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domingo, 28 de novembro de 2010

(2010/598) Ainda sou protestante?


1. Eu ainda sou "protestante"? Bem, sim e não - como sempre fui esse sim-protestante e esse não-protestante, ao mesmo tempo em que sempre fui esse sim-batista e esse não-batista. Há, na realidade, muita proximidade entre o Protestantismo (século XVI) e a tradição batista (século XVII), ligeiramente mais nova. E devo dizer que as razões que me fazem um não-protestante são as mesmas que me fazem um não-batista, e as razões que me fazem um sim-protestante são as mesmas que me fazem um sim-batista, eu, esse não-sim-protestante.

2. Trata-se dos princípios. Ainda acredito profundamente, existencialmente, nos princípios protestantes e, extensivamente, nos princípios da tradição batista, ainda mais especificamente, nos Princípios Batistas (para estes, a rigor, depende muito do que se está querendo indicar com o termo, porque aquilo é uma salada de princípios e doutrinas, convenhamos, que conviria separar), naquilo que eles têm de princípios.

3. Anima-me o princípio do sacerdócio universal do crente. Todavia, anima-me a sua versão, digamos, 3.0. O Protestantismo não o levou de todo a sério. Na prática, os pastores protestantes - os evangélicos, então, nem se fala! - só não carregam o nome de "padre", mas comportam-se rigorosamente tal e qual, com a vantagem de que podem praticar sexo! - o que não é pouco, hã!?... Digamos que, no protestantismo clássico, a versão desse princípio, 1.0, tenha mais servido como retórica de contra-identidade, em face dos adversários católicos, do que tenha propriamente assumido a condição de um valor levado a sério, seja pelo "clero", seja pelo "laicato". Os pastores sempre foram vistos, e ainda são, como gente mais próxima de Deus, porta-vozes do divino... Protestantemente, são nada. E não seria necessário esperar o século XIX para o dizer: para todos os efeitos, o Protestantismo estabeleceu a inutilidade sacerdotal, já que eu mesmo constituo meu sacerdote, eu mesmo, por meio de mim mesmo, chego a Deus.

4. Já a versão 2.0 do "princípio protestante do sacerdócio universal do crente" constituiria aquela abrangência mais radical desse discurso, uma transformação ainda inimaginável das relações eclesiásticas, a supressão da figura do "pastor" como regente do coro da fé, como zelador das doutrinas. Bem se vê que isso é absolutamente improvável de vir a acontecer. Acabam-se as igrejas como um todo, mas o clero... No final, idos todos para seus caminhos, permanecerão à porta quatro ou cinco pastores, perplexos... porque a Igreja até morre, mas o clero, não.

5. Mas eu quero é a versão 3.0 - o Protestantismo levado a sério e aplicado a todos, indistintamente: não apenas aos homens protestantes, mas, igualmente, às mulheres; não apenas aos protestantes, mas a todos os religiosos, indistintamente; não apenas a todos os religiosos, mas a todos os homens, indistintamente. Começamos uma coisa, e não a terminamos: e não a terminamos, porque não queremos terminar. Fizemos as contas da altura da torre, calculamos o volume de tijolos, o custo, a quantidade de operáros: podíamos ter construído... Mas não quisemos, não queremos, não quereremos. Uma religião em que todos são sacerdotes só pode dar no XIX - e, para o Protestantismo, o XIX é o diabo, o que o "salvador" do Protestantismo clássico, Barth, depressa entendeu, depois de duas e três aulas de Harnack...

6. Outro princípio protestante que anima a minha alma, e me faz, digamos assim, cantar louvores, é o princípio do livre-exame das Escrituras. Novamente, o Protestantismo ficou na versão 1.0, apenas no estilo "somos livres para interpretar do nosso jeito, o que significa que não somos obrigados a interpretar como o papa interpreta". Mas não é sério crer que algum dia tenha passado pela cabeça de Lutero que esse princípio significasse o que veio a significar mais recentemente. Para Lutero, todos os luteranos só podiam interpetar... "luteranamente"... Versão 1.0.

7. Quero versões avançadas desse princípio, aquelas que a própria história do Protestantismo inventou, e que ficou madura ali por volta de 1750, com a regência histórico-filológica do processo, a adesão da exegese bíblica aos princípios histórico-críticos, que a "tradição", conservadora e reacionária, abomina, mas eu adoro, e com o rompimento formal com o regime de coação dogmática das rotinas hermenêuticas. Não duvide, meu caro leitor - a dogmática ainda controla o processo, mesmo nos lugares mais insuspeitáveis.

8. A versão 1.0 desse princípio é uma piada - de mau gosto. Ela carrega em si, ao mesmo tempo, um grito de liberdade, em face de Roma, e um grito de opressão, em face dos fiéis. Dá-se, com ela, uma fraude - que, em outro modelo, ressurge, agora, como "teopoética", em algumas expressões que ela encarna (mas trato disso depois). O sistema por trás da versão 1.0 faz a interpretação gravitar em torno do dogma, da tradição, que, por sua vez, contitui como que um espírito invisível, mas eficiente, pousado sobre a Bíblia-monolito. Quando o leitor abre a Bíblia, é a esse espírito-dogma a que passa se referir toda a leitura que ele faz. Não, as palavras não têm, aí, mais qualquer relação histórica com quem as escreveu. O leitor, programaticamente, opera seu sentido, puxando fios de ouro, apertando botões devocionais aqui e ali, administrando a boca do grande Livro ele mesmo, chamando a isso ... iluminação!, e tirando daí as doutrinas da catequese. Cada qual, da sua, naturalmente...

9. A história do Protestantismo e dos batistas é a história das reações criativas e das contra-reações às próprias reações criativas. Explico o que quero dizer: o discurso protestante e batista foi, sempre, reagente. A "criatividade", aí, surgia na forma de modos de reação, discursos de reação, de um lado, ao catolicismo e, de outro, à Igreja inglesa - da mesma forma como o Romantismo alemão surge como reação ao Iluminismo francês. Nesse sentido, a "pressão" dos adversários como que espremia do corpo protestante e batista a saída criativa, o contra-discurso - cujo referencial estabelecia os seus limites de validade. Uma vez que tanto uns quanto outros enfrentavam inimigos julgados opressores, não havia outro modo que não forjar um contra-discurso libertador, um discurso que desempoderasse o inimigo, e, ao mesmo tempo, desse ao portador da palavra reagente o poder e a liberdade de autodeterminar-se. Não é por outra razão que os princípios protestantes e batistas são libertadores...

10. Todavia, tão rápido quanto sacadas contra o inimigo externo, as espadas desses princípios podiam - e podem - ser usadas também dentro dos muros. Se Lutero pode interpretar livre do papa, eu também posso interpretar livre... de Lutero! Não, não pode!, gritará, incoerentemente, a Tradição. A verdade não tolera dúvidas nem críticas, advertirá a Hipocrisia. Os princípios protestantes e batistas criaram-se como guarda-chuvas, casamatas, bunkers, contra os outros. Internamente, todavia, vale outra Tradição - a mesma contra qual lutaram, para nascer, protestantes e batistas... Cosmogônicos, para fora, heréticos, para dentro, transformam-se os princípios em verbetes de folhetos - e só. Bem, ao menos é o que a Tradição pensa, porque o efeito libertador desses princípios criou raízes, floresceu - não se pode acender a luz e a pôr sob o alqueire - nem mesmo aqueles cuja história é uma fábrica de alqueires...

11. Pensando assim, nesse último aspecto, meu corpo sente asco dessa tradição, e quer negá-la. Natural. Tem-se que estar absolutamente descerebrado para não se deparar com a hipocrisia que caracteriza a vida evangélica - há quinhentos anos. Todavia, há que haver lucidez, e ela deverá ser maior do que o nojo. Se tranqüilizo meu coração, se respiro fundo, e ouço o discurso protestante, não posso deixar de admitir que é ele, e nenhum outro, que está fundamentado no último milímetro do poço da minha alma, e é sobre eles, os princípios, que todos os andares da catedral da minha fé e esperança estão sobre-erguidos. Se eu me olho no espelho, o que vejo, lá, é um protestante e um batista - mas se e somente se os critérios são aqueles - os princípios, e, ainda, se lidos na ótica radical com que vergo o eixo axiológico de sua potência semântica.

12. Penso que é uma questão de maturidade. Não há para onde ir. E, todavia, corre-se o risco da "paixão" platônica, da idealização de um lugar inexistente, de uma utopia que não é utopia, mas mero mito afetivo... É verdade. Corro esse risco. E como o afasto?, como torno real o meu apego a esses valores? Encarnando-os, vivendo a minha vida na consciência inegociável de que sou meu próprio sacerdote, tanto quanto qualquer um o é de si, e que as Escrituras pedem radical liberdade no regime de interpretação. E nisso se resume minha profunda dependência dessa tradição...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 14 de março de 2010

(2010/224) Evangelho como moral, Evangelho como ética


1. Desde a Reforma, um lento mas inexorável movimento de "moralização" e "eticalização" do Evangelho pôs-se em marcha. À medida que e quanto mais avançavam as conseqüências da própria Reforma - secularização, emancipação, crítica -, tanto mais as dimensões místicas do "sacramento" iam se dissolvendo na racionalidade, de modo que a racionalização da fé viu-se premida à transformação do Evangelho em "moral" e "ética" - as novas plataformas sobre as quais era possível um discurso evangélico racionalizado, à medida do homem europeu.

2. O lado pietista/puritano da caminhada foi maximamente premido pela exigência de transformação do Evangelho em moral. Trata-se, nesse caso, do modelo do "crente-é-aquele-que-não": não fuma, não bebe, não joga, não xinga. É a "moral" do não, da castração, como se "educação" fosse a contenção das forças naturais. Teve lá e tem por aí seus seguidores. De resto, todas as comunidades têm seus momentos de pietismo/puritanismo, quando é de convir... É, ainda posso anotar, muito reveladora, freudianamente reveladora, que essa característica dessa corrente pieeitista/puritana a torne co-irmã da vertente "liberal", que ela tanto contesta - ambas são "moralistas", ainda que sob dinâmicas diferentes, tanto quanto são, ambas, subjetivas, da ordem da experiência... Xipófagas...

3. Uma outra corrente, dita "progressista", dita "evangelical", viu-se mormente forçada a converter o Evangelho em ética. É a versão "positiva" - "sim" - da corrente anterior - "não". Mas é a mesma coisa, trata-se do mesmo fenômeno protestante. Trata-se da tentativa de dar uma "cara" sócio-antropológica, logo, "moderna", ao velho Evangelho cristão. De fato, muitas das proposições da ética moderna podem ser assentadas em algumas das boas declarações postas em Jesus, nos Evangelhos. Naturalmente que há um esgarçamento sempre crescente na base dessa corrente, como ocorreu com as CEBS, de onde saiu o PT - chega uma hora quando o "valor" político - a ética - percebe-se como comparativamente fundamental, e pressente seu atravancamento pela "espiritualidade", e o abraço se desfaz...

4. Devo arriscar um juízo: essa vertente ética do Evangelho caiu numa armadilha, própria da caminhada secularizante da Reforma: se o valor do Evangelho é o valor ético, resulta necessário dizer que o que quer que haja de não-ético nas Escrituras e na Tradição cristã não tem valor, assim como, ao contrário, mas do mesmo modo, tudo quanto haja de ético em qualquer religião, em qualquer lugar, em qualquer cultura, tem valor. A ética tornou-se um valor maior do que o sacramento, do que a revelação, do que a inspiração. A ética fez do Cristianismo uma religião como qualquer outra, e, da fé cristã, um exemplo de todoas as demais. Nada mais é singular nos arraiais paulinos... Imagine-se: toda a Tradição da "posse" da "terra", inequívoca narrativa não-ética, posta como fundamento... do céu... Não admira a caminhada histórica desse Cristianismo ali alicerçado...

5. Não estou reclamando, não. Por mim, é por aí mesmo. Todavia, acho muito curioso, para dizer pouco, que os defensores dessa corrente "ética" do Protestantismo não se apercebam - nao?, será que não, mesmo? - de que, se com a boca, afirmam que o valor evangélico é a ética, com a mesma boca não podem a firmar que o Evangelho é o único caminho - porque não é verdade que a ética só se encontre no Cristianismo - muito pelo contrário. Se o Cristianismo - se a Teologia - deve curvar-se (e deve!) à ética, eis aí um valor maior... Mas a mesma boca contradiz-se, afirmando as duas coisas, uma a anular a outra...

6. Quando ouço pastores evangelicais pregarem e blogarem sobre a exclusividade do Caminho evangélico, e, ao mesmo tempo, defenderem o valor ético da fé, pergunto-me se estou diante de alguém que não faz contas do que diz, ou se diante de alguém que faz, mas faz que não faz, porque, como Paulo, quer, por todos os meios, ganhar a todos - não importa como...

7. Para mim, que, sim, abraço a tese de que a ética é um valor incomesuravelmente maior do que o sacramento e a religião, conquanto sacramento e religião tenham seu valor cultural, mas não superior ao da ética, o valor de uma passagem bíblica, o valor de um dito de Jesus, não está em ser bíblica ou em ser de Jesus - se for ética, tem valor, se não for, não tem, e, nesse caso, mesmo se bíblica, mesmo se de Jesus.

8. Mas não nos enganemos: não há ética absoluta. Ética é valor construído, valor humano, valor histórico. Não me venham com fantasias os pregadores de uma ética de Deus. Há paciência para tudo...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 6 de março de 2010

(2010/176) Não gosto de profetas


1. Desde - pelo menos - Weber, "sacerdotes" são "maus" e "profetas" são "bons". As raízes dessa dicotomia já estavam presentes em Julius Welhausen, patrono da teoria dos documentos - JEDP - do Pentateuco, que, no final do século XIX, afirmava que a religião judaica caminhou de um período áureo - profético - para a deterioração completa - período sacerdotal.

2. Eu não gosto de sacerdotes. Isso deve estar claro para todos que me conhecem. Não quero dizer com isso que não gosto de padres ou de pais de santo. Não se trata de apontar para figuras concretas. Até porque pastores são tão sacerdotais - senão mais! - do que padres e pais de santo. Não gosto é da idéia sacerdotal, da atitude sacerdotal, do princípio sacerdotal. Faz-me mal, somaticamente, estar diante de discursos que pretendem, em pleno século XXI, servirem de intermediação entre homens e mulheres, de um lado, e o sagrado, de outro. Não é por outra razão que estudo mais detidamente os séculos VI e V de Jerusalém, ovo sacerdotal por excelência, chocadeira da alma sacerdotal ocidental.

3. O Protestantismo, meus amigos, sejamos honestos, não acabou com o sacerdócio. Dizer que cada um é sacerdote de si, no nível do discurso, sim, implode com qualquer possibilidade sacerdotal. Mas, no Protestantismo, tudo são meras palavras, quase nada é, de fato, levado ao nível das realizações concretas, de modo que, se com a boca proferimos o fim do sacerdócio de uns sobre outros, na prática, vestimos as roupas sacerdotais dos sacerdotes de Jerusalém. A alma pastoral nunca abandonou o delírio sacerdotal. Hoje, agrava-se a patologia...

4. Mas igualmente, e cada vez mais, desgosto dos profetas. Indispõe-me a mania dos "profetas" de plantão pronunciarem-se em nome de Deus. Para mim, isso configura uma fraude, um acinte, um deboche. Talvez por isso tanta gente, aparentemente boa e, a seus próprios olhos, nobre, deteste a crítica bíblica, a fenomenologia, a pesquisa conseqüente, porque, nesses ambientes, ninguém, absolutamente ninguém pode, honestamente, trazer Deus para sua fala. Deus é uma indisponibilidade inexorável onde se reconhece a condição humana. Onde ela é burlada, onde se "brinca" de dizer "Deus", aí só pode funcionar uma agência político-retórica. Ironia: demonizada, a serpente do Éden vinga-se, "baixando" nos cavalos-profetas, a dizer coisas como que ditas por Deus... Deus é facinho... O Deus de 1,99...

5. É muito curioso observar a disputa religiosa no mundo evangélico contemporâneo. É, para todos os fins, uma briga de deuses. Deus fala pela boca dos "maus" e dos "bons". Dedo na cara de um, é Deus falando. Dedo na cara de outro, é Deus falando. Deus - sempre do lado de quem fala, não importa quem. Deus berra desde esse púlpito, desde essa "carta aberta", esse brado profético. Deus berra desde aqueles outros lá - indiferentemente de um e outro berro estarem mutuamente se estapeando. Deus dá na cara de Deus. Deus ficou louco...

6. Por que será que as coisas são assim? Eu arrisco uma análise: a vida evangélica sobrevive no coração da manipulação do discurso de Deus. O povo evangélico não é levado a constituir-se autonomamente. Não se lhe ensina a crítica - é do diabo! -, a autonomia - é rebeldia! -, a livre-consciência - é liberalismo! Ensina-lhe a repetir as mesmíssimas ladainhas de mil anos, disfarçadas de belos nomes europeus... Gado da era de Aquarius, é bom um povo bem crente, bem crédulo. Num mundo assim, essa gente só ouve a Deus, de modo que profetas e sacerdotes enchem, sob o risco de engasgarem de tão cheia, a boca do nome de Deus. Até quando espirram, é e nome de Deus que espirram.

7. E, todavia, Deus não faz nada... Das uma uma: não há o que fazer, ou não há quem faça...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

(2010/130) Da persistência da memória na dor cotidiana


1. Há personalidades prontas para determinadas espiritualidades. Há personalidades prontas para um kardecismo que explica pecado e dor como modus vivendi assumido nas negociações pré-encarnacionais - pecado e dor estão sobre a mesa, e são renegociáveis, sempre. Há espiritualidades prontas para assumir a condição do pecado e da dor como pagamento de dívidas atuais e passadas, tanto mais remissão quanto mais pecado e dor houver - pecado e dor tornam-se, por assim dizer, quase-gozo. Há personalidades que assumem dor e pecado como destino - pecado e dor tornam-se a areia da ampulheta. E há aquelas espiritualidades que vêm em pecado e dor a insuficiência, a falta, a culpa, a derrota de uma vida para sempre estragada, a mancha de uma folha a ser escrita, e, por isso, inutilizada para sempre. Para essas espiritualidades, o protestantismo funciona muito mais como um amplificador da consciência de culpa do que um amortecedor de sentimentos. Ser protestante, aí, não é opção - mesmo alheio às doutrinas, essa alma é, no todo, profundamente, inapelavelmente, inexoravelmente protestante. Nesse sentido, noções como perdão, doutrinárias, não conseguem apagar, jamais, o calor do fogo a calcinar a alma. Talvez por isso eu deteste tanto Agostinho. É-me um co-irmão de culpas. Talvez a diferença seja que, nele, corpo e mente capitularam. A minha, inutilmente, rebela-se...










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 30 de janeiro de 2010

(2010/117) Entender não é crer - e vice-versa


1. Durante a Idade Média, a racionalização teológica criou fórmulas tais como "crer para entender" e "fé que busca entendimento". Desavisados, apologistas engajados ou consciências axiologicamente excêntricas à racionalidade moderna consideram que essa postura coincida com "racionalidade". Na verdade, o dia em que a Teologia deixou-se enamoerar pela retórica da racionalidade, ainda que para administrá-la, assinou seu atestado de morte. No entanto, aquelas três espécies de teólogos, mesmo hoje, caminham como que desapercebidos disso. "Crer para entender" não constitui uma rubrica do capítulo da modernidade - mas uma forma de racionalização.

2. Não que a fé seja menos do que a ciência. Ela é, todavia, aí sim, absolutamente diferente. Conquanto haja elementos de fé - certo tipo de fé - na ciência, o nevrálgico, o incomparável aí é o regime em que a fé pode operar na ciência, porque, aí, ela exerce um papel segundo, subordinado, crítico, sujeito à morte.

3. Na Teologia - cristã - operam-se dois regimes fundamentais de fé. Um, com base em Normas da Tradição - o modelo católico (deixo de lado o problema crucial do Vaticano II que, a rigor, subverte o jogo, quando submete a Tradição às Escrituras - é a tragédia protestante contaminando Roma). O outro modelo - evangélico-protestante - opera com base nas Escrituras (deixo de lado o contingente dissimulado, eventualmente hipócrita, de, no fundo, as Escrituras apenas funcionarem de arrimo político para as retóricas denominaconais - mas tratemos da "tese" protestante e pronto).

4. De um lado, o modelo católico tem "corpo". Uma vez que é o "clero" quem determina o conteúdo da fé, a catequese é "objetiva" e didaticamente confortável. O prejuízo do modelo é ter de admitir que se trata de proposição tradicional, com base única e exclusivamente nos pronunciamentos de um corpo teológico organizado. Erasmo, por exemplo, não va problemas nisso, desde que Roma garantia unidade ao corpo cristão.

5. De outro lado, o modelo protestante dá uma no prego e outra na ferradura. Ele se revela mais "objetivo", no sentido de que o conteúdo da fé está registrado de modo definitivo na Escritura. No entanto, desde que se passou a levar a sério os problemas de interpretação - que só se resolvem dentro do modelo católico! -, as Escrituras tornaram-se cada vez menos politicamente úteis, de modo que a tendência ao discurso de "fé denominacional" acentuou-se - os "bíblias" tornaram-se crentes de partido, e a retórica política, cada vez mais cênica.

6. Minha relação com esses dois modelos está definitivamente rompida. O meu problema, agora, é de outra natureza. Empreendo relativo esforço para a interpretação histórico-crítica das Escrituras, e é a isso que se resume minha relação mística com elas - a busca pelo setido. No entanto, tenho consciência de que entender não é crer. Se, de um lado, as denominações evangélico-protestantes estão repletas, apinhadas, de crentes que crêem (das doutrinas), mas não entendem (as Escrituras), os métodos histórico-críticos, por sua própria configuração ideológica, promovem aprofundamento do entendimento (das Escrituras), mas, se honestamente praticados, subvertem necessariamente a fé (nas doutrinas).

7. A uma consciência crítica, histórico-crítica, restaria uma fórmula do tipo - "creio na minha interpretação histórico-crítica". Ora - que tipo de "segurança" espiritual essa atitude produz, se o leitor histórico-crítico tanto sabe de sua condição antropológica, quanto reconhece a condição humana dos hagiógrafos? Crer, um crente, no que um padre ou um pastor diz não é diferente de crer um histórico-crítico em sua interpretação crítica da Bíblia - trata-se do mesmo tipo de fé. A honestidade acadêmica, senhores, salvo engano, interdita a matriz evangélico-protestante. Resta ver se ela tem futuro nos moldes católico-romanos.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 4 de outubro de 2009

(2009/523) Questão de linguagem?


1. Deu na BBC Brasil: "Papa critica materialismo e 'colonialismo'" - a África está sendo bombardeada, ele teria dito, pelo "lixo tóxico" do ocidente: o materialismo, de modo que seria possível afirmar que o colonialismo perpetua-se sobre o solo africano... Então, uma vez que faz o diagnóstico, escreve a receita: "o pontífice católico disse ainda que a África necessita 'urgentemente' de evangelização"... Questão de linguagem?

2. A última grande onda de "evangelização" a que assistimos dizimou as populações da América do Norte (obra e graça da evangelização protestante) e das Américas Central e do Sul, obra e graça da evangelização católica). A África é vítima da ganância das potências político-econômicas do Ocidente, bem como de seu braço religioso, além de ser vítima das suas próprias elites tribais e estatais que substituíram, como títeres, as forças instaladas. Carne africana é carne para abate. Terra desgraçada - inferno humano. Nesse momento, Cristianismo e Islamismo disputam almas humanas, como quem joga War... Deus e Alá vão ajudando a empreitada... Mas não haverá vencedores, ao final, só um altar de pecados que ultraja a terra e os céus.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 17 de abril de 2009

(2009/173) Platonismo, cartesianismo, pós-modernismo - um padrão


1. O livro que acabo de recomendar, Revolução Francesa e Iluminismo, de Jorge Grespan, deu-me uma percepção mais clara da relação entre platonismo e cartesianismo. Grespan, na verdade, faz uma distinção importante entre "iluminismo cartesiano" e "iluminismo empirista" (cartesianismo versus empirismo), afirmando que o primeiro pressupõe a soberania da "razão" especulitivo-idealista, baseada na matemática e nas abstrações da geometria, o que implica em dizer a condição "inata" e "imaterial" das "idéias", ao passo que o empirismo inglês, frontalmente em desacordo com Descartes, pressupõe que a razão apenas constitua instrumento de tratamento dos estímulos sensoriais provenientes da matéria. Assim, eu posso entrever um neo-platonismo não-mitológico, mas metafísico, em Descartes, contra um aristotelismo não-mitológico no empirismo. Dois "iluminismos" abolsutamente divergentes.

2. É interessante perceber que há, aí, um padrão polar, da mesma forma como houve entre Platão e Aristóteles, o primeiro afirmando que a matéria, logo, os sentidos, eram obstáculos ao conhecimento "verdadeiro", ao passo que Aritóteles afirmando justamente o contrário, que tanto a matéria quanto os sentidos, articulados pela "razão", constituíam elementos fundamentais do processo de conhecimento humano. O padrão polar repete-se, agora, entre o cartesianismo (neo-platonismo) e o empirismo (neo-aristotelismo).

3. Recentemente, vemo-nos tomados por um terceiro padrão, a que se está convencionando chamar de "pós-modernismo" - que só pode agradar a neo-platônicos, seja de qual tipo forem, cartesiano-idealista, lingüístico-estruturalista, teológico-metafórico. Assim como em Platão e em Descartes, cada qual a seu modo, é óbvio, que não se trata da ressurreição do mesmo, mas do ressurgimento da mesma estrutura de pensamento, transformada pelas condições do tempo histórico, o pós-modernismo desconsidera pragmaticamente (politicamente) e programaticamente (estrategicamente) a "realidade" - é no interior da linguagem que o mundo se processa, independente da realidade, de modo que a realidade é plenamente dispensável (e, naturalmente, inacessível à crítica).

4. O padrão que se pode perceber nesses três momentos, platonismo, cartesianismo e pós-modernismo é o dualismo matéria-espírito, corpo-alma, cérebro-pensamento. Em nenhum deles, o pensamento deve satisfações à matéria, de modo que a sua declaração é auto-legitimada, contrariamente ao que se pôde apreender do teorema de Gödel, segundo o qual nenhum sistema ideológico dispõe, em si mesmo, das condições necessárias para sua auto-demonstração - um sistema ideológico só pode ser avaliado por outro sistema ideológico. Platonismo (a verdade vem da Providência: "revelação"), cartesianismo ("cogito, ergo sum") e pós-modernismo (todo discurso é epistemologicamente equivalente) legitimam-se a si mesmos, e isso a partir de suas próprias e axiomáticas declarações, as quais, uma vez pronunciadas, fundam o mundo.

5. Ao lado desse padrão idealista-ascético-monaquista, há um outro padrão, reacionário em relação a esse: aristotelismo, empirismo, cognitivismo. Segundo esses três momentos-padrão, a "verdade" constitui um construto intercambial entre, de um lado, a matéria, a física, o real, a Tabela Periódica, e, de outro, a mente humana, o espírito humano, a consciência humana. Ela não é nem um atributo da própria matéria, nem um atributo da própria consciência, mas uma emergência relacional entre ambas: dados físicos e estruturas ideológico-conceituais de tratamento sensorial dessa matéria.

6. Assim, no que me diz respeito, a exegese é uma província desse segundo padrão: ela, a exegese, considera a objetividade da expressão consciente humana no registro histórico, e, por meio de sistemas ideológico-metodológicos de abordagem, procura propor quadros conceituais de compreensão daquele dado concreto da história - daquele fato bruto. As especulações metafísicas da teologia clássica, contudo (uma teologia platônica), bem como a nova moda teológica da metáfora (teologia pós-moderna) constituem, por sua vez, materializações daquele desprezo antigo à materialidade da existência, conquanto não ao poder de determinar o comportamento das massas.

7. Até hoje, o dualismo imperou. O platonismo deu as cartas durante dois mil anos e meio, sob Platão, Descartes e, agora, a onda pós-moderna. As reações materiais foram sempre minoradas. Aristóteles desaparece do Ocidente por mil e quinhentos anos, ressurge por volta do ano mil, é coonestado pela "teologia aristotélica" (um oxímoro!), supostamente superada por sua versão "secular", o cartesianismo imaterial, e, depois de uma grave crise, pressionado pelo empírismo iluminista (responsável, segundo Grespan, pela Revolução Francesa e a alteração, por isso, inclusive, do conceito de "revolução"), retorna, agora, na forma de uma pós-modernidade pós-crítica (a-crítica, deve-se dizer).

8. Talvez aí esteja uma das razões pela qual nem o Protestantismo tenha conseguido levar a sério a exegese - enquanto instituição, o Protestantismo jamais levou a sério a exegese, mas apenas enquanto atividade "iluminista-empirista" de caráter crítico, levado a termo por consciências independentes, emancipadas. Justamente durante o auge do iluminismo crítico-empírito (1750-1850), a exegese logrou conquistar grande parte do terreno dominado pela Teologia Sistemática (pouca coisa há mais platônica do que a Teologia Sistemática). A filologia clássica desse período deu à exegese seu aspecto crítico-científico que ela tem até hoje, isso quando não cooptada por metodologias pseudo-sérias (como o método histórico-gramatical, que, de exegético, possui, apenas, o movimento mecânico dos olhos). Mas logo a Teologia Sistemática, de padrão platônico, reagiu e, em setenta anos (número simbólico, percebe-se: 1850-1920), Karl Barth reconstrói o feudo teológico clássico-platônico.

9. O fenômeno mais curioso - e, por isso, mais revelador, é o Vaticano II. Não estaria fantasiando se visse, aí, uma vitória da exegese sobre a Teologia Sistemática - um punhal "aristotélico" (a rigor, romântico-iluminista) no coração de Platão. De fato, com o Vaticano II, um sistema duas vezes milenar de controle platônico-normativo da interpretação rui, uma década e acaba toda e qualquer possibilidade de uma imaterialidade do critério hermenêutico, porque se afirma, aí, que o método adequado para a compreensão das Escrituras é o método histórico-crítico. Nem em quinhetos anos de história o Protestantismo chegou perto de algo assim - não há "Igreja" protestante que use, pra valer, o método histórico-crítico, e onde quer que instituições vinculadas à Igreja o usem, "ela" reage. Roma, agora, contudo, faz desse o método.

10. Naturalmente que eu duvido, já o disse, que Roma se mantenha nesse trilho. Do ponto de vista católico, foi um terrível equívoco, um "cochilo", provavelmente causado por uma sonolência política, uma piscadela da vigilância política, que, contudo, exigirá uma extraordínária capacidade, que Roma, todavia, tem, de converter a si todas as coisas, e de sobrevaler-se a todo entrave, para reverter a situação a seu favor.

11. Quanto a mim, recuso-me tanto o padrão platônico - aí a política suprime a política, porque onde não há crítica possível, o poder se agiganta (enquanto reis comandavam Israel e Judá, houve profetas: quando sacerdotes assumiram o poder, eles foram aniquilados) - quanto o apelo da massificação, do cantar em coro, do arroubo coletivo e cego, e compor o exército. Massa, não. Cantar? Não eu. Deserto. Quero tentar a sobrevivência lúcida durante esse período de transição. Esse é um momento crítico da história - sobreviver a ele terá sido um enorme feito.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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