quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

(2010/639) "O Filho do Homem" e a Bíblia do Peregrino, de Alonso-Schökel


1. Tradução de Bíblia é um problema sério. Até hoje, encontrei apenas uma única Bíblia na qual, tendo procurado pelos erros comuns daquelas passagens clássicas mais críticas, nde se concentram os erros de tradução, lá não estivessem em (quase) nenhuma delas: uma Bíblia de tradução estadunidense-canadense, levada a termo por quatro ou cinco, não me recordo bem, exegetas daqueles países, capitaneados por Theophilus Meek, canadense, disponível na biblioteca do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. E, ainda assim, não era perfeita, porque as traduções de um dos exegetas não eram do mesmo nível da dos outros três ou quatro. No mais, todas as Bíblias que tenho em casa - católicas, evangélicas e judaicas - têm erros de tradução, o que me leva a recomendar a meus alunos que nunca se tornem leitores de uma Bíblia só, mas que tenham, sempre, à mão, pelo menos três: a Bíblia Vozes, uma das melhores em português, a Almeida - Melhores Textos, da IBB, e uma outra qualquer, a Bíblia do Peregrino, por exemplo, ou a TEB, da Loyola.

2. A Bíblia do Peregrino era uma opção, porque traduzida por um dos maiores, se não o maior, exegeta espanhol do século XX, Luis Alonso-Schökel, com notas muito boas, exegéticas e atualizadas. Ainda é uma opção, eu diria. Todavia, acabo de reduzir seu nível de recomendação. E explico.

3. A expressão "filho do homem", no Novo Testamento, aplicada a Jesus, tem uma história de absoluta dificuldade de interpretação. Não há consenso algum sob seu real significado - e, se você acha que sabe o que ela significa é porque, como é comum no sitema catequético eclesiástico, ensinaram alguma coisa a você como absoluta e divinamente certa, escondendo que se trata apenas de uma das hipóteses disponíveis, tendo havido um "esquecimento" de lhe informar as demais. Não, não há certeza alguma sobre o que significa nem de onde teria vindo a expressão "filho do homem". Eu acho que se deve ao título real do Antigo Testamento - segundo estou inclinado a afirmar, o "rei" era chamado de "filho de Adão", assim como todo o aparelho real era conhecido como "filhos de Adão", e para mim, foi daí que a tradição veio. Mas é opinião minha, pode estar errada, e há muitas utras disponíveis.

4. Há, por exemplo, uma teoria de Geza Vermès, historiador udeu, de que "filho do homem" seja uma circunlocução cloquial, originalmente aramaica, para "este homem", podendo significar apenas "eu" ou "tu". Asim, quando Jesus diz "o filho do homem virá", na verdade ele está dizendo "eu virei". Para Vermès, "filho do homem" não é um título. Pois bem, a Bíblia do Peregrino acatou essa tese. No texto do Novo Testamento, as ocorrêcias de "filho do homem" foram traduzidas por "este Homem". Um leitor desavisado não se dará conta de que, no texto grego, não está "escrito" "este homem", mas "filho do homem". E estará induzido a passar por cima - pelo menos - do idiomatismo textual.

5. Acho que um tradutor não deve fazer isso - interpretar a fórmula. Deve traduzi-la o mais literalmente possível. Se oleitor quer que mastiguem para ele, o leitor compra a Linguagem de Hoje, e está tudo bem. Acho que a Bíblia do Peregrino deveria manter a literalidade da tradução e, se fosse o caso, informar em nota o sentido que considera adequado. Não tem o direito de dar uma tradução tão dinâmica assim, pelo fato de ser uma Bíblia técnica. Quem a compra não está interessada em sermão alegórico - está interessado em aprofundar a leitura. E, coitado dele, surrupiam-lhe um capítulo relevante do Novo Testamento - a expressão "filho do homem" aplicada a Jesus, que muita dor de cabeça tem dado aos leitores, e deve continuar a dar, até que se resolva definitivamente a questão, se for o caso.

6. Na apresentação que lhe fez em seu site, nosso colega Airton José da Silva assim se expressou a respeito da tradução da Bíblia do Peregrino: "Duas são as características mais importantes da Bíblia do Peregrino: a tradução idiomática e a abundância de notas. A tradução idiomática sai do clima das traduções literais, que, ao reproduzirem as línguas bíblicas - grego, hebraico e aramaico - com a maior fidelidade possível, ficam prisioneiras de uma linguagem arcaica e anacrônica, enfraquecendo a mensagem pela clausura das expressões antigas. Por outro lado, a tradução idiomática não se guia por equivalências literais diretas, mas por equivalências dinâmicas proporcionais, buscando reproduzir o gênio das línguas antigas nas línguas modernas". Pois e, e esse é o problema - a Bíblia do Peregrino cuidou fazer boa tradução idiomática, quando, a rigor, pode é ter posto a perder um pilar significativo da tradição jesuânica, se, ao fim e ao cabo, a tese de Geza Vermès se mostrar, como considero, equivocada. E, de resto, se, ainda assim, ela revelar-se adequada, isso é questão de futuro - a Peregrino não devia correr o risco, nem a ele expor os leitores desinformados.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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