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sábado, 25 de abril de 2009

(2009/223) A teologia de Kiwi


1. Já tentei de todo jeito pensar a teologia de Kiwi. Mas não consigo nenhum bom resultado. Talvez você tenha mais sorte do que eu. Talvez não fique assim aparvalhado, diante da tela, enquanto os créditos desfilam diante de você. Talvez você tenha uma intuição. Talvez veja coisas que minha racionalidade crítica, conquanto mística, deixou escapar. Ou, talvez, preciso de uma boa hora para voltar ao normal... Não estou falando de fazer exegese, não, gente - mas de pensar, de deixar a cabeça vagar, mais nada.


2. Voar ele não voou de fato. Ele sabia que não voava, que caía para o abismo, para a morte, para o abismo da morte. Mas não estava nem aí... Ele chora aquela lágrima tanto de satisfação pelo vôo, quanto pela ciência que tem de seu destino. Por outro lado, o que a vida não lhe deu, da vida mesma ele tomou - e, contudo, ele não se despreza: ainda que pequenas, ele as bate, suas asas, suas então gigantescas asas, ele as bate... Ele é quase um Übermensch, ainda que tenha se superado para ser ele mesmo. Ora, mas de todo modo, superar-se, e ser sempre si mesmo, não é, afinal, ser humano? A vida toda não, é, afinal, nada mais do que cair para o abismo da morte, conquanto podemos inventar mitologias de subir para a vida? Kiwi juntou os dois pólos - caiu para a vida, subiu para a morte...

3. Gosto do vôo de Kiwi. Ele o faz só. Não arrasta ningém em seu delírio. Seu mito o satisfaz, e ele o cria para si, por si, sozinho. Talvez essa seja a minha proximidade com o pequeno Kiwi - eu faço meu próprio mito, e o vivo. Não é fácil construí-lo - ainda mais sozinho. É muita árvore para fazer subir abismo acima, é muito prego a martelar, é muita corda a subir e descer, e, sobretudo, é muito pouca asa... Mas o que podemos fazer, se a única coisa que podemos fazer é justamente isso?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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