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domingo, 14 de março de 2010

(2010/224) Evangelho como moral, Evangelho como ética


1. Desde a Reforma, um lento mas inexorável movimento de "moralização" e "eticalização" do Evangelho pôs-se em marcha. À medida que e quanto mais avançavam as conseqüências da própria Reforma - secularização, emancipação, crítica -, tanto mais as dimensões místicas do "sacramento" iam se dissolvendo na racionalidade, de modo que a racionalização da fé viu-se premida à transformação do Evangelho em "moral" e "ética" - as novas plataformas sobre as quais era possível um discurso evangélico racionalizado, à medida do homem europeu.

2. O lado pietista/puritano da caminhada foi maximamente premido pela exigência de transformação do Evangelho em moral. Trata-se, nesse caso, do modelo do "crente-é-aquele-que-não": não fuma, não bebe, não joga, não xinga. É a "moral" do não, da castração, como se "educação" fosse a contenção das forças naturais. Teve lá e tem por aí seus seguidores. De resto, todas as comunidades têm seus momentos de pietismo/puritanismo, quando é de convir... É, ainda posso anotar, muito reveladora, freudianamente reveladora, que essa característica dessa corrente pieeitista/puritana a torne co-irmã da vertente "liberal", que ela tanto contesta - ambas são "moralistas", ainda que sob dinâmicas diferentes, tanto quanto são, ambas, subjetivas, da ordem da experiência... Xipófagas...

3. Uma outra corrente, dita "progressista", dita "evangelical", viu-se mormente forçada a converter o Evangelho em ética. É a versão "positiva" - "sim" - da corrente anterior - "não". Mas é a mesma coisa, trata-se do mesmo fenômeno protestante. Trata-se da tentativa de dar uma "cara" sócio-antropológica, logo, "moderna", ao velho Evangelho cristão. De fato, muitas das proposições da ética moderna podem ser assentadas em algumas das boas declarações postas em Jesus, nos Evangelhos. Naturalmente que há um esgarçamento sempre crescente na base dessa corrente, como ocorreu com as CEBS, de onde saiu o PT - chega uma hora quando o "valor" político - a ética - percebe-se como comparativamente fundamental, e pressente seu atravancamento pela "espiritualidade", e o abraço se desfaz...

4. Devo arriscar um juízo: essa vertente ética do Evangelho caiu numa armadilha, própria da caminhada secularizante da Reforma: se o valor do Evangelho é o valor ético, resulta necessário dizer que o que quer que haja de não-ético nas Escrituras e na Tradição cristã não tem valor, assim como, ao contrário, mas do mesmo modo, tudo quanto haja de ético em qualquer religião, em qualquer lugar, em qualquer cultura, tem valor. A ética tornou-se um valor maior do que o sacramento, do que a revelação, do que a inspiração. A ética fez do Cristianismo uma religião como qualquer outra, e, da fé cristã, um exemplo de todoas as demais. Nada mais é singular nos arraiais paulinos... Imagine-se: toda a Tradição da "posse" da "terra", inequívoca narrativa não-ética, posta como fundamento... do céu... Não admira a caminhada histórica desse Cristianismo ali alicerçado...

5. Não estou reclamando, não. Por mim, é por aí mesmo. Todavia, acho muito curioso, para dizer pouco, que os defensores dessa corrente "ética" do Protestantismo não se apercebam - nao?, será que não, mesmo? - de que, se com a boca, afirmam que o valor evangélico é a ética, com a mesma boca não podem a firmar que o Evangelho é o único caminho - porque não é verdade que a ética só se encontre no Cristianismo - muito pelo contrário. Se o Cristianismo - se a Teologia - deve curvar-se (e deve!) à ética, eis aí um valor maior... Mas a mesma boca contradiz-se, afirmando as duas coisas, uma a anular a outra...

6. Quando ouço pastores evangelicais pregarem e blogarem sobre a exclusividade do Caminho evangélico, e, ao mesmo tempo, defenderem o valor ético da fé, pergunto-me se estou diante de alguém que não faz contas do que diz, ou se diante de alguém que faz, mas faz que não faz, porque, como Paulo, quer, por todos os meios, ganhar a todos - não importa como...

7. Para mim, que, sim, abraço a tese de que a ética é um valor incomesuravelmente maior do que o sacramento e a religião, conquanto sacramento e religião tenham seu valor cultural, mas não superior ao da ética, o valor de uma passagem bíblica, o valor de um dito de Jesus, não está em ser bíblica ou em ser de Jesus - se for ética, tem valor, se não for, não tem, e, nesse caso, mesmo se bíblica, mesmo se de Jesus.

8. Mas não nos enganemos: não há ética absoluta. Ética é valor construído, valor humano, valor histórico. Não me venham com fantasias os pregadores de uma ética de Deus. Há paciência para tudo...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 20 de dezembro de 2009

(2009/653) "Ser grato a Deus" - tá, agora: traduz


1. Ontem, ouvimos muito, mas muito mesmo, sobre ser grato a Deus: por meio de uma canção especial, por meio de uma canção de fundo, por meio de pronunciamentos formais e "informais". Havia, decerto, uma urgência em se reconhecer a necessidade de ser grato a Deus.

2. Muito bom. Mas - cá entre nós: na prática, o que é que isso significa?

3. Na boca do sacerdote, significa... submeter-se. À hierarquia, primordialmente, e, nisso, às doutrinas, às disciplinas, às práticas. Na boca do missionário, significa sustentá-lo, porque urgente é a missão. Na boca do professor, significa estudar, significa dedicar-se, render boas notas, estar presente. Na boca do profeta, significa a prática da justiça - bem, ao menos se esse é um dos profetas clássicos, do estilo "Amós", porque, quanto aos profetas de hoje, melhor deixar pra lá. Na boca do cantor gospel, ser grato a Deus significa alguma coisa entre comprar o CD e ir ao show, quando não as duas...

4. Se você ouve um pastor midiático da TV brasileira (finalmente um Evangelho à altura das programações culturais!), logo há de compreender que ser grato a Deus significa pagar o carnê, ir ao Templo Maior, ofertar, dar, doar, contribuir, "devolver" (ah, o argumento da jugular...).

5. Ou seja, trata-se de um jargão, uma expressão sem conteúdo próprio, uma caixinha, onde cada um põe dentro o que quer. Esse, põe dinheiro, aquele, caridade, aquele, presença no show gospel do sábado, aquele outro, seu próprio interesse. E assim vai.

6. Definitivamente, essas frases de efeito, ainda que sejam pronunciadas entre - literalmente - soluços de choro midiático, ao microfone, não me entusiasmam mais. São vazias. Ocas. Às vezes, são até sinceras. Outras, hipócritas. Outras, de má fé. Mas nada disso importa: a frase, em si, não significa nada...

7. Eu prefiro dar a ela um sentido "meu", que, de qualquer modo, não é tão meu assim, ainda que bíblico. Trata-se do sentido de viver como os pais querem que os filhos vivam - saudáveis e felizes. Pai, o que queres para mim? Que, primeiro, filho, tenhas saúde e que, então, sejas feliz. Tá, pai, mas o que queres que eu faça? Não, não, meu filho: não é o que eu quero que faças - é o que você quer fazer. Faça isso, e seja feliz. Farás, assim, teu pai - e tua mãe! - felizes...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

(2009/465) Jesus acaba de comprar São João de Meriti...


1. ... e eu não sabia. Sério: foi afixado um enorme letreiro na Dutra, ali ao pé do viaduto principal de São João de Meriti: "ESTA CIDADE PERTENCE A JESUS". Queria saber quem vendeu...

2. É triste, e lamentável, é deplorável, mas os evangélicos não aprendemos absolutamente nada, nada vezes nada, com a História. Somos uma República, meu Deus! Em São João, há cidadãos que não atendem pela fé em Jesus, o Cristo - kardecistas, umbandistas, judeus, hare krishnas, tantos outros... Aí, um bando de evangélicos megalomaníacos, inspirados por uma patologia civilizatória, uma síndrome de violência (agora) simbólica (porque já foi, um dia, violência física) passando por cima do valor de cada cidadão, expõe a fé cristã a esse ridículo obscurantista...

3. Que Deus nos perdoe! A vergonha me lava dos pés à cabeça. A cada dia, o Evangelho prova que ainda não chegou ao fundo do poço! Temo pelo ponto de não-retorno...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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