de conta que o que se disse ali não foi o que se disse ali, e que o que se descobriu ali não foi o que se descobriu ali. Sem essas duas alternativas que, a rigor, traduzem opção pelo tradicionalismo, resta à Teologia lidar com o fato de que suas mais belas anotações de página constituem mito - e isso desde que nasceu, e até hoje.

3. Dizer que as mais belas anotações de página da Teologia são mito é dizer que a Teologia sabe que essas palavras são dela mesma, inventadas por ela, inocentemente, vá lá, despudoradamente, muitas vezes - nesse caso, não faz diferença: seja a mula-sem-cabeça, seja Papai Noel, estamos diante de mitologias populares. O fato de que haja mitologias sofisticadíssimas (como as egípcias, por exemplo) não é relevante. Não estou dizendo que, dado o fato de se tratar de mito, não tenha valor ou seja necessariamente dispensável, descartável. Os mitos são o modo como a humanidade se instala sobre a superfície inatingível do real - o mito é a forma como o real transforma-se em "realidade", digamos assim. O problema é quando tomamos os mitos pelo próprio real, ou quando, cientes da diferença, cuidamos que vivemos... nos mitos... Isso para falar do problema que nós mesmos nos colocamos, porque ainda há o problema que os outros nos colocam - o problema da manipulação política dos mitos, o problema básico da reLigião e, mais recentemente, dos Estados nacionais modernos que, sob certo aspecto, assumiram para si o centro de gravidade de operação dos mitos - Pátria, Mãe, Morte... adorada, amada, salve!, salve!...

4. Pois bem, deixem-me dizer, agora, o que vim dizer: a poesia não é um caminho alternativo "melhor" para a Teologia, como se a doutrina estivesse num patamar de inferioridade instrumental em relação à "arte". Seja a doutrina, seja a poesia, quando se faz o que se chama (até aqui) de Teologia, então o que se está fazendo é transportar para um registro determinado - a "declaração de fé" axiomática, a poesia - uma "narrativa" mítica pré-existente (= mito!), que dá sustentação ao processo poético ou doutrinário. Não há diferença - exceto na forma - entre uma Teologia que se faça via doutrina e uma Teologia que se faça via poesia, porque as duas cuidam dar conta de algo (isto é, do mito!) que, deviam saber, é criatividade intrinsecamente humana.

5. Pode-se falar de Teologia poética e de Teologia doutrinária como "formas" distintas de se fazer a mesma coisa - em essência, trata-se de falar de algo que se concebe de um modo determinado. A poesia não nasce e se forma antes da narrativa - a poesia é, quanto à forma, uma expressão, uma retórica, uma máscara. A poesia, na Teologia, é segunda, é mediaão. Mas mediação entre o fiel e a fé, entre o crente e a crença - a auto-imagem que a Teologia poética faz e vende de si como mediação entre o fiel, o crente, e a divindade, bem, disso sabemos tratar-se racionalização mítica - ao menos aqui se assume que sim. A idéia de que a Teologia, servida em drágeas poéticas, seja mais "eficiente" do que a Teologia doutrinária incorre no equívoco de racionalizar o objeto sob interesse em questão - a "divindade e seus "mistérios" - sob o efeito do regime descritivo doutrinário: porque a poesia "sabe" que a "divindade" se comporta assim ou assado, ela então "sabe" que o seu modo - "poético" - de chegar até "lá" é mais eficiente do que o modo doutrinário. Ora - não fora a "doutrina", anterior, nesse caso, à poesia, a poesia vagaria sem saber para aonde, tartamudearia incomunicáveis balbucios ininteligíveis - e ao contrário, centenas de estrofes!, conquanto não chegue a ter a bocarra escancarada dos neo-ortodoxos alemães que, em matéria de dizer, mede-se-lhes às toneladas... Pode-se falar de distinção de formato de apresentação - até de "caminho" (de fato, uma Teologia poética tende a ser menos rígida, logo, mais tolerante) -, mas não se pode tratar a Teologia poética como algo substancialmente diferente da Teologia doutrinária.

6. Salvo, anote-se, se não se tratar de poeisa, mas de - tecnicamente falando - metáfora. Há em fermentação uma proposta de Teologia que a) começa na comunidade, b') passa pela tradição (enquanto meramente tradição), b'') espelha-se nas palavras dessa tradição e c) retorna à comunidade, sempre de modo instrumental e pastoral, sem qualquer referência "univocizante" à ontologia e à metafísica - ou seja, uma Teologia que diz que diz, mas efetivamente não disse, e o que diz diz apenas na intenção pastoral do "cuidado" do rebanho. Não estamos diante de poesia aqui, conquanto o formato seja poético, evidentemente. Já me referi ao fato de que a casca poética de uma peça literária não determina a sua pragmática - a pragmática está assentada sobre a intencionalidade programática da ação humana que maneja a peça. Não estou convencido de que seja possível fazer Teologia como autêntica poesia, assim como não estou convencido de que se pode fazer política como autêntica poesia - ainda que se possa usar, e bem, a poesia tanto para a política quanto para a religião.

7. Qual a relevância - ou o significado disso? Bem, em última análise é desfazer a aparência de que, caminhando por meio do recurso poético, está-se fazendo algo diferente do que se fez até aqui. Não, não está. A superfície da ação pode até parecer diferente a olhos menos atentos, eventualmente, menos informados. Mas basta que olhos mais argutos pousem sobre a flor exposta às patas dos insetos para se perceber o que a flor está a fazer. E toda a vida dessa flor e de sua espécie foi justamente fazer-se ainda mais encantadora, para, feiticeira, ter sob seu corpo muitos ávidos pezinhos delicados...

Partners (Paulo Ricardo / Paulo (PA) Pagni / Luiz Schiavon)
Cássia Eller
Eu pensei Em tanto pra dizer Enquanto esperei Por esse blues, por essa luz Esse solo, Esse som, No colo de Deus (e no seu) Morri de saudades Desse momento Andei tão sozinho Por tanto tempo Por tanto tempo só Eu nem se iSe devo confessar Um certo segredo Uma vontade que dá De repente Um rap, um repente Acorde cordel Que cai do céu Morri de saudades Desse momento Andei tão sozinho, tão só Por tanto tempo.


OSVALDO LUIIZ RIBEIRO

domingo, 7 de novembro de 2010

(2010/561) Política e religião - qual o exemplo da Teologia?


1. Talvez eu seja radical nesse aspecto. Talvez eu tenha que aprender o equilíbrio aqui. Talvez para todas as coisas, sem exceções, tem de haver equilíbrio. Talvez não. Há certas questões - que são de "princípio" - onde não há meio-termo, e talvez a questão da Teologia no MEC seja uma delas - tem-se que ser "radical", de tratar a questão "na raiz", não na superfície, nas aparências. Justifico-me, todavia, pela absoluta ausência de discussão pública no que diz respeito à Teologia na Universidade. A Teologia entrou no MEC pela "porta dos fundos", eu quero dizer, não houve uma discussão pública a respeito de, primeiro, sua entrada, segundo, o "preço" dessa entrada, terceiro, as conseqüências dessa entrada. Não sei quem estava mais iludido ou que lado pensava iludir mais o outro - mas querer que a Teologia, há dois mil e quinhentos anos pura racionalização mitológica, entrasse para a "academia", para a Universidade, e se comportasse nos termos da regra do jogo epistemológico das Ciências Humanas... Bem, ou todos os envolvidos nas negociações sabiam que isso não ia acontecer, mas não se viu nisso um problema relevante, ou sequer a questão passou pela cabeça dos responsáveis, eventualmente presos a outros interesses.

2. Quero abordar esse tema por um outro ângulo. Acabamos de sair de uma campanha eleitoral pesada, em que, nos termos de Luiz Carlos Bresser Pereira, o modo estadunidense de fazer política entrou em campo brasileiro, ao lado, e não há nenhum paradoxo nisso, pelo contrário, do ranço reacionário e golpista da velha guarda política nacional. Nas palavras do, nesse caso, insuspeitável Bresser Pereira: "os dois males que de fato rondaram as eleições de 31 de outubro foram os males do udenismo moralista e potencialmente golpista e o da americanização do debate político". Interessa-me, aqui, a "americanização do debate político", expressão que me parece inadequada, em substituição da qual eu proponho "estadunidenização do debate político" (a América não é os Estados Unidos - nem deles!).

3. O Brasil constitui uma República desde 1889. O Brasil é um Estado Democrático de Direito, laico, republicano. É livre a expressão religiosa - enquanto expressão religiosa. Quando, todavia, a religião volta a dançar a dança da morte teocrática medieval e pré-medieval, capitaneada por paródias ao mesmo tempo ridículas e perigosas de sacerdotes, mas, na verdade, candidatos - inclusive à Presidência da República (meu Deus, quanta desfaçatez!), a prática cotidiana da manipulação da fé crente nos redis cristãos transporta-se para a população (tabém via Youtube!), confundindo a cidadania, laica e republicana, com a expressão de fé, mítica, privada. Levando-se em conta a plataforma "imperialista", "cruzadina", "catequista" da fé e da prática cristã milenar, a manipulação da fé religiosa para fins políticos constitui um crime de lesa-pátria, qanto mais perpetrado com ciência e requinte de pantominas, maquiavelicamente, programaticamente, descaradamente, desabusadamente. É lamentável, reprovável e crimisosa a manipulação da fé religiosa para fins políticos - a rigor, para nenhum fim. A religião não pode considerar-se critério para as decisões políticas, conquanto valores religiosos possam, como evitar?, entrar na aritmética das decisões particulares de voto. O cabresto, a manipulação, a massificação, a bovinização, a catequização da massa laica e republicana - pecado de morte. Imagine-se um santarão no Planalto!

4. E, no entanto, no centro da academia, ali, justamente onde o país poduz seu conhecimento de ponta, sua ciência, sua tecnologia, seu desenvolvimento, assenta-se a Teologia. Sim, trata-se da Universidade. Bem, se me perguntam o que acho disso, isto é, de a Teologia estar na Universidade, imediatamente deixo-me tomar de entusiasmo, porque, afinal, minha formação é inteiramente teológica - graduação, mestrado e doutorado, de modo que a "cidadania universitária" para a minha especialidade é uma dádiva, uma "conquista", uma vitória. Todavia, a Teologia que lá está, que dá aulas, não é a que eu gostaria que estivesse - nem eu nem Hans Küng, a julgar por suas declarações contundentes em Teologia a Caminho, dando sua posição quanto ao fato de que a única Teologia que deveria estar na Universidade seria a "histórico-crítica" (que eu transformo em "Teologia fenomenológica", para dar entrada a outras expressões de tradição teológica não-cristã, a quem a expressão histórico-crítica, porque relacionada à análise de textos, não cabe).

5. A Teologia que está na Universidade é, tirando-se a sofisticação, o equipamento retórico, a sub-estrutura de sustentação pública, rigorosamente, literalmente, indiscutivelmente - a mesma da Igreja. E na mesma medida! Não me deixam mentir os artigos entusiasmados de defesa dessa Teologia na Universidade - "confissão", "perspectiva de Deus", essas coisas. A única exceção que li é representada pela posição de (meu colega) Julio Zabatiero, que defende que a Teologia seja "saber racional público" (disso discordo), e que não devia estar na Universidade (do que também discordo - mas entendo: se Teologia é para ser o que é [há dois mil e quinhentos anos, pelo menos], não tem nada a dizer nem fazer na Unviersidade mesmo, salvo, claro, "converter" consciências - todavia, Teologia para mim não é [mais] isso). Todos os demais artigos que li defendem a Teologia confessional, a fé, a verdade, o dogma, a tradição, chamem pelo nome que quiserem, na cátedra...

6. Ora, não se trata, a rigor, de um mal exemplo? Nessas cátedras, sob que aspecto se tratam as questões republicanas? A questão do aborto, por exemplo. É a "fé" - isto é, a "doutrina" eclesiástica - a dar as orientações inexoráveis? É Deus a dizer de como gosta das coisas - República ou não? É a Igreja, distribuindo bulas, catecismos, encíclicas, disfarçadas em tratados de Sistemática e pseudo-exegeses sistemáticas? Já não estamos, aí, meus amigos, metidos até o pescoço num vespeiro? Falo pela experiência de meu doutorado - as disciplinas "bíblicas" suportariam qualquer ambiente republicano: até um ateu as estudaria, sem constrangimento algum - ali se faz "ciência universitária" (juízo meu - e também depende muito do que se há de chamar por "disciplinas bíblicas", uma vez que há um sem número de manipulações "hermenêuticas" em voga, que uma aproximação "gadameriana" justificaria, vá lá, mas que, cá entre nós, constitui ação política programática e intentio lectoris racionalizada). Já as disciplinas "teológicas", propriamente, as da "Sistemática", ah, meu caro, doutorado ou não - é dogma, doutrina, fé e confissão: não quer, cai fora. O máximo que voce pode fazer é criar um sistema em que pode continuar usando as mesmas palavras, dizendo as mesmas coisas, quando, na verdade, está dizendo outra(s), sabe-se lá exatamente o que - a isso eu chamo de "Teologia metafórica". Para mim, não dá.

7. O que eu quero dizer é que o mal exemplo da Teologia impede-nos a nós, teólogos, de pôr o dedo na ferida do uso escandoloso da fé na política. Falta-nos moral. Falta-nos responsabilidade. Falta-nos exemplo. Falta-nos vontade. A Teologia, se na Universidade, deve tornar-se republicana e laica, deve gostar disso, deve desejar isso, sentir-se, aí, em casa, na sua pátria. Gastarei todos os dias do resto dos meus dias para pensar uma Teologia assim, e morrerei pensando nela - parodiando elogiosamente Karl-Otto Apel, meu desejo é escrever uma Transformação da Teologia. Por quê? Porque sou republicano e laico, sou brasileiro, e, todavia, teólogo. Eu sou teólogo! Amo prostaticamente esse "ser teólogo". É visceral a relação entre a Teologia e eu. E não posso admitir que meu corpo viva em duas esferas, que brinque de Deus, aqui e ai, e finja ser republicano, ali e acolá - hipocrisia, falsidade, dissimulação. Exijo de mim, minha própria consciência me arranca da carne esse compromisso: ser inteiramente republicano e teólogo, algo muito parecido com o que Edgar Morin disse de si mesmo, de ser racional e místico. Aberto ao Mistério, que seja, porque disso não depende uma decisão "racional", conquanto dependa de uma decisão racional a admissão de que todas as doutrina são/sejam criações humanas. Mas o Mistério...? Não, o Mistério permanece - mas como Mistério, sem nome, inefável, intagível, ao mesmo tempo em que nos dissecamos inteiramente, para saber que essa sede, essa percepção, esse desejo, vem é de dentro de nós, um Mistério que é como que saído de nós e estampado nas estrelas. Como disse-o Mircea Eliade: o "sagrado" é uma estrutura da consciência humana... Belíssimo outono para a fé... e primavera para o Mistério... Tal qual praticada até aqui, teologicamente adestrada, a fé é o ocaso do Mistério.

8. Uma verdadeira vergonha o que se fez - o que o PSDB fez e deixou fazer - com a religião, a fé e a Teologia nesses dias de batalha campal, onde valeu tudo, da mentira à falsidade. Todavia, se retirarmos desses dias todas as coisas extravagantes, tudo de bizarro, todas as excrecências próprias da fermentação do mau caráter, do jogo sujo e sórdido, se desconsiderarmos a putrefação da política, teremos, então, um quadro bem simples: a promiscuidade entre Teologia e cidadania republicana. Aí, meus amigos, nessa dimensão, sob essa perspectiva, nada de muito diferente do que ocorre nas salas de aula de Teologia do MEC - radicalmente falando. Passado o dissabor desses dias, felizmente idos e perdidos, convém voltarmos os olhos, de novo, para essa republicaníssima questão: que Teologia deve estar no MEC?

9. E eis, então, uma excelente oportunidade para - finalmente! - uma discussão pública sobre Teologia na Universidade. O Conselho Nacional de Educação convida a sociedade para AUDIÊNCIA PÚBLICA "com a finalidade de propor Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Teologia". Dia 22/11, conforme convite disponível aqui.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 22 de junho de 2010

(2010/419) Sobre essa tal teopoética...


1. Não é nada de mais que a Teopoética vez ou outra esbarre em mim. Afinal, estou numa Faculdade, há gente pesquisando o assunto aqui mesmo, de modo que, quer eu queira, quer não, ela bate à minha porta. Ou eu, na dela. Foi o caso. Uma amiga, doutoranda em letras pela UFRJ, perguntou-me hoje sobre Teopoética. Batemos um papo. Ela já foi.

2. Mas a Teopoética ficou na minha cabeça. Google, vamos conversar... E achei essas duas referências, que nunca lera: "Os primeiros teólogos da história foram os poetas gregos, com sua teologia mítica (7:09 AM Feb 12th via web) Essa teologia mítica fazia um contraponto com a teologia política dos deuses estatais. A teopoética se opõe aos burocratas (7:17 AM Feb 12th via web)". Quanta coisa com que eu devo, educadamente, discordar...

3. Primeiro, que não se sabe exatamente o que venha a ser, hoje, Teopoética. Há pelo menos três coisas sendo feitas, e, todas, chamando-se a si mesmas de "teopoética", ainda que sejam coisas incompatíveis umas com as outras, dado que uma é estética - falar de "deus (?) poeticamente -, outra, heurística - verificar o que o autor xis fala sobre "deus" -, e, outra ainda, política - "encontrar" em determinado autor o dogma cristão. Marcelo parece chamar de teopoética a primeira opção - mas vai-se saber... No fundo, não deve ser.

4. Por quê? Porque há uma referência em seu citado sobre os teopoetas gregos, e outra, dando conta - do que não posso dar fiança - de que agiam em reação aos teólogos de Estado... Não saberia dizer se a declaração tem fundamento, ao menos não para o "início" da "teopoesia" grega. Platão, nA República, manda que sejam chutados os traseiros dos poetas - é disso que se trata? Mas, nesse caso, estamos aí já pelo avançadíssimo século V. Mas se você faz teopoética para fazer frente aos "burocratas", não sei mais se é estética isso - apostaria que se trata de engajamento... poético. Política. Mas a poesia, alguma vez, não foi, igualmente, isso? Não sei...

5. Além disso, não é verdade que a teologia nasce ali, nos poetas gregos. A palavra "teologia", vá lá. Mas a teologia, não. Definitivamente. Ela nasce muito, muito antes, em muitos lugares. Arrisquemos 100.000 anos, ao menos. Arrisquemos, ainda, África. É o que os paleontólogos dão para as primeiras impressões mais ou menos confiáveis da imagética pré-histórica, caracterizada por sinais que indicam a percepção de alguma arte funerárea de caráter "teológico". Os gregos são apenas uma etapa, ocidentalmente privilegiada, é óbvio, dessa história milenar...

6. Acho que precisamos decidir o que é teopoética. Também acho que precisamos decidir o que é teologia. Ou corremos o risco de dizer coisas que, das duas uma, ou só fazem sentido na cabeça da gente, ou não fazem sentido em lugar nenhum. Ou seja, volto a meu texto sobre o tema.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 2 de junho de 2010

(2010/403) E o que tem a dizer-nos a Teologia?


1. "Durante muito tempo a teologia queixou-se do paradigma científico que não lhe reconhecia cientificidade e a relegava a um plano secundário, não lhe reconhecendo o direito a um discurso científico de conhecimento humano. Tal realidade imperou durante muito tempo e em diversos lugares, sendo que a teologia só podia falar para seus 'adeptos', pois seu discurso não era ouvido fora de seus muros. O reconhecimento oficial dos títulos e dos cursos de teologia significa que a sociedade, por meio de seu governo, reconhece à teologia amplo direito de cidadania, incluindo seu direito, talvez dever, de pronunciar um discurso que será ouvido pela sociedade, porque responsável, científico e autor de cultura e conhecimento" (Antonio Manzatto, A Teologia na Universidade - Perspectivas, Revista de Cultura Teológica, n, 69, 2010, p. 69).

2. A declaração consta do artigo citado. Originalmente, contudo, constou da "conferência (...) realizada no dia 29 de outubro de 2009, na celebração dos 60 anos da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo", a Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção. Agora, faz-se divulgar, na forma de artigo, guardada ainda, conforme nota lavrada na p. 63, na forma original da conferência. Digo-o, para que se reconheça tanto o contexto original da citação, quanto seu estado ainda preservado de "conferência".

3. E avanço. "O reconhecimento oficial dos (...) cursos de teologia significa que a sociedade (...) reconhece à teologia amplo direito de cidadania, incluindo seu (...) dever (...) de pronunciar um discurso que será ouvido pela sociedade, porque responsável, científico e autor de cultura e conhecimento". Alvíssaras! Oxalá! Não sei se é verdade que a sociedade esteja, de fato, interessado em ouvir qualquer discurso da Teologia. Mas confesso que, se estiver, e, dado que a Teologia está na Universidade, nada diferente se poderia esperar a não ser isso: um discurso científico e culto. O "alvíssaras" vai pela torcida quanto a uma possível consciência - finalmente! - disso. Não sei. O "oxalá" vai, justamente, por meu ceticismo. Sinceramente, não sei mesmo se a Teologia - e eu falo dos teólogos, claro, porque Teologia não há, o que há são teólogos - está mesmo interessada em discurso - de verdade - científico.

4. O próprio artigo, mais à frente, reconhecerá que a cientificidade da Teologia é uma cientificidade própria - "o trabalho teológico deve ser feito com rigor científico. A teologia não é simples enunciado da fé (...). Ainda que sua cientificidade lhe seja própria, deve ser respeitada por ela mesma, pois tal rigor lhe é exigido por seu próprio estatuto científico" (p. 70). Eu fico cá a pensar sobre o que quer dizer isso: uma cientificidade própria da Teologia... Ela não é uma das Ciências da Religião, logo, necessariamente, uma das Ciências Humanas? Se é, então não tem cientificidade própria. Se não é, não é científica. Assim, dizer que a Teologia tem estatuto científico pode ser a mesma coisa que afirmar que a Astrologia faz sentido. Faz. Claro que faz. A Teologia também. Se há inferno. Se há pecado. Se Deus é juiz - conquanto ame! Se Jesus é o único salvador... então faz sentido a Teologia... cristã. Mas se todos os ses que usei não passam de especulação metafísica, acabou-se o estatuto científico da Teologia.

5. Assim, voltamos ao início de minhas questões desde há algum tempo levantadas: a Teologia quer mesmo tornar-se ciência? Manzatto o deseja? Ou, no fundo, o que a Teologia quer é que seja reconhecida pelas Ciências a sua, digamos, peculiaridade "científica", a sua delicada idiossincrasia, qual seja: a fonte de suas verdades é a Revelação, as Escrituras, a Igreja? Justo! Legítimo! De Direito. De republicaníssimo direito - inalienável, até! Mas "científico"?

6. Por outro lado, esse parágrafo cairia como uma luva sobre os indicativos - todos - do Parecer CNE/CES n. 118/2009 - uma Teologia que parta de critérios e princípios acadêmico-críticos, científicos. E, no entanto, a Teologia "geme sob o peso da mão do Estado"... Ah, como dói o Parecer... E justamente por quê? Porque estabelecem-se aí obrigações contratuais à Teologia, que, a meu ver, mas posso estar enganado, vai-se saber!, pedem-lhe que se "submeta" à epistemologia das Ciências - com especial atenção ao princípio da exclusão do transcendente. Mas a especificadade da ciência teológica não seria, pergunto ingenuamente, justamente o fato de que, diferentemente das outras ciências científicas, a Teologia é uma ciência teológica, que, diferentemente das demais, não exclui o princípio da transcendência, porque, a rigor, é ciência da fé?

7. Da fé e do "magistério", ratifica o artigo, à p. 70! Eu entendo. Fala-se intramuros. Por isso, até, não se citam as Teologias não domésticas... Aliás, nunca. Até agora, teólogos só os há na Igreja, a crer nos artigos "teológicos"...

8. Fico por aqui. Naturalmente que provoco. É programática a provocação. Ainda vejo nu o rei, nua, a rainha. A Teologia está a fazer vergonha nos salões universitários. Como teólogo, envergonho-me. Perceba-se a transferência psicológica: envergonho-me, e transfiro minha vergonha a ela, à Teologia. É que eu queria que a Teologia cedesse. Mas, como eu disse, não há Teologia. Só há teólogos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 19 de maio de 2010

(2010/389) Provocando Jimmy - à guisa de reação


1. Dias atrás, estava eu acamado, febril, e, desde as terras francesas, Jimmy escreve um post que me desesperou não poder responder. Um sujeito com 38º de febre não tem estrutura para dar conta daquela enxurrada de palavras desvairadas e doloridas. Quero enfrentá-las, agora.

2. Quero pinçar essa declaração de Jimmy: "como método teológico, resta-nos o niilismo racional e heuristico em ciências humanas que, por sua própria constituição (crítico e desconstrutivo), não pode fazer mais que demonstrar o cadafalso da história que nos apresenta a aporia do discurso religioso fundado na violência do mito, e a aporia de um humanismo, que, na tentativa de superar a "trivialidade da vida animal", não nos deu nada menos que um horror exterminador". Não sei se a declaração constitui uma descrição ou uma denúncia. Seja como for, cuido haver um possível - friso: possível - equívoco na construção. Jimmy, julgue. Haroldo, o que acha? Leitores, e aí?

3. Trata-se do método teológico que resta, ou, antes, trata-se da conclusão a que temos chegado, depois dos últimos extraordinários duzentos anos? Ora, método teológico não é conclusão. Método é processo, modus operandi. E Jimmy fala a partir de uma perspectiva que se encara, de um cenário que se tem à frente da cara. Mas deveríamos separar a questão do cenário em que operamos - os dias secularizados e humanistas das repúblicas pós-cristãs, da questão do método, seja qual ela venha a ser, porque não há, ainda, método alternativo, em teologia, para o método de criar mitos-divãs nos quais deitar e fazer deitar as almas cansadas.

4. O que se chamou até aqui de Teologia não passa, não vai além da "revelação" platônica. Teologia, até aqui, é conteúdo, e nada mais do que conteúdo. Teologia, até aqui, é mito e narrativa, cama de deitar, e mais nada. Quando a modernidade começou a sair da terra, os escrúpulos teológicos danaram a procurar justificativas pseudo-metodológicas para a manutenção do conteúdo - sempre o mesmíssimo e inalterado conteúdo. Mas método mesmo, não há nenhum. Sequer um. Salvo se você tratar por método a seguinte encomenda: como dizer sempre o mesmo, mas com formas novas? Cá entre nós - há muita forma nova entre Barth, Bultmann, Moltmann, Pannenberg, até em Tillich, mas, convenhamos, conteúdo novo? Não, não. Acho que não se trata, Jimmy, de método teológico, esse cenário que você descreve.

5. Você descreve a desesperança. Depois de dois mil e quinhentos anos - ah, sim, confessemos: a teologia é grega, é platônica, e não tem nada de excepcionalmente cristão, salvo a sua cooptação filosófico-abstrata, o sepultamento impiedoso de um judaismo semita. Começo de novo: depois de dois mil e quinhentos anos de mito, um mito desenhado à moda dA República, alguns desesperaram. Descobriram-se bichos, ainda, e não anjos, descobriram que a ética não vai além de convenções da cultura, que os deuses e os diabos são seres de espírito, descobriu-se a possibilidade de assoprar, e o teísmo desaparecer entre os dedos, algo bem parecido com a experiência da adolescência, que vê desaparecer diante de si a autoridade dos pais, e sai de casa. Não se trata de método. Trata-se de hormônio.

6. A casa caiu. Onde ela caiu. Não caiu inteira. Jimmy, meu amigo, não é porta-voz do cristianismo, que vai se cuidando bem, aos seus olhos. Jimmy fala apenas de seu próprio desespero, de ver pela janela - já atravessou a porta? - e desesperar do que vê. Não é coisa fácil olhar pela janela. Acreditem. A uns, a visão é até apaixonante, como se esperassem por esse dia, por essa visão. A outros, é como se pingassem ácido nos olhos: ver, e não querer ver o que se vê. A mente, a consciência vê, mas o corpo não quer ir, não quer atravessar o rio, para o outro lado... Eu achava que não havia essa hipótese. Acho que já disse que ver é, automaticamente, atravessar. Mas vou achando que não. Vou achando que o mito pode fraquejar, esboroar, esgarçar, os olhos podem ver o que há do outro lado, mas o sujeito pode remendar o mito, agarrar-se a ele, e decidir ficar.

7. Mas isso nada tem a ver com método teológico - não o "novo", o que Jimmy chama de heurístico. Há que se sentar, com calma, agora, e dizer o que vem a ser esse novo método. Haroldo me provoca, com gentileza, mas com estocadas firmes. O que há para descobrir, Osvaldo? Entendo. Não se acredita que, de fato, saímos de lá. As verdades ainda são as de lá. Os valores, os de lá. Os prazeres, as dores, os deuses, os de lá. De modo que não há alternativa, porque, além daquilo que sabíamos, não há nada mais, e, se não nos agarramos àquilo que sabíamos, nada mais há além disso. Logo, o que há para descobrir? Percebe-se o "jogo"? O sofisma oculto? O círculo de raciocínio?

8. A questão é outra, amigos. Saímos! Ponto. Bem, deixe-me colocar assim: saí!, ponto. Eu não tenho como tergiversar. Eu não tenho tangentes. Não tenho argumentações. Caí! A casca do ovo quebrou e eu não tenho como voltar. O que Jimmy descreve como aterrador cenário é, para mim, a coisa mais banal. Não me produz a azia que o acomete, porque esse é um mundo que eu preciso domar, entender, e aprender a viver nele. É meu mundo. Ah, sinto-me em casa... nele. Como teólogo, aprender a fazer teologia nele. Não se enganem. O mito religioso foi criado para esconder a dor de desespero do homem que saiu da Natureza, e, como Jimmy, desesperou-se. Amigos - não acham que somos o primeiro a ver a nudez da terra... Amigos, essas soluções de mito já foram ensaiadas, e, surpresa!, acabamos de desmontá-las. Podemos, como nossos mais antigos antepassados, aqueles já de há cem mil anos, voltar para os mitos religiosos, nos modos em que esses mitos religiosos e políticos se tornaram hegemônicos. Ou podemos criar outras soluções, outras saídas. Fatalismo? Eu, heim! Creio na criatividade. Creio na invenção. Inventarei um método diferente, de cobrir a nudez da terra, sem que eu precise usar a roupa velha dos mitos velhos, e me enganar que sejam novos e sofisticados. Não são. Novo nem sequer é o desafio. Nova só pode ser a resposta. Se de fato somos os homens para ela.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 2 de maio de 2010

(2010/361) Teologia heurística?


1. Mesmo não contribuindo com regularidade e muito menos com a sofreguidão do colega e amigo Osvaldo, a questão da classificação da Teologia continua me ocupando. Um dos últimos momentos de debate forte foi quando e após o Parecer 118. Aí houve sentimentos distintos. Havia e há os que entenderam que o parecer, com suas exigências de inclusão de “eixos” típicos das Ciências Humanas na matriz curricular dos cursos de Teologia no Brasil, pretendia transformar a Teologia em Ciência(s) da religião. Outros, entre os quais me insiro, viram a necessidade de tais eixos para pelo menos conformar ou forçar a dialogicidade efetiva da Teologia com as demais ciências humanas de sua chave classificatória. Isso, claro, para dar conta da condição de cidadania acadêmica da própria Teologia.

2. A julgar por algumas reações, em ambientes distintos, parece ser assim que a dialogicidade efetiva romperia com a conditio própria da Teologia. E isso é o preocupante.

3. Osvaldo, com muito fôlego, tem proposto uma classificação tripartite da Teologia: metafísica, metafórica e heurística. A primeira é a tradicional, de corte vétero-medieval. A segunda respira as energias das ciências da linguagem, tendo, com novo fôlego, dedicado o post 2010/351 “Metáfora e sacramento”. A isso ainda quero reagir com mais vagar. Por ora, preocupa-me a pergunta: qual é a distinção efetiva entre o primeiro tipo e o segundo? Ambas tem destino ao manejo da arena da política, que é o espaço efetivo da Teologia e aquilo que lhe corresponde em outras culturas, a saber a ordem mitológica. A pergunta que me fica é: será que a diferença entre ambas não reside somente na consciência do sujeito operante em relação ao seu objeto?

4. Mas, e a Teologia heurística? Todo o conjunto daquilo que costumamos entender sob “Teologia” (claro que num viés cristão-ocidental) é uma importante rede simbólica na tessitura das relações sociais durante muitos séculos. Vida e morte, guerra e paz, esperança e desesperança, crítica e anti-crítica. Tudo isso se decidiu em relação a tais conteúdos ou sobre seus fundamentos. Reconheço a importância dessa tradição. Mas, o que se descobriu mesmo?

5. Na Teologia acadêmica houve algumas rupturas sintomáticas. No final do século XIX, a exegese histórico-crítica se distancia do “método teológico”, passando a assumir cada vez mais um interesse “histórico” e crescentemente “fenomenológico” sobre o vir a ser e o ser dos textos sagrados (em especial: bíblicos). A própria “História da igreja” passou a se pautar cada vez em consonância com as exigências dos métodos historiográficos, inicialmente da “escola de Berlim” e depois com as demais influências rumo a uma “história total” (mentalidades, social, etc.). A chamada “teologia prática” se utilizou desde sempre de aspectos das ciências cognitivas para melhor operacionalizar os conteúdos da fé em confronto com o sujeito crente ou mesmo o descrente. O que restou foi o “núcleo” da Teologia: a “sistemática” ou a “dogmática”. Aí se está efetivamente diante de Teologia. E esta pretende que seja cristã.

6. São admiráveis os esforços para fazer dialogar os conteúdos da fé com os sistemas cognitivos gerais. Cada vez mais um manual de teologia sistemática tem de ser mais extenso para poder operacionalizar em seu interior o conjunto e as interrelações entre os mais diversos âmbitos e facetas dos conhecimentos sobre as “nervuras do real”, o mundo, a realidade, o cosmo. Mas aí é sistema. Como na filosofia. O modus operandi é fundamentalmente o da filosofia grega, com todas as suas nuanças de abstratividade. Na base de tudo permanecem fundamentalmente dois elementos: o sujeito da fé e as “bases escriturísticas”. Mas se as últimas, diga-se a Bíblia, também são expressão da experiência de fé transformada em doutrina, resta somente o sujeito da fé, aquele que passa pela experiência do sagrado. E este sempre haverá de ser plural, por que plurais são as próprias experiências, em concordância com a diversidade com que cada sujeito hermenêutico se põe a se compreender no seu dasein e na sua forma de expressão e relação com o seu entorno. Qual é, então, a base para a descoberta, para a heurística? Não será somente a descoberta da própria experiência?

7. Mas aí, o que se teria descoberto?



HAROLDO REIMER

quarta-feira, 21 de abril de 2010

(2010/326) Das heresias antigas


1. Antigamente era bom ser herege. Não houve heresia antiga que não tenha sido cooptada pela Teologia e pelo "povo de Deus". O que hoje é "ortodoxo", um dia, acredite-se, foi "pagão". Talvez haja, vamos lá, não sejamos tão radicais, alguma coisa que a Teologia ortodoxa tenha inventado do nada - quem sabe, a criação do nada! (não, nem isso!). Todavia, qualquer doutrina que quisermos estudar, ao ponto de investigar sua origem histórica, revelará sua origem "pagã". Até a máxima fundamental do Cristianismo - Deus e amor - é "pagã". É persa, e, antes de ser persa, talvez tenha sido de outro(s) povo(s). Antes de os judeus freqüentarem a Escola Bíblica persa, Deus era tanto amor quanto furor, era tanto bom quanto mau. Mas até os deuses amadurecem... E, de mais a mais, deve ser verdade o que os persas ensinaram, porque até na boca de Jesus essa cataquese esteve presente...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 11 de abril de 2010

(2010/311) História feita à moda teológica


1. Um fragmento póstumo de Nietzsche, recolhido à mesma fonte do post anterior. Uma obra muito boa essa coletânea de Escritos sobre História, de Nietzsche, aristocrata "evolucionista" que o século XX, com seu indisfarçável gosto pré e pós-moderno - tanto faz a direção em que se olhe, dá no mesmo - reduziu a uma fornalha metafórica, um destruidor da história - decerto não se leu Nietzsche, reproduziu-se cacofonicamente alguma balbúrdia pronunciada após uns goles a mais... Bem, mas ei-lo, o fragmento:

2. "Os eruditos alemães e os chamados pensadores alemães, distantes da história real, fizeram da história o seu tema e, como bons teólogos de nascimento, procuraram a comprovação da sua racionalidade. Temo que numa época futura se considere esta contribuição alemã à cultura européia como sendo o seu dote mais miserável: a sua história é falsa!" (p. 243).

3. Todo "ódio" que a Teologia nutrir por Nietzsche é pouco - porque ninguém a denunciou tanto como falsidade do que esse filho de pastor protestante... Esse fragmento póstumo não tem como ser desmentido: ainda se chama "teologia histórica" a reflexão de Oscar Cullmann e de Wolfgang Pannemberg! História? Mas... como assim? Não há nada de "história" ali, salvo raconalização mitológica da provinciana história da salvação que, em si mesma, é platônica, depois, agostiniana, logo, metafísica, ontológica, teológica - mito.

4. O que a Teologia chama de história é a encenação mitoplástica de um enredo mitológico, é uma racionalização - ao "modelo retórico da história - de doutrinas e crenças sistematizadas, é o mundo virado de ponta-cabeça. Não é história isso a que os teólogos chamam de história. História - que, contudo, senhores, nasceu também na Alemanha, porque o método histórico-crítico é filho de protestantes alemães! - é contingência, História é imanência, História é aleatoriedade, História é abertura ao imprevisto e ao imprevisível. O que se chama de história, e se reproduz como telos, é teologia disfarçada. A rigor, é política disfarçada... É, sempre, um clero a fabricá-la, e uma fábrica de catecúmenos a repeti-la... Ou, dito de outro modo:

5. "A maneira gótica de Hegel quando toma o céu de assalto ( - Epigonalidade). Tentativa de introduzir uma espécie de razão na evolução: - eu estou no extremo oposto, vejo inclusive na própria lógica uma espécie de desrazão e de acaso. Esforçamo-nos para compreender como foi na maior desrazão, quer dizer, na ausência de qualquer razão, que se produziu a evolução que leva até o homem" (p. 243).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. se alguém me acusa de ser, portanto, um não-teólogo, dou de ombros. Insisto: sou teólogo. Mas a Teologia não pode ser mais o que era há duzentos anos - e ainda o é. Tanto quanto a Química, apesar de ser filha e neta delas, não pode ser mais Metalurgia iniciática nem Alquimia... Não sou - aí, sim - um teólogo medieval, nem um teólogo pseudo-moderno, nem faço força para brincar de Idade Média. Faço força - sim, faço - para parir-me como teólogo do século XXI. E, se for para ser aqui o que se era lá, desistirei tão rápido que meu nome se apagará da história das tentativas.

(2010/310) Um parágrafo de tirar o fôlego - de Nietzsche


1. "A hostilidade dos alemães contra a Época das Luzes. Que se faça um levantamento das contribuições que os alemães trouxeram com o seu trabalho intelectual para a cultura universal na primeira metade deste século e que se considere em primeiro lugar os filósofos alemães: eles retornaram ao primeiro e mais antigo grau de especulação, pois procuravam a sua satisfação nos onceitos e não nas explicações, tal como os pensadores das épocas senhadoras - eles ressucitaram uma forma pré-científica da filosofia. Em segundo lugar, os historiadores e os românticos alemães: todo o seu esforço tendia a atribuir um lugar de honra aos sentimentos primitivos mais antigos, particularmnte ao cristianismo, à alma popular, às lendas populares, à linguagem popular, ao espírito medieval, à ascese oriental, ao hinduísmo. Em terceiro lugar, os estudiosos da natureza: eles lutaram contra o espírito de Newton e de Voltaite, e tentaram, como Goethe e Schopenhauer, restabelecer a idéia de uma natureza divinizada ou satanizada, com tudo o que isto significa comumente do ponto de vista ético e simbólico. A tendência maior dos alemães se opunha inteiramente ao Iluminismo e à revolução da sociedade que, por um erro grosseiro, passava como sendo a conseqüência daquele. A piedade por tudo o que ainda existia tentava se transformar em piedade por tudo o que tinha existido, simplesmente para que o coração e o espírito recobrassem mais uma vez a sua plenitude, e não mais abrissem qualquer espaço para os fins futuros e inovadores. O culto do sentimento foi erigido no lugar no culto da razão, e os músicos alemães, enquanto artistas do invisível, do onírico, do lendário, do nostálgico, realizaram a construção do novo templo com mais sucesso do que todos os artistas da palavra e do pensamento. Mesmo levando em consideração o fato de que muitas boas coisas fossem ditas, e descobertas no detalhe, e que mais de uma tenha sido julgada desde então com mais eqüidade do que nunca, não permanece menos verdadeiro, quando se considera o todo, que o risco geral não era negligenciável, sob a aparêcia de um conhecimento tal e definitivo do passado, de sujeitar o conhecimento em geral à dominação do sentimento, e - para falar como Kant, que definia assim a sua própria tarefa - "reabrir o caminho para a fé, mostrando para o conhecimento os seus limites". Respiremos novamente um ar livre: o tempo desse perigo passou! E coisa estranha: os espíritos que os alemães evocaram com tanta eloqüência se tornaram exatamente com o tempo os adversários mais perigosos dos desígnios daqueles que o evocaram - a história, a compreensão da origem e da evlução, a simpatia para com o passado, a paixão novamente desperta do sentimento e do conhecimento, depois de parecerem todas por algum tempo, emprestaram seu concurso compassivo ao espírito obscurantista, visionário e retrógrado, envolveram um dia uma natureza diferente, elas voam hoje com asas bem maiores, deixando longe, atrás e acima de si, os seus antigos evocadores, para se tornarem os gênios novos e mais fortes destas "luzes" contra as quais, justamente, se tinha feito a evocação. Estas luzes, devemos hoje fazê-las progredir - sem nos preocupar com o fato de ter havido uma "grande revolução", depois de uma "grande reação" contra esta, nem com o fato de que uma e outra ainda perdurem: elas são apenas um movimento de ondas em comparação com o fluxo verdadeiramente grande no qual "somos levados", e queremos sê-lo" (NIETZSCHE, Friedrich, Escritos sobre a História, Rio: PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2005, p. 209-211).

2. É muito "reconfortante", digamos assim: para a "vaidade intelectual", encontrar num só parágrafo toda uma longa série de postulados históricos com os quais tenho trabalhado há já consideravel tempo, particularmente depois de meu "encontro" com José Carlos Reis, na disciplina de Teoria da História. Esse período - séculos XVIII e XIX (conquanto suas verdadeiras raízes avançam tão fundo quanto a cultura greco-romana, o século das invasões árabes na Península Ibérica e o século XVI alemão, de que tudo o mais é desdobramento "criativo") - define a modernidade ocidental. É aí que tudo que conhecemos hoje como Ocidente está em gestão acelerada, em revolução, em reação - é isso tudo uma grande metáfora de batalhas civilizatórias, de mundos colimados, de políticas, de culturas... A Modernidade é uma invenção ocidental, situada entre uma estrutura pré-moderna planetária e uma reação pós-moderna ocidental. A Modernidade é a Geni da história ocidental contemporânea...

3. O "encontro" entre uma França iluminada e napoleônica, de um lado, com uma Alemanha mística e medieval, de outro, produziu o fenômeno mais extraordinário da cultura Ocidental, se considerarmos os últimos 200 anos: foi justamente aí que conceberam-se as Ciências Humanas, essas, sim, verdadeiras iconoclastas, incontroláveis: a Teologia pôde cooptar para si a "razão" - mas as Humanidades... a essas, só os falsos teólogos e humanistas, híbridos de fraude e desmedida.

4. Se o leitor quiser deliciar-se com uma história ambientada nesse período crítico, no olho do furacão da guerra napoleônica de invasão à Alemanha que, em reação, vai parir o Romantismo, divirta-se com Os Irmãos Grimm. É necessário inglês. As demais partes estão disponívesi no Youtube, e reproduzo aqui, apenas, a primeira.

5. Esse filme encena de modo magnífico, conquanto não seja nem de longe esse o seu objetivo, o enfrentamento histórico das luzes francesas contra a mística alemã. É também sobre isso que fala Nietzsche. Mas ele o diz de modo (para mim) curiosamente novo: a idéia que tenho carregado comigo é a de que o Romantismo foi uma reação programática de anulação dos efeitos políticos da razão napoleônica, que, da mesma forma como "Deus" era usado pelo imperialismo cristão, utilizava-se da "deusa" razão para justificar seu alegado direito, assim vicário, de libertar os povos... Para anular o direito retórico francês, os alemães, que não o podiam vencer nas armas, retiraram de seus depósitos a tese do desvario da razão, a tese do assombro humano como fundamento do "mundo" hermenêutico humano, o estado de solidão e perdição humanos em face do mundo e do Universo, a história, enfim, como cenário único da espécie humana.

6. Já Niezsche considera que tudo isso se resumiu a uma defesa da mística... Talvez tenha sido assim, de fato. Mas o que me interessa é que o próprio Nietzsche reconhece que, no final dessa "reação" romântica contra as luzes, o estado da "mística" (a rigor, da Teologia) resulta pior do que antes, porque, ao passo que a Teologia podia suster-se diante do Iluminismo - a rigor, não houve reação alguma de monta contra o Iluminismo -, o Romantismo, por sua vez, retira toda a base de argumentação metafísica, o homem, aí, torna-se pura contingência inexorável, de modo que, pressentindo, aí, sim, o perigo, as igrejas - todas - reagiram de modo violento: Vaticano I, Karl Barth e The Fundamentals. Sim, os gênios voam, agora, com asas mais fortes, maiores, do que antes.

7. Ainda que a intenção - primeira?, segunda? - de Kant tenha sido "abrir [manter] caminho para a fé", delineando os limites do conhecimento, no final das contas, o que a Crítica da Razão Pura consegue é anular as argumentaões racionais a respeito da metafísica, das doutrinas, da fé - tudo isso cai por terra de uma só vez. A Crítica da Razão Prática sustenta-se, abrindo caminho para a fé, somente onde a Crítica da Razão Pura não é levada a sério. De modo que não importa tanto para quem Kant prestava serviços - seus serviços, a médio prazo, tornaram a Alemanha cada vez menos "atual".

8. Não é revelador que a Teologia se faça, ai, como se fora ciência, quando não passa de mito e metafísica? Não há racionalidade na Teologia - ela, lamentavelmente, cnostitui-se um bolsão reacionário de racionalização: para o constatar, leiam-se quaisquer das obras magnas dos sistemáticos da moda. O que da Teologia tornou-se verdadeiramente ciência, a exegese, ainda sequer tornou-se fundamento das "ciências teológicas", todas, sem exceção, agarradas à Nicéia (cada uma a seu modo, naturalmente). O Ocidente vive dividido em dois mundos, ainda - o político-teológico, medieval e obscurantista, e o científico-humanista, perdido, ainda, por falta de verdadeira adesão civilizatória: as "máquinas" são científico-humanistas, mas seus operadores, medievais.

9. Perfeito o parágrafo de Nietzsche. Eu o poderia ter usado em Teologia no Divã, se o conhecesse à época... Mas não é tarde...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 9 de abril de 2010

(2010/305) De mentiras verdadeiras e mentiras falsas


1. O maior império de todos os tempos teve de mentir para invadir o Iraque. Mentiu e invadiu. Isso é significativo, porque, se o maior império de todos os tempos precisou mentir, é porque, afinal, era preciso aparar as arestas... Ora, o maior império de todos os tempos, que razões tinha para aparar arestas, se não o fato de que, afinal, ou "ainda" ou "de fato" depende da "opinião pública"? Quando não se pode responder com a simples declaração - "eu o fiz porque posso fazer, e pronto", eventualmente não se tem, de fato, todo o poder que se cogita ter. O forte faz... porque pode.

2. A questão, contudo, que quero levantar é: a razão da mentira - qual foi? Mentiu-se, porque o capitalismo, ou melhor, a ganância desmedida dos capitalistas, é canalha e pronto, ou mentiu-se porque, afinal, o espírito de Bush é, afinal, "religioso"? Se a segunda resposta define, de algum modo, a questão - faço uma segunda pergunta: Bush, religioso, precisa mentir para si mesmo, ou, afinal, mente para os religiosos que lhe dão sustentação política? É, afinal, uma mentira verdadeira, ou uma mentira falsa? A Teologia, afinal, é uma mentira verdadeira ou uma mentira falsa?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 3 de abril de 2010

(2010/289) Uma cooptação teológica de Kant


1. A Crítica da Razão Pura, de Kant, é um espinho na carne da Teologia. Em resumo, ela conclui que a razão humana não dispõe de qualquer tipo de mecanismo, processo ou operação que dê conta de qualquer coisa que não seja exclusivamente humana e histórica - logo, a razão humana está aparelhada para lidar, apenas, com a apreensão humana do que é histórico. Isso Kant tem em comum com o Romantismo - o sentido do "assombro" humano diante do Universo, e o sentido da redução do homem à "história". Nesse sentido, Kant poderia até ser considerado um dos "fundadores" do Romantismo.

2. Se - e somente se - Kant, esse Kant da Crítica da Razão Pura - for levado a sério, cai por terra, de imediato, toda e qualquer pretensão teológica de acesso à realidade não-histórica, logo, metafísica. Não há negociações possíveis. É justamente depois desse Kant que se fazem possíveis as figuras titânicas de Feuerbach, Marx, Nietzsche, Dilthey, Heidegger, Sartre - ao passo que os "grandes teólogos" fizeram somente esforço de contenção da massa crítica kantiana, com sucesso, eu diria. E a questão é muito simples: se tudo o que o homem viu e vê, disse e diz, fez e faz, tudo isso se produz na história, sob condições históricas, e é, conseqüentemente, histórico, o que foi, na verdade, tudo isso? Bem, a resposta é inequívoca: tudo isso foi e é humano, demasiadamente humano, histórico, demasiadamente histórico, inapelamente humano e histórico.

3. Parte do Ocidente levou isso a sério. Parte, não. A parte que não levou - nem leva - isso a sério, argumentou da seguinte forma: é verdade, o homem não pode, sob nenhum circunstância, chegar a sair do mundo histórico, ir até "Deus"... Mas, "Deus" pode vir até o homem! Eis, por exemplo, o argumento de Barth. O que é um argumento de dupla caracterização. De um lado, não explica, nem vai, nem quer explicar, como, se o homem não sabe nada sobre o que não for histórico e humano, pode ele saber que "Deus" veio? Ora, quem lhe dissesse algo assim estaria fazendo uma afirmação de condição histórica, não-metafísica, tratada no campo da crença e do mito. No entanto, o argumento barthiano, de resto, o mesmo que ainda freqüenta as cátedras das mais nobres unviersidades de Teologia do planeta, apropria-se da declaração de Kant para interditar a Kant uma interdição da teologia... De outro lado, é um argumento que se apropria apenas parcialmente, apenas corporativamente, apenas politicamente, da reflexão kantiana: é apologia programática.

Digressão: a seu modo, Luís H. Dreher assim descreveu o fenômeo barthiano que, a meu modo, acabo de descrever: "um crítico (de Schleiermacher) já bem tardio como Karl Barth também parece ter em geral aceito a validade do paradigma kantiano, muito embora buscasse resgatar um cnteúodo de 'conhecimento' para a fé baseando-se na revelação como uma grandeza objetiva e dada" (Luís H. Dreher, O Método Teológico de Friedrich Schleiermacher. São Leopoldo: Sinodal, 1995, p. 19). Dreher foi acintosamente elegante com Barth. Disse o mesmo que eu, mas preservou-lhe um pouco de dignidade. No campo estrito do enfrentamento da questão kantiana, lamento, mas não posso acompanhar o gesto elegante de meu colega, porque o gesto oculta mais do que preserva.
4. A teologia espera, ansiosa, que passe logo o séclo XIX, que ele seja esquecido, que ele seja soterrado. Ela só não queima todos os livros em praça pública, porque a sociedade republicana estabeleceu agumas regras sociais. Não fora isso, não se duvide - o século XIX, desde Kant, seria varrido da memória planetária. E, como o século XIX é uma conseqüência única e exclusiva das reflexões protestantes, iniciadas no século XVI, e uma vez que o restante do planeta está alienado dessas questões - África e Ásia sequer passaram por essa região topográfica da cultura ocidental - seria muito conveniente para a teologia que o medievalismo, com todos os seus rasgos de obscurantismo, emergisse das profundezas, para onde foi lançado desde finais do século XVIII. Mas, acreditem, a guerra de religião estaria às portas - como está. As Cruzadas, mas, dessa vez, quem sabe?, ao inverso, ameaçam o planeta... de novo... O que se aprendeu? Nada. A religião ainda vive na Idade Média, e os teólogos gosta disso! É de sangue que a teologia vive... Mesmo agora, quando fala de paz e diálogo, não rasga as condições que o impedem.

5. Observe de perto as faces da teologia, enquanto ela lê essas linhas, enquanto ela preseente essa possibilidade: ela tem os olhos arregalados, as pupilas, dilatadas, o coração em taquicardia, o córtex, em êxtase. Ela morre de desejo. A teologia é uma alma medieval num corpo moderno, num odiado corpo moderno. Como no mito platônico, essa alma está presa, e sofre, e, se puder, mortifica o corpo, para voltar para o platônico e celeste mundo das Idéias... A isso os bons teólogos convencionaram chamar espiritualidade...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 2 de abril de 2010

(2010/285) O Muro de Berlim da Teologia


1. No final de seu O Método Teológico de Friedrich Schleiermacher, Luís H. Dreher afirma o seguinte: "mas nisso tudo, o que ainda não ficou exatamente claro na teologia latino-americana (assim como em geral na teologia liberal) é como o apelo à experiência se articula com um quadro de referência filosófico substantivo que busque dar um sentido mais do que povinciano ou particularista às experiências contextuais da fé cristã" (p. 78). Quero comentar essa declaração.

2. Acompanho Dreher quando ele faz de Scheleiermacher o pai da teologia experiencial como fundamento da possibilidade de uma teologia moderna - nisso, agora o digo eu, todo evangélico é, retoricamente, liberal. A modernidade, iluminista-romântica, não pode, mais, recorrer aos argumentos metafísicos, de modo que precisa de um fundamento que lhe assegure, porque quer e disso precisa, a sustentação dos sistemas de crença protestantes. Um catolicismo prescinde desse arrazoado. O protestantismo, não. E foi o protestantismo que, em "diálogo" com a modernidade, produziu a teologia liberal. Nesse sentido, a teologia liberal é, de um lado, a "coragem" de enfrentar, no campo dela, a modernidade, ao mesmo tempo que é, ainda, a "covardia" de não assumir as suas últimas conseqüências. Todo o espectro teológico, para além da teologia liberal, reduz-se à negação da moderidade, e constitui-se do anacronismo cultural de um discurso, de um sistema, de uma prática medieval, dita "ortodoxa". Por sua vez, a própria teologia liberal não é moderna, em sentido estrito, mas acomodou-se num canto do cômodo da cultura, encontrando aí um cobertor que lhe cobrisse ao menos, os pés.

3. A "covardia" liberal é, eu diria, a resistência sistemática: a necessidade de fundamentação do sistema herdado, seja no campo da legitimação da experiência, seja no campo da legitimação do núcleo "histórico" do cristianismo - o Jesus histórico. Scheleirmacher é um precursor de Vattimo, em certo sentido, conquanto um esteja com o pé dentro da Teologia, e negocie com a cultura moderna, enquanto o outro tenha o pé na cultura moderna, e negocie com a cultura cristã. Entre Scheleirmacher e Vattimo, posta-se Bonhoeffer, lamentavelmente morto antes de concluir seu arrazoado acerca de um "cristianismo a-religioso para um homem em estado adulto".

4. Dreher está certo ao assinalar que tanto a telogia latino-americana, quanto a teologia liberal são, a rigor, provincianas. Os argumentos "bíblicos" da Telogia da Libertação, por exemplo, constituem-se inúmeras vezes - deixo um espaço para as exceções, a serem, contudo, identificadas - de "ética estética" (sim, eu sei que isso não existe, mas é um outro modo de referir-me à alegoria como produção de retórica de justiça), nada mais do que isso. De outro lado, a fundamentação da fé por meio da experiência constitui uma tautologia de risco, que justificaria, por exemplo, qualquer prática cultural. Aliás, é o risco de uma Antropologia do tipo geertziana - se não se chegar ao intuito de Karl-Otto Apel de uma base comum para a racionalidade moderna, dissolve-se na mão do homem qualquer possibilidade de juízo sobre nada que não lhe seja pessoal.

5. Depois do confronto entre a teologia liberal e a teologia dialética, duas longas estradas se descortinaram, mas nenhma delas pisa, de fato, o chão da modernidade. A teologia dialética, toda ela, de Barth e Brunner aos mais renomados sistemáticos alemães vivos, constituem um re-encontro da ortodoxia e do pietismo protestantes, medievais, portanto, em todos os aspectos. A teologia dessa estrada materializa-se na forma de um hercúleo esforço de contenção da modernidade, amarras de aço a impedir o "avanço" da plataforma crítica. Na outra rodovia, a teologia liberal negociou sua possibilidade retórica, sem dar-se conta, e nem queria, de que a honestidade possível constituiria a teologia, assim construída, em estética, e nada mais.

6. A demonstração inequívoca de que a teologia moderna, seja a ortodoxa, seja a liberal, está absolutamente perdida e enfronhada em si mesma, provincianamente, é o fato gravíssimo de que nenhum discurso teológico acadêmico contemporâneo - exceto se deixei escapar alguma coisa - menciona nem a teologia umbandista, da Faculdade de Teologia Umbandista (MEC), nem a teologia kardecista, da Faculdade Doutor Leocádio José Correia (MEC) e nem a teologia messiânica, da Faculdade Messiânica (MEC). A teologia, ortodoxa ou liberal, finge que não vê que seu discurso está one, mas muito longe, de representar qualquer coisa de segura no chão da modernidade. Avestruz de cabeça enterrada no chão, torce para a superação da modernidade, e, nisso alia-se até à pós-modernidade, diabo que considera menos perigoso, prática comum das estratégias políticas, a Alemanha o sabe.

7. Eis um fato relevante: na Europa, porque a Teologia estava o tempo todo na Universidade, essa condição provinciana, absurda, manteve-se, tolerou-se, e a despito de o rei andar com as vergonhas ao vento, ninguém lhe aponta a nudez. Uma extensão dessa situação reveladora e constrangedora é a Teologia de Pós-Graduação no Brasil, que meramente transportou da Europa o modelo insular, isolacionista, em que a Telogia se constitui - por mera tradição e acesso a recursos financeiros. Aí, a teologia produz até sua própria... Antropologia (?)... Quando, contudo, o MEC, no nível de gradução, onde nunca esteve a Teologia, abre as portas, o provincianismo esdrúxulo da teologia se escancara de tal modo que a primeira reação é a perplexidade do silêncio absoluto: ninguém toca no assunto, e a situação trágico-cômica da teologia se recalca, como a criança que põe a mão na cara, para esconder-se do bicho-papão. A arma contra a reação legítima das ciências é a pressão política, as comissões de notáveis...

8. A Teologia encontra-se numa situação imprestável. Atende aos domésticos, mas somente se opera no nível da catequese, e mais nada. Se se faz educação crítica doméstica, torna-se desgraçada aos olhos da fé. Já em relação aos estranhos, não tem o que dizer, porque constitui-se como voz bárbara. No gueto eclesiástico, ela há de sobreviver por algum tempo, ainda. Mas, nos salões da academia, não vai durar muito. E das duas uma, ou vai sair, cheia de orgulho e senhora de si, arrotando o "deus na bariga", ou vai sentar, delicadamente à mesa, e, pela primeira vez na história, discutir com seriedade sua condição. Até aqui, só o que se tentou fazer foi manter suas propriedades... E é justamente esse meu temor: que aconteça em terras brasileiras a mesma negociação tácita que já dura duzentos anos na Europa.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2010/279) Liberais e idólatras


1. Ah, não fosse trágico, seria divertidíssimo. Não fosse dramático, eu combraria entrada, digamos, uns R$ 50,00, para o mundo assistir a essa pantomima circence: uma extraordinariamente grande massa de liberais e idólatras, acusando a Deus e o mundo de... liberalismo e idolatria...

2. Explico. Quanto ao "liberalismo" - nesse caso, o "liberalismo" teológico, porque o liberalismo teológico não tem nada a ver com o liberalismo filosófico, muito menos com o liberalismo político. Uma das pernas do liberalismo teológico - um Schleiermacher, por exemplo, dissolvido em água com açúcar - é a noção consciente de que as argumentações metafísicas não sustentam mais a Teologia, logo, a fé. Assim, é necessário constituir outro fundamento, outra garantia, para a crença. E ei-la: a experiência. Dissolvido em água com açúcar, esse princípio "liberal" da Teologia européia do século XIX foi transportado por bacilos teológico-catequéticos para a América, extraída de seu contexto crítico-filosófico (Iluminismo e Romantismo), e aplicada na veia das massas, algumas vezes por enfermeiros absolutamente ignorantes, outras vezes, por hábeis estrategistas... Resultado: a massa evangélica, a esmagadora massa evangélica, é, inteiramente, liberal, a começar pelos seus campeões contra-liberais, teólogos de ponta da apologia da Norma...

3. A cada domingo, a cada culto, "experimentam" Deus, sentem-lhe nas carnes, na alma, choram... Cuidam que isso seja "místico", que isso seja "fé" - e, em parte o é - mas, na condião de "garantia" da fé, ah, isso é plenipotencialmente liberal. De modo que um evangélico típico, que nunca leu Schleiermacher, e provavelmente morrerá sem o fazer, acorda liberal, almoça liberal e dorme liberal. E, entre uma coisa e outra, morre de medo de liberais, e os queima em fogueiras, e lhes põe o dedo à cara... Não seria divertido, não fosse trágico?

4. Quanto à idolatria. Paul Tillich escreveu num livrinho que qualquer um lê entre a Páscoa e o jogo do Flamengo, que "Deus é símbolo para Deus", estabelecendo, ainda, aí, a clássica posição metafísica, mas resguardando - serafim da ontologia! - a inacessibilidade ontológica de Deus por meio da distinção entre Deus-enquanto-Deus-mesmo e "Deus"-enquanto-eu-o-concebo, posição clássica do protestantismo esclarecido, alguma coisa entre "tá, eu sei que não, mas, vá lá, que seja". Para Tillich, então, a minha crença em Deus - isto é, "Deus", na forma de minha doutrina, de minha fé, é simbólica, representativa, mediada. "Deus" - o da fé - não é Deus - o verdadeiro. O Deus da fé é simbolo do Deus verdadeiro.

5. Na seqüência, ele assevera: toda fé que trata seus símbolos literalmente, é idolatria. Está lá, no Dinâmica da Fé. Ora, se a fé que trata seus símbolos literalmente é idólatra, eu tropeço em idólatras a cada passo, quando esbarro com evangélicos clássicos. Sim, porque, para a massa evangélica, Deus é tal qual ela, a massa, e tal qual cada um deles, evangélicos, crê que é, porque a sua crença é conhecimento. Acusa-se o católico de idólatra, mas, na prática, que diferença há entre um "ídolo" de gesso e um "ídolo" de pensamento? No final das contas, ambos constroem para si ídolos. Só o material de que seus respectivos ídolos são construídos é que muda... Não se trata, aqui, de condenar a idolatria, mas de assinalar que o evangélico que a acusa no outro é o mais idólatra de todos.

6. Assim, vou-me divertindo. Aí, quando paro de rir, fico triste, porque percebo que cem anos de Evangelho no Brasil produziram pouca libertação - se produziram alguma. Se não aprendemos a pensar, não aprendemos a nos libertar. E vamos caminhando, agrilhoados, equanto cantamos uma liberdade que, a rigor, é tão real quando a nossa sanidade.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2010/278) Fazer Teologia no olho do furacão


1. O meu amigo e colega Delambre acha que fugirá, depois da provocação que em fez numa das reuniões com o Senhor Diretor, na Capela, na segunda-feira, aquela, a inesquecível. Eu ouvi caladinho, fiz as contas, e achei melhor não responder. Mas, à saída, lhe avisei, em tom mefistofélico e vingativo! - me aguarde...

2. Aproveito que Delambre está recolhidíssimo às preces da Semana Santa, para o pegar com vãos desprotegidos na armadura da retórica. Disparo minha flecha. Mas se trata de uma flecha avisada...

3. Eu dizia, na reunião, sobre um dos meus mais queridos princípios, o meu preferido dentre os Princípios Batistas, que me surpreendi de encontrar, anos atrás, estudando-os com Luís Roberto, professor de Metodolodia Teológica em Nova Iguaçu, então campus do Seminário, onde ainda leciono, por gosto e amor àquelas cadeiras velhas de sala de igreja. Ele, aquele queridíssimo princípio, diz o seguinte sobre as decisões democráticas que uma igreja batista toma: "nem a maioria, nem a minoria, tampouco a unanimidade reflete necessariamente a vontade divina" (se achar surpresa de que os Princípios Batistas digam algo assim tão "liberal" (no sentido filosófico inglês), primeiro, sinta-se ruborizado de não conhecer esse documento batista, e, em seguida, vá conhecê-lo, quem sabe?, aqui.

4. Com base nesse princípio, liberto-me. O risco de apontar, idolatricamente, a vontade de Deus, fugiu da minha alma. Nada que humano seja pode, sob nenhum critério, arvorar-se em convicções sobre sua posição topográfica em face da vontade de Deus. Pode-se querer estar aí. Saber se é o caso, não. Ao menos é o que reza o princípio. Com esse, concordo. Eventualmente está errado. Então, estou errado. É o risco de ser hmano - corre-se sempre o risco de estar-se errado.

5. Falávamos, naquela ocasião, da situação do Seminário. Pronunciei-me no sentido, não explicitado, de prevenir-nos ali reunidos de um jogo de domínios e certezas quanto à vontade de Deus. Estava armada a cilada terrível do "nós" e "eles", nós, professores, alunos, Coordenação, e eles, Diretores da CBB, membros do Conselho. Isso é uma tragédia. Pior, somos religiosos. Os religiosos - todos - são useiros e vezeiros em arvorarem-se na condição de porta-vozes de Deus. Nós, cá, a protestar ser donos do centro da vontade de Deus. Eles, lá, idem. A vontade de Deus - a verborragia desse discurso - é a peteca que salta de palma em palma, até perder todas as penas. E eu adverti a todos a esse respeito - cuidado: não sabemos nunca qual seja a vontade de Deus. Não se dê que sejamos flagrados lutando contra ela. Não é que não se lute - é que se lute na consciência da possibilidade do erro...

6. No que meu amigo e colega desembainhou sua espada e me pôs contra a parede fria, a lage mórbida de meu, ele disse, "racionalismo". Dizendo usar meu racionalismo - e, se o usasse, não continuaria sua prédica, posto que não há racionalidade que dê conta dos arrazoados desenvolvidos - afirmou que se pode sim, certificar-se da vontade de Deus, bastando para isso que se assegure de fazer o bem às pessoas, e de não ferir ninguém. Assim, uma vez que "nós" estamos empenhados em fazer o bem, e "nós" não estamos ferindo ninguém, uma vez que "nós" estamos lutando pela verdade, pela justiça, então "nós" estamos no centro da vontade de Deus, e, assim, podemos estar seguros dela.

7. É, de fato, uma excelente "racionalização" - mas não racionalidade - teológica. Faz sentido. Se Deus é amor, faz sentido que quem faça o bem esteja no centro de sua vontade... Hum... Mas pressinto um problema: quem disse que querer fazer o bem é, necessariamente, fazer o bem? É bem paulina a advertência-confissão: o bem que quero, não faço, mas faço o mal, que não quero. Minha vó dizia o mesmo, de modo mais mineiro, teóloga que foi, sem saber: o inferno está cheio de boas intenções.

8. Meu amigo Delambre encostou-me o florete ao peito, e eu me dei por vencido, porque o contexto prescindia de querelas teológicas - conquanto, eu sei, todos sabem, ali, naquele momento, aquela era uma querela política, como soem ser todas as querelas teológicas... Contudo, arrisco dizer:

a) não, nem a justiça, nem o fazer o bem, nada, absolutamente nada, é critério para saber-se a vontade de Deus. Justiça, ética, moral, tudo isso são coisas muito humanas, absolutamente humanas, inexoravelmente humanas. Podemos fazer de conta que o que é ético é divino, acho até que seja um bom modo de controlarem-se as massas, mas, cá entre nós, para homens adultos e mulheres crescidas, a ética é convenção humana, e um Deus ético é um brinquedo político humano. Brinquedo esse, aliás, que os judeus do século V a.C. inventaram, porque acharam por bem crer em persas que lhes diziam que Deus não pode fazer o mal e o bem, só o bem, de modo que proibiram, desde então, que Deus fizesse o mal, inventando uma teodicéia de cabresto. Que não vou dizer que é ruim, não, pelo contrário, mas que é o que é: invenção humana.

b) nenhuma ação minha, por mais que bem intencionada, garante o seu intento de ser boa. O direito brasileiro, enamorado do direito alemão, distingue entre culpa e dolo. Se eu atropelo Maria, e lhe arranco as pernas, sem querer, 5 anos de cadeia, de propósio, 30. Mas Maria está sem as pernas, do mesmo jeito. E eu pegara o carro pra levar minha avó à clinica oncológica... Afirmarmos que nós, e não eles, estamos a fazer o bem, além de ser arriscado, é presunçoso, presunção de nossa bondade, presunção da maldade alheia. Não nos cabe nem uma nem outra coisa. Foi esse o perigo da Teologia da Libertação, de cuidar que os pobres são os eleitos - quando há pobres canalhas, e que os ricos são os demônios - quando há riqueza nos céus. Eu não tenho a certeza de que o que eu quero é o melhor para todos. Cuido que sim, mas usar um critério tão frágil para assegurar-me de outra ainda mais fugidia, é construir uma Teologia de abismo, sustentada por coisa alguma que não meu voluntarismo quixotesco.

9. Termino com uma contradição da (minha) teologia - a justiça (as obras) é o critério fundamental da convivência humana, a igualdade, a liberdade, a fraternidade, temas da República ocidental. Mas a justiça pode se tornar idolatria, quando ela se assume como fundamento. Ainda sob a justiça, sustentando-a, há que haver o sentido da graça, graça da qual se depende, e graça com a qual se pratica a justiça. A justiça não nos põe no centro de coisa alguma, senão no centro de nossa própria decisão livre de experimentar a graça de ser livre. Conquanto a graça, sozinha, seja escárnio, se não se faz acompanhar da justiça, a justiça só o é em face da graça, da graça de abrir-se ao outro, de fugir da condição meramente animal.

10. Diante de Deus, em qualquer circunstância, sob qualquer ótica, mesmo na sua condição de mito, só cabe - é minha teologia - uma atitude: silêncio. Radical e inapelável silêncio. Até o louvor beira o pecado. Apelar para Deus, em qualquer circunstância que não a poesia, é pecar contra a graça.

11. Mas, meu amigo Delambre, meu companheiro de cátedra, meu colega: este homem que sou pode estar carregado de erros - e talvez seja esse arrazoado mais um deles, se não já a sua coroa...

Aberto à trélica, irmanalmente,


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. originalmente postado, em 01/04/2010, em http://www.coordinatum.blogspot.com/.
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