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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

(2009/464) Teologia a Caminho, de Hans Küng


1. De todos os livros que li sobre "teologia e metodologia teológica", o único que eu recomendaria com gosto, com prazer, com brilho nos olhos e esperança é: Teologia a Caminho, de Hans Küng. Quando alguém quiser saber o mais próximo posível do que eu penso sobre o tema, é aí que deve começar - e o velho Hans Küng, e não eu (mas eu vou atrás) afirma que, além dele, o único que ele conhece que tenha tentado algo próximo é Edward Schillebeeckx, o que significa que o próprio Hans Küng deixa "astros" da Teologia fora de sua lista.

2. Telogia a Caminho é uma pérola. Não é definitivo. Mas é uma lufada de ar fresco no bolor do medievo...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 11 de abril de 2009

(2009/154) De Hans Küng e de uma "teologia científica"


1. Modo de dizer: eu "conheço" dois Hans Küngs - o de Teologia a Caminho e o de Por que ainda ser cristão hoje? O primeiro me agrada (mais). No que diz respeito a uma "teologia científica", e isso no momento em que, ciência, ela se deixa aplicar sobre as Escrituras (judaico-cristãs), Teologia a Caminho traça as linhas fundamentais do trato científico da tradição escriturística judaico-cristã - metodologia histórico-crítica (e seus desdobramentos) e pronto. Irrepreensível. Todavia, o Hans Küng de Por que ainda ser cristão hoje? afasta-se dessa abordagem científica, e dedica-se, engaja-se, na defesa de uma "atitude". O que é de direito, naturalmente, que minha defesa intransigente de uma "teologia científica" não deve ser interpretada como a restrição e a redução da vida humana à perspectiva científica. Contra o que me bato, e me baterei sempre, é uma teologia que se diz, sem o ser, científica, que dissimula sua condição epistemológica, e, por conseguinte, a forma como fala de si mesma, com argumentos tão rasteiros que causam constrangimento a quem domina um mínimo imprescindível das noções epistemológicas a respeito dos critérios de cientificidade. Não é necessário fazer-se cientista, mas aquilo que se faz cientificamente, deve-se fazer segundo as regras das ciências.

2. Para ilustrar uma indisposição minha contra o Hans Küng do Por que ainda ser cristão hoje?, indisposição que me parece plenamente justificada, seja-me permitido transcrever-lhe um trecho particularmente infeliz:

2.1 "Está claro que o nome de Pai atribuído a este Deus não é apenas um reflexo da experiência de paternidade, masculinidade, força e poder deste mundo. Não é nenhuma projeção que sirva somente para glorificar situações de pais e dominadores terrenos. Portanto, não como viu o antigo teólogo e mais tarde ateu, Feuerbach: um Deus do além às custas do aquém, às custas do homem e de sua verdadeira grandeza. Nem é um Deus, como o criticou Karl Marx, dos dominadores, das relações sociais injustas, da consciência deformada e da falsa compensação. Também não corresponde ao Deus rejeitado por Friedrich Nietzsche: um Deus fruto de ressentimentos, chefe supremo de uma moral do bem e do mal para miseráveis e marginalizados. Por fim também não é o Deus rejeitado por Freud e por muitos psicanalistas: um superego tirânico, falsa imagem de ilusórias necessidades infantis, um Deus de um ritual compulsivo oriundo de um comlexo de culpa (...).

2.2 Não, este Deus é um Deus diferente: um Deus que se coloca acima da justiça formalista, casuísta e impiedosa da lei e que manda proclamar uma justiça 'melhor', ou que chega mesmo a justificar os transgressores da lei. Um Deus para quem os mandamentos existem por causa do homem, e não o homem por causa dos mandamentos" (p. 40-41).

3. O leitor deve sabê-lo - Hans Küng está falando do "Deus anunciado por Jesus" (p. 39). É com esse "Deus anunciado por Jesus" que Hans Küng pretende interditar o "Deus" denunciado por Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud. Mais ainda: é por causa desse Deus, que Jesus anuncia, que Hans Küng ainda crê na possibilidade de ser cristão, e de isso fazer sentido.

4. Convenhamos, Hans Küng comete um equívoco retórico-epistemológco imperdoável. O "Deus" de Jesus não se encontra situado na mesma placa epistemológica que o "Deus" de Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud. Confrontar este com aquele é absolutamente improcedente e impertinente. O registro discursivo de Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud é não-metafísico. Eles não estão "olhando" para um Ser metafísico, ontológico, "divino", como se denunciassem a malvadeza de um ser "real", em oposição ao qual Hans Küng pudesse apelar para um outro Ser "real". Os românticos citados por Hans Küng dirigem-se à "representação" cristã, ao "personagem" do discurso cristão. Eles fazem crítica das idéias, não denúncia positiva de uma divindade eventualmente má. Em nenhuma hipótese clássica eles são "teólogos" - se bem que o seriam perfeita e pertinentemente bem na condição de uma "teologica (verdadeiramente) científica, porque, se não passar positivamente por eles, nernhuma teologia será científica. O método histórico-crítico, operado por uma atitude teológica clássica de fundo, é uma ironia.

5. Trata-se, aí, isto é, com Feuerbach e os demais críticos do discurso teológico, de uma interpretação fenomenológica e proto-científico-humanista do discurso cristão, da política cristã, da moral cristã, da psiquê cristã. Trata-se de dizer o que acontece, do que se trata, quando um cristão fala, age, julga ou sente sua "fé". Pensemos em Feuerbach, por exemplo: segundo os seus termos, o "Deus" que Jesus anuncia não passa de uma projeção de sua própria "teologia", em nada diferente, em termos de "processo", do Deus de Anás e Caifás, por exemplo, nem do de Herodes ou de César. O modo como Jesus pensa Deus, nos termos em que o concebe e denuncia Feuerbach - e espera-se ainda pela contestação! (pirraças de religiosos ofendidos não suspendem a validade epistemológica da afirmação de Feuerbach) - não é em absolutamente nada diferente do modo como, por exemplo, o próprio Hans Küng pensa. Se um é bom e o outro é mau, isso nada significa - em termos científico-humanistas, ambos são "hipóstases" antropológicas.

6. Assim, não faz nenhum sentido que Hans Küng confronte um Deus pensado como eventualmente boníssimo, gentilíssimo, pleno de misericórdia, com o "Deus" denunciado pelos autores que ele cita. Talvez Hans Küng pudesse contrastar esse Deus de Jesus com o Deus de Ratzinger, por exemplo, porque Jesus e Ratzinger encontram-se no mesmo topos epistemológico, ambos falam de uma entidade metafísica. Já Feuerbach e os demais denunciam que, seja esse Deus boníssimo, de Jesus, seja aquele crudelíssimo da Tradição inquisitorial da Igreja, seja o Deus católico, seja o Deus protestante, todos eles são, ao fim e ao cabo, "projeções" ideológicas da consciência humana. Eles fazem o que uma teologia científica deve fazer.

7. Se há diferença entre a bondade e a maldade?, entre a misericórdia e a legalidade?, entre o perdão e a condenação? Sim, há. Não há é diferença alguma entre o modo como se pensa um Deus de um tipo e o modo como se pensa um Deus do outro tipo. Uma atitude científica e crítica não pode cair na armadilha de confrontar diferentes modelos de Deus e, então, assumir e/ou propor um modelo bom, justo, libertário. Que diferença há entre, por exemplo, o catolicismo da Inquisição e o catolicismo da TdL? Apenas o plano ético. No plano epistemológico, nenhuma diferença - trata-se, em ambos casos, de projetos ético-políticos, legitimados por meio do mito de "Deus". Não penso que uma atitude científica condenaria o conflito político do confronto ideológico entre modelos de ética. Todavia, não me furtaria a denunciar, sob uma perspectiva científica, que ambos aqueles casos constituem exemplos de manipulação de consciência por meio do mito de "Deus", cada qual em face de seu respectivo programa ético, internamente legitimado, em face de cujo adversário, apenas, ele pareceria "imoral" (a Inquisição jamais se considerou imoral!).

8. Quando Hans Küng confronta o "Deus" de Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud com o "Deus" de Jesus, Hans Küng comete o equívoco de comparar grandezas epistemologicamente incomparáveis, porque situadas em plataformas pragmáticas diferentes. Este, é um Deus estético e político, uma verdade axiomática da fé, interposta a terceiros pela força persuasiva do carisma e da retórica mitológica. Aquele, a denúncia científico-humanista de uma rotina de projeção noológica de pulsões estético-políticas e sobredeterminação antropológica. Aqui, ciência, lá, política.

9. Uma política que se faça alijada de uma compreensão científica de sua própria ação, ainda que não se possa saltar, sem risco, da teoria para a prática, da ciência para a política, é, contudo, arbitrária. Hans Küng deveria confessar que se trata, também aí, também no caso do Deus de Jesus, exatamente do que o século XIX afirma quanto a todos os Deuses - invenção, imaginação, projeção humanas. Em vez disso, equivocadamente, transforma o Deus de Jesus numa espécie de exceção - a mesma exceção barthiana. É como se, à menção do Deus de Jesus, Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud fossem exorcizados, debandassem, atônitos, como diabos à visão da cruz, quando, a rigor, era o Deus de Jesus, conforme o concebe, ideologicamente, doutrinariamente, retoricamente, Hans Küng, que devia reconhecer-se na condição do que é - criatura humana.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

(2008/29) Um Jesus histórico contaminado pelos Cristos da fé?


1. Se eu me ativer à teologia cristã, o único livro que realmente considero - dentre os que já li - útil e promissor, é o Teologia a Caminho, de Hans Küng. De modo simples, a sua tese pode ser resumida da seguinte forma - a teologia (cristã) tem de ser histórico-crítica. Essa, ainda segundo Hans Küng (e eu a apoio), é a única que "deveria" estar na Universidade. É uma declaração radical, mas, no fundo, ela significa que a teologia ou é ciência, ou se torna ciência, ou não tem lugar nem voz na Universidade.

2. O próprio Hans Küng, entretanto, me deixou completamente desnorteado, e frustrado, com seu livrinho Por Que Ainda Ser Cristão Hoje? Disse que, depois de cento e cinqüenta anos de metodologia histórico-crítica, obtidas foram muitas informações "confiáveis" a respeito do Jesus de Nazaré - e essa é a razão fundamental pela qual "hoje (século XX/XXI), alguém, cidadão dessa época crítica, "ainda pode ser cristão".

3. Por que eu fiquei desnorteado? Bem - quer-me parecer que a única hipótese segura a respeito de um Jesus histórico é que ele teria sido qualquer coisa que não aquilo que Lucas e João dirão dele. Vá lá - que tenha se apresentado como messias (e messias judeu!), e que tenha sido acatado por uns e desacatado por outros nessa condição, isso pode constituir fato histórico - nascer de virgem e ser um super anjo um um ser divino, quero crer tratar-se de mitos desenvolvidos pelas comunidades de transmissão dos "querigmas". Ora, Jesus ter-se crido e ter encarnado o papel do "messias" judeu não o faz um Cristo da fé. Esse Jesus histórico é outro - não é o mesmo, os mesmos, Cristos da fé da história da recepção da "fé". Duvida-se? Sempre é bom duvidar.

4. O que me causa estranhamento é a percepção de que a busca pelo Jesus histórico esteja ligada a uma ideologia de fundo - se, de um lado, conduzir a pesquisa, partindo do Cristo da fé, e retornando ao Jesus histórico, se poderia depurar a última imagem dos acréscimos teológicos, traditivos, polêmicos, levados a termo pelas comunidades de fé dos cristianismos primitivos, de outro, o Jesus histórico resultante "ainda" constituiria a mesma "pedra" fundamental da fé cristã. Ou seja, o Jesus histórico é apenas um Cristo mais perfeitamente configurado para a fé contemporânea, mas, para todos os efeitos, a mesma realidade teológica.

5. Procede? Qui prodest? Pensemos, rapidamente, em Abraão. 1) Ezequiel reclama que "aqueles moradores das ruínas" alegam que a terra é deles, porque fora de Abraão, e, sendo eles, descendentes de Abraão, a terra é, então, deles; 2) Em Ex 6, Yahweh confessa a Moisés que Abraão não o conhecia, mas ele, Yahweh, já era o deus de Abraão, sendo que, contudo, conhecido por este como El Shadday; 3) Em Gn 12, Abraão é descrito a erigir um altar a Yahweh!. Ora, aí há um "Abraão" da fé (fé do templo - da golah), um Abraão da fé (fé do povo da terra) e um Abraão (eventualmente) histórico. Nos termos da fé do povo da terra, Abraão era adorador de outro deus - El Shadday (eventualmente, até, uma deusa, como se quer algures). Para a golah (os judeus "cativos" da babilônia), Abraão era um entrave a seus planos de reapropriação das terras perdidas. A solução é trazer Abraão para dentro da fé oficial - Abraão é cooptado. Preço: tornar-se javista. Eis Ex 6. Com o tempo, a conta de chegada de Ex 6 torna-se "tradição" - Abraão é javista desde que sai da "sua terra". Pode-se retroprojetar Yahweh até Enoque (Gn 4,26), e naturalmente, desenhar Abraão como um seguidor de Yahweh.

6. Pergunto: trata-se, aí, em cada caso, do mesmo Abraão? A investigação histórica pelo Abraão histórico faria/fará dele um Abraão equivalente ao Abraão da fé do Pentateuco? Ora, o que se constrói por meio de uma ideologia, só subsiste dentro dessa ideologia - fora dela, dilui-se, e retorna a sua condição pré-ideológica - eventualmente retornando à ideologia original. Não resisto - tudo quanto é sólido, desmancha-se no ar...

7. Não tenho nenhuma segurança quanto a crer ser possível reconstruir um Jesus histórico. Gostei muito de ler Joaquim Jeremias (que Edward Schillebeeckx, de quem Hans Küng disse ser, além dele mesmo, o único teólogo que praticaria teologia histórico-crítica, se serve, mormente quanto ao tema "abba"). Depois de um período de desjudaização de Jesus, levado a termo pela nata da exegese e da teologia alemãs (até onde o programa de demitilogização de Bultmann não tem fundamentos "nazistas"? Perguntem ao André Chevitarese!), torna-se mais compreensível o trabalho de um vida, como o de Joaquim Jeremias, que faz o Jesus histórico voltar a ser o judeu que, evidentemente, foi. As Parábolas de Jesus e Introdução ao Novo Testamento são obras respeitáveis - e as recomendo. Insegurança a parte, contudo, penso ser muito seguro afirmar que, por trás do Cristo da fé, o Jesus histórico nada tem a ver com o Cristo da fé, e a retroação da mística da fé ao Jesus histórico só é possível por fideísmo voluntarista, e, nunca, jamais, em tempo algum, por meio da aplicação da metodologia histórico-crítica - nem se Hans Küng, eventualmente, afiançar-no-lo.

8. Ora, a fé é auto-suficiente. Polêmicas, catequeses e apologias é que demandam silogismos viciados, argumentos tortuosos, convencimentos mágicos. Uma fé plácida e ciosa, apenas crê. Quer-se crer que aquela pessoa história, humana, demasiado humana, o Jesus histórico, seja o ovo natural, ontológico e teológico do Cristo da fé? Que seja. Mas, e isso é óbvio, nenhuma ferramenta histórico-crítica o demonstrará. O máximo que conseguiremos é construir uma hipótese plausível sobre uma provável configuração histórico-social daquele Jesus. E essa reconstrução plausível, se for usada para tão somente substituir, de forma mais purificada, mais depurada, mas burilada, o Cristo da fé - nicênico até a próstata -, eis meu veredicto: tanto esforço, tanto esforço, os montes entraram em trabalho de parto, e pariram um rato.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

(2008/14) Teologia, Exegese e Teologia Bíblica


1. Bem, Haroldo, ao menos pudemos ter acesso ao seu texto, nós, que não iríamos ao congresso. Há males que vêm para o bem. E, já que você quer conversar sobre isso, aceito deixar de lado - por hora - o tema do encantamento da Metáfora pela Teologia.

2. Aliás, pobre Exegese. Na "Teologia", a Exegese é muito mal-tratada. Hans Küng defendeu-a encarniçadamente, em Teologia a Caminho, a meu ver, o melhor momento desse tema no século XX. Mas ainda aguardamos que seja ouvido. A Teologia, como você diz bem, tem acordos e compromissos com a Metafísica e a Igreja, e não decidiu, ainda, sair em campo - os campos exegéticos. Ela gosta dos elíseos alegóricos, metafóricos, normativos. É ter paciência, e, em nosso metro quadrado, enquanto esperamos a conversão da dama, levar a Exegese a sério.

3. Já a Teologia Bíblica "resolveu-se". G. F. Hasel, eu concordo, descreve bem a crise de separação entre a Teologia Bíblica (TB) e a Teologia Sistemática (TS). Hasel discerne oito momentos, desde a Reforma, quatro deles até 1787: 1) TB como auxiliar da TS; 2) TB como fundamento (retórico!) da TS; 3) TB como rival - por causa da emergência do método histórico-crítico - da TS; e 4) TB como disciplina independente da TS - 1787, conferência de Gabler. Desde aí, a "Teologia" cindiu-se em duas áreas incomunicáveis - TB e TS. Na TB, tem havido tentativas de retorno (como o modelo "canonical approach", de B. S. Childs), que, ao fim e ao cabo, costuram relações implícitas com a "fé" constituinte da Sistemática. Retrocesso. A estrada crítica da TB, contudo, desembocou no que era de se esperar - História da Religião de Israel. Nesse campo, Exegese, Fenomenologia da Religião, História, Sociologia, Antropologia, Etnologia, Arqueologia são/contêm pressupostos, métodos e ferramentas imprescindíveis.

4. No ambiente "acadêmico", concordo com você, o problema é o corporativismo de certas metodologias. Penso que o modelo da transdisciplinaridade resolve isso - à custa, claro, de os pesquisadores tornarem-se transdisciplinares. A Exegese constitui - sem nenhuma sombra de dúvida - ferramenta de excelência para o acesso à Teologia Bíblica, ou melhor, História da Religião (e das Idéias) de Israel. Como aplicar Sociologia, aí, sem Exegese? Impossível - e há bons sociológicos que, contudo, não lidam bem com Exegese. A formação de um Exegeta impõem-lhe, necessariamente, abrir-se para o conjunto das Ciências Humanas de recorte indiciário (Ginzburg). Algumas dessas Ciências, contudo, permitem vícios de práxis e síndromes de auto-suficiência. Você está certo em apontar isso, em denunciar isso, e em postular a superação desse corporativismo academicista.

5. Seja como for, a Exegese encontra-se em sua fase madura - o que não significa que não deve, ainda, evoluir, muito menos ue estyeja pronta e acabada. Já a Teologia... Essa, sim, no conjunto das Ciências Humanas, onde foi instalada sem Consulta Pública, está deslocada, pelas justas razões que você indica - e que ela ainda não superou, nem dá ares de querê-lo (cf. minha crítica aos três artigos da Estudos Teológicos, 42/2, que se propuseram a discurtir o caráter epistemológico da Teologia em face do MEC).

6. Eu diria, então, rigorosamente em consonância com você, que: a) as Ciências da Religião, quando debruçadas sobre a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento, devem aceitar uma circunstancial orientação da Exegese - sem ela, nem têm como entrar lá; b) a Teologia, no MEC, no conjunto das Ciências da Religião, no concerto das Ciências Humanas, deve, imediatamente, depôr suas armas metafísicas, seus pincéis ontológicos, e iniciar-se no rito da quenosis científico-humanista - o tipo de teólogo que cabe aí é o pesquisador/filósofo/fenomenólogo, não (mais) o xamã/oráculo/sacerdote.

7. Uma ressalva, contudo. Ainda tendemos a gravitar em torno da Teologia "cristã". Não se poderia, mais, falar de Teologia, nesse sentido. Teologia, no MEC, deve constituir-se na forma de uma disciplina universal, onde devem caber todas as noologias mitológicas. Por enquanto, nem o MEC teve como resolver esse imbróglio - cada curso de Teologia ensine sua própria tradição. Foi um começo - mas temos de avançar para uma formatação do Curso de Graduação em Teologia que seja universal e científico-humanista ao ponto de independerem das tradições. Se, aí, houver disciplinas que estudem a modalidade própria das literaturas sagradas, a Exegese apresentar-se-á, pronta e madura para a tarefa. A Teologia está, ainda, longe, muito longe disso. Ou melhor - os exegetas estão prontos, mas os teólogos ainda têm saudades dos alhos do Egito...

OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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