1. Há alguns anos, uns seis ou sete, talvez, um eminente teólogo canadense, velhinho já, daqueles de terem neve e, não, cabelos, falou-nos por ocasião de um café da manhã no Seminário do Sul. Havia umas quarenta pessoas. Ele falou de "amor": o Cristianismo tinha de "amar", como nunca, mais do que sempre, porque o segredo era amar, era amor. Os convidados, marejados, estavam praticamente em êxtase... Um Paulo redivivo, um profeta do amor, ali, com o segredo do Cristianismo...
2. Levantar a mão é claro que eu levantei, mas tinha o horário do avião, ele tinha que sair mais rápido do que o tempo de esfriar meu café com leite, e eu não fui selecionado para as perguntas. E eu faria essa: o senhor está convencido de que o que falta e faltou ao Cristianismo é o amor. Bem, ainda perguntando, o senhor acha que os cristãos que viviam na época de Nicéia, qando uma única doutrina sobrepujou-se às demais, não se amavam? O senhor acha que os cruzados, cristãos, não amavam nem a si, nem aos irmãos e nem aos mouros? O senhor acha que os cristãos da Inquisição não amavam os hereges que tornturavam e matavam? O senhor acha que os cristãos nunca amaram?
3. Mas, ainda pergunto, não foi sempre - e sempre é - em nome do amor que a Igreja fez e faz tudo? Sempre? Sempre houve Coríntios 13. O que faz com que o senhor pense que seu discurso teológico guarde algum segredo ou alguma novidade? Seria o quê? A nossa geração, finalmente, evoluiu para a condição de amar, ao passo que as gerações anteriores não estavam suficientemente preparadas para isso? Que os cristãos que inventaram o Dogma, que festejaram as Cruzadas, que iluminaram a Inquisião, não sabiam, não queriam, amar?
4. Não sei o que ele responderia. No entanto, não dou a mínima importância ao discurso que ouvi, porque é pura ingenuidade irrefletida. Sabem quando o Cristianismo vai poder, realmente, amar? Apenas no dia em que decidir que o amor é maior do que as doutrinas, quando não olhar mais a casca das pessoas, mas, apenas, elas mesmas, as pessoas, sem rótulos nem conteúdos pré-fabricados. Até hoje, sempre foi ter à mão dois valores, o amor e a verdade. Anselmo inventou aquela história raconalizada de que Deus é plenamente bom e plenamente justo, sendo por isso que, mesmo amando os homens, vai mandá-los para os quintos dos infernos, porque seu amor não pode desconsiderar a sua verdade. Na hora h, o amor abaixa a cabeça, põe o rabo entre as pernas, e a verdade diz quem manda no pedaço: acabou a brincadeira, amor, está na hora de os adultos conversarem...
5. Bem, prefiro a passagem da mulher dita pega em adultério: não te condenam os teus acusadores, mulher - nem eu. Ora, ora , ora - Jesus nao condena... Já Paulo... Já nós... Eu não vejo solução para nós, por isso. Porque quando o amor e a verdade se econtram, só brincam juntos se a verdade der as cartas. Se a verdade sentir-se, hum, ferida, digamos, o amor lhe dá permissão para ferir, matar, odiar - em nome do amor, isto é, em nome do esforço de fazer com que o filho do erro retorne para a verdade. E você pode chamar a verdade de verdade, fé, doutrina, dogma, esperança, do que quiser: se é a boa e velha verdade, danou-se...
6. Não estou aqui interessado em dizer que a Igreja deveria optar pelo amor, e deixar de lado a questão da verdade. Não serei eu a dizer a ela o que deve fazer - ela é bem grandinha. Estou, sim, dizendo, que enquanto houver a verdade, o amor é secundário, é epifenômeno. A verdade sempre terá a primazia de dar a palavra final, o golpe final, a despeito do amor.
7. E, então, eis aonde quero chegar. A classe de Tópicos Especiais e Teologia e eu, ontem, continuamos a ler o artigo de Enio R. Mueller. O Luís Cláudio é um aluno perspicaz. Ele já leu o artigo todo e, quando estávamos na penúltima parte, ele já cantava a pedra: "ah, mas na parte final o Mueller vai revelar que a esperança é a fé". O leitor se lembra de que o artigo de Mueller discute o estatuto teórico da tologia, que, agora, está no MEC. E ele define teologia como "a interpretação da realidade à luz da esperança". Só que, até o parte três, ele não deixa claro o que é a esperança. Até aí, dá uma volta enorme, e conclui dizendo basear-se em dois pilares: para a interpretação (hermenêutica), Ricoeur e Gadamer, e, para a esperança, Bloch e Adorno (mas isso sem dar as fontes, apenas citando os nomes...).
8. E, então, chega a parte quatro do artigo. O Cláudio quer, de uma vez só, sepultar os esforços de Mueller. Estamos no penúltimo parágrafo da p. 99. Eu tento contê-lo. Calma, Cláudio. A palavra "revelação", mais "Lutero", mais "esperança", mas "sub specie asternitatis", mais "'no coração de Deus'" - sim, esse conjunto pode, muito, muito plausivelmente, mesmo, como você vê, indicar a "doutrina": a esperança, em Mueller, é um outro nome para a mesma fé cristã, isto é, para os dogmas. Mas, disse eu, diante de um tribunal, Mueller poderia dizer que tudo isso são formas abertas de se referir à utopia aberta, vá lá, termos infelizes, porque carregados de história, mas, em todo caso, como negar-lhe a defesa? Vamos, Cláudio, esperar. Vamos ver se não há alguma afirmação mais categórica, menos fugidia...
9. E chega o parágrafo que começa na p. 99 e termina na 100: "o modo in spe designa aqui uma correlação do teológico com o filosófico ou científico, considerados como caracterizando-se pelo modo de interpretação in re. A spes, portanto, não significa nesta correlação o mesmo que a virtude da esperança dentro da correlação com as virtudes da fé e do amor. Uma hermenêutica teológica ao modo da esperança já é sempre uma hermenêutica informada pela fé e animada pelo amor. O intellectus spei não descarta, mas inclui um intellectus fidei, como tem sido desenvolvido especialmente na teologia “clássica”, e um intellectus amoris, como tem sido desenvolvido especialmente na teologia latino-americana das últimas décadas. Manter esta correlação é de fundamental importância, pois ela assegura a relação da teologia como hermenêutica com a revelação, por um lado, e com a ética, por outro".
10. Bem, aqui a defesa de Mueller, caso ele a deseje, seria muito dificultada. Ele fala de "manter esta correlação". Bem, correlação entre o quê? Entre o intellectus spei, de um lado, e, de outro, o intellectus fidei e o intellectus amoris de outro. Esperança mais fé e amor numa nova correlação - hermenêutica. E a fé, aí, diz-se, é aquele tipo "como tem sido desenvolvido especialmente na teologia 'clássica'". Ora, o intellectus fidei da teologia clássica é a doutrina, o dogma, meta-se o homem por aí por meio de retóricas de analogia ou metáfora, tanto faz. Nesse caso, o parágrafo que Cláudio queria marcar como a confissão de Mueller, de fato, já dizia isso: a teologia é como que um olhar de Deus, uma visada sub specie aeternitatis do mundo, revelada ao homem na fé, isto é, na compreensão da doutrina e do dogma. Quando a teologia é interpretação da realidade à luz da esperança, e quando essa esperança é o mesmo depósito de fé da História da Igreja, e quando essa fé transforma-se na filtro revelado do que está para além da realidade-real, ora, isso nada mais é do que a atualização, em "chave" hermenêutica, da boa e velha tradição luterana. Fé e amor... mas, agora, com uma pitada de opacidade humana. Barth não ia gostar, mas Bultmann, Ebeling, Fuchs, Tillich iam achar muito interessante. "Deus é símbolo para Deus"...
11. Voltei àquele café. E senti o estômago um tanto mais embrulhado. Porque Mueller tenta fazer mais do que o velho teólogo canadense achou que fazia. Quer abraçar, agora, o mundo e o MEC. Quanto ao mundo, já disse: pretender manter a fé e a verdade juntas é não ter entendido muita coisa da História do Cristianismo. Não pense ele, nem a moda metafórica que grassa por aí, que disfarçar a verdade com aparências retórico-hermenêuticas faz da fé outra coisa que não aquilo que dela se sabe desde a "teologia cássica" - a necesidade de manter os doutrinas, fingindo-as verdadeira, mas, apenas, metáforas ou interpretaçõs, já demonstra a negociação que ela, a verdade, impõe ao amor. Na hora h, não se assustem quando a metáfora e a interpretação cravarem suas garras no peito desprevenido da esperança.
12. Quanto ao MEC, bem, um discurso que sugere um olhar como que desde a eternidade, revelado desde o coração de Deus a um homem, agora, superado de sua contingência pela mágica da teologia, consubstanciado na fé, filtro hermenêutico da realiade, bem, isso é tudo menos o que eu gostaria de ver entre nós. Mas, se é para ser assim, gostaria imensamente de ver como a coisa vai acabar quando um teólogo da FTU sentar-se com um teólogo da EST para, desde a eternidade, falar desde o coração dos orixás, as verdades reveladas e consignadas na forma da fé, uma das quais diz que monoteísmo é uma prova de cegueira, porque o olho viu, eventualmente um, mas não todos os deuses... Ao que um teólogo da escola onfreyana-dawkinsiana retrucará: deuses, como assim, deuses? É ou a verdade de todos, ou a mentira de todos. Mas, se a verdade de todos contradiz-se, como fica? E, se é a mentira de todos, porque não chamar-lhe logo pelo nome?
13. Ah, fé, vai ser duro livrarmo-nos de ti... És mesmo uma neurose...
OSVALDO LUIZ RIBEIRO
2. Levantar a mão é claro que eu levantei, mas tinha o horário do avião, ele tinha que sair mais rápido do que o tempo de esfriar meu café com leite, e eu não fui selecionado para as perguntas. E eu faria essa: o senhor está convencido de que o que falta e faltou ao Cristianismo é o amor. Bem, ainda perguntando, o senhor acha que os cristãos que viviam na época de Nicéia, qando uma única doutrina sobrepujou-se às demais, não se amavam? O senhor acha que os cruzados, cristãos, não amavam nem a si, nem aos irmãos e nem aos mouros? O senhor acha que os cristãos da Inquisição não amavam os hereges que tornturavam e matavam? O senhor acha que os cristãos nunca amaram?
3. Mas, ainda pergunto, não foi sempre - e sempre é - em nome do amor que a Igreja fez e faz tudo? Sempre? Sempre houve Coríntios 13. O que faz com que o senhor pense que seu discurso teológico guarde algum segredo ou alguma novidade? Seria o quê? A nossa geração, finalmente, evoluiu para a condição de amar, ao passo que as gerações anteriores não estavam suficientemente preparadas para isso? Que os cristãos que inventaram o Dogma, que festejaram as Cruzadas, que iluminaram a Inquisião, não sabiam, não queriam, amar?
4. Não sei o que ele responderia. No entanto, não dou a mínima importância ao discurso que ouvi, porque é pura ingenuidade irrefletida. Sabem quando o Cristianismo vai poder, realmente, amar? Apenas no dia em que decidir que o amor é maior do que as doutrinas, quando não olhar mais a casca das pessoas, mas, apenas, elas mesmas, as pessoas, sem rótulos nem conteúdos pré-fabricados. Até hoje, sempre foi ter à mão dois valores, o amor e a verdade. Anselmo inventou aquela história raconalizada de que Deus é plenamente bom e plenamente justo, sendo por isso que, mesmo amando os homens, vai mandá-los para os quintos dos infernos, porque seu amor não pode desconsiderar a sua verdade. Na hora h, o amor abaixa a cabeça, põe o rabo entre as pernas, e a verdade diz quem manda no pedaço: acabou a brincadeira, amor, está na hora de os adultos conversarem...
5. Bem, prefiro a passagem da mulher dita pega em adultério: não te condenam os teus acusadores, mulher - nem eu. Ora, ora , ora - Jesus nao condena... Já Paulo... Já nós... Eu não vejo solução para nós, por isso. Porque quando o amor e a verdade se econtram, só brincam juntos se a verdade der as cartas. Se a verdade sentir-se, hum, ferida, digamos, o amor lhe dá permissão para ferir, matar, odiar - em nome do amor, isto é, em nome do esforço de fazer com que o filho do erro retorne para a verdade. E você pode chamar a verdade de verdade, fé, doutrina, dogma, esperança, do que quiser: se é a boa e velha verdade, danou-se...
6. Não estou aqui interessado em dizer que a Igreja deveria optar pelo amor, e deixar de lado a questão da verdade. Não serei eu a dizer a ela o que deve fazer - ela é bem grandinha. Estou, sim, dizendo, que enquanto houver a verdade, o amor é secundário, é epifenômeno. A verdade sempre terá a primazia de dar a palavra final, o golpe final, a despeito do amor.
7. E, então, eis aonde quero chegar. A classe de Tópicos Especiais e Teologia e eu, ontem, continuamos a ler o artigo de Enio R. Mueller. O Luís Cláudio é um aluno perspicaz. Ele já leu o artigo todo e, quando estávamos na penúltima parte, ele já cantava a pedra: "ah, mas na parte final o Mueller vai revelar que a esperança é a fé". O leitor se lembra de que o artigo de Mueller discute o estatuto teórico da tologia, que, agora, está no MEC. E ele define teologia como "a interpretação da realidade à luz da esperança". Só que, até o parte três, ele não deixa claro o que é a esperança. Até aí, dá uma volta enorme, e conclui dizendo basear-se em dois pilares: para a interpretação (hermenêutica), Ricoeur e Gadamer, e, para a esperança, Bloch e Adorno (mas isso sem dar as fontes, apenas citando os nomes...).
8. E, então, chega a parte quatro do artigo. O Cláudio quer, de uma vez só, sepultar os esforços de Mueller. Estamos no penúltimo parágrafo da p. 99. Eu tento contê-lo. Calma, Cláudio. A palavra "revelação", mais "Lutero", mais "esperança", mas "sub specie asternitatis", mais "'no coração de Deus'" - sim, esse conjunto pode, muito, muito plausivelmente, mesmo, como você vê, indicar a "doutrina": a esperança, em Mueller, é um outro nome para a mesma fé cristã, isto é, para os dogmas. Mas, disse eu, diante de um tribunal, Mueller poderia dizer que tudo isso são formas abertas de se referir à utopia aberta, vá lá, termos infelizes, porque carregados de história, mas, em todo caso, como negar-lhe a defesa? Vamos, Cláudio, esperar. Vamos ver se não há alguma afirmação mais categórica, menos fugidia...
9. E chega o parágrafo que começa na p. 99 e termina na 100: "o modo in spe designa aqui uma correlação do teológico com o filosófico ou científico, considerados como caracterizando-se pelo modo de interpretação in re. A spes, portanto, não significa nesta correlação o mesmo que a virtude da esperança dentro da correlação com as virtudes da fé e do amor. Uma hermenêutica teológica ao modo da esperança já é sempre uma hermenêutica informada pela fé e animada pelo amor. O intellectus spei não descarta, mas inclui um intellectus fidei, como tem sido desenvolvido especialmente na teologia “clássica”, e um intellectus amoris, como tem sido desenvolvido especialmente na teologia latino-americana das últimas décadas. Manter esta correlação é de fundamental importância, pois ela assegura a relação da teologia como hermenêutica com a revelação, por um lado, e com a ética, por outro".
10. Bem, aqui a defesa de Mueller, caso ele a deseje, seria muito dificultada. Ele fala de "manter esta correlação". Bem, correlação entre o quê? Entre o intellectus spei, de um lado, e, de outro, o intellectus fidei e o intellectus amoris de outro. Esperança mais fé e amor numa nova correlação - hermenêutica. E a fé, aí, diz-se, é aquele tipo "como tem sido desenvolvido especialmente na teologia 'clássica'". Ora, o intellectus fidei da teologia clássica é a doutrina, o dogma, meta-se o homem por aí por meio de retóricas de analogia ou metáfora, tanto faz. Nesse caso, o parágrafo que Cláudio queria marcar como a confissão de Mueller, de fato, já dizia isso: a teologia é como que um olhar de Deus, uma visada sub specie aeternitatis do mundo, revelada ao homem na fé, isto é, na compreensão da doutrina e do dogma. Quando a teologia é interpretação da realidade à luz da esperança, e quando essa esperança é o mesmo depósito de fé da História da Igreja, e quando essa fé transforma-se na filtro revelado do que está para além da realidade-real, ora, isso nada mais é do que a atualização, em "chave" hermenêutica, da boa e velha tradição luterana. Fé e amor... mas, agora, com uma pitada de opacidade humana. Barth não ia gostar, mas Bultmann, Ebeling, Fuchs, Tillich iam achar muito interessante. "Deus é símbolo para Deus"...
11. Voltei àquele café. E senti o estômago um tanto mais embrulhado. Porque Mueller tenta fazer mais do que o velho teólogo canadense achou que fazia. Quer abraçar, agora, o mundo e o MEC. Quanto ao mundo, já disse: pretender manter a fé e a verdade juntas é não ter entendido muita coisa da História do Cristianismo. Não pense ele, nem a moda metafórica que grassa por aí, que disfarçar a verdade com aparências retórico-hermenêuticas faz da fé outra coisa que não aquilo que dela se sabe desde a "teologia cássica" - a necesidade de manter os doutrinas, fingindo-as verdadeira, mas, apenas, metáforas ou interpretaçõs, já demonstra a negociação que ela, a verdade, impõe ao amor. Na hora h, não se assustem quando a metáfora e a interpretação cravarem suas garras no peito desprevenido da esperança.
12. Quanto ao MEC, bem, um discurso que sugere um olhar como que desde a eternidade, revelado desde o coração de Deus a um homem, agora, superado de sua contingência pela mágica da teologia, consubstanciado na fé, filtro hermenêutico da realiade, bem, isso é tudo menos o que eu gostaria de ver entre nós. Mas, se é para ser assim, gostaria imensamente de ver como a coisa vai acabar quando um teólogo da FTU sentar-se com um teólogo da EST para, desde a eternidade, falar desde o coração dos orixás, as verdades reveladas e consignadas na forma da fé, uma das quais diz que monoteísmo é uma prova de cegueira, porque o olho viu, eventualmente um, mas não todos os deuses... Ao que um teólogo da escola onfreyana-dawkinsiana retrucará: deuses, como assim, deuses? É ou a verdade de todos, ou a mentira de todos. Mas, se a verdade de todos contradiz-se, como fica? E, se é a mentira de todos, porque não chamar-lhe logo pelo nome?
13. Ah, fé, vai ser duro livrarmo-nos de ti... És mesmo uma neurose...
OSVALDO LUIZ RIBEIRO

