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domingo, 7 de março de 2010

(2010/196) Graças a Deus. Mesmo?



1. O ônibus em que você está bate. Morrem doze pessoas. Duas dezenas e meia de feridos. Você sai com alguns arranhões. Graças a Deus... Mesmo? Por quê? Porque Deus poupou você? Então, deixe-me ver se entendi: Deus fica lá de cima, olhando - quando uma desgraça acontece, ele assopra, aperta um botão, levanta a mão, sei lá, faz alguma coisa, e "seus escolhidos" se safam, em segurança - é isso?

2. O terremoto do Haiti e do Chile ceifou muitas centenas, milhares, de pessoas. Milhares sobreviveram. As que sobreviveram podem dizer "graças a Deus"? Certamente o disseram. Assisti a reportagens em que sobreviventes brasileiros diziam "graças a Deus" diante das câmeras de TV.

3. Aquele avião do Congo caiu. Todos, exceto uma menina, morreram. Seu pai, feliz toda vida, em entrevista à TV, pode dizer "graças a Deus"? Mas o disse. Ele ainda se deu conta do significado do que dizia, e constrangeu-se. Mas, independentemente do constrangimento, no fundo, não é assim que ele se sente?, agradecido por Deus ter dado à filha destino diferente dos demais do vôo da morte...?

4. A vida é isso? Cada coisa que acontece é Deus apertando um botão? Você ganhou aquele emprego: graças a Deus - bem, era uma vaga para cem candidatos: Deus escolheu você, e não os outros? Você ganhou na loteria, e está tão feliz que não cabe em si - "graças a Deus". O quê? Dentre os milhões de apostadores, Deus escolheu justamente você? Como é isso? Como é viver com isso?

5. Há uma Teologia por detrás do "graças a Deus". Nessa hora, todos são calvinistas. Deus sabe, ele tem anotado em seu supercomputador pessoal, tudo o que vai acontecer, por sua determinação, nas próximas 24 horas, de modo que o que vai acontecer com você... agora.. é determinação dele. Pronto: faz todo sentido: graças a Deus... O difícil dessa Teologia é dar graças a Deus por um câncer, uma dor de dente, a morte de um filho, ou, dá no mesmo, você ter estado no outro lado de todos os exemplos que dei acima. Há quem o consiga - apodrecendo na cama, e dando graças a Deus. Mas isso, sabemos, é coisa absolutamente rara, e, não duvido, tem mais explicações psicológicas do que teológicas.

6. Seja como for, reconheço o vazio que é admitir que tudo não passa de loteria aleatória - dado que há acidentes, e sendo eles inevitáveis, uns serão feridos, outros morrerão, outros sairão ilesos. Pura aleatoriedade? Pura "sorte"? Roleta? Loteria? Dados? Bem, a saída, para não tratar as coisas com essa frieza toda, é, das duas uma, não pensar nisso, classificando a questão na rubrica "mistérios", ou continuar dando graças a Deus, enquanto, pelo mesmo evento, outras famílias roem-se de dor e luto... De qualquer modo, deve ser por isso que as Escrituas disseram que Deus não dorme. E como poderia, com tanta culpa na consciência?



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

(2010/130) Da persistência da memória na dor cotidiana


1. Há personalidades prontas para determinadas espiritualidades. Há personalidades prontas para um kardecismo que explica pecado e dor como modus vivendi assumido nas negociações pré-encarnacionais - pecado e dor estão sobre a mesa, e são renegociáveis, sempre. Há espiritualidades prontas para assumir a condição do pecado e da dor como pagamento de dívidas atuais e passadas, tanto mais remissão quanto mais pecado e dor houver - pecado e dor tornam-se, por assim dizer, quase-gozo. Há personalidades que assumem dor e pecado como destino - pecado e dor tornam-se a areia da ampulheta. E há aquelas espiritualidades que vêm em pecado e dor a insuficiência, a falta, a culpa, a derrota de uma vida para sempre estragada, a mancha de uma folha a ser escrita, e, por isso, inutilizada para sempre. Para essas espiritualidades, o protestantismo funciona muito mais como um amplificador da consciência de culpa do que um amortecedor de sentimentos. Ser protestante, aí, não é opção - mesmo alheio às doutrinas, essa alma é, no todo, profundamente, inapelavelmente, inexoravelmente protestante. Nesse sentido, noções como perdão, doutrinárias, não conseguem apagar, jamais, o calor do fogo a calcinar a alma. Talvez por isso eu deteste tanto Agostinho. É-me um co-irmão de culpas. Talvez a diferença seja que, nele, corpo e mente capitularam. A minha, inutilmente, rebela-se...










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

(2008/104) Da minha própria "mão direita"


1. Haroldo, colheram da própria fonte, de Benjamin, a confissão da razão de seu suicídio? De onde vem a interpretação de que teria sido por "desespero"? Aliás, de onde vem a razão para que seja tirado do "homem" (e da "mulher") o direito ao suicídio? O homem é o único animal que tem poder sobre a própria morte, e apenas uma teologia que roubou do homem sua própria auto-determinação, uma teologia de sacerdotes, uma teologia de Governo e Poder, de controle social, é que ainda demoniza ou transforma em "pecado" e "covardia" o suicídio. Não penso assim - penso que deveria ser concedido, socialmente, como direito reconhecido, o direito ao suicídio. Que, diga-se rápido, cada um tem - nós é que fingimos que não temos.

2. Além disso, não sei se a única explicação para o suicídio de Benjamin, salvo se ele a confessou a uma testemunha, seja o desespero. Pode ter sido a coragem. Pense em Massada! Foram covardes e desesperados? Ou, antes, preferiram dar cabo de si a serem trucidados pelos romanos? Morrer, judeu, pela mão de cães nazistas? Antes, por um ato de soberania sobre a vida, sobre o corpo... Não sei.

3. Nossa aproximação ao tema do suicídio ainda me parece contaminada por uma teologia mitológica que teima em considerar-se portadora de informações privilegiadas - "reveladas" - que, ao fim e ao cabo, têm, apenas, a função de controle de consciência. Diz-e, amiúde, que o povo gosta disso. Pergunto-me se o povo não foi levado a gostar disso. Quanto a mim, desgosto até o desconforto físico. Já não posso mais nem ouvir certas coisas, que a pele me empola. Não empola, Bel? Empola...

4. É, sim, bastante prudente conter a língua. Se a informação que você nos traz é verídica, o fato de Walter Benjamin nunca ter conseguido a vaga apenas expõe a verdadeira face daquele sistema: arena do conhecimento? Olimpo de vaidades... Mas não há de ser sempre assim. Penso que a ciência, a academia, além dos canalhas que em todo lugar há, a História da Igreja não me deixaria mentir quanto a isso!, está cheia de bons sujeitos, que sabem e saberão ser criticados naquilo que dizem e escrevem, quando a crítica é àquilo que dizem e escrevem. Se não souberem, bem, estão no lugar errado, e é a força da política que os mantém ali. Não sei se um Walter gostaria mesmo de sentar-se à mesma mesa...

5. Finalmente, uma crítica ao citado que você fez: "'Pois a tradição ordena o passado não apenas cronológica, mas antes de tudo sistematicamente, ao separar o positivo do negativo, o ortodoxo do herético, o que é obrigatório e relevante dentre a massa de opiniões de dados irrelevantes ou simplesmente interessantes'". Como assim, Haroldo, "a tradição ordena"? Penso que há um equívoco aí, uma disfunção sintático-subjetiva, igual à que Vattimo comete quando fala sobre a "Hermenêutica" como uma estrutura operativa. Nem a tradição ordena nada, nem a hermenêutica diz coisa alguma. Ou me esquivoco?

6. O que chamamos de tradição é o quê? Pense no Planeta - é o conjunto das informações, em sentido amplíssimo, disponíveis para o conjunto dos homens e das mulheres - hoje em dia vai-se criando uma tradição planetária, mas ela ainda está longe de emergir - com os quais eles vão-se construindo, recursivamente. Nessa perspectiva, algo parece uno. Mas não é - é falsa a percepção. O que há são tradições. Aproximemos o foco, como se pode fazer hoje no Google Earth. Reduzida a escala, surgem as tradições continentais. Reduzindo, as regionais. Reduzindo, as sub-regionais. Reduzindo, as locais. Reduzindo, as familiares. Reduzindo, as pessoais. Isso sob recorte geográfico, mas há outros: político-ideológicos, religiosos, econômicos... O que há é uma rede de informações disponíveis - não subjetivas -, imbricadas, umas sobre as outras, às vezes limítrofes, às vezes conflitantes. É no encontro ecológico com/em tais redes que pessoas ordenam tais informações.

7. Se a pessoa que ordena a informação tem poder social, ela constitui uma ordem - Tradição. Por outro lado, a autonomia nada mais é que, igualmente, ordenação de informações disponíveis na tradição. Nunca é a tradição que faz coisa alguma, mas são sempre pessoas que, utilizando-se da tradição, fazem as vezes de Deus e do Diabo. Não se trata de não dar nenhum papel às tradições - sem elas não há o "humano": mas é ter a clareza epistemológica de conceber que o humano, aí, não são as tradições, que são noológicas: "humano", aí, são as pessoas - e são elas que agem teleologicamente - claro, sempre, em face das tradições... Contudo, tradições não agem, não fazem nada. Fazem-se, por meio dos e nos homens e nas/das mulheres que as operam.

8. Não há destruidores de tradição - nunca houve, nunca haverá. O que há são destruidores de Tradição, críticos do Poder, desmancha-prazeres, serpentes surdas, "almas" em constante suspeita das intenções, críticas, pessoas cientes do "murmúrio" platônico-republicano da Cidade Bela (se cabe um citado: "não leio uma palavra sem ver logo o gesto que lhe pertence" [Nietzsche, O Anticristo, p. 86]). Também elas têm que escolher dentre positivo e negativo, tanto quanto o Poder faz sobrederminar às pessoas sua própria - do Poder - escolha.

9. Há muito que se sopesar. Digamos que outro estivesse na pele de Benjamin. Digamos que outro imaginasse seu destino na mão de nazistas - esse outro, ele, um Übermensch, na mão de nazistas?, nunca! Antes morrer... Nenhum animal da terra é capaz de fazer isso: elefantes, leões, focas, leões-marinhos, tigres, macacos, cães - metêmo-los em nossos circos, adestrâmo-los, e os fazemos saltar, salta macaco, salta, e ele, coitado, salta. A um espírito crítico, tentar fazê-lo saltar é a mais terrível das dores - é insuportável dor. Se lhe escapa o poder contra o domador, recorre ele, triunfante, à sua própria "übermenschicidade" - sobre mim, não!

10. Haveria, contudo, uma razão para outro não apelar para a mais distintiva das faculdades humanas - a manutenção de sua prole: mas até isso não será, digamos, genético, biológico, logo, não-distintivamente humano? Seja como for, abrir-se-ia mão da dignidade, da autonomia, para dar pão à prole. Mas, eis como a vida é um acúmulo de absurdos - sabendo a prole disso, com quantos grãos de areia não mastigarão o pão?, com quantas doses de losna não beberão a água?: com lágrima e dor passarão pela vida. E, todavia...

11. Nada é mais pacífico, mais sossegado, do que a ingenuidade, a inocência, a puerilidade. Perdi-a. Doravante, é apenas dor. Quisera haver mitos que a mitigassem. Não há. É viver dolorosamente. Mas, sobretudo, viver... talvez à espera de um mito novo, um mito que se disfarce tanto que perca sua cara de mito, conquanto continue, inexoravelmente, a sê-lo.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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