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segunda-feira, 10 de maio de 2010

(2010/375) Rede da alma


1 A aparição virtual de Jimmy a partir das terras francesas trouxe de volta, sob outra perspectiva, a dimensão do vazio e do niilismo existencial. Osvaldo, mesmo enfermo, reagiu com sua pena perspicaz. É ele, sem dúvida, a alma mater e o animus rector deste blog. Por isso, como coadjuvantes, estimamos sua pronta recuperação.

2 Um citado do texto de Osvaldo me chamou especialmente a atenção. “A alma humana tem tanta saudade da verdade divina que, quando tem de encarar a condição humana da verdade humana, desespera. A auto-piedade toma conta do homem, choroso que fica, porque perdeu... o que ele perdeu mesmo? Ah, sim, uma ilusão política...” Acho é mais que isso. Obviamente entendemos que o mito é instaurador e policiador das consciências; por isso falamos em “violência do mito”. Concordo. Mas não é só isso. Há uma cumplicidade de sujeitos dentro de uma malha simbólica tecida coercitivamente e reproduzida coercitiva ou voluntariamente. De uma ou de outra forma, a “alma” se acostuma ao jeito da tessitura. Quando a certeza da verdade do mito se vai não perdemos somente uma “ilusão política”; perdemos uma determinada construção simbólica, existencial. Com sua perda pendemos sobre o vazio ou ficamos, talvez saudosos, ainda a observar o “eclipse de Deus”, pelo menos, por algum tempo, até que, talvez, outras “verdades”, ainda que mais efêmeras e fugazes, nos sustentem. A síndrome do sacerdócio está impregnada, marcado nas nossas almas, e reproduzimos seus sintomas, ainda que involuntariamente.

3 Miseravelmente não vemos a “terra nua”. Sempre a vestimos com alguma vestidura do nosso guarda roupa lingüístico-cultural. E por isso podemos dar vários nomes a esta “terra”. Porque somos os sujeitos da reflexão e do discurso. Ainda que a terra lá esteja, nua – aos nossos sentidos -, ela está enamorada, num cio cósmico, num ciclo de vida de longuíssima duração.

4 As perguntas, e as respostas, “fundamentais”, emergem em meio a rede de questionamentos que a pergunta pelo Dasein suscita. Não fundamentais em si, como nada é, tornam-se fundamentais pela intenção da consciência.


HAROLDO REIMER

sábado, 20 de março de 2010

(2010/242) Quem mandou chutar a santa?


1. Lembram-se do pastor da Universal que chutou a santa? Pois então. Gilberto Gil escreveu uma música - Guerra Santa - em "homenagem" ao sujeito. Acabei de encontrá-la no Youtube. Quando eu leciono Teologia Brasileira, na Faculdade Batista do Rio de Janeiro, uso três músicas para fazer uma ponte entre Teologia e cultura brasileira: Invocação, de Chico César (Teologia pura, injetada na veia), O Trem das Sete (uma referência polêmica à Escatologia evangélica, que invadiu as praças na década de 70), de Raul Seixas, e, finalmente, Guerra Santa.

2. Meu objetivo em usar a música de Gilberto Gil é tornar mais patente a "guerra santa" que impera mesmo na base cristã, e que não devia, guerra às vezes mais delcarada, às vezes, mais dissimulada. Por exemplo, a Igreja Assembléia de Deus de São João de Meriti, por exemplo, acaba de tomar a cidade pra Jesus, sem plebiscito nem nada, conforme deixa claro aquele outdoor enorme, instalado contra-republicanamente no viaduto que corta a Dutra, na altura de São João, lado direito que quem desce para o centro do Rio: "esta cidade pertence a Jesus", um energúmeno escreveu. Bem cristão isso, e, por isso mesmo, muito pouco republicano - não nos vamos esquecer que a República é uma ação moderna contra justamente as monarquias... cristãs... teocráticas! O mundo era de Deus, mas os republicanos tomaram-no dele. Morreu de deesgosto depois, contaram... era tão apegado aos bens amteriais, coitado...

3. Naturalmente que há quem desgoste da letra, porque, no final, Gil provoca de um modo bastante feuerbachiano: "o nome de Deus pode ser Oxalá Jeová, Tupã, Jesus, Maomé Maomé, Jesus, Tupã, Jeová Oxalá e tantos mais sons diferentes, sim, para sonhos iguais". No entanto, não é de todo necessário admitir essa teologia fenomenológica de Gil para admitir-se que a prática de sair por aí a maldizer e imprecar contra a fé e os símbolos religiosos alheios não é nada muito recomendável. O pastor que chutou a santa, por exemplo, se queria agradar a Deus, podia meter a cabeça na padere até arrebentar - era menos um doido a apurrinhar a vida da gente... Se bem que aquilo ali, eu desconfio, foi bem de caso pensado, e de doido ele não tem nada não, não é Gil? Afinal como você disse, "ele não rasga dinheiro"...



Ele diz que tem, que tem como abrir o portão do céu ele promete a salvação ele chuta a imagem da santa, fica louco-pinel mas não rasga dinheiro, não Ele diz que faz, que faz tudo isso em nome de Deus como um Papa na inquisição nem se lembra do horror da noite de São Bartolomeu não, não lembra de nada não Não lembra de nada, é louco mas não rasga dinheiro promete a mansão no paraíso contanto, que você pague primeiro que você primeiro pague dinheiro dê sua doação, e entre no céu levado pelo bom ladrão Ele pensa que faz do amor sua profissão de fé só que faz da fé profissão aliás em matéria de vender paz, amor e axé ele não está sozinho não Eu até compreendo os salvadores profissionais sua feira de ilusões só que o bom barraqueiro que quer vender seu peixe em paz deixa o outro vender limões Um vende limões, o outro vende o peixe que quer o nome de Deus pode ser Oxalá Jeová, Tupã, Jesus, Maomé Maomé, Jesus, Tupã, Jeová Oxalá e tantos mais sons diferentes, sim, para sonhos iguais.



OSVALDO LIZ RIBEIRO

PS. aqui, a reportagem da Globo sobre o "caso".

sábado, 6 de junho de 2009

(2009/334) Fenomenologia da Religião e o "Memorial da Ceia do Senhor"


1. Ontem, durante a aula de Fenomenologia da Religião, enquanto apresentava aos alunos a série "cuspe-e-giz" sobre rito, penúltimo capítulo do livro de José Severino Croatto, As Linguagens da Experiência Religiosa, passou-me uma idéia pela cabeça, e a compartilhei com os alunos.

2. Para os aproximar do conceito de rito, e isso por meio de um exemplo que os tocasse, falei da "Ceia do Senhor". Para chegar a tanto, primero, pinçamos algumas declarações de Croatto sobre o rito. Ei-las: "o rito participa do símbolo e do mito. Se o símbolo é uma coisa que transignifica outra (...), o rito é um gesto que também significa outra realidade. Como ação, aponta para um determinado efeito. Se o símbolo é díctico (isto é, manifesta, expressa), o rito é performativo, 'faz'" (p. 331). "No rito, os seres humanos fazem, o que no mito fazem os Deuses" (p. 333).

3. É que "o mito 'relata' uma ação dos Deuses que funda uma realidade presente. A recitação do mito (em um contexto de sacralidade) tem uma força atualizadora do acontecimento primordial (...). Mas é no rito que a repetição daquela ação divina é mimetizada como ato litúrgico. As duas 'ações' sintonizam, mas a segunda ação (a ritual) repõe em ação a primeira. Os atos divinos são atualizados na cena ritual" (p. 332).

4. Pois bem. Falei-lhes da "Ceia", conforme ela tem sido oficiada em ambiente batista. Ali, o "pão" converteu-se em "cubos, quadradinhos de pão de fôrma". Você olha, e vê uma bandeja cheia de pedaços de cubos de pão de fôrma. Sumamente artificial. Você só sabe que aquilo é pão, porque ali, naquela hora, só pode haver "pão". Mas, na vida real, ninguém come cubos de pão de fôrma. Se come pão de forma, é em fatias... Ora, como essa visão pode proporcionar a encenação da "Ceia"? Como pôr um pedaço ínfimo e cúbico de pão de fôrma na boca há de ritualizar o mito do sacrifício? Como o participante do rito vai poder experimentar a re-atualização do mito? Hum, com um esforço de imaginação...

5. A "Ceia", contudo, deveria ser um ritual significativo. Cada elemento, pão e vinho, deviam guardar a forma e a plasticidade do pão e do vinho, a imagem evocativa do significado do pão e do vinho. Não sei quanto a vocês, mas, a mim, cubos de pão de fôrma são deploráveis... Um aluno perguntou-me quanto ao "suco de uva". Fiz-lhe saber que a encenação consiste na articulação entre ação gestual e significado - se o líquido vermelho na taça transparente é vinho não é tão importante quanto ter a aparência de vinho, para que meu espírito possa apropriar-se da imagem da taça e encenar o mito. Melhor que fosse vinho, naturalmente, mas o fato de ser suco de uva não tem paralelo no absurdo do pão de fôrma cortado em cubos...

6. Todavia, perdemos completamente o cuiado com o ritual. Por outro lado, caímos no rubricismo - que Croatto também descreve. Porque se acaba dando mais atenção à mecanicidade operativa dos gestos, do que, propriamente, ao significado do ritual, "chega-se ao 'rubricismo', ao cuidado meramente formal da ação ritual em detrimento da atenção ao mito (ou querigma) intencionante, que é sua essência significativa" (p. 354-355).

7. De fato, quanto à "Ceia", o que se discute é quem pode e quem não pode - ultra-restrita, restrita, livre, ultra-livre, se diácono pode oficiar ou só servir, se não pode, se diaconiza, se missionária no front, e isso, e aquilo... E o que é sumamente importante, a estrutura formal e significativa da encenação, do que depende a sua capacidade de catalisar a expriência mística do crente, puff...

8. 1985. Batizar-me-ia em duas semanas, mas, ainda não era batizado. Cantava no coral, contudo. Isso podia! Lá estava eu. Era "Ceia". Seria minha primeira... quer dizer, eu pensava... O presidente do corpo diaconal passou, oferecendo a bandeja com os cubos de pão de fôrma. Estiquei a mão e peguei um. Um tapa, firme, leve, mas severo, fez-me devolver o pão...

9. Rubricismo. Quanto ao rito, em si, nada. Legalismo sem sentido. Risco de morte. Farisaísmo de sábado. Quando, o que me importava, era encenar o sentido do mito...

10. Quando a plástica da "Ceia" desaparece, quando não importa a forma, a estética, a arte, a imagem, mas importa apenas a "doutrina" que se proclama lá na frente... Quando seria a mesma coisa meramente levantar-se e repetir o "texto" do Memorial, sendo a encenação do rito desnecessária, o que se vai evidenciando na banalização dos elementos, cubos de pão, mini-cálices de suco de uva, ora, que mensagem, ainda que inadvertidamente, está-se passando? Não se está dizendo que não há grande importância na "cena", mas, apenas, na "mensagem"? Ora, mas se é a mensagem - o mito - e não a encenação - o rito - que tem importância, para que, então, o rito? Uma ordenança - literalmente - sem sentido...

11. Quando se dá conta, a Igreja já perdeu a relação afetiva com o rito, porque ela veio aprendendo, há anos, que o rito é menor, meramente decorativo, ao passo que, a doutrina, a leitura "pastoral" do texto bíblico, essa, sim, é relevante. Transforma-se a "Ceia" num sarau... A liturgia, numa reunião de filosofia. O sentido plástico, cênico, a participação corporal no gesto fundante do mito, traduzido no rito, re-atualização do gesto do "Deus" - cadê?

12. É curioso, e muito, que quase todos os capítulos da Fenomenologia da Religião coloquem a Teologia e a Igreja contra a parede, dado o seu discurso anacrônico e descasado da consciêcia moderna. Contudo, o capítulo do rito, se levado em conta, poderia proporcionar um novo fôlego litúrgico na realização da "Ceia". Um retorno ao símbolo. Um retorno ao rito. Uma re-conscientização do mito significante da comunidade.


OSVALDO LUIZ RIEIRO

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

(2008/127) Ainda sobre símbolos...


1. Hum, Jimmy... Jimmy... Esse nome, Haroldo, que você menciona, hum, parece que já o ouvi em algum lugar, mas faz tanto tempo que não sei se, de fato, ligo o nome à pessoa...

2. Quanto ao ócio e à praia. Bem, sair do banco me deu extraordinárias oportunidades, mas, por outro lado, privou-me de outras. Depois de dez anos de férias e viagens à beira-mar, basTante ócio em praias do Espírito Santo e Parati, bem, a Teologia não logrou manter minhas possibilidades de viagem. Desde a virada do milênio que não sei o que são férias - com o que não me refiro ao ócio em si, mas ao ócio com estilo, que, convenhamos, é outra coisa. Esperemos e vejamos se o doutorado me devolve a Chance de experimentar o ócio, se não em praias, que a pele desgosta, ao menos nas serras de Minas ou capixabas.

3. Não queres discutir, mas me cutucas. Não discutamos. Mas, quando você afirma que "Deus" não é objeto fenomênico, do que está falando? Penso que sua fala, tanto quanto a de Tillich, permitem-me reiterar minha crítica - é como se "Deus" fosse um "dado"... e, no entanto, um "dado" não disponível. Ora, mas isso faz de "Deus", apenas, uma Idéia - de que a fFnomenologia da Religião traça, a seu modo, a genealogia, que as Ciências Humanas, quando manejadas sem intenções teológicas apriorísticas, reduzem a dimensões científico-humanistas, que Feuerbach denunciou, corretamente, como "projeção", e que Morin trata, primorosamente, eu diria, irretocavelmente, acrescentaria, como ser de espírito, com o que ele quer referir-se a seres noológicos, de pensamento, que povoam a noosfera, que, pleonasticamente dizendo, é humana.

4. A Fenomenologia da Religião, mesmo a de Eliade, não afirma que uma "Realidade" invisível, ontologicamente falando, se manifeste ao homem (Croatto). Fenomenologia da Religião não é Teologia. Ela tão somente sistematiza os documentos humanos - são eles, os seres humanos, que dizem manifestar-se a eles essa "realidade". É no testemunho humano que a Fenomenologia recolhe suas informações, para, desde aí, analisá-las criticamente, científico-humanisticamente, compreendendo o fenômeno do sagrado como fenômeno global, holístico, sem reduzi-lo, metodologicamente, por exemplo, como faz, a seu tempo e modo, a Sociologia, a um fenômeno social - conquanto também o seja.

5. Em termos históricos, aquilo que se refere a uma experiência da consciência - lembremo-nos de que Eliade, tão mal-interpretado algumas vezes, como se ele, alguma vez, apontasse para "Deus", o da Teologia (Eliade é mais parente de Feuerbach do que de Barth!) - afirma que o "sagrado" é uma estrutura da consciência humana (Origens)! O "sagrado" que aparece na boca do interpretante já é um "conteúdo" criado por esse hierofante, cuja chave hermenêutica Feuerbach já tratou de oferecer, antes de, por isso, morrer. Logo, "Deus", Haroldo, até onde pudermos ir, não passa, nunca, de "objeto hermenêutico", de "imaginação criativa" - necessária? eventualmente... Sob o registro pré-moderno, podia-se tomar a invenção por iIventor(a). Hoje? Bem, hoje pode-se escolher o que se vai fazer: pode-se escolher com que cabeça se vai pensar a coisa toda...

6. A aparência de desconhecido desse "Deus" - impossível, poque ele, nessa dimensão, a do discurso (Platão/Agostinho/Barth/Tillich/Rubem Alves), tanto quanto a do não-discurso (Eckhart) é uma invenção humana, e, como tal, é por ele, pelo homem, suficientemente bem sabida - é meramente "racionalizante". Essa invenção noológica ganhou um estatuto filosófico tão sutil e sofisticado, via Grécia, que a sua racionalização levou a desenvolvimentos teológicos os mais contraditórios. E, no entanto, eis um deles - "Deus" tem de ser desde o "Totalmente Outro" até o "Desconhecido" - ah, sim, e, então, como é "conhecido"? Aí vem Barth: porque dá-se a conhecer e porque o que dele sabemos, sabemos apenas em mínima, ínfima parcela... Retórica. Ou um Rubem Alves chateado com a velha Teologia, mas não com a eidética teológica fundamental - é poeticamente que falamos dele...

7. Não há escapatória. Ou pensamos "Deus" como se pensava há milênios - essa forma ainda está em Tillich, malgrado os admiradores de Tillich quererem transformá-lo numa alternativa à teologia clássica: arrisco advirtir - é um auto-engano. Ou pensamos à moda com a qual vamos aprendendo a lidar, desde, pelo menos, Feuerbach, cujo expoente máximo me parece ser Edgar Morin: "Deus" é um ser de espírito, um ser noológico, que "vive" à custa de nossas energias, não apenas psíquicas, mas, além delas, também, somáticas. Nesse caso, a "palavra" Deus é mais concreta do que aquilo que ela pretende representar, porque ela é o que há de concreto, e tanto, que, quando você é apresentado a "Deus", é à palavra "Deus", a seu conjunto de doutrina, de ensino, de "saber" que você é apresentado. A saída mística não se faz de outro modo.

8. Nesse caso, o "símbolo" não se refere, nunca, a "Deus" enquanto eventualmente existente, mas, sempre, absolutamente sempre - e esse é o ponto, todo o mais é corolário - a "Deus" (idéia) conforme eu (interpretante) imagino/aceito/creio (ato hermenêutico, salto, "fé") que ele "exista". Insisto - fora da fé não há "Deus", ou, seria mais adequado, fora da fé não há como saber... Os símbolos para "Deus" são metáforas (como na Grácia moderna, trens para transporte) para a dimensão do além-palavra, a dimensão da idéia, aquela à qual, contudo, só se vai por meio delas, as palavras.

9. Se existe alguma coisa para além das palavras, além das idéias, algo/alguém que se aproximaria daquilo que aprendemos a chamar de "Deus", a quem aprendemos a atribuir "tudo", seja de bom - "Graças a Deus" -, seja de ruim - "Deus quis assim" - como saber? É epistemologicamente legítima a questão. Mas, Haroldo, o fato de que "projetamos", como sua causa, Deus em todos os acontecimentos da vida, explicando-os, o que isso tem a dizer, concretamente, a respeito de "Deus" para além das nossas palavras, do nosso enredo? Nada! A coisa toda, se levada a sério, pára na fé, e fica aí. Antes, diz a respeito de nós e de nossa "mania"/"necessidade" de assim proceder - por "tradição"?, "vício"?, "costume" - chamamos a isso "fé", mas é disso que estou falando, quando pergunto se, afinal, como o cachimbo, isso não é um "hábito"...

10. Além disso, há uma evidência moderna interessante a respeito da "modalidade" sistêmica/sistemática dos seres de espírito. O mundo do RPG, e, mais telematicamente, do MMORPG, ilustra bastante satisfatoriamente um padrão da "Teologia". Os "mosntros" do RPG e do MMORPG tornam-se "modelares". Quando você se depara com um "orc", seja em que livro for, seja em que história for, seja em que jogo for, ele é sempre "igual" - tem a mesma forma, os mesmos nomes, as mesmas armas, o mesmo comportamento, os mesmos mitos, os mesmos símbolos. Naturalmente, porque quem há de manejar um orc deverá seguir a "modalidade" - termo que uso aqui no mesmíssimo sentido com o qual Elidade se refere às modalidades do "sagrado", quando ele é tido como manifestado como/na pedra, como/na árvore, como/no céu etc. - própria e universal dos "orc". Vale o mesmo para todo e qualquer ser noológico/mitológico - há um padrão, que dá a esse ser a aparência de uma existência em si, concreta, o que se revelaria pela manutenção de seus traços modelares. E, contudo, quanto aos orc, aos ogros, aos vampiros, aos dwarfs, aos duendes, ora, quanto a eles, sabemos que se trata, indubitavelmente, de seres de imaginação, conquanto a imaginação, disso já sabemos, gere seres tão reais e eficientemente operacionais quanto os de carbono.

11. Eventualmente há traços históricos na mitologia teromórfica. O famoso Boi Tatá, na região norte do Brasil - aposto que ele seja uma hipóstase fantástica das preguiças gigantes (que, consta, existiam, ainda há duzentos anos, na Amazônia - a confirmar). O que não significa que todo ser de espírito tenha essa "história". No caso dos deuses, não apostaria, na origem, em um caso desse tipo. A meu ver, trata-se, por hipótese, claro, muito mais da aplicação dos conhecimentos do homem primitivo à sua "experiência" do "sagrado" - isso, que "eu testemunhei", que é? Bem, só pode ser alguma coisa viva/móvel e ter vindo de algum lugar - mas da água, não é, do mato, não é, da terra, não é, do céu, não é, porque tudo que é vivo, tudo que eu caço e como, ou que me caça e me come, ou é da água, ou da terra, ou do mato, ou do céu, e essa coisa, esse ser que me apareceu (é assim que ele interpreta a hierofania, não nos esqueçamos, mas não é assim que a Fenomenologia da Religião "entende" o processo, porque, para a Fenomenologia da Religião, o processo é cérebro-estrutural e hipostático, mas a Teologia, ah, ela imediatamente nasceu depois da imaginação hipostática - e existirá enquanto houver essa alienação psicológica) não é nem da água, nem da terra, nem do mato, nem do céu - mas do além-mato, do além-terra, do além-céu, do além-rio. Eliade já falou sobre isso (Tratado de História das Religiões) num livro libertador.

12. Logo, e para encerrar, penso que devemos analisar mais profundamente a noção de símbolo., sim. Ah, e quanto! É mais ou menos como Rubem Alves pretende fazer Teologia por meio de poesia, como se isso significase alguma coisa realmente diferente da Teologia como doutrina. Que diferença? Eckhart, Barth e Alves - os três, aparentementemente, fazendo coisas "diferentes" - mas, a despeito do peso da recepção de suas retóricas, eu insisto: é a mesma coisa - fé, e pronto., conquanto uma se desdobre politicamente (doutrina é política) e, a outra esteticamente (se a poesia aí, contudo, não tem função política!). Apenas a fé exige de si silêncio reverente - falar é pecado! Apenas a fé exige catequese salvadora - falar é dever! Apena a fé exige devaneios pseudo-abertos, poéticos, metafóricos, volantes - falar é estético! Por trás dessas fés, das três, paira "Deus", uma Idéia, que se desdobra, nos três casos, ela, a Idéia, e não ele, o Ser, posto que, aí, não passa de Idéia, em símbolos - símbolos que são função direta da e condicionada pela Idéia que os engendra, e os engendra dessa forma, e não de outra, porque é assim que ela, a fé, sabe que "Deus" - essa Idéia - é. Desconhecido? Na-na-ni-na-não!

13. Mas vai para (su)a praia. Invejo-te um pouquinho. No fundo, não invejo nada que não possa ser, realmente, meu - e essa praia, não, ainda não posso. Contudo, passarei um mês com Navarre, Isabeau, Trudeau, Noveau, Frappant, Tremoussement e Arpeje, meus personagens do Rose - estou prestes a contruir meu primeiro Castle Gear! Quando a vida lúdico-noológica tornar-se insossa, durante esse mês, correrei e beijarei a boca de Bel: esse é o lugar que, invarialmente, me adverte a não recalcar o real - é no real, e só nele, que há boca de beijar, ato lúdico-hilético - conquanto o beijo seja, ao mesmo tempo, sonho e símbolo: ah, e quanto mais se conhce, mais se quer... Porque nem aí há desconhecido, de fato... mas "desejado" (Ct 1,1-4).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

(2008/65) Das abstrações


1. Haroldo, continuo cá a pensar no que tu escreveste. Que (arti)manhoso!, sete - o número da perfeição - parágrafos resenho-historiográficos para, ao cabo, zapt!, dar-me o bote!, e logo tu que tanto gostas de "introduções" e "conclusões". Ai!, se não me tenho cá coração sadio...

2. Bem, como deves ter percebido, minha reação, ontem, foi imediata - outra vez, no calor da batalha. Um soldado sob mira ou se enfia na trincehria, tremendo, ou revida. Hoje, contudo, mais tranqüilo (!), volto à carga. E vou fazê-lo "à moda", isto é, escavucar na base de cada termo que você usou em seus oitavo e nono parágrafos - as balas de prata que puseste no tambor de nove balas...

3. Você disse:

3.1 "8. Ao ler o livro, fiquei pensando no meu amigo Osvaldo e na sua tentativa recente de distinguir entre ‘tradição’ e ‘Tradição’. Não consigo concordar com esta distinção. Somos sempre seres, humanos é claro, regidos pela intentio, somos homo hermeneuticus, sempre. Mas estamos, sempre, envoltos em nossa história singular. Aceitamos ou rejeitamos. Recitamos ou criticamos. Ou também: criticamos recitando. Afinal, estamos construindo novos fios numa rede simbólica. Ainda que o próprio Morin conceba, corretamente, que somos ‘possuídos’ por idéias como se fossem seres, nego-me a conceder à ‘Tradição’ essa aura metafísica que, assim me parece, transparece nesta distinção de Osvaldo. 9. Morin, no meu entender, exemplifica esta pertença e a crítica. Pertença e superação. Há simultaneidades. Não há purismos" ((2008/63) Simultaneidades).

4. Quanto ao fato de tu "não conseguir[es] concordar com esta distinção", bem, recorda-te das introduções e da teologias do AT: são useiros e vezeiros, com louváveis exceções, em usar a expressão (ou similar): "Israel cria em", "Israel concebia", "Israel fez". Bem, o nome disso é abstração. Nunca houve "Israel" nesse sentido. Havia "Israéis". Não apenas os de esquerda, de direita e de centro. Também esses. Mas dentro de cada espectro desses, havia os sub-Israéis, até aquelas porções mínimas, observáveis caso a caso. É mais ou menos como aquela velha expressão: "porque os brasileiros...", e lá se solta uma generalização, uma abstração. O mesmo, a rigor, e ainda mais fortemente, vale para a expressão "Igreja" como sujeito - outra abstração. E, naturalmente, é onde quero chegar, "tradição".

5. Deve-se distinguir entre o conceito - abstração - de "tradição", enquanto "conceito", e o que de fato ocorre, nesse sentido, na sociedade. Não há uma tradição. Nunca. Nem há uma super-tradição, dentro da qual as menores, locais, estejam. O que há são os imprintings (cf. Morin, O Método) situados, locais, específicos (pense na questão sexual que envolve a educação de filhos - o que aí é tradição: o que os pais ensinam?, o que os colegas da rua?, os da escola?, a escola, a "igreja"?, o Estado? Ora, não é tudo isso, mas, ao mesmo tempo, nada disso, já que o menino, a menina, tem de aprender a lidar ardilosamente com cada imprinting desses, cada qual querendo consubstanciar-se como Idéia na cabeça da criatura?). O que há de comum entre todos os exemplares do Homo sapiens é que são seres de tradição - o que significa que abriram mão, em sua jornada evolutiva, do controle absoluto de si por meio do DNA. Na prática, cada "tribo", cada grupo, cada bairro, cada cidade, constrói suas diferentes tradições, e são essas, pequenas, específicas, concretas (múltiplas mesmo nesse nicho ecológico), e não aquela, abstrata, conceitual, "simbólica", que, de fato, "co-formata" (e é co-formatada por eles) os indivíduos sob a sua influência. Assim, concordarias comigo que não há uma coisa chamada "tradição", no mesmo sentido em que não há uma coisa chamada "humanidade", o que há é o conjunto necessariamente dissociável e dissociado das tradições locais e concretas, bem como das pessoas histórico-sociais, biológicas e psicológicas, situadas?

6. Se concordares comigo, então sigamos. Ora, o que acontece num caso como Nicéia? O que me dizes de Nicéia? Primeiro, qualquer tentativa de tratar "simbolicamente" Nicéia é desconsiderar tudo quanto sabemos sobre programas políticos - Nicéia é Washington em todos os sentidos, ou Brasília, se preferir. Ali, uma "tradição" - ou seja, uma determinada porção dentre um conjunto inumerável de "cristianismos" igualmente tradicionais, mas díspares entre si, uma "tradição" articulada e manejada por "homens" do clero e do império autoproclama-se a tradição, ao preço de sufocar todas as demais, de impôr-lhes o que Yahweh impôs a Miriam, se me entende, que se cale, leprosa, e, rabo entre as pernas, meta-se em seu lugar - ou, se não, que permaneça para sempre fora do arraial, que, se um pai cuspido na cara não perdoaria, quanto mais Deus, onfendidíssimo. O que temos aí, nessa maravilhosa - debocho, percebes? - Nicéia? Não a "tradição" homogênea, simbólica (Weber? Bordieur?); tão pouco, "ainda agora", a tradição local, circunscrita a uma comunidade - mas a Tradição, auto-divinizada, teocratizada, tornada Una - engodo, embuste, esbulho (cf. arts. 926 a 931, do Código de Processo Civil).

7. A "tradição" - enquanto expressão cultural e inexorável (enquanto rotina, não conteúdo) de uma comunidade: é dessa que falo com leveza. Nenhum povo a tem igual ao outro - e "povo", aí, vai para além da distinção entre brasileiros e argentinos, por exemplo, porque há muitos Brasis dentro do Brasil. Uma família - quantas tradições aí! A "tradição" - como parece transparecer (corrija-me) de seu parágrafo oito, enquanto expressão abstrata, conceitual, "lingüística", essa, a meu ver, não existe, como não existem nem um "Israel" nem uma "Igreja" enquanto abstrações - conquanto conceitos encessários para a referência ao particular, que, de fato, é apenas o que "existe". Já a Tradição, essa existe, e ela é, sem tirar nem pôr, a apropriação violenta do direito de grupos histórico-sociais manterem suas próprias tradições pelo simples fato de um maluco qualquer, em nome de Deus, julgar que a "sua", a "tradição" abstrativo-platônica, tenha de se sobrepor. Essa Tradição surge sempre a partir de uma tradição situada, que, hipertrofiando-se, inflacionando-se, ontologizando-se, sufocando as demais, todas, como árvore assassina, diviniza-se. Ora, a "tradição cristã", nesse sentido, é, antes de tudo, essa "Tradição" assassina de tantas outras - onde ela chega, mata: Boff não o dise quanto aos índios meso e sul-americanos? "Ai, cristianizaram-nos - mataram nossa flor!". Foi a "Tradição" - política e maldita - do Cristianismo de Platão e Constantino, controlando a cabeça, a mão e a espada de sujeitos entregues a seu poder. Dentro dele, à sua margem, no centro, em cima, embaixo, quantas "tradições" sobrevivem, escondidas, como os "marranos"! Tu o escreveste, Haroldo - como não consegues ver? Ou - insisto, estamos falando de coisas diferentes? Diga-me, por favor.

8. Morin fala sobre isso quando dicute o "comunismo marxista". E lamenta que tenha ocorrido a ele o mesmo que ao Cristianismo - a petrificação, a mumificação, a monolitização - a transformação de uma "tradição" em "Tradição". É, em todos os sentidos, sem precisar mudar uma única vírgula, o que Detinne diz de A República, de Platão: como fabricar uma Cidade Bela, um Admirável Mundo Novo. Huxley, com doses de álcool acrescentadas à fórmula genética da fábrica de embriões. Platão, com mitos - com "Tradição".

9. É preciso, eu diria, risco meu, que, desde dentro dessa "Tradição" - e o Cristianismo é, antes de tudo, Isso -, denunciemos, duramente, Isso. Alternativamente, pode-se considerar uma boa prática a utilização Disso para a libertação, se me entende. Sabe o que eu penso disso - não pode haver libertação na alienação, não pode haver salvação que não por meio de si mesmo (salvo como paciência, consciente de que se espera - e o quê?, que a Tradição morra por Si mesma). Usar Roma contra Roma, Wittenberg contra Wittenberg, a Tradição contra a Tradição, é fazer o serviço que a Idéia espera de nós: quanto mais o tumor é alimentado, e não importa se morrem os da direita ou da esquerda, o que importa é a morte sacrificial, tanto mais Ela impera. É Ela, contudo, que tem de morrer, para que as "tradições", locais, livres, dialogais, possam, de fato, verdadeiramente, emergir. Idéias fracas, tradições fracas... Morin.

10. Para encerrar. Consulta tua Bíblia. Vá ao Sl 53, último versículo. Lerás, aí, quase que sem importar qualquer que seja a versão que consultes, "salvação", "libertação", "livramento". Vai ao hebraico, agora. Lá, lerás "plural" - "salvações". Porque os tradutores não respeitam esse plural? Hipótese: porque projetam aí a Salvação. Erro crasso, grave, no estilo dos "ídolos", de Bacon. Falam-se, aí, das salvações cotidianas, do cuidado que o rei deve ter com o povo, na sua figura-retórica de "pastor", que Sião deve ter com as populações. Mas os tradutores estão um tanto quanto cegados - risco de todos nós - por sua própria "Tradição", tão dialogais consigo mesmos que esquecem de prestar atenção na tradição do outro.

11. Insisto - há tradições, locais, situadas, concretas, que nos moldam e por nós, grupos locais, situados, concretos, são moldadas. Há uma infinidade de tradições e de redes tradicionais, intercomunicantes, conflituosas, simbióticas, complexas (a palavra "símbolo" é útil, mas não enquanto conceito-chave: ao lado dela, o contra-símbolo, o diábolo, a crítica, é igualmente necessária - Weber, sim, Bordieur, sim, mas Marx, também, Detienne, sempre!) . Uma delas, eventualmente - é muito comum - hipertrofia-se politicamente, e sufoca as demais (tenta!): aí, nasce a Tradição, a Força, a Imposição, o Dogma, a Hipocrisia. O que não, há, Haroldo, é o que eu acho, e vejo, mas posso estar enganado, é questão de discutirmos, é uma tradição simbólica como liame de uma humanidade ou de um recorte dela, a cristã, eventualmente. Não, isso é resíduo mitológico da Tradição, eventualmente, nosso porto mítico para segurança pessoal. É uma saída. Mas - será ela "real"? De novo - qui prodest?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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