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quarta-feira, 2 de junho de 2010

(2010/403) E o que tem a dizer-nos a Teologia?


1. "Durante muito tempo a teologia queixou-se do paradigma científico que não lhe reconhecia cientificidade e a relegava a um plano secundário, não lhe reconhecendo o direito a um discurso científico de conhecimento humano. Tal realidade imperou durante muito tempo e em diversos lugares, sendo que a teologia só podia falar para seus 'adeptos', pois seu discurso não era ouvido fora de seus muros. O reconhecimento oficial dos títulos e dos cursos de teologia significa que a sociedade, por meio de seu governo, reconhece à teologia amplo direito de cidadania, incluindo seu direito, talvez dever, de pronunciar um discurso que será ouvido pela sociedade, porque responsável, científico e autor de cultura e conhecimento" (Antonio Manzatto, A Teologia na Universidade - Perspectivas, Revista de Cultura Teológica, n, 69, 2010, p. 69).

2. A declaração consta do artigo citado. Originalmente, contudo, constou da "conferência (...) realizada no dia 29 de outubro de 2009, na celebração dos 60 anos da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo", a Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção. Agora, faz-se divulgar, na forma de artigo, guardada ainda, conforme nota lavrada na p. 63, na forma original da conferência. Digo-o, para que se reconheça tanto o contexto original da citação, quanto seu estado ainda preservado de "conferência".

3. E avanço. "O reconhecimento oficial dos (...) cursos de teologia significa que a sociedade (...) reconhece à teologia amplo direito de cidadania, incluindo seu (...) dever (...) de pronunciar um discurso que será ouvido pela sociedade, porque responsável, científico e autor de cultura e conhecimento". Alvíssaras! Oxalá! Não sei se é verdade que a sociedade esteja, de fato, interessado em ouvir qualquer discurso da Teologia. Mas confesso que, se estiver, e, dado que a Teologia está na Universidade, nada diferente se poderia esperar a não ser isso: um discurso científico e culto. O "alvíssaras" vai pela torcida quanto a uma possível consciência - finalmente! - disso. Não sei. O "oxalá" vai, justamente, por meu ceticismo. Sinceramente, não sei mesmo se a Teologia - e eu falo dos teólogos, claro, porque Teologia não há, o que há são teólogos - está mesmo interessada em discurso - de verdade - científico.

4. O próprio artigo, mais à frente, reconhecerá que a cientificidade da Teologia é uma cientificidade própria - "o trabalho teológico deve ser feito com rigor científico. A teologia não é simples enunciado da fé (...). Ainda que sua cientificidade lhe seja própria, deve ser respeitada por ela mesma, pois tal rigor lhe é exigido por seu próprio estatuto científico" (p. 70). Eu fico cá a pensar sobre o que quer dizer isso: uma cientificidade própria da Teologia... Ela não é uma das Ciências da Religião, logo, necessariamente, uma das Ciências Humanas? Se é, então não tem cientificidade própria. Se não é, não é científica. Assim, dizer que a Teologia tem estatuto científico pode ser a mesma coisa que afirmar que a Astrologia faz sentido. Faz. Claro que faz. A Teologia também. Se há inferno. Se há pecado. Se Deus é juiz - conquanto ame! Se Jesus é o único salvador... então faz sentido a Teologia... cristã. Mas se todos os ses que usei não passam de especulação metafísica, acabou-se o estatuto científico da Teologia.

5. Assim, voltamos ao início de minhas questões desde há algum tempo levantadas: a Teologia quer mesmo tornar-se ciência? Manzatto o deseja? Ou, no fundo, o que a Teologia quer é que seja reconhecida pelas Ciências a sua, digamos, peculiaridade "científica", a sua delicada idiossincrasia, qual seja: a fonte de suas verdades é a Revelação, as Escrituras, a Igreja? Justo! Legítimo! De Direito. De republicaníssimo direito - inalienável, até! Mas "científico"?

6. Por outro lado, esse parágrafo cairia como uma luva sobre os indicativos - todos - do Parecer CNE/CES n. 118/2009 - uma Teologia que parta de critérios e princípios acadêmico-críticos, científicos. E, no entanto, a Teologia "geme sob o peso da mão do Estado"... Ah, como dói o Parecer... E justamente por quê? Porque estabelecem-se aí obrigações contratuais à Teologia, que, a meu ver, mas posso estar enganado, vai-se saber!, pedem-lhe que se "submeta" à epistemologia das Ciências - com especial atenção ao princípio da exclusão do transcendente. Mas a especificadade da ciência teológica não seria, pergunto ingenuamente, justamente o fato de que, diferentemente das outras ciências científicas, a Teologia é uma ciência teológica, que, diferentemente das demais, não exclui o princípio da transcendência, porque, a rigor, é ciência da fé?

7. Da fé e do "magistério", ratifica o artigo, à p. 70! Eu entendo. Fala-se intramuros. Por isso, até, não se citam as Teologias não domésticas... Aliás, nunca. Até agora, teólogos só os há na Igreja, a crer nos artigos "teológicos"...

8. Fico por aqui. Naturalmente que provoco. É programática a provocação. Ainda vejo nu o rei, nua, a rainha. A Teologia está a fazer vergonha nos salões universitários. Como teólogo, envergonho-me. Perceba-se a transferência psicológica: envergonho-me, e transfiro minha vergonha a ela, à Teologia. É que eu queria que a Teologia cedesse. Mas, como eu disse, não há Teologia. Só há teólogos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 2 de maio de 2010

(200/362) Primeira reação ao post de Haroldo Reimer - (2010/361) Teologia heurística?


1. Porque a Teologia é, agora, uma coisa nova. Meu amigo Haroldo Reimer escreveu o post (2010/361) Teologia heurística? Que bom! Haroldo faz falta em Peroratio. Animo-me, quando ele escreve. E, particularmente em relação ao assunto que escolheu, minha animação é ainda maior. Encontro-me pulsionalmente envolvido com a quetão do estatuto epistemológico da Teologia, e, para esse fim, tenho-lhe proposto uma nova classificação - Teologia como ontologia (metafísica), Teologia como metáfora (narrativa) e Teologia como fenomenologia (heurística). O artigo de proposição formal sairá publicado na Revista Pistis & Praxis, da PUC-PR. Mas gostaria de reagir a algmas questões postas por meu amigo.

2. Antes de qualquer coisa: não se trata de uma nova classificação para a Teologia... cristã. Para mim, não há mais como falar de Teologia e, sub-repticiamente, subentender-se "Teologia cristã". Desde 1999, Teologia não é mais propriedade da Igreja - nem das igrejas. Ela passa a ser um conjunto de saberes e procedimentos sob a administração da República Federativa do Brasil, que é laica. Assim, a Teologia é uma disciplina oferecida seja por cristãos, por umbandistas, por kardecistas e por messiânicos, sempre por meio de IES credenciada pelo Governo Federal e de cursos autorizados/reconhecidos pelo MEC. Se continuarmos a insistir numa retórica de Teologia... cristã, sendo o contexto da discussão a sua análise epistemológica, incorreremos na anacronia de insistirmos na propriedade de uma coisa que não é mais nem apenas cristã nem mais (apenas) nossa. Teologia, agora, é multi-referencial.

3. A classificação que proponho não tem em vista uma Teologia cistã isolada. Te em vista a Teologia cristã mais a Telogia kardecista mais a Teologia umbandista mais a Telogia messiânica - emais qualquer outra que venha somar a essas quatro representaões traditivas. É necessário reconhecer que nenhum critéio de classificação até hoje elaborado atende a nossa situação. Nem mesmo o fato de a Teologia estar na CAPES há décadas significou alguma coisa de realmente concreto nesse cntexto, porque a Teologia enclausuou-se em seu mundo medieval, defendendo nucleos confessionais revelados e normativos, onde a regra do jogo fora, sepre, heurística e crítica. O evento significativo, aí, é a Graduação - um aríete nos ortões a Teologia. Teologia Sistemática de um lado, e Bíblica de outro, não atende o objeto novo que é a Telogia no MEC. Quando por nenhuma outra razão, porque não há Bíblia na Umbanda!

4. Insito, portanto: é preciso uma classificação nova, sob novos enfoques, sob novos critérios, sob novos pressupsotos, porque a situação é nova, o objeto "Teologia" é outro, é novo, não é mais aquele com que trabalhávamos. Não nos demos conta, mas a Teologia não é mais aquilo que fazíamos, aquilo que chamávamos pelo nome que Platão parece ter "inventado". Teologia é outra coisa, agora, e precisa dizer o que é. Se posso empregar uma metáfora analógica: o ladrão entrou pela janela, e levou tudo, e não nos demos conta... O Filho do Homem veio em hora em que nos descuidamos... Acostumados à pregação da súbita parousia, fomos é nós mesmos pegos desprevenidos - pior, ainda estamos esperando Deus sabe pelo que... Entendamos de uma vez por todas: o mundo antigo se foi - com o MEC, tudo é novo. Pouca coisa "velha" há de servir, e também aí cabe a metáfora dos odres velhos e remendos novos...

5. Sim, a Exegese já se emancipou - "graças a Deus". Ainda há rincões teológicos que emcabrestam a pática exegética, atrelando-a à Teologia, a velha. Mas aí não se pratica Exegese, de fato. Aí se domestica um processo, como se domesticam pessoas, onde quer que a Teologia encene sua dança milenar. A Exegese aproxima-se da História, da Arqueologia, da Análise do Discurso (logo, da Lingüística), da Filologia, e, por necessária extensão, da Antropologia e da Sociologia, sem negligenciar, nem por um segundo, a Fenomenologia da Religião. A Exegese já está em casa, e só não avançou ainda mais significativamente porque, do lado da Teologia, ainda encontra reações conservadoras que emperram seu avanço independente, e, do lado da História e suas co-irmãs, encontra a suspeita de que ela ainda seja uma espécie de Teologia disfarçada. A Exegese, contudo, quando praticada como tal, está a anos-luz de distância da Teologia tal qual ela é praticada ainda hoje nos ambientes confessionais - incusive a CAPES.

6. Já a Teologia precisa achar seu rosto. Isso não significa que ela precisa convencer ao MEC de que, tal qual ela é e se faz por exemplo, na CAPES, ela é "ciência" - porque não é. Não é nem quer ser. Como Haroldo comenta no início de seu post, os eixos epistemológicos científico-humanistas impostos pelo PARECER CNE/CES 118/2009 constrangem a Teologia justamente porqe ela não tem o perfil apropriado do jogo científico, e, diante daquela exigência, que a uma ciência significaria seu próprio pathos, ela, contudo, sente-se afrontada.

7. Na próxima reação, responderei a duas questões que meu amigo levanta: a) qual a real diferença entre uma teologia metafísica e uma teologia ontológica, e b) o que é que uma teologia heurística pensa que poderá/irá descobrir?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 21 de março de 2010

(2010/246) Teologias à luz da Física de Galvão Bueno


1. É óbvio que tudo o que vier adiante é ironia rasgada, de modo que não vá perder seu tempo com análises profundas e reflexões sofisticadas. Estou "zoando" com (um)a (certa) Teologia - e é só isso. Comecemos da seguinte maneira: assista à essa pérola do rei dos locutores da TV brasileira - Galvão Bueno. Depois, então, conversamos. Vai lá e volta.

2. Bem, antes de recomeçarmos, quero pedir minhas sinceras desculpas por fazê-los assistirem ao Galvão - eu sei, isso custará noites não dormidas. Mas a causa é boa. Perceberam que Galvão tem um Física própria? Você olha a imagem, vê claramente a bola saindo do campo, fazendo uma curva no ar e retornando para dentro das quatro linhas. Qualquer moleque sabe fazer isso. Aliás, quero ver é um moleque fazer a bola seguir reta no espaço! Mas, como o rei dos locutores já havia dito que era impossível, nem Deus vai demovê-lo - é impossível, e pronto. Há uma Física da Natureza, há uma Física do futebol, tributária daquela - e há a Física do Galvão, baseada na sua autoridade de dizer o que considera ser o que deve dizer, e diz porque é quem é - o rei da cocada preta...

3. Isso me faz pensar na Teologia - mesmo a que está no MEC. Lá atrás, há séculos, ela era uma espécie de câmara hiperônima para todas as outras modalidades de acesso ao "real". Uma a uma, as ciências foram saindo de dentro dela, mesmo a Física do cristianíssimo Newton. Mas, à medida que iam nascendo, as ciências logo percebiam que sua mãe não entendia bulufas dos novos campos do saber, e, quando "entendida", esforçava-se sobre-humanamente para impedi-las de continuarem vivendo, tão nocivos são os filhos para certos tipos de pais.

4. Não demorou muito para que as ciências - todas - abandonassem o lar teológico. Emanciparam-se, digamos. Mas a Teologia fingiu que não viu. Mais - tratou de considerar essa debandada uma espécie de motim, de rebeldia. Além disso, a Teologia manteve suas próprias "ciências", que usa em suas argumentações e fundamentações. A Teologia, por exemplo, tem sua própria Antropologia, que ela chama de Antropologia Teológica, e, ainda mais acintosamente, Antropologia Missionária (com recurso ao Geertz, acreditem-me!). A Teologia tem sua própria Sociologia. Tem sua própria Biologia. Até Física Quântica, agora, ela tem... Você ouvirá os argumentos "científico-humanistas" da Teologia, e ficará de cabelo em pé - onde raios estudou essa senhora? Em Nicéia, ora, onde mais?, em Latrão, em Éfeso, e, mais recentemente, para desespero da Exegese, na "Bíblia".

5. Se você não está a fim de levar o dia muito a sério, se está a fim de divertir-se um pouco, com humor de quinta, mas até humor de quinta tem lá suas vantagens, é recomendável asistir a aulas de Teologia cujo eixo de articulação seja a tradição e a confissão a qualquer custo. Se você sai de uma aula de Psicologia, e entra numa aula dessas, acredita que foi abduzido! Aí, na hora, você lembra do Galvão e de sua Física particular - a Física do Galvão é consoante sua própria necessidade, assim cmo as "ciências" da Teologia são construídas sob medida para os planos de aula...

6. Aí você entende por que a Teologia, essa, de inventar para si uma ciência paralela, odeia, com ódio de morte, o século XIX. É preciso matar a ciência no seu nascedouro. Mas mais do que isso: assim como o sacerdócio teocrático e hierocrático de Jerusalém cooptou a imagem dos profetas, para fazer deles garotos-propaganda do projeto sacerdotal, vendendo-o como se fora profético desde o berço, desde sempre, é preciso que a Teologia, mais do que assassine, coopte as ciências, fazendo crer a incautos que cada linha das Fundamentais, das Sistemáticas, das Dogmáticas, tem fundamento científico. É por isso que nos artigos que defendem o estatuto - atual - epistemológico da Teologia no MEC asseveram que foi um erro do Parecer 118 não incluir um eixo epistemológico teológico entre os eixos estabelecidos no voto - é que a Teologia acha que ela pode não apenas estabelecer sua própria Antropologia, sua própria Sociologia, sua própria Psicologia etc., mas, o que é pior, que pode impôr-se sobre as Ciências a partir de sua perspectiva "divina" - fala sério! Só a pretensão da Teologia em constituir-se como visão "divina" já a coloca como fortíssima candidata ao troféu Física do Galvão...

7. Cabe a Teoloia, e agora falo sério, "abaixar a bola", reconhecer-se em formação, considerar que os cem mil anos de sua existência geral e os dois mil de dua existência cristã não emprestam fundamentos confiáveis para sua inserção no rol das ciências universitárias. Como ao Galvão caberia pedir tira-teima e constatar que a bola saiu, sim, em lugar de inventar, ad absurdum, uma Física particular, cabe à Teologia reconhecer que ela deve, ainda, descobrir do que realmente ela entende - que outros não entendam, mas podem entender -, reconhecendo, conseqüentemente, que, daquilo que faz parte do mundo real - dos homens aos cosmo - não será ela, em hipótese alguma - a dar explicações...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. Como a Teologia tem sua própria Gramática, deixem-me esclarecer uma coisa. Na oração "aulas de Teologia cujo eixo de articulação seja a tradição e a confissão", o fato de não haver virgula entre "Teologia" e "cujo" significa que se trata de um tipo de Teologia, dentre outros tipos possíveis. Fica, pois, pressuposto que há Teologias que são assim e há Teologias que não são assim. Se eu tivesse empregado vírgula, transformaria o discurso a seguir em aposto, o que caracterizaria, de pronto, toda a Teologia. Mas o bom leitor saberá entender, gramaticalmente, que estou "zoando" com um tipo de Teologia - um tipo... A afinal, sou teólogo...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

(2010/103) Uma questão sobre "pós-modernidade"


1. Minha amiga Mary Rute Gomes Esperandio teve publicado, na série Para Entender, da Sinodal, sua obra Para Entender Pós-modernidade. Adquiri-o da autora, quando nos conhecemos, acho que há dois anos, talvez três - não mais que isso. Os leitores de Peroratio sabem de meu, digamos, desconforto, em relação aos postulados de uma aventada presente era pós-moderna e, mais do que isso, de pronunciamentos que se fazem imaginar saídos de dentro da própria pós-modernidade, send assim, circunscrevendo-me - na verdade, a todos - em sua ótica de degelo crítico.

2. Não se trata do caso da obra de Mary Rute, posto que Mary tenta explicar para nós do que se está falando, afinal, quando se fala em "pós-modernidade" - logo, trata-se de uma tentativa - crítico-descritiva - de apresentação de um tema-objeto. Nos termos de minha colega: "dei-me conta de ter feito nesse estudo uma 'cartografia da subjetividade contemporânea'". Imagine-se uma cartografia onde o leste fica, digamos, a critério do observador (por favor, amigos, sem a "brincadeira" de que o meu leste é o oeste japonês: no milímetro que me separa de Bel, em nossa cama, há um espaço que é meu leste e o oeste dela).

3. Feita a distinção entre a obra em si e os postulados da própria "pós-modernidade", que Mary procura descrever, gostaria de deter-me sobre um parágrafo, que transcrevo:

Diante disso, podemos pensar que os mesmos elementos - abordados sob diferentes formas, diferentes enfoques e por teóricos diferentes - permitem conclusões por vezes distintas, o que, em princípio poderia nos confundir e desestimular. Contudo, eles nos ajudam a ampliar a nossa compreensão do tema, elaborar algumas conclusões e perceber que as mais diversas perspectivas se constituem exatamente nisto: não em verdades totais e absolutas. São verdades perspectivas, que evidenciam o que somos capazes de construir hoje. Neste sentido, trata-se de verdades limitadas, frágeis, temporárias, permanentemente criadas e recriadas, que possibilitam por isso mesmo, o enfrentamento de nossa própria constituição subjetiva e nos ajudam a construir estratégias de luta no processo de afirmação criativa da vida (Mary Rute Gomes Esparandio, Para Entender Pós-Modernidade, Sinodal, 2007, p. 47).

4. Talvez seja o modo como eu entro no parágrafo, minha prevenção psicológica contra o tema. Antecipado um provável diagnóstico, registro um certo desconforto diante do parágrafo. Talvez eu ainda o tenha ampliado para além de seu objetivo imediato, mas a "tese" pós-moderna de "verdades perspectivas" me parece ambígua. Ao menos, para ser mais comedido, insuficientemente explícita.

5. Para o dizer de modo bem claro, recorro, de novo, à Pragmática. Tomem-se os trêas elementos constitutivos das ações humanas - o sujeito, o mundo, os outros. Do ponto de vista do sujeito, há, portanto, três ações/relações humanas pragmaticamente possíveis - e só três. Ele e ele mesmo. Ele e os outros. Ele e o mundo. "Mundo" aí resume-se aos arranjos físicos da Tabela Periódica - longe das semânticas de João ("Deus amou o mundo") ou da Hermenêutica ("o homem é o animal que cria mundo"). Mundo, aí, é o Universo físico.

6. Ora, a minha relação - se honesta - com o mundo, dá-se por meio do critério crítico-heurístico de que é o mundo, e não minha subjetividade (conquanto ela aja sobre ele), o determinante da verdade. Quando alguém me ouve falar sobre o mundo - e essa fala se dá na dimensão de dizer ao outro o que o mundo é - cabe a ele não apenas ouvir as minhas palavras (já que o mundo não fala de si nem por si, somos nós que criamos as nossas falas sobre o mundo), mas, ainda mais necessariamente, checar a coisa dita no próprio mundo. Não vale, aí, absolutamente nada, a minha subjetividade. Malgrado sua operação metodológica insuperável, ela, aí, é estorno. É para além de minha subjetividade que a verdade do mundo se deve expor. Não é por meio da subjetividade humana que colocamos satélites em órbita, localizamos pontos específicos nas coordenadas planetárias e chegamos a localizar navios afundados - seja esse ponto específico o norte africano ou o sul europeu - o Egeu está naquela específica coordenada...

7. As relações sujeito - sjeito, aí, sim. O que eu digo de mim, em termos dessa relação estética, tanto faz. O que eu vejo numa obra de arte, sob o olhar estético, é de mim que vejo, de modo que, em eu dizendo que O Apanhador do Campo de Centeio me inspira depressão, alguém que queira argumentar comigo que a obra não causa depressão é, para ser direto, um parvo. Na relação estética, não vem ao caso o objeto-espelho: trata-se sempre de um encontro de mim comigo mesmo, de modo que os efeitos estéticos são, todos, subjetivos. Não há verdades nesse ambiente, apenas impressões e efeitos subjetivos - mas aqui, sim, poderíamos falar de "perspectivas", as quais, anote-se, porque voltarei ao tema, jamais podem ser conferidas no "objeto" (nem mesmo por meio de "outras" impressões subjetivas), porque estavam, já, de minha posse, constituindo-se o objeto como mero catalisador.

8. As relações do tipo sujeito - outros, isto é, relações políticas - são, ainda, de outro tipo, porque o que está em jogo aí, sempre, é o confronto entre (pelo menos) duas subjetividades-vontades. Logo, não se trata nem de "verdade", nem de "impressão", mas de jogo social, "agonia" de pôr-se face a face com o outro para a negociação - seja por quais meios, da mais "civilizada" democracia parlamentarista até a mais troglodita manifestação da força bruta. Nesse tipo de relação, as impressões podem pesar, dependendo do jogo político - "viver e deixar viver". Ou podem, simplesmente, não valer nada - o tipo de educação "vitoriana", por exemplo, de inculcação de valores tradicionais, normativos e coercitivos.

9. Voltemos, pois, à questão das "perspectivas", quando o assunto é o "conhecimento", a "verdade". Não é possível que afirmações contrárias, no mesmo nível das emergências físicas, sejam igualmente verdadeiras. É verdade que, se considerarmos níveis de realidade muito diferentes, por exemplo, o nível quântico, o nível "newtoniano", o nível astrofísico, possa haver - e há - afirmações que, num nível, comportam-se como negação de verdades de outro nível. Mas, no mesmo nível, o real não se contradiz a si mesmo. Nesse sentido, as verdade co-nivelares acerca do real podem ser perspectivísticas em termos metodológicos, mas, em termos estritos, não.

10. Talvez eu esteja tocando o tema da "compatibilidade". Pensemos as diversas disciplinas científicas como "persepctivas" sobre o real. Ora, nesse sentido, metodologicamente falando, o acesso ao real se dá, previamente, por percursos traçados por acordos de perspectiva. Todavia, uma verdade sociológica, digamos, não será, contudo, verdade alguma, se ela não o for, igualmente, uma verdade antropológica, ou psicológica, ou hermenêutica, ou histórica. Concordo plenamente com Jérôme H. Barkow, quando ele afirma: "eu coloco como exigência que toda explicação sociológica da ética seja compatível com as teses psicológicas da ética, e que estas sejam compatíveis ao mesmo tempo com as neurociências e com a biologia da evolução" (Jérôme H. Barkow, Règles de conduite et conduite de l1évolution. Em: Jean-Pierre Changeaus (org), Fondements naturels de l'étjique. Paris: Odile Jacob, 1993, p. 89, apud François Dosse, O Império do Sentido - a humanização das Ciências Humanas. EDUSC, 2003, p. 265). Ora, se cada ciência, se cada "verdade perspectiva", estiver fechada em si mesmo, que critério crítico-heurístico temos para nos certificar da validade das proposições ditas "verdadeiras"? A subjetividade pós-moderna?

11. Assumo, pois, dois postulados metodológicos - bem sabido, quando se trata de heurística, pesquisa crítico-investigativa aplicada ao "real" (em sentido amplo - ciências duras, moles e cognitivas). De um lado, o real é o crivo crítico do processo. É ele, não apenas o objeto, mas, aomesmo tepo, o critério objetivo crítico para a verificação das aplicações teórico-metodológicas. De outro lado, as abordagens disciplinares ao real, carregadas que são por sua dupla seccão - secção hermenêutico-subjetiva da consciência humana e secção teórico-metodológica disciplinar - devem-se mútuia satisfação, irrecorrivelmente, de modo que não tem valor a proposição de uma disciplina, qualquer quer seja ela, que não se subestabeleça no conjunto das demais abordagens crítico-heurísticas ao real.

12. No meu entender, portanto, "verdades perspectivas" não constitui uma expressão válida para o real, mas sobre um certo momento do jogo científico, constituindo não o estado essencial da "verdade", mas um, digamos, momento, do processo. O objetivo das ciências, das aproximações ao real, não é construir verdades perspectivas - é construir modelos teórico-metodológicos adequados, em todos os sentidos, ao real tal qual ele se manifesta. O sonho de uma teoria acerca do real não pode superar, é verdade, a necessidade eventualmente inexorável das abordagens parciais. Contudo, as abordagens parciais - as "verdades perspectivas" - não podem assumir o posto de norma da pesquisa.

13. O erro da "pós-modernidade", enquant tese, é não distinguir entre as operações heurísticas, estéticas e políticas. Fazendo de toda operação humana uma operação só, começa por perder a base de operação crítica e termina por traduzir em dissolução de toda a crítica as suas proposições - porque o modo de tornar óbvia a sua perspectiva é dar a todos que olhem o seu próprio modelo pós-moderno de olho - desde que, é claro, ninguém reclame da miopia adquirida... Quase chego a suspeitar de que a pós-modernidad pensa-se sob o modelo das discussões de diálogo interreligioso, se me faço entender... Cuida-se que se encontra a paz escondendo a guerra sobre o tapete...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

(2010/034) Tem certeza? [Haroldo, help!]


1. O número 26, último de 2009, da revista digital CiberTeologia, da Paulinas, dedicou-se ao problema da Teologia no MEC, especificamente aquele mais recente, decorrido do PARECER CNE/CES nº 118/2009. No primeiro artigo da revista - Desafios de um empréstimo epistemológico: considerações sobre o Parecer 118/09 do Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Superior (CNE/CES) referentes aos bacharelados em Teologia - de João Décio Passos, leio - entre surpreso e em dúvida:

Os Pareceres, ao evitarem, ao que parece apenas por razões políticas, a elucidação dos fundamentos epistemológicos da Teologia, adotaram um conceito da mesma que, a despeito de sua idade como área de conhecimento, dos paradigmas e métodos historicamente constituídos, dos profissionais socialmente reconhecidos e da rica produção acadêmica, incluiu em sua extensão politicamente correta uma incorreção fundamental: todo discurso religioso institucionalizado na forma de curso vem a ser Teologia. Essa compreensão produziu uma indistinção epistemológica que desembocou na busca de parâmetros mais precisos para os cursos teológicos, o que gerou o Parecer 118/09.

2. "Essa compreensão produziu uma indistinção epistemológica que desembocou na busca de parâmetros mais precisos para os cursos teológicos, o que gerou o Parecer 118/09". Tem certeza? As informações de que disponho dão conta de outro cenário - o Parecer 118/2009 teria atendido à demanda do CNE em face de representação da Prof. Drª Marilena Chauí que, em face da esculhambação ("esculhambação" vai por minha conta e retórica) dos cursos de Teologia, propunha a suspensão da Teologia como integrante do Sistema Federal de Ensino. Não é que se tratasse de um problema de "indistinção teológica" - tratava-se, antes de um absoluto desrespeito às regras do jogo científico, da defesa provinciana e partidária de privilégios epistemológicos inadmissíveis no jogo acadêmico, tudo isso coroado por um corporativismo histórico.

3. É bom verificar. Apostaria na imprecisão do artigo. Não se trata de uma questão "epistemológica" trazida à tona. Sim, a questão "epistemológica" está aí, instalada, mas, a rigor, sempre contornada, e, a depender dos teólgoos, não será levada a termo, salvo, naturalmente, na defesa de uma epistemologia privada, "teológica", "compatível" com a especificidade da Teologia (faz-me rir!). Se estou certo, se Chauí gostaria, mesmo, de ver a Teologia enxotada da Universidade - e ela tem boas razões para isso! -, o Parecer pode ser lido como, até, conservador, conquanto seja, a rigor, uma sinuca de bico - bem dada! - na Teologia: ou aceita jogar o jogo das ciências, e eis, reiteradas, as suas regras, ou, por sua própria vontade, sai fora...

§ único - oficialmente, o próprio Parecer "se explica". Durante as discussões relativas ao credenciamento da Faculdade de Teologia Messiânica, levantou-se a questão de se uma Faculdade poderia ser credenciada apenas com base em Teologia. Essa é a versão oficial. Seja como for, não se trata de uma questão de imprecisão epistemológica. O problema é muito mais profundo do que isso.

4. Eu espero - mas não vejo muita boa vontade da parte da comunidade teológica, a rigor, em sua esmagadora maioria, comprometida mais com a Igreja do que com o Teologia - que a Telogia aceite o jogo...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2010/032) Das metafísicas - distinção de termos


1. O termo "metafísica", levado ao pé da letra, pode significar tudo quanto esteja acima da Tabela Periódica: não é constituído de átomos, é metafísico. A Matemática, por exemplo, que, a rigor, só existe como sistema abstrato na consciência do matemático e de seus interlocutores humanos. A música, conquanto seja "matemática em dança erótica", é física, não metafísica. Quer dizer, é psico-física, já que as ondas sonoras (física) devem zser/são interpretadas pela psiquê humana. A imaginação, em si, é física, porque é o cérebro quem a produz, como no caso da matemática, também. No entanto, o "produto" dessa operação, as "imagens em ação", são metafísicas, como os mitos, por exemplo.

2. Assim, os componentes da Teologia são, a rigor, metafísicos, conquanto seja o cérebro humano que a produz. Não há teologia que anjos façam - nem deuses -, porque anjos são metafísicos, e a teologia é produção neuronal humana... No caso cristão, da teologia, quero dizer, o Jesus histórico é físico, o da fé, metafísico.

3. Eu acho curioso que se tente, aqui e ali, tratar toda a metafísica como se fosse a mesma coisa. Mas não é, não. Quando a ciência exclui a metafísica, ela não exclui tudo quanto é supra-físico, porque a ciência, sem a matemática, fica muito, muito, muitíssimo reduzida - algumas de suas expressões resultam, inclusive, impossibilitadas. As ciências não operam, e nisso estão certas, é com os conteúdos imaginados, as mitologias, as doutrinas, as "revelações".

4. Imagine a ciência tentando compreender o planeta... por meio de Gênesis! Não dá.. Isso não tira o "valor" de Gênesis, mas ensina algo sobre como somos cabeças-duras, teimosos até o absurdo, capazes de fecharmos os olhos, os ouvidos, o coração, e nos agarrarmos a "narrativas" absolutamente dogmáticas, como se o próprio Deus no-las houvesse contado... A Teologia é, mesmo, uma fábrica de cabeças-duras. E, talvez, o pior de tudo, é que a Teoloia, envolvida que é, sempre, com o Poder, acabe cercando-nos de medo - medo de Deus, medo dos sacerdotes, medo das Normas.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

(2009/609) Uma gota agônica...


1. Essa fotografia me fez lembrar de mim mesmo, uma pequena, muito pequena, gota, caindo no mar da vida, no Mar da Teologia, pugilista da retórica e da epistemologia... Risível, sob um aspecto, artístico, sob outro, no frigir dos ovos, afinal, uma fatalidade, uma singularidade. A gota tenderá a diluir-se, a misturar-se, numa osmose líquida. Mas esse instante de luta e enfrentamento é o que deve ficar na retina de tantos quantos ousem aproximar-se da questão crucial da Teoloia hoje - ela vai transformar-se em ciências, finalmente, ou vai arrastar consigo todo mito medieval de volta à sua casa medieval? Que, amanhã, alguém assuma a responsabilidade de lembrar a todos que um pugilista pôs-se em guarda contra toda e qualquer tentativa de reacionarismo e retrocesso, ali, onde apenas avançar era concebível...


"Reminded me of a little sea creature coming up from the depths just ready for a fight".



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

(2009/602) Teologia na CAPES é fé cristã?


1. Bem, se o critério com base no qual se deve responder a pergunta é a entrevista concedida por professora doutora da PUC-Rio ao Jornal Folha Dirigida, sim. (1) Felizmente que nem todo teólogo se pronunciará em sintonia com tal entrevista. Ao menos não os teólogos de nova safra, "compatíveis" com sua inserção na academia - no MEC. Seja como for, confirma o que venho dizendo em Peroratio - a Teologia na CAPES nunca se deu por rogada: fez-se e faz-se, hoje, agora, nesse minuto, diante das "autoridades", diante dos olhos do mundo, "fé" e "confissão" - e o que é imensamente pior, deletério e revelador da invisilibidade que o "outro" tem diante do "cristão": "fé cristã"...

§ o "outro" só existe para o cristão como objeto: seja objeto da conquista para a fé, seja objeto para o exercício do amor e da caridade. Mas o "outro" não tem direito à existência própria e livre, e, quando o tem, é pecado e mazela. Na CAPES, no MEC, a boca torta da Teologia, há séculos fumando o charuto do solipsismo teológico existencial, ainda nomeia Teologia como "coisa de cristão". Isso me faz pensar que Teologia cega... A depender de mim, insistirei na denúncia desse pecado epistemológico, dessa blasfêmia civilizatória.
2. "Na minha concepção, em primero lugar o estudante de Teologia deve ser uma pessoa de fé cristã". Obviamente que, se uma tal "concepção" tiver algum fundamento - e não tem felizmente - o MEC estaria em paupos de aranha, posto ter credenciado falsas faculdades de teologia - kardecista, messiânica e umbandista. Falsas, sim, porque, se teologia é fé cristã, uma vez que não são cristãs tais faculdades, não podem ser "teológicas", como dizem ser:

§ Curso de Graduação em Teologia - Faculdade Mesiânica!
Curso de Graduação em Telogia - Faculdade Umbandista!
Curso de Gradução em Teologia - Faculdade Leocádio José Correia (kardecista)

Não - definitivamente - Teologia não é (mais) coisa [só] de cristão...
3. Haroldo, dias desses, lembrou-me de que não era nenhuma novidade a Teologia no MEC, porque ela já estaria no MEC desde a CAPES... Bem, meu amigo, eis a Teologi ada CAPES. Não apenas é pré-moderna, medieval, confessional, normativa, como ainda é desatenta, descuidada, para não dizer, arrogante. Esquece-se de que a fé cristã não é mais snônimo de teologia, se algum dia foi. Teologia é outra cosia, we, certamente, não mais fé crista.

4. A CAPES não conseguiu fazer nenhuma transformação na Teologia, porque a Teologia constriu, na CAPES, um "gueto", um compartimento protegido, isolado das Ciências Humanas, onde é ela, a Teologia, quem faz Antropologia, Sociologia, Psicologia, onde os teólogos dobram as disciplinas segundo o tamanho da gaveta teológica, quer duizer, que faz que faz, porque a Antropologia que aí se faz não é, sob nenhum critério, Antropologia, nem a Psicologia que aí se faz é, sob alguma base, Psicologia - as Ciências Humanas são, aí, subvertidas, corrompidas, cooptadas, violentadas, ad maiorem Dei gloriam... Pena que a glória de Deus é, quase sempre, o aviltamento do homem.

5. Não, profesora, não, não. O estudante de Teologia, no MEC, não precisa, não, ser uma pessoa de fé cristã. Pode até ser de fé umbandista, também, messiânica, se quiser, kardecista, que seja. Mas, a rigor, nem precisa nem ser de fé, pode ser atéia, cética. Aliás, nem mesmo os professores precisam ser homens e mulheres de fé, podem ser até ateus, e céticos. MEC não é catequese - e se é, é crime. Academia, CAPES, MEC - nada disso é Igreja, é Roma, é Wittenberg, e, se for, pára o mundo que eu desço.

6. Não me espanta, nem um pouco, que a Professora Chauí tenha proposto que a Teologia seja retirada do MEC. Na condição de filósofo, eu não pediria outra coisa. No entanto, na condição de teólogo, quero a Teologia no MEC. Mas não essa teologia aí, de fé e confissão, pelo amor de Deus! Quero uma Teologia que se transforme - está longe de o ser - em Ciência Humana. Para isso lutarei. Que a fé fique lá, quietinha, onde pode e deve estar - na consciência individual das pessoas: mas não, de forma alguma, na base do critério da teologia acadêmica.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(1) Folha Dirigida. Caderno de Educação. Especial Carreiras. 01 a 07 de outubro de 2009. p. 2.
PS. instado a comentar-me, Jimmy disse-me ter percebido um tom inquisitorial em meu comentário. Reli o texto. Alterei a segunda expressão do primeiro parágrado. O restante não me pareceu a fala de um inquisidor. Disse-me, ainda, que não ter revelado o nome da professora poderia ser considerado ainda mais constrangedor. Bem, nada me faria deixar de mencionar o nome da professora, salvo, e foi o caso, justamente o fato de que eu lamento veementemente a declaração, mas não a declarante. O fato em si é relevante, o fato de que se trata de um pronunciamento de uma professora da PUC-Rio, logo, de uma profissional vinculada ao MEC e à CAPES. Contudo, o nome da professora é irrelevante. Não é o fato de ter sido a professora xis a dizê-lo, mas o fato de ter sido uma professora.

(2009/601) Considerações de calendário


1. Do século XVI até o XVIII, dá-se, no centro do mundo ocidental, a invenção do Protestantismo. Trata-se de uma "nova" - não "neo" - ortodoxia. Mas com potencialidades iconoclastas embutidas em seu DNA crítico-aristotélico.

2. Durante os duzentos e cinquënta anos seguintes, o Ocidente ver-se-á no centro de um conflito epistemológico grave: a ortodoxia católica, protestante e judaica, de um lado, debatendo-se contra o vírus crítico-emancipatório inoculado, desde a Península Ibérica, pelos árabes (Aristóteles), na veia da cultura, da arte, da ciência - da teologia.

3. A teologia racha. A Bíblia racha. A cultura começa a rachar.

4. De 1750 até 1850 eclode o império da crítica, da filologia, a concepção embrionária das Ciências do Homem, paralelamente à solidificação, desde a Inglaterra, das Ciências da Natureza. No meio do caminho, a Revolução Francesa. Eclode o Século - isto é, no quesito "crítica", o século XIX.

5. A modernidade é isso - crítica iconoclasta das tradições, da doxa.

6. Abre-se o século XX com a fúria da reação ortodoxa, começada na metade do século XIX:"eles usam os árabes contra nós", afirmará a reação contra-filológica, que (re)inventará o dissimulado método histórico-gramatical. Quer-se, por todos os meios, sepultar a crítica - Vaticano I, neo-ortodoxia, Fundamentals. Em todo lugar, no Ocidente, um "Deus morto" ainda dá as cartas... Ao menos, quer dá-las.

7. Mas a ortodoxia, o pré-moderno, o neo-qualquer-coisa, não está sozinho em sua batalha contra a modernidade crítica. Da metade do século reacionário em diante, a pós-modernidade invade a arena, também ela com seu cajado, ou melhor, seus fasers... A pré-modernidade combate a crítica com a autoridade. A pós-modernidade combate a crítica com o deboche, a dissolução retórica dos fundamentos. No fundo, trata-se do mesmo projeto - destruir todo e qualquer traço de crítica, ainda que os interesses sejam difernetes, eventualmente.

8. Resta saber o que será o século XXI. Será a consolidação da crítica moderna, da emancipação crítica do Homem? Será um retorno à autoridade, à norma, a "Deus"? Ou será a conversão de dois mil e qinhentos anos de conhecimento em mingal de nada, a vitória da retórica do não-fundamento?

9. Aí está uma batalha pela qual vale a pena lutar. Meu exército? A crítica, claro.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

(2009/479) As Marianas, a Bíblia e eu


1. Ontem à tarde, vi-me assistindo a um documentário no History Channel a respeito de como se chegou à "teoria das placas tectônicas" que compõem a superfície rochosa da Terra - nove placas principais, independentes umas das outras, que "flutuam" sobre o magma do interior do planeta. Nada melhor para ilustrar que, apesar de tratar-se de um "desdobramento" daquele, a "ciência" tem - além disso - pouco a ver com o "senso comum": é o Sol que se move, e não a Terra, diz o olho, e, além disso, como assim a crosta terrestre são ilhas sobre um mar de lama incandescente? Rubem Alves vai ter que se esforçar um pouquinho mais para nos convencer de que "ciência" e "senso comum" são, digamos, quase a mesma coisa, como ele insiste, em Filosofia da Ciência...

2. Segundo o vídeo, o Challenger, um navio da Marinha inglesa, no final do século XIX, saiu a medir o fundo do mar usando marujos, cordas e pesos de chumbo. Foi aí que se deu conta de que havia uma porção do solo marinho, no Pacífico, que chegava - foi a medida da época - a mais de seis mil metros de profundidade. Eram as Fossas Marianas - região mais funda da crosta terrestre.

3. No século XX, após diversas pesquisas e lances espetaculares, até imprevisíveis, constatou-se que as Marianas eram uma enorme "fossa" - um canyon - com cerca de 2.40o quilômetros de extensão, e que seu ponto mais profundo - o Challenger Deep - chegava a quase 11.000 metros sob a for d'água.

4. A milhares de quilômetros dali, erguia-se a Cadeia do Pacífico. Descobriu-se, então, que a crosta terreste ia sendo produzida aí, no ponto de junção de placas tectônicas, onde o magma fluido do interior do planeta ia "expelindo" a massa mineral, que, esfriando, ia-se tornando o solo marinho, avançando, numa das direções, numa velocidade de cerca de 5 metros por ano, em direção às Marianas. Quando chegava lá, essa imensa placa tectônica enfiava-se por baixo da placa adjacente. Por isso havia, aí, a famosa depressão. A terra é uma máquina térmico-dinâmica - quase "viva"... Aqueles marujos britânicos, quando lançavam metros e metros de cordas sob a superfície do mar, jamais imaginariam - como? - que estavam iniciando uma jornada das mais espetaculares que já se testemunhou: o desvendamento do modus operandi da Terra - num de seus aspectos mais "visíveis" (não, certamente, ao "senso comum") -, a história da crosta terrestre, que se vai produzindo anos após ano, sob nossos pés, diante de nossos olhos, e nem nos damos conta.

5. Eu penso que a Exegese é algo assim - cordas, fiapos de cordas, lançadas ao profundo do abismo do tempo por marujos desajeitados. No caso bíblico, dois mil e quinhentos, três mil anos nas profundezas nos separam do fundo. Lá no fundo do Challenger Deep, há onze mil metros de profundidade - um Everest mais um Pico da Neblina juntos, um sobre o outro! - o homem seria esmagado como um ovo sob a roda de um trator. E - contudo! - há peixes lá! Quero dizer com isso que o que vão encontrar, através das cordas da Exegese, é vida, mas vida muito diferente da que imaginamos.

6. Não há cristãos lá. Nem judeus. Há ancestrais. Em dois trabalhos meus, a dissertação de mestrado, sobre Nehushtan, e a tese de doutorado, sobre Gn 1,1-3, penso que, a meu tempo e modo, fiz como os desbravadores, que, há sessenta anos, desceram até o fundo do Challenger Deep. Acho que esses dois trabalhos são análogos àquela descida - ir lá e ver, ao que tudo indica, com os primeiros olhos, a vida estranha daquele mundo estranho. Fui e voltei. Fui, voltei e contei o que vi.

7. Não, acredito cada vez menos que a Bíblia tenha algo a nos dizer sobre deuses e diabos. Acredito cada vez mais que ela tem a nos dizer sobre nós, sobre os que vieram antes de nós, sobre a vida que nos antecede, os homens e as mulhres que fenderam a terra, antes de nós, saindo dela, e voltando para ela. Assim como lançar cordas ao fundo do mar, e medir sua profundidade, há cento e cinqüenta anos, lançar ferramentas exegéticas até o solo profundo do passado é um modo ainda imperfeito de enxergar aquela terra e aquela gente. Sinto-me, assim, um desbravador, um pesquisador, um "cientista", um arqueólogo. Talvez - marujo - ainda trabalhe com cordas e pesos de chumbo, ao passo que já se tenham desenvolvido sonares sofisticadíssimos. Mas não é das ferramentas em si que falo - mas do olho e da mão que as utilizam. Sinto que nas minhas veias corre um sangue de ciências. O problema é que minha nau encalhou no Mar da Teologia, onde se pensa poder mandar cordas para o passado e pescar deuses... tarrafas para Deus...

8. Quando eu era pequeno, aprendi com meu primo - mesmo errado - a capturar formigas, pô-las em garrafas de vidro com terra, e observá-las a cavar túneis. Morriam, com o tempo, sem ar suficiente e por conta de proliferação de fungos. Passei à fase de adotar formigueiros "reais". Amarrava linhas em algumas delas para vê-las entrar e, mais tarde, sair dos formigueiros. Capturava insetos e brincava de oferecê-los a elas, com pedras em cima, para forçá-las a chamar tropas. A batedora achava a presa, tentava arrastar, retornava à base e, poucos segundos depois, voltava ela, acompanhada, agora, de umas vinte companheiras. Aí eu as deixava levar a comida... Foram minhas companheiras, num quintal sem amigos reais.

9. Não sei por que cargas d'água fui me meter em Teologia. Aqui, não se faz (nem se quer fazer!) "ciência". Aqui, racionalizam-se dogmas embolorados. Não se cava a terra da Bíblia para ver o que tem debaixo, mas se colocam "coisas" lá, para fazer com que, quem a leia, as encontre - ah, e encontram... Contudo, a Exegese, depois de cento e cinqüenta anos de submissão arisca à Teologia, separou-se dela, tornou-se filologia, histórica, arqueologia. Desde 1750, mais ou menos, que a Exegese não segue as ordens da irmã mais velha. Deve ter sido por isso que, dentro da Teologia, escolhi a Exegese, e, fazendo-o, tornei-me imprestável para o "jogo" teológico. Parece que aquela alma de criança a observar formigas esteve preservada o tempo todo, entre catequeses e liturguias. Quando olhou aquela frase hebraica no quadro, renasceu das cinzas, e fez-se, de novo, "cientista".

10. Assistindo ao vídeo, lamentei minha história. Queria ter podido estar em outra fronteira. Eu teria dado um bom cientista. Teria podido ajudar muito, não tenho dúvidas, às ciências, com minha cabeça especialista em quebrar paradigmas, meu iconoclasmo "natural", conquanto tenha seus defeitos e vícios muitos, eu sei. Mas, fazer o quê?, foi aqui que aportei, e aqui estou. Confesso uma tristeza de fundo, um lamento da alma, uma inveja tremenda, quase-um-pecado da alma, em face dos macro-geólogos, dos macro-oceanógrafos, de homens e mulheres que receberam da vida a melhor parte... Eu, marujo, resta-me lançar cordas e medir o fundo. Talvez, daqui a cinqüenta anos, macro-cientistas possam dar a um acidente geográfico qualquer do vasto país Bíblia Hebraica um nome que lembre minha efêmera passagem - como Challenger Deep, homenagem aqueles marujos, a quem a vida, essa desumana deusa, impôs um papel central, mas inconsciente: para eles, lançavam cordas e pesos de chumbo, trabalhavam pelo pão - mas não tinham a mínima idéia de que, assim o fazendo, enquanto o faziam, tocam com os dedos os segredos da Terra, que isso são os homens - reveladores de segredos da Terra... de seus próprios segredos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 5 de junho de 2009

(2009/329) Não-fundacionismo - equívoco de diagnóstico e prescrição


1. O "bom" da Hermenêutica barra Epistemologia não-fundacional é que você pode dizer o que quiser, sem medo de errar, porque, se for contestado, basta dizer que é uma questão de consenso comunitário, desde que a comunidade tenha pelo menos dois elementos e, o consenso, uma estrutura discursiva pragmatista-utilitarista. Se o discurso "serve", está bem assim. Um pensamento não-fundacional pode dormir tranqüilo, de noite, porque não o perseguem os critérios críticos, que ele exorcizou definitivamente. Deve ser bom conseguir viver assim, isto é, se a isso não corresponde uma baita dose de self deception consciente... Quanto a mim, nunca mais dormi tranqüilo...

2. No meu caso, cada vez que abro a boca, como me imponho critérios críticos, corro o risco de errar, de me equivocar, porque, no campo do saber, o critério crítico não reside em nem é meu próprio discurso - mas o/no "real". Não há nada, abolutamente nada, em meu discurso - isolado em si mesmo, separado do real - que possa servir de critério para que eu decida se ele é certo ou errado. É quando em o ponho em perspectiva, aí é que aparece a sua lucidez - ou o seu delírio. Por isso há quem prefira fechar os olhos, tapar os ouvidos...

3. Meu diagnósticoo para as teorias não-fundacionais: recalque freudiano do real (consciente ou não, não vem ao caso), um império do princípio de prazer, um desprezo axiomático ao princípio de realidade. Neurose ou esquizofrenia programáticas - como crianças que, assustadas, tapam os olhos, ou fecham-nos, e tapam os ouvidos, e o medo vai embora... Até que se tornem adultas, e descubram que o medo está é bem dentro de nós, porque, quando a gente cresce, a gente aprende que, mesmo fechando os olhos, tapando os ouvidos, o real está lá fora... ainda. E - como disse Carl Rogers, ele é nosso amigo...

4. Eis onde vejo o incorrigível erro da Epistemologia não-fundacional (e ela não tem salvação - só a terapia há de fazê-la ver-se a si mesma como esforço de recalque). Ela começa abandonando completamente a noção de ecossitema. Ela se fecha, apenas, e olhe lá, na noção de "comunidade de comunicação". Para ela, o que existe, de fato, é o grupo discursivo, o conjunto das pessoas que manejam palavras-discursos, e vão, arbitrariamente, dando sentido a palavras e, daí, a proposições. Nesse caso, quer palavras, quer proposições, elas têm sentido em função do consenso - e mais nada. Dado serem não-fundacionais (os corpos deles nasceram de um "bate-papo" entre mamãe e papai!), o real não aparece, aí, como plataforma crítica de esclarecimento dos sentidos e dos discursos aí fundados (em sendo o caso). Como o tempo, na Física de Newton, o espaço, na Hermenêutica não-fundacional de Rorty/Habermas/Vattimo, o real é uma ilusão da mente humana... Os mais "esclarecidos" somente considerarão que o real é por demais inacessível, criticamente, para ser levado em conta...

5. Erro que me parece primário - e, se eu erro no que alego ser a identificação do erro, tanto mais primária é minha falha e impertinência: o não-fundacionismo nem sabe mais o que é o Homem. Para ele, sobrou, apenas, uma coisa chamada Linguagem e Comunicação... Não me assuta mais saber que o centro nervoso do capitalismo está por trás dessa moda pragmátista/não-fundacionista... O qe me assusta, e muito, é ver "progressistas" entrando na onda...

6. Ora, o homem, desde Aristóteles se sabe - e, depois de dois mil anos de "teocracia" (isto é, "cristianocracia"), Kant renovou a perspectiva - que o homem lida, ao mesmo tempo, com três interfaces: o mundo/real, o homem/outro e si mesmo. Cada uma dessas três interfaces estabelece um regime de ação - uma teleologia situada, uma "pragmática". Porque o homem age significativamente, porque suas ações são significativas, isto é, não são operadas meramente por comandos genético-biológicos, mas por intenções e estratégias, o que quer que ele, o homem, esteja fazendo, agora, aqui e agora, corresponde a uma ação situada em uma dessas três interfaces: ou, agora, ele lida com o mundo, ou lida com o outro, ou lida consigo mesmo.

7. Lidar consigo mesmo. Aí, o fundamento significativo é o própro sujeito. Trata-se da dimensão, da interfacce, do gosto, da afeição. Trata-se da afetividade. As experiências, aí, são, todas, estéticas. Não há certo e errado, aí, porque, sendo o fundamento, o próprio pathos subjetivo, o que se deseja é bom, aquilo de que se gosta, excelente. Não é que não haja fundamento nessa dimensão pragática - há, mas ele é o próprio sujeito estético. Cada sjeito, um fundamento.

8. Lidar com o outro. Aí, claro, o fundamento dependerá do regime político. O Cristianismo brincou de "monarquia" e de "teocracia" até não mais poder - e não enjoou: se deixar, volta o circo romano, de novo, seja sob a direção protestante/evangélica, seja sob a direção da velha cúria. No jogo democrático, contudo, só cabe um fundamento - o diálogo político. Em termos pragmáticos, a interface homem-outro é a interface do querer, da vontade, da volição - campo dos conflitos de vontades. Aí, encarando o "outro" e a "vontade do outro", o homem se depara com uma limitação no mesmo nível de sua vontade. Querer não é poder - aí -, porque meu querer pode chocar-se - e, de fato, se choca - com o querer do outro. Vale o tacape, vale o cetro, ou vale a negociação. A política, a pragmática das relações inter-humanas, tem por fundamento o jogo dialogal, e, na sua hiponomia democrática, no consenso negociado.

9. Lidar com o real. Ah, aqui as teorias não-fundacionais revelam, todas, toda a sua miopia. A placenta ensagüentada entre as pernas da mãe foi esquecida, e do canal vaginal daquele corpo saiu alguma coisa entre um ectoplasma e um discurso! Nada disso. Saiu um pedaço de carbono. Carbono com perdas, que vive do carbono, com bcoa e cloaca. Ser-de-carbono.

10. Aí se está na esfera do saber, do conhecer, do sensível. Aí se está na esfera da cognição. Aí se está na esfera da heurística. Aí, o critério crítico não é, não, um senso estético solipsista - cada um tem sua "verdade". Mentira. Cadaum tem seu gosto - "verdade" não é uma questão de gosto: não se se trata de "conhecimento", que é uma questão crítica de confronto hermenêutico-epistemológico com o real. Também aí não é critério crítico o voto, a negociação. Não se trata de uma questão política - e esse é o mais grosseiro erro das filosofias não-fundacionais, delírios pós-religiosos da mente mítica humana, eventualemnte, contudo, ainda também a serviço da "Teologia".

11. O fundamento da heurística, queiram ou não os não-fundacionalistas - não importa seu "voto" nesse caso - é o real. Uma vez que não lidamos diretamente, imediatamente, contemplativamente, com o real, mas lidamos com ele de modo antropológico, hermenûtico, semiótico - resta-nos tornar complexa a relação entre o critério crítico que é o real, fundamento do conhecimento humano, e a performance representacional da mente humana, cuja lucidez está em ater-se o mais firmemente possível ao real, sem, contudo, ingenuidades positivistasas - o que não quer dizer, por outro lado, delírios relativistas... Uma decisão política: tirar o sofá da sala - não tem qualquer eficiência nesse campo...

12. Para questões estéticas, fundamento subjetivo, soluções estéticas. Para problemas políticos, fundamento antropológico, soluções políticas. Para problemas heurísticos, fundamento físico-ecológico, soluções heurísticas.

13. O não-fundacionismo exorcizou um espírito. Devia ter exorcizado o espírito de solipsismo, o espírito de arbitrariedade, e, contudo, exorcizou o único critério de lucidez epistemológica possível - o real "objetivo" (no campo heurístico, bem sabido). E o fez pelas mais nobres da razões - com o que me filio e irmano a essa corrente, conquanto ela erre, e feio, e de cheio, quer na aplicação do remédo, quer no dignóstico da doença. Para superar o autoritarismo, quer da religião/teologia, quer da política, a Epistemologia não-fundacional transformou toda a questão, todas as questões, em questão política. Em seguida, falseou se caráter, transformando a descrição do problema - que é político - em problema de "racionalidade" (Habermas). Ao cabo, receitou, como saída para a paz, o consenso. Em que mundo - vivem?

14. No campo político - e exclusivamente para as questões políticas - a saída não é outra: é o consenso pragmático-político, negociação em todos os sentidos, o ganha-perde em benefício do bem-comum. Contudo, errou-se a mão, errou-se o olho (pudera!, fecharam-no...), errou-se a pele, errou-se, errou-se, perdeu-se o melhor do programa - o desejo de paz - escamoteando a questão de fundo. A verdade heurística não se presta a consensos - um só, contra todos, pode estar certo. Não adianta querer conseguir paz - aí - arrancando os olhos: a paz é uma questão política! Sempre nascerão novos homens, novas mulheres, com olhos na cara, e capazes de dizer, como Gaileu, que o rei tem as vergonhas à mostra...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 1 de maio de 2009

(2009/237) De uma nova atitude religiosa


1. Mas, talvez, nem tão nova assim. Todavia, é invariável - todas as vezes em que manifesto em classe minha opinião a respeito de a religião deixar-se passar pelo crivo da autoconsciência científico-humanista, sempre há que se reagir afirmando que, então, a religião acaba, que, então, a igreja fecha, que, então, os homens se tornarão, todos, irreligiosos. Ou seja: a religião só é religião enquanto o é tal e como é hoje - epistemologicamente alienada das condições de sua emergência desde a mente e o corpo humanos.

2. Para os menos inteirados da questão, uma resenha: a religião constitui um regime social de crenças, valores e práticas sob, sobre e por meio dos quais uma comunidade, historicamente situada, se organiza e vive. Consciente ou inconscientemente, tais sistemas sociais não faziam (nem fazem) distinções epistemológicas acerca da dimensão física e metafísica da realidade - pelo contrário: uma vez que surge na consciência social o conceito cosmogônico de "mundo dos deuses", a realidade passa a constituir-se tanto por esse nível quanto pelo nível trivial da corporeidade, sendo que este deixa-se, doravante, sobredeterminar-se por aquele. Nesses termos - fé e conhecimento tornam-se a mesma coisa - indistintamente.

3. A partir da emancipação da razão humana, o que, em última análise, foi possível a partir da Reforma, mas se conscubstanciou socialmente, a rigor, a partir das revoluções epistemológicas da Inglaterra e da Europa, séculos XVII e XVIII, materializando-se na forma de cultura emancipada, laica, a partir do século XIX, consolidando-se nas Repúblicas do século XX, fé e conhecimento foram distinguidos. O mundo cosmogônico foi rachado ao meio - a placa tectônica da ciência assumiu o conhecimento, a da religião, a fé. E a placa tectônica do conhecimento, das ciências, a despeito de todo esforço da religião, vai, ano após ano, sobrepondo-se ao território da fé, tornando-o cada vez menor, e, por isso, mais reacionário. Somente à força do tempo, uma vez que as gerações mais fundamentalistas vão retornando ao pó de onde tudo sai, é que a fé se vai deixando adaptar às novas condições "geopolíticas" da "criação".

4. Minha tese é a seguinte: a religião deveria compreender, definitivamente, que nada que ela sustente como fundamental tem a condição do conhecimento - é fé. Se a religião o admitisse, passaria a refletir sobre si mesma, sobre a condição do que é a fé, isto é, a doutrina explicativa, a cosmovisão religiosa, bem como o que significa a sua expressão, da fé e da religião, num mundo emancipado de conhecimento e ciência. A insistência de a religião agarrar-se aos modelos de "resposta" pré-modernos (e, agora, estrategicamente, pós-modernos!) é a sua absoluta vontade de manter-se tal qual se viu nascer, há milênios.

5. A religião, contudo, deveria admitir, de uma vez por todas, que ela não "sabe". Deveria admitir, de uma vez por todas, que as esperanças que ela diz engendrar, são meramente imaginativas, criativas, imaginárias. Que o conforto que eventualmente o regime mitológico em que ela opera produz não pode ser justificativa para a alienação da consciência religiosa, como se o preço para a não-dor fosse o não-saber. A não-consciência da traição não gera a dor da consciência de sabê-lo, mas não desfaz o fato de que se é vítima da traição...

6. Não se trata, por favor, de dizer que o conhecimento, que a ciência, passe a assumir as funções da religião, e que a religião desapareça. Trata-se de assumir que a religião tem de abrir mão de sua auto-compreensão mitológica, e assumir que os regimes de compreensão devem ser operados segundo a epistemologia do conhecimento. Ora, sabendo-se que os mitos, as crenças, os valores, os ritos, as práticas, são engendrados pela mente humana, operando social e historicamente, a auto-compreensão que a religião tem de si deve, hoje, obrigatoriamente, deixar-se animar por essa informação. Cada vez que a religião esquece, cada vez que a religião esconde, cada vez que a religião coíbe - ela mente, ela míngua, ela mata.

7. Se, por um lado, a religião não se tornará em ciência - a dimensão mitológica é uma condição da cosnciência humana, e há de se lidar, digamos, de modo "religioso" com ela -, por outro lado ela não poderá mais dizer de si aquilo que seja incompatível com o que ela sabe de si, e sabe de si por meio das rotinas humanístico e cognítivo-científicas. O mito permanecerá, mas sabendo-se mito, sabendo-se imaginação.

8. Segue-se, pois, que tenho consciência de que a religião, então, mudará. E os alunos: acabará, ninguém mais vai lá. Mesmo? Bem, essa reação apenas prova a consciência que os alunos têm de que a religião acredita que tem de mentir, primeiro para si mesma e, depois, para seus fiéis, para que ela e eles permaneçam "lá". Neurose, já o disse Freud. Ópio, já o disse Marx. Poder, já o disse Nietzsche. Não é à toa que todo regime de defesa da teologia-que-aí-está começa, primeiro, batendo nesses senhores de respeito - mesmo Hans Küng: se esses senhores não forem assassinados, a religião sempre estará desnudada. A função do teólogo, hoje, é a mesma do alfaiate do rei...

9. Por outro lado, o erro fundamental desses alunos, é meu juízo a respeito, é aquele erro clássico de julgar-se um paradigma novo por meio dos fundamentos do paradigma antigo. Como, no paradigma antigo, o conhecimento é puro mito normativo, uma vez que, no paradigma novo, a alma da religião permanece sendo o mito, mas, agora, não mais normativo, deduz-se, pois que, já que todos estavam ali não por conta do mito, mas por causa da norma, suprimida a condição normativa do mito, ninguém ali fique mais.

10. Também a religião deveria, contudo, pensar nesse "lá". Há espaço, sim, na mística moderna, numa eventual religião de recorte epistemológico moderno, para o mito - mas não mais para o mito "homogeinizante". Cada consciência, um mito, cada sujeito, uma "religião". O que se pode esperar, nessas condições, seria a comunhão horizontal, dada a igualdade da condição mítica da esperança humana universal, cada homem, uma esperança, e não mais uma comunhão de recorte supostamente vertical, como o querem, pelo menos, Cristianismo e Islamismo, cada qual crendo ser dever de ofício fazer de todos cópia da norma-padrão. Ms não há norma, conquanto haja mito...

11. Não me importa a manutenção dos sistemas fósseis da religião pré-moderna, como não me importam mais os sistemas políticos igualmente pré-modernos. Importame-me a lucidez, o esclarecimento, a emancipação da conciência moderna - e crítica - que sabe do que se trata quando ela balbucia "Deus, tende misericórdia de mim"...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 19 de abril de 2009

(2009/183) Sapere aude


1. Outro dia, Jimmy me provocava com insinuações de que eu me considerava um "iluminista" e um "jacobino", provocação que ele justificara, pessoalmente, mais tarde, com o argumento de que estava a "ver até onde ia" a "saída" pondeiana, de que ele mui recentemente se acercara. Soavam assim um tanto recriminatórias aquelas provocações, como se à proximidade de um pecado contemporâneo se constituíssem as "luzes". Como nunca sabemos exatamente o que uma pessoa quer dizer com os termos e rótulos que utiliza, imediataqmente manifestei-me, fazendo registrar em ata que não me considerava emancipado, pelo contrário, porque um homem pobre da Baixada Fluminense não tem nenhuma razão para assim se considerar, salvo sob o controle ideológico de uma self deception. Nenhum "pobre" está emancipado - conquanto sua mente profundamente o deseje. Emancipação (apenas) idealista, contudo, não é verdadeira emancipação, ainda que a verdadeira não se materialize sem ela.

2. Eis que, agora, chegam-me pelas mãos de Joege Grespan descrições de um Iluminismo que eu abaixo-assinaria sem reservas de qualquer espécie, ainda que isso constituísse pecado de morte contra Deus. Ei-las:

3. "Sempre está presente (...) uma marca de nascença: o Iluminismo, em suas várias vertentes, guarda da revolução o princípio da crítica. Tudo pode ser examinado, dissecado, exposto; não há assuntos ou questões que possuam o direito de ser furtado ao esclarecimento, de ser ocultado na sombra sob o pretexto da autoridade ou do dogma" (Jorge GRESPAN, Revolução Francesa e Iluminismo. São Paulo: Contexto, 2008, p. 38).

4. Com esse Iluminismo aí eu me dou muito bem. Não há dogma que eu não disseque, seja ele religioso, científico ou político. Outro dia, por exemplo, Jô Soares dizia das chamadas "cláusulas pétreas" da Constituição que elas são, por isso, absolutas, não-sujeitas a alterações. Ri-me a desmanchar-me de gases. Nada, absolutamente nada há, em face do que os homens estabeleceçam como regimes político-sociais, que inalterável seja, conquanto há interesses da elite e do capital de alterarem, rápido, legislações trabalhistas, enquanto se esforçarão para manterem inalteradas legislações que lhes garantam o status quo. Jô Soares, ali, enganava-se, ou tentava me enganar?

5. Dogmas religiosos nem mais os analiso um a um - caíram todos. No campo do saber, nada há que a religião e a teologia teologia me digam que eu leve a sério. As únicas pragmáticas possíveis no campo religioso são a estética e a política - o saber, a heurística, passa a quilômetros de distância dos fóruns de religião e teologia.

6. Quanto aos dogmas científicos, não os há. Se os há, científicos é o que não são. A ciências produzem proposições a respeito da relação entre nossos quadros conceituais e a matéria - sim, são fundacionais, sim, conquanto se alardeie, para benefício Deus sabe de quem, que a epistemologia não-fundacional dá as cartas, hoje (onde?, não certamente em Apel ou Morin, por exemplo). É com tais proposições, críticas, refutáveis, que lido/lidamos.

7. Nesse sentido, há uma exigência tremenda da parte do programa iluminista - a crítica incessante de todas as posições fechadas e autoritárias, dogmáticas - de poder. Essa foi a única parcela da revolução que me restou. E não é pouca, reconheço...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 13 de abril de 2009

(2009/166) Religião sob o filtro crítico-científico


1. O leitor que freqüenta assiduamente Peroratio há de, eventualmente, pegar-se surpreendido de, às vezes, falar-se sobre religião e, às vezes, de ciência. É que os três redatores do blog são, ao mesmo tempo, "religiosos" e "crítico-científicos". Eu, por exemplo, que agora escrevo esse post, encontro-me numa fase que, sob o olhar tradicional da religião tradicional, é mais crítico-científica do que religiosa. Não é de todo equivocado o diagnóstico, ainda que, sob os critérios em que eventualmente ele seja desenvolvido, torne-se falso.

2. É que eu cheguei à conclusão que não há qualquer razão legítima - isto é, em face da minha própria consciência - para que a religião não se deixe passar pelo crivo crítico-científico. Não vejo qualquer razão - em face de minha própria consciência - para que a religião permaneça empregando não apenas argumentos mitológicos para a sua legitimação, mas permaneça no próprio universo mitológico.

3. Eu lamento profundamente que não apenas religiosos, mas aparentes pesquisadores (são, aí, religiosos tradicionais praticando pesquisa controlada pela tradição?) não apenas defendam o discurso pseudo-epistemológico da religião, mas ainda relativizem, quando não desprezam, a perspectiva crítico-científica.

4. É desalentador, porque se nem os pesquisadores, interessados em religião, conseguem superar a mitologia discursiva das religiões, como esperar que os sacerdotes o façam, justo eles que se beneficiam diretamente daquele paradigma? E esperar como que a massa o faça, justo ela, que teme e treme, não tanto de Deus, mas de seus representantes?

5. Eu gostaria de acreditar na possibilidade histórica da transformação da religião, de sua conversão honesta, enquanto religião, aos critérios epistemológicos do saber crítico-científico. A religião transformar-se-ia. Nunca mais seria a mesma, nem elas, nem os religiosos.

6. Se ela acabaria? Duvido. Nem gostaria. O que acabaria, imagino, é a tendência da massa a deixar-se manipular por promessas alienantes, que toleramos às massas, com condescendência, num gesto de superioridade intelectual aristocrática, dói confessá-lo?, cínica. Mas não vejo por que a religião desapareceria enquanto, por exemplo, uma estética consciente, uma política consciente, alimentadas ambas, com sobriedade, por uma perspectiva crítico-científica que permitiria lucidez às práticas religiosas.

7. Fiquemos combinados, então. Quando, aqui, se escrever sobre religião, pretende-se que se lhe faça passar necessariamente pelo crivo da crítica científica, sem, contudo, necessariamente, desintegrá-la, mas, por outro lado, necessariamente, forçando-a a uma transformação compatível com o regime do saber emancipado das ciências - auto-conhecimento religioso não é auto-conhecimento promovido pelo mito da religião, mas auto-conhecimento que o religioso tem de si, na condição de religioso, sob a perspectiva crítico-científica.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 12 de abril de 2009

(2009/158) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - VI (pergunta 4)

1. Ei-la, sob minha tradução: "se a experiência de Deus é contrária ou discrepante em relação a qualquer outra experiência, como se dá a necessidade de uma radical retirada do mundo a ser evitado, ou como se pode escapar do sofisma de que se tem de permanecer no mundo uma vez que a retirada dele está baseada numa decisão da vontade, logo, uma coisa mundana?" (1).

2. Bem, não se trata de uma questão formulada em termos que me motivem. Barth, certamente, saberia responder a ela, porque haveria de fazê-lo a partir da ótica do mito metafísico a partir do qual opera. O máximo que Harnack poderia fazer é sacudir a cabeça, contrariado, aborrecido com o fato de Barth não "respeitar" as regras da ciência - Barth seria o primeiro teólogo na História a fazê-lo!

3. Se a questão fosse formulada hoje, apresentar-se-ia sob outra configuração: em termos científico-humanistas, o que significa o fenômeno que a fé religiosa chama de "experiência de Deus". Uma tal abordagem pode ser cientificamente apresentada e, eventualmente, respondida, porque o que estaria em jogo seria o fenômeno objetivável, seja sob recorte psicológico, antropológico, sociológico ou fenomenológico. Pôr em cheque uma posição teológica por meio de argumentos científicos é uma estratégia inútil, porque os ouvidos da teologia são surdos a argumentos científicos, soam-lhes como ruídos. As ciências partem, necessariamente, do século XIX - Kant, Schopenhauer, Feuerbach, Marx, Nietzsche, Dilthey, Peirce, isso para ficarmos, apenas, nas Ciências Humanas. Já a teologia, não se vê o caso de Hans Küng?, a primeira coisa que faz é desviar-se daí. A Teologia não quer, de forma alguma, saber...

4. Se a teologia estivesse verdadeiramente interessada e, por isso, fosse sensível a argumentos científicos, desde que aceitou que estivessem compondo a grade curricular de seus cursos (da graduação ao doutorado), a presença das Ciências Humanas já a teria transformado. Como a teologia pode dialogar - mas falo de diálogo verdadeiro, não cooptação seletivo de argumentos de interesse teológico, a que se resume a sua relação factual - com a Psicologia, a Antroologia, a Sociologia, a História, a Fenomenologia, e, ainda assim, levar a sério a metafísica? Mas é porque só ouve o que lhe agrada, a despeito da presença das Ciências Humanas em seu núcleo comum (até das grades da teologia umbandista e kardecista!), que a teologia joga seu jogo sob o regime do mito.

5. Ora, no campo do mito, posto que platônico, a realidade é dualista. O mundo físico e o mundo metafísico, para a teologia, compõem uma única realidade - não se vê a "lógica"´teológica dos sacramentos? Ora, os sacramentos são a "saída" teológica (catolico-romana) para a diferença de nível de realidade entre o mundo físico e o mundo metafísico, de modo que aquelas sete concentrações transdimensionais permitem a transfusão de graça de um para outro mundo. Ouvidos e corpos secularmente acostumados a lidar com a relação naturalíssima entre os dois diferentes níveis do real não têm nem como "ouvir" a pergunta de Harnack.

6. Não há qualquer modo de comunicação entre a perspectiva teológica e a perspectiva científica. Nenhum. Trata-se de uma questão paradigmática decidida a priori. Primeiro, você decide se vai entregar o seu padrão de raciocício e reflexão à cosmovisão das ciências - pronto, estará cego e surdo para a teologia. Alternativamente, você entrega seu padrão de raciocínio e reflexão para a teologia - pronto, estará cego e surdo para as ciências. As "conciliações", que estão na moda, basta ler os artigos recentes que discutem o estatuto epistemológco da teologia, soam ainda mais desagradáveis, porque não se dão conta, desde o início, de que a empreitada está viciada e corrompida por espíritos de partido.

7. A Harnack, eu diria o seguinte: se a teologia deixar-se fazer como procedimento científico, tudo, absolutamente tudo nela converte-se ao regime do jogo das ciências. Não sobrará nada, nem mesmo um núcleo seguro, constituido por um "fundador" - Jesus - e uma mensagem fundante - seu "evangelho" -, exceto como registro histórico-social de uma singularidade histórica - bem sabido, inescapavelmente intra-histórica!

8. Uma teologia como ciência considerar-se-á absolutamente "burra" a respeito da metafísica. Seu objeto de estudo será o discurso humano sobre o sagrado (discurso aí em sentido amplo, comportando linguagem, símbolo, mito, rito, liturgia - as expressões humanas em torno do tema "religião" e, inclusive, para além dela). Uma teologia assim não terá "experiências de Deus", da mesma forma como a Fenomenologia da Religião jamais foi apresentada, pessoalmente, ao "sagrado", conquanto investigará o que isso signifique na vida de quem as testemunhe - naturalmente que sob o regime da doutrina, uma vez que não há mística que não recoberta por uma interpretação doutrinária e cultural.

9. Não é à toa que Harnack vai perder a briga com Barth - entrou na arena em que o campeão da teologia ortodoxa está em casa, e vai levar uma surra...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Adolf VON HARNACK, Fifteen Questions to the Despisers of Scientific Theology, Christliche Welt, 11 de janeiro de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 86.

(2009/157) "Tem alguém aí?" - PUC-SP vai tentar ouvir e gravar a voz de mortos


1. A notícia vem-me por meio do blog do Nassif. De posse das iniciais, busquei informações novas. A mestranda em Ciências da Religião da PUC-SP vai escrever uma dissertação sobre o tema "Transcomunicação: Interconectividade entre Múltiplas Realidades e a Convergência de Ciências para a Comprovação Científica da Comunicabilidade Interplanos” - trocando em miúdos: que os mortos podem, eventualmente, se comunicar com os vivos, fenômeno que pode ser gravado e, assim, comprovado "cientificamente". Nos termos com que a própria pesquisadora avalia a pesquisa: "é coisa de vanguarda", "uma mega-tese multidisciplinar".

2. Sonia Regina Rinaldi Basilise (lattes - ainda não consta a matrícula no mestrado da PUC-SP), a mestranda, é a responsável pelo site do IPATI - Instituto de Pesquisas Avançadas em Transcomunicação Instrumental (http://www.ipati.org/). Ali se anuncia a venda de seu mais novo livro: Gravando Vozes do Além. Segundo a pesquisadora, "nossa pesquisa tem por meta levantar evidências da sobrevivência após a morte e fazer isso de forma controlada para que possa enfrentar análises e investigações científicas". Mais do que isso, já que esse primeiro objetivo responde, apenas, às exigências da "epistemologica científica":

3. "Temos um objetivo humano, que poderia ser traduzido em auxiliar aqueles que perderam um ser querido – sem esquecer daqueles que estão do Outro Lado igualmente com suas dores e saudades, mas, principalmente, compartilhar com o objetivo dos nossos Superiores de trazer a comprovação da sobrevivência e, quem sabe, oferecer um novo rumo à Humanidade".

4. Da expressão "o objetivo dos nossos Superiores (é o) de trazer a comprovação da sobrevivência (da "alma")", depreende-se um espírito de "missão" - semelhante ao espírito de "missão" presente na teologia (sistemática) cristã. Na página principal do site, a pesquisa é apresentada como "um caminho orientado pelos nossos Maiores, e assim sendo, nos resta cumpri-lo da melhor forma". Não é apenas "coisa de vanguarda" - é do outro mundo!

5. Esse espírito de "missão" explicaria a razão pela qual a pesquisadora manteve-se firme diante da tentativa de a PUC-SP convencê-la a mudar a perspectiva da pesquisa, conforme entrevista concedida ao site da NovaE: "chegaram a me chamar na PUC para eu mudar minha tese, mas não aceitei. Tenho premência em conduzir a pesquisa conforme a proposta, pois minha tese não será simples – propus uma mega-tese multidisciplinar, pois já considerei o fato de que eu, sozinha, seria inapta para comprovar qualquer coisa. Propus a participação de engenheiros, físicos e matemáticos – todos com doutorado, para que sejam eles que avaliem, dentro dos parâmetros requeridos pela Ciência, que o fenômeno é real. A minha parte é levantar a ocorrência do fenômeno – a deles será endossar a autenticidade e – dentro das possibilidades –, tentar explicá-lo".

6. Bem, mais cedo ou mais tarde, ia dar nisso. Não seria absurdo se fôssemos surpreendidos com novas pesquisas nessa área da metafísica mitológica - eu, por exemplo, gostaria muito de acompanhar pesquisas para filmar o cordão-de-prata que, segundo Lobsang Terça-Feira Rampa, monge tibetano que migrou para o Ocidente na década de 40, liga a "alma" ao corpo, e fica à mostra, para quem disponha da terceira visão, quando da viagem astral do corpo-psíquico, quilômetros e quilômetros de cabos ectoplasmáticos espalhados pelo Cosmo, garantia de que a alma retornará, caso não se rompa. Passei minha adolescência lendo livros de Lobsang Rampa (também aquele sobre suas conversas com gatos), e meu imaginário fantástico está marcado por aquelas páginas, ao lado de Papai Noel e a mula-sem-cabeça. Também uma pesquisa para mapearem-se as categorias angelicais, desde as superiores, até as inferiores - uma sócio-biologia angelológica. O campo é fecundo! Há continentes inteiros a desbravar...

7. Alguém "cochilou" no departamento de Ciências da Religião da PUC-SP. Provavelmente, tentou-se corrigir a mancada, mas a pesquisadora não se fez de rogoda: sabe o que está fazendo, e vai levar sua missão até as últimas conseqüências - ordens "superiores"... Ela tem argumentos a seu favor: basta que faça ser lembrado que, no departamento de teologia da própria instituição, as cátedras de teologia ensinam, como "fato", não apenas a existência e a sobrevivência extra-corpórea da alma, mas, além disso, a existência de Deus, dos anjos, dos sacramentos, dos diabos, do céu, do inferno, do purgatório etecétera. Ora, por mais que a pesquisadora já creia no que ela pretenda "demonstrar", havemos de convir que, eplo menos, ela aceitou "investigar" o fenômeno - correndo o risco de dar com os burros n'água, ao passo que os teólogos da instituição sequer cogitam da possibiliade de pôr em dúvidas suas doutrinas milenares. Aliás, haverá um teólogo ou outro que deseje discutir com a pesquisadora não a existência dessas almas fantasmáticas, ponto pacífico para a teologia platônica, digo, cristã, mas a possibilidade de se comunicarem com os vivos, o que o teólogo retrucará que não, diante do que a pesquisadora poderá lembrar do caso de Saul e da necromante...

8. Nesse sentido, vá lá que seja cômica a situação - o departamento de Ciências da Religião da PUC-SP se prepare para ser alvo de muita sátira (mas é só dar tempo ao temo que passa) -, mas, admitamos, que é de direito da pesquisadora estudar sua crença, já que umbandistas, em São Paulo, karcecistas, em Curitiba, e cristãos, no Brasil inteiro, ensinam - e no MEC - sua mitologia metafísica como "ciência". Se uns podem, todos também. Mas que a Universidade vai virar um circo de horrores, vai - e não pelos assuntos em si, mas pelo despropósito de se insistir em que haja um grão de cientificidade quer numa coisa, quer noutra.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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