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domingo, 7 de março de 2010

(2010/196) Graças a Deus. Mesmo?



1. O ônibus em que você está bate. Morrem doze pessoas. Duas dezenas e meia de feridos. Você sai com alguns arranhões. Graças a Deus... Mesmo? Por quê? Porque Deus poupou você? Então, deixe-me ver se entendi: Deus fica lá de cima, olhando - quando uma desgraça acontece, ele assopra, aperta um botão, levanta a mão, sei lá, faz alguma coisa, e "seus escolhidos" se safam, em segurança - é isso?

2. O terremoto do Haiti e do Chile ceifou muitas centenas, milhares, de pessoas. Milhares sobreviveram. As que sobreviveram podem dizer "graças a Deus"? Certamente o disseram. Assisti a reportagens em que sobreviventes brasileiros diziam "graças a Deus" diante das câmeras de TV.

3. Aquele avião do Congo caiu. Todos, exceto uma menina, morreram. Seu pai, feliz toda vida, em entrevista à TV, pode dizer "graças a Deus"? Mas o disse. Ele ainda se deu conta do significado do que dizia, e constrangeu-se. Mas, independentemente do constrangimento, no fundo, não é assim que ele se sente?, agradecido por Deus ter dado à filha destino diferente dos demais do vôo da morte...?

4. A vida é isso? Cada coisa que acontece é Deus apertando um botão? Você ganhou aquele emprego: graças a Deus - bem, era uma vaga para cem candidatos: Deus escolheu você, e não os outros? Você ganhou na loteria, e está tão feliz que não cabe em si - "graças a Deus". O quê? Dentre os milhões de apostadores, Deus escolheu justamente você? Como é isso? Como é viver com isso?

5. Há uma Teologia por detrás do "graças a Deus". Nessa hora, todos são calvinistas. Deus sabe, ele tem anotado em seu supercomputador pessoal, tudo o que vai acontecer, por sua determinação, nas próximas 24 horas, de modo que o que vai acontecer com você... agora.. é determinação dele. Pronto: faz todo sentido: graças a Deus... O difícil dessa Teologia é dar graças a Deus por um câncer, uma dor de dente, a morte de um filho, ou, dá no mesmo, você ter estado no outro lado de todos os exemplos que dei acima. Há quem o consiga - apodrecendo na cama, e dando graças a Deus. Mas isso, sabemos, é coisa absolutamente rara, e, não duvido, tem mais explicações psicológicas do que teológicas.

6. Seja como for, reconheço o vazio que é admitir que tudo não passa de loteria aleatória - dado que há acidentes, e sendo eles inevitáveis, uns serão feridos, outros morrerão, outros sairão ilesos. Pura aleatoriedade? Pura "sorte"? Roleta? Loteria? Dados? Bem, a saída, para não tratar as coisas com essa frieza toda, é, das duas uma, não pensar nisso, classificando a questão na rubrica "mistérios", ou continuar dando graças a Deus, enquanto, pelo mesmo evento, outras famílias roem-se de dor e luto... De qualquer modo, deve ser por isso que as Escrituas disseram que Deus não dorme. E como poderia, com tanta culpa na consciência?



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 27 de fevereiro de 2010

(2010/156) Também eu vou tocando em frente


1. Sem cantar, que cantar não canto, mas tocando em frente. Dia após dia, tocando em frente. Dor aós dor, alegria após alegria, tocando em frente. E não é que seja assim natural tocar em frente, porque, as mais das vezes, nosso corpo quer recolher-se, ao modo fetal, enrolar-se, como o verme, e recolher-se ao útero do medo. Mas a vida empurra a gente, o ponteiro do relógio rompe a ferrugem do cansaço, e a gente toca em frente. Não é mérito nosso. Nunca. É que é assim que é a vida, que começa como o despejo e termina no fundo de uma cova rasa. Entre as duas covas, entre os dois buracos, entre as duas escuridões, o açoite dos dias, a jungir a manada humana, tocando em frente, sempre... E lá vou eu, também eu, tocando em frente...







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2010/155) De uma planta que morre


1. Há sofrimento na planta que esturrica e seca, que o sol a queima e mata, e sofre, e padece, e lancinantemente definha. Verde que era, troca a roupa de um marrom de dor, de fumo, de coisa velha que se desfaz... Aberta à luz, e orgulhosa, ela agora recolhe-se, enrolando-se, humilhada e fraca. E sofre, e chora, e morre...

2. O sol, ontem, lhe dava a vida, mas, agora, cobra caro o preço. O toque dos raios, suaves, faz-se, agora, queimadura em grau profundo, e, de beijo que se fazia, faz-se, agora, em talho de fogo a cortar a carne verde que morrer já sabe que vai. E sofre, e chora, e morre...

3. Não há salvação, coitada, para ela, que, de esperança e destino, subia pelo fio, beirava o telhado, espraiva-se à luz. Mas o destino não guarda nomes, e despeja seus caprichos sobre qualquer um. Chegou a sua vez, plantinha de quintal. Logo, sofre, chora e morre - que esse é o último ato disso que se chama a tua vida... e a minha, e a de todos nós...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

(2010/086) Da "boa morte"


1. Se é que há morte boa... mas trata-se da ευθανασία (eutanásia), ou morte assistida, daí "boa", isto é, porque tem por intenção proporcionar uma morte o mais confortável possível, ou, talvez fosse melhor dizer, pôr termo a uma vida de dor e sofrimento insuperáveis. Em se pensando a eutanásia em tese - eu sou absolutamente a favor.

2. Na Inglaterra, dois julgamentos muito recentes. "Bridget Kathleen Gilderdale, de 55 anos, foi absolvida da acusação de tentativa de homicídio por ter ajudado sua filha Lynn Gilderdale a cometer suicídio com doses de morfina e outros medicamentos". Por outro ado, "três dias antes, Frances Inglis foi condenada à prisão perpétua – dessa pena ela cumprirá pelo menos nove anos efetivamente presa – por matar seu filho com injeções de heroína. Thomas Inglis havia sofrido lesão cerebral grave após cair de uma ambulância em julho de 2007". Ora, "ambas as mães foram descritas como “amorosas e zelosas”, que agiram em um ato de desespero diante do sofrimento de seus entes. Mas uma grande diferença entre as duas situações também foi observada. Lynn Gilderdale estava consciente e já havia manifestado o desejo de morrer. Thomas Inglis estava completamente inconsciente e, portanto, a decisão partiu exclusivamente de sua mãe. Mesmo assim, alguns críticos defendem que Inglis não deveria ter sido qualificada como uma homicida e forçada a passar tanto tempo presa, já que seu ato foi motivado por amor e misericórdia" (BBC Brasil).

3. Bem, cada caso sempre é um caso, mas, de qualquer forma, beira o cinismo a condenação de Frances Inglis. Talvez haja traços de crenças religiosas operando nos bastidores da decisão, sei lá. Seja como for, penso que é direito de todo ser humano pôr termo à sua própria vida. Penso ser meu direito pôr termo à minha própria vida - até porque, se eu quiser, ninguém me impede. Suicídios com aviso prévio são, na verdade, pedidos de socorro. Quando não se trata disso, quando a pessoa não quer socorro, quando ela simlesmente quer "ir embora", ela simplesmente vai. E não importa nem a religião...

4. Mas e se a pessoa vê-se impossibilitada disso...? Se se vê entrevada, sem poder fazer uso de seu direito...? A sociedade não pode condenar um gesto de misericórdia por parte de quem fornece ajuda ao suicida. Como no Uruguai (BBC Brasil), é necessário que se estabeleçam leis objetivas a respeito das condições adequadas para a eutanásia. Em lugar de serem abandonadas, sozinhas, a ajudarem seus entes queridos na sua última decisão, a sociedade deveria proporcionar meios ainda mais seguro e eficientes para a eutanásia, sem cinismo e hipocrisia. Um australiano, Christian Rossiter, tetraplégico, teve de ganhar no tribunal o direito de... recusar alimento e medicação, a fim de... morrer (BBC Brasil). E ganhou! Hipocrisia! Não era menos doloroso, menos cruel, menos sádico, menos hipócrita!, que ele ganhasse o direito - que tem - de morrer assistidamente? Já o inglês Guy Button viu-se obrigado alevar e entregar uma arma ao pai, Ian Button, de 63 anos, sofria de uma grave doença pulmonar, com a qual se matou no hospital (BBC Brasil).

5. A questão do estado de inconsciência do doente é um complicador, mas penso que leis, antecedidas por consulta pública e plebiscito, poderiam - deveriam - estabelecer regras também para esses casos. Ora, é inadmissível que estabeleçamos imposiçoes religiosas para a relação de um ser humano com um corpo vegetal sobre uma cama. Há que haver um mínimo de bom senso.

6. Sou a favor da eutanásia. No meu caso, eu o faria. E, se algum dia eu me encontrar em estado de inconsciência, está aqui, autorizado, que Bel me ajude a morrer. Será, para nós dois, uma coisa boa...


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Em tempo: Quase 75% dos britânicos apoiam suicídio assistido, diz pesquisa (BBC Brasil - 31/01/2010)


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

(2009/628) Lugares de nascer e de morrer


1. Inventamos as maternidades. Antes, caíamos nos braços de parteiras. Quando não morríamos, e, de vingança, levávamos o útero conosco. Morria-se muito de parto. As maternidades tornaram as horas menos mortais...

2. Parece que não temos problemas teológicos e morais com maternidades. A vida, antes, cobrava suas primícias, seus dízimos, e ceifava mulher e criança, quando estava com fome de carne. As maternidades deixaram a vida com fome, porque tem menos carne para comer. Se bem que há as guerras, as pestes, a fome... Escancarada sempre a bocarra da Vida-Morte...

3. Contudo, que horror temos à morte! Não temos lugares para morrer. Não falo dos açougues em que se transformaram certos hospitais sucateados. Não falo de clínicas clandestinas de aborto, porque, sem considerações sobre o tema, é a mãe que leva à morte um feto seu. Se é de direito, se não é, deixo para outra ocasião.

4. Falo do direito que deveríamos ter de morrer, e, com isso, falo mais do que de eutanásia, mas de suicídio, mesmo. Certo, se eu quiser me matar mesmo, mato-me, e não há quem o evitar possa. Um diácono de uma igreja da Baixada, malgrado todos os cuidados da família, parou o carro na Rio-Niterói, e, depois de um certo tempo (que, posteriormente, descobriu-se ter sido usado para assinatura em branco de vinte folhas de seu talão, para facilidades familiares, deixado sobre o banco do carona), com a placidez e determinação de quem faz o que deseja, saiu do carro, subiu na mureta... e saltou...

5. Falo do lugar que devíamos ter, para quando desejássemos ir embora, mas sem transtornos para a família, polícia, corpo a que dar destino, essas coisas. Cansei da vida, não quero mais, informo à família, corrijo o que for preciso, pago as contas, acerto os papéis, pego uma condução, dirijo-me ao lugar de ir, e mato-me lá, com a assistência do Estado. Meus pais meteram-se a me dar a vida - desmeto-me, agora, com o tirá-la, se o quero...

6. Haverá razões religiosas para o espanto que meu leitor, agora, experimenta. Mas haverá razões... humanas?, civis? Um há que se decida, porque jaz entrevado, outro, às portas de uma gravíssima doença, dolorosíssima, outro, simplesmente, de tédio. Que importam as razões?

7. Hum, temos medo de que a decisão seja impensada? Como o quê?, casamentos, que se arrastam, infernais, a vida toda?, um poço de miséria da alma de um e de outro? Como o quê?, eleições, em que escolhemos um patife que se vestia de anjo?, um ladrão, disfarçado de bom-moço? Como o quê?, aquela amizade, pessoa em quem confiamos, e, agora, nos enfia a faca às costas? Bem, a vida é, também, isso - as escolhas, as decisões erradas. O que é humanamente verdadeiro que não corra risco de ser - também - uma escolha errada? Seja como for, uma coisa é certa: escolher a morte, placidamente, como que assina o papel do cartório, será a única decisão para a qual não haverá nem remorso nem arrependimento...
8. Bem, quanto às preocupações da Morte, ela pode ficar tranqüila. São, de fato, poucos os que desejariam morrer. Esses assobiariam à morte, por assim dizer. Mas as delícias da Dona Coisa Feia continuará sendo, afinal, chegar onde não é bem-vinda, à hora em que não é bem-vinda, e levar embora quem mais queria ficar aqui, desgraçada... A Morte, além de tudo, é estrábica... Tanta gente pra levar, e erra o alvo, maldita...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 3 de outubro de 2009

(2009/511) Se Deus for calvinista...



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1. Se houver mesmo Deus, e ele for calvinista, e eu, um “eleito”, assim que eu puser o pé no céu dele, peço pra sair. Não posso permanecer no céu de um Deus calvinista. Não acho justo que uns sejam criados para a perdição e outros sejam criados para a salvação – e às favas, senhores, com todas as racionalizações político-teológicas, já antecipo, antes que me venham apoquentar os ouvidos com intermináveis ladainhas medievais! Acho a eleição um crime. Um Deus calvinista é um Deus que peca! A Paulo, que me adverte a não questionar o Criador, eu diria que, se um dia saí do lodo e da condição de animal, para tornar-me homem, não foi para outra coisa que não descobrir o quanto é cruel e covarde a Natureza, gnose revelada à minha condição humana, de modo que, encontrar-me com a Crueldade em pessoa, com o Pecado em carne e osso, não me fará retornar à condição de bicho, senão que utilizar-me-ei da máxima condição humana para arrostar-lhe em face a verdade que só os homens e as mulheres podem ver: que onde não há igualdade, fraternidade, liberdade, não há humanidade, porque há uma humanidade humana, e há outra humanidade, ainda animalizada, bestificada, carne de vermes e apenas carne de vermes. Desumano Deus, que concebe uma eternidade de homens fritos em óleo – e ainda quer canções! É o requinte da perversão! Num céu desses, não canto. Num céu desses, me mato. E fritar com os outros? Melhor com eles.

2. Mas como tudo isso não passa de projeção nos céus da crueldade de certas almas cristãs, de certas almas doentes, nem se me dá essa mitologia de reis e plebeus, uma teologia de Davi e Urias. Como Natan, arrosto-lhe a maldade na cara. E, se tudo, então, é projeção, projeto meu próprio mito – um amigo na varanda, um companheiro de observação de formigas, de empinar papagaios nos céus de Jerusalém, o único que sabe dos beijos que dou em Bel. E quanto aos maus? Bem, resolvamo-nos quanto a eles aqui e agora, posto que, quanto ao futuro, caminho mais por Eclesiastes mesmo, e já fiz saber essa lei ao meu hipostático amigo.

3. Enquanto "batalho" a batalha de transformar a Teologia acadêmica em ciência de verdade – experimento ensaiar uma espiritualidade cética e mística, de nada saber, um nada saber que interdita tanto a fé quanto a não-fé, e, dado que meu corpo e minha alma exigem um mito de amigo, não me acanho de narrá-lo ao pôr-do-sol, e esperar que a aurora ainda me encontre infantil. Isso – ser adulto na Academia, e criança no coração e na alma... Na minha Academia, meu amigo Deus está na primeira fila, mas ninguém o vê, nem eu, só o imagino ali, sorrindo, enquanto me vê brincando de gente grande.

4. Adeus, deuses-reis! Adeus, deuses-senhores! Adeus, deuses-potentes! Ao menos, reconheço, até minha próxima encruzilhada de dor. Aí – ai! ai! –, enfrentarei a tentação – cederei? – de criar para mim um amigo todo-poderoso que me cure o corpo e me conforte a dor. É duríssima a transição...







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 25 de abril de 2009

(2009/223) A teologia de Kiwi


1. Já tentei de todo jeito pensar a teologia de Kiwi. Mas não consigo nenhum bom resultado. Talvez você tenha mais sorte do que eu. Talvez não fique assim aparvalhado, diante da tela, enquanto os créditos desfilam diante de você. Talvez você tenha uma intuição. Talvez veja coisas que minha racionalidade crítica, conquanto mística, deixou escapar. Ou, talvez, preciso de uma boa hora para voltar ao normal... Não estou falando de fazer exegese, não, gente - mas de pensar, de deixar a cabeça vagar, mais nada.


2. Voar ele não voou de fato. Ele sabia que não voava, que caía para o abismo, para a morte, para o abismo da morte. Mas não estava nem aí... Ele chora aquela lágrima tanto de satisfação pelo vôo, quanto pela ciência que tem de seu destino. Por outro lado, o que a vida não lhe deu, da vida mesma ele tomou - e, contudo, ele não se despreza: ainda que pequenas, ele as bate, suas asas, suas então gigantescas asas, ele as bate... Ele é quase um Übermensch, ainda que tenha se superado para ser ele mesmo. Ora, mas de todo modo, superar-se, e ser sempre si mesmo, não é, afinal, ser humano? A vida toda não, é, afinal, nada mais do que cair para o abismo da morte, conquanto podemos inventar mitologias de subir para a vida? Kiwi juntou os dois pólos - caiu para a vida, subiu para a morte...

3. Gosto do vôo de Kiwi. Ele o faz só. Não arrasta ningém em seu delírio. Seu mito o satisfaz, e ele o cria para si, por si, sozinho. Talvez essa seja a minha proximidade com o pequeno Kiwi - eu faço meu próprio mito, e o vivo. Não é fácil construí-lo - ainda mais sozinho. É muita árvore para fazer subir abismo acima, é muito prego a martelar, é muita corda a subir e descer, e, sobretudo, é muito pouca asa... Mas o que podemos fazer, se a única coisa que podemos fazer é justamente isso?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 12 de abril de 2009

(2009/157) "Tem alguém aí?" - PUC-SP vai tentar ouvir e gravar a voz de mortos


1. A notícia vem-me por meio do blog do Nassif. De posse das iniciais, busquei informações novas. A mestranda em Ciências da Religião da PUC-SP vai escrever uma dissertação sobre o tema "Transcomunicação: Interconectividade entre Múltiplas Realidades e a Convergência de Ciências para a Comprovação Científica da Comunicabilidade Interplanos” - trocando em miúdos: que os mortos podem, eventualmente, se comunicar com os vivos, fenômeno que pode ser gravado e, assim, comprovado "cientificamente". Nos termos com que a própria pesquisadora avalia a pesquisa: "é coisa de vanguarda", "uma mega-tese multidisciplinar".

2. Sonia Regina Rinaldi Basilise (lattes - ainda não consta a matrícula no mestrado da PUC-SP), a mestranda, é a responsável pelo site do IPATI - Instituto de Pesquisas Avançadas em Transcomunicação Instrumental (http://www.ipati.org/). Ali se anuncia a venda de seu mais novo livro: Gravando Vozes do Além. Segundo a pesquisadora, "nossa pesquisa tem por meta levantar evidências da sobrevivência após a morte e fazer isso de forma controlada para que possa enfrentar análises e investigações científicas". Mais do que isso, já que esse primeiro objetivo responde, apenas, às exigências da "epistemologica científica":

3. "Temos um objetivo humano, que poderia ser traduzido em auxiliar aqueles que perderam um ser querido – sem esquecer daqueles que estão do Outro Lado igualmente com suas dores e saudades, mas, principalmente, compartilhar com o objetivo dos nossos Superiores de trazer a comprovação da sobrevivência e, quem sabe, oferecer um novo rumo à Humanidade".

4. Da expressão "o objetivo dos nossos Superiores (é o) de trazer a comprovação da sobrevivência (da "alma")", depreende-se um espírito de "missão" - semelhante ao espírito de "missão" presente na teologia (sistemática) cristã. Na página principal do site, a pesquisa é apresentada como "um caminho orientado pelos nossos Maiores, e assim sendo, nos resta cumpri-lo da melhor forma". Não é apenas "coisa de vanguarda" - é do outro mundo!

5. Esse espírito de "missão" explicaria a razão pela qual a pesquisadora manteve-se firme diante da tentativa de a PUC-SP convencê-la a mudar a perspectiva da pesquisa, conforme entrevista concedida ao site da NovaE: "chegaram a me chamar na PUC para eu mudar minha tese, mas não aceitei. Tenho premência em conduzir a pesquisa conforme a proposta, pois minha tese não será simples – propus uma mega-tese multidisciplinar, pois já considerei o fato de que eu, sozinha, seria inapta para comprovar qualquer coisa. Propus a participação de engenheiros, físicos e matemáticos – todos com doutorado, para que sejam eles que avaliem, dentro dos parâmetros requeridos pela Ciência, que o fenômeno é real. A minha parte é levantar a ocorrência do fenômeno – a deles será endossar a autenticidade e – dentro das possibilidades –, tentar explicá-lo".

6. Bem, mais cedo ou mais tarde, ia dar nisso. Não seria absurdo se fôssemos surpreendidos com novas pesquisas nessa área da metafísica mitológica - eu, por exemplo, gostaria muito de acompanhar pesquisas para filmar o cordão-de-prata que, segundo Lobsang Terça-Feira Rampa, monge tibetano que migrou para o Ocidente na década de 40, liga a "alma" ao corpo, e fica à mostra, para quem disponha da terceira visão, quando da viagem astral do corpo-psíquico, quilômetros e quilômetros de cabos ectoplasmáticos espalhados pelo Cosmo, garantia de que a alma retornará, caso não se rompa. Passei minha adolescência lendo livros de Lobsang Rampa (também aquele sobre suas conversas com gatos), e meu imaginário fantástico está marcado por aquelas páginas, ao lado de Papai Noel e a mula-sem-cabeça. Também uma pesquisa para mapearem-se as categorias angelicais, desde as superiores, até as inferiores - uma sócio-biologia angelológica. O campo é fecundo! Há continentes inteiros a desbravar...

7. Alguém "cochilou" no departamento de Ciências da Religião da PUC-SP. Provavelmente, tentou-se corrigir a mancada, mas a pesquisadora não se fez de rogoda: sabe o que está fazendo, e vai levar sua missão até as últimas conseqüências - ordens "superiores"... Ela tem argumentos a seu favor: basta que faça ser lembrado que, no departamento de teologia da própria instituição, as cátedras de teologia ensinam, como "fato", não apenas a existência e a sobrevivência extra-corpórea da alma, mas, além disso, a existência de Deus, dos anjos, dos sacramentos, dos diabos, do céu, do inferno, do purgatório etecétera. Ora, por mais que a pesquisadora já creia no que ela pretenda "demonstrar", havemos de convir que, eplo menos, ela aceitou "investigar" o fenômeno - correndo o risco de dar com os burros n'água, ao passo que os teólogos da instituição sequer cogitam da possibiliade de pôr em dúvidas suas doutrinas milenares. Aliás, haverá um teólogo ou outro que deseje discutir com a pesquisadora não a existência dessas almas fantasmáticas, ponto pacífico para a teologia platônica, digo, cristã, mas a possibilidade de se comunicarem com os vivos, o que o teólogo retrucará que não, diante do que a pesquisadora poderá lembrar do caso de Saul e da necromante...

8. Nesse sentido, vá lá que seja cômica a situação - o departamento de Ciências da Religião da PUC-SP se prepare para ser alvo de muita sátira (mas é só dar tempo ao temo que passa) -, mas, admitamos, que é de direito da pesquisadora estudar sua crença, já que umbandistas, em São Paulo, karcecistas, em Curitiba, e cristãos, no Brasil inteiro, ensinam - e no MEC - sua mitologia metafísica como "ciência". Se uns podem, todos também. Mas que a Universidade vai virar um circo de horrores, vai - e não pelos assuntos em si, mas pelo despropósito de se insistir em que haja um grão de cientificidade quer numa coisa, quer noutra.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 24 de março de 2009

(2009/104) Das montanhas da vida da gente


1. No fundo, não me impressionam as montanhas. O que eu quero não está nelas. Aliás, escalá-las apenas revela aquilo que a alma já antecipa - não há fim para o horizonte...

2. Estar na pradaria, no centro do mundo, é ter, à toda volta, o horizonte. Não importa para onde se caminhe - e a vida é caminhada, sempre -: há, sempre, um horizonte a mentir para nós um sinal de estalagem. Não há pousada na vida, só estrada, e a única estalagem chama-se morte.

3. Por isso que as montanhas são, a rigor, percalços, desafios, entraves, olimpíadas, a nos exigir mais do que passos para a frente, mas esforços para cima. Mas isso não porque é em cima que o final da estrada está. Não. Não há final - muito menos em cima. A estrada permanece, à frente, montanha abaixo, inexoravelmente, na direção da mentira da vida - o horizonte. E é só porque nos faltam, derradeiramente, as forças, que a caminhada finda.

4. O horizonte, contudo, continua lá, assistindo, impassível, a decomposição de nossos corpos, atônito de por que não caminhamos mais... É essa, todavia, a única ação humana que põe fim à opressão de caminhar... A morte, não a fé, é a única escapatória à condição humana. Maldição? Depende do dia... Quiçá seja, mesmo, uma bênção.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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