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quinta-feira, 22 de abril de 2010

(2010/331) Do trágico e do fatalista


1. Estou lendo Domenico Losurdo, a magistral biografia intelectual de Nietzsche. Que obra! Estou quase criando um blog apenas para comentar a obra... Vamos ver... Nesse momento, sou tomado por uma questão, despertada pelo conteúdo da p. 58 da edição brasileira da Revan: o "otimismo" como o "veneno" da modernidade, a crença na felicidade humana, terreste, contra o qual os trágicos - Nietzsche e Schelling, dentre outros - contrapõem a irreversibilidade da condição "desgraçada" da espécie humana... Losurdo classificará essa "tendência" como política reacionária, o medo "fundado" da democracia e da revolução - que vivemos ainda hoje, por exemplo, no Brasil, que é um bom exemplo do escárnio democrático de uma elite social parasitária e metida à culta.

2. A questão que me constrangeu foi: é necessário ser fatalista para ser trágico? Um sujeito trágico tem de ser necessariamente "calvinista"? A condição deplorável e amargurada da esécie humana é inexorável? O "pecado original", bíblico, e o estupro de Perséfone, grego, são as marcas espirituais e psicológicas da espécie?

3. Não sei... A espéciwe humana sequer é um "destino". Trata-se de um "acidente" histórico-biológico (naturalmente que me recuso aqui ao mito calvinista, tanto quanto me recuso a um deus calvinista). Ora, dentro dos limites de minha argumentação, se a humanidade, contra todas as expectativas, emergiu da condição animal, isto é, se o surgimento da espécie é, e si, uma evidência da possibilidade de fuga do destino animal, conquanto tornar-se homem não seja exatamente deixar de ser animal, eu sei, mas acrescenta à espécie o que não parece haver em nenhum outro canto da biologia - a auto e livre-determinação - quanto mais não teria ela, agora, condições de, ainda mais, fugir à sua condição sub-humana...

4. Ora, se do que era absolutamente movido por DNA e destino, subitamente torna-se revolucionário - se é que raciocino elegantemente -, por que sou obrigado a conceber uma situação trágica inexorável? Por que não posso conceber, antes, uma ainda mais potencial possibilidade de revolução, quanto mais ela pode ser, agora, intencionalmente buscasda e construída?

5. Não, não: suspeito que o calvinismo, o fatalismo, no fundo, no fundo, sejam políticas aristrocráticas, sacerdotais, ladainhas destinadas ao convencimento das massas de que não adiantaria lutar pela liberdade, e que ser escravo, ser um quase-morto, ser um animal de carga é a maior felicidade a que pode aspirar um ser humano. É cinica a filosofia. É criminosa a política. Homem, teu nome é Prometeu! Basta-te um ferreiro a serrar teus grilhões...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 6 de abril de 2010

(2010/298) Flagrante de escárnio social


1. Num dos dois lados da imagem, Paraisópolis... Qual dos dois lados será Paraisópolis? Onde será o Éden paulista, afinal? Mas não é que seja um problema apenas da socieade paulistana, porque, a rigor, os próprios paulistas em si têm pouco a haver com esse escárnio social - ao menos não para além da omissão cotidiana de cada um de nós, naturalmente. Mas o que assombra é o escárnio de um empreendimento de luxo como esse ao lado de uma das maiores favelas de São Paulo. Não é o luxo em si que ofende, conquanto a ostentação nesse nível, em si mesma, já seja ofensiva - mas é o acinte, o deboche, o escárnio de fazê-lo ali, assim, desse jeito. Haverá salvação para nós? É quase como o céu calvinista - alegria pra todos que ali estão, a despeito dos eleitos para o inferno, ali do outro lado... Não sei quem é mais doente: o "Deus-calvinista" ou o próprio Calvino... E eis, aí, uma gota dessa Teologia, cujo nome, a rigor, é pecado...




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 31 de janeiro de 2010

(2010/122) De pais e mães e filhos e os tempos modernos


1. Confesso - sou careta. Muito, muito careta. Quem lê meus textos de crítica mordaz à Teologia "de cabresto", às pseudo-exegeses confessionais - faz-me rir! -, bem como às mais novas abordagens metafóricas da velha fé doutrinária deve imaginar-me um cara "moderno" - geralmente se conclui, erradamente, que a "crítica" é irmã da contravensão. Eis que o sou, em termos de ciência, de Teologia, de relações sociais, mas, não, em termos de cultura, de família, de costumes, das relações humanas. Não, não devo isso à Igreja - aliás, penso que as única coisas que realmente devo à Igreja são Bel, que lá conheci, as Escrituras, que desde que me tornei batista, devoro e desconstruo com sofreguidão, e minha "carreira", toda ela, teólogica. A fé?, não. A educação?, não. A moral?, não. Tudo isso, recebi de berço. Era assim, naquela época.

2. O mundo atual me atordoa. A moralidade difusa, a sexualidade aberrante, as libertinagens inconseqüentes, as bebidas alucinadas e as substâncias alucinógenas, o fumo, o desrespeito generalisado... tudo isso me desalenta. Ah, sim, vocês me veriam defendendo o direito de os cidadãos optarem por essa via: mas o faria por questões de caráter político-filosófico, conquanto não consiga imaginar um filho meu adotando essas novidades modernas. Sim, sou quadrado.

3. Ter sido quadrado, desde a infância, por força de educação, fez-me ter um contato curioso com Mama Maria, do Grafite, porque a letra se punha nos limites da transgressão. Era 1982, eu acabaria aí meu segundo grau, e, em dezembro, tomaria meu único porre na vida, um copo de Fanta com Vodka. Eu tinha o quê? Dezesseis anos. Faria 17 dias depois do porre... Exército no ano seguinte e, em agosto, a fé batista...

4. A letra fala(va) de u'a mãe que ficava na cola da flha, de olho nos marmanjos que a godevaram, ela, a presa, eles, os caçadores, a mãe, a leoa indomável... Meu instinto adolescente adorava a música, o som, a letra, mas, ao mesmo tempo, meu espírito "centrado" conseguia olhar mais para a mãe do que para o tubarão à caça da sardinha... Minha torcida era quadrada, digamos assim. Esse ano, um aluno me contou que teve problemas semelhantes com a filha, treze anos, abordada por um marmanjo na escola. Um boa conversa entre eles, se me entendem (o pai e o marmanjo) resolveu a "parada"...

5. Se nunca desobedeci minha mãe? Sim, claro. As aulas da tarde terminavam mais cedo, eventualmente, e, em lugar de eu ir direto pra casa - ordens! -, ficava jogando queimada na porta da escola: foi o máximo que me aproximei de meninas, então... se bem que teve aquela vez da "pera, uva, maçã"... Dava o horário da última aula, ia eu embora... Um dia, fui jogar queimada em outra rua, mais longe. Para voltar para casa, tinha que ir pelo lado contrário da escola. Ao me aproximar de casa, vi a fera no portão... Como explicar por que eu vinha por essa direção? Dei a volta correndo pela rua de cima, para poder chegar "pelo lado certo". Santo? Não, absolutamente - Deus o sabe! Mas afrontar mãe? Jamais!

6. Por isso, mais tarde, aí já era até crente, já, apaixonei-me pela letra de Namorinho de Portão, cantada pelo Penélope e que, agora, descubro ser do Tom Zé. Falava daqueles anos de inocência, dos quais tenho saudade. Não, não gosto da selvageria carnal que se vende na TV, que se vê na juventude. Odeio filmes de traição conjugal - mas fui condescendente com As Pontes de Madison... Isso nunca leva a bom lugar. É preciso que os instintos sejam tratados de forma absolutamente positiva, mas é ainda mais preciso que o respeito, o bom senso, a responsabilidade esteja à mão. E ainda acho que essa é, acima de tudo, uma coisa de pai e mãe, uma responsabilidade de adultos. Não garante, absolutamente, nada, mas a educação de pai e mãe é de suma importância.


7. Sinto que os dias não são bons. Sinto que algo de melhor foi deixado para trás. Acho que a perda da qualidade da vida da juventude coincida com a saída das mães de casa, para trabalhar. Sem pai nem mãe em casa, a situação saiu do controle. Acho isso triste. Tomara tenhamos já chegado ao fundo do poço, e que a juventude perceba que a lascívia, a imoralidade, as bebedeiras, as drogas, não são coisas boas, não. Não se trata de um discurso evangélico, nem moralista - sou, por exemplo, a favor da eutanásia, do aborto e do "casamento" civil para homossexuais, sou contra o uso de símbolos cristãos - porque, religiosos mesmo, não os há, só cristãos - em órgãos públicos: sou republicano! Se trata do discurso de um pai, que não agüentaria ver seus filhos destruídos pela diversão moderna, mas que vê a juventude ir ralo abaixo. Disse diversão? Perversão...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

(2010/104) Discurso de Lula, em Davos


1. Dada uma súbita crise de hipertensão - deve ter sido o olho gordo de certo sociólogo enciumado -, que acometeu o Presidente horas antes de sua viagem para Davos, onde receberia o prêmio de Estadista Global, Lula, por conselho médico, não viajou. Mas seu discurso estava pronto, e leu-o o Ministro das Relações Exteriores, chanceler Celso Amorim. Em si, já se trata de uma peça formidável. Se Lula o tivesse lido, teria sido apoteótico!




Minhas senhoras e meus senhores,

Em primeiro lugar, agradeço o prêmio "Estadista Global" que vocês estão me concedendo. Nos últimos meses, tenho recebido alguns dos prêmios e títulos mais importantes da minha vida. Com toda sinceridade, sei que não é exatamente a mim que estão premiando - mas ao Brasil e ao esforço do povo brasileiro. Isso me deixa ainda mais feliz e honrado. Recebo este prêmio, portanto, em nome do Brasil e do povo do meu país. Este prêmio nos alegra, mas, especialmente, nos alerta para a grande responsabilidade que temos.

Ele aumenta minha responsabilidade como governante, e a responsabilidade do meu país como ator cada vez mais ativo e presente no cenário mundial. Tenho visto, em várias publicações internacionais, que o Brasil está na moda. Permitam-me dizer que se trata de um termo simpático, porém inapropriado.

O modismo é coisa fugaz, passageira. E o Brasil quer e será ator permanente no cenário do novo mundo. O Brasil, porém, não quer ser um destaque novo em um mundo velho. A voz brasileira quer proclamar, em alto e bom som, que é possível construir um mundo novo. O Brasil quer ajudar a construir este novo mundo, que todos nós sabemos, não apenas é possível, mas dramaticamente necessário, como ficou claro, na recente crise financeira internacional – mesmo para os que não gostam de mudanças.

Meus senhores e minhas senhoras,

O olhar do mundo hoje, para o Brasil, é muito diferente daquele, de sete anos atrás, quando estive pela primeira vez em Davos. Naquela época, sentíamos que o mundo nos olhava mais com dúvida do que esperança. O mundo temia pelo futuro do Brasil, porque não sabia o rumo exato que nosso país tomaria sob a liderança de um operário, sem diploma universitário, nascido politicamente no seio da esquerda sindical. Meu olhar para o mundo, na época, era o contrário do que o mundo tinha para o Brasil. Eu acreditava, que assim como o Brasil estava mudando, o mundo também pudesse mudar.

No meu discurso de 2003, eu disse, aqui em Davos, que o Brasil iria trabalhar para reduzir as disparidades econômicas e sociais, aprofundar a democracia política, arantir as liberdades públicas e promover, ativamente, os direitos humanos. Iria, ao mesmo tempo, lutar para acabar sua dependência das instituições internacionais de rédito e buscar uma inserção mais ativa e soberana na comunidade das nações. risei, entre outras coisas, a necessidade de construção de uma nova ordem econômica internacional, mais justa e democrática. E comentei que a construção desta nova ordem não seria apenas um ato de generosidade, mas, principalmente, ma atitude de inteligência política.

Ponderei ainda que a paz não era só um objetivo moral, mas um imperativo de racionalidade. E que não bastava apenas proclamar os valores do humanismo. Era necessário fazer com que eles prevalecessem, verdadeiramente, nas relações entre os países e os povos. Sete anos depois, eu posso olhar nos olhos de cada um de vocês – e, mais que isso, nos olhos do meu povo – e dizer que o Brasil, mesmo com todas as dificuldades, fez a sua parte. Fez o que prometeu. Neste período, 31 milhões de brasileiros entraram na classe média e 20 milhões saíram do estágio de pobreza absoluta. Pagamos toda nossa dívida externa e hoje, em lugar de sermos devedores, somos credores do FMI.

Nossas reservas internacionais pularam de 38 bilhões para cerca de 240 bilhões de dólares. Temos fronteiras com 10 países e não nos envolvemos em um só conflito com nossos vizinhos. Diminuímos, consideravelmente, as agressões ao meio ambiente. Temos e estamos consolidando uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, e estamos caminhando para nos tornar a quinta economia mundial. Posso dizer, com humildade e realismo, que ainda precisamos avançar muito. Mas ninguém pode negar que o Brasil melhorou.

O fato é que Brasil não apenas venceu o desafio de crescer economicamente e incluir socialmente, como provou, aos céticos, que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. Historicamente, quase todos governantes brasileiros governaram apenas para um terço da população. Para eles, o resto era peso, estorvo, carga. Falavam em arrumar a casa. Mas como é possível arrumar um país deixando dois terços de sua população fora dos benefícios do progresso e da civilização?

Alguma casa fica de pé, se o pai e a mãe relegam ao abandono os filhos mais fracos, e concentram toda atenção nos filhos mais fortes e mais bem aquinhoados pela sorte? É claro que não. Uma casa assim será uma casa frágil, dividida pelo ressentimento e pela insegurança, onde os irmãos se vêem como inimigos e não como membros da mesma família. Nós concluímos o contrário: que só havia sentido em governar, se fosse governar para todos. E mostramos que aquilo que, tradicionalmente, era considerado estorvo, era, na verdade, força, reserva, energia para crescer.

Incorporar os mais fracos e os mais necessitados à economia e às políticas públicas não era apenas algo moralmente correto. Era, também, politicamente indispensável e economicamente acertado. Porque só arrumam a casa, o pai e a mãe que olham para todos, não deixam que os mais fortes esbulhem os mais fracos, nem aceitam que os mais fracos conformem-se com a submissão e com a injustiça. Uma casa só é forte quando é de todos – e nela todos encontram abrigo, oportunidades e esperanças.

Por isso, apostamos na ampliação do mercado interno e no aproveitamento de todas as nossas potencialidades. Hoje, há mais Brasil para mais brasileiros. Com isso, fortalecemos a economia, ampliamos a qualidade de vida do nosso povo, reforçamos a democracia, aumentamos nossa auto-estima e amplificamos nossa voz no mundo.

Minhas senhoras e meus senhores,

O que aconteceu com o mundo nos últimos sete anos? Podemos dizer que o mundo, igual ao Brasil, também melhorou? Não faço esta pergunta com soberba. Nem para provocar comparações vantajosas em favor do Brasil. Faço esta pergunta com humildade, como cidadão do mundo, que tem sua parcela de responsabilidade no que sucedeu – e no que possa vir a suceder com a humanidade e com o nosso planeta. Pergunto: podemos dizer que, nos últimos sete anos, o mundo caminhou no rumo da diminuição das desigualdades, das guerras, dos conflitos, das tragédias e da pobreza?

Podemos dizer que caminhou, mais vigorosamente, em direção a um modelo de respeito ao ser humano e ao meio ambiente? Podemos dizer que nterrompeu a marcha da insensatez, que tantas vezes parece nos encaminhar para o abismo social, para o abismo ambiental, para o abismo político e para o abismo moral? Posso imaginar a resposta sincera que sai do coração de cada um de vocês, porque sinto a mesma perplexidade e a mesma frustração com o mundo em que vivemos. E nós todos, sem exceção, temos uma parcela de responsabilidade nisso tudo.

Nos últimos anos, continuamos sacudidos por guerras absurdas. Continuamos destruindo o meio-ambiente. Continuamos assistindo, com compaixão hipócrita, a miséria e a morte assumirem proporções dantescas na África. Continuamos vendo, assivamente, aumentar os campos de refugiados pelo mundo afora. E vimos, com susto e medo, mas sem que a lição tenha sido corretamente aprendida, para onde a speculação financeira pode nos levar.

Sim, porque continuam muitos dos terríveis efeitos da crise financeira internacional, e não vemos nenhum sinal, mais concreto, de que esta crise tenha servido para que repensássemos a ordem econômica mundial, seus métodos, sua pobre ética e seus processos anacrônicos.

Pergunto: quantas crises serão necessárias para mudarmos de atitude? Quantas hecatombes financeiras teremos condições de suportar até que decidamos fazer o óbvio e o mais correto? Quantos graus de aquecimento global, quanto degelo, quanto desmatamento e desequilíbrios ecológicos serão necessários para que tomemos a firme decisão de salvar o planeta?

Meus senhores e minhas senhoras,

Vendo os efeitos pavorosos da tragédia do Haiti, também pergunto: quantos Haitis serão necessários para que deixemos de buscar remédios tardios e soluções improvisadas, ao calor do remorso? Todos nós sabemos que a tragédia do Haiti foi causada por dois tipos de terremotos: o que sacudiu Porto Príncipe, no início deste mês, com a força de 30 bombas atômicas, e o outro, lento e silencioso, que vem corroendo suas entranhas há alguns séculos.

Para este outro terremoto, o mundo fechou os olhos e os ouvidos. Como continua de olhos e ouvidos fechados para o terremoto silencioso que destrói comunidades inteiras na África, na Ásia, na Europa Oriental e nos países mais pobres das Américas. Será necessário que o terremoto social traga seu epicentro para as grandes metrópoles européias e norte-americanas para que possamos tomar soluções mais efinitivas?

Um antigo presidente brasileiro dizia, do alto de sua aristocrática arrogância, que a questão social era uma questão de polícia. Será que não é isso que, de forma sutil e sofisticada, muitos países ricos dizem até hoje, quando perseguem, reprimem e discriminam os imigrantes, quando insistem num jogo em que tantos perdem e só poucos ganham? Por que não fazermos um jogo em que todos possam ganhar, mesmo que em quantidades diversas, mas que ninguém perca no essencial?

O que existe de impossível nisso? Por que não caminharmos nessa direção, de forma consciente e deliberada e não empurrados por crises, por guerras e por tragédias? Será que a humanidade só pode aprender pelo caminho do sofrimento e do rugir de forças descontroladas? Outro mundo e outro caminho são possíveis. Basta que queiramos. E precisamos fazer isso enquanto é tempo.

Meus senhores e minhas senhoras,

Gostaria de repetir que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. Esta também é uma das melhores receitas para a paz. E aprendemos, no ano passado, que é também um poderoso escudo contra crise. Esta lição que o Brasil aprendeu, vale para qualquer parte do mundo, rica ou pobre. Isso significa ampliar oportunidades, aumentar a produtividade, ampliar mercado e fortalecer a economia. Isso significa mudar as mentalidades e as relações. Isso significa criar fábricas de emprego e de cidadania.

Só fomos bem sucedidos nessas tarefas porque recuperamos o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e não nos deixamos aprisionar em armadilhas teóricas – ou políticas – equivocadas sobre o verdadeiro papel do estado. Nos últimos sete anos, o Brasil criou quase 12 milhões de empregos formais. Em 2009, quando a maioria dos países viu diminuir os postos de trabalhos, tivemos um saldo positivo de cerca de um milhão de novos empregos.

O Brasil foi um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair. Por que? Porque tínhamos reorganizado a economia com fundamentos sólidos, com base no crescimento, na estabilidade, na produtividade, num sistema financeiro saudável, no acesso ao crédito e na inclusão social. E quando os efeitos da crise começaram a nos alcançar, reforçamos, sem titubear, os fundamentos do nosso modelo e demos ênfase à ampliação do crédito, à redução de impostos e ao estímulo do consumo.

Na crise ficou provado, mais uma vez, que são os pequenos que estão construindo a economia de gigante do Brasil. Este talvez seja o principal motivo do sucesso do Brasil: acreditar e apoiar o povo, os mais fracos e os pequenos. Na verdade, não estamos inventando a roda. Foi com esta força motriz que Roosevelt recuperou a economia americana depois da grande crise de 1929. E foi com ela que o Brasil venceu preventivamente a última crise internacional.

Mas, nos últimos sete anos, nunca agimos de forma improvisada. A gente sabia para onde queria caminhar. Organizamos a economia sem bravatas e sem sustos, mas com um foco muito claro: crescer com estabilidade e com inclusão. Implantamos o maior programa de transferência de renda do mundo, o Bolsa Família, que hoje beneficia mais de 12 milhões de famílias. E lançamos, ao mesmo tempo, o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, maior conjunto de obras simultâneas nas áreas de infra-estrutura e logística da história do país, no qual já foram investidos 213 bilhões de dólares e que alcançará, no final do ano de 2010, um montante de 343 bilhões.

Volto ao ponto central: estivemos sempre atentos às politicas macro-econômicas, mas jamais nos limitamos às grandes linhas. Tivemos a obsessão de destravar a máquina da economia, sempre olhando para os mais necessitados, aumentando o poder de compra e o acesso ao crédito da maioria dos brasileiros. Criamos, por exemplo, grandes programas de infra-estrutura social voltados exclusivamente para as camadas mais pobres. É o caso do programa Luz para Todos, que levou energia elétrica, no campo, para 12 milhões de pessoas e se mostrou um grande propulsor de bem estar e um forte ativador da economia.

Por exemplo: para levar energia elétrica a 2 milhões e 200 mil residências rurais, utilizamos 906 mil quilômetros de cabo, o suficiente para dar 21 voltas em torno do planeta Terra. Em contrapartida, estas famílias que passaram a ter energia elétrica em suas casas, compraram 1,5 milhão de televisores, 1,4 milhão de geladeiras e quantidades enormes de outros equipamentos.

As diversas linhas de microcrédito que criamos, seja para a produção, seja para o consumo, tiveram igualmente grande efeito multiplicador. E ensinaram aos capitalistas brasileiros que não existe capitalismo sem crédito. Para que vocês tenham uma idéia, apenas com a modalidade de "crédito consignado", que tem como garantia o contracheque dos trabalhadores e aposentados, chegamos a fazer girar na economia mais 100 bilhões de reais por mês. As pessoas tomam empréstimos de 50 dólares, 80 dólares para comprar roupas, material escolar, etc, e isto ajuda ativar profundamente a economia.

Minhas senhoras e meus senhores,

Os desafios enfrentados, agora, pelo mundo são muito maiores do que os enfrentados pelo Brasil. Com mudanças de prioridades e rearranjos de modelos, o governo brasileiro está conseguindo impor um novo ritmo de desenvolvimento ao nosso país. O mundo, porém, necessita de mudanças mais profundas e mais complexas. E elas ficarão ainda mais difíceis quanto mais tempo deixarmos passar e quanto mais oportunidades jogarmos fora. O encontro do clima, em Copenhague, é um exemplo disso. Ali a humanidade perdeu uma grande oportunidade de avançar, com rapidez, em defesa do meio-ambiente.

Por isso cobramos que cheguemos com o espírito desarmado, no próximo encontro, no México, e que encontremos saídas concretas para o grave problema do aquecimento global. A crise financeira também mostrou que é preciso uma mudança profunda na ordem econômica, que privilegie a produção e não a especulação. Um modelo, como todos sabem, onde o sistema financeiro esteja a serviço do setor produtivo e onde haja regulações claras para evitar riscos absurdos e excessivos.

Mas tudo isso são sintomas de uma crise mais profunda, e da necessidade de o mundo encontrar um novo caminho, livre dos velhos modelos e das velhas ideologias. É hora de re-inventarmos o mundo e suas instituições. Por que ficarmos atrelados a modelos gestados em tempos e realidades tão diversas das que vivemos? O mundo tem que recuperar sua capacidade de criar e de sonhar. Não podemos retardar soluções que apontam para uma melhor governança mundial, onde governos e nações trabalhem em favor de toda a humanidade.

Precisamos de um novo papel para os governos. E digo que, padoxalmente, este novo papel é o mais antigo deles: é a recuperação do papel de governar. Nós fomos eleitos para governar e temos que governar. Mas temos que governar com criatividade e justiça. E fazer isso já, antes que seja tarde. Não sou apocalíptico, nem estou anunciando o fim do mundo. Estou lançando um brado de otimismo. E dizendo que, mais que nunca, temos nossos destinos em nossas mãos. E toda vez que mãos humanas misturam sonho, criatividade, amor, coragem e justiça elas conseguem realizar a tarefa divina de construir um novo mundo e uma nova humanidade.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS1. Fonte, Azenha, que, por sua vez, pegou no Vermelho.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

(2010/058) Dogma e Hermenêutica


1. Quando leciono Hermenêutica, afirmo que o século XIX é o século da Hermenêutica (Schleiermacher e Dilthey, seguidos não muito de longe, mas já no XX, por Heidegger) e que isso se deveu, ao menos em parte, por conta no naufrágio do Dogma.

2. No século XVIII, e isso por conta de processos que se iniciaram com as invasões árabes, oitocentos anos antes (invasões árabes, Renascença, Reforma, Empirismo e Liberalismo ingleses, Revolução Francesa, Romantismo), o Dogma rui. Dada a emancipação da cultura em face da Igreja, a sociedade, de uma hora para outra, perde todos os seus fundamentos. O Estado deixa de se sustentar em Deus e, de uma hora para outra, funda-se sobre a sociedade (daí a relevância das Ciências Humanas). A Verdade deixa de fundar-se na Revelação - Teologia - e funda-se, agora, na consciência humana.

3. É preciso recomeçar tudo, quase que do zero. Daí o renascimento da Hermenêutica, e, logo, sua transformação radical. Onde quer que o Dogma sofra abalos, a Hermenêutica emerge. O que nos leva a considerar o fenômeno do encabrestamento da Hermenêutica - nos ambientes onde o Dogma permanece: é o caso dos ambientes evangélicos confessionais, de recorte, mas não exclusivamente, estadunidense, onde livros de Hermenêutica são como que o Caminho de Compostela, isto é, saem do mesmo lugar e levam - sempre - ao mesmo destino (as "experiências" ficam por sua conta...).

4. A Hermenêutica só é "real", só é de fato a herdeira do que foi no século XIX, quando, antes de tudo, seus manejadores romperam com os Dogmas - quaisquer que sejam. Uma vez que se encontram, por isso, "perdidos", e dado que não há como permanecerem assim, a Hermenêutica lhes serve como o "método" - para logo tornar-se mais do que isso - "mundo" e modus operandi - de uma vivência crítica e investigadora, consciente do fundamento humano quer das perguntas, quer das respostas.

5. Nesse sentido, vale a pena refletir sobre os efeitos da "pós-modernidade" sobre a Hermenêutica. E, talvez, mais do que isso, sobre as intenções da "pós-modernidade" em relação a ela.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

(2009/643) Sinto-me velho, aos [quase] 44


1. Pensei que o sentimento de envelhecimento chegasse depois dos sessenta... No meu caso, veio mais cedo. Aos quase (faltam cinco dias) 44 anos, vejo-me em plena sensação de estar velho.

2. Estou velho para o jogo atual.

3. No mundo evangélico, estou velho, porque não consigo encenar as pantomimas de palavras de ordem, os gestos extáticos da "espiritualidade" ascendente, os cânticos novos, de velhas guerras, as atitudes bovinas. Com o "deus" da moda, não dá, e com o anacrônico "diabo", pior ainda. Não, não posso. Que saudade das catedrais vazias... Mas, ai, agora, estão cheias de gente...

4. Estou velho para o mundo de modo geral, porque os dias são dos canalhas, os dias e a as noites!, cada vez mais. Não há mais espaço para a simplicidade. Ou você é sofisticado, ou está fora. Estou fora. Estou velho.

5. E, no entanto, a vida precisa continuar. Cada vez mais, refugio-me em meu lar. Sair de casa, enfrentar a vida, é, cada vez mais, um transtorno, um esforço sobre-humano, uma odisséia da vida privada...

6. Onde foi, Deus, que erramos o caminho? Eram meus olhos de criança que não me deixavam ver, então, que a vida sempre foi isso?, ou, de fato, destruímos, pouco a pouco, o bem viver? Sinto que, em vinte anos, destruímos, sem piedade, um modo antigo de estar vivo. Onde estás, esperança?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 10 de outubro de 2009

(2009/536) Do frio norte finlandês - um país maravilhoso?


1. Isabela Nogueira postou uma crônica em três "capítulos" no blog do Nassif - "Diário de Viagem". Tendo residido na Finlândia, traça um perfil da sociedade finlandesa. Descreve-o como um país que superou todos os problemas básicos da civilização - saúde, educação, cultura, violência. Descreve uma sociedade quase "utópica". Fosse em outros tempos, poderíamos ouvir o depoimento de Isabela como quem ouvia falar do "Paraíso", as terras d'além mar...

2. Isabela compara a sociedade filandesa com a brasileira, e, nesse ponto, sobre às alturas da ironia, para, assim, desancar a nossa elite mesquinha, nossa classe média-alta que se nutre da pobreza alheia, sem, será, dar-se conta do crime que auda a cmeter. Ao final, discorre sobre o paradoxo da sociedade filandesa que, apesar de ter chegado aos mais altos graus de cvilização do planeta, apresenta-se como, no parecer da cronista, uma sociedade apática, a-crítica, submissa ao extremo às autoridades e aos pais - ou seja, à tradição.
3. A descrição de Isabela não é recebida de todo pacificamente. Comentaristas do blog do Nassif, que também residem ou residiram na Finlândia, ora ratifica, ora retificam sua perspectiva. Mas uma coisa é certa - a vantagem de ter nascido no Brasil deve gravitar em outra área que não o respeito à dignidade humana, o respeito ao cidadão. Vai ver Deus nos deu o jeito misturado e o samba, vai-se saber, para açucararmos as sociedades perfeitas do laneta que, posto que perfeitas, insossas. Mas, se me perguntam se eu queria morar lá, bem, eu diria que, tirando os nove meses de neve por ano, sim, queria, sim. Se eu pagaria o preço que Isabela diz ser cobrado, bem, pagaria sim. Mas o que eu queria mesmo é um Brasil finlandês...








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 13 de junho de 2009

(2009/353) Estou perdido - meus queridos são todos diabos! Mas aí está uma "pregação" que eu (quase) faria...


Corpo de Deus
José Saramago
13/06/2009

Também lhe chamam Corpus Christi e é “dia de preceito” para os católicos, além de feriado oficial. Todos os fiéis deverão ir à missa (ser “dia de preceito” a tal obriga) para dar testemunho da presença real e substancial de Cristo na hóstia. E nada de pôr-se com dúvidas sobre a divina presença na pastilha ázima como sucedeu a um sacerdote chamado Pedro de Praga, no século XIII, não seja que se repita o tremebundo milagre de ver a hóstia transformar-se em carne e sangue, não simbólicos, mas autênticos, e ter de levar outra vez a sanguinolenta prova em solene procissão para a catedral de Oviedo, como complacentemente no-lo explica Wikipedia, fonte a que neste difícil transe tive de recorrer. O mundo era interessantíssimo naquele tempo. Hoje, o milagre de recuperar a economia e a banca passa por imprimir milhões de dólares a uma velocidade de vertigem e pô-los a circular, preenchendo assim um vazio com outro vazio, ou, por palavras menos arriscadas, substituindo a ausência de valor por um valor meramente suposto que só durará o que durar o consenso que o admitiu.

Mas não era da crise que eu queria escrever. Em todo o caso, como já se vai ver, a menção ao Corpo de Deus não foi gratuita nem simples pretexto para fáceis heresias, como costumam ser as minhas, segundo canónicas e abalizadas opiniões. Há alguns dias, no 28 de Maio para ser mais exacto, um boliviano de 33 anos, de nome Fraans Rilles, emigrante “sem papéis” e sem contrato, que trabalhava numa padaria em Gandia (Espanha), foi vítima de grave acidente, uma máquina de amassar cortou-lhe o braço esquerdo. É certo que os patrões tiveram a caridade de o levar ao hospital, mas deixaram-no a 200 metros da porta com uma recomendação: “Se te perguntam, não digas nada da empresa”. Como seria de esperar, os médicos pediram o braço para tentar reimplantá-lo, mas tiveram de desistir da ideia perante o mau estado em que se encontrava. Tinham-no atirado ao lixo.

Afinal, eu não queria escrever sobre o Corpo de Deus. Como é meu costume, uma coisa levou a outra, mas era do Corpo do Homem que eu pretendia realmente falar, esse corpo que, desde a primeira manhã dos tempos, vem sendo maltratado, torturado, despedaçado, humilhado e ofendido na sua mais elementar dignidade física, um corpo a quem agora foi arrancado um braço e a quem foi ordenado que se calasse para não prejudicar a empresa. Espero que os fiéis que hoje acorreram à missa e leram a notícia no jornal tenham tido um pensamento para a carne sofridora e o sangue derramado deste homem. Não peço que o ponham num altar. Só peço que pensem nele e em tantos como ele. Diz-se que todos somos filhos de Deus. Não é verdade, mas com este falsidade se consolam muitos. Deus não valeu a Fraans Rilles, vítima da máquina de amassar pão e da crueldade da gente sem escrúpulos que explorava a sua força de trabalho. Assim vai o mundo e não haverá outro.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 8 de junho de 2009

(2009/339) Segunda-feira cheia!


1. Peroratio é um blog - antes de tudo - de Teologia. Paralelamente, de Fenomenologia da Religião, História e Política. Na aba, vão aí temas da academia, como Ciências, de modo geral, e cultura geral. Somos três redatores. Na prática, dois, ainda que Haroldo lute contra sua falta crônica de tempo. Jimmy, eu pensava ser uma pessoa de carne e osso, mas é um bibelô de corda - se você der corda, ele vai, se não der, não vai. Acho que vou ter que dar corda nele, para ele andar - ou desandar... Haroldo, como "irmão mais velho", puxe a orelha dele, vai!

2. Segunda-feira é um dia cheio para o tema "política". É que os jornalões penduram nas bancas suas pornografias, e os blogueiros - esse front crítico contra o desmando da informação - caem de pau em cima. Quem precisa de jornalões com essa rede de blogs, entre sistemas de notícias e sistemas de opinião?

3. Há coisas muito interessantes hoje. Do PHA, imperdível essa desancada na turma do "contra o terceiro mandato de Lula", comentando um artigo apoplético de um desesperado anti-Lula, ao mesmo tempo em que lembra o silêncio sepulcral da maedia corporativa (e golpista) e da "política" quando seu títere de cera, FHC, apoiou o terceiro mandato de ninguém mais do que Fujimori (Os idiotas que apóiam Lula, ou por que FHC apoiou o 3º. mandato de Fujimori?). Eles podem. Eles! Não concordo (em tese) com um terceiro mandato. Mas esse pessoal é mais cínico do que você está pronto para admitir e aturar...

3. Um texto muito interessante, praticamente uma salada de referências, nem todas consumíveis, eu penso, e, de qualquer modo, um texto para reflexão, posta-o o Laerte Braga, publicado no blog Pátria Latina. Trata-se de A tradição, a família e a propriedade. Um texto deveras ácido, que leio com um misto de perplexidade e expectativa... E ainda me consideram "virulento"...

4. Finalmente, como aperitivo, um texto do Escrevinhador, Rodrigo Vianna, sobre por que (não) ler jornais: Franklin Martins e o jornal de graça: fantasmas?

5. Bem, enquanto eu acabo de desenvolver Château de la Solitude, minha vila no Tribal Wars, e enquanto refresco o cérebro para mais uma carga na defesa de uma Teologia definitivamente acadêmica, fiquemos com essas matérias políticas. Sem um Brasil decente, não havrá Teologia decente... Talvez esse corporativismo da Teologia reflita o corporativismo natural de classes no Brasil... Tese fraca, contudo, já que a Teologia é pseudo-científica e cripto-doutrinária em todo canto do planeta... Só, então, se lá também impera o comporativismo classista...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 6 de junho de 2009

(2009/332) "O Discurso do Cairo"



1. "O Discurso do Cairo", Por Mauro Santayana, publicado originalmente no JB ONLINE em 05/06/2009. Trata-se de uma opinião. Uma adequada opinião?

2. "Pouco importa o que virá depois, porque nenhum homem, nenhum povo, tem em suas mãos as rédeas da História. A rota do homem na Eternidade é semelhante às estradas nos mapas antigos, nos quais as cidades eram marcadas sucessivamente em uma linha reta, com os dias de jornada entre uma e outra. Não podemos retificar o caminho da civilização, fazendo-o derivar para mais ao Norte ou mais ao Sul do tempo transcorrido. Só podemos nos situar no ponto em que nos encontramos, neste dia, nesta hora, neste minuto. O discurso de Obama, no Cairo, foi para este dia, esta hora, este minuto. Mas este dia é a soma dos milhões de dias passados. Em razão disso, o presidente foi lá, nas marcas da rota do mapa antigo, para explicar que somos caminhantes de inúteis e ilusórias intolerâncias.

3. Obama falou aos muçulmanos, na Universidade do Cairo, que segue a tradição de um dos centros de cultura mais antigos do mundo, a universidade islâmica de Al Azhar, criada no século 10. O discurso de Obama foi importante para mostrar o que tem sido a banalidade da insensatez na história dos povos, e o seu interesse político legítimo se situou no falso confronto entre o islã e a cultura judaico-cristã. Ele poderia ter sido mais claro, na contrição que nos cabe, e se ter referido às Cruzadas e à expedição de Juan de Áustria contra os otomanos, vencidos em Lepanto (1571) pelas forças aliadas da Espanha de Filipe II, da República de Veneza e do papa Pio V.

4. O exame da História – e nisso Obama foi preciso – mostra que os muçulmanos sempre foram muito mais tolerantes diante de outras crenças do que os cristãos. Ele se referiu à Andaluzia, sob o Califato de Córdoba, que, durante sete séculos, não conheceu perseguição contra os cristãos, nem contra os judeus. As três culturas conviveram bem, como atesta, entre outros documentos, as conversações interreligiosas (Libre del Gentil e dels três Savis, de Ramon Lull, no século 13) entre muçulmanos, cristãos e judeus, quando concluem que têm o mesmo Deus.

5. As palavras do presidente, não obstante as necessárias e fundadas referências históricas, são ditadas pelos desafios da atualidade. Ele foi corajoso, ao dizer que a guerra contra o Iraque não nasceu da necessidade, mas foi escolha política equivocada. Foi ainda mais firme, quando assegurou que “nenhum sistema de governo pode ou deve ser imposto sobre uma nação, por qualquer outra”. Mesmo amenizando o discurso – ao afirmar que os americanos têm relações mais fáceis com os países democráticos de modelo ocidental – trata-se de virada histórica na política externa dos Estados Unidos.

6. Embora cercado de todos os cuidados, Obama deixou claro que, sob seu governo, o Estado de Israel não contará com a carta branca de Washington para fazer o que desejar. Defendeu, de forma destacada, o direito do povo palestino à autodeterminação, dentro de fronteiras estatais seguras. Condenou, sem qualquer concessão, a existência dos assentamentos judaicos nos territórios atribuídos aos palestinos em 1948, bem como outras formas de violência sobre as populações da Cisjordânia e de Gaza. Não poderia deixar de reclamar também o reconhecimento do Estado de Israel pelos palestinos, mas não conseguiu ocultar a sua simpatia pelos menos poderosos, massacrados periodicamente pelo Exército de Israel.

7. Outro ponto importante foi o reconhecimento de que Washington derrubara um governo eleito democraticamente no Irã. Ele se referia ao golpe patrocinado pela CIA e pelos serviços britânicos, em 1953, contra Mohammed Mossadegh, que nacionalizara o petróleo e obrigara o xá Reza Pahlevi, aliado das empresas estrangeiras, a buscar o exílio.

8. Ontem mesmo, a direita norte-americana, acampada no Partido Republicano, insurgiu-se violentamente contra o discurso do presidente. O deputado republicano John Boehner, líder da minoria, disse que o pronunciamento do presidente revelava “fraqueza” dos Estados Unidos. Ao contrário: Obama confirmou velho adágio político, o de que só os fortes podem parecer fracos.

9. O discurso do Cairo foi o mais importante pronunciamento de um presidente dos Estados Unidos no exterior. A História, se ele conseguir torná-lo realidade, poderá registrá-lo como registrou o de Lincoln, em Gettysburg, em 19 de novembro de 1863, em que o estadista curvou-se diante de todos os mortos de uma guerra que a política não conseguira evitar. O Cairo está na linha histórica da velha cidade da Pensilvânia".

10 Talvez esse discurso, de um negro, pudesse lembrar aquele outro, de outro engro, sobre sonhos que gente tem. Quando esses sonhos são sonhados juntos, materializam-se...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. Para ler, na íntegra e em português, o "Discurso do Cairo", cf. a tradução de Caia Fittipaldi, no blog do Azenha.

domingo, 31 de maio de 2009

terça-feira, 26 de maio de 2009

(2009/296) Mão na consciência, Teologia!


1. Que sejamos místicos. Não há nenhum problema nisso. Edgar Morin, gênio vivo e ateu - quer dizer, neo-ateu - confesso, diz-se místico. Eu, um crítico-cético-autônomo, sou místico, e não vejo nisso nenhum problema. O problema é, apenas, nesse campo, o que chamamos de mística - uma mística ou é cética, ou não é mística, é dogmática... E, aí, é transtorno.

2. Mas na academia, não há lugar para dar vasão à mística como regime heurístico, porque a mística não tem sequer conteúdo. A mística é tão-somente uma pulsão vital, uma abertura hermenêutica que rompe a redoma da cosmovisão físico-civilizatória em direção ao Místério (os Mistérios) assim intuído(s) - e apenas assim permanecendo Mistério(s). Nisso não há qualquer possibilidade de fazer-se de ferramenta, qualquer uso possível para a "pesquisa". A mística é, aí, no máximo, respiração.

3. Bem, se a "alma" do pesquisador se deixa encantar pela mística - qual o problema? Se ele não permite que a mística corrompa os "dados" (há uma mística que mente!), se ele não permite que a mística deturpe a realidade (há uma mística que frauda!), qual o problema? Minha insistência neurótica e quase-patológica quanto à interdição dos regimes místico-dogmáticos na academia é meramente instrumental - a mística converte-se em "saber" (o que não é) e pré-determina resultados de pesquisa, pior!, pré-determina questões de pesquisa, que, naturalmente, apenas ela, a mística supostamente bem-informada há de responder - mas mente, porque simplesmente inventa respostas.

4. A insistência de a Teologia em não largar seu vício dogmático, disfarçado que seja em tradição e metáfora, nenhuma diferença, vício conteúdístico, vício terminológico, de teimar em tratar como saber o que é mera crença e mito - essa Teologia será a responsável pelo retorno do obscurantismo religioso do passado em pleno século XXI. Para manter seu discurso em praça pública, a Teologia - os teólogos! - há de amargar o preço de ressuscitar demônios. E lamento profundamente, mas a quem hei de reclamar?, de ser eu também a pagar o preço por esse crime de terceiros.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 22 de maio de 2009

(2009/282) Mudanças na Lei do Divórcio


1. Que bom! As coisas tendem a ficar mais fáceis, doravante. A Câmara dos Deputados votou, em primeiro turno, nessa noite de quarta-feira, 20/05/2009, alteração na Lei de Divórcio, simplificando-a. No caso de haver "consenso", de não haver patrimônio elevado, nem de haver menores, filhos do casal, a simples separação em cartório será mais do que suficiente, seM encessidade mais de esperar-se que se passem dois anos, para, então, promover-se a separação judicial. Em juízo, agora, se aprovada em segundo turno e no Senado, apenas os casos excepcionais.

2. Acho muito bom. O casamento é um contrato social - duas pessoas, iguais, decidem viver juntas. O papel é necessário, porque logo se muda de idéia, e a questão jurídico-social vem à tona. Assim, como convém a contratos sociais, papel nele. Mas papel é papel, apenas regimenta/registra as relações. Se dois não querem, por que um vai brigar? Lá se vão os dois ao balcão do cartório, redigem, assinam e registram a separação, e pronto, resolvido. Simples assim.

3. Se algum dia Bel quisesse ir-se, e não irá, duvido, depois de lhe perguntar três vezes, até que o galo cante, e certificar-me de que ela não mais me quer, com ela iria ao cartório, não temos fortuna alguma, financeira, os filhos já são maiores, e assinaria para ela a sua liberdade de mim. Simples assim.

4. O casamento por amor impõe também essa necessidade. O amor veio, que fique. Se não fica, por que uma pssoa haveria de amarrar-se à outra?

5. Penso que a sociedade deve promover todos os meios possíveis para a sempre facilitação das relações humanas. Essa alterações na Lei de Divórcio são excelentes.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 4 de maio de 2009

(2009/251) Nauru - um retrato 3x4 do planeta?


1. 0' 31' 40.92'' S e 166' 56' 11.54'' L. Ou digite simplesmente Nauru e o Google Earth levará você para um sobrevôo ao terceiro menor país do mundo, uma pequena ilha no Pacífico, com 21 km2 - cabem duas Naurus dentro do território de Mesquita/RJ.

2. A história recente de Nauru é muito instrutiva - quase um holograma em miniatura da história do Ocidente - ao menos, do que a história do Ocidente pode chegar a ser. Rica em minerais fosfáticos, a ilha tornou-se um país independente em 1968, e, a partir de então, entrou para o time do Primeiro Mundo. Chegou a ter a segunda maior renda per capita do planeta, cuja riqueza vinha da mina de fosfatos localizada no centro da ilha. Por ironia, sua mina de fosfato não contribuía em nada para sua própria agricultura, já que a ilha constitui-se, basicamente, da mina e do litoral piscoso.

3. Nauru tornou-se muito rico. A riqueza passou a ser gasta de modo cada vez mais estravagante: uma empresa aérea própria com sete Boeings. Prédios de primeiro mundo. Importações de alimentos enlatados de todos os tipos. Importação de trabalhadores da China e da Austrália. Consumismo ocidental de Primeiro Mundo...

4. À medida que o progresso engolia a ilha, e o progresso, aí, representa a extração cada vez mais acelerada de fosfatos, também sua ecologia foi sendo devastada: "intensive phosphate mining during the past 90 years - mainly by a UK, Australia, and NZ consortium - has left the central 90% of Nauru a wasteland". Subitamente, o preço dos minerais fosfáticos caiu no mercado internacional. Para manter o nível de riqueza e as condições sociais de vida, a ilha investiu, então, no mercado financeiro. Tornou-se um "paraíso fiscal". Consta que a máfia russa teria lavado ali algo como 70 bilhões de dólares. Mas uma a uma, as empresas foram falindo. Em 2004, o país quebrou.

5. Hoje, os quatorze mil habitantes do país vivem de pesca. Podiam retornar à prática de extrativismo vegetal, coleta de frutas, mas, como se pode ver no Google Earth, não há mais tantas árvores na ilha... O povo tornou-se fechado, depois que uma série de documentários interpretaram a história da ilha como decorrente da inabilidade da etnia indígena local. Aqueles que se fartaram dos fosfatos da ilha, agora tratam seus habitantes com o clássico racismo ocidental...

6. Não é curioso que essa pequena história lembre, de algum modo, a recente história do planeta? Em nome do mercado, em nome das "necessidades" cada vez mais alucinantes, a ecologia planetária corre o risco de entrar em colapso. A ciranda e o cassino financeiros dos países ricos quase quebra o planeta. Os paraísos fiscais fazem a festa dos capitais criminosos de todas as nações.

7. Hoje, Nauru voltou ao século XIX. Se bem que tenha a infra-estrutura de país de primeiro mundo, já que as construções são recentes e ainda devem durar um bom tempo antes de se deteriorarem e eventualmente se transformarem em ruínas, a vida do povo retorna ao que fora antes do milagre econômico. Mas o mais interessante é que grande parcela da população daria um braço para voltar aos "belos" dias de glória...


(fontes: Nauru, uma ilha à deriva, CIA - The World FactBook, U.S. Departament Of State, Nauru Tourism, Department of Economic Development, Wikipédia).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS1. Nada mal. Acabo de descobrir Paradise for Sale, de Carl N. McDaniel e John M. Gowdy, um livro que trata da História de Nauru exatamente nos termos em que, modestamente, refleti: como que a cupidez econômico-financeira pode pôr a perder todo um país: "In a captivating and moving style, the authors describe how the island became one of the richest nations in the world and how its citizens acquired all the ills of modern life: obesity, diabetes, heart disease, hypertension. At the same time, Nauru became 80 percent mined-out ruins that contain severely impoverished biological communities of little value in supporting human habitation".

PS2. Nauru só é menor do que o Vaticano (0,44 km2) e o Principado de Mônaco (1,9 km2). Naturalmetne que não se pode contar aí o Principado de Sealand, já que nenhum país do mundo reconheceu-o oficialmente como um país...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

(2009/215) Religião e ciência


1. Há milhares de anos, quem sabe?, milhões, nasceu a religião. Já o disse que, na minha opinião, ela nasce como estética. Ato contínuo, assume aquela forma de expressão que, muito tempo depois, há de se tornar a ciência. Lá e então, ela, essa expressão, é, apenas, um impulso explicativo, próprio da religião, da teologia e, agora, próprio das ciências. Mais cedo ou mais tarde, de estética (e explicativa), a religião torna-se política.

2. Provavelmente ela tornou-se política, isto é, passou a ser controlada por interesses políticos, assim que as comunidadees humanas tornaram mais sofisticados os seus relacionamentos. Mas será com o surgimento das monarquias, das cidades, que a religião se transformará na parceira mais importante da política. O rei logo tornou-se ou representante, ou encarnação, ou imagem, ou filho dos deuses.

3. Com isso, a religião agora domina todos os espaços da cultura: a estética, o belo, as "explicações", a "verdade" - e a política, o dever. Não há, então, nenhum espaço da sociedade, da cidade e do campo, onde lá não esteja o olho e a mão da religião - e, com isso, o olho e mão dos poderes políticos, sejam os puramente sacerdotais, sejam, já, os da coroa.

4. Quanto tempo na longa estrada da História esse foi o quadro encenado, dia e noite? Séculos e séculos se perdem na noite dos tempos. Em que partes do planeta isso se sucedeu? Em todas. Não há expressão religiosa humana, no planeta, que não tenha caído nessa mesma situação. Todos os povos o fizeram. Uns mais, quanto mais organizada e urbana ela fosse, uns menos, mas mesmo as culturas menos sofisticadas, mais "tribais", mais silvícolas, experimentaram a hiperonomia da religião, isto é, a submissão de todas as esferas da vida à esfera religiosa.

5. Até que, no Ocidente, inicia-se um processo de descoalização. Não foi determinante o que aconteceu na Grécia, por volta do século V e IV. Platão está a serviço do mesmo princípio - só há, parece, um certo movimento para o esconder. Aristóteles, talvez, tenha desenvolvido reflexôes mais autonomizantes, quero crer. Seja como for, essa Grécia é o equivalente, para a Reforma, a John Huss - não deu em nada de concreto enquanto acontecia, ainda que seus desdobramentos serão percebidos séculos depois - mas somente séculos e séculos depois.

6. Aristóteles simplesmente "desaparece" no Oriente. No Ocidente, a própria cultura helênica será o estofo para uma civilização teológica inteira - o Ocidente Cristão. Platão é seu parteiro. Paulo, seu pai. E lá se vão mais mil anos, desde aí até aqueles dias em que os árabes introduzirão Aristóteles na Península Ibérica. Mil anos de "morte", dirão os próprios europeus, quando se chamarem, depois deles, de renascentistas. Grécia falhara. Tentemos de novo.

7. É somente aí que um processo realmente transformador se inicia. Desdobrar-se-á, desde a Renascença e o Humanismo, primeiro, na Reforma, depois, no Empirismo, depois, no Iluminismo, na Revolução Francesa, no Romantismo e, voilá, re-inventa-se não uma civilização, mas uma nova forma de configuração da própria condição histórica humana.

8. Depois de uma longa série de fluxos e refluxos relacionados aos processos de emancipação política (Iluminismo e Revolução Francesa) e heurística (Iluminismo, Empirismo e Romantismo), a condição hiperônima da religião perdeu substância. De sob o poder da religião, tirou-se quer a política, quer a heurística. Tornada assunto privado, logo, estético, restou a ela a manutenção esquizofrênica de fingir para si mesma que as coisas continuavam como antes.

9. Na sociedade, inicia-se uma nova forma de existência humana. Para a política, a democracia, as rotinas, sempre ainda muito imperfeitas, de representatividade política, a criação do Estado dividido em três poderes - Legislativo, Executivo e Judiciário, o estabelecimento dos Direitos Humanos.

10. Ao mesmo tempo, aquele princípio "explicativo", embrionário e mítico, converte-se num impulso programático e metodologicamente discutido de investigação - a heurística (que Aristóteles já pressupusera na forma do "saber", ao lado do querer e do sentir). Surgem as ciências, primeiro as matemáticas, depois, as empíricas, então, as humanas.

11. Estabelecem-se as câmaras pragmáticas, política, estética e heurística. A sociedade se emancipa, se organiza. O que antes constituía a câmara hiperônima de tudo o que se fazia e dizia na cultura, converte-se, agora, em uma das rotinas privadas que a constitui - a religião.

12. Mas a religião não aceita esse jogo, não. A religião quer, para si, aquela velha vida de senhora, rainha e mãe. Intra-muros, age como se nada tivesse acontecido. Intra-muros, é tão política quanto antes - todo "sacerdote" é rei e chefe. A "verdade" é o que ela diz, e pronto. O gozo, ela dita as regras litúrgicas para a sua expressão. Ela, a religião, padece de uma doença - esquizofrenia e extemporaneidade.

13. Na relação com a sociedade, a religião não aprendeu - aprenderá? - a lidar com o que considera uma usurpação de seus poderes. No campo político, mesmo os batistas, tão intimamente relacionados à sepração entre Igreja e Estado, no fundo, consideram que é Deus, logo, seu patrono, o verdadeiro gestor do planeta, seja dentro da Igreja, seja fora dela, de modo que, sendo ela a mais entendida das coisas de Deus, também a política, para ela, é uma coisa religiosa, a democracia, um instrumento de Deus, e os resultados da política, condenáveis, se ferem seus "princípios" divinos, para o que basta nos lembrarmos das questões relacionadas às células-tronco, aos direiros civis de homossexuais e às questões relacionadas ao aborto. Se a religião pudesse, assinava ela mesma as leis que ela entende divinas. Não aprendeu nada até hoje, a velha professora.

14. No campo das ciências, a esquizofreinia chega às raias do intolerável. Os mitos milenares são sacados para o enfrentamento das pesquisas. A EBD entra em batalha contra o laboratório. As crianças, coitadas, não sabem se respondem do jeito que a professora quer, ou do jeito que o pastor quer. Na prática, responde, pra um, de um jeito, pra outro, de outro, aprendendo desde cedo a sutil arte de ser adaptável. Quando não, pais enfiam goela abaixo de seus filhos os mitos que eles, os pais, decidiram ser verdadeiros.

15. No campo da estética, separa-se o belo em sagrado e profano. Veja-se o caso da música, por exemplo. Uma vez que o belo é apenas o que está no âmbito do sagrado, quando o âmbito do sagrado sofre de patologias incuráveis no campo da beleza - pelo amor de Deus, como se canta mal! -, o belo se torna irremediavelmente feio. Pior do que a mais expressiva parcela da música gospel nacional, só a mais expressiva parcela do funk nacional.

16. E tudo porque a religião não é capaz de admitir que o seu tempo de rainha acabou. Resta a ela aquela dimensão original, estética, de, eventualmente, dar sentido à existência efêmera humana. Não é necessário que a religião simplesmente se considere um fóssil, que não é, mas igualmente não é aquilo que imaginara por toda uma História das Civilizações. No sistema ocidental, cabe a ela apenas uma participação significativa na dimensão estética pessoal, mas não mais nem na política (tecnicamente falando), nem na heurística.

17. Tomara a religião ponha a mão na consciência e se converta. Poderia trocar seu papel de alienadora das consciências para um papel de expressividade estética, de agente patológico, em terapêutico. Porque até o que ela chama cura, hoje, constitui, a rigor, uma disfunção psicológica. Todavia, não é algo que um religioso possa fazer sozinho...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 21 de abril de 2009

(2009/204) Sim, mas e quanto a mim, se não tenho nenhum talento em especial?


1. Sim, eu compreendo por que o vídeo de Susan Boyle tornou-se um fenômeno na Internet. Um concurso de talentos, jurados considerados verdadeiros carrascos, uma candidata absolutamente em desacordo com os padrões estéticos da mídia, os padrões de idade da mídia, os padrões físicos da mídia, os padrões, eles, os ubíquos, os perversos, os implacáveis padrões. Ela tem um sonho - ser tão famosa quanto Elaine Paige. Na bancada, um reverberar de atitudes que não recriminaríamos, a menos que aceitemos, além de todos os pecados, ainda o da hipocrisia. Na platéia, a atitude normal de quem aprendeu bem com os padrões da mídia, uma adolescente, típica, a nossa cara, a ser, agora, enxovalhada.

2. Contra tudo - e contra todos -, ela, Susan Boyle, abre a boca. Ela canta. Espanta. Encanta. Sob aquela capa de imposibilidades, ela tem talento, e que talento! E ela vence. E ela convence.

3. Mas e se Susan Boyle não cantasse como canta? E se não tivesse na garganta um coro de rouxinóis, de uirapurus, de maviosos pássaros canoros? E se além da mulher que é, tivesse, ainda, a voz comum do comum das mulheres?

4. Mais - e se eu não tenho talento algum? E se eu não sou especial em nada. E se eu não canto, não danço, não toco instrumento algum, não faço nada de esteticamente relevante - como fico? E se eu não ganho nenhuma das competições de que participo? E se nem jogo de cartas eu ganho? E se não tenho beleza, nem posses, nem dom algum que se eleve a esse olimpo do talento - talento, capaz de fazer desaparecer, sob a hegemonia da mídia, todos os meus anti-estereótipos? E se eu sou apenas uma pessoa comum, comuníssima, medíocre, não branca, ou branca, mas pobre, nem de olhos coloridos, nem nigérrima, mas uma pessoa mestiça, de cabelo mestiço, de alma mestiça, sem nada que faça de mim alguma coisa relevantemente especial para o quer que seja, senão a teimosia de manter-me vivo, viva? Perdi, definitivamente, a última competição da vida?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 9 de abril de 2009

(2009/148) E olha que ele não viu nada...


1. De terça a quinta, tomo ônibus e metrô para a cidade do Rio de Janeiro (resido na Baixada Fluminense). É aí que você tem contato com a população das classes D e E e da classe C. Quando se anda apenas de automóvel, de lá pra cá, todos os dias, perde-se o contato com essa gente - o "povo". Perdendo contato com essa gente, ela se torna invisível. Você, impassível. Invisível ela, suas dores não chegam a constranger terceiros que dela, essa gente, não têm ciência, sensação, percepção. No máximo, manchetes e notas de mídia, a falar de coisas distantes. Porque, do outro lado dos vidros do carro, outro é o mundo, outro planeta é o planeta, pessoas, postes e árvores misturam-se com o calor ou a chuva. Você - no carro...

2. Um aluno me conta que, saindo da composição do metrô, na estação Estácio (Rio de Janeiro), percebeu um sujeito atormentado, com aparência visível de estar "perdido". O sujeito, percebendo-se percebido, aproximou-se: _ Nossa!, é sempre cheio assim? _ Sim, às vezes mais, até! _ Nossa! Eu não sabia, é a primeira vez que uso o metrô... Meu carro quebrou aqui perto, liguei para minha esposa, tenho que ir para a Uruguaiana...

3. O aluno orientou-o, e, ele, ainda assustado com tanta gente. Não tinha costume. Sua vida era o apartamento de classe média alta, um mundo hermético, o carro fechado, os vidros fumê, músicas de CD ou notícias de uma CBN ideologicamente compromotida, e, finalmente, férias em paraísos para poucos de muitos recursos. As pessoas concretas, os pobres, a classe média recém-inventada (por causa de R$ 50,00 você ascende à classe média, sabia?), os suados do dia-a-dia, esses, é como se inexistissem - na prática, para nosso amigo assustado, de fato, inexistem.

4. Não me surpreende que os programas de assistência social do Governo choquem a classe média alta - para quê? Eles sequer entendem a necessidade disso, porque não conseguem ver a massa de milhões e milhões de pessoas que, de um jeito ou de outro, por culpa também do sistema macro-econômico, político e sócio-cultural do país - de que essa classe média alta é uma das constituintes -, a eles precisam recorrer.

5. E olha que nos ônibus e metrô do Rio de Janeiro você não chegará a deparar-se necessariamente com aquela categoria mais vilipendiada da sociedade, a negritude e a branquitude miserável, descamisada e desdentada, paupérrima de todo valor pecuniário e ético, reduzido a menos do que bicho. Não. Esssa gente está ainda mais soterrada nos porões da arquiterura urbana.

6. Se o nosso amigo apavorado com "tanta gente" das classes C, D e E, espremidas na plataforma do metrô, deparasse-se com a massa desgraçada da sociedade, enfartaria. Essa breve experiência metroviária, contudo, custar-lhe-á algumas treze sessões de terapia...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 5 de abril de 2009

(2009/141) "Estupro legal" interrompido...


1. Pressionado pelas autoridades ocidentais (Europa e EUA), o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, recuou. Ele havia declarado que sancionaria uma lei autorizando o estupro de esposas que se recusassem ao coito conjugal - a valer, diz-se, para a comunidade muçulmana xiita. Karzai dissera que "a mulher, entre os xiitas, não pode se recusar às relações sexuais com o marido". Assim, se, por qualquer razão, uma esposa xiita recusasse deitar-se sexualmente com o marido, este estaria plenamente no direito de forçá-la. O Ocidente reclamou. O presidente voltou atrás.

2. Aí está. Eu não diria que o Ocidente é a quintessência da civilização - o consumo de drogas, a violência, a prostituição infantil, a corrupção endêmica, a desigualdade social monstruosa, são alguns dos exemplos que desmentem a presunção de que nós, ocidentais, somos "os caras". Não, não somos, não. Contudo, sem hipocrisias desnecessárias, não há como comparar os ganhos individuais (sejam quais tenham sido as razões históricas de sua emergência político-cultural) do Ocidente relativamente ao Oriente, bloco versus bloco. Conquanto lhe falte, ainda, muitos degraus para alcançar, em relação ao gênero masculino, a absoluta igualdade político-cultural, todavia, o valor da mulher, no Ocidente, é relativamente bem maior do que o valor que a mulher tem no Oriente - admissíveis, naturalmente, também lá, as exceções.

3. O curioso é que essa dignidade da mulher, conquistada à força no Ocidente, é verdade, mesmo aqui, entre nós, ocidentais, parece estar ligada a uma "secularização" cultural e civilizatória. Parece - estou errado? - que à medida que um povo se teocratiza (ou mantém-se teocratizado), tanto mais grave aí é a situação da mulher. No Ocidente, não é justamente no ambiente das religiões monoteístas, mas não apenas aí, o lugar onde as mulheres ainda enfrentam obstáculos à sua participação absolutamente preoporcional aos dos homens nas coisas públicas? Também não é aí que o "valor" da mulher alcança uma muito meramente retórica, quando, na prática, faltam-lhe os acessos concretos às práticas acessíveis aos homens? Até hoje, por exemplo, a "principal" religião ocidental - o Cristianismo católico romano - recusa-se a considerar a mulher legitimamente no direito de, também ela, assumir o sacerdócio. No Protestantismo, a situação está confusa, ainda - algumas Igrejas vão modificando as relações institucionais com as mulheres, enquanto outras mantêm-se irredutíveis. É curioso que à mística do Oriente perfile-se, igualmente, o papel não apenas subalterno da mulher, mas seu papel desumanizado.

4. Não é que mulheres não sejam estupradas entre nós - o são, diariamente. Não é que maridos ocidentais não estuprem suas esposas - estupram, sim. Quando isso ocorre, contudo, é um crime que se comete, que, se funcionam bem a sociedade, a polícia e a justiça, acusa-se, condena-se e prende-se. O que falta no Ocidente é a nossa conversão íntima aos valores ocidentais - a rigor, democráticos e de direito, valores de igualdade, de liberdade, de fraternidade. Enquanto a conversão a eles não vem, vamos tentando fazer valer seu ideário por meio de leis e sistemas de fiscalização e punição. Enquanto isso, porções enormes do planeta não apenas desconhecem tais valores, mas ainda oprimem qualquer tentativa de reação da mulher em libertarem-se dos homens e da sociedade que as mantêm cativas.

5. Não é que a mulher, nesses lugares, seja passiva, pacífica, submissa. Não faz sentido uma lei para autorizar estupros domésticos, se aí não há casos de recusa da mulher em entregar-se ao marido. Mas há a recusa - e Deus sabe por que razões! -, logo, há a "contra-reação reacionária" dos maridos enfurecidos, o conluio do sistema social e cultural, e, finalmente, a opressão sobre a tentativa de libertação das mulheres. Patriarcado e cultura jurídica se unem para manter sob controle os corpos de mulher. E Deus os os Deuses homologam o acordo espúrio.

6. Estamos longe, muito longe do Paraíso, e dizê-lo não significa assumir que devemos nos contentar com o que conseguimos até aqui, antes, devemos continuar lutando até a utopia, não posso, por isso, deixar de dizer: viva o Ocidente! Porque ele ainda tem praticamente todos os males do espírito e da carne que há no Oriente (para aqueles que os sofrem, que diferença há entre eles e nós?), e, contudo, sabe-os pecados mortais... Bem, talvez seja apenas mais um pecado do Ocidente, o cinismo e a hipocrisia. Penso que não. Penso que começamos uma nova história, ainda lenta demais para as e os que sofrem. Podíamos andar mais rápido. Mas, ao mens, estamos andando. Que nos perdoem as estupradas o lento andar da procissão...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. Sobre a menina da foto: "A menina Afegã Sharbat Gula foi fotografada quando tinha 12 anos pelo fotógrafo Steve McCurry, em junho de 1984. Foi no acampamento de refugiados Nasir Bagh, do Paquistão, durante a guerra contra a invasão soviética. Sua foto foi publicada na capa da National Geographic em junho de 1985 e, devido a seu expressivo rosto de olhos verdes, a capa converteu-se numa das mais famosas da revista e do mundo. No entanto, naquele tempo ninguém sabia o nome da garota. O mesmo homem que a fotografou realizou uma busca à jovem que durou exatos 17 anos. Em janeiro de 2002, encontrou a menina, já uma mulher de 30 anos e pôde saber seu nome. Sharbat Gula vive numa aldeia remota do Afeganistão, é uma mulher tradicional pastún, casada e mãe de três filhos. Ela regressou ao Afeganistão em 1992". Para ler a história na página da National Geographic, aqui.
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