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sábado, 6 de março de 2010

(2010/180) De milagres


1. Li na Seleções, há anos. Gabinete pastoral. Pastor, que milagre! Estava na curva da montanha, a carruagem virou, despencou 300 metros, e eu caí, em segurança, na estrada, sem despencar morro abaixo. Milagre! E o pastor. Também tenho um milagre pra contar. Hoje, passei ali, e não aconteceu nada...

2. Desgosto dessa mania de o povo evangélico em tudo querer milagres. Não estou, agora, interessado nos motivos. Uma vitimização programática desse povo pode justificar essa alienação civilizatória. Desgosto, e pronto. Acho um saco a espiritualização excessiva, patológica, de tudo, de todos, uma massificação de Deus, de Jesus, do Espírito Santo - mel demais enjoa... O sagrado, para mim, é como rara sobremesa... Não é caviar, porque está ao alcance de qualquer um. Mas também não é bala juquinha...

3. O que não significa, contudo, que eu não espere por milagres - efetivos. Há momentos na vida da gente que só esperando um milagre. Mas, cá entre nós, não são todos os dias, todas as semanas, todos os meses, esses momentos. Na maioria das vezes, o milagre que devíamos esperar era nossa coragem de enfrentar a vida sem resmungos, sem reclamações e criancices espiritualóides. Ah, mas esse milagre nem Deus faz...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 23 de janeiro de 2010

(2010/069) Do conhecimento acerca do fenômeno religioso


1. Num post recente, transcrevi um texto de Noam Chomsky, no qual ele enumera dez estratégias dos meiOs de comunicação para a "manipulação" das massas. Quero transcrever a décima estratégia, e falar dela... mas aplicando-a ao meio em que laboro: a Teologia, de modo geral, e às lideranças religiosas, de modo específico, isto é, à pastoral.

2. Eis a transcrição:

10 - Conhecer melhor os indivíduos do que eles mesmos se conhecem. No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o individuo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.
3. Sei que, dizendo-o, aborreço um bocado de gente, mas direi, assim mesmo. Se eu estiver errado, mais cedo ou mais tarde, a jaca cai na minha cabeça, e pronto (se bem que nada impede que ela caia, mesmo em estando eu certo...). Vamos lá.

4. Desde há duzentos anos - transporto-nos para o começo do século XIX, então - que o conhecimento sobre o "homem", de modo geral, e sobre a "cultura", de modo mais específico, e, particularmente, sobre os fenômenos religiosos, vem crescendo vertiginosamente - e se acumulando. A cada década se sabe mais, e melhor, do que nas décadas anteriores. Ora, mesmo um sujeito não religioso, de posse das informações científicas acerca dos fenômenos religiosos "sabe" muito mais do sujeito religioso do que o próprio sujeito religioso - que eventualmente não possua tais informações.

5. Não importam os argumentos subjetivistas e intimistas: ah, só quem exprimenta, blá blá blá... Mesmo o que nós religiosos chamamos de "experiência" é objeto de estudo, e de conhecimento, quer seja da Antropologia, da Psicologia, da Sociologia, e, mais recentemente, das Ciências Cognitivas. De modo qe não vem ao caso o que o sujeito sinta ou deixe de sentir, porque até tais sensações - as tais "experiências" - podem ser facilmente produzidas, induzidas, manipuladas, fabricadas (e o são!) (e, nesse caso, o parágrafo de Chomsky aplica-se integralmente).

6. É por isso que não considero boas - para ficar num adjetivo menos pesado - as estratégias de lideranças religiosas ditas progressistas que, em lugar de levar a sério o conhecimento que temos dos fenêmenos antropológicos, psicológicos, sociológicos, científico-cognitivos, envolvidos em uma "experiência religiosa", antes, ainda fomentam interpretações mitológicas, metafóricas, absolutamente dissociadas de educação e emancipação critica, as quais resultam na manutenção de sistemas de relações injustificáveis. Não sei se o argumento de boa intenção ajuda em alguma coisa...

7. Penso, seriamente, no seguinte juízo de valor: qualquer relação com o fenômeno religioso que desconsidere as informações científicas sobre ele, que as sonegue, em nome de Jesus ou do Diabo, tanto faz, é "criminosa".

8. Temos, de um lado, uma multidão de líderes reigiosos absolutamente ignorantes - em sentido estrito -, que mantém, por negligência, incompetência ou má fé, milhões de pessoas em absoluta alienação de si mesmos enquanto sujeitos religiosos, pessoas que se lêem a partir de paradigmas medievais ou ainda mais antigos. De outro, lideranças ditas esclarecidas (?), mas cujo jogo permanece a manutenção das massas naquela mesma plataforma mitológica medieval. Onde está o "progressismo", aí - na arrogância de se consideram melhores que aqueles outros líderes, ignorantes? Mas, se fazem a mesmíssima coisa?!...

9. Temo que a prática da comunidade de líderes religiosos - maximamente os cristãos - encaixe-se perfeitamente na estratégia denunciada por Chomsky. Se meu temor tiver fundamento, miseráveis os homens e as mulheres que caírem em suas garras. Porque cuidam, todos, estarem indo para o céu...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 9 de março de 2009

(2009/071) Ainda uma reação a "Apesar"


1. Haroldo, você escreveu: "apesar da crítica necessária, da hipocrisia, da ilusão, do comércio e das trocas simbólicas, ações de amor têm seu valor em si. Apesar e em meio a tudo isso - soa piegas, eu sei -, pessoas amam(-se) de verdade" (Haroldo Reimer, (2009/067) Apesar, § 7). Destaco: "pessoas amam(-se) de verdade".

2. Você quer que essa declaração tenha valor "apesar da crítica necessária, da hipocrisia, da ilusão, do comércio". A "bola" da críica, levantara-na eu. Seu post referido é uma reação a ela, com o que você concorda - "crítica necessária" -, mas com uma ressalva: há, sim, pessoas que amam verdadeira e sinceramente, a despeito da situação.

3. Bem, Haroldo, a rigor, não discutimos sobre o amor, nem sobre pessoas que amam ou não amam. O assunto era bem outro. Falávamos sobre pessoas que se dedicam (amam, fazem caridade) ao "próximo", motivadas, a isso levadas, premidas, pela "idéia de Deus". A discussão não contrapunha pessoas que não amam, ou que amam falsamente a pessoas que amam verdadeiramente. Nossa conversa contrapunha pessoas que amam, capturadas pelo próprio objeto amado, a pessoas que "amam", coagidas a tanto por um pathos religioso - a idéia imperativa de Deus.

4. Faz diferença, não faz? Penso que sim. O amor não é uma relação unilateral, ela é uma relação "objetiva", nos termos da qual eu sou objeto para o ser que amo, e ele é meu objeto, ou seja, eu e o objeto amado nos pomos em relação direta, pulsional, passional. No caso do amor religiosamente motivado, a relação não é direta - o que A faz em relação a C, faz por causa de B. É como se eu devesse amar Bel porque Deus quer (com o corolário oculto de que, se Deus não quiser, Bel não será por mim amada).

5. Que haja pessoas que amam verdadeiramente, creio. E creio, também, que, se nos aproximarmos dessas pessoas, e analisarmos esse caso de amor, veremos que não há nenhum dispositivo exterior a ela, à relação, a eles, aos "amantes", que seja a razão e o motivo desse amor. E, se há, não é, de fato, amor.

6. Acho, Haroldo, que o "fundamento" Deus do amor foi, historicamente, superado pela legislação. A "lei" organiza as relações sociais, "estabelecendo" o básico do trato inter-pessoal. Numa sociedade moderna, é a lei quem prescreve os deveres e os direitos do cidadão, seja em face do Estado, seja em face da sociedade como um todo, seja em face dos indivíduos. Como o Estado moderno assumiu o "lugar" - bem como as prerrogativas - que a "Deus" cabiam na sociedade medieval e teológica ocidental, não é mera coincidência que a legislação tenha ocupado o lugar determinante do ordenamento social mediado.

7. Todavia, o Estado não pode prescrever atitudes no nível da relação imediata, do amor gratuito, da relação sensível e sensorial. Pode, sim, estabelecer obrigações e deveres, aos quais hão de corresponder penalidades. A teologia do amor, assinalando "Deus" como fundamento do amor, funcionava da mesma maneira.

8. Já a doação gratuita, imediata, objetiva, relacional, ela nasce sem a coação de um "dever" - ela é a materialização de um constrangimento. Não é um dever alheio, estranho, uma lei, um mandamento - é um constrangimento da face exposta do outro, cujo apelo não vem do "Outro" (se vier, não é o outro que me constrange, mas o "Outro"), nem da lei, mas da nudez ineludível do outro. Esse é um amor diferente daquele.

9. Nem seria, talvez, Haroldo, o caso de pensarmos que, para o faminto, tanto faz se ele come pão, o pão que lhe dou, porque lhe dei, tendo sido constrangido a tanto por Deus ou pela lei, ou que lhe dei por gesto gratuito ou por força da objetividade de sua face incontornável. Como não faria? No primeiro caso, não é a fome do outro, o outro em-si, que me constrange: não é ele o meu "valor", ele é tão somente um checkpoint para a "obediência". Ele não existe, então, como "pessoa", à luz desse fenômeno. No segundo caso, ao contrário, é nele que eu tropeço, porque é ele quem se põe na minha frente, ele e eu, sem Deus, sem lei, o encontro insofismável entre duas pessoas, a ontologia humana rasgada e escancarada.

10. Ah, Haroldo, se eu disser a Bel que a amo porque Deus quer, hei de ofendê-la profundamente. Ela há de considerar um favor que eu lhe faço, que Deus lhe faz. Para alguém desprovido de amor-próprio, do senso de dignidade, talvez fosse, mesmo, de um favor que ela julgasse precisar. Mas, para Bel - e quero crer, para o conjunto das pessoas que não se permitem enxergar sob a ótica da maldição e do "pecado", ah, elas mesmas, enquantgo pessoas, é que são dignas do amor e do cuidado. E não hão de negociar migalhas caídas à mesa. Não mesmo. Migalha de amor não é am or - é ofensa ontológica.

11. Com o que saltamos para a questão fundamental: a retórica de Deus como fundamento do amor esconde o fato histórico de que foi "Deus" - a rigor, a teologia na qual essa idéia jaz cativa - quem privou de amor próprio um conjunto enorme de pessoas, que, porque desprovidas de amor-próprio, de senso de dignidade, sentem-se beneficiadas para além de seu mérito e valor por qualquer migalha de amor, seja de Deus, seja da sociedade, seja do Estado, seja do concidadão. Talvez, Haroldo, a manutenção da retórica do amor - e da libertação, ouso dizer - fundamentados em Deus seja um reforço paradoxal para a teologia da "falta" humana, de sua condição "menor" em face de Deus. Um Deus que, primeiro tira, para, depois, dar. Uma teologia que primeiro pisa, para, depois, levantar. Como o Yahweh de Nm 12 - primeiro faz leprosa a moça, para, depois, deixar que ela se junte ao acampamento. Amor que traz, sob o paramento, a ameaça do desamor à espreita.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

(2008/79) Aviso aos navegantes


1. O "melhor" de De Deus que vem à Idéia é o capítulo "6 - Questões e Respostas", que transcreve uma sabatina a que Lévinas submeteu-se na Universidade de Leyden em 20 de março de 1975. Nela, professores (de diversas áreas) fazem perguntas diretas, e a mais das vezes, críticas, a Lévinas, dando a ele oportunidade de expor/explicar seu(s) posicionamentos(s). Foi muito, muito agradável ler as respostas de Lévinas, porque isso serviu-me como "critério de verificação" - eu estava lendo Lévinas, tirando minhas conclusões, e, agora, a partir das respostas do próprio Lévinas, podia certificar-me de que estava compreendendo exatamente o que Lévinas estava tentando dizer/fazer nos capítulos anteriores. É rara a oportunidade de se poder verificar o nível de compreensão a que se chega(ra) numa leitura - você sempre tem, apenas, o texto do autor na mão. Com esse capítulo a que me refiro, Lévinas, em pessoa, digamos assim, confirma minhas leituras de Lévinas em papel.

2. Por isso, deixem-me explicitar uma posição ético-político-metodológica, com o que desejo facilitar a minha compreensão por parte de meus leitores e interlocutores: não se tente ler nenhuma linha minha no sentido de interpretá-la como que a partir de uma posição do tipo "nós" contra "eles" ou do tipo "bons" contra "maus". Por exemplo, quando falo contra a Tradição (com T maiúsculo), não estou falando do que somente os "maus" (o Poder) fazem por meio da instrumentalização de "sistemas de informação fechados" (ideologia-doutrina [Morin]). Sim, é verdade que também os "maus" instrumentalizam ferramentas culturais. Mas minha crítica não vai ao "uso" da ferramenta, como que se o problema não fosse a ferramneta em si, mas, apenas, o uso "mau" que se faz dela.

3. Usando a ótica acima, que procuro desfazer, poder-se-ia postular, por exemplo, o uso de "sistemas de informação fechados" (ideologia-doutrina [Morin]) para contra-atacar os "maus". Assim, os "bons", em sua cruzada de libertação contra os "maus", estariam justificados quanto ao uso ideológico das doutrinas, porque, a rigor, não seriam as próprias doutrinas "alienantes", mas, nesse caso, apenas o mal uso que delas se faz. Para ser franco: por exemplo, utilizar-se de discursos metafísicos - cujo sujeito é Deus, ou, ainda, cujos sujeitos, "profetas", falam em nome de Deus, asseverando o "partido" de Deus (tanto de modo geral [eidética ontológica] quanto "nesse caso particular [ética teológica]) - para o enfrentamento de situações políticas concretas, fazendo à massa saber, pelo "oráculo", que "Deus está com ela". Direita e esquerda disputam o corpo morto de Deus...

4. Esta é a minha mais severa crítica à Teologia da Libertação, o que me coloca em uma posição muito ambígua, eu sei. Em termos éticos, políticos, alio-me aos valores que, no discurso, parecem nortear a TdL - liberdade, igualdade, fraternidade, justiça, o olhar de misericórdia em direção aos que sofrem, quaisquer que sejam. Mas - insisto, esta é minha idiossincrasia nesse campo - considero que a tentativa de alcançar e implantar tais valores, na terra, por meio de retóricas metafísicas, especificamente aquela em que se faz de Yahweh/Jesus/Deus/Trindade o(s) agente(s) "divino(s)" do projeto revolucionário não me parece moralmente justificado. "Ver" Deus é uma questão estética - cada qual cuide de si - fazer Deus ser visto é uma questão, no todo, política, com implicações no campo da psicologia, da antropologia, da sociologia, se esses campos significam alguma coisa.

5. Não importa se os "maus" usam "Deus", não importa se os "bons" usam Deus - a instrumentalização em si do discurso de/sobre "Deus" soa-me intoleravelmente anacrônico (mas, a rigor, ainda se caminha na Idade Média teológica e, conseqüentemente, política), perigosamente intoxicante (alienante, para recuperar a crítica, acertada, de Marx). A "decantada" ressurreição, seu reavivamento, da "religião"´no século XX, principalmente no seu final, em nenhum sentido, absolutamente nenhum, desmente, como se pretende, Marx - pelo contrário: lança ainda mais culpa sobre quem dela se utiliza para projetos cripto-políticos/pseudo-teológicos (se bem que, nesse caso, teologia é sinônimo de política). Uma religião, hoje, viva, mas ignorante de si como mito, continua a ser a mesma coisa que se disse, acertadamente, dela, no século XIX e início do XX (Feuerbach, Marx, Freud). A função estética da religião não jsutifica seu uso político programático. Uma "teologia" que se sirva, politicamente, do mito, nada mais é que política - voltamos à Bela Cidade.

6. Resumindo, minha crítica à Tradição não é a Roma ou Wittenberg como atualizações concretas e histórico-políticas do Poder - mas a toda e a qualquer instância que, a favor ou contra Roma/Wittenberg, cuide instrumentalizar o discurso de/sobre Deus para a cooptação das consciências. E insisto: mesmo que se o faça, pretensamente, para o bem, aí, como o disse muito bem Aldous Huxley a respeito da "manipulação das massas", não se faz o bem: "produzir deliberadamente a intoxicação das massas - mesmo que em nome da religião e supostamente 'para o bem' do intoxicado - não se justifica moralmente" (Aldous Huxley, "Apêndice", em Os Demônios de Loudun, p. 327-328). Lexotan e Prozac agem em direções opostas - mas ambos são fármacos.

7. Aos críticos de minha posição, facilitaria o trabalho: basta demonstrar - mas honestamente! - que, em termos científico-humanistas (a auto-defesa constituída internamente à própria teoria "metafísica" já iniciaria a rotina de suas engrenagens comprometida com sua própria máxima de partida), a "metafísica" e a "teologia", mesmo sob recorte político, não constituiriam, não, "manipulação de consciências" da parte de "profetas" e "sacerdotes". Mas cuidado: se tentar a demonstração, convém estar de alma preparada para a descoberta do contrário! O resultado é avassalador...

8. Está na hora de pensarmos a religião e a teologia fora da plataforma metafísica - e, advirto, sem os compromissos políticos perceptíveis na saída por meio da "metáfora". Nesses termos, estou aberto à contra-crítica. A , contudo, cada qual guarde pra si...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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