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sábado, 27 de fevereiro de 2010

(2010/163) Tudo faz sentido, agora


1. Tempos Modernos, de Charlie Chaplin versus Another Brick in the Wall, de Pink Floyd - por trás, a crítica à "produção em série", de tudo, de todos, a mecanização da vida e a desumanização do homem. Um século - o XX - de "tempos modernos" - e duvido que tenhamos saído deles...





2. Quando a educação se torna comércio, a serviço do comércio, do jogo do comércio, quando as pessoas contam como peças de engrenagem, quando entram no "projeto do futuro", o que está em jogo é a própria concepção de vida humana - para além de vida de gado.



3. Mas, se até a religião, religião de salvação, virou, de novo, comércio, haverá esperança para nós?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. Para a seqüência de Modern Times: partes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9.

domingo, 31 de janeiro de 2010

(2010/122) De pais e mães e filhos e os tempos modernos


1. Confesso - sou careta. Muito, muito careta. Quem lê meus textos de crítica mordaz à Teologia "de cabresto", às pseudo-exegeses confessionais - faz-me rir! -, bem como às mais novas abordagens metafóricas da velha fé doutrinária deve imaginar-me um cara "moderno" - geralmente se conclui, erradamente, que a "crítica" é irmã da contravensão. Eis que o sou, em termos de ciência, de Teologia, de relações sociais, mas, não, em termos de cultura, de família, de costumes, das relações humanas. Não, não devo isso à Igreja - aliás, penso que as única coisas que realmente devo à Igreja são Bel, que lá conheci, as Escrituras, que desde que me tornei batista, devoro e desconstruo com sofreguidão, e minha "carreira", toda ela, teólogica. A fé?, não. A educação?, não. A moral?, não. Tudo isso, recebi de berço. Era assim, naquela época.

2. O mundo atual me atordoa. A moralidade difusa, a sexualidade aberrante, as libertinagens inconseqüentes, as bebidas alucinadas e as substâncias alucinógenas, o fumo, o desrespeito generalisado... tudo isso me desalenta. Ah, sim, vocês me veriam defendendo o direito de os cidadãos optarem por essa via: mas o faria por questões de caráter político-filosófico, conquanto não consiga imaginar um filho meu adotando essas novidades modernas. Sim, sou quadrado.

3. Ter sido quadrado, desde a infância, por força de educação, fez-me ter um contato curioso com Mama Maria, do Grafite, porque a letra se punha nos limites da transgressão. Era 1982, eu acabaria aí meu segundo grau, e, em dezembro, tomaria meu único porre na vida, um copo de Fanta com Vodka. Eu tinha o quê? Dezesseis anos. Faria 17 dias depois do porre... Exército no ano seguinte e, em agosto, a fé batista...

4. A letra fala(va) de u'a mãe que ficava na cola da flha, de olho nos marmanjos que a godevaram, ela, a presa, eles, os caçadores, a mãe, a leoa indomável... Meu instinto adolescente adorava a música, o som, a letra, mas, ao mesmo tempo, meu espírito "centrado" conseguia olhar mais para a mãe do que para o tubarão à caça da sardinha... Minha torcida era quadrada, digamos assim. Esse ano, um aluno me contou que teve problemas semelhantes com a filha, treze anos, abordada por um marmanjo na escola. Um boa conversa entre eles, se me entendem (o pai e o marmanjo) resolveu a "parada"...

5. Se nunca desobedeci minha mãe? Sim, claro. As aulas da tarde terminavam mais cedo, eventualmente, e, em lugar de eu ir direto pra casa - ordens! -, ficava jogando queimada na porta da escola: foi o máximo que me aproximei de meninas, então... se bem que teve aquela vez da "pera, uva, maçã"... Dava o horário da última aula, ia eu embora... Um dia, fui jogar queimada em outra rua, mais longe. Para voltar para casa, tinha que ir pelo lado contrário da escola. Ao me aproximar de casa, vi a fera no portão... Como explicar por que eu vinha por essa direção? Dei a volta correndo pela rua de cima, para poder chegar "pelo lado certo". Santo? Não, absolutamente - Deus o sabe! Mas afrontar mãe? Jamais!

6. Por isso, mais tarde, aí já era até crente, já, apaixonei-me pela letra de Namorinho de Portão, cantada pelo Penélope e que, agora, descubro ser do Tom Zé. Falava daqueles anos de inocência, dos quais tenho saudade. Não, não gosto da selvageria carnal que se vende na TV, que se vê na juventude. Odeio filmes de traição conjugal - mas fui condescendente com As Pontes de Madison... Isso nunca leva a bom lugar. É preciso que os instintos sejam tratados de forma absolutamente positiva, mas é ainda mais preciso que o respeito, o bom senso, a responsabilidade esteja à mão. E ainda acho que essa é, acima de tudo, uma coisa de pai e mãe, uma responsabilidade de adultos. Não garante, absolutamente, nada, mas a educação de pai e mãe é de suma importância.


7. Sinto que os dias não são bons. Sinto que algo de melhor foi deixado para trás. Acho que a perda da qualidade da vida da juventude coincida com a saída das mães de casa, para trabalhar. Sem pai nem mãe em casa, a situação saiu do controle. Acho isso triste. Tomara tenhamos já chegado ao fundo do poço, e que a juventude perceba que a lascívia, a imoralidade, as bebedeiras, as drogas, não são coisas boas, não. Não se trata de um discurso evangélico, nem moralista - sou, por exemplo, a favor da eutanásia, do aborto e do "casamento" civil para homossexuais, sou contra o uso de símbolos cristãos - porque, religiosos mesmo, não os há, só cristãos - em órgãos públicos: sou republicano! Se trata do discurso de um pai, que não agüentaria ver seus filhos destruídos pela diversão moderna, mas que vê a juventude ir ralo abaixo. Disse diversão? Perversão...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 10 de outubro de 2009

(2009/536) Do frio norte finlandês - um país maravilhoso?


1. Isabela Nogueira postou uma crônica em três "capítulos" no blog do Nassif - "Diário de Viagem". Tendo residido na Finlândia, traça um perfil da sociedade finlandesa. Descreve-o como um país que superou todos os problemas básicos da civilização - saúde, educação, cultura, violência. Descreve uma sociedade quase "utópica". Fosse em outros tempos, poderíamos ouvir o depoimento de Isabela como quem ouvia falar do "Paraíso", as terras d'além mar...

2. Isabela compara a sociedade filandesa com a brasileira, e, nesse ponto, sobre às alturas da ironia, para, assim, desancar a nossa elite mesquinha, nossa classe média-alta que se nutre da pobreza alheia, sem, será, dar-se conta do crime que auda a cmeter. Ao final, discorre sobre o paradoxo da sociedade filandesa que, apesar de ter chegado aos mais altos graus de cvilização do planeta, apresenta-se como, no parecer da cronista, uma sociedade apática, a-crítica, submissa ao extremo às autoridades e aos pais - ou seja, à tradição.
3. A descrição de Isabela não é recebida de todo pacificamente. Comentaristas do blog do Nassif, que também residem ou residiram na Finlândia, ora ratifica, ora retificam sua perspectiva. Mas uma coisa é certa - a vantagem de ter nascido no Brasil deve gravitar em outra área que não o respeito à dignidade humana, o respeito ao cidadão. Vai ver Deus nos deu o jeito misturado e o samba, vai-se saber, para açucararmos as sociedades perfeitas do laneta que, posto que perfeitas, insossas. Mas, se me perguntam se eu queria morar lá, bem, eu diria que, tirando os nove meses de neve por ano, sim, queria, sim. Se eu pagaria o preço que Isabela diz ser cobrado, bem, pagaria sim. Mas o que eu queria mesmo é um Brasil finlandês...








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 31 de maio de 2009

sexta-feira, 29 de maio de 2009

(2009/309) Aquele semblante


1. Nunca saberei ao certo. Deveria perguntar, assim, de chofre? Não, não eu, não alguém com a minha personalidade. É que, em ambientes formais, eu consigo intrometer-me na formação dos alunos. Mas, fora daí, nos encontros fortuitos e esporádicos, sinto-me tolhido por uma timidez e um constrangimento provenientes da infância.

2. Hoje re-encontrei, por acaso, um ex-aluno. Talvez tenha sido meu aluno há uns, o quê?, dez anos? Talvez mais, talvez menos, não sei mais ao certo. Mas lembro-me muito de seu semblante - um ar de depressão e tristeza, de "estar perdido", continuamente. O semblante dele foi esse desde que o vi, pela primeira vez, acentuou-se, sem muita transformação, contudo, durante todo o transcurso da Graduação, e, na formatura, cuja turma levou meu nome, ele me disse hoje, e eu não lembrava, lá estava aquela fisionomia, aquela máscara de depressão viva, aquele esgar triste dos desesperançados irremediáveis.

3. Disse-me que abandonou o projeto pastoral. Ensaiei pedir a razão, mas, antes de o fazer, ele já ma adiantou: Teologia, Osvaldo, desmonta a gente. E ele se foi, triste como da primeira vez, uma aparência de extrema fraqueza e debilidade, quase canina, eu diria, desses cães de rua, cansados de pontapés e enxotamentos.

4. Há alunos que não conseguem reconstruir-se. Estão irremediavelmente perdidos, coitados. A educação castradora que tiveram, seja em casa, seja na Igreja - normalmente, nos dois cárceres - faz deles expressão bovina e heterônoma de terceiras consciências. Suas vidas inteiras estão depositadas sobre a certeza que adquiriram sobre afirmações das quais não têm a mínima idéia da origem, exceto que se matariam na defesa de sua proveniência divina. Tudo são, tudo fazem, tudo crêem em face da doutrina que decoram, que se lhes inculca. São cascas ocas, eco de dogmas catequisados, obediência servil a idéias controladoras, travestidas de divindade...

5. E, então, deparam-se com a Gradução em Teologia. Mas isso somente em poucas Graduações. A maioria não passa da extensão assassina da humanidade potencial dessas criaturas privadas da existência própria, vampirizadas por Deus e pelo Diabo, cujo corpo é o próprio cenário do Armaguedom, e cuja alma é escrava. Há, contudo, Graduações pensadas para a emancipação da consciência, que promovem a autonomia, a reflexão, a crítica. Isso - e apenas isso - é "educação". Aquilo, catequese e reprodução em série. Cemitério antropológico.

6. Todavia, quando alguns poucos, raros, mesmo, mas, nem por isso, insignificantes, alunos deparam-se com a tempestade de liberdade, apenas conseguem desconstruir-se, porque dão de cara com a obviedade de estarem aprisionados a sistemas doutrinários falsamente apresentados como "verdadeiros" e "divinos". Desconstroem tudo, mas, porque foram apenas catequisados, porque desmontaram-lhes toda a estrutura mental, não sabem reconstruir-se, não conseguem - e perdem-se.

7. Esse menino, hoje, é um deles. Descobriu-se roubado da vida, descobriu que lhe mentiram a vida toda, até aquele dia, e, contudo, descobrir isso foi dar de cara com a constatação de que lhe faltam, agora, as condições de reconstruir-se. Para ele, para esse tipo de "teólogo", a Teologia constitui uma experiência apenas negativa, iconoclasta, como tem de ser, como é, mas não conseguem, depois, municiar-se também dela para sua reconstrução pessoal - só lhes resta viver com o espelho diante da cara, sabendo que, para eles, chegou-se ao fim da linha.

8. Trabalha, agora, numa empresa de telefonia. Teologia? Queria o Mestrado, Osvaldo. Talvez, quem sabe, eu caminhe. Procure a PUC. Onde fica? Na Gávea... Ah, você terminou seu doutorado? Sim, terminei, sim, lá. É caro? Provavelmente, sim, mas o curso é subsidiado, e você não paga nada. Vai lá, faz entrevista, faz a inscrição, faz a prova. Quem sabe? É, vou ver...

9. Bem, quem sabe ainda não é tempo de a Teologia fazer a segunda parte de sua tarefa pedagógica? Sem desconstruir-se, ninguém faz Teologia com seriedade, vindo de onde vem. Mas a tarefa da Teologia não pode ser apenas desconstruir ou permitir que se desconstrua o sujeito - deve ser mais nobre: deve promover todos os meios para que o sujeito de refaça, se recrie. Isso - recriar. Teologia é cosmogonia pedagógica. Mas há sujeitos, meu Deus, tão destruídos por dentro, que, uma vez desonstruídos, fica, apenas, um caos imenso e insano... ah, sim, e dor, muita dor.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 4 de maio de 2009

(2009/249) Naturalmente que não vale apenas para São Paulo


1. Do Blog do Nassif, repercussão que por sua vez se faz de entrevista da Folha "com o diretor da melhor escola da rede estadual de São Paulo no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) - e 2.596o entre todas" - a entrevista desanca sem dó a burocracia e a política educacionais do Estado de São Paulo. Naturalmente que valeria sua aplicação não apenas para São Paulo...

2. Quando a educação não virou mercadoria comercial, virou objeto de manobra política. Não é à toa que a educação, em amplo sentido - formal, institucional, moral, ética, cidadã - tenha se deteriorado significativamente desde o final do regime militar. Não se trata, não é meu caso, de "elogio" ao regime militar, mas de acusação ao sistema educacional pós-ditadura, que, além de ter jogado no lixo o que de melhor havia, converteu-se em mera rotina de administração política.

3. Durante toda minha idade escolar, residi em Mesquita. Estudei em escola pública (municipal e estadual) e concluí o segundo grau em 1982. Com exceção da EPCAR (Escola Preparatória de Cadetes do Ar), já que nunca na vida estudara geometria, e a prova de matemática era 100% geometria (mas minha performance em Língua Portuguesa foi acima da média), passei em todas as provas de minha vida, e isso por causa da base educacional que eu tinha, sem cursinhos nem nada. Méritos meus? Sim, mas também da Escola Municial Márcio Caulino Sares e do Colégio Estadual Presidente Castelo Branco.

4. Hoje, no entanto, se não são as raríssimas exceções, como a dessa escola, cujo diretor foi entrevistado, e contitui um relativo "sucesso" em decorrência até de desobediência de seu diretor em relação às estratégias e determinações superiores, apenas as escolas particulares, a preços exorbitantes, naturalmente, conseguem promover ensino de qualidade, do qual as camadas mais necessitadas da população estão absolutamente alijadas.

5. Se esse quadro não se corrige - que futuro? Futuro? Que presente?!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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