domingo, 31 de janeiro de 2010

(2010/122) De pais e mães e filhos e os tempos modernos


1. Confesso - sou careta. Muito, muito careta. Quem lê meus textos de crítica mordaz à Teologia "de cabresto", às pseudo-exegeses confessionais - faz-me rir! -, bem como às mais novas abordagens metafóricas da velha fé doutrinária deve imaginar-me um cara "moderno" - geralmente se conclui, erradamente, que a "crítica" é irmã da contravensão. Eis que o sou, em termos de ciência, de Teologia, de relações sociais, mas, não, em termos de cultura, de família, de costumes, das relações humanas. Não, não devo isso à Igreja - aliás, penso que as única coisas que realmente devo à Igreja são Bel, que lá conheci, as Escrituras, que desde que me tornei batista, devoro e desconstruo com sofreguidão, e minha "carreira", toda ela, teólogica. A fé?, não. A educação?, não. A moral?, não. Tudo isso, recebi de berço. Era assim, naquela época.

2. O mundo atual me atordoa. A moralidade difusa, a sexualidade aberrante, as libertinagens inconseqüentes, as bebidas alucinadas e as substâncias alucinógenas, o fumo, o desrespeito generalisado... tudo isso me desalenta. Ah, sim, vocês me veriam defendendo o direito de os cidadãos optarem por essa via: mas o faria por questões de caráter político-filosófico, conquanto não consiga imaginar um filho meu adotando essas novidades modernas. Sim, sou quadrado.

3. Ter sido quadrado, desde a infância, por força de educação, fez-me ter um contato curioso com Mama Maria, do Grafite, porque a letra se punha nos limites da transgressão. Era 1982, eu acabaria aí meu segundo grau, e, em dezembro, tomaria meu único porre na vida, um copo de Fanta com Vodka. Eu tinha o quê? Dezesseis anos. Faria 17 dias depois do porre... Exército no ano seguinte e, em agosto, a fé batista...

4. A letra fala(va) de u'a mãe que ficava na cola da flha, de olho nos marmanjos que a godevaram, ela, a presa, eles, os caçadores, a mãe, a leoa indomável... Meu instinto adolescente adorava a música, o som, a letra, mas, ao mesmo tempo, meu espírito "centrado" conseguia olhar mais para a mãe do que para o tubarão à caça da sardinha... Minha torcida era quadrada, digamos assim. Esse ano, um aluno me contou que teve problemas semelhantes com a filha, treze anos, abordada por um marmanjo na escola. Um boa conversa entre eles, se me entendem (o pai e o marmanjo) resolveu a "parada"...

5. Se nunca desobedeci minha mãe? Sim, claro. As aulas da tarde terminavam mais cedo, eventualmente, e, em lugar de eu ir direto pra casa - ordens! -, ficava jogando queimada na porta da escola: foi o máximo que me aproximei de meninas, então... se bem que teve aquela vez da "pera, uva, maçã"... Dava o horário da última aula, ia eu embora... Um dia, fui jogar queimada em outra rua, mais longe. Para voltar para casa, tinha que ir pelo lado contrário da escola. Ao me aproximar de casa, vi a fera no portão... Como explicar por que eu vinha por essa direção? Dei a volta correndo pela rua de cima, para poder chegar "pelo lado certo". Santo? Não, absolutamente - Deus o sabe! Mas afrontar mãe? Jamais!

6. Por isso, mais tarde, aí já era até crente, já, apaixonei-me pela letra de Namorinho de Portão, cantada pelo Penélope e que, agora, descubro ser do Tom Zé. Falava daqueles anos de inocência, dos quais tenho saudade. Não, não gosto da selvageria carnal que se vende na TV, que se vê na juventude. Odeio filmes de traição conjugal - mas fui condescendente com As Pontes de Madison... Isso nunca leva a bom lugar. É preciso que os instintos sejam tratados de forma absolutamente positiva, mas é ainda mais preciso que o respeito, o bom senso, a responsabilidade esteja à mão. E ainda acho que essa é, acima de tudo, uma coisa de pai e mãe, uma responsabilidade de adultos. Não garante, absolutamente, nada, mas a educação de pai e mãe é de suma importância.


7. Sinto que os dias não são bons. Sinto que algo de melhor foi deixado para trás. Acho que a perda da qualidade da vida da juventude coincida com a saída das mães de casa, para trabalhar. Sem pai nem mãe em casa, a situação saiu do controle. Acho isso triste. Tomara tenhamos já chegado ao fundo do poço, e que a juventude perceba que a lascívia, a imoralidade, as bebedeiras, as drogas, não são coisas boas, não. Não se trata de um discurso evangélico, nem moralista - sou, por exemplo, a favor da eutanásia, do aborto e do "casamento" civil para homossexuais, sou contra o uso de símbolos cristãos - porque, religiosos mesmo, não os há, só cristãos - em órgãos públicos: sou republicano! Se trata do discurso de um pai, que não agüentaria ver seus filhos destruídos pela diversão moderna, mas que vê a juventude ir ralo abaixo. Disse diversão? Perversão...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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