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sábado, 20 de fevereiro de 2010

(2010/146) Do "Jesus gay" de Elton John


1. Passei minha infância ao som de Elton John. Naquela época, décadas de 70 e começos de 80, Elton John era freqüentador assíduo de rádios, programas de TV e revistas de letras de músicas, que a garotada lia à beça. "Adoro" Elton John. Dos representantes do rock pop internacional, é dos meus preferidos. De modo que sua afirmação não me "aborrece", conquanto eu não concorde com ela.

2. Segundo a BBC e um sem fim de repercutidores midiáticos, todos disponíveis no Google, Elton John teria declarado à revista Parade, que Jesus fora um "gay inteligentíssimo". Não é por conta do "inteligentíssimo" que a declaração tornou-se um fenômeno de mídia. O problema, aí, é o "gay".

3. Vamos devagar. Elton John é gay assumido. Então, deixe-me reduzir a questão à seguinte: quem não projeta em Jesus seu próprio grupo? Cristãos têm em Jesus um cristão - e, a rigor, Jesus nunca foi cristão. Católicos têm em Jesus um católico - e Jesus, se não foi cristão, quanto menos o foi católico. Batistas imaginam-se como quase descendentes de Jesus. Adventistas sabem que Jesus era de sua Igreja desde o ventre... Para um fundamentalista, Jesus era fundamentalista... Elton John tem uma longa tradição a seguir...

4. Eu não vejo nenhuma razão para acreditar - nem mesmo por hipótese - que Jesus fosse gay. Com isso não quero interditar a homossexualidade. Simplesmente não vejo nenhuma razão para que se imagine uma opção sexual alternativa para Jesus. Mais inverossível do que essa hipótese, a meu ver, só a de que Jesus não teria exitido... É mais provável que Jesus fosse casado do que gay. E, no entanto, não estou dizendo que o fosse. É mais provável que Jesus fosse rabino do que gay. Mas não estou dizendo que o fosse.

5. Jesus é "legal". Daí que imaginá-lo à nossa medida torna-nos contaminados com essa condição legal. Em Tiradentes, Minas, na Igreja de São Sebastião, no confessionário, há um quadro de Jesus negro, crucificado, com anjos negrinhos voejando sobre sua cabeça. Não - nenhuma possibilidade de Jesus ter sido negro... Nem gay. Mas o fenômeno é o mesmo: apropriação da imagem, transferência de carisma. Sir Elton John identifica-se com Jesus, fazendo dele alguém como si mesmo...

6. Não "sei" quem Jesus foi. As diversas denominações cristãs oferecem credos à fé dos fiéis. Não funciona exatamente comigo - mais... Para muita gente, ainda funciona, porque ainda é muito necessário. Todavia, acho que, como "estudioso" do Novo Testamento, teria mais condições de "acertar" a identidade histórica de Jesus do que meu "adorado" Elton John. Se nem teólogos de ponta, que compõem volumes e volumes de Teologia Sistemática, com volumes especiais de Cristologia, me encantam, quanto mais uma declaração desse tipo.

7. Que, contudo, não é causa para perseguições ou fogueiras. Chego a imaginar que, se Jesus ouvisse Elton John dizendo isso, sentaria ao lado dele para saber por que cargas d'água Elton John pensa assim, despedindo-o, depois, com toda liberdade e amor. Para mim, é o que basta...

8. Ah, mas que vai ter um monte de pastor com assunto para sermões coléricos, ah, isso vai... Uma última heresia? Penso que Jesus se ofenderia menos em ser considerado um homossexual, do que ser comparado a algumas espécies de líderes religiosos contemporâneos...

9. Com vocês, momentos especiais de meu "adorado" Elton John...








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 12 de dezembro de 2009

(2009/635) Canto das Três Raças


1. Quando, no futuro, seja lá qual ele for - e seja lá quem lá estiver -, olhar-se para o passado, para os séculos, os cristianíssimos séculos ocidentais, e testemunhar-se uma África vermelha do sangue de escravos, uma América do Sul vermelha - do sangue dos ameríndios, lá, então, hão de perguntar onde estava, afinal, Jesus. E alguém, desses de dizer coisas impróprias em horas impróprias, dirá: no chicote, no tronco, no sal...

2. Não, Jesus não adiantou nada, absolutamente nada, porque até Jesus precisa de muita civilidade, e um Jesus, qualquer que seja ele, na mão de uma cristandade sanguinária, por sua vez na mão de pastores de sangue, é tão sanguináro quanto ela.

3. No fundo, é preciso, primeiro, uma conversão à fraqueza, à humildade, aos valores, vai ver, até "jesuânicos" (certamente não "cristológicos"), vai-se saber, para que Jesus seja, afinal, útil para uma civilização. Na mão de fanáticos, na mão de déspotas do bem, na mão de evangelizadores, Jesus chega a ser uma desgraça.










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

(2009/630) Se é mãe de deus, é deusa


1. Seja Ísis, de Hórus...




2.Seja Maria, de Jesus...

3. Bem, ao menos na lógica interna das teologias. No mais, sabemos bem do que se trata. Não é à toa que o planeta é redondo - para aonde você vai, chega sempre ao mesmo lugar; por mais que ande pra frente, está-se dirigindo para exatamente onde se estava... Bem, ao menos enquanto "arte", Pieta é a cara da Renascença: o que é tanto um contrasenso quanto uma evidência - se estávamos mortos, voltamos para aonde? Quiçá, Fulcanelli possa dar sugestões...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 15 de novembro de 2009

(2009/604) Das coisas de viver


1. Se concluirmos pela condição original biológica humana - isto é, se, no frigir dos ovos, ascendemos desde a vida primitiva, Acaso ou Dádiva sobre o solo planetário desse canto perdido do Mundo -, então faz todo sentido que sejamos telúricos...

2. As coisas realmente próprias serão aquelas propriamente telúricas: viver, com o que quero dizer manter-se vivo, isto é, comer, beber, amar... Por isso gosto de Eclesiastes. Come teu pão, bebe teu vinho, goza a vida com a mulher da tua juventude... O equivalente, naturalmente, valeria para a mulher...

3. O quê? Não posso inventar para mim coisas para além da Terra, para além das coisas ctônicas, para além do carbono? Pode, claro! O que não devias fazer, o que não devias ter feito,é , contudo, virar de cabeça para baixo isso, que o que é real é a Terra, e não o contrário... Ao menos, é o que está à mão...

4. O mal da religião não é quando ela cuida das coisas da Terra, mas é quando ela cuida cuidar de coisas que são de outro mundo, e, então, o outro mundo engole a vida, que se torna inútil e enfadonha... Chega-se a pensar num céu - cópia desse enfado...

5. Uma religião de pão e de vinho seria, então, o Cristianismo, mas, ai, aí inventaram um ser celeste... Que tipo de religião teria pensado Jesus, antes de criar-se-lhe asas?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

(2009/436) De pessoas mortas


1. Há uma vantagem do cristão em relação a Jesus. Ele está morto. Isso quer dizer que, morto, Jesus não pode reagir. Devo explicar isso, mas, antes, um esclarecimento.

2. Primeiro, o Cristo da Fé não conta, nesse caso. Jesus, o homem, nascido de mulher, esse, está morto. Esse, sim, falou por si, fez resistência - a voz humana nos interpõe resistência. Já o Cristo da Fé, esse é massa de modelar nas mãos de cada fé. Logo, apenas confirma o que estou a dizer.

3. Agora, posso seguir: Jesus não pode reagir. É como qualquer outro morto, tornado "memória" - palavra em moda... Memória, quantas vezes, não vai além de engenho humano? À medida que o tempo vai se afastando da cova, em torno da qual celebramos a passagem do morto, da morta, sua imagem vai-se transformando, sem que haja uma direção precisa, de modo que o caminho que essa imagem vai trilhando dependerá de nós, de nós como vamos nos tornando, vai depender de como nos relacionávamos com o morto, vai depender de tanta coisa.

4. Mas uma coisa é certa: a memória vai-se tornando origami em nossas mãos. Também Jesus.

5. Cada vez mais vejo menos "Jesus" na fala daqueles que apelam para Jesus. Cada vez mais vou-me dando conta de que "Jesus", na boca e na pena, transformou-se em catalisador ideológico - para o amor, por exemplo, para missões, para a fé, para a ética, para a política, para a justiça, para a religião, para qualquer coisa. Jesus vende - até idéias cristãs... O sujeito tem lá sua idéia sobre essa coisa, e lá vai ele projetar isso sobre a memória de"Jesus".

6. E, no entanto, de quem realmente estamos falando? De que Jesus se trata? Quem é esse Jesus? Ora, se eu consigo elaborar uma abstração de Jesus, convertê-lo em memória imaginativa, em recurso ideológico, ele, de quem se diz ser o Cristo, a que nível de abstração não promovo o próximo?

7. As pessoas reais não se enquadram em nossas ideologias - daí a necessidade de técnicas de manipulação (que se utilizam até de Jesus...) para fazer com que elas pensem, digam e façam exatamente o que queremos. Quando livres, contudo, as pessoas são como rochas, contra as quais nos debatemos, quero dizer, são concretudes, alteridades, não-sujeitas à minha determinação.

8. A política sempre está diante de duas estradas - pelo menos. Por essa, segue aquela prática política de reduzir as pessoas a meu projeto, à minha ideologia: mesmo a do "amor" e a de "Jesus". Por aí, vão pessoas... mesmo? Por aquela, vão pessoas negociando seus próprios projetos, discutindo o resultado dessa conta difícil de se fazer - a do embate de vontades e consciências livres, que se auto-determinam, mas no limite da auto-determinação do outro.

9. Na Igreja, ainda não se pavimentou a segunda via. Seja por meio do recurso ao discurso da "soberania" divina, seja por meio do recurso ao "amor", findamos nos comportando como gestores das consciências, submetendo o conjunto dos corpos à nossa ideologia.

10. Para encerrar - cada vez que ouço/leio sobre o amor, em contexto cristão, pergunto-me de que novidade se trata agora... É como se a Igreja nunca tivesse "amado", como se finalmente, "alguém" nasceu capaz de ensinar a Igreja, essa, de agora, a amar, porque a outra, a de ontem, nunca amou, nem sabia que era isso, como se, até hoje, a Igreja apenas tivesse odiado. Não, não, não. A Igreja amou. Fez o que fez, e quanta desgraça fez, amando... Aquela desgraça era, para ela, amor. O probelma, é que amou, como sempre se acaba por fazer dizer, em nome de Deus... Aí, basta que Deus mande socar a cara de alguém que, devotíssios, obedecemos... Deus é um grande empecilho para o amor. Isso não ouço ser dito. Escolhei: ou Deus, ou o amor...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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