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quarta-feira, 21 de abril de 2010

(2010/326) Das heresias antigas


1. Antigamente era bom ser herege. Não houve heresia antiga que não tenha sido cooptada pela Teologia e pelo "povo de Deus". O que hoje é "ortodoxo", um dia, acredite-se, foi "pagão". Talvez haja, vamos lá, não sejamos tão radicais, alguma coisa que a Teologia ortodoxa tenha inventado do nada - quem sabe, a criação do nada! (não, nem isso!). Todavia, qualquer doutrina que quisermos estudar, ao ponto de investigar sua origem histórica, revelará sua origem "pagã". Até a máxima fundamental do Cristianismo - Deus e amor - é "pagã". É persa, e, antes de ser persa, talvez tenha sido de outro(s) povo(s). Antes de os judeus freqüentarem a Escola Bíblica persa, Deus era tanto amor quanto furor, era tanto bom quanto mau. Mas até os deuses amadurecem... E, de mais a mais, deve ser verdade o que os persas ensinaram, porque até na boca de Jesus essa cataquese esteve presente...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 20 de março de 2010

(2010/233) E pro Khaled, o camelo...


1. Ah, coitado! Qual dessas surpreendementemente malvadas morenas da terra do deserto terá mandado o Khaled a beijar que vá os camelos? Pior pra ele, que ficou chupando o dedo e lambendo areia... melhor pra nós, que ganhamos essa canção super-hiper-mega-power dançante... É pra se acabar, não é não?



Eu sou o árabe, filho do bosque e do faisão, Eu sou o árabe, filho da camela e do camelo, Eu sou o árabe, filho do deserto e da areia sem flores, sem felicidade, a mulher que eu amava me deixou... Na música da noite encontro o consolo A luz da lua me faz companhia... Eu sou o árabe, filho do bosque e do faisão Eu sou o árabe...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

(2009/436) De pessoas mortas


1. Há uma vantagem do cristão em relação a Jesus. Ele está morto. Isso quer dizer que, morto, Jesus não pode reagir. Devo explicar isso, mas, antes, um esclarecimento.

2. Primeiro, o Cristo da Fé não conta, nesse caso. Jesus, o homem, nascido de mulher, esse, está morto. Esse, sim, falou por si, fez resistência - a voz humana nos interpõe resistência. Já o Cristo da Fé, esse é massa de modelar nas mãos de cada fé. Logo, apenas confirma o que estou a dizer.

3. Agora, posso seguir: Jesus não pode reagir. É como qualquer outro morto, tornado "memória" - palavra em moda... Memória, quantas vezes, não vai além de engenho humano? À medida que o tempo vai se afastando da cova, em torno da qual celebramos a passagem do morto, da morta, sua imagem vai-se transformando, sem que haja uma direção precisa, de modo que o caminho que essa imagem vai trilhando dependerá de nós, de nós como vamos nos tornando, vai depender de como nos relacionávamos com o morto, vai depender de tanta coisa.

4. Mas uma coisa é certa: a memória vai-se tornando origami em nossas mãos. Também Jesus.

5. Cada vez mais vejo menos "Jesus" na fala daqueles que apelam para Jesus. Cada vez mais vou-me dando conta de que "Jesus", na boca e na pena, transformou-se em catalisador ideológico - para o amor, por exemplo, para missões, para a fé, para a ética, para a política, para a justiça, para a religião, para qualquer coisa. Jesus vende - até idéias cristãs... O sujeito tem lá sua idéia sobre essa coisa, e lá vai ele projetar isso sobre a memória de"Jesus".

6. E, no entanto, de quem realmente estamos falando? De que Jesus se trata? Quem é esse Jesus? Ora, se eu consigo elaborar uma abstração de Jesus, convertê-lo em memória imaginativa, em recurso ideológico, ele, de quem se diz ser o Cristo, a que nível de abstração não promovo o próximo?

7. As pessoas reais não se enquadram em nossas ideologias - daí a necessidade de técnicas de manipulação (que se utilizam até de Jesus...) para fazer com que elas pensem, digam e façam exatamente o que queremos. Quando livres, contudo, as pessoas são como rochas, contra as quais nos debatemos, quero dizer, são concretudes, alteridades, não-sujeitas à minha determinação.

8. A política sempre está diante de duas estradas - pelo menos. Por essa, segue aquela prática política de reduzir as pessoas a meu projeto, à minha ideologia: mesmo a do "amor" e a de "Jesus". Por aí, vão pessoas... mesmo? Por aquela, vão pessoas negociando seus próprios projetos, discutindo o resultado dessa conta difícil de se fazer - a do embate de vontades e consciências livres, que se auto-determinam, mas no limite da auto-determinação do outro.

9. Na Igreja, ainda não se pavimentou a segunda via. Seja por meio do recurso ao discurso da "soberania" divina, seja por meio do recurso ao "amor", findamos nos comportando como gestores das consciências, submetendo o conjunto dos corpos à nossa ideologia.

10. Para encerrar - cada vez que ouço/leio sobre o amor, em contexto cristão, pergunto-me de que novidade se trata agora... É como se a Igreja nunca tivesse "amado", como se finalmente, "alguém" nasceu capaz de ensinar a Igreja, essa, de agora, a amar, porque a outra, a de ontem, nunca amou, nem sabia que era isso, como se, até hoje, a Igreja apenas tivesse odiado. Não, não, não. A Igreja amou. Fez o que fez, e quanta desgraça fez, amando... Aquela desgraça era, para ela, amor. O probelma, é que amou, como sempre se acaba por fazer dizer, em nome de Deus... Aí, basta que Deus mande socar a cara de alguém que, devotíssios, obedecemos... Deus é um grande empecilho para o amor. Isso não ouço ser dito. Escolhei: ou Deus, ou o amor...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 15 de maio de 2009

(2009/261) Amor ou verdade?

1. Há alguns anos, uns seis ou sete, talvez, um eminente teólogo canadense, velhinho já, daqueles de terem neve e, não, cabelos, falou-nos por ocasião de um café da manhã no Seminário do Sul. Havia umas quarenta pessoas. Ele falou de "amor": o Cristianismo tinha de "amar", como nunca, mais do que sempre, porque o segredo era amar, era amor. Os convidados, marejados, estavam praticamente em êxtase... Um Paulo redivivo, um profeta do amor, ali, com o segredo do Cristianismo...

2. Levantar a mão é claro que eu levantei, mas tinha o horário do avião, ele tinha que sair mais rápido do que o tempo de esfriar meu café com leite, e eu não fui selecionado para as perguntas. E eu faria essa: o senhor está convencido de que o que falta e faltou ao Cristianismo é o amor. Bem, ainda perguntando, o senhor acha que os cristãos que viviam na época de Nicéia, qando uma única doutrina sobrepujou-se às demais, não se amavam? O senhor acha que os cruzados, cristãos, não amavam nem a si, nem aos irmãos e nem aos mouros? O senhor acha que os cristãos da Inquisição não amavam os hereges que tornturavam e matavam? O senhor acha que os cristãos nunca amaram?

3. Mas, ainda pergunto, não foi sempre - e sempre é - em nome do amor que a Igreja fez e faz tudo? Sempre? Sempre houve Coríntios 13. O que faz com que o senhor pense que seu discurso teológico guarde algum segredo ou alguma novidade? Seria o quê? A nossa geração, finalmente, evoluiu para a condição de amar, ao passo que as gerações anteriores não estavam suficientemente preparadas para isso? Que os cristãos que inventaram o Dogma, que festejaram as Cruzadas, que iluminaram a Inquisião, não sabiam, não queriam, amar?

4. Não sei o que ele responderia. No entanto, não dou a mínima importância ao discurso que ouvi, porque é pura ingenuidade irrefletida. Sabem quando o Cristianismo vai poder, realmente, amar? Apenas no dia em que decidir que o amor é maior do que as doutrinas, quando não olhar mais a casca das pessoas, mas, apenas, elas mesmas, as pessoas, sem rótulos nem conteúdos pré-fabricados. Até hoje, sempre foi ter à mão dois valores, o amor e a verdade. Anselmo inventou aquela história raconalizada de que Deus é plenamente bom e plenamente justo, sendo por isso que, mesmo amando os homens, vai mandá-los para os quintos dos infernos, porque seu amor não pode desconsiderar a sua verdade. Na hora h, o amor abaixa a cabeça, põe o rabo entre as pernas, e a verdade diz quem manda no pedaço: acabou a brincadeira, amor, está na hora de os adultos conversarem...

5. Bem, prefiro a passagem da mulher dita pega em adultério: não te condenam os teus acusadores, mulher - nem eu. Ora, ora , ora - Jesus nao condena... Já Paulo... Já nós... Eu não vejo solução para nós, por isso. Porque quando o amor e a verdade se econtram, só brincam juntos se a verdade der as cartas. Se a verdade sentir-se, hum, ferida, digamos, o amor lhe dá permissão para ferir, matar, odiar - em nome do amor, isto é, em nome do esforço de fazer com que o filho do erro retorne para a verdade. E você pode chamar a verdade de verdade, fé, doutrina, dogma, esperança, do que quiser: se é a boa e velha verdade, danou-se...

6. Não estou aqui interessado em dizer que a Igreja deveria optar pelo amor, e deixar de lado a questão da verdade. Não serei eu a dizer a ela o que deve fazer - ela é bem grandinha. Estou, sim, dizendo, que enquanto houver a verdade, o amor é secundário, é epifenômeno. A verdade sempre terá a primazia de dar a palavra final, o golpe final, a despeito do amor.

7. E, então, eis aonde quero chegar. A classe de Tópicos Especiais e Teologia e eu, ontem, continuamos a ler o artigo de Enio R. Mueller. O Luís Cláudio é um aluno perspicaz. Ele já leu o artigo todo e, quando estávamos na penúltima parte, ele já cantava a pedra: "ah, mas na parte final o Mueller vai revelar que a esperança é a fé". O leitor se lembra de que o artigo de Mueller discute o estatuto teórico da tologia, que, agora, está no MEC. E ele define teologia como "a interpretação da realidade à luz da esperança". Só que, até o parte três, ele não deixa claro o que é a esperança. Até aí, dá uma volta enorme, e conclui dizendo basear-se em dois pilares: para a interpretação (hermenêutica), Ricoeur e Gadamer, e, para a esperança, Bloch e Adorno (mas isso sem dar as fontes, apenas citando os nomes...).

8. E, então, chega a parte quatro do artigo. O Cláudio quer, de uma vez só, sepultar os esforços de Mueller. Estamos no penúltimo parágrafo da p. 99. Eu tento contê-lo. Calma, Cláudio. A palavra "revelação", mais "Lutero", mais "esperança", mas "sub specie asternitatis", mais "'no coração de Deus'" - sim, esse conjunto pode, muito, muito plausivelmente, mesmo, como você vê, indicar a "doutrina": a esperança, em Mueller, é um outro nome para a mesma fé cristã, isto é, para os dogmas. Mas, disse eu, diante de um tribunal, Mueller poderia dizer que tudo isso são formas abertas de se referir à utopia aberta, vá lá, termos infelizes, porque carregados de história, mas, em todo caso, como negar-lhe a defesa? Vamos, Cláudio, esperar. Vamos ver se não há alguma afirmação mais categórica, menos fugidia...

9. E chega o parágrafo que começa na p. 99 e termina na 100: "o modo in spe designa aqui uma correlação do teológico com o filosófico ou científico, considerados como caracterizando-se pelo modo de interpretação in re. A spes, portanto, não significa nesta correlação o mesmo que a virtude da esperança dentro da correlação com as virtudes da fé e do amor. Uma hermenêutica teológica ao modo da esperança já é sempre uma hermenêutica informada pela fé e animada pelo amor. O intellectus spei não descarta, mas inclui um intellectus fidei, como tem sido desenvolvido especialmente na teologia “clássica”, e um intellectus amoris, como tem sido desenvolvido especialmente na teologia latino-americana das últimas décadas. Manter esta correlação é de fundamental importância, pois ela assegura a relação da teologia como hermenêutica com a revelação, por um lado, e com a ética, por outro".

10. Bem, aqui a defesa de Mueller, caso ele a deseje, seria muito dificultada. Ele fala de "manter esta correlação". Bem, correlação entre o quê? Entre o intellectus spei, de um lado, e, de outro, o intellectus fidei e o intellectus amoris de outro. Esperança mais fé e amor numa nova correlação - hermenêutica. E a fé, aí, diz-se, é aquele tipo "como tem sido desenvolvido especialmente na teologia 'clássica'". Ora, o intellectus fidei da teologia clássica é a doutrina, o dogma, meta-se o homem por aí por meio de retóricas de analogia ou metáfora, tanto faz. Nesse caso, o parágrafo que Cláudio queria marcar como a confissão de Mueller, de fato, já dizia isso: a teologia é como que um olhar de Deus, uma visada sub specie aeternitatis do mundo, revelada ao homem na fé, isto é, na compreensão da doutrina e do dogma. Quando a teologia é interpretação da realidade à luz da esperança, e quando essa esperança é o mesmo depósito de fé da História da Igreja, e quando essa fé transforma-se na filtro revelado do que está para além da realidade-real, ora, isso nada mais é do que a atualização, em "chave" hermenêutica, da boa e velha tradição luterana. Fé e amor... mas, agora, com uma pitada de opacidade humana. Barth não ia gostar, mas Bultmann, Ebeling, Fuchs, Tillich iam achar muito interessante. "Deus é símbolo para Deus"...

11. Voltei àquele café. E senti o estômago um tanto mais embrulhado. Porque Mueller tenta fazer mais do que o velho teólogo canadense achou que fazia. Quer abraçar, agora, o mundo e o MEC. Quanto ao mundo, já disse: pretender manter a fé e a verdade juntas é não ter entendido muita coisa da História do Cristianismo. Não pense ele, nem a moda metafórica que grassa por aí, que disfarçar a verdade com aparências retórico-hermenêuticas faz da fé outra coisa que não aquilo que dela se sabe desde a "teologia cássica" - a necesidade de manter os doutrinas, fingindo-as verdadeira, mas, apenas, metáforas ou interpretaçõs, já demonstra a negociação que ela, a verdade, impõe ao amor. Na hora h, não se assustem quando a metáfora e a interpretação cravarem suas garras no peito desprevenido da esperança.

12. Quanto ao MEC, bem, um discurso que sugere um olhar como que desde a eternidade, revelado desde o coração de Deus a um homem, agora, superado de sua contingência pela mágica da teologia, consubstanciado na fé, filtro hermenêutico da realiade, bem, isso é tudo menos o que eu gostaria de ver entre nós. Mas, se é para ser assim, gostaria imensamente de ver como a coisa vai acabar quando um teólogo da FTU sentar-se com um teólogo da EST para, desde a eternidade, falar desde o coração dos orixás, as verdades reveladas e consignadas na forma da fé, uma das quais diz que monoteísmo é uma prova de cegueira, porque o olho viu, eventualmente um, mas não todos os deuses... Ao que um teólogo da escola onfreyana-dawkinsiana retrucará: deuses, como assim, deuses? É ou a verdade de todos, ou a mentira de todos. Mas, se a verdade de todos contradiz-se, como fica? E, se é a mentira de todos, porque não chamar-lhe logo pelo nome?

13. Ah, fé, vai ser duro livrarmo-nos de ti... És mesmo uma neurose...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 9 de março de 2009

(2009/071) Ainda uma reação a "Apesar"


1. Haroldo, você escreveu: "apesar da crítica necessária, da hipocrisia, da ilusão, do comércio e das trocas simbólicas, ações de amor têm seu valor em si. Apesar e em meio a tudo isso - soa piegas, eu sei -, pessoas amam(-se) de verdade" (Haroldo Reimer, (2009/067) Apesar, § 7). Destaco: "pessoas amam(-se) de verdade".

2. Você quer que essa declaração tenha valor "apesar da crítica necessária, da hipocrisia, da ilusão, do comércio". A "bola" da críica, levantara-na eu. Seu post referido é uma reação a ela, com o que você concorda - "crítica necessária" -, mas com uma ressalva: há, sim, pessoas que amam verdadeira e sinceramente, a despeito da situação.

3. Bem, Haroldo, a rigor, não discutimos sobre o amor, nem sobre pessoas que amam ou não amam. O assunto era bem outro. Falávamos sobre pessoas que se dedicam (amam, fazem caridade) ao "próximo", motivadas, a isso levadas, premidas, pela "idéia de Deus". A discussão não contrapunha pessoas que não amam, ou que amam falsamente a pessoas que amam verdadeiramente. Nossa conversa contrapunha pessoas que amam, capturadas pelo próprio objeto amado, a pessoas que "amam", coagidas a tanto por um pathos religioso - a idéia imperativa de Deus.

4. Faz diferença, não faz? Penso que sim. O amor não é uma relação unilateral, ela é uma relação "objetiva", nos termos da qual eu sou objeto para o ser que amo, e ele é meu objeto, ou seja, eu e o objeto amado nos pomos em relação direta, pulsional, passional. No caso do amor religiosamente motivado, a relação não é direta - o que A faz em relação a C, faz por causa de B. É como se eu devesse amar Bel porque Deus quer (com o corolário oculto de que, se Deus não quiser, Bel não será por mim amada).

5. Que haja pessoas que amam verdadeiramente, creio. E creio, também, que, se nos aproximarmos dessas pessoas, e analisarmos esse caso de amor, veremos que não há nenhum dispositivo exterior a ela, à relação, a eles, aos "amantes", que seja a razão e o motivo desse amor. E, se há, não é, de fato, amor.

6. Acho, Haroldo, que o "fundamento" Deus do amor foi, historicamente, superado pela legislação. A "lei" organiza as relações sociais, "estabelecendo" o básico do trato inter-pessoal. Numa sociedade moderna, é a lei quem prescreve os deveres e os direitos do cidadão, seja em face do Estado, seja em face da sociedade como um todo, seja em face dos indivíduos. Como o Estado moderno assumiu o "lugar" - bem como as prerrogativas - que a "Deus" cabiam na sociedade medieval e teológica ocidental, não é mera coincidência que a legislação tenha ocupado o lugar determinante do ordenamento social mediado.

7. Todavia, o Estado não pode prescrever atitudes no nível da relação imediata, do amor gratuito, da relação sensível e sensorial. Pode, sim, estabelecer obrigações e deveres, aos quais hão de corresponder penalidades. A teologia do amor, assinalando "Deus" como fundamento do amor, funcionava da mesma maneira.

8. Já a doação gratuita, imediata, objetiva, relacional, ela nasce sem a coação de um "dever" - ela é a materialização de um constrangimento. Não é um dever alheio, estranho, uma lei, um mandamento - é um constrangimento da face exposta do outro, cujo apelo não vem do "Outro" (se vier, não é o outro que me constrange, mas o "Outro"), nem da lei, mas da nudez ineludível do outro. Esse é um amor diferente daquele.

9. Nem seria, talvez, Haroldo, o caso de pensarmos que, para o faminto, tanto faz se ele come pão, o pão que lhe dou, porque lhe dei, tendo sido constrangido a tanto por Deus ou pela lei, ou que lhe dei por gesto gratuito ou por força da objetividade de sua face incontornável. Como não faria? No primeiro caso, não é a fome do outro, o outro em-si, que me constrange: não é ele o meu "valor", ele é tão somente um checkpoint para a "obediência". Ele não existe, então, como "pessoa", à luz desse fenômeno. No segundo caso, ao contrário, é nele que eu tropeço, porque é ele quem se põe na minha frente, ele e eu, sem Deus, sem lei, o encontro insofismável entre duas pessoas, a ontologia humana rasgada e escancarada.

10. Ah, Haroldo, se eu disser a Bel que a amo porque Deus quer, hei de ofendê-la profundamente. Ela há de considerar um favor que eu lhe faço, que Deus lhe faz. Para alguém desprovido de amor-próprio, do senso de dignidade, talvez fosse, mesmo, de um favor que ela julgasse precisar. Mas, para Bel - e quero crer, para o conjunto das pessoas que não se permitem enxergar sob a ótica da maldição e do "pecado", ah, elas mesmas, enquantgo pessoas, é que são dignas do amor e do cuidado. E não hão de negociar migalhas caídas à mesa. Não mesmo. Migalha de amor não é am or - é ofensa ontológica.

11. Com o que saltamos para a questão fundamental: a retórica de Deus como fundamento do amor esconde o fato histórico de que foi "Deus" - a rigor, a teologia na qual essa idéia jaz cativa - quem privou de amor próprio um conjunto enorme de pessoas, que, porque desprovidas de amor-próprio, de senso de dignidade, sentem-se beneficiadas para além de seu mérito e valor por qualquer migalha de amor, seja de Deus, seja da sociedade, seja do Estado, seja do concidadão. Talvez, Haroldo, a manutenção da retórica do amor - e da libertação, ouso dizer - fundamentados em Deus seja um reforço paradoxal para a teologia da "falta" humana, de sua condição "menor" em face de Deus. Um Deus que, primeiro tira, para, depois, dar. Uma teologia que primeiro pisa, para, depois, levantar. Como o Yahweh de Nm 12 - primeiro faz leprosa a moça, para, depois, deixar que ela se junte ao acampamento. Amor que traz, sob o paramento, a ameaça do desamor à espreita.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 8 de março de 2009

(2009/067) Apesar


1. Lembro de um filme, já de algum tempo, que, em português levava o título de Fé demais não cheira bem. O ator norte-americano Steve Martin fazia o papel de um pastor itinerante, que, de cidade em cidade, montava sua tenda evangelística. O modelo, em si, é antiga. Mas parafernálias tecnológicas amparavam o empreendimento; ajudavam na venda da ilusão, na propagação das idéias da fé, de Deus, da salvação, em troca de contribuições para a continuidade.

2. Pessoas se colocavam a caminhar, por si ou pelas ofertas recebidas ou prometidas. Palavras movimentavam corpos. As agruras da vida simples, sofrida e frustrada na cidadezinha não permitiam grandes arroubos. As saídas eram limitadas.

3. Entendi que o objetivo do filme era a crítica a esses negócios da fé, a esse fabuloso mercado das trocas simbólicas, que, historicamente, granjeou grandes fortunas, fausto e glória a seus empreendedores. Atual e necessária é essa crítica. Ela se dirige às idéias, ao projeto, ao comércio, à manipulação, à desconexão entre o discurso e a prática efetiva. Ah, quanta hipocrisia! Neste sentido: "ai!", no melhor estilo profético bíblico.

4. No enredo do filme, contudo, aparece a figura de um jovem, semi-paralizado em consequência de um acidente. Está em busca de cura. Embora cético, se deixa levar pelas ofertas simbólicas. Parece ver além da parafernália retórica. Algo no seu ser busca uma dimensão mais profunda.

5. Numa cena digna dos melhores 'testemunhos', ele larga as muletas e começa a andar por conta própria. O que houve, de fato? Foi ajuda divina? Foi Deus mesmo? Foi a idéia de Deus?

6. Difícil dizer. Ações humanas são multicausais. No efetivo gesto do amor não se pode isolar uma só causa. Em jogo estão sempre razões diversas.

7. Apesar da crítica necessária, da hipocrisia, da ilusão, do comércio e das trocas simbólcias, ações de amor tem seu valor em si. Apesar e em meio a tudo isso - soa piegas, eu sei -, pessoas amam(-se) de verdade.


HAROLDO REIMER
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