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sábado, 26 de fevereiro de 2011

(2011/119) Religião e ciência - fragmentos memoráveis de Ilya Prigogine na Conferência "Ciência, Religião e a Nova Utopia"


1. Eu circulo em ambiente teológico. Meus amigos carregam livros de Teologia e Filosofia debaixo do braço. É natural. Mas em um preciso momento de minha vida, depois do encontro mágico e místico com Mircea Eliade, enterrei Platão no assoalho da velha casa do passado, e abri-me às interações com as Ciências Naturais: a Fenomenologia da Religião encaminha o estudante para as Ciências Cognitivas, se ele não faz de conta que faz Fenomenologia da Religião, enquanto faz Teologia disfarçada - cripto-Teologia na forma de pseudo-Fenomenologia da Religião. Eu não fazia - nem faço - Fenomenologia da Religião disfarçada de Teologia, de modo que minhas atenções voltaram-se para dentro da consciência humana, fundamentalmente depois que li a declaração de Eliade: "o sagrado é uma estrutura da consciência humana". Ali, o Universo foi recriado diante dos meus olhos extasiados...

2. Numa banca de livros, na PUC-Rio, encontrei Edgar Morin - e O Método. Meus amigos mais próximos não têm idéia do que é essa obra - conquanto apliquem a Morin, quantas vezes, os juízos inadequados de mentalidades em ciúme. Que pena! Perderão tanto tempo! Tanta energia! Mas talvez o interesse seja mais a carreira, necessária, do que desvendar os mistérios do Universo, da Vida, da Verdade. E eu compreendo. Mas O Método é incomparável - pena que seja eu a dizê-lo, e que se tenha de mim tão pouca referência. Talvez, fora outro a dizer de O Método o que é este aqui a dizer... Talvez, se ele fosse indicado por um doutor...

3. Na esteira de Morin, encontrei Ilya Prigogine. Na mesma época. Leituras conjuntas. O que Prigogine fala, já está dentro de O Método. Não é novidade, para quem leu a obra monumental. Mas, cá entre nós, ouvir o próprio Prigogine falar sobre a origem teológica da Ciência - oxalá tenha efeito melhor do que quando sou eu a dizê-lo. E, para tanto, cá disponho esse monstro sagrado da Química e da Física, para dizer alguma coisa profunda sobre religião e ciência.


4. Arrebatador! E tanto assim, porque não cai na ingenuidade de juntar a Ciência com a velha Religião - a adequação entre ambas é - deve ser - seletiva, criteriosa, e criativa.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 20 de março de 2010

(2010/242) Quem mandou chutar a santa?


1. Lembram-se do pastor da Universal que chutou a santa? Pois então. Gilberto Gil escreveu uma música - Guerra Santa - em "homenagem" ao sujeito. Acabei de encontrá-la no Youtube. Quando eu leciono Teologia Brasileira, na Faculdade Batista do Rio de Janeiro, uso três músicas para fazer uma ponte entre Teologia e cultura brasileira: Invocação, de Chico César (Teologia pura, injetada na veia), O Trem das Sete (uma referência polêmica à Escatologia evangélica, que invadiu as praças na década de 70), de Raul Seixas, e, finalmente, Guerra Santa.

2. Meu objetivo em usar a música de Gilberto Gil é tornar mais patente a "guerra santa" que impera mesmo na base cristã, e que não devia, guerra às vezes mais delcarada, às vezes, mais dissimulada. Por exemplo, a Igreja Assembléia de Deus de São João de Meriti, por exemplo, acaba de tomar a cidade pra Jesus, sem plebiscito nem nada, conforme deixa claro aquele outdoor enorme, instalado contra-republicanamente no viaduto que corta a Dutra, na altura de São João, lado direito que quem desce para o centro do Rio: "esta cidade pertence a Jesus", um energúmeno escreveu. Bem cristão isso, e, por isso mesmo, muito pouco republicano - não nos vamos esquecer que a República é uma ação moderna contra justamente as monarquias... cristãs... teocráticas! O mundo era de Deus, mas os republicanos tomaram-no dele. Morreu de deesgosto depois, contaram... era tão apegado aos bens amteriais, coitado...

3. Naturalmente que há quem desgoste da letra, porque, no final, Gil provoca de um modo bastante feuerbachiano: "o nome de Deus pode ser Oxalá Jeová, Tupã, Jesus, Maomé Maomé, Jesus, Tupã, Jeová Oxalá e tantos mais sons diferentes, sim, para sonhos iguais". No entanto, não é de todo necessário admitir essa teologia fenomenológica de Gil para admitir-se que a prática de sair por aí a maldizer e imprecar contra a fé e os símbolos religiosos alheios não é nada muito recomendável. O pastor que chutou a santa, por exemplo, se queria agradar a Deus, podia meter a cabeça na padere até arrebentar - era menos um doido a apurrinhar a vida da gente... Se bem que aquilo ali, eu desconfio, foi bem de caso pensado, e de doido ele não tem nada não, não é Gil? Afinal como você disse, "ele não rasga dinheiro"...



Ele diz que tem, que tem como abrir o portão do céu ele promete a salvação ele chuta a imagem da santa, fica louco-pinel mas não rasga dinheiro, não Ele diz que faz, que faz tudo isso em nome de Deus como um Papa na inquisição nem se lembra do horror da noite de São Bartolomeu não, não lembra de nada não Não lembra de nada, é louco mas não rasga dinheiro promete a mansão no paraíso contanto, que você pague primeiro que você primeiro pague dinheiro dê sua doação, e entre no céu levado pelo bom ladrão Ele pensa que faz do amor sua profissão de fé só que faz da fé profissão aliás em matéria de vender paz, amor e axé ele não está sozinho não Eu até compreendo os salvadores profissionais sua feira de ilusões só que o bom barraqueiro que quer vender seu peixe em paz deixa o outro vender limões Um vende limões, o outro vende o peixe que quer o nome de Deus pode ser Oxalá Jeová, Tupã, Jesus, Maomé Maomé, Jesus, Tupã, Jeová Oxalá e tantos mais sons diferentes, sim, para sonhos iguais.



OSVALDO LIZ RIBEIRO

PS. aqui, a reportagem da Globo sobre o "caso".

sábado, 27 de fevereiro de 2010

(2010/163) Tudo faz sentido, agora


1. Tempos Modernos, de Charlie Chaplin versus Another Brick in the Wall, de Pink Floyd - por trás, a crítica à "produção em série", de tudo, de todos, a mecanização da vida e a desumanização do homem. Um século - o XX - de "tempos modernos" - e duvido que tenhamos saído deles...





2. Quando a educação se torna comércio, a serviço do comércio, do jogo do comércio, quando as pessoas contam como peças de engrenagem, quando entram no "projeto do futuro", o que está em jogo é a própria concepção de vida humana - para além de vida de gado.



3. Mas, se até a religião, religião de salvação, virou, de novo, comércio, haverá esperança para nós?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. Para a seqüência de Modern Times: partes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9.

domingo, 31 de janeiro de 2010

(2010/121) Se a vida fosse - mesmo - um jogo


1. Assim que foi lançado, eu comprei o Civilization IV oficial. Na prática, você pode jogar quase tudo na versão pirata - alguns você joga até para testar e, porque é, de fato bom, você acaba comprando. Com Civilization IV, não - eu já sabia que ia ser estupendo... E é.

2. Civilization IV é um jogo que simula "civilização". Você começa controlando um pequeno grupo de nômades quase pré-históricos (toda sessão começa em 4.000 a. C), e chega, depois de horas de jogo, é claro, até a era espacial.

3. Você pode optar pelo nível de jogo - desde o mais "mole", uma barbada mesmo, até um praticamente impossível de agüentar, de tão difícil. Já a vida, a vida, não. Tudo depende de onde você vai nascer - o que é pura loteria. Se você nasce no Canadá, tem mais chances de sua vida ser mais fácil, do que, por exemplo, se você nasce na Etiópia. Mas mesmo em se tratando do mesmo país - se você nasce no bairro dos Jardins, em São Paulo, terá muito mais chances de viver uma vida mais fácil do que se nascer no Jardim Romano, por exemplo. Em Civilization IV, você escolhe o nível de dificuldade - você decide. Na vida - alguém (Deus?) joga você no cenário e, agora, a coisa é contigo... Logo vem um sacerdote com histórias, mas, na prática, cuide-se...

4. Em Civilization IV, você pode salvar o jogo a qualquer momento. Se você dá um comando, e na jogada seguinte, algo de ruim acontece, ou você dá de ombros, e segue em frente, ou, como é o meu caso, você "reloga" o jogo, e recomeça onde havia salvo. Assim, na prática, você nunca "erra", porque, se erra, apaga o erro e tenta de novo. Na vida, não. Na vida, se você diz uma palavra, não dá pra apagar. Se você faz alguma coisa, não dá pra apagar. Se você não diz, não faz, não dá pra apagar. A vida é uma desgraça. Ah, aí a gente aprende... é... tínhamos que arrumar uma justificativa... Os animais também "erram", mas, na prática, nunca sabem disso, ou, ao menos, a vida segue em frente como senada tivesse acontecido...

5. Em Civilization IV, há guerra. Você pode escolher entre rodadas mais ou menos violentas, mas, sempre, haverá guerras. E você sempre correrá riscos de perder aldeões, soldados, expedicionários. Eu odeio perdê-los. Usando o recurso de salvar, se eu perco um soldado, volto o jogo. Não aceito perder um único missionário... Na vida? A vida é uma história de perdas - até os ganhos: antecipam perdas. Amar - é preparar-se para a dor... E não há salvação, salvo aquela de imaginarmos um céu de memórias (se bem que eu não saiba de que modo a memória dará paz à gente, no céu - lembrar-se é remoer-se).

6. Em Civilization IV há religiões - sete ao todo. Quando eu jogo, eu envido todos os esforços para que a minha civilização tenha todas as religiões. Detesto a idéia de uma única religião imperar na minha civilização. Jogo durante muito tempo no módulo que me permite criar missionários, converto todas as cidades a todas as religiões e, então, estabeleço o regime de liberdade religiosa. Na vida? As grandes religiões monoteístas são egoístas, como grandes sistemas viróticos. É patética a sede das religiões de conquista, e mais patética ainda a facilidade com que seus adeptos se entregam ao jogo de poder e conquista, tudo regado a discursos de amor e orações...

7. Não sei por que Deus fez a vida do jeito que ela é. Se ela fosse como Civilization... Se eu pudesse apagar e recomeçar... Eu sei que isso implica em questões de liberdade, porque, se eu apago o meu minuto, apago o de todo mundo, o minuto de seis blhões de pessoas. Inimaginável. Mas - entendam meu desabafo - por que a vida é tão difícil?, por que não há jeitos simples de consertarmos os nossos erros?, e por que essa maldita memória nos condena tanto?

8. Deus, por favor, reloga, vai...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 30 de janeiro de 2010

(2010/116) (Também) a Arte flerta com a Loucura


1. De modo geral, a "genialidade", seja ela qual for, na arte, na ciência, na religião, deixa-se produzir por um grau de desconformidade psicológica mais ou menos profunda. Talvez porque a arte seja - sempre - uma ultrapassagem do "real", nela a Loucura deixa-se flagrar mais nua do que na ciência. Na religião, dificilmente se deixará de demonstrar que, nas suas origens, acocoram-se patologias da mente - com o que não quero dizer que a religião seja o fruto nobre de uma doença, mas que apenas muito tardiamente identificou-se como tal a Loucura, de modo que, até então, recebia-se-lhe nos templos, na forma de oráculo... Ah, quem negará que religião, neurose, esquizofrenia e toda sorte de disfuncionalidades psicológicas caminham juntas, conquanto não sejam, necessariamente, sinônimas? Na ciência, a disfuncionalidade psicológica se traduz num regime de foco e concentração, com naturalmente perceptíveis benefícios para a ciência, mas, não exatamente, para a vida social e familiar. Graus menos graves de autismo, por exemplo, exercem interessantes pressões sobre a "genialidade" na ciência.

2. Talvez esse fenômeno seja paralelo à "evolução" - no sentido de que certas disfuncionalidades orgânicas, acidentais, findam, aleatoria e ecosistemicamente, revelando-se mais bem adaptáveis do que a "normalidade", passando a anormalidade circunstancial a ganhar vantagens competitivas sobre os organismos até então adaptados. Religiosos, artistas e cientistas (de ponta?) são, por assim dizer, filhos mais ou menos distantes da Loucura.

3. A título de ilustração, recolho uma série de obras do mais "louco" dentre os gênios da arte - Salvador Dali. É hiperbólica a analogia, eu sei. Mas, o que há em Dali, em borbotões, há em cada um, eventualmente, em gotas. No fundo, há de se escolher entre reter as águas na barragem - ou abrir as comportas... Dali dinamitou-as.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO
PS. Para os créditos, cf. os links de origem, ciclando nas imagens.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

(2010/036) Melhor não saber


1. Minha mãe foi médium kardecista até longa idade. Freqüentava um centro próximo de casa, no alto da Avenida São Paulo, onde vivi grande parte de minha infância e juventude. Ela "via" coisas. Uma delas foi a queda do Viaduto Paulo de Frontin (aqui e aqui). Que ela me tenha contado, outra ainda, foi o assassinato do vigia da Padaria Paulista, na esquina da Av. São Paulo com a Rua Rio de Janeiro, em Mesquita/RJ.

2. Desciam ela e Dona Odete, vizinha da casa da frente e também kardecista, o morro da Av. São Paulo, tendo saído da sessão espírita. E subia um homem. Minha mãe teria visto um vulto se aproximar dele, e lhe dar um tiro. Era uma visão. Ela perguntou a Dona Odete quem era. Era o vigia da Padatria Paulista. Ele morrerá hoje à noite. Avisaram-no. Ele não creu. Na madrugada, um fusca parou em frente à padaria, dele saiu um homem e deu um tirou na cabeça do vigia. Nunca chequei a história, é claro. A de cima, contudo, ao menos a tragédia, foi real.

3. Minha mãe conta que abandonou por isso o kardecismo - porque via, e não podia fazer nada, de modo que o sofrimento era maior... De fato, abandonou completamente as sessões. Hoje, confessa a fé evangélica.

4. A mediunidade é um caso extremo. Fiquemos com a lucidez da vida - a consciência. É uma desgraça. Pergunto-me - e ontem o fiz por longos períodos do dia - que vantagem advém-nos dela? Os animais têm as mesmas alegrias que nós, pelo menos os mamíferos, e disso não advém qualquer vantagem nossa, dado o fato de termos consciência - trata-se da alegria mamífera, o folguedo dos filhotes...

5. Por outro lado, a consciência humana nos dá ciência das desgraças em escala inimaginável. E que bem há nisso? Há milenios adquirimos a consciência e o que conseguimos evitar, de desgraça, com ela? A fome? O estupro? A guerra? O crime? Só conseguimos dormir intranqüilos, assombrados com a maldade humana...

6. Melhor seria não saber de nada, viver como um tolo, ser um tolo, como as crianças, que acreditam que a vida se faz com Papais Noéis e coelhos da Páscoa. O pior, senhores, é que essas mitologias infantis até se perpetuam na fase adulta - as mitologias religiosas. Mas, se observarmos bem, elas, as mitologias religiosas, estão tão carregadas da consciência da maldade quando a própria realidade. Diria que as teologias deixaram-se contaminar pela consciência humana. Não há, pois, mais Paraíso possível...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

(2009/628) Lugares de nascer e de morrer


1. Inventamos as maternidades. Antes, caíamos nos braços de parteiras. Quando não morríamos, e, de vingança, levávamos o útero conosco. Morria-se muito de parto. As maternidades tornaram as horas menos mortais...

2. Parece que não temos problemas teológicos e morais com maternidades. A vida, antes, cobrava suas primícias, seus dízimos, e ceifava mulher e criança, quando estava com fome de carne. As maternidades deixaram a vida com fome, porque tem menos carne para comer. Se bem que há as guerras, as pestes, a fome... Escancarada sempre a bocarra da Vida-Morte...

3. Contudo, que horror temos à morte! Não temos lugares para morrer. Não falo dos açougues em que se transformaram certos hospitais sucateados. Não falo de clínicas clandestinas de aborto, porque, sem considerações sobre o tema, é a mãe que leva à morte um feto seu. Se é de direito, se não é, deixo para outra ocasião.

4. Falo do direito que deveríamos ter de morrer, e, com isso, falo mais do que de eutanásia, mas de suicídio, mesmo. Certo, se eu quiser me matar mesmo, mato-me, e não há quem o evitar possa. Um diácono de uma igreja da Baixada, malgrado todos os cuidados da família, parou o carro na Rio-Niterói, e, depois de um certo tempo (que, posteriormente, descobriu-se ter sido usado para assinatura em branco de vinte folhas de seu talão, para facilidades familiares, deixado sobre o banco do carona), com a placidez e determinação de quem faz o que deseja, saiu do carro, subiu na mureta... e saltou...

5. Falo do lugar que devíamos ter, para quando desejássemos ir embora, mas sem transtornos para a família, polícia, corpo a que dar destino, essas coisas. Cansei da vida, não quero mais, informo à família, corrijo o que for preciso, pago as contas, acerto os papéis, pego uma condução, dirijo-me ao lugar de ir, e mato-me lá, com a assistência do Estado. Meus pais meteram-se a me dar a vida - desmeto-me, agora, com o tirá-la, se o quero...

6. Haverá razões religiosas para o espanto que meu leitor, agora, experimenta. Mas haverá razões... humanas?, civis? Um há que se decida, porque jaz entrevado, outro, às portas de uma gravíssima doença, dolorosíssima, outro, simplesmente, de tédio. Que importam as razões?

7. Hum, temos medo de que a decisão seja impensada? Como o quê?, casamentos, que se arrastam, infernais, a vida toda?, um poço de miséria da alma de um e de outro? Como o quê?, eleições, em que escolhemos um patife que se vestia de anjo?, um ladrão, disfarçado de bom-moço? Como o quê?, aquela amizade, pessoa em quem confiamos, e, agora, nos enfia a faca às costas? Bem, a vida é, também, isso - as escolhas, as decisões erradas. O que é humanamente verdadeiro que não corra risco de ser - também - uma escolha errada? Seja como for, uma coisa é certa: escolher a morte, placidamente, como que assina o papel do cartório, será a única decisão para a qual não haverá nem remorso nem arrependimento...
8. Bem, quanto às preocupações da Morte, ela pode ficar tranqüila. São, de fato, poucos os que desejariam morrer. Esses assobiariam à morte, por assim dizer. Mas as delícias da Dona Coisa Feia continuará sendo, afinal, chegar onde não é bem-vinda, à hora em que não é bem-vinda, e levar embora quem mais queria ficar aqui, desgraçada... A Morte, além de tudo, é estrábica... Tanta gente pra levar, e erra o alvo, maldita...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 15 de novembro de 2009

(2009/604) Das coisas de viver


1. Se concluirmos pela condição original biológica humana - isto é, se, no frigir dos ovos, ascendemos desde a vida primitiva, Acaso ou Dádiva sobre o solo planetário desse canto perdido do Mundo -, então faz todo sentido que sejamos telúricos...

2. As coisas realmente próprias serão aquelas propriamente telúricas: viver, com o que quero dizer manter-se vivo, isto é, comer, beber, amar... Por isso gosto de Eclesiastes. Come teu pão, bebe teu vinho, goza a vida com a mulher da tua juventude... O equivalente, naturalmente, valeria para a mulher...

3. O quê? Não posso inventar para mim coisas para além da Terra, para além das coisas ctônicas, para além do carbono? Pode, claro! O que não devias fazer, o que não devias ter feito,é , contudo, virar de cabeça para baixo isso, que o que é real é a Terra, e não o contrário... Ao menos, é o que está à mão...

4. O mal da religião não é quando ela cuida das coisas da Terra, mas é quando ela cuida cuidar de coisas que são de outro mundo, e, então, o outro mundo engole a vida, que se torna inútil e enfadonha... Chega-se a pensar num céu - cópia desse enfado...

5. Uma religião de pão e de vinho seria, então, o Cristianismo, mas, ai, aí inventaram um ser celeste... Que tipo de religião teria pensado Jesus, antes de criar-se-lhe asas?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 21 de junho de 2009

(2009/370) Sols"lixo" de verão em Stonehenge


1. Moro em Mesquita - e isso nada tem a ver com Stonehenge. Moro em um condomínio popular. Ao lado dele, há uma "Catedral Metodista". Não chega a ser um "Patrimônio Cultural da Humanidade" - mas ali tem fogo! Fala-se língua estranha ao microfone... às seis horas da tarde (o símile da Ave-Maria de vovó, ao pé do rádio...). Uma beleza... Interessante essa de língua estranha ao microfone - entenda-se: megafone... Uma beleza...

2. Bem, menos... Durante os cultos, os carros amontoam-se nas calçadas. Para você passar, que vá para o meio da rua. Se um carro te pega, torça para ser um "salvo"... Se não, já estava danado mesmo...! Há um cano desses de boca larga, de polegadas e mais polegadas, jogando água - bem, "aquilo não é bem água" (Bel suspeita de coisas mais "orgânicas" e humanamente intestinas) - há meses. "Aquilo", seja o que for, escorre pela calçada, ganha a sarjeta, e procura os bueiros, envergonhado. Deus não liga mesmo para essas coisas. Os cidadãos é que sim... mas, quem, ali, está preocupado com isso, não é mesmo? O "negócio" (com trocadiho e tudo) é "adorar"...

3. Aí você pensa: talvez esses evangélicos pós-modernos neo-liberais capitalistas poderiam retornar àquela época mais idílica e espiritual... a dos druidas, por exemplo. Conta-se que Stonehenge era uma espécie de "catedral" druida, talvez uma catedral-observatório astronômico. Se não fora, deveria ter sido. Aquilo é lindo... Uma beleza...

4. Aliás, hoje foi solstício de verão na Inglaterra - e mais de 36.000, diz a BBC Brasil, com vídeo e tudo, foram lá, para, dirigidas/acompanhadas por... druidas!, apreciarem o nascer do Sol... Que, contudo, não deu as caras...

aqui, a beleza - o luxo!


5. Oh, mas a cena é frustrante. O que aquele pessoal espiritualíssimo deixou de lixo no local ganha de dez a zero de minha "Catedral" de bairro. Veja você mesmo a cena, triste, lamentável... Parece que quanto mais do céu nos achegamos, mais estragamos a terra. Pensei que era vício cristão... Parece que é vício da mística mesmo... Bem, ao menos dessa mística contemporânea, mística de shopping center...


aqui, a tristeza - o lixo:
Druidas celebram sol em Stonehenge


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 13 de junho de 2009

(2009/353) Estou perdido - meus queridos são todos diabos! Mas aí está uma "pregação" que eu (quase) faria...


Corpo de Deus
José Saramago
13/06/2009

Também lhe chamam Corpus Christi e é “dia de preceito” para os católicos, além de feriado oficial. Todos os fiéis deverão ir à missa (ser “dia de preceito” a tal obriga) para dar testemunho da presença real e substancial de Cristo na hóstia. E nada de pôr-se com dúvidas sobre a divina presença na pastilha ázima como sucedeu a um sacerdote chamado Pedro de Praga, no século XIII, não seja que se repita o tremebundo milagre de ver a hóstia transformar-se em carne e sangue, não simbólicos, mas autênticos, e ter de levar outra vez a sanguinolenta prova em solene procissão para a catedral de Oviedo, como complacentemente no-lo explica Wikipedia, fonte a que neste difícil transe tive de recorrer. O mundo era interessantíssimo naquele tempo. Hoje, o milagre de recuperar a economia e a banca passa por imprimir milhões de dólares a uma velocidade de vertigem e pô-los a circular, preenchendo assim um vazio com outro vazio, ou, por palavras menos arriscadas, substituindo a ausência de valor por um valor meramente suposto que só durará o que durar o consenso que o admitiu.

Mas não era da crise que eu queria escrever. Em todo o caso, como já se vai ver, a menção ao Corpo de Deus não foi gratuita nem simples pretexto para fáceis heresias, como costumam ser as minhas, segundo canónicas e abalizadas opiniões. Há alguns dias, no 28 de Maio para ser mais exacto, um boliviano de 33 anos, de nome Fraans Rilles, emigrante “sem papéis” e sem contrato, que trabalhava numa padaria em Gandia (Espanha), foi vítima de grave acidente, uma máquina de amassar cortou-lhe o braço esquerdo. É certo que os patrões tiveram a caridade de o levar ao hospital, mas deixaram-no a 200 metros da porta com uma recomendação: “Se te perguntam, não digas nada da empresa”. Como seria de esperar, os médicos pediram o braço para tentar reimplantá-lo, mas tiveram de desistir da ideia perante o mau estado em que se encontrava. Tinham-no atirado ao lixo.

Afinal, eu não queria escrever sobre o Corpo de Deus. Como é meu costume, uma coisa levou a outra, mas era do Corpo do Homem que eu pretendia realmente falar, esse corpo que, desde a primeira manhã dos tempos, vem sendo maltratado, torturado, despedaçado, humilhado e ofendido na sua mais elementar dignidade física, um corpo a quem agora foi arrancado um braço e a quem foi ordenado que se calasse para não prejudicar a empresa. Espero que os fiéis que hoje acorreram à missa e leram a notícia no jornal tenham tido um pensamento para a carne sofridora e o sangue derramado deste homem. Não peço que o ponham num altar. Só peço que pensem nele e em tantos como ele. Diz-se que todos somos filhos de Deus. Não é verdade, mas com este falsidade se consolam muitos. Deus não valeu a Fraans Rilles, vítima da máquina de amassar pão e da crueldade da gente sem escrúpulos que explorava a sua força de trabalho. Assim vai o mundo e não haverá outro.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 26 de maio de 2009

(2009/296) Mão na consciência, Teologia!


1. Que sejamos místicos. Não há nenhum problema nisso. Edgar Morin, gênio vivo e ateu - quer dizer, neo-ateu - confesso, diz-se místico. Eu, um crítico-cético-autônomo, sou místico, e não vejo nisso nenhum problema. O problema é, apenas, nesse campo, o que chamamos de mística - uma mística ou é cética, ou não é mística, é dogmática... E, aí, é transtorno.

2. Mas na academia, não há lugar para dar vasão à mística como regime heurístico, porque a mística não tem sequer conteúdo. A mística é tão-somente uma pulsão vital, uma abertura hermenêutica que rompe a redoma da cosmovisão físico-civilizatória em direção ao Místério (os Mistérios) assim intuído(s) - e apenas assim permanecendo Mistério(s). Nisso não há qualquer possibilidade de fazer-se de ferramenta, qualquer uso possível para a "pesquisa". A mística é, aí, no máximo, respiração.

3. Bem, se a "alma" do pesquisador se deixa encantar pela mística - qual o problema? Se ele não permite que a mística corrompa os "dados" (há uma mística que mente!), se ele não permite que a mística deturpe a realidade (há uma mística que frauda!), qual o problema? Minha insistência neurótica e quase-patológica quanto à interdição dos regimes místico-dogmáticos na academia é meramente instrumental - a mística converte-se em "saber" (o que não é) e pré-determina resultados de pesquisa, pior!, pré-determina questões de pesquisa, que, naturalmente, apenas ela, a mística supostamente bem-informada há de responder - mas mente, porque simplesmente inventa respostas.

4. A insistência de a Teologia em não largar seu vício dogmático, disfarçado que seja em tradição e metáfora, nenhuma diferença, vício conteúdístico, vício terminológico, de teimar em tratar como saber o que é mera crença e mito - essa Teologia será a responsável pelo retorno do obscurantismo religioso do passado em pleno século XXI. Para manter seu discurso em praça pública, a Teologia - os teólogos! - há de amargar o preço de ressuscitar demônios. E lamento profundamente, mas a quem hei de reclamar?, de ser eu também a pagar o preço por esse crime de terceiros.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 25 de maio de 2009

(2009/292) Em reais e em euros


1. Tenho de rever meus conceitos. Achava que era um problema de Terceiro Mundo, mas, pelo jeito, também no Primeiro Mundo se pode perder completamente o bom senso, tornar-se quérulo, transformar-se numa massa de modelar e entregar-se na mão de prestigitadores e suas contas bancárias - e pagando em euros. No Brasil, ao menos, é mais baratinho...

2. Ah mas é que aqui se ganha no atacado...

3. O quê? Não entendeu? A BBC Brasil explica: "Cientologia é julgada por fraude e pode ser banida na França". Se a moda pega no Brasil, heim!...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 17 de maio de 2009

(2009/266) Mirações enteógenas


1. "Miração" é o nome que se dá às "visões / experiências" "místico / psicodélicas" produzidas pela ingestão, por exemplo, do Daime. "Enteógenas"é o nome que se dá às substâncias promotoras de tais "virações", mas quando em contexto litúrico/religioso. Ou seja, LSD é alucinógeno, Daime, enteógeno, ainda que os efeitos psico-somáticos sejam semelhantes.

2. Pois bem, acaba de ser descoberto que há uma espécie de peixe - sarpa salpa -, que até então vivia próximo`a Chipre e algumas regiões do Mediterrâneo, que parece estar mudando seu habitat, tendo sido encontrado próximo à Catalhunha, conforme informa a BBC - Brasil. A ingestão da cabeça desse peixe provoca alucinações, como se quem o comeu tivesse usado LSD. É porque o sarpa salpa se alimenta de plânctons que tê pequena quantidade de veneno. Mas como eles comem muito, e o veneno se concentra na cabeça do peixe, quando você come a cabeça do peixe, você "viaja".

3. É muito interessante. Plantas, fungos e cogumelos, e, agora, aimais, quando ingeridos, podem provocar alucinações. Essas alucinações, quando experimentadas em ambiente reigioso, abrem a "consciêcia" do sujeito para as mais "espetaculares" e "surreais" revelações. Tais substâncias devem ter tido um papel muito importante na História da Religião, como um todo, e na História das Religiões, de modo geral.

4. É bastante curioso, por exemplo, que "mandrágora", a raiz mágico-afrodisíaca, seja mencionada apenas no final de Cântico dos Cânticos (quando a amada assume seu desejo, negando a ele a maldição de Gn 3,16 [cf. Ct 7,11[10]), e em Gn 30,14-16, na passagem em que Raquel e Léia disputam a "noite" de Jacó. Esta última, a literatura judaica "inter-bíblica" tratou de modificar, transformando as mandrágoras em "tomates cheirosos" (Cf. Testamnto dos Doze Patriarcas 5,1 Testamento de Issachar).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 1 de maio de 2009

(2009/237) De uma nova atitude religiosa


1. Mas, talvez, nem tão nova assim. Todavia, é invariável - todas as vezes em que manifesto em classe minha opinião a respeito de a religião deixar-se passar pelo crivo da autoconsciência científico-humanista, sempre há que se reagir afirmando que, então, a religião acaba, que, então, a igreja fecha, que, então, os homens se tornarão, todos, irreligiosos. Ou seja: a religião só é religião enquanto o é tal e como é hoje - epistemologicamente alienada das condições de sua emergência desde a mente e o corpo humanos.

2. Para os menos inteirados da questão, uma resenha: a religião constitui um regime social de crenças, valores e práticas sob, sobre e por meio dos quais uma comunidade, historicamente situada, se organiza e vive. Consciente ou inconscientemente, tais sistemas sociais não faziam (nem fazem) distinções epistemológicas acerca da dimensão física e metafísica da realidade - pelo contrário: uma vez que surge na consciência social o conceito cosmogônico de "mundo dos deuses", a realidade passa a constituir-se tanto por esse nível quanto pelo nível trivial da corporeidade, sendo que este deixa-se, doravante, sobredeterminar-se por aquele. Nesses termos - fé e conhecimento tornam-se a mesma coisa - indistintamente.

3. A partir da emancipação da razão humana, o que, em última análise, foi possível a partir da Reforma, mas se conscubstanciou socialmente, a rigor, a partir das revoluções epistemológicas da Inglaterra e da Europa, séculos XVII e XVIII, materializando-se na forma de cultura emancipada, laica, a partir do século XIX, consolidando-se nas Repúblicas do século XX, fé e conhecimento foram distinguidos. O mundo cosmogônico foi rachado ao meio - a placa tectônica da ciência assumiu o conhecimento, a da religião, a fé. E a placa tectônica do conhecimento, das ciências, a despeito de todo esforço da religião, vai, ano após ano, sobrepondo-se ao território da fé, tornando-o cada vez menor, e, por isso, mais reacionário. Somente à força do tempo, uma vez que as gerações mais fundamentalistas vão retornando ao pó de onde tudo sai, é que a fé se vai deixando adaptar às novas condições "geopolíticas" da "criação".

4. Minha tese é a seguinte: a religião deveria compreender, definitivamente, que nada que ela sustente como fundamental tem a condição do conhecimento - é fé. Se a religião o admitisse, passaria a refletir sobre si mesma, sobre a condição do que é a fé, isto é, a doutrina explicativa, a cosmovisão religiosa, bem como o que significa a sua expressão, da fé e da religião, num mundo emancipado de conhecimento e ciência. A insistência de a religião agarrar-se aos modelos de "resposta" pré-modernos (e, agora, estrategicamente, pós-modernos!) é a sua absoluta vontade de manter-se tal qual se viu nascer, há milênios.

5. A religião, contudo, deveria admitir, de uma vez por todas, que ela não "sabe". Deveria admitir, de uma vez por todas, que as esperanças que ela diz engendrar, são meramente imaginativas, criativas, imaginárias. Que o conforto que eventualmente o regime mitológico em que ela opera produz não pode ser justificativa para a alienação da consciência religiosa, como se o preço para a não-dor fosse o não-saber. A não-consciência da traição não gera a dor da consciência de sabê-lo, mas não desfaz o fato de que se é vítima da traição...

6. Não se trata, por favor, de dizer que o conhecimento, que a ciência, passe a assumir as funções da religião, e que a religião desapareça. Trata-se de assumir que a religião tem de abrir mão de sua auto-compreensão mitológica, e assumir que os regimes de compreensão devem ser operados segundo a epistemologia do conhecimento. Ora, sabendo-se que os mitos, as crenças, os valores, os ritos, as práticas, são engendrados pela mente humana, operando social e historicamente, a auto-compreensão que a religião tem de si deve, hoje, obrigatoriamente, deixar-se animar por essa informação. Cada vez que a religião esquece, cada vez que a religião esconde, cada vez que a religião coíbe - ela mente, ela míngua, ela mata.

7. Se, por um lado, a religião não se tornará em ciência - a dimensão mitológica é uma condição da cosnciência humana, e há de se lidar, digamos, de modo "religioso" com ela -, por outro lado ela não poderá mais dizer de si aquilo que seja incompatível com o que ela sabe de si, e sabe de si por meio das rotinas humanístico e cognítivo-científicas. O mito permanecerá, mas sabendo-se mito, sabendo-se imaginação.

8. Segue-se, pois, que tenho consciência de que a religião, então, mudará. E os alunos: acabará, ninguém mais vai lá. Mesmo? Bem, essa reação apenas prova a consciência que os alunos têm de que a religião acredita que tem de mentir, primeiro para si mesma e, depois, para seus fiéis, para que ela e eles permaneçam "lá". Neurose, já o disse Freud. Ópio, já o disse Marx. Poder, já o disse Nietzsche. Não é à toa que todo regime de defesa da teologia-que-aí-está começa, primeiro, batendo nesses senhores de respeito - mesmo Hans Küng: se esses senhores não forem assassinados, a religião sempre estará desnudada. A função do teólogo, hoje, é a mesma do alfaiate do rei...

9. Por outro lado, o erro fundamental desses alunos, é meu juízo a respeito, é aquele erro clássico de julgar-se um paradigma novo por meio dos fundamentos do paradigma antigo. Como, no paradigma antigo, o conhecimento é puro mito normativo, uma vez que, no paradigma novo, a alma da religião permanece sendo o mito, mas, agora, não mais normativo, deduz-se, pois que, já que todos estavam ali não por conta do mito, mas por causa da norma, suprimida a condição normativa do mito, ninguém ali fique mais.

10. Também a religião deveria, contudo, pensar nesse "lá". Há espaço, sim, na mística moderna, numa eventual religião de recorte epistemológico moderno, para o mito - mas não mais para o mito "homogeinizante". Cada consciência, um mito, cada sujeito, uma "religião". O que se pode esperar, nessas condições, seria a comunhão horizontal, dada a igualdade da condição mítica da esperança humana universal, cada homem, uma esperança, e não mais uma comunhão de recorte supostamente vertical, como o querem, pelo menos, Cristianismo e Islamismo, cada qual crendo ser dever de ofício fazer de todos cópia da norma-padrão. Ms não há norma, conquanto haja mito...

11. Não me importa a manutenção dos sistemas fósseis da religião pré-moderna, como não me importam mais os sistemas políticos igualmente pré-modernos. Importame-me a lucidez, o esclarecimento, a emancipação da conciência moderna - e crítica - que sabe do que se trata quando ela balbucia "Deus, tende misericórdia de mim"...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 27 de abril de 2009

(2009/229) Khajuraho - um complexo de templos indiano sui generis - Patrimônio Cultural da Humanidade


1. O complexo medieval de Khajuraho, pequena cidade no Estado de Madhya Pradesh, na Índia, é constituído por 22 de 85 templos originais. Localizada em uma região de relativamente difícil acesso, o complexo tornou-se do conhecimento do Ocidente apenas a partir do século XIX. Ao mesmo tempo, parece ter não ter sido atingido pela fúria de exércitos ou de iconoclastas islâmicos, uma vez que, tendo sido construído entre meados do século X e XI, em plena Idade Média ocidental, deve-se apenas ao efeito do tempo e ao crescimento da floresta ao redor a destruição de grande parte do acervo (1). Dos 22 templos restantes, 16 encontram-se na seção oeste do complexo, e foram reconhecidos como Patrimônio Cultural da Humanidade.


2. Os templos do complexo estão repletos de esculturas eróticas, algumas delas em poses explícitas de cópula, além de várias práticas relacionadas, de um modo ou de outro, às práticas sexuais. A rigor, não se trata propriamente de "erotismo", não em sentido moderno, porque, à época, e nos termos das tradições tântricas, a sexualidade, o sexo e o coito eram considerados também sob a perspectiva místico-religiosa. Ao contrário de um catolicismo que vê no sexo uma estrita e austera função procriativa, esse aspecto da religiosidade hindu assimilava ao sexo, além do prazer, as funções da fertilidade - tudo sempre conjuntamente relacionado ao mundo dos deuses. Não se trata, pois, de pornografia, o que poderia parecer a um desavisado. Trata-se de religião, por mais estranha que possa parecer aos olhos de um cristão ocidental - tanto que as esculturas explicitamente sexuais encontram-se, sem exceção, esculpidas nas paredes dos templos do complexo, dentro dos quais encontram-se as representações mais concretas das divindades a que cada templo se dedica.

3. Conforme informado por India Perspectives, há pelo menos três seitas hindus relacionadas aos templos - Shaiva/Shiava, Vaishnava e Jaina -, a que corresponderiam pelo menos um grande templo do complexo. No conjunto, afirma-se que o elemento mais efusivo, mais relevante, mais importante do complexo é... o feminino, o que é muito perceptível, principalmente, nos templos jainistas, onde se observam inúmeras e belas figuras de mulheres em cenas prosaicas. Diz-se que tal se deve à força de sua relação com a fertilidade e a vida.

4. Do grupo ocidental de templos, destaca-se Kandariya Mahādeva. Dedicado a Shiva. Ostenta 646 imagens esculpidas em seus flancos, dentre elas, inúmeras em ato sexual, que, nesse caso, parece impor uma interpretação ritual. Chama a atenção a acentuada presença de mulheres relacionadas ao assim então interpretado rito.

5. Outro imponente templo é o de Lakshmana, dedicado a Vishnu: "a viga na entrada desse templo dedicado ao Senhor Vişņu demonstra a santa trindade de Brahman, Vişņu e Śiva com a deusa Lakşmī, companheira de Vişņu. O santuário foi enfeitado com o ídolo de três cabeças das incarnações de Vişņu incluindo Nārasimha e Varaha". Algumas das cenas sexuais mais explíticas de todo o complexo se encontram nesse templo - e dificilmente se poderia desconsiderar sem mais nem menos uma hipótese de religião de fertilidade a partir de relevos exibindo, ao mesmo tempo, várias cenas de relação sexual e, mesmo, entre mais de duas pessoas. Além disso, há cenas de relação sexual - ritual? - entre uma pessoa e um animal, suficientemente explícita para não passar despercebida. Se não se quiser simplesmente interpretar a cena por meio da configuração moderna de sexo bizarro, o contexto templário talvez aponte para racionalizações religiosas radicalmente diferentes daquele recorte propriamente moral do cristianismo.


6. O templo Chitragupta, dedicado ao Deus Sol, Surya.

7. O templo de Visvanatha, dedicado a Brahma.



10. "O Templo de Pārśavanātha do grupo do leste, é o maior dos três templos Jainas. A imagem de Ādinātha de mármore preto no santuário foi colocada em 1860. Ele tem esculturas maravilhosas de casais divinos e damas celestiais. As mais exóticas são a de Śiva-Pārvatī, de uma linda mulher tirando um espinho do seu pé e outra pintando os seus olhos". Não foi fácil encontrar as imagens!

11. Ao sul, cerca de 5 km do complexo oeste, fica o templo de Duladeo, também dedicado a Shiva.

12. Ainda ao sul, situa-se o templo de Chandela, cujo "santuário tem a mais exótica imagem de culto de Śiva com nove pés de altura, uma obra de arte de Khajuraho". Somam-se a esses, ainda, os templos de Ghantai e de Chausat Yogini, o mais antigo do complexo de Khajuraho.

13. Olhando para cada templo, cada escultura, percebe-se o quanto são diferentes as culturas do mundo, suas religiões, seus cultos, suas práticas, suas crenças. É preciso esforço não apenas para sair-se de seu próprio lugar, e, então, compreender-se o lugar do outro, mas igualmente, para compreender-se que o próprio lugar é tão estranho a olhos terceiros do que o deles, para nós, por mais que a nós nos pareceça bastante "natural" a nossa própria prática religiosa. Ora, eventualmente alguém haveria de considerar que o sexo e a sexualidade, naturalíssimos (por exemplo, na religião tântrica), sejam sumamente mais compreensíveis como expressão religiosa do que, por exemplo, a morte de cruz. Afinal, não foi justamente ela escândalo e tropeço para judeus e gregos? Pois então...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Para as informações histórico-arqueológicas, cf. Rohini Sharma, Khajuraho - Where Sensual Meets the Sublime, India Perspectives, número de novembro, 2005, disponível na página do Ministério das Relações Exteriores da Índia. Alternativamente, uma tradução do artigo encontra-se disponível na página da Fundação Maitreya, disponível aqui. De posse das informações do artigo, elaborei a presente postagem, utilizando-se de informações e imagens disponíveis na Internet, utilizando-me dos inestimáveis serviços do Google, onde os créditos podem ser recuperados.

2. Para uma aproximação à sexualidade em contexto tântrico/oriental, com referências ao complexo de Khajuraho, cf. Paulo A. E. Borges, Experiência sexual e iluminação na tradição tântrica.
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