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sexta-feira, 15 de maio de 2009

(2009/261) Amor ou verdade?

1. Há alguns anos, uns seis ou sete, talvez, um eminente teólogo canadense, velhinho já, daqueles de terem neve e, não, cabelos, falou-nos por ocasião de um café da manhã no Seminário do Sul. Havia umas quarenta pessoas. Ele falou de "amor": o Cristianismo tinha de "amar", como nunca, mais do que sempre, porque o segredo era amar, era amor. Os convidados, marejados, estavam praticamente em êxtase... Um Paulo redivivo, um profeta do amor, ali, com o segredo do Cristianismo...

2. Levantar a mão é claro que eu levantei, mas tinha o horário do avião, ele tinha que sair mais rápido do que o tempo de esfriar meu café com leite, e eu não fui selecionado para as perguntas. E eu faria essa: o senhor está convencido de que o que falta e faltou ao Cristianismo é o amor. Bem, ainda perguntando, o senhor acha que os cristãos que viviam na época de Nicéia, qando uma única doutrina sobrepujou-se às demais, não se amavam? O senhor acha que os cruzados, cristãos, não amavam nem a si, nem aos irmãos e nem aos mouros? O senhor acha que os cristãos da Inquisição não amavam os hereges que tornturavam e matavam? O senhor acha que os cristãos nunca amaram?

3. Mas, ainda pergunto, não foi sempre - e sempre é - em nome do amor que a Igreja fez e faz tudo? Sempre? Sempre houve Coríntios 13. O que faz com que o senhor pense que seu discurso teológico guarde algum segredo ou alguma novidade? Seria o quê? A nossa geração, finalmente, evoluiu para a condição de amar, ao passo que as gerações anteriores não estavam suficientemente preparadas para isso? Que os cristãos que inventaram o Dogma, que festejaram as Cruzadas, que iluminaram a Inquisião, não sabiam, não queriam, amar?

4. Não sei o que ele responderia. No entanto, não dou a mínima importância ao discurso que ouvi, porque é pura ingenuidade irrefletida. Sabem quando o Cristianismo vai poder, realmente, amar? Apenas no dia em que decidir que o amor é maior do que as doutrinas, quando não olhar mais a casca das pessoas, mas, apenas, elas mesmas, as pessoas, sem rótulos nem conteúdos pré-fabricados. Até hoje, sempre foi ter à mão dois valores, o amor e a verdade. Anselmo inventou aquela história raconalizada de que Deus é plenamente bom e plenamente justo, sendo por isso que, mesmo amando os homens, vai mandá-los para os quintos dos infernos, porque seu amor não pode desconsiderar a sua verdade. Na hora h, o amor abaixa a cabeça, põe o rabo entre as pernas, e a verdade diz quem manda no pedaço: acabou a brincadeira, amor, está na hora de os adultos conversarem...

5. Bem, prefiro a passagem da mulher dita pega em adultério: não te condenam os teus acusadores, mulher - nem eu. Ora, ora , ora - Jesus nao condena... Já Paulo... Já nós... Eu não vejo solução para nós, por isso. Porque quando o amor e a verdade se econtram, só brincam juntos se a verdade der as cartas. Se a verdade sentir-se, hum, ferida, digamos, o amor lhe dá permissão para ferir, matar, odiar - em nome do amor, isto é, em nome do esforço de fazer com que o filho do erro retorne para a verdade. E você pode chamar a verdade de verdade, fé, doutrina, dogma, esperança, do que quiser: se é a boa e velha verdade, danou-se...

6. Não estou aqui interessado em dizer que a Igreja deveria optar pelo amor, e deixar de lado a questão da verdade. Não serei eu a dizer a ela o que deve fazer - ela é bem grandinha. Estou, sim, dizendo, que enquanto houver a verdade, o amor é secundário, é epifenômeno. A verdade sempre terá a primazia de dar a palavra final, o golpe final, a despeito do amor.

7. E, então, eis aonde quero chegar. A classe de Tópicos Especiais e Teologia e eu, ontem, continuamos a ler o artigo de Enio R. Mueller. O Luís Cláudio é um aluno perspicaz. Ele já leu o artigo todo e, quando estávamos na penúltima parte, ele já cantava a pedra: "ah, mas na parte final o Mueller vai revelar que a esperança é a fé". O leitor se lembra de que o artigo de Mueller discute o estatuto teórico da tologia, que, agora, está no MEC. E ele define teologia como "a interpretação da realidade à luz da esperança". Só que, até o parte três, ele não deixa claro o que é a esperança. Até aí, dá uma volta enorme, e conclui dizendo basear-se em dois pilares: para a interpretação (hermenêutica), Ricoeur e Gadamer, e, para a esperança, Bloch e Adorno (mas isso sem dar as fontes, apenas citando os nomes...).

8. E, então, chega a parte quatro do artigo. O Cláudio quer, de uma vez só, sepultar os esforços de Mueller. Estamos no penúltimo parágrafo da p. 99. Eu tento contê-lo. Calma, Cláudio. A palavra "revelação", mais "Lutero", mais "esperança", mas "sub specie asternitatis", mais "'no coração de Deus'" - sim, esse conjunto pode, muito, muito plausivelmente, mesmo, como você vê, indicar a "doutrina": a esperança, em Mueller, é um outro nome para a mesma fé cristã, isto é, para os dogmas. Mas, disse eu, diante de um tribunal, Mueller poderia dizer que tudo isso são formas abertas de se referir à utopia aberta, vá lá, termos infelizes, porque carregados de história, mas, em todo caso, como negar-lhe a defesa? Vamos, Cláudio, esperar. Vamos ver se não há alguma afirmação mais categórica, menos fugidia...

9. E chega o parágrafo que começa na p. 99 e termina na 100: "o modo in spe designa aqui uma correlação do teológico com o filosófico ou científico, considerados como caracterizando-se pelo modo de interpretação in re. A spes, portanto, não significa nesta correlação o mesmo que a virtude da esperança dentro da correlação com as virtudes da fé e do amor. Uma hermenêutica teológica ao modo da esperança já é sempre uma hermenêutica informada pela fé e animada pelo amor. O intellectus spei não descarta, mas inclui um intellectus fidei, como tem sido desenvolvido especialmente na teologia “clássica”, e um intellectus amoris, como tem sido desenvolvido especialmente na teologia latino-americana das últimas décadas. Manter esta correlação é de fundamental importância, pois ela assegura a relação da teologia como hermenêutica com a revelação, por um lado, e com a ética, por outro".

10. Bem, aqui a defesa de Mueller, caso ele a deseje, seria muito dificultada. Ele fala de "manter esta correlação". Bem, correlação entre o quê? Entre o intellectus spei, de um lado, e, de outro, o intellectus fidei e o intellectus amoris de outro. Esperança mais fé e amor numa nova correlação - hermenêutica. E a fé, aí, diz-se, é aquele tipo "como tem sido desenvolvido especialmente na teologia 'clássica'". Ora, o intellectus fidei da teologia clássica é a doutrina, o dogma, meta-se o homem por aí por meio de retóricas de analogia ou metáfora, tanto faz. Nesse caso, o parágrafo que Cláudio queria marcar como a confissão de Mueller, de fato, já dizia isso: a teologia é como que um olhar de Deus, uma visada sub specie aeternitatis do mundo, revelada ao homem na fé, isto é, na compreensão da doutrina e do dogma. Quando a teologia é interpretação da realidade à luz da esperança, e quando essa esperança é o mesmo depósito de fé da História da Igreja, e quando essa fé transforma-se na filtro revelado do que está para além da realidade-real, ora, isso nada mais é do que a atualização, em "chave" hermenêutica, da boa e velha tradição luterana. Fé e amor... mas, agora, com uma pitada de opacidade humana. Barth não ia gostar, mas Bultmann, Ebeling, Fuchs, Tillich iam achar muito interessante. "Deus é símbolo para Deus"...

11. Voltei àquele café. E senti o estômago um tanto mais embrulhado. Porque Mueller tenta fazer mais do que o velho teólogo canadense achou que fazia. Quer abraçar, agora, o mundo e o MEC. Quanto ao mundo, já disse: pretender manter a fé e a verdade juntas é não ter entendido muita coisa da História do Cristianismo. Não pense ele, nem a moda metafórica que grassa por aí, que disfarçar a verdade com aparências retórico-hermenêuticas faz da fé outra coisa que não aquilo que dela se sabe desde a "teologia cássica" - a necesidade de manter os doutrinas, fingindo-as verdadeira, mas, apenas, metáforas ou interpretaçõs, já demonstra a negociação que ela, a verdade, impõe ao amor. Na hora h, não se assustem quando a metáfora e a interpretação cravarem suas garras no peito desprevenido da esperança.

12. Quanto ao MEC, bem, um discurso que sugere um olhar como que desde a eternidade, revelado desde o coração de Deus a um homem, agora, superado de sua contingência pela mágica da teologia, consubstanciado na fé, filtro hermenêutico da realiade, bem, isso é tudo menos o que eu gostaria de ver entre nós. Mas, se é para ser assim, gostaria imensamente de ver como a coisa vai acabar quando um teólogo da FTU sentar-se com um teólogo da EST para, desde a eternidade, falar desde o coração dos orixás, as verdades reveladas e consignadas na forma da fé, uma das quais diz que monoteísmo é uma prova de cegueira, porque o olho viu, eventualmente um, mas não todos os deuses... Ao que um teólogo da escola onfreyana-dawkinsiana retrucará: deuses, como assim, deuses? É ou a verdade de todos, ou a mentira de todos. Mas, se a verdade de todos contradiz-se, como fica? E, se é a mentira de todos, porque não chamar-lhe logo pelo nome?

13. Ah, fé, vai ser duro livrarmo-nos de ti... És mesmo uma neurose...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 23 de abril de 2009

(2009/211) Gerard van Groningen


1. Paulo entrega-me uma lista (até aqui) dolorosa. Quando não me deparo com teologias de recorte junguiano, deparo-me com exímios esgrimistas do método histórico-gramatical, que se traduz num método de ir já com o peixe à pescaria. Peroratio não há de portar-se sempre de forma politicamente correta - conquanto há de, sempre, defender o direito de se escrever o que quer que seja, mesmo que sejam teologias junguianas e apologias do método histórico-gramatical. Além disso, um não pouco ilustre membro da corporação histórico-gramatical escreveu, sem dó nem escrúpulos, que o método histórico-crítico é prejudicial à Igreja (ele devia ter dito: "à minha Igreja", é verdade, mas, também é verdade, ele pensa que a Igreja é (d)ele, e, quando não, que ela deveria ser como ele pensa que ela deve ser - dá na mesma, não?). Quanto ao método histórico-gramatical, direi apenas que assim se sustenta a pobre coitada... e ela nem merecia. Não é nem que ele seja nocivo à Igreja - ele a faz.

2. Van Groningen não é bobo. Ele sabe que, para defender uma "história da revelação messiânica" no Antigo Testamento - e, com isso, não sejamos ingênuos, ele fala de "Jesus" - só mesmo com método histórico-gramatical, porque esse método faz que não vê o uso da alegoria: é um trato que eles têm, o método "histórico-(faz-me-rir)-gramatical e a alegoria. Eu penso que se deveria imediatamente assumir que o método histórico-gramatical é teológico-alegórico, e darem-se as coisas por resolvidas. Que exegeta histórico-crítico sentir-se-ia aviltado pelo fato de uma prática teológico-alegórica encontrar o messias cristão na literatura judaica? Nenhum. Mas o preço de se assumir que isso é possível com base em alegoria, eu aposto, jamais permitirá que os "biblistas" confessionais (aporia ou oxímoro?) digam a verdade.

3. Não foi, contudo, assim, desde o início. Basta que se leia Diálogo com Trifão e Apologias I e II, de Justino Mártir, um dos primeiros teólogos do cristianismo patrístico. Ali se pode ver que não havia qualquer constrangimento, à época, em se assumir, praticar e assumir que se praticava a alegoria. Justino alegoriza tudo que vê pela frente. O Antigo Testamento é um poço cujo balde que dele tira água chama-se alegoria - e Justino gira a manivela... Um sério representante da escola do método histórico-gramatical, Roy B. Zuck, chegou a escrever assim: "Justino afirmava que o Antigo Testamento era pertinente aos cristãos, mas essa pertinência, dizia ele, era percebida por meio da alegorização" (1). Zuck, um confessional histórico-gramatical reconhecendo a alegoria como fundamento da fé cristã? Há salvação para Wittemberg e Genebra?

4. É preciso ir devagar aí, para entender-se o malabarismo dessa "escola". Zuck está, aí, falando como que de "outra" Igreja. Para ele, a Igreja "verdadeira" é a reformada. O período de Justino a Leão X é uma espécie de cunha apócrifa. Assim, como pensa falar de terceiros, pode denunciar a verdade. Os primeiros cristãos, teólogos, não apenas praticavam a alegoria, como com ela fabricaram todas as doutrinas cristãs. Para Zuck, contudo, com a Reforma, tudo muda! Eis que pérolas: "durante a Reforma, a Bíblia passou a ser a única fonte legítima a nortear a fé e a prática" (p. 51) e "alegorizar é manipular o texto bíblico" (p. 52). Ou seja, Zuck quer crer - e fazer-me crer! - que a Reforma rompeu com a alegoria. Basta, contudo, recorrer a outro representante da escola tradicional, Gerhard Hasel, esse, contudo, mais honesto, ler seu Teologia do Antigo Testamento (2), e ver que, desde o início da Reforma, a Teologia Sistemática (nicênica e alegória desde o ventre) controlou a leitura das Escrituras, de modo que não tardou muito a que a exegese rompesse definitivamente com essa espécie de aggiornamento doutrinário da Bíblia.

5. Ora, o próprio Zuck escreve: "para ele (Lutero), a interpretação bíblica deve estar centrada em Cristo" (p. 30). Mas o que ele não diz é que, para o fazer, Lutero tem de, sem alternativas, aplicar o método alégórico, e, assim, encontrar Jesus em cada centímetro cúbico do Antigo Testamento - até porque a experiência mística de Lutero não é com a Bíblia, mas com o Cristo da fé (sempre nicênica). Teólogos de linhas afins, contudo, querem fazer crer que é "natural" a passagem do Antigo Testamento para o Novo Testamento, e que não é necessariamente obrigatório o uso da alegoria para o perceber. C. H. Dodd, por exemplo, escreveu um livro inteiro para o "provar" - Segundo as Escrituras. Trabalho perdido. Ele mesmo tem de gastar páginas e páginas para justificar a "criatividade" dos intérpretes do Novo Testamento: "assim, os escritores do Novo Testamento permanecem em geral fiés, no uso que fazem do Antigo Testamento, à intenção primária de quem compôs o trecho citado. No entanto - e isto é bastante natural - o sentido preciso que atribuem a um determinado texto raramente coincide com o significado que tinha no contexto original" ou "em numerosos casos, cremos, estas linhas partem da intenção real dos textos originais: são prolongadas para atingir novos resultados (...) uma obra-prima da imaginação interpretativa" (3). Basta, não? A quem Dodd pensa que convence - ah, sim, aos já convencidos: não se trata de pesquisa, mas de apologia...

6. É o argumento que, para mim, encerra a questão em face de todos, absolutamente todos, os "confessionais". Ainda que escrevam um bilhão de livros, ainda que se matriculem em um trilhão de cursos, não é pesquisa que fazem - estão à cata, sempre, de argumentos para a defesa da "fé". Estão em plena Cruzada contra a modernidade, cada um deles, na defesa da "verdade". É por isso que a crítica lhes afronta, porque os desnuda a todos, sem exceção. Van Groningen, também, nu fica, em pêlo.

7. Eu sugeriria que a posição confessional fosse franca. Que se confessasse tradição e confissão, que é o que de fato de prega!, mas, agora, sem pretender que essa confissão esteja na Bíblia, porque não está. A confissão cristã está na história da igreja. Um pouco em Paulo (mas não toda), um pouco nos primeiros teólogos (Justino, Ireneu, Tertuliano), um pouco em Orígenes e Agostinho, quase tudo em Nicéia, Calcedônia e Capadócia. Se os confessionais, como Hasel sabe, assumissem que são tradicionalistas (mas como vão condenar os católicos?), seletivamente tradicionalistas, se confessassem que Lutero bateu em Leão X, mas fez-se o XI, estaria resolvido o seu pecado gravíssimo, epistemológico, porque ninguém pode reprovar uma pessoa e/ou uma instituição por ser(em) oficialmente tradicionalista(s). Meu direito de crítica vem, contudo, do fato de que, sendo tradicionalistas, primeiro, mentem, afirmando que são bíblicos - e não são - e, depois, inventando metodologias supostamente "modernas", cujo objetivo é tão-somente dar tempo ao tempo e ver se passa a modernidade, para que retorne a Idade Média da interpretação (não estão às portas os métodos pós-modernos?, pois então...). Isso não posso tolerar. Nem devo. Nem eles, porque, do alto de sua alegoria, negam a alegoria dos outros. Péssimo uso da máxima evangélica... Espetáculo circence esse, o de confessionais, alegóricos, quase enfiando o dedo em riste no olho de confessionais outros, igualmente alegóricos, retóricas de alegorias mais verdadeiras do que as outras. Patético. E, depois, nocivo para a Igreja é a crítica...

8. É por isso, Paulo, que, conforme você me disse em seu e-mail, não encontra o nomes desses senhores em Peroratio. Mas nem pode. De que vale lê-los, se o que você quer, de verdade, é pesquisa histórico-crítica? Ler cada um daqueles senhores é repisar a tradição, é comer a comida requentada do dogma, como se ainda vivêssemos numa época em que se pudesse fazê-lo sem arrancar os olhos da cara. Estão todos lutando a luta de manter as doutrinas, e, mantendo-as, manter as posições políticas. Não é uma luta pela verdade, é uma luta pelas posições sócio-políticas. Não é pesquisa. É política. E eu tenho muito mais o que fazer do que perder tempo com essa disputa milenar. Se essa disputa é de Deus - não sejamos tolos! - ele então que arrume outros cavaleiros, porque aqui não terá sequer um escudeiro.

9. Não há escapatória, Paulo. As igrejas protestantes e evangélicas, todas, sem exceção, estão presas a um problema político muito grave, isso há já quinhentos anos. Inventaram, para fazerem-se diferentes de Roma, que, enquanto Roma se baseia na Tradição, elas - nós! - nos baseamos nas Escrituras. Mentira! Desde o primeiro momento, Lutero baseou-se em Nicéia, e as Escrituras serviram apenas de alicerce retórico-político. Assim, a Bíblia é, entre nós, meramente um suporte para as políticas de mandar e dar ordens, em nome de Deus, supostamente, mas, certamente, com base nas doutrinas denominacionais. O único modo de o fazer é forçar os textos a dizerem o que se diz que eles dizem - mas não dizem, não. Esse modo se chama alegoria. O modo de você esconder uma alegoria é empregar o método histórico-gramatical. Assim, jamais verá quebrada essa regra: é confessional?, então ele usa o método histórico-gramatical, e repete Nicéia. Nisso reside o "problema" hermenêutico protestante-evangélico. Ele não é hermenêutico, ele é político. Se a comunidade política confessional admitir que suas doutrinas são alegóricas, e não podendo, por questões de não dar o braço a torcer a Roma, alegar a Tradição, então se perde o fundamento político do controle "divino" da verdade que a Reforma inventou. O sistema rui. Logo, há de se envidar todos os esforços, todos, para mantê-lo. Contra tudo. Contra todos. Mesmo contra a verdade. E haja sermões e apologias!

10. Com o que posso, agora, retornar a Van Groningen. Suas obras têm essa função legitimadora da "verdade" (alegórica) doutrinária. Seu Revelação Messiânica no Antigo Testamento (4) não vai além disso. Seus três volumes de Criação e Consumação, publicados pela Editora Cultura Cristã, estão, mais uma vez, e isso não é necessariamente ruim, a serviço da Teologia Sistemática, uma história da salvação de recorte platônico-hegeliano - que começa "errando" pelo fato de, em lugar de acessar o conceito de criação conforme a própria cultura israelita/judaíta o articulava (construção da cidade do rei e do povo) o acessa pela alegoria cosmológico-metafísica de recorte helênico-cristão, fruto, obviamente, de um compromisso com a linha de chegada, não com as regras do jogo da leitura de textos históricos antigos.

11. Para não deixar margens a dúvidas de que Van Groningen está comprometido com uma perspectiva "teológica", e não científica, de acesso às Escrituras, basta conferir seu programa de Teologia Bíblica, oferecido no Covenant Theological Seminary. Na seção "II. Objectives", todas as dúvidas dissipar-se-ão. Resta ver, claro, quantos hão de lhe dar, contudo razão, e, assim sendo, recolho-me ao meu laboratório de pesquisa bíblica. Eu vou é na direção contrária de tais "objectives"...

12. Uma última ressalva. Não quero deixar transparecer que teólogos como Van Groningen não sejam eruditos e "cultos". É provável, mesmo, que o sejam imensamente mais do que eu. Não duvido e não se trata de sarcasmo. A questão, contudo, é que a erudição ou a "cultura" são conceitos de segunda ordem. Um homem erudito, preso à idéia-neurose de que a verdade está em sua mão, desde sempre, pelo que somente lhe resta viver a serviço de correr atrás do rabo (uma definição pouco lisonjeiora da apologia, naturalmente - no fundo, trata-se de pôr traseiros certos nas cadeiras certas), será de muito menos valia, para uma empreitada heurística, do que um homem relativamente menos erudito e "culto", mas com sede de pesquisa, com curiosidade iconoclasta, com a cabeça aberta, com uma neurose de autonomia, com um mito de emancipação. Para se mover o mundo, diz a tradição, basta um ponto fixo e uma alavanca suficientemente longa. Para mantê-lo como está, ah, para isso somam-se aos milhares aqueles que o agarram à barra das calças. Mas alguém já o disse: Eppur si muove...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Roy B. ZUCK, A Interpretação Bíblica - meios de descobrir a verdade da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 39.
2. Gerhard F. HASEL, Teologia do Antigo Testamento - questões fundamentais no debate atual. Rio de Janeiro:JUERP, 1987, p. 13-26.
3. C. H. DODD, Segundo as Escituras. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 129 e 105-106.
4. Gerard VAN GRONINGEN, Revelação Messiânica no Antigo Testamento. São Paulo: Luz para o Caminho, 1995. A Fides Reformata resenhou-o.

sábado, 11 de abril de 2009

(2009/153) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - V (pergunta 3)


1. A terceira pergunta de Harnack pode ser assim traduzida: "é a experiência de Deus diferente do despertar da fé, ou é idêntica a ela? Se for diferente, o que a distingue do fanatismo incontrolável? Se for idêntica, como poderia ser de outro modo que não através da pregação do evangelho? E como pode haver essa pregação sem conhecimento hitórico e reflexão crítica?" (1).

2. Bem, em relação às duas perguntas anteriores, percebe-se que a abordagem temática mudou. Não se trata mais da Bíblia em si, mas de como o ser humano experimenta aquilo que, em tese, está pressuposta na relação cristã com a Bíblia - "a experiência de Deus". O tema, antes, era teórico-metodologicamente histórico - como compreender, hoje, um texto escrito há séculos? Agora, a abordagem temática é teológico-filosófica e psicológica. O modus operandi do processo ainda continua ligado ao modo como o ser humano experimenta, seja "a experiência de Deus", seja o "despertar da fé".

3. Naturalmente que essa não é uma questão para teorias abertas. Ela só pode ser respondida por um sistema teórico doutrinário, logo, fechado. Não poderia ser de outro modo, porque, fora de sistemas doutrinários, não há como discutir o que viria a ser alguma coisa como "a experiência de Deus". Bem, fenomenológico-religiosamente, sim, poder-se-ia analisar o fenômeno, o que implicaria em observá-lo sob os ângulos psicológicos, antropológicos, sociológicos, histórico-religiosos, fenomenológicos, filosóficos. Se nos permitirmos a pergunta científico-humanista sobre o que vem a ser aquilo que o fiel chama de "experiência de Deus", então é possível formular a questão. Todavia, no âmbito de um interesse objetivo - teológico, metafísico e ontológico - quanto ao significado sobrenatural de uma "experiência de Deus", restaria, apenas, a racionalização do fenômeno pela ótica da fé que o experimenta - a que se reduz, com efeito, a "teologia".

4. Harnack aceitou os termos categoriais da teologia, e, com isso, tornou imprestável a questão para além da categoria teológica. Quando digo "teológica", naturalmente que me refiro à doutrina, isto é, ao discurso racionalizado e catequético-apologético da Igreja. As Ciências Humanas não têm a mínima condição de entrar nesse diálogo, não do modo como ele está posto. As Ciências Humanas só podem lidar com o que é humano, demasiadamente humano. Elas só podem ser kantianas e pós-kantianas-mas-ainda-kantianas - pelo menos nada mais do que "externamente" kantianas, ou seja, metafísicas e ontológicas, quando isso implique mitologia e sobrenaturlismo. Não é que as Ciências Humanas sejam atéias - elas são é imprestáveis para lidar com o tema "Deus" da forma como a mitologia e a fé lidam, o que atesta o fato inequívoco, eventualmente retoricamente dissimulável, de que a teologia, tal qual é e está, não tem absolutamente nada de "científico".

5. O que não significa que as Ciências Humanas não possam lidar com o tema "Deus" da forma como ele se apresenta fenomenologicamente na experiência humana. Isso significa que as Ciências Humanas só podem tratar "Deus" como objeto da consciência humana (um "ser de espírito", noológico - isso independentemente de haver alguma outra realidade para além dessa representação noológica, o que não mudaria em absolutamente nada a questão). Assim, só existe uma resposta científica possível para a primeira pergunta: "a experiência de Deus" e "o despertar da fé" são uma só e a mesma coisa.

6. Há uma pseudo-científica teologia no século XX, de recorte "luterano", que procura argumentar através da distinção retórica entre "Deus", na condição de Ser, e "Deus", na condição de termo teológico da fé, através do qual, "analogicamente", o homem se refere ao Deus-Ser, sem, contudo, "possuí-lo". Bem, essa é apenas uma estratégia cripto-teológica de manter, em plena era pós-kantiana e pós-feuerbachiana, o velho discurso da fé mitológico-metafísica. O que permanece escondido aí, o tempo todo, é o fato de que o "Deus-Ser" é, apenas, uma hipótese da mente humana (e se há alguma coisa , onde se afirma estar/haver esse "Deus-Ser", essa hipótese, contudo, não pode garantir). Fenomenologicamente, não há distinção alguma entre os dois termos "Deus" da famosa fórmula de Tillich: "Deus é símbolo para Deus", porque, o primeiro, é termo que os homens inventaram, e o segundo, conceito que os homens inventaram. Logo, uma palavra-invento para um conceito-invento. Isso, claro, para uma abordagem científica da questão.

7. A fé, todavia, mesmo aquela de um tipo assim de teologia "científica" ("científica" aí segundo os padrões dela) do século XX - a de Harnack? -, distingue ontologicamente um "Deus-Ser" de um "Deus-termo" e, com isso, pensa poder aparecer em praça pública com a aparência de consistência teórica, quando, na verdade, apenas obteve um modo não muito honesto de fazer "ciência".

8. O modo, portanto, como Harnack coloca a questão - jogando-a no tabuleiro da teologia, ainda que ele considere essa uma teologia "científica" - alerta-me para o fato de que Harnack ainda opera sob o regime da metafísica, por mais mitigado o estado em que ela se deixe flagrar. De outro modo, soaria ainda menos pertinente o endereçamento da questão a "teólogos que desprezam a teologia científica". Se Harnack partisse da ciência, ele não perguntaria aos "teólogos que desprezam a teologia científica" - mas o que é teológica científica, para Harnack? - se eles consideram a mesma coisa ou coisas diferentes "a experiência de Deus" e "o despertar da fé", ele simplesmente afirmaria como a mesma coisa - porque são. Uma vez que ele faz a pergunta, das duas uma: ou emprega muito equivocadamente a Epistemologia e a Retórica, ou assume, conscientemente, que haja uma dimensão da teologia científica (que ele chama de científica, claro) em que é possível falar de "experiência de Deus" de um modo que não signifique necessariamente a mesma coisa do que significaria, por exemplo, para a Fenomenologia da Religião, para quem "a experiência de Deus" e "o despertar da fé" são a mesma coisa.

9. Além disso, Harnack passa para a segunda parte da pergunta vinculando a "experiência de Deus" e/ou "o despertar da fé" à pregação do evangelho. Vejo aí um indício da plataforma sobre a qual Harnack reflete - apenas uma teologia enquanto norma, enquanto política, pode refletir sobre o vínvulo entre "pregação", "fé" e "experiência de Deus". Harnack parece ainda postular uma hipótese de que haja alguma forma de vinculação possível entre uma "pregação histórica" de Jesus, uma compreensão histórica dessa pregação e uma proclamação contemporânea "correta" (válida, pertinente). É a mesma atitude que percebo em Hans Küng, não necessariamente o de Teologia a Caminho, mas, agora, o de Por que ainda ser cristão hoje? Aliás, a tese fundamental de Hans Küng, aí, é rigorosamente a mesma que a de Adolf von Harnack em A Essência do Cristianismo - Jesus de Nazaré é essa essência, e o que ele teria pregado, a esência do evangelho.

10. Ora, sob que abordagem se pode falar assim? Não, certamente, a da ciência. A ciência jamais poderá servir de critério para uma atitude normativa em face da história, porque a ciência só há de nos fornecer informações, mas não um critério de orientação, tema da ética, que, enquanto conjunto de normas de conduta, constitui um conjunto propositivo característico da pragmática política, e que, quando abordada sob a perspectiva heurística (científicva), perde, automaticamente, a capacidade de orientação. Não há ontologia possível para a História, de modo que o método histórico-crítico poderia responder a pergunta pelo conteúdo histórico da pregação de Jesus, mas, jamais, desde aí afirmar que precisamente esse conteúdo, e não o de Paulo,´constitua, em termos ontológicos, o "Evangelho".

11. Quando Harnack (e Hans Küng) falam de teologia, ainda não estão pensando a partir da ciência, mas, a rigor, pensando a partir da teologia, ainda que, e essa talvez seja a sua maior virtude, aproximando-a até o limite da desintegração, das ciências. Todavia, há, ali, riscado no chão, um limite, um limite estético-político, que tanto Harnack quanto Küng se impõem - e, assim, a terceiros, já que tal limite chega a ser normativo suficientemente para um diálogo retórico com quem despreza esse paradigma teológico. Todavia, essa "virtude" de Harnack pode ter respondido pela vitória de Barth - irredutível e inflexivel defensor da ortodoxia eclesiástica.

12. Uma teologia científica não teria como responder à terceira pergunta de Harnack. Ela exige uma relação íntima e subjetiva por parte do teólogo, atitude suficientemente valorativa, logo estética, e normativa, logo, política, que pudesse crer na possibilidade de determinar o que daquela "pregação" original de Jesus de Nazaré, enquanto histórica, tenha pertinência ontológica. Em termos históricos, ela não é em nada diferente de qualquer um dos pronunciamentos de quaisquer dos fundadores de quaisquer religiões, e mesmo do que qualquer homem ou mulher discursasse ontem, hoje e amanhã. É - apenas - uma relação tradicional, subjetiva e valorativo-normativa quem pode pôr, frente a frente, o teólogo e esse Jesus, de um modo como frente a ninguém mais ele se colocaria.

13. Não, uma teologia científica (aplicada ao Cristianismo) é meramente descritiva. Descrever o conteúdo da pregação de Jesus, de Paulo, de Agostinho, de Lutero - é tudo quanto ela poderia - e quer - fazer. Se, como o fazem Harnack e Kans Küng, o teólogo vai determinar - e isso é normativo - que a pregação de Jesus, e não a de Paulo, e não Nicéia, e não os concílios universais da Igreja, e, ainda, essa pregação de Jesus conforme assinalada nos Evangelhos, os sinóticos, e não em João, bem, nada nessa atitude é "científico".

14. Não que Harnack, Hans Küng ou qualquer outro - eventualmente, eu - não possa tomar uma atitude assim, estétia e/ou política, em face da Tradição e da História: a religião não se resume à teologia científica. Quem não pode, sob nenhuma circunstância, agir asim - e, se agir assim, a impertinência do adjetivo revelar-se-á ostensivamente, alguma coisa entre o tragicômico e o reprovável, o impertinente - é uma teologia que se chama a si de científica. Se o for, não pode agir assim. Se agir assim, não é.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO1. Adolf VON HARNACK, Fifteen Questions to the Despisers of Scientific Theology, Christliche Welt, 11 de janeiro de 1923, em: Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 85-86.

(2009/147) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - I
(2009/149) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - II (pergunta 1, parte 1)
(2009/150) Resposta às "Quinze Perguntas" de Adolf von Harnack - III (pergunta 1, parte 2)

sábado, 29 de novembro de 2008

(2008/76) Tradição, doutrina e ideologia


1. Meu amigo Haroldo menciona a trégua... mas dá um tiro para o alto. E eu, que havia informado aos meus combatentes que tinham dois ou três dias para o descanso (não foi muito bem recebida entre eles a informação), vejo-me como que obrigado a revidar com um ou dois disparos. Haroldo, agüenta o tranco...

2. [Antes, porém, uma ressalva - nada, absolutamente nada de minhas intervenções, que se concentram no campo da epistemologia e da ética/política (a heurística não se dá no diálogo, mas na pesquisa - diálogo é política, e se faz com ética), exige de terceiros o que, eventualmente, não seria exigido de mim mesmo. Tudo em minha fala vale para terceiros - tanto quanto para mim. Minha fala, meus argumentos, minhas idéias - tudo está sujeito, igualmente, às questões de fundo que proponho. A rigor, meu interesse fundamental é: a condição de possibilidade do discurso, sua "eidética" sistuada, sua condição hermenêutica, seus critérios de "verdade"].

3. Haroldo, mais uma vez, implica - terá razão? - com a distinção teórico-metodológica "tradição" versus "Tradição". Tentarei contornar a colina, e apontar (como sugere Buber) pelo franco setentrional. Usarei um citado de Morin, Para Sair do Século XX, leitura, a meu ver, indispensável - se bem que há multidões (na teologia, então!) em plena Idade Média... Mas talvez se possa saltar direto para o século XXI, se Barth deixar...

3.1 "Eu quase poderia formular esta lei psicossocial: uma convicção bem arraigada destrói a informação que a desmente.

3.2 Seria necessário um livro inteiro para mostrar como se chega a não ver e não saber. Com efeito, o que age em nós, ao mesmo tempo obscura e extralucidamente, é a vontade de impedir que a informação atinja a ideologia. Então, ela desvia a informação, isto é, desvia-se dela. A ideologia provoca a explosão da informação ('besteira! mentira! calúnia!') para que a informação não a faça explodir.

3.3 O que é uma ideologia do ponto de vista informacional? É um sistema de idéias feito para controlar, acolher, rejeitar a informação. Se a ideologia é teoria, ela é, em princípio, aberta à informação que não é conforme a ela, que a pode questionar. Se é doutrina, ela é, em princípio, fechada a toda informação não-conforme. A ideologia política é muito mais doutrina do que teoria. Nesse ponto, chegamos ao problema capital: a relação repulsiva e potencialmente desintegradora entre informação e ideologia política. É pelo fato de que a informação é um explosivo virtual para a ideologia, que esta necessita manter uma relação opressora e repressora em relação à informação"
(p. 44-45).

4. Adiante, Morin volta à carga: "uma ideologia baseia-se numa teoria (...) Uma teoria que se fecha para o real torna-se doutrina" (p. 74). Mais: a ideologia, tornada doutrina, é "capaz de coagir o real e até de torná-lo escravo".

5. Morin avança. Serve-se das leis da termodinâmica, aplicando-as ao conceito de sistema de informação: "todo sistema, inclusive o de idéias, tende, com o tempo, a degradar-se, corromper-se, desintegrar-se. Contra essa entropia crescente, ele pode lutar pelo calor, isto é, pela atividade permanente de auto-revisão e auto-reorganização, atráves do intercâmbio com o mundo exterior (...) [Todavia] essa abertura do sistema, ao invés de mantê-lo e regenerá-lo, acelera e aumenta sua degenerescência. Há outro meio para que um sistema de idéias possa proteger-se contra a corrupção. Consiste em fechar-se e petrificar-se. Enquanto se pode chamar de teoria o sistema de idéias aberto, pode-se chamar de doutrina o sistema de idéias fechado" (p. 92).

6. Pois bem, Haroldo, penso que, aí, disponho de material suficiente para avançar meus argumentos. Disse que a diferença entre "tradição" e "Tradição" é que a primeira é medium. Ela não é nem teoria, nem doutrina - ela é um nicho ecológico, onde vivem tanto uma quanto a outra. Enquanto nicho ecológico, faz-se constituir de diversos sistemas de informação intercomunicantes, eventualmente conflituosos, mas, sobretudo, dialogais. Quando um desses sistemas de informação torna-se suficentemente megalomaníaco para cogitar do controle de todo o nicho ecológico, surge o que estou chamando de "Tradição".

7. Usemos, agora, os citados de Morin. A Tradição é uma sistema doutrinário. Ela é fechada ao real, é avessa, terrivelmente avessa a toda e qualquer informação que a contrarie. Ela é racionalizadora, porque, a partir de seu núcleo doutrinário, seleciona as informações admissíveis das inadmissíveis - o critério, você sabe, é político. A atitude geral de cada elemento do sistema (mas, que bom!, sempre se pode "despertar") pode ser tomada a partir da citação de Morin (cf. acima § 3.1 e 3.2). O sistema doutrinário fechado, a Tradição, não apenas despreza a informação - ele, desde sempre, sabe que informação é necessário manter fora de suas fronteiras (ilustrações: a orientação dA República para que os "poetas vagabundos" sejam enxotados da cidade, porque trazem informações estrangeiras; a resposta de Menocchio aos seus inquisidores, acusando-os de não quererem que ele, Menocchio, viesse a saber o que eles sabiam (cf. O Queijo e os Vermes); as três insistências de Judas, a epístola canônica, asseverando aos destinatários da carta ser seu dever lutar pela "fé" que haviam recebido definitivamente [cf. v. 3, 5 e 17 - "fé", aí, vê-se, é doutrina]; ainda, o capítulo 4 de 1 Jo, que ensina a distinguir o "espírito", isto é, a doutrina, de Deus da do anticristo).

8. Não se trata de uma desgraça da História do Cristianismo, apenas. Depois que a civilização ocidental livrou-se do controle (direto) dele, inventou sistemas tão fechados quanto aquele do qual se libertara (Morin fala longamente sobre o comunismo histórico soviético, suas frustrações como marxista, sua crítica marxista ao modelo histórico). No entanto, interessa-me diretamente a Tradição cristã, porque sou duas vezes filho dela - por ser ocidental e por ter-me convertido ao evangelho batista: é minha luta pessoal enfrentá-la - não no mundo, porque abandonei as idéias brancaleônicas, quixotescas e proféticas, mas em meu meio metro quadrado (a Peroratio vem quem quiser). No fundo, é necessário que eu me cerque de toda crítica, porque há um mar de doutrina à minha volta, o "evangelho" está se tornando moda no Brasil, ver TV vai-se tornando impossível, e a República, mais cedo ou mais tarde, sentirá a força dessa fé (a menos que o Poder faça acordos evangélicos, e os bois passem a pastar em pastos negociados... Triste briga Globo versus Record).

9. Vejo com absoluta preocupação - e um quê de sarcasmo - os movimentos de elaboração de uma "teologia de recorte metafórico". É a maneira política de manter-se tudo conforme está, de fazer-se de "bom" e poder criticar os "maus", de separar-se, conquanto se manipule as mesmas palavras, os mesmos discursos, os mesmos ritos, a mesma fé. Ora, Haroldo, essa fé rejeita toda e qualquer informação que lhe retifique: seja a fé fundamentalista, seja a evangelical (evangelicais não se consideram fundamentalistas, e ainda criticam os que, a seus olhos, são), seja evangelical-metafórico, nenhum desses sistemas deixa-se contaminar por nada que venha de fora - para que, me diga, servem, efetivamente, verdadeiramente, conseqüentemente, as Ciências Humanas nos cursos de teologia? Para dar a eles uma aparência de "moderno"? Finge-se que se aprende, finge-se que se tomam informações - mas nada, selecionam-se conteúdos, e tudo permanece exatamente onde está. Tradição! Já lhe falei que a disciplina mais libertadora de minha Gradução em Teologia foi Psicologia da Religião? Ah, sim, ali a informação atingiu-me o centro do córtex - acabou ali o feitiço... Feuerbach já encontrou a casa pronta para sua reforma. E, que maravilha, a informação me veio dentro da Tradição, que pode até querer a eterna vigília, como o quis o Estruturalismo, mas cedo ou tarde cochila.

10. Se vivêssemos, mesmo, numa tradição cristã, em lugar dessa Tradição cristã que aí está, meu amigo Haroldo, teríamos rido de Nietzsche quando ele disse tudo quanto, procedentemente disse, porque teríamos nos surpreendido de que ele estivesse dizendo o óbvio tão tarde. Perdemos o bonde com Lutero, perdemos com Barth e vamos perder de novo. Salvo se o que Morin chama de ecologia da ação fizer das suas e, conquanto todo um sistema planetário trabalhe para o fechamento, o trinco, de alguma maneira se rompa, e o leite se derrame.

11. Olha, aqui, Haroldo, esses meus pés - não vês que estão sujos, irremediavelmente sujos, do leite que derramei?

12. É muito bom dialogar com você, Haroldo. Até aqui, entre mortos e feridos, salvamos-nos os dois (Jimmy, percebes que já vou deixando você à margem?).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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