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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

(2010/600) Da Vida e da Natureza - e da Ética e da Moral


1. O objetivo dessa postagem é pensar a implicação da Ética e da Moral num contexto de base natural, considerada aí uma evolução não-intencional do Universo e da Vida. O pressuposto básico é o seguinte: se a base da emergência humana é a Natureza, e se a Natureza é, como de fato é, amoral, segue-se que não há fundamento para a Ética e a Moral humanas. Quero (tentar) desmontar esse argumento. Jimmy eventualmente haverá de ler-me atenciosamente, porque há de começar duvidando da possibilidade. E talvez seja, de fato, impossível a empreitada. Todavia, o que já está feito não me interessa fazer de novo - salvo se o que está feito estiver, a meu juízo, errado, como nossa compreensão bíblica da serpente de bronze e da "criação" - aí, dedico-me a refazer, porque é como se fizesse do zero. Mas há coisas que estão prontas, e não vale a pena dedicar-se a elas. Já o enfrentamento do que parece ser "a" questão do fundamento de Ética e da Moral - o vínculo inexorável do Homem com a Natureza amoral, esse é um problema crucial - que me interessa justamente enquanto homem que sou.

2. Começo assentando o fato de que a evolução não parece ser teleológica. Deixemos o problema da "teleologia da criação" - nos termos da Teologia clássica, naturalmente - para os teólogos clássicos. Se há uma "teleologia da criação" girando a roda por trás da evolução, isso é coisa que não se pode "saber", e, nesse caso, das duas uma - ou se toma o caminho da ciência e seu muitíssimo apropriado "princípio de exclusão do transcendente", com todos os seus problemas, ou se escolhe uma ou quantas se queira dentre as cem mil doutrinas das cem mil religiões, e se as toma como revelação. Não o faremos aqui. Pensemos, pois, o Universo, como fenômeno ecológico, desenvolvimento aberto, desdobramento relacionado à sua própria história, desde o momento zero até hoje. Parte da Teologia já cedeu à evidência muito antes do século XX, cunhando o "deísmo", nada mais nada menos do que uma tentativa de harmonizar o que se cria, pela fé, com o que se começava a saber, pela ciência.

3. A Natureza, pois, não constitui, para os fins aqui propostos, uma "inteligência" intencional, decidindo, segundo a segundo, cada fato do Universo. Valho-me de Prigogine: as próprias "leis" desse Universo criam-se historicamente, à medida que as características intrínsecas dos elementos que se chocam mutuamente impõem a exigência de relações organizacionais estabilizadas. Para Prigogine, as "leis" do Universo são criadas pela propria história do Universo, probabilidades remotíssimas, antes de se atualizarem, e emergências estáveis, uma vez estabelecidas. Assim, dever-se-ia pensar a história do Universo - e da Natureza, para o que aqui me interessa - como a história de um processo aberto, ecossistêmico, e que fenômenos, disparados por eventos históricos, por sua vez disparam gatilhos organizacionais potenciais e probabilísticos, gerando clareiras de estabilidade num mar de aleatoriedade e caos.

4. A Vida deve ser pensada, então, nesses termos - ao menos sob o sol... Se admitida essa hipótese, a Natureza deve ser encarada não como uma "mãe": não se pode pensá-la como "inteligente". Não se pode pensá-la nem como um cego a tatear no escuro - isto é, uma sutileza antropológica - a manutenção de uma metáfora antropológica para a Natureza, disfarçando-a de cega. Não, nada há de "humano", de "teleológico", de "intencional", na Natureza. Ela se resume à estabilização aleatória e probabilística de organizações históricas facultadas pela dinâmica do movimento igualmente histórico da matéria. Destruição, caos, organização, estabilização, entropia...

5. Eis o sol. O sol o que é? Uma fornalha dos infernos! O sol é um diabo - ou um deus - a "queimar-se" dia e noite. O sol queima hidrogênio por meio de operações termonucleares. O hidrogênio é destruído - ou melhor, transformado em outra coisa, em hélio. O Universo é uma inimaginavelmente gigantesca máquina de consumir-se a si mesma, transformando pedaços de si em outras coisas: grande parte da Tabela Periódica nasce nas estrelas, produtos de destruição e criação em massa, resultado do peso das estrelas sobre si mesmas e das forças de repulsão que a pressão interna desse peso gera: o Universo se esmaga a si mesmo, com a mão de um ogro de fogo, dentro dos sóis, e, destruindo o que é, agora, renasce no que se torna, nesse instante.

6. Se descemos, agora, até a Terra, e pensamos o planeta e a vida, o processo é o mesmo. Seja o mundo bruto e inanimado, seja o mundo bruto e animado, a Natureza "funciona" por força da destruição - a destruição é a véspera da criação, e a criação destina-se, inexoravelmente, à destruição. As bactérias originais, surgidas há alguns bilhões de anos, consumiam a própria Tabela Periódica - como nós, humanos, conquanto a sirvamos no formato de cerejas em calda ou filé com fritas... Assim como o Universo mantém-se, sem que disso tenha consciência, consumindo-se a si mesmo, a Vida emerge como uma rotina ininterrupta de gula: enquanto sistema adaptativo aberto, a Vida depende de alimentar-se do que está fora de si, mesmo as plantas que, a despeito de produzirem seu alimento, dependem, para isso, da luz solar...

7. A Vida come a Vida. Ela não "sabe" disso. Lá, na dimensão da Vida, não há "a Vida", há apenas aquele sujeito vivo, ele, como centro do mundo - e mais nada (a "Vida", enquanto conceito, é uma abstração humana). Motivado por forças para ele desconhecidas, esse sujeito vivo dará toda liberdade à sua gula, e, movido pelos impulsos de sobrevivência, encenará o roteiro para ele desenhado pela história do Universo e da Vida. Ele não sabe, não há expectadores, ninguém sabe. Só é. Só acontece. Só come. Ou é comido...

8. Assim, a história da Vida, longa, muito longa, vai desenvolvendo-se da mesma forma que a do Universo - é a história dos encontros, dos enfrentamentos das forças, o escultor da diversidade da vida. Sempre no sentido de probabilidades muito remotas que, quando acontecem, estabilizam-se pelas forças da organização. À medida que a história avança, a Vida torna-se cada vez mais diversificada, lutando tanto contra as forças inanimadas do planeta, quanto contra si mesma, uma vez que a Vida logo aprenderá a nutrir-se de si mesma - não se comerá a Tabela Periódica in bruto, mas, doravante, na forma da própria Vida, bicho contra bicho, ave contra ave, peixe contra peixe, todos contra todos.

9. Explode a era das estratégias, das simbioses, das relações de cooperação e de estratégia. A vida começa a adquirir capacidades de cálculo! Uma estrela não pode decidir desviar a órbita para capturar um cometa, e, assim, aumentar seu estoque de comida... Um leão pode. Aliás, mais do que isso, ele pode, inclusive, escolher o gnu mais velho, ou o mais fraco, a cria, recém-nascida, como a água, que percorrerá, sempre, o menor caminho entre o lugar em que está e o próximo minuto - também a vida, quanto mais complexa, mais administrará a matança, sempre segundo a lei do mais forte e do menor esforço.

10. Não há moral aí. Não há certo e errado. Não há bom e mau. Se um vulcão dizima uma floresta inteira, e um relicário da criação desaparece na lava, quem prestará conta disso? Ninguém. É assim - e pronto. Não há alguém a quem culpar. Burgess Shale não é a cena de um crime, não é um caso de pecado - é um momento histórico do Universo, do Planeta, da Vida - e só. Não há crime, nem pecado, nem imoralidade na Natureza. Só a interminável sucessão dos minutos, a ininterrupta série de destruição e criação, de morte e de vida, de violência e serenidade - sem expectadores, sem expectativas, sem roteiro.

11. Mas - e Ruanda? E Treblinka? E Sarajevo? E Halabja? Bem - podemos "ler" os genocídios da história recente humana como uma linha amoral na longa série de destruições e criações do Universo e da Vida. Os chamados "imoralistas" do XIX o fizeram. Todavia, há uma substancial diferença entre o Universo e a Vida, de um lado, e o Homem, de outro - conquanto não se pode perder de vista, nem por um momento, que esse mesmo homem, conquanto distinto do Universo e da Vida é, ele mesmo, parte desse Universo e dessa Vida. Mas a distinção está no fato de que ao homem sobreveio um fenômeno fundamentalmente humano: a consciência.

12. Não é possível pensar a consciência senão como um acidente histórico, um fenômeno como outro qualquer dentre os incontáveis fenômenos, sejam de massa, sejam singulares, ocorridos nos bilhões de anos da história do Universo. A consciência é mais um. Talvez tenha ocorrido apenas aqui, na Terra - talvez, não. Seja como for, a consciência é um fenômeno de feedback muito específico. A Vida consiste em feedback: a ameba precisa saber se precisa comer, de modo que a "fome" é o resultado de uma rotina de feedback interno. E a ameba come o que está lá fora, de modo que ela precisa saber não apenas identificar o que pode comer, mas encontrá-lo, distingui-lo das coisas inúteis e perigosas, para o que serve o sistema de feedback externo. A ambos os sistemas, Edgar Morin chama de computação viva.

13. A consciência, ainda segundo Edgar Morin, constituiria a fabulosa capacidade do cérebro humano de computar não apenas o meio interno e o meio externo, mas computar a própria computação - isto é: de mapear, de receber feedback não apenas dos processos orgânicos do corpo ou dos acontecimentos externos ao corpo, mas mapear e receber feedback do próprio processo de mapeamento. Se os centros cerebrais vivos, antes, estendiam-se para dentro do corpo e para fora do corpo, monitorando o interno e o externo, agora, com a consciência - e isso é a consciência - os centros cerebrais retornam sobre si mesmos, computando-se-a si mesmos enquanto centros computantes. Em linguagem psicológica e filosófica - a consciência é a descoberta do si pelo próprio si enquanto si.

14. É no encontro dessa consciência com o outro, com a resistência do outro, com a força, a fraqueza e a linguagem do outro, o grito do outro, o pé do outro, que, durante milênios da história humana, a estratégia de sobrevivênvia promoveu a elaboração dos "quanta" de Moral e de Ética. Não vieram de fora, dos deuses, mas de dentro, das relações interpessoais, da história. Se foram legitimadas nos deuses, isso se explicará, certamnte, pelo fato de que a Moral e a Ética, posto que não "naturais", não "evidentes", constituindo, como constituem, uma supressão de poder, não encontram adesão harmônica e homogênea, e demandam, por isso, também como estratégia, discursos de persuasão e isso também depois da consciêcia histórica de que a espada, por si só, não produz efeito duradouro.

15. A Moral e a Ética são construções históricas da consciência histórica, sem fundamento outro que não o jogo das relações humanas, a "ciência" que tem o poder de seu poder, a "ciência" que tem a fraqueza de sua fraqueza, e os enfrentamentos retóricos, políticos, bélicos, inclusive, para a estabilização das construções frágeis que elas permitem. Não se pode esquecer que o mais recente fenômeno histórico civilizatório de Ética foi elaborado pela força da arma e da violência - a Revolução Francesa. Nesse momento, o Complexo do Alemão, na cidade do Rio de Janeiro, está tomado pelas tropas militares do Estado - e com o mesmo fim. Não, definitivamente não é natural a Ética. Natural é a violência, pulsional, pré-histórica, límbica... É necessário fazer muita força para manter-se... calmo. Os livros - os cursos - de Ética, ou serão livros - cursos - de História - ou não terão substância e fundamento...

16. Logo, só se pode pensar a Ética como desdobramento da conciência - e nada mais. Não há outro fundamento. E mais - não se pode retroagir a relação humana à Natureza, segundo o modelo dos imoralistas, pelo fato de que a Natureza joga o jogo humano, sem que tenha disso consciência. O que aconteceria com a Vida se, de repente, ganhasse consciência? Restar-lhe-ia o coração do Deus calvinista - certamente...

17. É preciso que a Ética e a Moral sejam pensadas e discutidas como emergências antropológicas, históricas, civilizatórias. Não-naturais, sob certo aspecto, são, todavia, naturais, no sentido de que correspondem a desdobramentos orgânicos - a supercapacidade cerebral humana de computar a própria computação viva, a sua própria computação, e adquirir "ciência" cognitiva do processo que é viver. A consciência é uma clareira de cognição em meio às trevas da não-cognição - o que poderia ser plenamente ilustrado pela declaração de Pascal: o homem é um caniço que pensa, e o esmaga o peso do Universo - mas ele sabe. Uma vez consciente, ao homem só é possível manter-se sob as "leis" amorais na Natureza se ele recalcar a sua própria consciência, se ele a negar, se ele fechar os olhos ao fato de que o grito, em sua própria linguagem - e isso é significativo - do outro apela ao direito do outro de viver, e viver bem, porque a vida que pulsa no forte, pulsa no fraco, e força e fraqueza são, a rigor, caracterizações amorais. A consciência, diante do outro, estende a mão, não a espada.

18. Não se pode, pois, contaminar a reflexão sobre a Ética, fazendo-a instalar-se diretamente na Natureza - assim como não se pode reduzir a psiquê ao cérebro - e isso, ainda que a Ética tenha surgido na Natureza, e a psiquê, no cérebro. É preciso desenhar o cenário completo - sim, a Ética, como tudo, como os deuses, como as fadas, como o triângulo, como o cinema, como a psiquê, são criações do Universo, da Natureza - nada, absolutamente nada que há, é não-natural. Todavia, a consciência emerge dessa Natureza como uma "novidade" - o retorno da vida sobre si mesma, como se seus olhos, pela primeira vez, se voltassem para si mesma, enquanto sujeito. E, em nós, a Vida sabe quem é e o que faz para ser quem é. Todavia, a Vida não se pensa, ela continua inexoravelmente seu balé de morte e de vida, de sexo e de carnificina - e apenas uma muito ínfima e insignificante parte dela, nós, assiste, perplexa, a essa inanimada orgia. Vivos, mas saídos da "Vida" pura e simples para a reino da vida consciente, não nos é possível mais arrazoados pré-conscientes, de modo que a Ética deve ser pensada a partir de sua base emergencial - as relações humanas, e aí permanecer.

19. Não é o Homem o pai da Ética e da Moral - são os homens. Não há um princípio ontológico e metafísico, natural, para elas - o princípio é orgânico e histórico: de um lado, a necessidade de eu me manter vivo, e bem, e feliz, e, de outro, a exigência e a necessidade de o outro manter-se vivo, e bem, e feliz. É ali, naquela zona bélica, no front, onde se encontram em conflito as minhas e as necessidades do outro, que se projetam as duas filhas da história - a Ética e a Moral. É preciso, pois, reconhecer o outro como outro-eu, é preciso reconhecer que a história já fez o seu trabalho em mim, e que depende de mim, agora, fazer o meu trabalho nela.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 14 de março de 2010

(2010/224) Evangelho como moral, Evangelho como ética


1. Desde a Reforma, um lento mas inexorável movimento de "moralização" e "eticalização" do Evangelho pôs-se em marcha. À medida que e quanto mais avançavam as conseqüências da própria Reforma - secularização, emancipação, crítica -, tanto mais as dimensões místicas do "sacramento" iam se dissolvendo na racionalidade, de modo que a racionalização da fé viu-se premida à transformação do Evangelho em "moral" e "ética" - as novas plataformas sobre as quais era possível um discurso evangélico racionalizado, à medida do homem europeu.

2. O lado pietista/puritano da caminhada foi maximamente premido pela exigência de transformação do Evangelho em moral. Trata-se, nesse caso, do modelo do "crente-é-aquele-que-não": não fuma, não bebe, não joga, não xinga. É a "moral" do não, da castração, como se "educação" fosse a contenção das forças naturais. Teve lá e tem por aí seus seguidores. De resto, todas as comunidades têm seus momentos de pietismo/puritanismo, quando é de convir... É, ainda posso anotar, muito reveladora, freudianamente reveladora, que essa característica dessa corrente pieeitista/puritana a torne co-irmã da vertente "liberal", que ela tanto contesta - ambas são "moralistas", ainda que sob dinâmicas diferentes, tanto quanto são, ambas, subjetivas, da ordem da experiência... Xipófagas...

3. Uma outra corrente, dita "progressista", dita "evangelical", viu-se mormente forçada a converter o Evangelho em ética. É a versão "positiva" - "sim" - da corrente anterior - "não". Mas é a mesma coisa, trata-se do mesmo fenômeno protestante. Trata-se da tentativa de dar uma "cara" sócio-antropológica, logo, "moderna", ao velho Evangelho cristão. De fato, muitas das proposições da ética moderna podem ser assentadas em algumas das boas declarações postas em Jesus, nos Evangelhos. Naturalmente que há um esgarçamento sempre crescente na base dessa corrente, como ocorreu com as CEBS, de onde saiu o PT - chega uma hora quando o "valor" político - a ética - percebe-se como comparativamente fundamental, e pressente seu atravancamento pela "espiritualidade", e o abraço se desfaz...

4. Devo arriscar um juízo: essa vertente ética do Evangelho caiu numa armadilha, própria da caminhada secularizante da Reforma: se o valor do Evangelho é o valor ético, resulta necessário dizer que o que quer que haja de não-ético nas Escrituras e na Tradição cristã não tem valor, assim como, ao contrário, mas do mesmo modo, tudo quanto haja de ético em qualquer religião, em qualquer lugar, em qualquer cultura, tem valor. A ética tornou-se um valor maior do que o sacramento, do que a revelação, do que a inspiração. A ética fez do Cristianismo uma religião como qualquer outra, e, da fé cristã, um exemplo de todoas as demais. Nada mais é singular nos arraiais paulinos... Imagine-se: toda a Tradição da "posse" da "terra", inequívoca narrativa não-ética, posta como fundamento... do céu... Não admira a caminhada histórica desse Cristianismo ali alicerçado...

5. Não estou reclamando, não. Por mim, é por aí mesmo. Todavia, acho muito curioso, para dizer pouco, que os defensores dessa corrente "ética" do Protestantismo não se apercebam - nao?, será que não, mesmo? - de que, se com a boca, afirmam que o valor evangélico é a ética, com a mesma boca não podem a firmar que o Evangelho é o único caminho - porque não é verdade que a ética só se encontre no Cristianismo - muito pelo contrário. Se o Cristianismo - se a Teologia - deve curvar-se (e deve!) à ética, eis aí um valor maior... Mas a mesma boca contradiz-se, afirmando as duas coisas, uma a anular a outra...

6. Quando ouço pastores evangelicais pregarem e blogarem sobre a exclusividade do Caminho evangélico, e, ao mesmo tempo, defenderem o valor ético da fé, pergunto-me se estou diante de alguém que não faz contas do que diz, ou se diante de alguém que faz, mas faz que não faz, porque, como Paulo, quer, por todos os meios, ganhar a todos - não importa como...

7. Para mim, que, sim, abraço a tese de que a ética é um valor incomesuravelmente maior do que o sacramento e a religião, conquanto sacramento e religião tenham seu valor cultural, mas não superior ao da ética, o valor de uma passagem bíblica, o valor de um dito de Jesus, não está em ser bíblica ou em ser de Jesus - se for ética, tem valor, se não for, não tem, e, nesse caso, mesmo se bíblica, mesmo se de Jesus.

8. Mas não nos enganemos: não há ética absoluta. Ética é valor construído, valor humano, valor histórico. Não me venham com fantasias os pregadores de uma ética de Deus. Há paciência para tudo...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 27 de fevereiro de 2010

(2010/157) Sobre discursos morais


1. Esssa foi uma semana pesada. Sem contar o tempo de translado (de casa para o trabalho - ao todo, umas 17 horas), foram 80 horas de expediente. Oitenta intensas horas - duas semana numa só. Muita coisa aconteceu - menos do que devia, menos do que eu queria - no entanto. Todavia, dentre o que ocorreu, uma coisa me chamou atenção, ao ponto de eu me fazer ouvir, a despeito de ter sido - inicialmente? - mal compreendido.

2. Estávamos em uma reunião, teólogos e pedagogos, tratando de mudanças gerenciais que, a médio prazo, incorrerão em transformações profundas na gestão acadêmica da Instituição onde trabalho. Em algum momento da reunião, caiu-se na "vala comum" das culpabilidades pela atual situação calamitosa, e uma delas avançou para se materializar no indicativo da conduta moral de alunos.

3. Uma concorrência de vozes indicava que, para tal gravíssimo problema, teólogos e pedagogos, professores sempre, deviam insistir em orientação de caráter moral em classe. "Muito conteúdo", se dizia, e "pouca orientação moral". O resultado, por essa via de raciocínio, é que os alunos saem sem "formação moral" e, então, eis aí a receita da vida religiosa evangélica brasileira...

4. Pedi a palavra. Primeiro, não é verdade que o problema se reduza, ao menos seja especialmente, a condição moral de alunos. Os alunos vão para a Instituição advindo de Igrejas. Se há problema moral, é lá que ele se encontra. Mas essa não é a questão. Nunca foi. E, se fosse, não considero que o papel do professor seja o de educador moral. Sim, a conduta do professor, suas ações, essas, sim, devem ser, no todo, morais e éticas, mas seu papel em sala de aula é intermediar o aprendizado discente das disciplinas para as quais ele/ela é pago/a.

5. A meu ver, mas posso estar errado, não adiantam discursos morais, retóricas de espiritualidade e moralidade, se as relações concretas - principalmente as institucionais - estão todas deterioradas. Nesse caso, uma vez que o ambiente concreto está eivado de distorções - também éticas e morais -, o discurso moral em sala de aula converte-se em lição de hipocrisia, ou, no outro extremo, ativismo espiritualóide inócuo, que, não sejamos tolos, não passa despercebido por nenhum estudante, por ninguém, nem nós.

6. Se a Instituição não tem, em face de professores, funcionários e alunos, a postura ética e legal condizente com sua responsabilidade - de que valem discursos morais em sala de aula?

7. Se os professores não têm, nem em face da Instituição, nem em face dos alunos, nem em face dos funcionários, posturas e condutas morais, éticas e legais, condizentes, todas, com sua responsabilidade - qual o efeito de seu discuso moral em classe, senão a retórica do escárnio?

8. Só podemos cobrar de alunos uma postura moral, quando nós mesmos, Instituição e corpo docente, assumios, sem senões, sem "ah, mas...", nossas responsabilidades - todas - formais: legais, éticas, morais. Não me façam enumerar, uma a uma, a longa, interminável lista dos desvios de conduta legal, ética e moral de todos nós, instituição, professores, funcionários e alunos. Trata-se, apenas, de pôr o dedo na ferida, sem rasgar-lhes as carnes.

9. Quando o ambiente concreto estiver absolutamente condizente com nossas responsabilidades éticas, legais e morais; quando a Instituição cumprir todas as suas responsabilidades éticas e legais relacionadas a professores, funcionários e alunos; quando nós, professores, comportarmo-nos condizentemente com nossas responsabilidades éticas, morais e legais, seja em relação à Instituição, seja em relação à cátedra - quando isso tudo se der, qualquer desvio moral revelar-se-á, automaticamente, desajustado, indesejado, não-tolerado, e será uma simples ação de correção imediata. Mas - hoje?, agora? aqui?, em plena endemia?

10. A questão pode ser ilustrada perfeitamente por meio da analogia com o fenômeno do metrô do Rio de Janeiro. Quando foi inaugurado, há alguns anos, qalquer um que entrasse ali, vindo de sua cidade suja, surpreendia-se com a limpeza, o respeito. Era outro mundo. As pessoas, automaticamente, adaptavam-se. Nenhuma guimba de cigarro no chão, nenhum papel de bala, nada... O ambiente enquadrou-nos a todos...

11. Todavia, o metrô vai-se tornando, a cada dia, uma Empresa que não se comporta, mais, com ética e legalidade, na sua relação com os clientes. Trata-os como gado: quase oito pessoas por metro quadrado dentro de um vagão com deficiências graves de ciculação de ar e refrigeração. O ambiente mudou - não há mais respeito. Olhe para o chão, agora. Já não é mais aquele chão, já não é mais aquele metrô - malgrado ser, ainda, a mesma gente...

12. Discurso oral que nada! É a prática da ética, da legalidade, da moralidade, a prática, não os sermões, que nos faltam. A todos - professores, gestores, Instituição, alunos, funcionários. Discurso moral como "saida" da crise é, a rigor, tapete para debaixo do qual se pode jogar a responsablidade aguda de todos.

13. Mas isso é bom. É bom que não seja de discursos morais que depende a solução da gestão acadêmica, mas, antes, da gestão da condição legal, ética e moral da máquina, do sistema, do conjunto dos atores, nas suas relações institucionais, formais e concretas do dia a dia. Por que isso é bom? Porque é fácil de corrigir isso - se se quer corrigir. É tão gritante o "pecado" institucional, funcional, docente, discente, não em si, mas nas suas relações formais, que saltam aos olhos. É ter a coragem de enfrentá-los, esses pecados, e corrigi-los, e, não dou seis meses, o cenário transforma-se. Sem a necessidade de discursos morais, dos quais nossas Igrejas estão cheias, sermão atrás de sermão, homilia após homilia, sem que isso signifique, de modo algum - e pelas mesmas razões que aqui - em nenhuma hipótese, que o povo evangélico não reflita, também nos detalhes, também as características imorais, não-éticas e ilegais que caracterizam grande representação das relações culturais na nação brasileira. De alto a baixo.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 31 de janeiro de 2010

(2010/122) De pais e mães e filhos e os tempos modernos


1. Confesso - sou careta. Muito, muito careta. Quem lê meus textos de crítica mordaz à Teologia "de cabresto", às pseudo-exegeses confessionais - faz-me rir! -, bem como às mais novas abordagens metafóricas da velha fé doutrinária deve imaginar-me um cara "moderno" - geralmente se conclui, erradamente, que a "crítica" é irmã da contravensão. Eis que o sou, em termos de ciência, de Teologia, de relações sociais, mas, não, em termos de cultura, de família, de costumes, das relações humanas. Não, não devo isso à Igreja - aliás, penso que as única coisas que realmente devo à Igreja são Bel, que lá conheci, as Escrituras, que desde que me tornei batista, devoro e desconstruo com sofreguidão, e minha "carreira", toda ela, teólogica. A fé?, não. A educação?, não. A moral?, não. Tudo isso, recebi de berço. Era assim, naquela época.

2. O mundo atual me atordoa. A moralidade difusa, a sexualidade aberrante, as libertinagens inconseqüentes, as bebidas alucinadas e as substâncias alucinógenas, o fumo, o desrespeito generalisado... tudo isso me desalenta. Ah, sim, vocês me veriam defendendo o direito de os cidadãos optarem por essa via: mas o faria por questões de caráter político-filosófico, conquanto não consiga imaginar um filho meu adotando essas novidades modernas. Sim, sou quadrado.

3. Ter sido quadrado, desde a infância, por força de educação, fez-me ter um contato curioso com Mama Maria, do Grafite, porque a letra se punha nos limites da transgressão. Era 1982, eu acabaria aí meu segundo grau, e, em dezembro, tomaria meu único porre na vida, um copo de Fanta com Vodka. Eu tinha o quê? Dezesseis anos. Faria 17 dias depois do porre... Exército no ano seguinte e, em agosto, a fé batista...

4. A letra fala(va) de u'a mãe que ficava na cola da flha, de olho nos marmanjos que a godevaram, ela, a presa, eles, os caçadores, a mãe, a leoa indomável... Meu instinto adolescente adorava a música, o som, a letra, mas, ao mesmo tempo, meu espírito "centrado" conseguia olhar mais para a mãe do que para o tubarão à caça da sardinha... Minha torcida era quadrada, digamos assim. Esse ano, um aluno me contou que teve problemas semelhantes com a filha, treze anos, abordada por um marmanjo na escola. Um boa conversa entre eles, se me entendem (o pai e o marmanjo) resolveu a "parada"...

5. Se nunca desobedeci minha mãe? Sim, claro. As aulas da tarde terminavam mais cedo, eventualmente, e, em lugar de eu ir direto pra casa - ordens! -, ficava jogando queimada na porta da escola: foi o máximo que me aproximei de meninas, então... se bem que teve aquela vez da "pera, uva, maçã"... Dava o horário da última aula, ia eu embora... Um dia, fui jogar queimada em outra rua, mais longe. Para voltar para casa, tinha que ir pelo lado contrário da escola. Ao me aproximar de casa, vi a fera no portão... Como explicar por que eu vinha por essa direção? Dei a volta correndo pela rua de cima, para poder chegar "pelo lado certo". Santo? Não, absolutamente - Deus o sabe! Mas afrontar mãe? Jamais!

6. Por isso, mais tarde, aí já era até crente, já, apaixonei-me pela letra de Namorinho de Portão, cantada pelo Penélope e que, agora, descubro ser do Tom Zé. Falava daqueles anos de inocência, dos quais tenho saudade. Não, não gosto da selvageria carnal que se vende na TV, que se vê na juventude. Odeio filmes de traição conjugal - mas fui condescendente com As Pontes de Madison... Isso nunca leva a bom lugar. É preciso que os instintos sejam tratados de forma absolutamente positiva, mas é ainda mais preciso que o respeito, o bom senso, a responsabilidade esteja à mão. E ainda acho que essa é, acima de tudo, uma coisa de pai e mãe, uma responsabilidade de adultos. Não garante, absolutamente, nada, mas a educação de pai e mãe é de suma importância.


7. Sinto que os dias não são bons. Sinto que algo de melhor foi deixado para trás. Acho que a perda da qualidade da vida da juventude coincida com a saída das mães de casa, para trabalhar. Sem pai nem mãe em casa, a situação saiu do controle. Acho isso triste. Tomara tenhamos já chegado ao fundo do poço, e que a juventude perceba que a lascívia, a imoralidade, as bebedeiras, as drogas, não são coisas boas, não. Não se trata de um discurso evangélico, nem moralista - sou, por exemplo, a favor da eutanásia, do aborto e do "casamento" civil para homossexuais, sou contra o uso de símbolos cristãos - porque, religiosos mesmo, não os há, só cristãos - em órgãos públicos: sou republicano! Se trata do discurso de um pai, que não agüentaria ver seus filhos destruídos pela diversão moderna, mas que vê a juventude ir ralo abaixo. Disse diversão? Perversão...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

(2010/029) Como assim "des"umano?


1. Criamos a expressão "desumano" e com ela nos referimos a atos que, por força do argumento, seriam não-humanos, contra-humanos, como se os atos propriamente humanos fossem atos bons. SE os atos humanos são necessária e propriamente bons, desUmanos, então, está certo, são aqueles atos que fogem à essa regra. Não são bons, são maus, não são humanos, são desumanos...

2. Cada vez mais penso que se trata de uma grande besteira. Não há como afirmar que os atos humanos sejam, por definição, bons. Podem ser bons. Podem ser maus. Uma pessoa pode, quando pode, tanto fazer o bem quanto o mau. Se se faz mais o bem ou o mau é uma questão de confissão, de revelação, de flagrante, eu acho.

3. Sim, sim, as pessoas podem passar a vida praticando atos bons. É a prática desses atos bons que definirá sua vida. Mas podiam ser atos maus, igualmente. Algo entre a genética, a índole, a educação, o ambiente - algum fato complexo desencaminhará, historicamente, os trilhos "morais" sobre os quais as ações "correrão". Diante do feto, no útero, abre-se uma longa estrada de ferro. E será aí que se revelarão não apenas as ações, mas, igualmente, é aí que se construirá inclusive o trem...

4. Morreu, aos cem anos, a "protetora" do diário de Anne Frank. A história está na reportagem da BBC Brasil. O que me deixou perturbado foi pensar que, depois de dois anos protegidos dos nazistas, dois anos!, escondidos, alguém, até hoje não se sabe quem, os tenha denunciado. Covardia! Maldade! Perversidade! Desumano? Não, bem humano, demasiadamente humano...

5. Tão humano quanto estupros de guerra. Tão humano quanto a fome promovida e tolerada. Tão humano quanto o tráfico de mulheres, de crianças. Tão humano quanto o preconceito, ontem, contra negros, hoje, contra homossexuais. Humano.

6. É nossa tentativa de pensar uma abstração - a Humanidade - que nos faz pensar que inventar um termo assim - desumano - pudesse fazer de conta que há uma Desumanidade. Mas não há, não. Só há a Humanidade, humana, boa, aqui, má ali. Não há um bem em si nem um mau em si. Há os homens e as mulheres vivendo e fazendo coisas. Coisas para o bem. Coisas para o mal.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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