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quarta-feira, 15 de junho de 2011

(2011/357) Puyehue - morada do deus terrível: ou de "como os 'antigos' eram primitivos, né?"

1. Puyehue, vulcão chileno. Um "monstro" geológico. Os ecologistas deviam fazer campanha contra ele, devastador de ecossistemas! Um deus de fogo a devorar o mundo...

2. Puyehue, "monstro" terrível! Vulcão de dores! Quem, nos dias antigos - e descartaremos os dias atuais por quê? -, não veria, nesse monstro de fogo e pó, a casa de um terrível deus de força, ou, ainda mais, o próprio deus da força terrível?















2. Todavia, assim "racionalizam" os teólogos de ontem, clássicos, e os de hoje, pós-modernos: divinizar essas coisas é primitivo, é da dimensão do mito, é da natureza dos povos ou ignorantes e sem cultura, ou mágicos e ainda poéticos. Já a idéia mesma do divino, essa que nós temos, essa não - essa é fruto da inteligência maior e da revelação máxima que só os "nobres" e sábios possuímos. Se os antigos pensassem tão bem quanto pensamos, concluiriam que essas coisas terríveis não são deuses, mas apenas o símbolo deles... ou Dele. Da "Ideia" dele... Foi assim que nos tornamos tão grandes: percebemos que esse monstro era apenas a sombra - Deus mesmo estava atrás...

3. Puxa vida! Fico assim bestificado... Pobres de nós, não fosse a luz de nossos imensos teólogos! Dos clássicos e dos pós-clássicos!



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 21 de abril de 2010

(2010/327) Zabatiero e o Hermenêutica Bíblica, de Croatto


1. Meu amigo Zabatiero considera que seja urgente a necessidade de re-edição do Hermenêutica Bíblica, do Croatto. Respeito sua percepção do fato. Eu somente diria que, se o fizerem, o três comentários a Isaías, de Croatto, vão ficar severamente envergonhados... Sem falar no seu "manual" de Fenomenologia... Das duas uma: ou o Hermenêutica Bíblica não tem pé nem cabeça, ou Isaías e As Linguagens da Experiência Religiosa são fraudes conceituais - e editoriais... Em todo caso... Prefiro achar que Hermenêutica foi um livrinho de missão, como costuma dizer Schwantes, nesse caso, a cumprir missionariamente um serviço de sustentação do, de outro modo, insustentável. Prefiro - e acho que tem mais base - o Croatto pós-90. O de 84 não se segura em pé, não. Até o Croatto pós-90 lhe dá rasteira...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

(2009/551) Se vier a ser, o céu também será secular


1. Ao fiel que está diante da porta do templo, e que nele nao podE entrar, porque, no templo, oficiam apenas os sacerdotes, a esse fiel se chama "profano" - isto é, aquele que está diante da porta (onde a manifestação ["fania"] se dá). Em oposição, ao profano,, definindo-o e sendo definido por ele, o "templo" é o espaço sagrado. Se o templo for retirado, o profano não tem onde estar - não há porta, não há manifestação, não há sagrado. Se o profano for retirado, não há a quem o sagrado se manifestar, não há onde ele se manifeste, não há sagrado.

2. Segredo da Fenomenologia da Religião - o sagrado depende do profano, os deuses, dos homens. Bem que o sabiam os mitos - uma vez nascidos, os deuses logo criam os homens... A bem da verdade, é bem inverso, mas tanto faz...

3. Foi o protestantismo quem, necessariamente, secularizou o mundo. E o fez, tentando alcançar o efeito contrário - super-sacralizar o mundo. Todos os dias são sagrados - logo, não há dia profano, logo, não há dias sagrados. Onde não há profano, não há sagrado. Onde o tempo todo é sagrado, o tempo todo é profano - anulam-se, perde-se a noção da sacralidade. Onde todo lugar é sagrado, todo ele é profano, aliás, nada aí é sagrado, nada é profano, é, tudo, secular. "Lutero" pariu a modernidade secular, a consciência do desencantamento - e não era isso que queria, pelo contrário.

4. Ora, ora, ora - eis que me pego refletindo sobre o fato de que me venderam um céu todo-sagrado. E, então, fiz as contas: se todo o céu será sagrado, logo, não haverá profano. Se não haverá profano, logo, não haverá sagrado. Logo, o céu será dessacralizado. O céu é como a sociedade moderna... A crítica mata Deus, a confissão, o céu... Deicidas, somos todos.

5. Os alunos retrucaram: mas haverá inferno... Bem, se você, no céu, tiver consciência do inferno, e, então, passar a eternidade cantando corinhos de Lagoinha a Jesus, Deus teha misericórdia da tua alma. Aliás, um Deus que, tendo consciência do inferno, goze bovinamente da adoração de seus crentes-de-céu, ai, quem terá misericórdia de sua alma? O Jó de Jack Miles o sabia...

6. Não, o inferno, das duas uma: ou existirá, e não teremos consciência dele, e, logo, não afetará nossa percepção de sagrado, logo, tudo será sagrado, logo, nada será sagrado, ou, ao contrário, teremos, sim, conciência dele, e provado está que a religião cristã consegue unir o ápice da bondade com o cúmulo da perversão... Ou, simplesmente, não haverá nada. Pruridos eclesiásticos, quero dizer, à guisa de Eclesiastes, de quem outros hagiógrafos não guardam boa percepção: a vala comum do carbono...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 4 de outubro de 2009

(2009/515) Resistência justificável


1. De longe, a disciplina mais importante que estudei no Curso de Teologia foi Psicologia da Religião. E olha que não foi num livro de algum mega-hiper-super autor estadunidense ou alemão: foi no brasileiríssimo Merval Rosa, da "insuspeitável" JUERP. Foi nessa disciplina que - finalmente - alguém me contou o que acontecera comigo em 10 de agosto de 1984, quando, no jargão evangeliquês, me "decidira por Jesus", e, em termos mais técnicos, mas, ainda assim, teológicos, me "convertera à fé cristã-evangélica".

2. Uma vez que nada lhe é explicado nesse dia, nem depois, pelo contrário, aproveitando-se de sua abertura e fragilidade emocionais, iniciam em você um processo de catequese - sem nenhuma diferença do que jesuítas fizeram com índios brasileiros -, você simplesmente "embarca" nas explicações mitológico-teológicas que lhe vão pondo goela abaixo, e que, na condição logo de também "discipulador", também eu passaria a fazer com terceiros. Você não "compreende" o fenômeno, você reproduz, você se entrega, torna-se um autômato, guiado por interpretações (e por pessoas) "espirituais" de um processo que, antes de espiritual, é, primeiro, absolutamnte psicológico.

3. Tornei-me um fundamentalista-biblicista. Uma espécie de santarrão biblicista. Um insensível santarrão fundamentalista. Sim, tornei-me um apaixonado pela Bíblia, mais do que por gente (como o sou - até hoje: aliás, fundamentalistas não gostam de gente, gostam de idéias e de coisas), mas encontrava-se absolutamente perdido, porque sem nenhuma orientação adequada - que a Igreja, simplesmente, não dá. Li a Bíblia inteira umas sete vezes nesse período. Tenho a minha primeira Bíblia, toda marcada, em cinco leituras, e uma segunda, com quase três completas. Mas se tratava de uma leitura não-compreensível, uma leitura teológico-cabalística, de estilo "sistemático", mas de vertente fundamentalista-dispensacionalista. Uma desgraça.

4. Mas, apaixonado pela Bíblia, um dia, entro na sala da União de Treinamento e observo alguma coisa escrita numa língua estranha no quadro-de-giz. Caço daqui, caço dali, descubro, com um seminarista, que é hebraico, e que a Bíblia, que eu achava que lia, tinha sido escrita naquela língua. Quis aprender. Fui para o seminário. Aprendi "a língua da Bíblia". Mas nem isso foi mais importante do que Psicologia da Religião.

5. Psicologia da Religião me fez compreender-me como sujeito religioso, e me fez compreender como era "natural" o processo de conversão - mudança de cosmovisão operada cognitivo-afetivamente. Pronto - a "magia" perdeu o efeito: religião era coisa humana, natural, psicológica,, e devia ser compreendida humanamente. Os pregadores deixaram de ser mágicos, e tornaram-se oradores, como políticos, sem diferença. Nunca mais pude ouvir sermões da mesma forma, porque sei o que eles, os pregadores, estão fazendo, saibam disso ou não, e sei o que está acontecendo, e sei o que acontece comigo. Quando você "sabe", a magia perde o efeito, não enfeitiça mais, não encanta mais. "Enquanto não começarmos a entender, nossos espíritos estarão desarmados" (Edgar Morin).

6. Depois que me graduei, estudei por conta própria Fenomenologia da Religião. Aí o ciclo se fechou. Se Psicologia da Religião me fizera autoconhecer-me enquanto sujeito religioso, a Fenomenologia da Religião desmistificava o fenômeno religioso por inteiro, e de um jeito, que, apesar de igualmente relevantes, nem Filosofia da Religião, nem Sociologia da Religião, nem Antropologia da Religião haviam conseguido. Eu era, doravante, um homem livre... a "salvação" não estava na magia da fé, mas na contra-magia do conhecimento... O que parecera "liberdade em Deus" houvera sido, por algum tempo, "prisão dos homens santos".

7. Eu, honestamente, não entendo como há tanta gente, na prática, milhares de estudantes de Teologia, que passam por essas disciplinas, e nada lhes acontece. São uns, antes delas, e permanecem os mesmos, depois. É como se não tivessem deixado que elas entrassem na circulação. É como se não tivessem entendido nada. É como se não tivessem extraido delas as suas conseqüências. É como Tomás de Aquino fez com Aristóteles - fingir que o apreendeu, tirar até 10 na prova, quando, na verdade, o castrou, quando, a rigor, deixou-se a água escorrer pela encosta...

8. Eu entendo o apavoramento geral de lideranças teológicas - falo de reitores, coordenadores, professores ("gestores") de Instituições de Ensino Superior que têm cursos de graduação em Teologia, autorizados/reconhecidos pelo MEC, e isso no Brasil todo - com o PARECER CNE/CES nº 118/2009: se as Ciências Humanas forem sistemática e decentemente ensinadas, pior, se elas forem sistemática e decentemente apreendidas, coisa que até hoje a Teologia não fez nem faz, (e, se depende "dela", não o fará jamais), acaba a "magia", e a Teologia torna-se "livre", humana, cultural, histórica, coisa que nunca foi até hoje, mercê da adminsitração dissimulada de sua auto-apresentação/compreensão na mão de profissionais do "céu", quando deveriam ser gestores pedagógicos antropologicamente comprometidos. Seu compromisso é com a doutrina e com a política, isso sim, para não falar dos cifrões em jogo.

9. A gestão manipuladora da Teologia assusta-se - apavora-se - desespera-se. É compreensivel. Eu gostaria de poder ajudar, insistindo no benefício de liberdade e pluralidade que as Ciências Humanas administrarão na reflexão teológica. Mas, no caso desses senhores e dessas senhoras, isso é perda de tempo. É política o que estão fazendo. Não querem que nada mude, porque, se muda, perdem o poder de gestão, de manipulação, desencantam-se alunos e alunas, e a Teologia passa a caminhar com as pernas de um novo corpo, não sacerdotal, não sistemático, mas crítico, e, posto que crítico, imprevisível. Os passos que esse corpo dará, para onde o levarão? Fala-se da boca para fora de coisas de "espírito" e de "vento", que vem, que vai, mas, na prática política concreta, vento coisa nenhuma - é por aqui, boiada...

10. Eu conto os dias, as horas, para ver esse momento chegar - o das Ciências Humanas, como Neo, entrarem no corpo da Teologia mágico-política, e explodi-lo em trilhões de nanopedaços. Livre, a Teologia, transformada em Ciência Humana, poderá, pela primeira vez em cem mil anos, olhar para si como humana, e recomeçar sua caminhada... livre de si mesma... livre de Deus... Não, os problemas não acabarão aí - ela se tornará humana!, se me faço entender. Mas é como humanos que resolveremos nossos problemas, sem fingirmo-nos de deuses.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS1. aos teólogos que desesperam-se com a possibilidade de uma radical transformação da Teologia, recomendaria aplicarem ao processo um mito cristão, que, quando se faz necessário, costuma-se usar - o da quenosis... Se é fácil para um teólogo ensinar (se aprendeu, tenho dúvidas) que seu Cristo-Deus encarnou-se e fez-se verdadeiramente humanao, nada como aplicar à Teologia também essa narrativa: fazer da Teologia um empreendimento verdadeiramente humano (não pseudo-humano, como na Teologia de Barth, "conversa mole para boi dormir") [o problema, eu sei, e sei que vocês também sabem,, quem não o pode saber são alunos e ovelhas, é que, para uma narrativa de um Cristo-Deus quenósico "funcionar", só se crendo que a Teologia é divina... daí o terror às portas].

PS2. Tic, tac, tic, tac, tic, tac...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

(2009/486) Questões teológicas muito profundas


1. Ainda aguardo a "autorização" para que possa publicar, aqui, um "intenso" debate que temos travado, Cassia, Eduardo, Alessandro e eu, todos, estudantes e professores do Curso de Graduação em Teologia em Nova Iguaçu. Temos discutido um tema específico - as "modalidades" discerníveis nas diversas teologias históricas contemporâneas - a partir da base disciplinar Teologia Brasileira.

2. Cassia provocou. Eduardo reagiu. Eu me meti - mandavam e-mail para mim e para o Alessandro... E, finalmente, Alessando escreveu. Uma interessante troca de e-mails comunitários. Se eles autorizarem - já pedi duas vezes, e nada! -, publicarei.

3. Eduardo acabou de escreveu uma réplica à Cassia. Trata de questões sempre sérias. No fundo, o problema é conseguir dar conta de uma atitude fundamental - a relação consciente diante da "tradição", proposta como fé.

4. Sem um sistema teórico de aproximação, isto é, sem que possamos dizer que uma coisa é isso, outra coisa é aquilo, nenhum diálogo é possível. Você poderia considerar que uma obra de arte e uma equação de física quântica sejam a mesma coisa. Bem, são, se você pensa como critéro "produtos humanos". Sim, são, ambos, a obra de arte e a equação quântica, obras humanas - uma escultura e uma fórmula matemática. Mas são coisas completamente diferentes, se o critério é, agora, a pragmática - um, é estético - a obra de arte - o outro, heurístico. Há quem não goste de classificações. Mas elas têm o valor heurístico da nudez: não há biombos, quando se usam classificações, distinções. A crítica é a única garantia democrática do conhcimento.

5. Nesse caso, é curioso perceber como se cogita da dissolução da metafísica, mas, sempre, falando-se em "Deus". Ora, se houver uma mística cética, mesmo, que substitua uma ontologia metafísica ou uma metáfora comunitário-traditiva, ela, a mística, se cética, só pode ser crítica (se não, transforma-se numa metafísica plural bastante folclórica - e, se folclórica...). Ora, ela imediatamente está informada de que a idéia "Deus" é uma idéia histórica. Se há Mistério (o que, em si, já é uma dúvida), não se pode saltar, daí, da possibilidade de Mistério, diretamente, para a possibilidade de "Deus". Pode ser que o mistério seja Deus, Deusa, Deuses, Deusas. Isso que eventualmente seja pode ser energia, "mana", pode ser não-pessoal, e pode ser "pessoal". Pode ser bom, mau, bom-mau (como o Yahweh original, antes da racionalização pós-persa). Pode ser deísmo, teísmo, panteísmo, politeísmo. Pode ser tuido que qualquer religião já inventou, do budismo quase-ateu até o politeísmo hindu de 300.000.000 de deuses, passando pela preseunção monoteísta... Até a metáfora pode ser presunçosa...

6. Logo, a verdadeira crítica metafísico-ontológica, a meu juízo (estou errado? Onde estão os argumentos contrários?), corrói a representação da tradição. Se ainda me apego à representação da tradição, há alguma razão para isso: estética (se pessoal), política (se pastoral - o que não sgnifica, necessariamente, manipulação, mas não é, igualmente, desalienação). A rigor - não sabemos coisa alguma.

7. Por outro lado, reconhecer a "persistência" do Mistério não é recuar para um retorno à metafísica - é perguntar o que é essa "persistência". Perguntar pelo Mistério não produz respostas, porque as respostas que inventamos - Tologias - foram, todas, invenções culturais, seja a ontologia, seja a metáfora, seja a fenomenologia. Agora: a questão é: que tipo de Teologia pode, realmente, sem disfarces, sem "folhas de parreira" (apud Cassia!), fazer a pergunta pelo que é essa persistência? Para mim, apenas as Ciências - e, assim, apenas uma Teologia como Ciência...

8. A velha e boa ontologia pode dar respostas? Pode. Tem dado, em todas as religiões, há mais de dez mil anos. Em termos "istraelitas/judaicos", há uns dois e meio, três. Em termos cristãos, dois mil anos. É ontologia. Tem seu direito. Mas, diante do crivo das Ciências Humanas, é o que é. Mito que desconhece sua condição de mito... Um auno onte me disse: Deus não é mito. Não se discute uma coisa assim.

9. A metáfora, igualmente, não quer investigar. Não quer fazer a pergunta. Quer apenas o direito de poder dizer o que quiser, independentemente de Roma e Witenberg - a questão é política, não heurística. Não é à toa que permanece na tradição, e terá, na tradição, as respostas... Se Galileu fosse por aí, arrumaria um jeito de deixar o sol girando em torno da terra, desde que isso fizesse bem para a comunidade... a seu juízo... Mas Galileu nao poderia ser Galileu, fosse metafórico...

10. Só o espírito crítico-investigativo (com todos os seus defeitos) pode fazer a pergunta. Se pode respondê-la? Penso que sim. Já li Vattimo - tudo dele em português. Não faz perguntas heurísticas. Foge delas. Faz declarações políticas. É legítima a política, mas não para medir a distância entre nós e a Lua... Já Morin, será que foi lido? Eu o li. O caminho para as respostas, até para o modelo de pergunta, está ali, porque ele reúne dezenas de especialistas em dezenas de especialidades. É uma espécie de congregação das teorias científicas de topo, críticas, claro, todas. Não é um solipsismo moriniano, mas a congregação de esforços de um planeta. Morin é multidão...

11. Não sei se há Mistéro algum. Muito menos, se há, o que tem lá, o que ele é, o que eles são, o lá e o Mistério. Sei que minha mente lida com uma noção persistente de Mistério. É essa noção que tem de ser investigada, esse produto da mente, da consciência. Uma teologia fenomenológica lida com isso. Não com o "nome" tranqüilizador "Deus", nem com o Ser. Cada qual faça o que desejar fazer. Cada qual invista no que julgar legítimo investir. Mas quem compra ações, compra ações. Quem compra ouro, ouro. E que guarda no colchão, no colchão. Somos o que somos, independentemente de desgostarmos de que um nome seja dado a isso que somos.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 20 de abril de 2009

(2009/188) Marie-Louise Von Franz


1. Dos nomes que Paulo arrolou em sua lista, o de Marie-Louise Von Franz é o mais surpreendente, porque não se poderia dizer, sem mais nem menos, que Marie-Louise Von Franz tenha sido uma "teóloga". Pelo menos tanto quanto não o foi Carl Gustav Jung, com quem trabalhou por muitos anos no Instituto que leva o nome do seu antigo mentor. Van Franz tornou-me assim, uma psicóloga analítica, ligada à psicologia profunda, de Jung, pesquisadora da alquimia e da simbologia onírica, bem como, naturalmente, dos símbolos em geral. Escreveu muito, grande parte de suas obras constituindo a publicação de conferências. Aos oitenta e três anos, faleceu em 1998. Não conheço outra, de modo que deve ser a essa Marie-Louise von Franz que Paulo se refere. No mínimo, uma "teólogo" sui generis...

2. Não se há de querer que eu me julgue competente para falar sobre a obra de Marie-Louise Von Franz. Não o sou. Posso, quando muito, traçar um muito abreviado paralelo entre sua abordagem (junguiana) e a Fenomenologia da Religião, de Eliade, com quem me identifico.

3. Desde os séculos XVIII e XIX, processo cujo ápice se dá no XX, resultado do "encontro" entre a Europa e os "antigos" mundos - América, Ásia, África, Oceania -, uma quantidade incomensurável de tradições, imagens, contos, costumes, ritos, mitos, símbolos de povos antigos e contemporâneos invadiu a cultura ocidental. Logo, esse material foi sistematizado e reunido em verbetes classificatórios. Por trás de uma multiplicidade inimaginável de elementos, revelava-se um padrão, a que podiam ser alocadas inúmeras atualizações culturais específicas: na superfície, multiplicidade, sob a superfície, unidade.

4. Conheço duas formas de lidar com esse material, explicando-o. Jung aproximou-se do fenômeno, postulando a existência de um inconsciente coletivo, uma "grande alma da humanidade" operando por debaixo da aparente manifestação concreta das consciências individuais. Os homens e as mulheres, por mais que se julgassem ímpares, sujeitos de si, individualidades invioláveis, constituíam, quando muito, emergências pontuais da mesma dimensão imaterial e inconsciente. Sendo assim, não era difícil explicar, sob um único regime hermenêutico, a "unidade" por trás da "variedade". A "variedade" é da condição da história, dimensão própria das individualidades aparentes humanas. Por sua vez, a "unidade" constitui a verdadeira natureza da alma inconsciente humana, dessa grande superfície submersa, à qual estão ligados, indissociavelmente, todos os seres humanos. Não será por mera coincidência que os modernos sistemas esotéricos postularão essa dimensão unitária e espitirual como base mesmo do Universo. As cosmogonias egípcias, há três, quatro mil anos, já haviam chegado à mesma formulação.

5. De posse do mesmo material, Mircea Eliade há de construir um outro modelo explicativo, que me "encanta" mais. Segundo a fenomenologia religiosa eliadiana, durante sua longa história, de milênios, os homens depararam-se com situações sempre inicialmente inexplicáveis, mas que, dada a condição da consciência hermenêutica de que são dotados, demandavam-lhes "explicações". Tais explicações são, sempre, da ordem do mito e da cosmovisão, porque demandam antecipações hermenêuticas de outro modo inexequíveis. O processo antropológico da interpretação, segundo Eliade, obedeceria a dois princípios fundamentais - um, psicológico, e, outro, ecológico. Ou seja, as interpretações humanas - que Eliade circunscreveu programaticamente àquelas relacionadas à dimensão religiosa ou dita "do sagrado" - prendem-se a uma confluência de variáveis finitas próprias a) da cultura humana e b) do nicho ecológico em que vive o ser humano.

6. Por exemplo, quando Eliade detalhará o modo como os homens antigos formularam os inúmeros conceitos de divindade, é descrito como sendo elaborados sempre a partir das características peculiares dos objetos naturais a que a intuição dessa divindade se havia ligado - assim, em todo o planeta, não importam o tempo, o lugar e a cultura, sempre houve deuses telúricos, uranianos, oceânicos, líticos, agrícolas, botânicos, zoológicos, fluviais, pluviais, ctônicos etc. Uma vez que os objetos-matriz, catalizadores das hierofanias ("manifestação do 'sagrado'") são limitados, em milênios e milênios, o conjunto dessas operações hermenêuticas tende a uma variedade uniforme. Além disso, dentro de cada variação limitada, as características dessa "divindade" eram sempre as mesmas, fosse ela uma divindade tupi-guarani, fosse ela uma divindade maori, desde que relacionada à mesma materializade ecológica - a abóbada celeste, por exemplo. Esse fenômeno explicaria a semelhança impressionante, por exemplo, entre determinadas representações de Ogun, na África, e algumas das mais representações de Yahweh, na Bíblia Hebraica. Não é que uma "alma" subliminar manifeste-se aí - é que a história da construção de ambas representações respondem pelos mesmos critérios ecológicos: a montanha, a tempestade.

7. O modelo de Eliade não tende a um estruturalismo desindividualizante, como o modelo junguiano. Segundo o modelo junguiano - por extensão, de Marie-Louise Von Franz -, os homens e as mulheres não são os verdadeiros operadores dos processos cognitivos. A "verdadeira" história humana é "outra" história... A superfície da consciência humana é, apenas, uma espécie de "capa", dispensável, sob a qual corre a lava da "alma" subliminar da espécie. Segundo o modelo eliadiano, ao contrário: ainda que sob regimes biológicos-psicológicos limitados e específicos, inclusive estruturalmente paderonizados, nesse sentido, determinantes da potencialidade aberta do sistema, enquanto potência, é cada homem e cada mulher que, ecologicamente, enquanto agentes atualizadores daquelas potências biológico-psicológicas, operam os sitemas hermenêuticos fundamentais para sua inserção no cosmos. Sem o sistema, homens e mulheres são inoperantes - mas o sistema não é, por si mesmo, operativo. Ele sequer sabe de si.

8. Não diria que não gosto de Jung. Diria que me sinto desconfortável diante dele, porque sua metodologia não me parece refutável - logo, ela incorre naquele problema geral das não-ciências. Já o modelo eliadiano é perfeitamente "histórico", ecológico, não-metafísico, além do que é sobejamente confirmado pela epistemologia complexa de Edgar Morin, que estabelece um papel fundamental para a "situação" ecológica das rotinas hermenêuticas dos sujeitos vivos, mormente os humanos. O que não significa que não haja aspectos relevantes na psicologia junguiana - o desbravamento do continente da insconsciência humana, por exemplo. Mesmo Morin recorre a Jung, nesse aspecto.

9. Para terminar, uma ilustração do risco que percebo nas abordagens da psicologia profunda. A Paulus publicou recentemente Mitos de Criação, de Marie-Louise Von Franz. Do mito, aí, se diz: "todos os povos têm seus próprios mitos a respeito de suas origens e da estrutura fundamental de sua existência. É claro que nenhum deles presenciou o que relatam nesses mitos. O sentido fundamental não é externo, mas interno: um retrato metafórico que relata a origem e a estrutura fundamental da consciência daquele povo dentro da situação geográfica, climática, histórica e moral (ethos, ou costumes sancionados coletivamente pelo grupo). Assim, os mitos não apresentam realidades exteriores. Ao contrário, apresentam simbolicamente a alma do povo" (Marie-Louise Von Franz, Mitos de Criação. São Paulo: Paulus, 2003).

10. Chamo a atenção para a seguinte fórmula: "os mitos (...) apresentam simbolicamente a alma do povo". Esse é o tipo de risco que vejo correrem as metodologias "psicológico-analíticas" de modo geral, em particular as junguianas. Talvez elas se esqueçam que não há intencionalidade senão na consciência humana individual. Um "povo" não tem alma. Um povo sequer existe. Um povo constitui uma abstração cognitiva, uma representação noológica de uma grandeza ecológica. Todavia, isso que o conceito noológico chama de "povo" só o é em particularíssimas dimensões - geopolíticas, por exemplo. Mas não há, aí, nada que se possa comparar a um "organismo" com uma única alma, um único sentimento, uma única atitude, uma única percepção. Não existe um povo brasileiro, mas vários, assim como não existe povo algum no planeta. O "pecado" das psicologias analíticas de modo geral é político - eles são programaticamente a-políticos. Não há conflitos entre homens, apenas conflitos internos a cada ser humano. É o "pecado" gravíssimo das abordagens do real por meio de chaves simbólicas.

11. Quando rotinas explicativas - psicológico-analíticas, filosóficas, teológicas - tomam a abstração conceitural (o conceito "povo") no lugar da grandeza histórica sob análise (o conjunto de seres humanos ecologicamente e culturalmente situados), cai-se num idealismo mais ou menos próximo-platônico que leva à perdição toda e qualquer objetividade. Não é muito diferente, por exemplo, da tentativa de Gerhard von Rad de levantar as "tradições de Israel" - mas, von Rad, alto lá!: de que Israel você fala? Só há um modo, e apenas um, de reduzirmos um povo a uma singularidade expressiva - fenômenos políticos, como Nicéia, por exemplo, ou Ml 2,7. Além da política de submeter todos a uma só expressão, o que resta, concretamente, é um inúmerável conjunto de pessoas que, a despeito dos limites materiais e históricos de expressão, formulam-se e expressam-se a partir de sua individualidade - seja, inclusive, porque assim o fazem, heteronomamente. Daí provém, inclusive, as potencialidades revlucionárias da espécie e da história humanas.

12. Que cada ser humano tenha lá a sua "alma", isso lá é provável, conquanto não-refutável, e, de qualquer modo, nenhuma diferença faz, se a aproximação antropológica não se constituir por meio de um dualisto platônico, mas formular-se por meio de um conceito monista e orgânico da "vida". Agora, que a humanidade, toda, tenha, ela, uma "alma" - seja essa alma em que sentido for, isso me parece muito, muito mitológico. E mitológico de um jeito que faz de mim uma ilusão daquela mesma alma. Isso, Marie-Louise Von Franz, isso eu não posso aceitar. Tome-se, que seja, essa atitude minha como pirraça de criança rebelde...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 4 de abril de 2009

(2009/137) Fenomenologia da Religião e Teologia "acadêmica"


1. Quando Mircea Eliade escreveu que "o 'sagrado' é um elemento da estrutura da consciência" (Origens, Lisboa: 70, 1989, p. 10), penso que o que ele quis dizer equivale-se ao que Croatto escreveu: "o lugar da hierofania é, na realidade, o próprio ser humano" (CROATTO, As Linguagens da Experiência Religiosa, São Paulo: Paulinas, 2001, p. 60). A meu ver, uma Fenomenologia da Religião (FR) que se pense a si mesma como uma das Ciências Humanas (uma das Ciências da Religião, ou, como prefiro pensar, uma câmara transdisciplinar de acesso ao fenômeno religioso), das duas, uma: ou assume, definitivamente, que o fenômeno da manifestação do sagrado é, para todos os efeitos, um fenômeno da consciência humana, um fenômeno sem conteúdo, ou, se não, assume-se, logo, como Teologia disfarçada, alguma coisa entre envergonhada e estrategicamente posicionada em sua campanha de cooptação dos saberes, racionalização apologética da intuição fideísta.

2. Pois bem: é, para mim, cada vez mais definitivamente claro que, em Croatto, os capítulos que tratam especificamente do "sagrado" estão inapelavelmente contaminados pela Teologia. Ontem, durante a aula FR, no campus avançado do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil (Nova Iguaçu - onde me formei [1987-1992] e onde, desde 1993, leciono), foi um dos alunos, Robson, a observar a estrutura metafísca da seguinte declaração de Croatto: "o ser humano é quem vivencia o transcendente, mas ele não tem a iniciativa de tal experiência. Ele de fato - o Mistério, ou qualquer que seja o seu nome - é inobjetivável" (CROATTO, op.cit., p. 63-64).

3. Robson observou que, nos termos da declaração, "transcendente", "Mistério" e "qualquer que seja o seu nome" são não apenas "inobjetiváveis", mas, a rigor, a mesma coisa. Isso implica em dizer que, nesse caso, a FR apontaria, ela mesma, enquanto FR, para duas realidades - a própria transcendência em si e a realidade hermenêutica estabelecida pelo ser humano. De fato, na seqüência, Croatto acrescenta: "está além do limite humano, dentro do qual pode operar o jogos, o discurso racional" (p. 64). Ou seja, cá, o ser humano, estabelecido em seu limite, articulável por meio do discurso racional. Lá, o Mistério - com eme maiúsculo!

4. Bem, a meu ver, isso deixou de ser FR e passou a ser Teologia. A FR não tem nenhuma possibilidade de assumir (nem por hipótese) que haja, de fato, outra realidade que não a hermenêutica humana ecologicamente situada e provocada. A FR não pode, não tem condições, enquanto FR, ou seja, enquanto Ciência Humana, de afirmar - nem de negar - a existência de uma suposta, eventual, realidade metafísica, sobrenatural, "divina". O que a FR tem nas mãos é a interpretação de um sujeito (realidade hermenêutica, noológica, ecologicamente situada), da qual se faz constar, como conteúdo hermeneuticamente produzido, a existência, somente assim presumível, de uma realidade metafísica. Ora, mas é o sujeito quem o diz! Que a Teologia se constitua justamente sobre esse dizer - "a fé vem pelo ouvir" -, vá lá (quando ela, a Teologia, deixar de ser fideísta e confessional, dar-se-á conta do despropósito em que isso se constitui). Mas a FR não pode, é-lhe vedado, saltar, fideisticamente, da interpretação do sujeito para o conteúdo da interpretação - a interpretação é objetiva, é um dado, é um mito, é um texto, é um hino - o conteúdo que ela, a interpretação propõe, é imaginação, é invenção, é arte, é política, é delírio, é abstração, é racionalização. Elas, as Ciências Humanas, todas, o sabem. A Teologia, também - mas nem liga, porque a fé é essa loucura, mesmo (quando Paulo o diz é "chique", quando é Freud, é despeito...).

5. A FR de Croatto, contudo, salta pra lá e pra cá, insistentemente, entre a Realidade invisível, como ele usa falar, e o mundo fenomênico. Isso, insisto, não é FR. Há um equívoco grosseiro na linguagem com que o livro de Croatto trata a hierofania - no fundo, é o discurso do ser humano religioso que aparece nas páginas de As Linguagens da Experiência Religiosa, antes que o tratamento fenomenológico-religioso que ele deveria receber pelo fenomenólogo da religião. O equívoco é o mesmo, sem tirar nem pôr, que se vê no discurso confessional sobre a Bíblia, por exemplo, quando trata as palavras atribuídas a Jesus, nos Evangelhos, como palavras de Jesus, quando, a rigor, essa é a mais remota das possibilidades, uma vez que se trata, primeiro, de declaradas palavras de evangelistas, narrando palavras que Jesus teria pronunciado, e a isso tendo-me chegado muitas vezes, algumas, até, confessadas, por meio de entrevistas - ou seja, o evangelista sequer as ouvira ele mesmo, mas terceiros é que alegam tê-las ouvido. Ainda que seja verdadeiro o testemunho, está-se, ainda, afiançando crédito à memória de terceiros. No caso da "FR" de Croatto, a questão é muitíssimo mais gravemente agravada pelo fato de que, se no caso dos Evangelhos, há uma possibilidade histórica, ainda que remota, mas, ainda assim, científico-humanista, de ter sido Jesus a ter dito uma ou outra coisa - tudo, impossível! -, no caso da FR, contudo, não se pode, nunca, não científico-humanisticamente, afirmar que tudo, parte, um décimo, um milionésimo da interpretação humana seja, de fato, "metafísica". Nada, absolutamente nada, aí, pode ser assumido como metafísico - ainda que eventualmente o seja! A FR é absolutamente, metodologicamente, incontornavelmente - cética.

6. Não, contudo, a de Croatto, que é crente. Ela sabe que está lá o Mistério. Mas não poderia nem deveria saber. Seja o Mistério, o Transcendente, o Inéfável, o Inobjetívável, o "Sagrado", seja Deus, Xangô, Buda, Quetzalcóatl, Manitu, Tupã, a Pomba-Gira ou o duende da cama da Xuxa, tudo isso são construções hermenêuticas do ser humano, seja a materialização concreta mais grosseira (gesso, barro, madeira, cobre, bronze, jade, pedra) de "entidades" e "seres" sobrenaturais, seja a respectiva criação noológica intermediária (os nomes dessas entidades e desses seres), seja o conceito noológico mais "refinado" (a abstração filosófica hiperônima - "sagrado" [como referência hiperônima ao conjunto dos seres noológicos]) - tudo isso é invenção humana, que a FR leva a sério na (sua) tarefa de compreender o fenômeno religioso, para o que não pode, não deve, nem precisa, "crer" nessas interpretações. Aliás, "crer" nelas é tornar-se, por isso, imprestável para analisá-las.

7. Não, a FR não é atéia - não se trata de ateísmo metodológico. Muito menos é ela teísta (ou algo que o valha: deísta, animista, panteísta etc.). A FR é cética - metafisicamente, miticamente, mitologicamente cética. Emancipada, retrucaria Jimmy. Sim, Jimmy, nesse sentido, sim. O que quer que os homens e as mulheres digam, não se trata de crer e de descrer, mas de, ceticamente, tomar tais dizeres dados, informações, com os quais se há - função da FR - de construir um quadro teórico-metodológico, a partir do qual se pode encetar ensaios de interpretação científico-humanista do fenômeno-religioso.

8. Há que se escrever um Manual de Fenomenologia da Religião vacinado contra a Teologia. É urgente a demanda.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

(2009/009) Das vestes que nos cobrem os olhos


1. Na longínqua noite dos tempos, lá, quando, recém-saídos da lama, entulhávamo-nos em cavernas e recôncavos de rocha, em algum momento aí, qual?, quando?, onde?, intuímos e, por isso, inventamos "deus". Se deus, deusas, deuses, deusas, se uma tribo, inúmeras, se aqui, ali - talvez jamais venhamos a saber. Podemos, apenas, com relativa segurança, estudar - indiciariamente, pelo amor de Deus, sem platonismos sacerdotais! - o modus operandi da mente religiosa (Fenomenologia da Religião, em diálogo com as Ciências Cognitivas, ou nada) e, assim, imaginar como pode ter sido... Como foi - será possível saber? Talvez valha para esse tema o mesmo que Stephen Jay Gould (como gosto do que ele escreve!) estabelece para a emergência da vida: um fenômeno multifacetado, uma explosão, não um acontecimento, mas vários, aqui, ali, lá, acolá, fogos de artifício de DNA na festa, na orgia, de viver e morrer. Talvez assim tenha sido a intuição do "sagrado" - não uma, mas inúmeras e irrecuperáveis intuições.

2. Mas, por um momento, apliquemos a essa noite o que aprendemos - a meu ver, definitivamente (o que não significa que isso resuma tudo quanto sobre o tema se deva saber) - com Feuerbach: que "deus" constitui projeção antropológica. Pois bem: se essa intuição primária, essas intuições originais, deram-se, e creio nisso, por meio do regime feuerbachiano, algumas inferências são possíveis - e necessárias!, libertadoras!

3. Primeiro - se a intuição desse "sagrado" deu-se antes de o homem fazer-se Homo faber, esse deus não era criador. A idéia de criação é uma idéia tardia, uma aplicação do homem, construtor de casas e cidades, ao mundo, tratando-o, então, como "obra" do deus, nesse caso, "criador". Uma vez que (me) parece ser tarde demais para a intuição do sagrado ter-se ela dado após o homem fazer-se faber, penso que a idéia de "deus criador" deva ser considerada bastante nova. Diria que ela é, inclusive, "urbana", no sentido da comunidade, dependende das associações humanas. Nas florestas não me parece provável que ela tenha surgido... mas, se aí se constroem ocas...

4. Igualmente, "deus" não poderia ser dono de nada. Como assim, dono? Pensar "deus" como "dono" de alguma coisa implica em que, aqui embaixo, na vida de quem pensa esse deus, haja as manias de "dono", isso é meu, isso é seu, isso é nosso. Se o homem, a mulher, são selvagens, e desfrutam, livremente, da terra, dada, oferecida, a idéia de dono não pode, naturalmente, surgir. Logo, penso que nem criador, nem dono, era "deus" (ou duesa, ou deuses, ou deusas) nas intuições/invenções originais. Mas assim que o primeiro "bem" se constituiu, deus fez-se a tal semelhança.

5. Rei e Senhor, então, faz-me rir. Aí está a maior desgraça da teologia (pecado que ela, primeiro, devia confessar, e, depois, corrigir) - primeiro, inventam-se os reis. Depois, projetam-se os títulos em "deus". Depois, retorna-se sobre o povo, com esses títulos, divinizados. Em seguida, reforça-se o poder do rei, com tais prestidigitações. Finalmente, escrevem-se Teologia(s) Sistemátia(s) com ares professorais e escolásticos. E, paralelamente, aplica-se o resíduo ao aparelho sacerdotal - que, eventualmente, torna-se a própria realeza, como o bem sabemos de nossa história doméstica.

6. Quer-se saber quem é deus para uma determinada cultura? Procure-se o "poder" nessa cultura, quero dizer, a pessoa mais importante, mais forte, mais rica, o chefe, e ele dirá quem, como é "deus". Os demais, logicamente, terão aprendido a lição. E, se, eventualmente, o "pobre" dessa vila ousar pensar deus - e isso, as mais das vezes, pela instrumentalização de intelctuais orgânicos para isso constituídos -, diga lá se esse deus não será um contra-poder, também aí consubstanciado em fôrma hierofânica...

7. Os títulos ficam, permanecem, na luta do poder contra o contra-poder: o deus do poder é criador, o da libertação, também. O deus do poder é dono, o do contra-poder, também. O deus do poder é senhor, o dos pobres, também. Nisso tudo, o mito permanece, os títulos, as ordens de comando, as palavras-de-ordem. Não, deus não é nada disso. Sim , deus é tudo isso. Porque deus é nada mais nada menos do que aquilo que eu quero que ele seja, e, por isso, pergunto-me seriamente, por que todos, poder e contra-poder, querem pensar deus como criador, se isso é pura imagem, dono, se isso é puro mito, e senhor, se isso é pura projeção? Qui prodest? Eu bem suspeito...

8. Pois bem, chegou a hora - passou! - de levarmos a sério o conhecimento teológico fundamental do século XIX: teologia é nada mais nada menos do que projeção antropológica. Deus é espelho e instrumento. Na boca humana, é ferramenta. Os títulos, criador, senhor, dono, nada significam em si, mas servem, tão somente, de palavras-de-ordem, comandos subliminares para a ordem pública.

9. Algo me diz, lá no fundo, que a resistência da Teologia em reconhecer-se quimera e assumir sua maioridade crítica é política. Nada mais do que política.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

(2008/25) Fenomenologia da Religião, História e Exegese


1. No ano de 1984, Croatto publicava Hermeneutica Biblica. Entre nós, latino-americanos, o livrinho foi tão famoso quanto o monumento de Norman K. Gottwald, As Tribos de Yahweh. Porém, enquanto Gottwald defendia uma interpretação histórico-social da Bíblia Hebraica, Croatto afirmava, sem dó, que, "en el texto desaparece el emisor original" (p. 23), e, assim como Nietzsche anunciara a morte de "Deus", Croatto testifica a morte do "homem" - "el autor (...) 'muere' en el acto mismo de codificar su mensaje". Schleiermacher - certamente! - não teria ficado muito contente com a proposição: nem eu fiquei, ainda que ela se encontre, por exemplo, também em outro "monstro sagrado" da semiótica - Umberto Eco, em Interpretação e Superinterpretação.

2. Croatto "matara" escritor e receptor/receptores originais - "tampoco el interlocutor primeiro está presente" (p. 23). O "evento" original "desvanece-se" (o termo "ouviroevento", de minha página, é, naturalmente, uma contra-proposição à luz dessa assertiva "hermenêutica"). O coupe fatale de Croatto guarda-se para o último capítulo - "Exégesis y eiségesis". Aí, a pesquisa heurística converte-se inescapavelmente em ideologia - em "práxis": "la exégesis es eiségesis al mismo tiempo" (p. 74). Na seqüência, defende-se a "lectura política" feita pela "teología de la liberación" de críticas no campo "hermenêutico": "se quiere 'clausurar' una lectura porque su lugar es ocupado por otra lectura del mismo signo pero con contenidos distintos" (p. 74-75). Bem se vê - todo o livrinho constitui um libelo político. Uma defesa/apologia da "produção de sentido - entenda-se bem: da produção "programática" de sentido.

3. Nunca me senti à vontade com "esse" Croatto. Sempre "cri" na possibilidade da "exegese", o que me valeu, e, eventualmente, ainda vale, classificações freudianas de "positivista". Equívoco: positivista, não, ginzburguiano, losurdoniano, detienneiano. Seja como for, "outro" é o Croatto dos comentários a Isaías. Ora, ali, ele tenta recuperar - e x e g e t i c a m e n t e - o processo de "releitura" que as comunidades judaicas teriam aplicado à memória/recepção dos oráculos de Isaías. Ora, para que Croatto apontasse a "releitura", ele teria de, primeiro, crer que ressuscitava tanto o "Isaías" relido, quanto as comunidades que o reliam. E, de fato, pretendeu tê-lo feito. É, mesmo, uma excelente coleção - que recomendo: ao contrário do Hermentica Biblica, exceto para fins de pesquisa da história política da hermenêutica latino-americana.

4. O Croatto de Isaías não é - mais - o Croatto do Hermeneutica Biblica. O que terá acontecido entre um e outro? Eis uma pista: "a polissemia é uma característica do símbolo (...) e esta polissemia é encerrada no mito. De que maneira? A estrutura lingüística narrativa do mito faz com que ele seja um 'dizer algo sobre alguma coisa a alguém' (...). Portanto, a intenção da linguagem não pode ser difusa e ambígua, mas unívoca" (CROATTO, As Linguagens da Experiência Religiosa, p. 236). Ora, ora, ora - Croatto me surpreende aqui. Ele trata - acertadamente! - o mito como narrativa: "o mito é um texto. Ele pertence, portanto, à ordem literária e deve ser interpretado como discurso. Como texto, o mito pretende 'dizer algo para alguém a respeito de alguma coisa', ou seja, existem quatro elementos em uma súbita interrelação: um emissor e seu destinatário, uma realidade e o que se diz sobre ela, isto é, sua interpretação. O 'algo a respeito de alguma coisa', que é a vivência inicial do emissor, é transferido a outros ('para alguém'). Isso manifesta a função social do discurso, bem como de toda palara humana" (p. 210). Ora, ora, ora. Em 1984, Croatto matara o(s) autor(es) e o(s) destinatário(s) - agora, em 1994, ele os ressuscita! Mais do que isso - e, em termos "hermenêuticos", isso equivale a uma transposição teórico-metodológica hiperbólica: Croatto transforma - a meu ver, acertadamente - "texto" em "discurso", em "fala" humana.

5. E esse discurso, essa fala, enquanto fala e discurso ainda consubstanciados no "texto", são necessariamente unívocos. Querer aproximar-se deles - texto, fala, discurso - sem levar isso em conta - constitui, logo, improcedência teórico-metodológica. Ora, ora, ora, a Fenomenologia da Religião - permitam-me dizê-lo - devolveu a "sanidade" a Croatto: há que se distinguir entre projetos políticos e heurísticos. A exegese, eventualmente, pode deixar-se contratar, a certo preço, por projetos ideológicos - seja de esquerda (o risco da TdL), seja de direita (o das teologias ainda medievais, posto que metafísico-ontológicas, tanto quanto o das pós-modernas, de estilo "metafórico"). A Exegese, contudo, sabe-se filha da História. O ponto onde Exegese e História se encontram é aquele em que se concentram as necessidades de, arqueologicamente, desenterrar o passado, e isso por meios dos indícios (Ginzburg, Sinais - raízes de um paradigma indiciário) desde lá sobrevindos a nós. Sempre de forma teórico-metodológica, por meio da "fabricação" de hipóteses de trabalho" e da sua verificação por meio da retórica e da plausibilidade (Ginzburg, Relações de Força).

6. No campo "bíblico" (a rigor, no que diz respeito a qualquer literatura "sagrada"), o ponto onde História e Exegese se encontram traduz-se pela Fenomenologia da Religião. Aquele que eu considero o maior tratado de Fenomenologia da Religião (que eu tenha lido, claro) não se chama Tratado de História das Religiões à toa, e não é à toa que esse tratado apresenta como fundamental para a disciplina o conceito de "documento" - os testemunhos histórico-traditivos recolhidos pela História. Ora, o conceito de "documento" (FR), o de "indícios" (História) e o de "texto" (Exegese) são o mesmo conceito, porque cada uma dessas especialidades traduz uma face do mesmo olhar - o olhar da "investigação", que, não sem razão, Ginzburg associa, analogicamente, à figura de Sherlock Holmes: o paradigma indiciário.

7. O Croatto da Fenomenologia da Religião, quando decidiu-se a enveredar-se pela FR, pela pesquisa do "mito", teve de abrir mão do discurso "político", e investiu na construção de uma plataforma teórico-metodológica "heurística". Pura? Livre - absolutamente - de ideologia? Não. Nada o é. Mas toda e qualquer práxis heurística deve ter por alvo o máximo de imparcialidade, o máximo de honestidade. A comunidade de interpretação deve servir de agente crítico - exatamente aquilo em que me constituo diante do "projeto" do Hermenutica Biblica, e aquilo que, sem o confessar, também Croatto empunhou, contra si mesmo, quando enamorou-se da pesquisa. A esse Croatto, meus mais sinceros reconhecimentos, minha mais sincera gratidão. É na seqüência de seus passos que desejo eu mesmo dar os meus.

Osvaldo Luiz Ribeiro

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

(2008/18) Fenomenologia da Religião e Teologia


1. A Fenomenonologia da Religião - na condição de preposto das Ciências Humanas - aproxima-se da Teologia. Uma olha a face da outra. Estendem a mão. Cumprimentam-se. Respeitosamente. Há nervosismo no ar. Sentam-se à mesa das negociações e dos acordos.

2. A negociação dura algum tempo. Mas acaba de acabar. Segue a síntese da reunião, apontamentos para a ata.

3. Ou a Fenomenologia da Religião chama às falas a Teologia, e esta se comporta como uma disciplina hipônima dela, ou não há acordo possível.

4. Ou a Teologia chama a Fenomenologia da Religião às falas, e esta se comporta como disciplina hipônima dela, ou não há acordo possível.

5. A Teologia gosta de acordos. Faz acordos com tudo e todos. Quer acordos que permitam-na manter-se como pretende ser, "saber (?) revelado", auto-compreensão essa que, contudo, não sobrevive a meia hora de Psicanálise, a quinze minutos de História, a dois, de Exegese (claro, desde que estas não tenham, antes, assinado acordos). A Fenomenologia da Religião sabe a que se resume a Teologia - ela e todas as outras. Por isso, um milhão de teólogos não podem acrescentar um milímetro de validade a seus argumentos - se o jogo for o das Ciências, o do Saber. A Teologia deveria ter morrido quando Deus morreu. Mas ela sobreviveu a ele, o que é compreensível, já que é seu fundamento, e o ressuscitou. Todavia, tanto quanto o monstro de Frankenstein é pior do que um ser humano, o Deus ressuscitado, de "Mary Teologia Shelley", é pior do que o anterior, posto que, agora, um divinóide, um sagradóide, perambula, fantasmático, pelo mundo. Um Mestre Eckhart pediria a morte.

6. E, contudo, paz é possível. Basta que a Teologia opere sua auto-quenosis - honestamente, já que é impossível que a Fenomenologia da Religião creia em revelações, justo ela, que as reduz a sua instância fenomenológica. No que a Teologia vai se transformar, se aceitar o conselho da Fenomenologia da Religião? Só saberemos depois de ela ter passado (passará?) pelo ritual de iniciação humanístico-científico. A ecologia das idéias revelará o seu novo rumo. E nós, teólogos, o nosso.

7. Não sei quanto a você - eu conto as horas.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

(2008/14) Teologia, Exegese e Teologia Bíblica


1. Bem, Haroldo, ao menos pudemos ter acesso ao seu texto, nós, que não iríamos ao congresso. Há males que vêm para o bem. E, já que você quer conversar sobre isso, aceito deixar de lado - por hora - o tema do encantamento da Metáfora pela Teologia.

2. Aliás, pobre Exegese. Na "Teologia", a Exegese é muito mal-tratada. Hans Küng defendeu-a encarniçadamente, em Teologia a Caminho, a meu ver, o melhor momento desse tema no século XX. Mas ainda aguardamos que seja ouvido. A Teologia, como você diz bem, tem acordos e compromissos com a Metafísica e a Igreja, e não decidiu, ainda, sair em campo - os campos exegéticos. Ela gosta dos elíseos alegóricos, metafóricos, normativos. É ter paciência, e, em nosso metro quadrado, enquanto esperamos a conversão da dama, levar a Exegese a sério.

3. Já a Teologia Bíblica "resolveu-se". G. F. Hasel, eu concordo, descreve bem a crise de separação entre a Teologia Bíblica (TB) e a Teologia Sistemática (TS). Hasel discerne oito momentos, desde a Reforma, quatro deles até 1787: 1) TB como auxiliar da TS; 2) TB como fundamento (retórico!) da TS; 3) TB como rival - por causa da emergência do método histórico-crítico - da TS; e 4) TB como disciplina independente da TS - 1787, conferência de Gabler. Desde aí, a "Teologia" cindiu-se em duas áreas incomunicáveis - TB e TS. Na TB, tem havido tentativas de retorno (como o modelo "canonical approach", de B. S. Childs), que, ao fim e ao cabo, costuram relações implícitas com a "fé" constituinte da Sistemática. Retrocesso. A estrada crítica da TB, contudo, desembocou no que era de se esperar - História da Religião de Israel. Nesse campo, Exegese, Fenomenologia da Religião, História, Sociologia, Antropologia, Etnologia, Arqueologia são/contêm pressupostos, métodos e ferramentas imprescindíveis.

4. No ambiente "acadêmico", concordo com você, o problema é o corporativismo de certas metodologias. Penso que o modelo da transdisciplinaridade resolve isso - à custa, claro, de os pesquisadores tornarem-se transdisciplinares. A Exegese constitui - sem nenhuma sombra de dúvida - ferramenta de excelência para o acesso à Teologia Bíblica, ou melhor, História da Religião (e das Idéias) de Israel. Como aplicar Sociologia, aí, sem Exegese? Impossível - e há bons sociológicos que, contudo, não lidam bem com Exegese. A formação de um Exegeta impõem-lhe, necessariamente, abrir-se para o conjunto das Ciências Humanas de recorte indiciário (Ginzburg). Algumas dessas Ciências, contudo, permitem vícios de práxis e síndromes de auto-suficiência. Você está certo em apontar isso, em denunciar isso, e em postular a superação desse corporativismo academicista.

5. Seja como for, a Exegese encontra-se em sua fase madura - o que não significa que não deve, ainda, evoluir, muito menos ue estyeja pronta e acabada. Já a Teologia... Essa, sim, no conjunto das Ciências Humanas, onde foi instalada sem Consulta Pública, está deslocada, pelas justas razões que você indica - e que ela ainda não superou, nem dá ares de querê-lo (cf. minha crítica aos três artigos da Estudos Teológicos, 42/2, que se propuseram a discurtir o caráter epistemológico da Teologia em face do MEC).

6. Eu diria, então, rigorosamente em consonância com você, que: a) as Ciências da Religião, quando debruçadas sobre a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento, devem aceitar uma circunstancial orientação da Exegese - sem ela, nem têm como entrar lá; b) a Teologia, no MEC, no conjunto das Ciências da Religião, no concerto das Ciências Humanas, deve, imediatamente, depôr suas armas metafísicas, seus pincéis ontológicos, e iniciar-se no rito da quenosis científico-humanista - o tipo de teólogo que cabe aí é o pesquisador/filósofo/fenomenólogo, não (mais) o xamã/oráculo/sacerdote.

7. Uma ressalva, contudo. Ainda tendemos a gravitar em torno da Teologia "cristã". Não se poderia, mais, falar de Teologia, nesse sentido. Teologia, no MEC, deve constituir-se na forma de uma disciplina universal, onde devem caber todas as noologias mitológicas. Por enquanto, nem o MEC teve como resolver esse imbróglio - cada curso de Teologia ensine sua própria tradição. Foi um começo - mas temos de avançar para uma formatação do Curso de Graduação em Teologia que seja universal e científico-humanista ao ponto de independerem das tradições. Se, aí, houver disciplinas que estudem a modalidade própria das literaturas sagradas, a Exegese apresentar-se-á, pronta e madura para a tarefa. A Teologia está, ainda, longe, muito longe disso. Ou melhor - os exegetas estão prontos, mas os teólogos ainda têm saudades dos alhos do Egito...

OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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