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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

(2010/634) Homologado PARECER CNE/CES 051/2010


1. O PARECER CNE/CES 051/2010 consiste em "Reexame do Parecer CNE/CES nº 118/2009, que trata de orientações para instrução dos processos referentes ao credenciamento de novas Instituições de Educação Superior e de credenciamento institucional que apresentem cursos de Teologia, bacharelado". Foi aprovado pela Câmara de Ensino Superior em 09/03/2010 e homologado pelo Sr. Ministro da Educação por meio de despacho publicado no D.O.U. de 24/9/2010. Alea jacta est!

2. O leitor interessado em Teologia no MEC, deve ler o Parecer. Há uma longa história por trás dele, e, se comparado o Parecer 051/2010 com o Parecer 118/2009, que ele reexamina, apesar de pouca alteração ter sido feita no seu teor propriamente "técnico", reservo-me o direito e o risco de dizer que ele revela cansaço por porte da relatora.

3. Não vou comentar a Introdução do Relatório. Li-o atentamente, e se lido, há de se perceber que pesos pesados da institucionaidade teológica nacional jogaram o jogo da pressão política, logrando êxito no reexame do Parecer 118/2009, que resultou no Parecer 051/2010, ora homologado. Não posso dizer que a "pressão política" não seja legítima e democrática - se é que ela atende aos interesses do "povo" (eu duvido). Não posso, todavia, conter o comentário irônico a respeito de certo argumento usado para justificar a necessidade de reexame do Parecer 118/2009, e transcrevo: "O documento assinala a necessidade de distinguir os métodos de estudo da Teologia daqueles das Ciências da Religião, afirma a diversidade das Teologias, o seu caráter confessional e atribui ao texto do Parecer CNE/CES nº 118/2009 o caráter de um racionalismo positivista moderno e características cristãs que excluiriam teologias de outras vertentes". Admito que o que se lê em "afirma a diversidade das Teologias, o seu caráter confessional e atribui ao texto do Parecer CNE/CES nº 118/2009 o caráter de um racionalismo positivista moderno" deva corresponder ao que de fato se quis dizer - a defesa da confessionalidade é gritante, e a crítica ao "caráter de um racionalismo positivista moderno" do Parecer 118/2009 tem surgido em arraiais preocupadíssimos e comprometidíssimos com a prufundidade acadêmica do estudo teológico... Todavia, tenho severas dúvidas se o que se lê no trecho "atribui ao texto do Parecer CNE/CES nº 118/2009 (...) características cristãs que excluiriam teologias de outras vertentes" seja exatamente o que se quis dizer. Simples assim: a Teologia confessional e institucional - da Graduação ao Doutorado - é proselitista e conquistadora, de modo que está muito pouco interessada na defesa de outras vertentes teológicas. Teólogos há que temem seus superiores! Se a Teologia confessional e institucional pudesse calar todas as outras "teologias", calaria, e, de qualquer forma, esforça-se herculeamente para as vencer pela catequese, e, não tenham dúvida disso, continuará a fazê-lo no MEC. Definitivamente, apostaria num grau de sumo cansaço da Relatora, ao se ver obrigada a lidar com esse tipo de pressão "democrática" - se não sou mais ingênuo do que me considero, é verdade, porque, à distância, é sempre difícil saber.

4. Todavia, sejamos otimistas. Obviamente, estejam todos certíssimos disso, que as instituições confessionais descuidarão de todos os aspectos de abertura do texto, e se concentrarão exclusivamnte nas concessões confessionais que o Parecer faculta. Não duvidem. A Teologia resume-se a isso, e a pouco mais do que isso, ela, essa velha senhora barroca. Enquanto a critico, eu, teólogo, farei exatamente o contrário - procurarei no Parecer aqueles elementos que exigem de mim o necessário desprendimento para atender a essa orientação: "Espera-se que os cursos de graduação em Teologia, bacharelado, formem teólogos críticos e reflexivos, capazes de compreender a dinâmica do fato religioso que perpassa a vida humana em suas várias dimensões". Senhora Relatora, esteja certa, certíssima, que tem aqui um cumpridor ávido desse valor.

5. Passo, pois, a tecer considerações sobre aspectos alvissareiros do Parecer, confessando que me interessa tão somente a sua abertura republicana e laica, própria do Estado Democrático de Direito - e isso enquanto teólogo "de cabo a rabo" que sou.

5.1 "É importante, portanto, que os cursos de graduação em Teologia, bacharelado, no País garantam o acesso à diversidade e à complexidade das teologias nas diferentes culturas e permitam analisá-las à luz dos diferentes momentos históricos e contextos em que se desenvolvem" - ou seja, a Teologia deve ser abordada histórica e criticamente, compreendendo-se como construção da cultura humana e apenas compreensível sob essa chave.

5.2 "Devem, ainda, garantir uma ampla formação científica e metodológica, por meio da flexibilidade curricular na área do conhecimento e interação com as áreas afins" - transdisciplinaridade, embasamento teórico-metodológico, interação curricular, exatamente o oposto de uma Teologia sob encomenda e controle dogmáticos, travada pela doutrina coercitiva denominacional, acrítica, política, caracterizada pelo anacronismo metafísico e pelo viés teocrático, digo, hierocrático de cátedra.

5.3 "Por essa razão, o estudo das teologias, dentro da área de Ciências Humanas conforme classificação CAPES/CNPq, não pode prescindir de conhecimentos das Ciências Humanas e Sociais, da Filosofia, da História, da Antropologia, da Sociologia, da Psicologia e da Biologia, entre outras. O estudo da Teologia deve, ainda, buscar diálogo com outras áreas científicas, possibilitando estudos interdisciplinares". Esse é meu sonho - uma Teologia que - de verdade - dialogue, conseqüente e criticamente - com as Ciências Humanas. Ela terá de nascer, caríssima Relatora, porque ainda não se viu algo assim. Uma das Instituições citadas no Parecer como preocupadíssimas com o risco que o Parecer 118/2009 implicava para vertentes não-cristãs da Teologia opera, vejam vocês, ainda, sob o regime medieval da "heresia", assim classificando, e disso tirando conseqüencias legais, profissionais e jurídicas, pensamentos destoantes do seu, posto que por sua vez elaborados em diálogo com as Ciências Humanas, isto é, justamente no espírito do Parecer homologado... Pois então: no papel tudo cabe, mas às mesas deliberativas, ali se exerce a real "liberalidade republicana"... Todavia, continuo acreditando exatamente nisso - e só nisso: no MEC, só há lugar para uma Teologia crítica, aberta, científico-humanista, histórica, laica, que se pode criticar, desmontar, remontar, virar do avesso, refazer, onde a autoridade e o dogma não contam, salvo como História da Teologia e História da Igreja... O cinismo ainda impera - mas, decerto, é vício milenar, difícil de deixar por força de um credenciamento repubicano...

6. Por ora, fico por aqui. Comentarei os "eixos" numa próxima oportunidade. Concluo registrando que acredito na Teologia no MEC. Meu azedume é devido à impaciência que me devora, impaciência com os homens, com os teólogos de ontem - desespera-me que desvivam tanto a fé que cuidam defender... Com o Parecer, contudo, no fundo estamos diante de um avanço. Naturalmente que a Teologia não é (ainda?) nada disso que o Parecer deseja que ela seja - todavia, devo me lembrar que ela entrou na sala de aula pela janela, sem discussão nem nada, invadindo o espaço republicano enquanto ainda cria em diabos e anjos, assim permanecendo - e digamos assim, as pessoas podem crer nisso, a Teologia, não -, de modo que devo dar tempo a ela para que se transforme. Talvez isso signifique dar tempo a ela para que enterre seus mortos, com o que eu quero dizer que há muita gente na Teologia que sob nenhuma circunstância se abrirá para uma Teologia científico-humanista, de modo que teremos de esperar que se vão, para que possamos efetivamente caminhar em paz. Enquanto isso, todos os Brancaleones da Teologia crítica - quero dizer, acadêmica, laica, que lida com seriedade e gosto com o princípio de exclusão do transcendente no exercício teológico, histórica, pós-metafísica, pós-confessional, heurística, fenomenológica - vamos, humildemente, mas perserverantemente, e não sem risco!, tentando construir um espaço onde esse Parecer floresça. É o meu desejo e compromisso.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 2 de junho de 2010

(2010/403) E o que tem a dizer-nos a Teologia?


1. "Durante muito tempo a teologia queixou-se do paradigma científico que não lhe reconhecia cientificidade e a relegava a um plano secundário, não lhe reconhecendo o direito a um discurso científico de conhecimento humano. Tal realidade imperou durante muito tempo e em diversos lugares, sendo que a teologia só podia falar para seus 'adeptos', pois seu discurso não era ouvido fora de seus muros. O reconhecimento oficial dos títulos e dos cursos de teologia significa que a sociedade, por meio de seu governo, reconhece à teologia amplo direito de cidadania, incluindo seu direito, talvez dever, de pronunciar um discurso que será ouvido pela sociedade, porque responsável, científico e autor de cultura e conhecimento" (Antonio Manzatto, A Teologia na Universidade - Perspectivas, Revista de Cultura Teológica, n, 69, 2010, p. 69).

2. A declaração consta do artigo citado. Originalmente, contudo, constou da "conferência (...) realizada no dia 29 de outubro de 2009, na celebração dos 60 anos da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo", a Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção. Agora, faz-se divulgar, na forma de artigo, guardada ainda, conforme nota lavrada na p. 63, na forma original da conferência. Digo-o, para que se reconheça tanto o contexto original da citação, quanto seu estado ainda preservado de "conferência".

3. E avanço. "O reconhecimento oficial dos (...) cursos de teologia significa que a sociedade (...) reconhece à teologia amplo direito de cidadania, incluindo seu (...) dever (...) de pronunciar um discurso que será ouvido pela sociedade, porque responsável, científico e autor de cultura e conhecimento". Alvíssaras! Oxalá! Não sei se é verdade que a sociedade esteja, de fato, interessado em ouvir qualquer discurso da Teologia. Mas confesso que, se estiver, e, dado que a Teologia está na Universidade, nada diferente se poderia esperar a não ser isso: um discurso científico e culto. O "alvíssaras" vai pela torcida quanto a uma possível consciência - finalmente! - disso. Não sei. O "oxalá" vai, justamente, por meu ceticismo. Sinceramente, não sei mesmo se a Teologia - e eu falo dos teólogos, claro, porque Teologia não há, o que há são teólogos - está mesmo interessada em discurso - de verdade - científico.

4. O próprio artigo, mais à frente, reconhecerá que a cientificidade da Teologia é uma cientificidade própria - "o trabalho teológico deve ser feito com rigor científico. A teologia não é simples enunciado da fé (...). Ainda que sua cientificidade lhe seja própria, deve ser respeitada por ela mesma, pois tal rigor lhe é exigido por seu próprio estatuto científico" (p. 70). Eu fico cá a pensar sobre o que quer dizer isso: uma cientificidade própria da Teologia... Ela não é uma das Ciências da Religião, logo, necessariamente, uma das Ciências Humanas? Se é, então não tem cientificidade própria. Se não é, não é científica. Assim, dizer que a Teologia tem estatuto científico pode ser a mesma coisa que afirmar que a Astrologia faz sentido. Faz. Claro que faz. A Teologia também. Se há inferno. Se há pecado. Se Deus é juiz - conquanto ame! Se Jesus é o único salvador... então faz sentido a Teologia... cristã. Mas se todos os ses que usei não passam de especulação metafísica, acabou-se o estatuto científico da Teologia.

5. Assim, voltamos ao início de minhas questões desde há algum tempo levantadas: a Teologia quer mesmo tornar-se ciência? Manzatto o deseja? Ou, no fundo, o que a Teologia quer é que seja reconhecida pelas Ciências a sua, digamos, peculiaridade "científica", a sua delicada idiossincrasia, qual seja: a fonte de suas verdades é a Revelação, as Escrituras, a Igreja? Justo! Legítimo! De Direito. De republicaníssimo direito - inalienável, até! Mas "científico"?

6. Por outro lado, esse parágrafo cairia como uma luva sobre os indicativos - todos - do Parecer CNE/CES n. 118/2009 - uma Teologia que parta de critérios e princípios acadêmico-críticos, científicos. E, no entanto, a Teologia "geme sob o peso da mão do Estado"... Ah, como dói o Parecer... E justamente por quê? Porque estabelecem-se aí obrigações contratuais à Teologia, que, a meu ver, mas posso estar enganado, vai-se saber!, pedem-lhe que se "submeta" à epistemologia das Ciências - com especial atenção ao princípio da exclusão do transcendente. Mas a especificadade da ciência teológica não seria, pergunto ingenuamente, justamente o fato de que, diferentemente das outras ciências científicas, a Teologia é uma ciência teológica, que, diferentemente das demais, não exclui o princípio da transcendência, porque, a rigor, é ciência da fé?

7. Da fé e do "magistério", ratifica o artigo, à p. 70! Eu entendo. Fala-se intramuros. Por isso, até, não se citam as Teologias não domésticas... Aliás, nunca. Até agora, teólogos só os há na Igreja, a crer nos artigos "teológicos"...

8. Fico por aqui. Naturalmente que provoco. É programática a provocação. Ainda vejo nu o rei, nua, a rainha. A Teologia está a fazer vergonha nos salões universitários. Como teólogo, envergonho-me. Perceba-se a transferência psicológica: envergonho-me, e transfiro minha vergonha a ela, à Teologia. É que eu queria que a Teologia cedesse. Mas, como eu disse, não há Teologia. Só há teólogos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 27 de fevereiro de 2010

(2010/164) Enquanto isso, na realpolitik...


1. O PARECER CNE/CES nº 118/2009 aguarda homologação do Senhor Ministro da Educação...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO
PS. para o que já rolou em Peroratio sobre o Parecer, cf. aqui.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

(2010/034) Tem certeza? [Haroldo, help!]


1. O número 26, último de 2009, da revista digital CiberTeologia, da Paulinas, dedicou-se ao problema da Teologia no MEC, especificamente aquele mais recente, decorrido do PARECER CNE/CES nº 118/2009. No primeiro artigo da revista - Desafios de um empréstimo epistemológico: considerações sobre o Parecer 118/09 do Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Superior (CNE/CES) referentes aos bacharelados em Teologia - de João Décio Passos, leio - entre surpreso e em dúvida:

Os Pareceres, ao evitarem, ao que parece apenas por razões políticas, a elucidação dos fundamentos epistemológicos da Teologia, adotaram um conceito da mesma que, a despeito de sua idade como área de conhecimento, dos paradigmas e métodos historicamente constituídos, dos profissionais socialmente reconhecidos e da rica produção acadêmica, incluiu em sua extensão politicamente correta uma incorreção fundamental: todo discurso religioso institucionalizado na forma de curso vem a ser Teologia. Essa compreensão produziu uma indistinção epistemológica que desembocou na busca de parâmetros mais precisos para os cursos teológicos, o que gerou o Parecer 118/09.

2. "Essa compreensão produziu uma indistinção epistemológica que desembocou na busca de parâmetros mais precisos para os cursos teológicos, o que gerou o Parecer 118/09". Tem certeza? As informações de que disponho dão conta de outro cenário - o Parecer 118/2009 teria atendido à demanda do CNE em face de representação da Prof. Drª Marilena Chauí que, em face da esculhambação ("esculhambação" vai por minha conta e retórica) dos cursos de Teologia, propunha a suspensão da Teologia como integrante do Sistema Federal de Ensino. Não é que se tratasse de um problema de "indistinção teológica" - tratava-se, antes de um absoluto desrespeito às regras do jogo científico, da defesa provinciana e partidária de privilégios epistemológicos inadmissíveis no jogo acadêmico, tudo isso coroado por um corporativismo histórico.

3. É bom verificar. Apostaria na imprecisão do artigo. Não se trata de uma questão "epistemológica" trazida à tona. Sim, a questão "epistemológica" está aí, instalada, mas, a rigor, sempre contornada, e, a depender dos teólgoos, não será levada a termo, salvo, naturalmente, na defesa de uma epistemologia privada, "teológica", "compatível" com a especificidade da Teologia (faz-me rir!). Se estou certo, se Chauí gostaria, mesmo, de ver a Teologia enxotada da Universidade - e ela tem boas razões para isso! -, o Parecer pode ser lido como, até, conservador, conquanto seja, a rigor, uma sinuca de bico - bem dada! - na Teologia: ou aceita jogar o jogo das ciências, e eis, reiteradas, as suas regras, ou, por sua própria vontade, sai fora...

§ único - oficialmente, o próprio Parecer "se explica". Durante as discussões relativas ao credenciamento da Faculdade de Teologia Messiânica, levantou-se a questão de se uma Faculdade poderia ser credenciada apenas com base em Teologia. Essa é a versão oficial. Seja como for, não se trata de uma questão de imprecisão epistemológica. O problema é muito mais profundo do que isso.

4. Eu espero - mas não vejo muita boa vontade da parte da comunidade teológica, a rigor, em sua esmagadora maioria, comprometida mais com a Igreja do que com o Teologia - que a Telogia aceite o jogo...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

(2009/527) Graduação em Teologia - a hora e a vez de um novo paradigma


1. A Revolução Francesa fez seu ducentésimo aniversário e pôs aí mais dez por cento - 220 anos. Inventaram-se as repúblicas modernas. Separou-se o novo Estado da velha Igreja. Quer dizer, do lado de cá do mundo, e, ainda assim, não totalmente. Aqui e ali, a relação permaneceu ativa. Em alguns lugares, dominante.

2. A Teologia permaneceu na Universidade. Na Europa, a "secularização" sequer foi levada tão a sério. É tudo um grande exagero, quando se escreve sobre secularização na Igreja. Quer a Igreja, quer a Teologia - e isso também na Universidade - são fortificações medievais inexpugnáveis. Não podem ser invadidas por fora. Uma flecha aqui, um obus ali, um aríete na porta, vá lá. Mas não passa disso.

3. Não? Ah, fala sério! O máximo que se viu, depois da "seculização", da "emancipação", foi a Teologia Liberal - e olhem a minha expressão de encantamento com ela:



4. Tão rápido quanto nasceu, foi morta - ela era um desmancha-prazer na búlica das crianças animadas. A Teologia na Universidade permaneceu, então, "privilegiada". Como se as Ciências Humanas não tivessem chegado lá - e não chegaram, mesmo... Nas Universidades européias (nem falo nas estadunidenses!), a Teologia continuou olhando para os céus e vendo Deus, falando com Deus e ouvindo Deus. A fé permaneceu viva. Os doutores em teologia são os missionários universitários. Ou doutores de Deus - doutores em divindade...

5. Quando tiver passado a Era das Repúblicas, e se uma nova onda obscurantista, ops, teológica, voltar a varrer o Ocidente, não terão sido as Igrejas as guardiãs da sã doutrina - mas os doutorados em Teologia nas... Universidades! As Igrejas vão destroçando, à conveniência dos xamãs do calendário, os mágicos das efemérides, a sã doutrina. Nas Universidades, elas vão sendo depuradas, tornadas "científicas", transformadas em "racionalidade". Vai-se preparando, assim, a sua preservação, como que e formol. As Universidades teológicas, seus doutorados, preparam a "luz" neo-teológica, depois das "trevas" do hiato moderno...

6. Também no Brasil. Um tanto quanto - se diz - positivista, a Universidade brasileira não gostou de brincar de Teologia. Assim, ficamos com a Igreja dando as cartas por uns setenta, oitenta anos. Em meados da segunda metade do século XX, contudo, por força e graça da tradição alemã - faz todo sentido! -, a Teologia ingressou no MEC, usando o elevador privativo. Entrou pela Pós-Graduação estrito senso - mestrado e doutorado.

7. Alguma radical transformação ela, a Teologia, sofreu? Que eu possa indicar, não. Que a Igreja tenha reagido aqui e ali, isso fala mais da condição fundamentalista da Igreja do que de que da condição científico-humanista da Teologia que entra no MEC. Não falo de Exegese, que essa, assim, a depender de alunos e professores, rompe radicalmente com o paradigma platônico-metafísico e confessional-normativo. Mas a Teologia, com "T" maiúsculo, das sistemáticas - ah, quem há de dizer que essa não se fez e faz igualzinho a que se fez e faz nas Univrsidades pelo mundo, espelho "racionalizado" da fé homilética dos púlpitos?

8. A Teologia da Pós-Graduação me parece, com todo o respeito que devo aos meus companheiros, uma extensão da catequese. Está bem que, nas Universidades, a retórica é "acadêmica". Mas, se você sacode o livro, se você assopra a poeira dos gestos pedagógicos, fica o "núcleo" incontestável - a "fé", a favor da qual, ontem, teólogos, companheiros meus de caminhada, apelavam - deixem a fé!, deixem a fé!, Teologia é fé!, Teologia é fé!... Catequese de luxo. Penso que não peco, se digo que a CAPES não conseguiu transformar a Teologia - antes, serviu de clareira para a sua auto-proteção, para seu isolamento...

9. E essa é a questão de fundo. Quando, em 1999, a Teologia entrou no MEC, agora, pela porta de serviço, por onde entram as ciências comuns, ela viu-se pressionada por todos os lados justamente pelas "irmãs mais velhas" - as mesmas que haviam saído de casa, porque a mãe era madrasta (do tipo de madrasta má, naturalmente, porque há as boas madrasta - mas não era o caso). Na Graduação, não é possível para a Teologia enfiar-se num mosteiro e desenvolver suas teses teológicas, próximo-reveladas, próximo-catequéticas. Na Graduação, não é a Telogia que fala do Homem - é a Antropologia, é a Biologia, é a Paleontologia, é a História. Na Graduação, não é a Telogia que fala da mente - é a Psicologia, são as Ciências Cognitivas. Na Graduação, não é a Teologia que fala do Universo - é a Física, é a Astrofísica, é a Microfísica, é a Química, é a Geologia. Na Graduação, não é a Teologia que fala dos homens - é a Sociologia, é a Fenomenologia. Do que é mesmo que a Teologia fala, na Graduação?

10. Anotem, para eventualmente ter como dizer que estou errado: na Graduação, a Teologia é obrigada - sim, obrigada - a ouvir. E ela não tolera nem uma nem outra coisa: ser obrigada a alguma coisa e ouvir. A Teologia gosta é de dar ordens e de falar. Receber ordens e ouvir? Não ela, a Teologia...

11. Por isso a Gradução é a hora e a vez. É a Graduação que pode - e só ela - levar a Teologia a querer tranformar-se. Só a Graduação pode pôr a Teologia em ciúmes, reduzindo-a a um discurso sem fundamento, exigindo dela uma reavaliação de si mesma, de seus estatutos epistemológicos, de seu objeto, de seus métodos. Só a Gradução. A Pós-Graduação teve sua oportunidade, e a desperdiçou. O que é um mau sinal, porque, geralmente, os gestores das Graduações, seus professores, são os mesmos da Pós... A Pós não qis, até uma, uma Teologia verdadeiramente científica. E a Teologia precisa querer transformar-se.

12. Se ela vai querer? Bem, se "ela" pronunciar-se por reitores e coordenadores de cursos ideologicamente alinhados com a política teológica de Igrejas - duvido. As Igrejas não estão engajadas em rotinas de conhecimnto, mas de catequese e conquista de almas. Teologias a ela atreladas tão-somente refletirão esse phatos - como até hoje (sempre ressalvadas honrosas e raras exceções). Vejo-os, já, em movimento (para isso sempre há recursos,) em articulações, em pressões... A Teologia, que é tão divina, nessas horas, sabe fazer o jogo do mundo.

13. Meu coração está agitado. Depois do PARECER CNE/CES 118/2009, um recuo seria desastroso. Os deuses continuarão a dar aulas no MEC - e, agora, no andar de baixo. E isso não será exatamente uma "honra" para as Ciências... Muito menos para a Teologia - mas "honra" é uma coisa que falta à Teologia desde que assenhoreou-se do mundo...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 4 de outubro de 2009

(2009/515) Resistência justificável


1. De longe, a disciplina mais importante que estudei no Curso de Teologia foi Psicologia da Religião. E olha que não foi num livro de algum mega-hiper-super autor estadunidense ou alemão: foi no brasileiríssimo Merval Rosa, da "insuspeitável" JUERP. Foi nessa disciplina que - finalmente - alguém me contou o que acontecera comigo em 10 de agosto de 1984, quando, no jargão evangeliquês, me "decidira por Jesus", e, em termos mais técnicos, mas, ainda assim, teológicos, me "convertera à fé cristã-evangélica".

2. Uma vez que nada lhe é explicado nesse dia, nem depois, pelo contrário, aproveitando-se de sua abertura e fragilidade emocionais, iniciam em você um processo de catequese - sem nenhuma diferença do que jesuítas fizeram com índios brasileiros -, você simplesmente "embarca" nas explicações mitológico-teológicas que lhe vão pondo goela abaixo, e que, na condição logo de também "discipulador", também eu passaria a fazer com terceiros. Você não "compreende" o fenômeno, você reproduz, você se entrega, torna-se um autômato, guiado por interpretações (e por pessoas) "espirituais" de um processo que, antes de espiritual, é, primeiro, absolutamnte psicológico.

3. Tornei-me um fundamentalista-biblicista. Uma espécie de santarrão biblicista. Um insensível santarrão fundamentalista. Sim, tornei-me um apaixonado pela Bíblia, mais do que por gente (como o sou - até hoje: aliás, fundamentalistas não gostam de gente, gostam de idéias e de coisas), mas encontrava-se absolutamente perdido, porque sem nenhuma orientação adequada - que a Igreja, simplesmente, não dá. Li a Bíblia inteira umas sete vezes nesse período. Tenho a minha primeira Bíblia, toda marcada, em cinco leituras, e uma segunda, com quase três completas. Mas se tratava de uma leitura não-compreensível, uma leitura teológico-cabalística, de estilo "sistemático", mas de vertente fundamentalista-dispensacionalista. Uma desgraça.

4. Mas, apaixonado pela Bíblia, um dia, entro na sala da União de Treinamento e observo alguma coisa escrita numa língua estranha no quadro-de-giz. Caço daqui, caço dali, descubro, com um seminarista, que é hebraico, e que a Bíblia, que eu achava que lia, tinha sido escrita naquela língua. Quis aprender. Fui para o seminário. Aprendi "a língua da Bíblia". Mas nem isso foi mais importante do que Psicologia da Religião.

5. Psicologia da Religião me fez compreender-me como sujeito religioso, e me fez compreender como era "natural" o processo de conversão - mudança de cosmovisão operada cognitivo-afetivamente. Pronto - a "magia" perdeu o efeito: religião era coisa humana, natural, psicológica,, e devia ser compreendida humanamente. Os pregadores deixaram de ser mágicos, e tornaram-se oradores, como políticos, sem diferença. Nunca mais pude ouvir sermões da mesma forma, porque sei o que eles, os pregadores, estão fazendo, saibam disso ou não, e sei o que está acontecendo, e sei o que acontece comigo. Quando você "sabe", a magia perde o efeito, não enfeitiça mais, não encanta mais. "Enquanto não começarmos a entender, nossos espíritos estarão desarmados" (Edgar Morin).

6. Depois que me graduei, estudei por conta própria Fenomenologia da Religião. Aí o ciclo se fechou. Se Psicologia da Religião me fizera autoconhecer-me enquanto sujeito religioso, a Fenomenologia da Religião desmistificava o fenômeno religioso por inteiro, e de um jeito, que, apesar de igualmente relevantes, nem Filosofia da Religião, nem Sociologia da Religião, nem Antropologia da Religião haviam conseguido. Eu era, doravante, um homem livre... a "salvação" não estava na magia da fé, mas na contra-magia do conhecimento... O que parecera "liberdade em Deus" houvera sido, por algum tempo, "prisão dos homens santos".

7. Eu, honestamente, não entendo como há tanta gente, na prática, milhares de estudantes de Teologia, que passam por essas disciplinas, e nada lhes acontece. São uns, antes delas, e permanecem os mesmos, depois. É como se não tivessem deixado que elas entrassem na circulação. É como se não tivessem entendido nada. É como se não tivessem extraido delas as suas conseqüências. É como Tomás de Aquino fez com Aristóteles - fingir que o apreendeu, tirar até 10 na prova, quando, na verdade, o castrou, quando, a rigor, deixou-se a água escorrer pela encosta...

8. Eu entendo o apavoramento geral de lideranças teológicas - falo de reitores, coordenadores, professores ("gestores") de Instituições de Ensino Superior que têm cursos de graduação em Teologia, autorizados/reconhecidos pelo MEC, e isso no Brasil todo - com o PARECER CNE/CES nº 118/2009: se as Ciências Humanas forem sistemática e decentemente ensinadas, pior, se elas forem sistemática e decentemente apreendidas, coisa que até hoje a Teologia não fez nem faz, (e, se depende "dela", não o fará jamais), acaba a "magia", e a Teologia torna-se "livre", humana, cultural, histórica, coisa que nunca foi até hoje, mercê da adminsitração dissimulada de sua auto-apresentação/compreensão na mão de profissionais do "céu", quando deveriam ser gestores pedagógicos antropologicamente comprometidos. Seu compromisso é com a doutrina e com a política, isso sim, para não falar dos cifrões em jogo.

9. A gestão manipuladora da Teologia assusta-se - apavora-se - desespera-se. É compreensivel. Eu gostaria de poder ajudar, insistindo no benefício de liberdade e pluralidade que as Ciências Humanas administrarão na reflexão teológica. Mas, no caso desses senhores e dessas senhoras, isso é perda de tempo. É política o que estão fazendo. Não querem que nada mude, porque, se muda, perdem o poder de gestão, de manipulação, desencantam-se alunos e alunas, e a Teologia passa a caminhar com as pernas de um novo corpo, não sacerdotal, não sistemático, mas crítico, e, posto que crítico, imprevisível. Os passos que esse corpo dará, para onde o levarão? Fala-se da boca para fora de coisas de "espírito" e de "vento", que vem, que vai, mas, na prática política concreta, vento coisa nenhuma - é por aqui, boiada...

10. Eu conto os dias, as horas, para ver esse momento chegar - o das Ciências Humanas, como Neo, entrarem no corpo da Teologia mágico-política, e explodi-lo em trilhões de nanopedaços. Livre, a Teologia, transformada em Ciência Humana, poderá, pela primeira vez em cem mil anos, olhar para si como humana, e recomeçar sua caminhada... livre de si mesma... livre de Deus... Não, os problemas não acabarão aí - ela se tornará humana!, se me faço entender. Mas é como humanos que resolveremos nossos problemas, sem fingirmo-nos de deuses.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS1. aos teólogos que desesperam-se com a possibilidade de uma radical transformação da Teologia, recomendaria aplicarem ao processo um mito cristão, que, quando se faz necessário, costuma-se usar - o da quenosis... Se é fácil para um teólogo ensinar (se aprendeu, tenho dúvidas) que seu Cristo-Deus encarnou-se e fez-se verdadeiramente humanao, nada como aplicar à Teologia também essa narrativa: fazer da Teologia um empreendimento verdadeiramente humano (não pseudo-humano, como na Teologia de Barth, "conversa mole para boi dormir") [o problema, eu sei, e sei que vocês também sabem,, quem não o pode saber são alunos e ovelhas, é que, para uma narrativa de um Cristo-Deus quenósico "funcionar", só se crendo que a Teologia é divina... daí o terror às portas].

PS2. Tic, tac, tic, tac, tic, tac...

sábado, 3 de outubro de 2009

(2009/510) Uma defesa do PARECER CNE/CES nº 118/2009


1. Por ser um texto um pouco longo para um blog, remeto o leitor diretamente à ouviroevento:



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/509) Enquanto descanso, carrego pedra...


1. Preparando um "libelo" - o termo é meramnte simbólico-aproximativo - em defesa do PARECER CNE/CES nº 118/2009, recorro ao histórico dos Pareceres relacionados ao ingresso da Teologia no egrégio rol das Ciências Universitárias - coisa que, nem de longe, ela o é, mas que, se fizermos direito o dever de casa, em breve será (porque estar na sala de aula não significa, necessariamente, que seja científico-hmanista, e tanto assim que ela, a Teologia para meu desgosto, para meu máximo desgosto, a Teologia, esperneia).

2. Eis a documentação:

PARECER CNE/CP nº 241/1999 - critérios para abertura de cursos de bacharelado em Teologia.

PARECER CNE/CES nº 296/1999 - nega-se credenciamento para cursos de licenciatura em Teologia, bem como adverte-se quanto à revogação das implicações do Decreto-Lei nº 1.051/1969.

PARECER CNE/CES nº 505/1999 - comunicaão entre o CNE e a Câmara dos Deputados a respeito do Parecer CNE/CES nº 241/1999.

PARECER CNE/CES nº 765/1999 - ratificação do constante já do Parecer CNE/CES nº 296/1999.

PARECER CNE/CES nº 063/2004 - consideraões sobre os cursos de bacharelado em Teologia.

PARECER CNE/CES nº 429/2005 - solicita esclarecimentos sobre o Parecer CNE/CES nº 63/2004, que encaminha ao CNE algumas considerações a respeito do curso de Teologia, bacharelado.

PARECER CNE/CES nº 101/2008 - aspectos relacionados à uniformização de procedimentos de cursos de Teologia.

PARECER CNE/CES nº 118/2009 - orientações para instrução dos processos referentes ao credenciamento de novas Instituições de Educação Superior e de credenciamento institucional que apresentem cursos de bacarelado em Teologia (aguardando homologação).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 15 de agosto de 2009

(2009/426) Da Carta aberta da EST ao CNE (PARECER CNE/CES 118/2009)


1. Estou um tanto quanto atrasado: em 01/07/2009, a Escola Superior de Teologia (EST) publicou Carta Aberta ao Conselho Nacional de Educação referente ao Parecer CNE/CES 118/2009, assinada por seu reitor, Prof. Dr. Oneide Bobsin. Lá se vão um mês e meio - perdi o bonde, mas posso recuperar o tempo perdido.

2. Considero pertinente que a EST manifeste-se. Penso que não apenas lea, mas todas as Instituições de Ensino Superior vinculadas ao MEC e envolvidas com o ensino de Teologia , ou nisso interessadas, deveriam fazê-lo. Com isso, não me refiro à posição que eventualmente tomariam, mas ao fato concreto de o fazerem - como Peroratio fez, desde as primeiras "horas" do PARECER (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui etc).

3. Considerar pertinente, contudo, não significa que com tudo se há de concordar. Por isso, passo a comentar aspectos e trechos da Carta Aberta com os quais eu não poderia concordar, ou, ao menos, sobre os quais incidem questões muito, muito controversas, para pouco dizer. (A carta não é de todo curta. Para ser inteiramente lida, acesse-se aqui: Carta Aberta da EST ao CNE).

4. Primeiro: "A Teologia se constitui como reflexão crítica, inclusive auto-crítica, metodologicamente transparente e refletida, sobre uma religião específica, no nosso caso a fé cristã". Bem, "reflexão crítica" não é bem, confessemos, o que se encontra nas "teologias". Deveria ser. Seria obrigatório que assim o fosse, principalmente entre aquelas já incluídas no MEC. Não é o caso. Grassa, ainda, "racionalizações" de caráter apologético sobre a fé - e isso não tem absolutamente nada a ver com a "crítica". O próprio apego apriorístico à "fé/tradição" já reserva à crítica um papel coadjuvante, controlado, vigiado. Isso conspira fatalmente contra o aspecto acadêmico da teologia.

4.1 Ser "metodologiacamente transparente" e "refletida" não garante muita coisa. Conquanto, ao menos, trabalhe-se com honestidade, afirmar que a teologia trabalha com o "falar de Deus" (?), de fato, reflete transparência - e muita coragem! -, mas, de pronto, inviabiliza irremediavelmente o caráter de universalidade da disciplina, porque ela nem mesmo esconde a necessidade de o teólogo, primeiro, ser capaz de ouvir esse falar. Na seqüência, à quisa de uma escolástica dita superada, mas, na prática, ainda, presente (porque a teologia, na prática, transformou-se em racionalização de mito e especulação metafísica, ainda quando aplicada à política e às relações sociais) postula-se uma "reflexão" sobre a teologia - o que, contudo, traduz, a rigor, uma legitimação de certo estatuto epistemológico da teologia, provinciano, porque impossível de ser acompanhado, por exemplo, por um antropólogo, ou mesmo por um teólogo histírico-crítico e fenomenológico (como eu).

4.2 Bem, a reflexão crítica sobre uma determinada religião pode ser: Antropologia, Sociologia, História, Psicologia, Etnologia, Fenomenologia. Em cada uma dessas abordagens, (que, contudo, sozinhas, pouco podem, mas, no conjunto, viram do avesso o fenômeno religioso, sem privilégios e quartos-escuros), pode-se, aí, sim, saber, exatamente, do que se trata. Mas quando se diz que a teologia é essa reflexão crítica sobre essa religião (particular!), ou, que seja, parte dela - do que se está falando? Sobre o que o "falar de Deus" tem a dizer sobre essa religião? Mas esse falar de Deus não vai além do falar da tradição, do poder da tradição, da tradição do poder, sobre si mesma, tomados, poder e tradição, como "falar de Deus", mas, sempre, absolutamente sempre, falar humano, em todos os sentidos, e não meramente falar humano como veículo humano de um falar divino de Deus, que, quanto a isso, sabemos o que tal discurso significa, e, se não, danou-se. Falar ainda em "falar de Deus" parece-me bastante improcedente no contexto da discussão do estatuto teórico da teologia. Somente sob os cadáveres dos "teólogos" (ou contra-teólogos) do séclo XIX é que se pode caminhar por essa vereda, interditada, contudo, aos padrões consensuais das Ciências, mesmos as Humanas, coisa que a Teologia é/deve ser, sob pena de não ter lugar no concerto das ciências.

5. Segundo: "O objeto da Teologia é a fé, tanto como crida (fides qua creditur), quanto com seu conteúdo (fides quae creditur). Não é uma mera especulação sobre o transcendente". Não? E a fé - o que é? Crença, primero, no xamã, e em seguida, como "conseqüencia", no conteúdo dito "revelado" do xamã. Dai, a teologia torna-se escolástica, racionalizada... normativa! Mas não deixou de ser o que foi desde o início: uma interpretação particular do mundo, do aquém e do além, assumida por uma comunidade, transformada em refinamento doutrinário e cosmovisão cultural, dogmatizada e, finalmente, feita, apologeticamente, em "saber". E, conquanto os líderes (evantualmente) saibam do que se trata, sempre, as comunidades, contudo, vítimas da teologia, vão caminhando como que levadas pela mão de Deus... Que nome podemos dar a isso?

5.1 Naturalmente que não é isso que a telogia diz de si mesma, porque ela há de apelar para revelações e Sinais e quanto mais possa ensejar-lhe um estatuto privilegiado. Mas todos nós sabemos do que se trata, desde que tenhamos, agora, sim, acessado esse fenômeno por meio das investigações próprias às Ciências Humanas: Antropologia, Sociologia etc., a lista é conhecida. Mas o que a telogia diz de si mesma, isto é, o que as lideranças políticas da história da teologia disseram sobre a teologia - e esse dizer constituía e constitui uma função política, não heurística - nada acrescenta ao caráter concreto da teologia. Enquanto ela é o que é, não tem lugar na academia, seja essa uma teologia católica, protestante, cristã, enfim, seja ela umbandista ou kardecista, porque o vício metafísico nao é privilégio cristão - pelo contrário, ele é bastante "pagão", porque infinitamente mais antigo que a, nesse caso, jovem telogia cristã.

5.2 A teologia é, sim, em última análise, enquanto aquilo que ela tem sido, especulação, sim, sobre o transcendente. Ela pode esconder-se atrás de um biombo de Sistemáticas, de bulas, de tratados, de encíclicas, todos eles documentos muito apreciáveis, mas, contudo, nada mais, nada menos, do que especulação - e política - sobre o transcendente. A fé é mera especulação assumida, com o coração, que seja, com a póstata, com o útero, mas... especulação... e só. Morrer pelo seu conteúdo... matar por seu conteúdo (a história já viu dos dois casos, à mão cheia)... nada disso acrescenta um grão de "conhecimento" ao que é meramente crença (conquanto ensine muito a respeito do poder das idéias). A crença de um pigmeu africano em nada difere da de Roma inteira, ou de Wittenberg. Constantinopla, o Vaticano e o Protestantismo inteiro eqiuvalem ao Daime - são todas antecipações muito imaginativas, seja por meios racionalizados, seja por meios emocionais, seja por meios extáticos, das imagens especulativas - e fideístas, eu sei - quanto ao "suposto" além. Quando a teologia, qualquer delas, fala de "falar de Deus", já recalca, aí, sua condição de especulação, já despreza, aí, a consciência crítica da civilização ocidental, e serve-se tão somente do resquício de medievalismo presente no Planeta.

5.3 Pode-se crer? Claro! Pode-se criar - inventar, em sentido positivo, como quem inventa um instrumento, um jogo - um mito? Claro! Pode-se "jogar" esse mito? Claro! Pode-se dizer que esse mito é ciência? Não. Ao menos não se a ciência for o que ela tem dito que é, o jogo que ela diz ser e jogar. Ou a teologia se torna heurística - e, nesse caso, acabaram-se os falares de Deus, todos, quaisquer que sejam, ou permanece estética e política, onde vale tudo, da fala do Sinai ao quase-diálogo entre a Xuxa e o duende que ela diz aparecer ao pé de sua cama, e que, nesse caso, valeria uma "Faculdade de Teologia".

5.4 Não percebemos que voltamos às discussões do século XVIII, XIX e XX? O XIX estabeleceu todos os critérios epistemológicos para as ciências, os quais foram revisados no século XX. A Teologia ficou de fora dessas discussões, porque queria Deus sentado à mesa. Agora, no MEC, re-encenamos aqueles dias - como se eles não tivessem, já, passado, como se tais discussões não tivessem sido, já, superadas...

5.5 Positivismo!, afirma-se. A Teologia no Brasil não esteve na Universidade por causa do Positivismo, escuto aqui e ali. Na seqüência, conclui-se: acabou o Positivismo! (Viva a pós-modernidade!, você ouvirá...). A Teologia, agora, pode entrar. Alto lá, pessoal! A Teologia milenar, a da Igreja, não tem nada, absolutamenhte nada a fazer na academia - salvo legitimar-se, e às estruturas de poder que ela sustenta, conquanto facilite a emergência de atividades críticas - no campo político! Mas mesmo essas críticas de caráter político (TdL) ainda são ontológicas, metafísicas, ainda conversam com "Deus" (na fé e na retórica política de arrebanhamento e motivação) os seus teólogos, e, em que pese o direito de cada um conversar com o "Deus" que queira (certamente os umbandista de São Paulo converam com seus orixás, e os kardecistas de Curitiba, com todos os espíritos de luz desencarnados,) ,isso não é prática, argumento ou "valor" para as ciências. Talveza objeto dela - da Psicologia, por exemplo...

6. Terceiro: "Teologia é descritiva, mas também normativa enquanto autoriza ou desautoriza, baseada em argumentos fundamentados em sua percepção da tradição, especialmente da Escritura, e do contexto contemporâneo, portanto sujeito a condições históricas. Este caráter também normativo a distingue da(s) ciência(s) da religião (ou das religiões), área de conhecimento importante, porém não mencionada no parecer, que é meramente descritiva, e também comparativa".

6.1 Como assim, "normativa"? Percebe-se que o argumento é auto-evidente? A Teologia que se quer no MEC é a mesma, a mesmíssima, da Igreja, dos púlpitos, dos Concílios, das Sistemáticas, velhas e novas - normativa!, uma Teologia de amém! Mas - isso é possível... no MEC? Uma ciência... normativa? Os átomos devem circular em sentido anti-horário - isso é bom! As sexualidades alternativas devem ser tratadas/aceitas (tanto faz o discurso positivo ou negativo dessa norma)... Norma é política, não heurística. Nem no âmbito da estética é possível falar em norma! O Grito deve ser apreciado de tarde, vestida a pessoa de branco, e ele signiica isso e isso e mais isso! Permito-me um arroubo eventualmente chocante: vade retro! Vade retro uma Telogia normativa na academia, porque já chega ela ter-se assenhorado, como xamã e paxá, da Igreja.

6.2 Defendo, quero, desejo, uma Teologia no MEC. Normativa... NÃO! A norma, em Teologia, não passa do exercício do poder coercitivo de uns sobre outros. Nicéia está aí, ela e sua configuração escolástica de "Deus", encontro sumamente político, mais do que meramente (mas também isso) especulativo. Não há qalquer possibilidade de uma ciência constituir norma - antes, tornada ciência, esse recorte de saber dá-se à ilimitada crítica, dissecação. A ciência é iconoclasta! Onde houver uma norma, a ciência morre - ou a destrói. Galileu que o diga!

6.3 Se a Teologia precisa - e precisa - mostrar-se em que seria diferente, e nisso reside sua pertinência - das demais expressões do "saber" que investigam o fenômeno religioso, não é, certamente, dizendo-se normativa que logrará êxito, porque aí é que haverá uma flia interminável - eu já me perfilo, desde agora - para expulsá-la da ágora das ciências. As ciências investigam - e nada mais. Contribuem para a melhoria da "vida" (em tese, eu digo), mas por meio da crítica, da iconoclastia, das escavações arqueológicas em todos os sentidos - "embaixo fica a fonte" (Nietzsche). Norma é coisa para os Congressos e Assembléias Legislativas, para as Câmaras Alta e Baixa, para os Palácios. Não para a Universidade. Aí cabe o martelo de Nietzsche, não o báculo de Asclépio...

7. Quarto: "
A Teologia, por sua vez, é sempre específica, cristã ou, em princípio, de qualquer outra religião, embora, historicamente, apenas a teologia cristã tenha desenvolvido uma tradição propriamente acadêmica de Teologia. Pela mesma razão, não vemos como problemático o caráter “confessional” da Teologia, desde que isto não signifique um exclusivismo ou a exigência de uma declaração de fé como condição para seu estudo. Mundo afora, as faculdades de Teologia têm caráter confessional, mesmo quando mantidas por um conjunto ecumênico, sem que isto prejudique seu estudo acadêmico e crítico".

7.1 Como não prejudica? Em que sentido "não prejudica"? Não certamnte no científico. E a obviedade disso só não está mais escancarada na cara da gente porque somente agora seremos, nós, teólogos cristãos, "obrigados" (contávamos com isso, quando fomos à Brasília pedir "cidadania"?) a tratar como colegas aqueles cujas religiões nossos pastores, formados em nossas "academias", demonizam dia após dia, desde a "boca de Deus", os púlpitos, desde onde se faz o povo crer que Deus fala.

7.2 A Teologia confessional prejudica, sim, até a própria Teologia. Primeiro porque toda ela, não saberia indicar exceção, salvo o abortivo Bonhoeffer, que terá o atenuante de não ter ficado vivo para provar que faria o que disse que faria, de modo que, os que o fizera,m até hoje, construíram tão somente ruminações confessionais, reacionárias, sempre, por mais progressistas que pareçam.

7.3 A Tdl, louvável sob o aspecto político, ainda é fideísmo voluntarista, metafísica, porque cada teólogo porta-se como "xamã", a garantir que "Deus" está do lado dos pobres... De uma especulação (Deus), salta-se para uma afirmação normativa (está do lado dos pobres), e, daí, para uma ação política. Comungo com a política da TdL digo, seu imaginário ativista, libertário, mas não posso, sob nenhum aspecto, considerar pertinente que esse engajamento se dê por meio da "manipulação" do sagrado. E, agora, quer-se isso no MEC, como a dizer que a "confissão" - que outra coisa não é que a repetição dos mitos/dogmas/tradiçoes "originais" (toda denominação cristã é original!) - é boa teologia. Boa para a confissão, se a confissão não pode se pensar diferente...

7.4 No meu modo de ver - e posso estar redondamente enganado (meu ardor retórico não traduz uma radical convicção da verdade) - não há lugar para a confissão teológico/religiosa na cátedra teológica do MEC. Não se pode fazer castequese de luxo - e é isso que se faz, no nível de Graduação, e, em alguns casos, até no mestrado e no doutorado - na academia. Mesmo a ormaão pastoral, aí, deveria fazer-se no nível da fenomenologia, do esclarecimento de que se gravita em torno de tradições humanas que se dizem divinas, mas que nesse dizer delas de serem divinas vai, também, o jeito humano de se fazer mais-que-humano. Também isso devia ser ensinado nas Igrejas. Masnem na Igreja nas nem salas de ala se diz isso ao cntrário: Deus é a plataforma, A.M.D.G.!

8. Quinto: "
A Teologia é, desde seus primórdios, interdisciplinar. Já ressaltamos sua relação íntima, embora sempre tensa, com a filosofia. O iluminismo acrescentou a percepção histórica da fé, de sua base escriturística e de sua prática. O século XX trouxe a percepção sociológica e antropológica da fé para dentro da Teologia. A Teologia da Libertação a definiu como ato segundo, precedido pela práxis que foi incluída nela como princípio epistemológico, numa clara ruptura com o deducionismo escolástico. Hoje, dificilmente existe um estudo tão interdisciplinar como a Teologia, incluindo estudos lingüísticos, arqueológicos, históricos, filosóficos, sociológicos, antropológicos etc.".

8.1 Seria pertinente, a afirmação, se a Telogia de fato levasse a sério tais ciências. Mas não leva, não. Quando leva, hoje, transforma-se em Fenomenologia, para quem corre o risco de perder a cadeira, se não tratar, ugentemente, de pensar-se consistentemente a partir do jogo das ciências, em vez de insistir em legitimar-se tal qual foi e ainda é.

8.2 A Teologia serve-se das ciências. Não se une a elas. Onde quer que entra em contato com as ciências, usa-as para (tentar - mas é sempre uma fraude epistemológica que aí se comete) legitimar-se: legitimar Deus, Jesus, Espírito Santo, a graça, o pecado etc., etc. etc. A Antropologia não transformou a Teologia - pelo contrário. Fala-se em Missões Transculturais e Inculturação da Fé - em cursos do MEC!Até no doutorado! Isso quer dizr que a Teologia ajudará os cristãos a entrarem de modo "politicamente correto" na cultura do outro para pregar o "Evangelho", Deus, Jesus, a vida!, não, nada de religião, nada de teologia, mas Deus, a Verdade, o Bem... Hum...

8.3 O melhor exemplo que temos do encontro da Teologia com a Sociologia é a TdL, mas já disse que, aí, a Sociologia serviu, apenas, para dar uma dimensão "marxiana" ao engajamento missionário da Teologia: é Deus, ainda, quem faz a roda girar. E - não? -l á, onde era Deus a mandar cuidar de pobres, agora é Deus quem vai mandando dançar e falar uns aleluias... vento que venta lá, venta cá... há épocas em que Deus quer libertar pobres, mas há épocas em que ele quer liturgia extática. Esperemos a próxima estação de metafísica da libertação, depois da metafísica do Espírito... Os xamãs nos avisarão da temporada.

8.4 Fenomenologia? A Teologia tem horror a ela, e quando não tem horror a ela, faz-de-conta que lida com ela. Se lidasse a sério com ela, a primeira coisa que faria, em um segundo, seria a sua fenomenologização, a sua feuerbachianização, a sua heideggerianização. Mas nada... A teologia faz todas essas ciências subirem a escada de Jacó, e a isso não se pode chamar de interdisciplinaridade, multidisciplinaridade, transdisciplinaridade. Cooptação, sim. Pouco mais do que isso.

8.5 A palavra de ordem é "compatibilidade". E a Teologia não é compatível. Deus não é compatível. A fé não é compatível. Na forma como nos ensinaram que essas coisas eram - Deus, telologia, fé - já é lamentável que ainda sejam praticadas, na forma como o são, nas comunidades, porque deixam as massas à mercê das patifarias "evangélicas", por exemplo - mas não só elas - que grassam em solo brasileiro, obscurantismo medieval, e mais antigo!, para vergonha da tradição cristã (se é que ela pode ser ainda mais envergonhada, porque, afinal, a Teologia Neopentecostal da Prosperidade não é pior do que a Inquisição, sem contar a Conquista Espanhola [mas também a inglesa!], que nos lembra a "bíblica"). Se assim o é no âmbito das comunidades de fé - quanto mais não o seria, para além da incoveniência, para além da impertinêcia, para além da impropriedade, na academia.

9. Insisto. Sou teólogo. De formação - gradução, mestrado e doutorado. Insiro-me dentro da tradição cristã. Mas não posso, sob nenhuma hipótese, em nenhuma circunstância, concordar que o que se faz na Igreja, seja ela qual for, na "religião", seja ela qual for, tenha lugar no MEC.

10. Trata-se, aqui, de um pronunciamento sangüíneo - um engajamento retórico. Não chega a ser uma Carta Aberta, mas uma reação (aberta) a uma Carta Aberta. Mas nao me desagradaria que ela encontrasse eco também lá, para onde a Carta Aberta da EST se dirigiu, como apelo. Cá vai outro, então, diametralmente oposto.

11. Acima de tudo, gostaria de afiançar meu absoluto respeito, minha aboluta admiração à EST, a seus professores, mestres, doutores, a seus alunos, a seus funcionários, à sua História. Mas não posso concordar com a proposição de que a fé ingresse nas ciências. Seria a sua morte. Para ser preciso: a morte das ciências. Seria Platão vingando-se da ousadia de Aristóteles... travestido de "Deus".


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. para o conceito de racionalização (porque a Teologia clássica não é crítica, nem racional, é racionalizadora), cf. Edgar Morin, seja em Para Sair do Século XX, seja em Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, seja em O Método. Trata-se da rotina de assumir um axioma, e, sem que se possa expo-lo à crítica racional, científica, iconoclasta, estabelecer discursos dedutivos a partir desse centro. Por exemplo... a Trindade. Tudo o mais há de girar sobre esse "axioma". Crítica? Racionalidade? Não - racionalização. Aparência de racionalidade, aparência de crítica, mas "confissão" inteiramente.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

(2009/308) Haroldo e o PARECER CNE/CES Nº 118/2009 - II


1. Bem, sigamos em analisar a tão aguardada contribuição de Haroldo à discussão sobre o PARECER CNE/CES Nº 118/2009 a respeito dos Cursos de Graduação em Teologia - MEC: sim, agora tenho/temos cidadania e pedigree republicanos! Eu adorei isso! Com todo respeito aos que prefeririam a não-oficialidade da carreira teológica, quer os de fora, queros de dentro.

2. Depois de ter analisado e proposto u'a mais ambiciosa ousadia para o postulado de seu parágrafo três, analiso, agora, os parágrafos quatro e cinco:

2.1 "4. Quanto à questão de um entendimento sobre um conteúdo mínimo do que seja propriamente 'teológico', o CNE não poderia prescrevê-lo e, salvo melhor juízo, nem poderia fomentá-lo. Aí se estaria ultrapassando acentos constitucionais previstos no pacto republicano. Neste, sabidamente, Estado e Igreja, melhor seria dizer, Estado e Organizações Religiosas atuam em searas distintas, com limites assentados. Ao Estado cabe a obrigação negativa de se manter isento em questões de crença, não podendo sobrepor-se e, assim, invadir as prerrogativas individuais frente ao Estado em questões de crença.

2.2 5. Como, neste pacto republicano, se poderia colocar à mesma mesa de discussão tradições religiosas tão diferentes a partir de sua matriz para discutir algo como 'parâmetros curriculares' em termos de Teologia? Dificilmente uma tradição afro-brasileira estaria aberta a colocar em seus currículo de 'teologia' uma disciplina de 'cristologia'. Inversamente também haveria dificuldades, como já as há em se tratando de cursos de teologia de cristã, porém de confissões diferentes. Este não poderia ser o caminho. O CNE, como braço do Estado, deve frear seus passos no ponto em que o Parecer parou".

3. "Quanto à questão de um entendimento sobre um conteúdo mínimo do que seja propriamente 'teológico', o CNE não poderia prescrevê-lo e, salvo melhor juízo, nem poderia fomentá-lo". Haroldo, meu amigo, interpreto errado sua declaração se concluo que ela trata a expressão "um conteúdo mínimo do que seja propriamente 'teológico'" como uma referência a "conteúdo" - ou seja, "Teologia", no MEC, constituiria um conjunto de conteúdos específicos que, nesse caso, não caberia a um Estado - laico (a um teocrático, eventualmente) - determinar?

4. Eu prefiro abandonar completamente essa perspectiva. Penso que as Ciências Humanas não sejam "grandezas conteudísticas", "arquivos de informações específicas", catalogadas segundo rubricas convencionais, de modo que haja conjuntos de conteúdos circulando na academia - conjuntos de conteúdo antropológico, sociológico, psicológico etc. Eu prefiro a idéia de as Ciências Humanas constituírem, todas, abordagens teórico-metodológicas específicas a objetos/campos peculiares do "real" (em amplo sentido). Logo, o recorte é metodológico, não conteudístico. A rubrica é heurística, não política (ou estética, evetualmente) - quer dizer, isto se a Teologia não se afirmar como Política ou como Estética, mas, nesse caso, salvo engano, deixa de poder postular uma vaga entre as Ciências Humanas, além de ter, então, de dizer o que é e a que veio realmente.

5. Nesse caso, no MEC, a Teologia deve constituir um parâmetro teórico-metodológico de acesso ao "real", não uma caixa de "proposições" sobre qualquer coisa que defina como sendo o real. Sim, se a Teologia é uma caixa de "proposições", e, nesse caso, como insiste a Estudos Teológicos 47/2, "confessionais" - e luteranas! -, então está explicado: o que é que o MEC tem a ver com isso? Para isso, prescinde-se do MEC - até! Mas, por outro lado, que é que isso está a fazer no MEC? Agora, se a Teologia consegue - e, até agora, está mutíssimo muito longe disso! - transformar-se (porque não é - ainda, ao menos) em acesso teórico-metodológico a um campo peculiar do "real", aí a coisa muda completamente de figura.

6. O problema da Teologia no MEC, a meu ver, não é o mesmo problema da Teologia das "Organizações Religiosas". Nestas, Teologia é meramente sinônimo de racionalização sobre conteúdo normativo/traditivo/dogmático. Ela não é método, não é aberta, é conteúdo e é fechada. No MEC, isso é impensável - e se os teólogos e as teólogas que lá foram ao MEC pedir documento com foto, era isso que eles queriam, pelo amor de Deus, que vergonha! Não - Teologia, no MEC, só pode ser discussão crítica, teório-metodológica, de acesso ao real. Método, não conteúdo.

7. Nesse caso, cabe, sim, ao MEC - e com isso quero dizer aos homens e às mulheres que fazem Ciências Humanas - discutir(em) com a comunidade de profissionais de Teologia a pertinência desse método, a peculiaridade que ele ostenta - se ostenta -, a sua compatabilidade epistemológica com o regime centífico-humanista. Ora, só o MEC o pode fazer, porque o MEC é a câmara hiperônima onde as ciências oficiais - digo: ciências científicas - se organizam. O MEC é a ágora. Não há mais outra ágora, agora, para a Teologia. Só essa. E ela, a Teologia, tem de ser, aí, o que deve ser - método.

8. Por isso insisto em que a Teologia não tem a mínima possibilidade de postular uma epistemologia própria, mistificada, mitificada, revelatória, uma "hermenêutica" engajada em fé e tradição. É com Kant que ela - obrigatoriamente - tem de lidar. Todo esforço da Teologia de livrar-se de Kant e do século XIX nada mais é do que o esforço de não capitular dante da Cidade dos Homens - a que você se referiu, outro dia, com "virada antropológica" -, ela que se sente, coitada, da Cidade de Deus. É por isso que a Teologia, ao mesmo tempo em que se agarra a suas proposições - a tradição -, nega-se a submeter-se à epistemologia das Ciências Humanas, pelas contas fáceis de serem feitas: esta subverte aquela, interdita-as, denuncia-as como o que elas são: mito e quimera. odo o grandíssimo saber da Teologia de dois mil anos revela-se, puff!, num segundo, o mesmo que a "Teologia" de duendes, da Xuxa. Duro? Mas o método é o mesmo... Aliás, seria interessante um Faculdade Teológica de RPG - os teólogos ficariam surpresos de verem a sua mesma estrutura "epistemológica" empregada em mundos paralelos e modelares, válidos em inúmeras mesa de jogos...

9. E, meu amigo Haroldo, quando a comunidade teológica finalmente entender - se não entende - e ceder - se vai ceder -, aí é que nossos problemas vão começar. Veja: uma vez que nós, teólogos, em diáogo comprometido com as regras do jogo científico, decidamos fazer da Teologia uma "coisa" científica - que ela não é, não essa que a gente vem fazendo desde smepre (e como seria diferente, se inventamos as ciências humanas tem cem, cento e cinqüenta anos?) -, começa a fase realmente difícil do jogo: perguntar, honestamente, pela especificidade dela em face das demais ciências. Nem Müller, nem Zabatiero nem von Sinner deram conta disso, porque, nos termos de seus respectivos raciocínios, Teologia é "compromisso cristão" - seja na forma de "saber racional público, confessional", seja na forma de "teologia clássica", seja na forma de "falar de Deus". E, no MEC, não pode ser nem é nada disso.

10. Eu quero muito, muitíssimo, uma Teologia científica. Mas confesso, Haroldo, que não sei se, quando nós, teólogos decidirmos levar isso a sério, se ela não se descobrirá, nesse caso, sobreposta a outras disciplinas. Zabatiero nega, mas temo sinceramente que a Teologia se transforme em Fenomenologia da Religião (mas, talvez, uma aproximação das Ciências Cognitivas e do Pensamento Complexo, de recorte moriniano, permitam-na alguma coisa nova em relação à Noosfera, o mundo das idéias humanas, onde vivem, bem vivos, os deuses) se levar a sério sua nova posição estratégia no concerto republicano, conquanto se faça esforço para driblar as sentinelas e mantê-la barroca, como desde o berço.

11. Não estou seguro de nada, amigo. Só de uma coisa: Teologia como fé, mito, revelação, doutrina, tradição, "olhar confessional", "hermenêutica da fé", no MEC, não! Conteúdo? Mil vez, não!

12. Deliro?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/307) Lula e o PARECER CNE/CES Nº 118/2009


1. Cito o PHA (Conversa Afiada, a navalha mais ácida do Sudeste...), que esse eu leio, mas, não, a fonte que ele cita. Lula, referindo-se aos livros "didáticos" com erros geográfios impressos (dois Paraguais!) e distribuídos pelo governo de São Paulo: "Lula espinafra livros de Serra: 'vocês nunca mais vão ver nesse país um mapa do Brasil com dois Paraguais. Nunca mais. E, se alguém fizer errado, o Mec tem que corrigir'”.

2. "E, se alguém fizer errado, o Mec tem que corrigir”. Pois é, Zabatiero - fizemos errado, fizemos tudo errado (o tudo vai por conta de minha veia hiperbólica) - agora o MEC tem que corrigir.

3. Ainda bem - não porque tenhamos errado (vergonha nossa), mas que tem quem corrija essa traquinagem da classe oracular... Há esperança...


OSVALDO LIZ RIBEIRO

quinta-feira, 28 de maio de 2009

(2009/304) Haroldo e PARECER CNE/CES Nº 118/2009 - I


1. Opa!, Haroldo, estava já com saudades... E, confesso, aguardava ansiosamente um pronunciamnto seu sobre o Parecer. Também queria o de Jimmy, mas não cheguei ainda a um nível suficiente de fé que me permita crer nisso - Jimmy terá jeito? E, contudo, mesmo seu pronunciamento, poxa vida!, tão pouquinho... Se souberas o quanto é aguardada a sua "comunicação" em Peroratio, vinhas mais a passear por estas bandas...

2. Foi boa a troca de correspondência com Zabatiero, não foi? Peroratio ficou "chique", de repente, com um doutor deitando seu tempo a dialogar com a gente. Isso não é pra lá de bom? Sim, ai houve tanto amabilidades, administradas, quanto tensões, administradas. Gosto das tensões, conquanto me ressinta psicologicamente delas, depois. É um que de isntinto suicida misturado com senso de responsabilidade "protestante", alguma coisa herdada das florestas negras da evolução humana, eu acho.

3. Mas gostaria de comentar seu post. Começo com um citado de seu § 3: "se a Teologia vem para ocupar um espaço no mundo da academia, no espaço universitário, ela deve propiciar espaços e momentos de interdisciplinariedade". Meu amigo, isso, só, já seria mais avanço do que estou disposto a imaginar que conseguiremos com a atual geração teológica. Torno-me, a cada dia, menos crédulo de que consegiremos avanços muito significativos nesse campo e direção - e o "caso" que você menciona, a "representação" da Profª Drª Marilena Chauí me parece ilustrativo disso, bem como a isso se refere aquele constrangedor "histórico" que se faz constar do Voto, triste ter que ler aquilo e saber que é "fato líquido e certo". Papelão o nosso! Melhor nem levantar quem dentre tais gestores teológicos são, ao mesmo tempo, pastores...

4. Na ágora, há uma momento de negociação e Realpolitik. Que a isso se dediquem os "negociadores", na mesa de negociações - Lula é um caso típico, e excelente, disso. O melhor que temos, eu acho. Todavia, Haroldo, quero avançar todos os sinais - todos. Não quero pensar a Tologia "negociada", alguma coisa entre perder e ganhar, abrindo mão de algumas coisas, mas não de outras. Ouso pensar uma Teologia para amanhã - mas hoje. Amanhã ela virá, e há de me encontrar à espera, na varanda, nem que seja na forma do pó que, agora, o vento sopra, se ela demorar muito...

5. Penso que, no MEC, a Teologia deveria já ingressar sobre o regime não da inter, mas da transdisciplinaridade. E não em "espaços" e "momentos", mas em todo lugar e em todo tempo. Fazer-se e pensar-se a partir dos consensos científico-humanísticos já estabelecidos na távola. Essa história de uma província epistemológica própria da Teologia, ah, isso não pode ser sério. Arrisco o juízo - não é sério. "Momentos" de interdisciplinaridade não superam esse jogo de gueto, porque abrem-se janelas burocráticas para ouvirem-se as vozes "afins", mas, quando as janelas fecham, os ouvidos teológicos voltam para o claustro de onde nunca saem, nunca.

6. Não? Então me diz: que fazem as Ciências Humanas nos cursos de Graduação em Teologia - hoje? Antropologia, Sociologia, Psicologia, História, Fenomenologia... Ah, sim, as disciplinas estão lá, mas elas não cortam a carne da Teologia, porque a Teologia lida com elas como Deus lida com os homens. Ah, um teólogo que tocou o corpo das Ciências Humanas, e não passou pela radical "quenosis" antropológica (ao contrário, aproveitam a brecha "hermenêutica" para agarrarem-se ao passado traditivo), como levá-lo academicamente a sério? Quando a Antropologia e suas irmãs nasceram, a Teologia transformou-se inexoravelmente - virou outra coisa. Isso que anda por aí é um cadáver. Ele é precisamente o "corpo de Deus" - corpo morto de Deus! - a que Nietzsche se referia, quando, profeticamente, antevia-o a ser carregado pelas costas humanas por, ainda, muitos séculos... Profeta bom esse filósofo!

7. A Antropologia arranca, necessariamente, o olho mágico da Teologia. Mas, Haroldo, você já leu os artigos - qualquer um - que defendem a Teoloia no MEC "como ela é e está"? Sem constrangimentos, ali se defende que a Teologia tem um olhar como que de Deus - isso é dito literalmente, Harolo! De que adiantam "momentos de interdisciplinaridade", aí? De nada! Salvo, apenas, e olhe lá, para dar um ar de "científico-acadêmico" ao que é, sem tirar nem pôer, mítico-traditivo. Mas se trata de um "xamã" de ceroulas - ou nu... Platão barroco.

8. Penso, então, meu caríssimo professor (saudades de suas aulas - eram ou não eram momentos místicos, aqueles?) que é preciso ser mais audacioso, menos flexível: a Teologia tem que assumir a Epistemologia do jogo. A sua (dela) não vale. A sua sequer é Epistemologia - é self deception. Transdisciplinaridade - pensar Teologia com cabeça antropológico-sociológica, psicológico-fenomenológica. Menos do que isso é fazer como que com a Abolição da Escravatura - você faz que aboliu, mas, na prática, soa um tanto quanto cínica a história.

9. Não acabei. Mas fico por aqui. Essa foi uma provocação profundamente honesta e franca. Ela se desdobra desde uma utopia acalentada - a superação do provincialismo imperialista-missionário da Teologia "cristã" (1), que precisa abrir-se para a reflexão hiperônima da Teologia acadêmica. Suspeito, contudo, Haroldo, que nossos teólogos estejam tão profundamente presos ao modelo qiriarcal de Nicéia/Roma que tenham dificuldades de perceber que não estamos tratando de outra coisa que não cultura humana, demasiadamente humana...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Um testemunho pessoal desse "padrão" imperialista-missionário da Teologia. Curso "secular" de Teologia, no Rio, quando de sua fase de montagem (ao que tudo indica, abortado, não sei se definitiva ou provisoriamente). Numa das reuniões, aprensentaram-me o Projeto. Da grade, constava a disciplina "Missão da Igreja". Eu perguntei o que "uma disciplina dessas" fazia ali, num curso "secular". Foi-me confessado que não se dera conta disso, até aquele momento... É que (essa) Teologia "é isso"... Oh, sim, peguemos O Celeste Porvir e "expliquemos" esse "cristianismo de cruzada" - um "tipo" dentre vários... Mas eu não quero qualificá-lo - quero desqualificá-lo, posto que impertinente e impróprio para uma civilização adulta. E aí está o problema nosso, que, parece, Bonhoeffer o viu desde o cárcere.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

(2009/280) PARECER CNE/CES Nº 118/2009 - Reação a Zabatiero - V


1. Zabatiero, isso aqui começa a lembrar aquelas séries de correspondências que os grandes teólogos dos séculos XIX e XX trocavam entre si, sempre com polêmicas e cortezias - sobretudo moderada educação. Só falta, agora, você e eu virarmos "grandes teólogos", para ficar tudo igualzinho (rs). Pelo menos ninguém vai ter trabalho pra reunir as "cartas"...

2. "O papo está ótimo, mas temo que a gente vá encher o saco das pessoas que lêem este blog... (Zabatiero, não se preocupe: Peroratio tem públio seleto, só vem aqui quem tem interesse nesses temas: não conte palavras: vomite-as) Um balanço? (1) Alguns pontos de nossa discordância ficaram elucidados, mas ainda tenho a sensação de que há pontos em que não conseguimos entender direito o que cada um está dizendo, enfim... (2) Do jeito que está a conversa, parece que só há dois jeitos de pensar e fazer teologia, epistemologia, etc. Acho bom que a gente lembre - a nós e a quem nos lê (pobres...) - que há várias possibilidades e que possivelmente nós tenhamos parceiros de diálogo não tão bons quanto imaginamos...".

3.1 Preguiçoso. Um "balanço" teria exigido anotar quais os pontos elucidados, quais não. Quanto aos diversos modos de "fazer teologia, epistemologia", vejamos. "Teologia", reconheço: tem o modo das igrejas, que é patrístico-medieval (mesmo onde a Teologia é, na "ponta", progressista, as "ovelhas", o rebanho, a comunidade, chame-se-lhe pelo nome que se quiser, a "fé" comunitária, aí, é medieval, ontológica. Mesmo na "vanguarda" da Teologia como metáfora, basta ouvir um sermão do teólogo e verá como a comunidade ainda pensa tratar-se da velha Teologia). Os novos teólogos são tão parecidos com os velhos teólogos, têm sempre "Deus" na boca... Não me assusta que o MEC tenha se asustado com a gente: eles acharam que estávamos levando a sério a academia, e quando foram ver de perto, Deus me livre! Nas comunidades eclesiásticas, ainda estamos em Justino, Nicéia, Agostinho, Lutero, Barth e que tais: nada mudou. E, como os teólogos da academia são, com raríssmas exceções, os mesmos das igrejas, levaram-nas para seus curículos - um verdadeiro sentido de missio Dei.

3.2 Não é necessário fazer distinções aí - não há diferença substancial entre Barth (ontologia dogmática) e a TdL (engajamento crítico) quanto a quesito ontologia. É o meso Deus do AT, do NT, da História da Igreja, que, sensibilizado com o sofrimento dos pobres, anima-o. Logo, todas essas teologias são ontológicas, ainda que recoram a Marx. E com is apenas as classifico, não as rotulo, nem as "condeno". Conquanto não as pratique mais. Seja como for, na "Igreja", vá lá. Acho anacrônico e ultrapassado, mas "de direito".

3.3 Todavia, na Universidade: NÃO! Impossível uma Epistemologia com olho mágico, para ver atrás da portana Natureza, com olho de Super-homem, para ver atrás do "céu de chumbo" romântico-kantiano. Todo e qualquer conteúdo de toda e qualquer Teologia, no MEC, tem de, ogrigatoriamente, ser considerada cultura humana, com o valor relativo de todas as outras - logo, monoteísmo, panteísmo, politeísmo, deísmo, ateísmo, tudo se equivale. Jesus, Buda, Maomé, Confúcio, Blavatsky, todos se equivalem. Sacramento, meditação, sexo tântrico, "fé", tudo se equivale. Na academia, nada disso tem valor extra-humano, consistência "metafísica" - tudo é mito e ciação humana, salvo a vida concreta dos fundadores de culto. É preciso, pois, uma rigorosa e metodologicamente cética Epistemologia científico-humanista para lidar com isso.

3.4 Müeller, por exemplo, quer uma perspectiva distinta entre filosofia/ciênca de um lado, e teologia, de outro (uma teologia-ciência que não seja filosofia-ciência!). Aquelas vêem o mundo in re ("o mundo tal qual ele é" - ele diz), e esta, ainda é ele quem o diz, in spe ("o mundo sob a perspectiva da esperança"). Ora, in spe, para Müeller, é à moda do "depósito da fé", da "telogia tradicional" que não pode, ele diz, ser abandonada, sendo "desde fora" que ela vê e vem, vindo revelada desde "o coração de Deus". Ora, no mínimo, para dizer pouco (e, agora, sou eu a dizê-lo), ver o mundo in re é ver-se a si mesmo in re, e ver-se a si mesmo in re é saber que tudo isso que Müeller cita é ciação humana, sejam os conceitos de revelação, de depósito da fé, de coração de Deus. Uma Epistemologia comprometida com a fé é, apenas, apologia - e política. Essa Epistemologia não pode, não mesmo, estar no MEC - pergunte ao Hans Küng de Teologia a Caminho e ele concordará - aliás, ele o disse antes de mim.

4. "(3) Não me parece que as nossas opções epistemológicas sejam tão antípodas como você dá a entender. E.g.: Apel e Habermas trafegam em trilhos paralelos de uma mesma estrada de ferro ... Vattimo é um grande leitor de Heidegger e Nietzsche, etc. Fico imaginando, cá com meus zíperes e botões, se a sua adoção do paradigma da complexidade é coerente com sua fala sobre epistemologia. De novo, fica a sensação de que há algum curto-circuito - não sei se na minha leitura, ou no seu texto ...(4) PERMITA-ME A ÊNFASE EM LETRAS CAPITAIS. Você me rotula de pós-moderno e se auto-rotula de crítico, como se essas palavras mágicas fizessem algum sentido. Rórulo por rótulo, seria tão inútil como a sua descriçaõ se eu dissesse, em resposta: eu (júlio) sou crítico (escola de Frankfurt em sua quarta geração, pós-metafísica), você (osvaldo) é epistemologista metafísico. Você acusa os não-fundacionistas de negarem a realidade, mas só uma pessoa que deseja fechar a discussão e ganhar a parada é que apela para tal tipo de argumentação...".

4.1 Não são rótulos, Zabatiero, são, apenas, chaves heurísticas. A chave para abrir as suas palavras, os conceitos que você usa, são rortyanas, habermasianas. A chave para abrir meus conceitos, são "dezenovianas", são peirceanas, são morinianas. Não sou não-fundacionista - e a única palavra para isso é "crítica moderna". A superação da crítica moderna, a posição não-fundacionista, é pós-metafísica. Mas não são rótulos, amigo. São aproximações heurísticas.

4.2 Não vou contra-polemizar. Mas o Vattimo de "A Idade da Interpretação" reconhece que, se tentar defender "criticamente" a postura de que "so há interpretação, nunca, fatos - exceto o fato da interpretação"-, ele acaba capitulando à Epistemologia fundacionista, de modo que a sua Hermenêutica propõe-se como "axioma" não-fundacional (incrível, a Hermenêutica de Vattimo tem conteúdo! - ela fala e tudo... E eu que a julgava um "estado do ser-aí"). É a isso que me refiro. Vattimo cita uma única linha de Nietzsche: "não há fatos, apenas interopretações", e, com ela, faz suas mágicas. No mesmo livro em que Nietzsche escreveu isso, há mais de vinte citações valorativas da história, até aquela que diz que a Igreja deturpou a verdade histórica... Domenico Losurdo reviu "ontem" toda a recepção anti-historicista e não-fundacional de Nietzsche, demonstrando-a histórico-hermeneuticamente equivocada à luz da obra e das correspondências de Nietzsche. Essa é minha difereça com o povo que você citou - eu sou peirceano: acredito na materialiade do mundo, logo, também na materialidade do conhecimento, e acredito que a Hermenêutica ou é diálogo com essa materialidade, ou é alucinação. Uma Teologia-MEC, para mim, ou dialoga com a realidade, o é mito puro - como o é toda a Teologia eclesiástica. Friso: toda.

4.3 Você tem razão: alguns dos seus heróis aproximam-se de alguns dos meus heróis. A tentativa de Apel de superar a aporia da "Hermenêtica" de um Rorty, por exemplo (Transformação da Filosofia - material estupendo, se bem que não chega aos pés de O Método), faz com que Apel tente uma conta de chegada entre Wittgenstein, Rorty, Gadamer, de um lado, e Peirce e Popper, de outro. Dependendo de como você "acesse" o conceito de "comunidade de comunicação", de Apel, você até pode dizê-lo não-fundacionalista - mas é erro, dado que um dos "ingredientes" da "síntese" apeliana é Peirce e Popper, conquanto, também, Heidegger (o primiro) e Gadamer. Assim, Schopenhauer seria alguém que poderia, se desenvolvido, simblizar o esforço de Apel - o mundo como representação - matéria e hermenêutica. Para mim, Morin já reslveu isso. Numa palavra: eu sou fundacionalista. Meu pensamento hermenêutico e epitemolópgico é ecossistêmico, telúrico, siturado, pragmático. Nenhum tipo de hermenêutica platônica - e o pós-modernismo é puramente platônico - me encanta. Hermenêutica, e o disse uma vez, é como a gosma do caramujo: você a segrega, você se segrega, por meio dela, para viver sobre a terra, de modo que não ivemo nm interamente na terra, nem interamente na gosma, mas nas duas, ao mesmo tempo, e uma sem a outra não há - não para nós (nem idealismo, nem materialismo, mas os dois, um dentro do outro, representação e realiade - cf. O Complexo Hermenêutica e Consciência).

(5) "Meu fecho pós-metafísico: não existe teologia "boa" e "pronta", como não existe epistemologia "boa" e "pronta". Estas coisas são atividades humanas inevitavelmente históricas, corpóreas, contextuais, perspectivais, mutantes ... Você mencionou Nietzsche entre seus parceiros de diálogo - e ele é um bom parceiro. Mas você se lembra da descrição que ele oferece da pessoa "crente"?"

5.1 Não apenas lembro, mas cito-a, de vez e quando: na formatura de Teologia, outro dia, citei. Minha fala paraninfal foi baseada no aforismo 129 de A Gaia Ciênca, sobre o "bom Lutero" e o que ele não disse sobre Deus e os homens... O Anticristo é um de meus livros de cabeceira, e sei que, para Nietzsche, o bom cristão é uma besta de carga... Por isso o odiaram tanto, fazendo-se, assim, ainda mais muares. A recepção de Nietzsche o século XX está toda eqivocada (Domenico Losurdo - Nietzsche, il Rebelle Aristocratico), entre neo-nazismo e não-fundacionismo, quando Nietzsche não é nem uma coisa nem outra. Conquanto me irrite sua aristocracia contra-democrática...

5.2 Você diz: "Estas coisas são atividades humanas inevitavelmente históricas, corpóreas, contextuais, perspectivais, mutantes". Sim, e daí? Isso quer dizer que votar para decidir quantos quilômetros tem daqui na Lua é o mesmo que medir? Os valores humanos, sim, são mutantes - quantos átomos há na molécula de água, não. A ética humana, sim, é cultural - o que ocorre no cérebro humano, para construir os valores éticos, não. A Teologia - qualquer que ela seja: cristã, umbandista, kardecista tomara venham logo todos os demais, cadê o Daime na Universidade?, cadê o Islamismo?, cadê o Budismo? Quer saber que Faculdade vai bombar? A de Tantrismo - nunca se terão feito trabalhos acadêmicos com tanto empenho! Pois bem, a Teologia é cultura, mas os processos psico-químicos de produção noolópgica de deuses, não. Uma Teologia "boa", hoje no MEC, é uma Teologia que se preocupe, também, com o modo como o pensamento humano se produz, e, quando ela descobre isso, ela se descobre, e sabe-se fantasia estético-política. Essa é a boa Teologia paa o MEC. As demais, culto, liturgia e catequese, racionalização traditivo-normativa, xô!

(5) "Para encerrar mesmo (ainda bem que não sou pregador ...): o crente de Nietzsche assume religiosamente (de forma dependente, sem elã vital) a transcendência - e os defensores da exclusividade epistemológica da "ciência" se alinham na fila dos crentes. abs :)".

5.1 Engraçadinho... Há uma diferença. Os "crentes", as bestas de carga, de Nietzche, são, todos, platônicos - põem-lhes cargas nos ombros, mitos e dogmas que eles não criaram, não podem analisar, não podem contestar- nem entre nós! - e têm de tratar como divinos. A Epistemologia crítica, moderna, e, por essa ordem, aristotélica (indutiva e "democrática"), cartesiano-empírica, ou iluminista de segundo tipo (ou seja, teoria versus experimentação), romântica (ah, sou romântico, não creio na capacidade de a razão varar os céus!), e, agora, inter/multi/transdisciplinar - ela, não. Não há verdades divinas aí, mas há verdades, sim. Como relativismo e o pós-modernismo são o que são, biologia, fisiologia, genética são coisas com as quais não lidam: apenas a "Hermenêutica" fantasmático-ectoplasmático-platônica. A crítica moderna crê no diálogo com a matéria (e as coisas aí não se decidem pelo voto!) e, principalmente, na compreensão das rotinas de pensamento (Ciências Cognitivas). Se o conhecimento não dialogasse com a matéria, se não fosse interativo, a vida até emergiria, mas por um segundo, apenas, e no outro, já acabaria, porque ela não saberia o que comer, de quem fugir. Somos seres hermenêuticos, mas não espectros. O Carbono nos move.

6. "PS.: Penso, porém, que há um ponto mais sério para discutirmos: o caráter paternalista e autoritário da decisão do CNE em estabelecer diretrizes curriculares para a teologia sem consulta a especialistas da área (mesmo que o MEC ficasse só com os PPGs credenciados pela CAPES). No mínimo, uma discussão como a que fazemos aqui ajudaria os membros do conselho a olhar para a teologia com menos preconceito e mais compreensão de suas possibilidades acadêmicas, crítico-reflexivas e éticas...".

6.1 Sim, seria boa uma discussão. E digo mais: queria que os teólogos da faculdade umbandista, os teólogos da faculdade kardecista e os teólogos cristãos estivessem nessa reunião. De cara, as coisas iam mudar de figura. A gente ainda só pensa Teologia doméstica, cristã (ainda tem "Missões" como disciplina, Zabatiero - Missões! Deus nos valha!). Acabou. Isso nao existe mais. Teologia, agora, é outra coisa. E não somos nós, você e eu, cristãos, que vamos decidir - não, sozinhos: seremos nós, teólogos, cristãos, umbandistas e kardecistas, juntos. Monoteísmo? Esquece. Os umbandistas são politeístas e animistas. Teremos de estabelecer uma definição de Teologia tão aberta que caibam monoteístas, politeístas, ateístas, deístas, panteístas que, enquanto teólogos, reconheceçam que tudo isso é puro palpite e muita política e poder. Cada mente humana aprendeu a ver de um jeito, porque esses jeitos são, todos, culturais e situados.

6.2 Eu estou pronto. As carnes chegam a tremer. Digo que estou ponto para perder territórios conquistados. Para ver o Deus-Ser parmenidiano-agostiniano esboroar-se em fractais anímico-africanos, em antropo-teromorfismos múltiplo-indianos, em Nada, quando Buda sentar-se à mesa conosco. Imagine a cena, Jesus, Yahweh (não, não são a mesma pessoa), Lord Ganesha, que simpático, não?, Quetzalcóatl, Baal, de pênis a rasgar as areia do Mediterrâneo, Tupã, Kardec... Deus do céu - estamos prontos? Aí eu quero ver. Por enquanto, é bricnadeira de criança tudo que fizemos e dissemos. A verdadeira revolução vem vindo - e o Brasil poderia ser o seu celeiro. Quer dizer, se a gente tiver crescido o suficiente para isso... Não é a Teologia da Igreja que está em jogo, é um padrão civilizatório - nunca se deu tantas chances a um só povo...


OSVALDO LUZI RIEIRO
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