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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

(2010/058) Dogma e Hermenêutica


1. Quando leciono Hermenêutica, afirmo que o século XIX é o século da Hermenêutica (Schleiermacher e Dilthey, seguidos não muito de longe, mas já no XX, por Heidegger) e que isso se deveu, ao menos em parte, por conta no naufrágio do Dogma.

2. No século XVIII, e isso por conta de processos que se iniciaram com as invasões árabes, oitocentos anos antes (invasões árabes, Renascença, Reforma, Empirismo e Liberalismo ingleses, Revolução Francesa, Romantismo), o Dogma rui. Dada a emancipação da cultura em face da Igreja, a sociedade, de uma hora para outra, perde todos os seus fundamentos. O Estado deixa de se sustentar em Deus e, de uma hora para outra, funda-se sobre a sociedade (daí a relevância das Ciências Humanas). A Verdade deixa de fundar-se na Revelação - Teologia - e funda-se, agora, na consciência humana.

3. É preciso recomeçar tudo, quase que do zero. Daí o renascimento da Hermenêutica, e, logo, sua transformação radical. Onde quer que o Dogma sofra abalos, a Hermenêutica emerge. O que nos leva a considerar o fenômeno do encabrestamento da Hermenêutica - nos ambientes onde o Dogma permanece: é o caso dos ambientes evangélicos confessionais, de recorte, mas não exclusivamente, estadunidense, onde livros de Hermenêutica são como que o Caminho de Compostela, isto é, saem do mesmo lugar e levam - sempre - ao mesmo destino (as "experiências" ficam por sua conta...).

4. A Hermenêutica só é "real", só é de fato a herdeira do que foi no século XIX, quando, antes de tudo, seus manejadores romperam com os Dogmas - quaisquer que sejam. Uma vez que se encontram, por isso, "perdidos", e dado que não há como permanecerem assim, a Hermenêutica lhes serve como o "método" - para logo tornar-se mais do que isso - "mundo" e modus operandi - de uma vivência crítica e investigadora, consciente do fundamento humano quer das perguntas, quer das respostas.

5. Nesse sentido, vale a pena refletir sobre os efeitos da "pós-modernidade" sobre a Hermenêutica. E, talvez, mais do que isso, sobre as intenções da "pós-modernidade" em relação a ela.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 15 de maio de 2009

(2009/261) Amor ou verdade?

1. Há alguns anos, uns seis ou sete, talvez, um eminente teólogo canadense, velhinho já, daqueles de terem neve e, não, cabelos, falou-nos por ocasião de um café da manhã no Seminário do Sul. Havia umas quarenta pessoas. Ele falou de "amor": o Cristianismo tinha de "amar", como nunca, mais do que sempre, porque o segredo era amar, era amor. Os convidados, marejados, estavam praticamente em êxtase... Um Paulo redivivo, um profeta do amor, ali, com o segredo do Cristianismo...

2. Levantar a mão é claro que eu levantei, mas tinha o horário do avião, ele tinha que sair mais rápido do que o tempo de esfriar meu café com leite, e eu não fui selecionado para as perguntas. E eu faria essa: o senhor está convencido de que o que falta e faltou ao Cristianismo é o amor. Bem, ainda perguntando, o senhor acha que os cristãos que viviam na época de Nicéia, qando uma única doutrina sobrepujou-se às demais, não se amavam? O senhor acha que os cruzados, cristãos, não amavam nem a si, nem aos irmãos e nem aos mouros? O senhor acha que os cristãos da Inquisição não amavam os hereges que tornturavam e matavam? O senhor acha que os cristãos nunca amaram?

3. Mas, ainda pergunto, não foi sempre - e sempre é - em nome do amor que a Igreja fez e faz tudo? Sempre? Sempre houve Coríntios 13. O que faz com que o senhor pense que seu discurso teológico guarde algum segredo ou alguma novidade? Seria o quê? A nossa geração, finalmente, evoluiu para a condição de amar, ao passo que as gerações anteriores não estavam suficientemente preparadas para isso? Que os cristãos que inventaram o Dogma, que festejaram as Cruzadas, que iluminaram a Inquisião, não sabiam, não queriam, amar?

4. Não sei o que ele responderia. No entanto, não dou a mínima importância ao discurso que ouvi, porque é pura ingenuidade irrefletida. Sabem quando o Cristianismo vai poder, realmente, amar? Apenas no dia em que decidir que o amor é maior do que as doutrinas, quando não olhar mais a casca das pessoas, mas, apenas, elas mesmas, as pessoas, sem rótulos nem conteúdos pré-fabricados. Até hoje, sempre foi ter à mão dois valores, o amor e a verdade. Anselmo inventou aquela história raconalizada de que Deus é plenamente bom e plenamente justo, sendo por isso que, mesmo amando os homens, vai mandá-los para os quintos dos infernos, porque seu amor não pode desconsiderar a sua verdade. Na hora h, o amor abaixa a cabeça, põe o rabo entre as pernas, e a verdade diz quem manda no pedaço: acabou a brincadeira, amor, está na hora de os adultos conversarem...

5. Bem, prefiro a passagem da mulher dita pega em adultério: não te condenam os teus acusadores, mulher - nem eu. Ora, ora , ora - Jesus nao condena... Já Paulo... Já nós... Eu não vejo solução para nós, por isso. Porque quando o amor e a verdade se econtram, só brincam juntos se a verdade der as cartas. Se a verdade sentir-se, hum, ferida, digamos, o amor lhe dá permissão para ferir, matar, odiar - em nome do amor, isto é, em nome do esforço de fazer com que o filho do erro retorne para a verdade. E você pode chamar a verdade de verdade, fé, doutrina, dogma, esperança, do que quiser: se é a boa e velha verdade, danou-se...

6. Não estou aqui interessado em dizer que a Igreja deveria optar pelo amor, e deixar de lado a questão da verdade. Não serei eu a dizer a ela o que deve fazer - ela é bem grandinha. Estou, sim, dizendo, que enquanto houver a verdade, o amor é secundário, é epifenômeno. A verdade sempre terá a primazia de dar a palavra final, o golpe final, a despeito do amor.

7. E, então, eis aonde quero chegar. A classe de Tópicos Especiais e Teologia e eu, ontem, continuamos a ler o artigo de Enio R. Mueller. O Luís Cláudio é um aluno perspicaz. Ele já leu o artigo todo e, quando estávamos na penúltima parte, ele já cantava a pedra: "ah, mas na parte final o Mueller vai revelar que a esperança é a fé". O leitor se lembra de que o artigo de Mueller discute o estatuto teórico da tologia, que, agora, está no MEC. E ele define teologia como "a interpretação da realidade à luz da esperança". Só que, até o parte três, ele não deixa claro o que é a esperança. Até aí, dá uma volta enorme, e conclui dizendo basear-se em dois pilares: para a interpretação (hermenêutica), Ricoeur e Gadamer, e, para a esperança, Bloch e Adorno (mas isso sem dar as fontes, apenas citando os nomes...).

8. E, então, chega a parte quatro do artigo. O Cláudio quer, de uma vez só, sepultar os esforços de Mueller. Estamos no penúltimo parágrafo da p. 99. Eu tento contê-lo. Calma, Cláudio. A palavra "revelação", mais "Lutero", mais "esperança", mas "sub specie asternitatis", mais "'no coração de Deus'" - sim, esse conjunto pode, muito, muito plausivelmente, mesmo, como você vê, indicar a "doutrina": a esperança, em Mueller, é um outro nome para a mesma fé cristã, isto é, para os dogmas. Mas, disse eu, diante de um tribunal, Mueller poderia dizer que tudo isso são formas abertas de se referir à utopia aberta, vá lá, termos infelizes, porque carregados de história, mas, em todo caso, como negar-lhe a defesa? Vamos, Cláudio, esperar. Vamos ver se não há alguma afirmação mais categórica, menos fugidia...

9. E chega o parágrafo que começa na p. 99 e termina na 100: "o modo in spe designa aqui uma correlação do teológico com o filosófico ou científico, considerados como caracterizando-se pelo modo de interpretação in re. A spes, portanto, não significa nesta correlação o mesmo que a virtude da esperança dentro da correlação com as virtudes da fé e do amor. Uma hermenêutica teológica ao modo da esperança já é sempre uma hermenêutica informada pela fé e animada pelo amor. O intellectus spei não descarta, mas inclui um intellectus fidei, como tem sido desenvolvido especialmente na teologia “clássica”, e um intellectus amoris, como tem sido desenvolvido especialmente na teologia latino-americana das últimas décadas. Manter esta correlação é de fundamental importância, pois ela assegura a relação da teologia como hermenêutica com a revelação, por um lado, e com a ética, por outro".

10. Bem, aqui a defesa de Mueller, caso ele a deseje, seria muito dificultada. Ele fala de "manter esta correlação". Bem, correlação entre o quê? Entre o intellectus spei, de um lado, e, de outro, o intellectus fidei e o intellectus amoris de outro. Esperança mais fé e amor numa nova correlação - hermenêutica. E a fé, aí, diz-se, é aquele tipo "como tem sido desenvolvido especialmente na teologia 'clássica'". Ora, o intellectus fidei da teologia clássica é a doutrina, o dogma, meta-se o homem por aí por meio de retóricas de analogia ou metáfora, tanto faz. Nesse caso, o parágrafo que Cláudio queria marcar como a confissão de Mueller, de fato, já dizia isso: a teologia é como que um olhar de Deus, uma visada sub specie aeternitatis do mundo, revelada ao homem na fé, isto é, na compreensão da doutrina e do dogma. Quando a teologia é interpretação da realidade à luz da esperança, e quando essa esperança é o mesmo depósito de fé da História da Igreja, e quando essa fé transforma-se na filtro revelado do que está para além da realidade-real, ora, isso nada mais é do que a atualização, em "chave" hermenêutica, da boa e velha tradição luterana. Fé e amor... mas, agora, com uma pitada de opacidade humana. Barth não ia gostar, mas Bultmann, Ebeling, Fuchs, Tillich iam achar muito interessante. "Deus é símbolo para Deus"...

11. Voltei àquele café. E senti o estômago um tanto mais embrulhado. Porque Mueller tenta fazer mais do que o velho teólogo canadense achou que fazia. Quer abraçar, agora, o mundo e o MEC. Quanto ao mundo, já disse: pretender manter a fé e a verdade juntas é não ter entendido muita coisa da História do Cristianismo. Não pense ele, nem a moda metafórica que grassa por aí, que disfarçar a verdade com aparências retórico-hermenêuticas faz da fé outra coisa que não aquilo que dela se sabe desde a "teologia cássica" - a necesidade de manter os doutrinas, fingindo-as verdadeira, mas, apenas, metáforas ou interpretaçõs, já demonstra a negociação que ela, a verdade, impõe ao amor. Na hora h, não se assustem quando a metáfora e a interpretação cravarem suas garras no peito desprevenido da esperança.

12. Quanto ao MEC, bem, um discurso que sugere um olhar como que desde a eternidade, revelado desde o coração de Deus a um homem, agora, superado de sua contingência pela mágica da teologia, consubstanciado na fé, filtro hermenêutico da realiade, bem, isso é tudo menos o que eu gostaria de ver entre nós. Mas, se é para ser assim, gostaria imensamente de ver como a coisa vai acabar quando um teólogo da FTU sentar-se com um teólogo da EST para, desde a eternidade, falar desde o coração dos orixás, as verdades reveladas e consignadas na forma da fé, uma das quais diz que monoteísmo é uma prova de cegueira, porque o olho viu, eventualmente um, mas não todos os deuses... Ao que um teólogo da escola onfreyana-dawkinsiana retrucará: deuses, como assim, deuses? É ou a verdade de todos, ou a mentira de todos. Mas, se a verdade de todos contradiz-se, como fica? E, se é a mentira de todos, porque não chamar-lhe logo pelo nome?

13. Ah, fé, vai ser duro livrarmo-nos de ti... És mesmo uma neurose...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 19 de abril de 2009

(2009/183) Sapere aude


1. Outro dia, Jimmy me provocava com insinuações de que eu me considerava um "iluminista" e um "jacobino", provocação que ele justificara, pessoalmente, mais tarde, com o argumento de que estava a "ver até onde ia" a "saída" pondeiana, de que ele mui recentemente se acercara. Soavam assim um tanto recriminatórias aquelas provocações, como se à proximidade de um pecado contemporâneo se constituíssem as "luzes". Como nunca sabemos exatamente o que uma pessoa quer dizer com os termos e rótulos que utiliza, imediataqmente manifestei-me, fazendo registrar em ata que não me considerava emancipado, pelo contrário, porque um homem pobre da Baixada Fluminense não tem nenhuma razão para assim se considerar, salvo sob o controle ideológico de uma self deception. Nenhum "pobre" está emancipado - conquanto sua mente profundamente o deseje. Emancipação (apenas) idealista, contudo, não é verdadeira emancipação, ainda que a verdadeira não se materialize sem ela.

2. Eis que, agora, chegam-me pelas mãos de Joege Grespan descrições de um Iluminismo que eu abaixo-assinaria sem reservas de qualquer espécie, ainda que isso constituísse pecado de morte contra Deus. Ei-las:

3. "Sempre está presente (...) uma marca de nascença: o Iluminismo, em suas várias vertentes, guarda da revolução o princípio da crítica. Tudo pode ser examinado, dissecado, exposto; não há assuntos ou questões que possuam o direito de ser furtado ao esclarecimento, de ser ocultado na sombra sob o pretexto da autoridade ou do dogma" (Jorge GRESPAN, Revolução Francesa e Iluminismo. São Paulo: Contexto, 2008, p. 38).

4. Com esse Iluminismo aí eu me dou muito bem. Não há dogma que eu não disseque, seja ele religioso, científico ou político. Outro dia, por exemplo, Jô Soares dizia das chamadas "cláusulas pétreas" da Constituição que elas são, por isso, absolutas, não-sujeitas a alterações. Ri-me a desmanchar-me de gases. Nada, absolutamente nada há, em face do que os homens estabeleceçam como regimes político-sociais, que inalterável seja, conquanto há interesses da elite e do capital de alterarem, rápido, legislações trabalhistas, enquanto se esforçarão para manterem inalteradas legislações que lhes garantam o status quo. Jô Soares, ali, enganava-se, ou tentava me enganar?

5. Dogmas religiosos nem mais os analiso um a um - caíram todos. No campo do saber, nada há que a religião e a teologia teologia me digam que eu leve a sério. As únicas pragmáticas possíveis no campo religioso são a estética e a política - o saber, a heurística, passa a quilômetros de distância dos fóruns de religião e teologia.

6. Quanto aos dogmas científicos, não os há. Se os há, científicos é o que não são. A ciências produzem proposições a respeito da relação entre nossos quadros conceituais e a matéria - sim, são fundacionais, sim, conquanto se alardeie, para benefício Deus sabe de quem, que a epistemologia não-fundacional dá as cartas, hoje (onde?, não certamente em Apel ou Morin, por exemplo). É com tais proposições, críticas, refutáveis, que lido/lidamos.

7. Nesse sentido, há uma exigência tremenda da parte do programa iluminista - a crítica incessante de todas as posições fechadas e autoritárias, dogmáticas - de poder. Essa foi a única parcela da revolução que me restou. E não é pouca, reconheço...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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