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terça-feira, 9 de novembro de 2010

(2010/565) Um caminho poético para a Teologia?


1. Primeiro ponto: os místicos medievais não fazem rigorosamente poesia - fazem teologia, mistica, devoção. Quando sentam para escrever, não estão pensando em "fazer poesia": estão pensando em "contemplar a face de Deus". Não são Quintanas - sao Ícaros. Se o caminho de que se servem para chegar até o lugar diante do trono é a poesia, bem, isso é irrelevante para a definição do estatuto pragmático dessa mística. Se o leitor concordar comigo que, pensando a letra do Hino Nacional Brasileiro, não se está, aí, diante de "poesia", mas de narrativa mítico-política instrumental e performativa, agora sim, na forma de poesia, mas, sobretudo, instrumento político, então não vejo como não há de concordar que o fato de o místico servir-se da "forma" da poesia para expressar sua devoção e contemplação deva ser tratado de forma diferente - o que determina o caráter da coisa que se faz é a intenção com que ela está carregada: poesia é poesia, mística, mística, e não será difícil encontrarmos poesias místicas, que são poesia, e não mística, e místicas poéticas, que são mística, e não, poesia.

2. Segundo ponto: o século XIX foi um século iconoclasta. A Teologia só pode passar "incólume" por ele por duas formas: a) desviando-o, como se não tivesse existido ou anatematizando-o, como o faz a Teologia fundamentalista, seja aquela que tecnicamente merece o adjetivo, sejam aquelas que o recebem mais por sua carga de conservadorismo doutrinário e reacionarismo sócio-cultural, tanto faz; e b) cooptando-o de modo acintosamente programático, desfazendo-o sutilmente, transmutando suas declarações de fundo, fazendo de conta que o que se disse ali não foi o que se disse ali, e que o que se descobriu ali não foi o que se descobriu ali. Sem essas duas alternativas que, a rigor, traduzem opção pelo tradicionalismo, resta à Teologia lidar com o fato de que suas mais belas anotações de página constituem mito - e isso desde que nasceu, e até hoje.

3. Dizer que as mais belas anotações de página da Teologia são mito é dizer que a Teologia sabe que essas palavras são dela mesma, inventadas por ela, inocentemente, vá lá, despudoradamente, muitas vezes - nesse caso, não faz diferença: seja a mula-sem-cabeça, seja Papai Noel, estamos diante de mitologias populares. O fato de que haja mitologias sofisticadíssimas (como as egípcias, por exemplo) não é relevante. Não estou dizendo que, dado o fato de se tratar de mito, não tenha valor ou seja necessariamente dispensável, descartável. Os mitos são o modo como a humanidade se instala sobre a superfície inatingível do real - o mito é a forma como o real transforma-se em "realidade", digamos assim. O problema é quando tomamos os mitos pelo próprio real, ou quando, cientes da diferença, cuidamos que vivemos... nos mitos... Isso para falar do problema que nós mesmos nos colocamos, porque ainda há o problema que os outros nos colocam - o problema da manipulação política dos mitos, o problema básico da reLigião e, mais recentemente, dos Estados nacionais modernos que, sob certo aspecto, assumiram para si o centro de gravidade de operação dos mitos - Pátria, Mãe, Morte... adorada, amada, salve!, salve!...

4. Pois bem, deixem-me dizer, agora, o que vim dizer: a poesia não é um caminho alternativo "melhor" para a Teologia, como se a doutrina estivesse num patamar de inferioridade instrumental em relação à "arte". Seja a doutrina, seja a poesia, quando se faz o que se chama (até aqui) de Teologia, então o que se está fazendo é transportar para um registro determinado - a "declaração de fé" axiomática, a poesia - uma "narrativa" mítica pré-existente (= mito!), que dá sustentação ao processo poético ou doutrinário. Não há diferença - exceto na forma - entre uma Teologia que se faça via doutrina e uma Teologia que se faça via poesia, porque as duas cuidam dar conta de algo (isto é, do mito!) que, deviam saber, é criatividade intrinsecamente humana.

5. Pode-se falar de Teologia poética e de Teologia doutrinária como "formas" distintas de se fazer a mesma coisa - em essência, trata-se de falar de algo que se concebe de um modo determinado. A poesia não nasce e se forma antes da narrativa - a poesia é, quanto à forma, uma expressão, uma retórica, uma máscara. A poesia, na Teologia, é segunda, é mediaão. Mas mediação entre o fiel e a fé, entre o crente e a crença - a auto-imagem que a Teologia poética faz e vende de si como mediação entre o fiel, o crente, e a divindade, bem, disso sabemos tratar-se racionalização mítica - ao menos aqui se assume que sim. A idéia de que a Teologia, servida em drágeas poéticas, seja mais "eficiente" do que a Teologia doutrinária incorre no equívoco de racionalizar o objeto sob interesse em questão - a "divindade e seus "mistérios" - sob o efeito do regime descritivo doutrinário: porque a poesia "sabe" que a "divindade" se comporta assim ou assado, ela então "sabe" que o seu modo - "poético" - de chegar até "lá" é mais eficiente do que o modo doutrinário. Ora - não fora a "doutrina", anterior, nesse caso, à poesia, a poesia vagaria sem saber para aonde, tartamudearia incomunicáveis balbucios ininteligíveis - e ao contrário, centenas de estrofes!, conquanto não chegue a ter a bocarra escancarada dos neo-ortodoxos alemães que, em matéria de dizer, mede-se-lhes às toneladas... Pode-se falar de distinção de formato de apresentação - até de "caminho" (de fato, uma Teologia poética tende a ser menos rígida, logo, mais tolerante) -, mas não se pode tratar a Teologia poética como algo substancialmente diferente da Teologia doutrinária.

6. Salvo, anote-se, se não se tratar de poeisa, mas de - tecnicamente falando - metáfora. Há em fermentação uma proposta de Teologia que a) começa na comunidade, b') passa pela tradição (enquanto meramente tradição), b'') espelha-se nas palavras dessa tradição e c) retorna à comunidade, sempre de modo instrumental e pastoral, sem qualquer referência "univocizante" à ontologia e à metafísica - ou seja, uma Teologia que diz que diz, mas efetivamente não disse, e o que diz diz apenas na intenção pastoral do "cuidado" do rebanho. Não estamos diante de poesia aqui, conquanto o formato seja poético, evidentemente. Já me referi ao fato de que a casca poética de uma peça literária não determina a sua pragmática - a pragmática está assentada sobre a intencionalidade programática da ação humana que maneja a peça. Não estou convencido de que seja possível fazer Teologia como autêntica poesia, assim como não estou convencido de que se pode fazer política como autêntica poesia - ainda que se possa usar, e bem, a poesia tanto para a política quanto para a religião.

7. Qual a relevância - ou o significado disso? Bem, em última análise é desfazer a aparência de que, caminhando por meio do recurso poético, está-se fazendo algo diferente do que se fez até aqui. Não, não está. A superfície da ação pode até parecer diferente a olhos menos atentos, eventualmente, menos informados. Mas basta que olhos mais argutos pousem sobre a flor exposta às patas dos insetos para se perceber o que a flor está a fazer. E toda a vida dessa flor e de sua espécie foi justamente fazer-se ainda mais encantadora, para, feiticeira, ter sob seu corpo muitos ávidos pezinhos delicados...

Partners (Paulo Ricardo / Paulo (PA) Pagni / Luiz Schiavon)
Cássia Eller
Eu pensei Em tanto pra dizer Enquanto esperei Por esse blues, por essa luz Esse solo, Esse som, No colo de Deus (e no seu) Morri de saudades Desse momento Andei tão sozinho Por tanto tempo Por tanto tempo só Eu nem se iSe devo confessar Um certo segredo Uma vontade que dá De repente Um rap, um repente Acorde cordel Que cai do céu Morri de saudades Desse momento Andei tão sozinho, tão só Por tanto tempo.


OSVALDO LUIIZ RIBEIRO

domingo, 21 de março de 2010

(2010/258) Quando a Teologia se fizer feérica




1. Nasci na fronteira do mundo, entre duas placas tectônicas, não sei dizer a intensidade do tremor que mais cedo ou mais tarde suceder-se-á. Não, o que se viu até agora, nada é se comparado ao que vem, e o que vem é a transformação de tudo, um mundo novo, mas não o de Colombo. Lá, a Teologia terá outra face, a música será seu sangue, a poesia, a sua alma, de fantasia viverão os teólogos, enquanto estudam atentamente. As musas e os anjos, alados, descerão dos céus distantes, e habitarão as antigas moradas da terra, pousando nos ombros das pessoas que tranqüilamente atravessam a rua. Nesse dia, então, aí sim, o mar terá a cor do céu, os homens serão sinceros, e não precisaremos mais ter medo. Água e ouro jorrarão de todos os lugares, mas cada um de nós só colherá o que lhe baste, porque não haverá preocupação quanto ao amanhã, porque o amanhã terá chegado e, com ele, o mar, os céus, a terra, a terra azul do mar do Caribe...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 19 de março de 2010

(2010/228) Pessoa, na voz de Bethânia


1. Eros e Psiquê, de Fernando Pessoa, declamado por Maria Bethânia - porque nada é tão superlativamente bom... que não possa ser ainda melhorado... Algo assim como a Bel... quando sorri pra mim...









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 14 de março de 2010

(2010/221) Antes Zé que Neemias


1. Animado pelo blog do Nassif, onde está transcrita, mas com alguma incorreção, recorro ao Jornal da Poesia, de onde extraio a poesia do Zé da Luz:


Ai! Se sêsse!...

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariasse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulice?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!


2. Lindo! São Pedro que se cuide e ponha as barbas de molho. Nada de querer se meter a besta de fechar a porta do céu pro amor do Zé da Luz. Peixeira no bucho! Se estivesse lá, naquele dia em que os zés judeus não queriam mandar embora suas marias, e um Neemias doente das cabeças e dos peitos os estapeia, lhes arranca os cabelos, tudo em nome de Deus, por causa dos amores deles, ah, duvido que Zé da Luz não puxasse de sua peixeira e estripasse ali o zé mandão, pra aprender a não bulir com a mulher dos outros... Acho que ali se faria outra Palmares... Mas não tinha Zé lá não, e foi aquele xororô todo, depois, e assim se fez Jerusalém...

3. Com agradecimentos a Carol, leitora de Peroratio:



4. Esse, por "minha" conta...




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 6 de março de 2010

(2010/188) Homo poeticus



1. Não, não é a afetividade o que distingue os homens dos animais. A afetividade é - já - coisa de bicho. Plenamente desenvolvida nos mamíferos, está, contudo, presente desde répteis e aves. Um colossal crocodilo a carregar entre os dentes a frágil cria - e mesmo, a quebrar-lhe a dura casca do ovo... Um pingüim a pôr debaixo de si o filhote pequeno... A felina mãe, a lamber os filhotes... Isso tudo são traços da afetividade que, em nós, seres humanos, plenipotenciou-se às alturas do sacrifício.

2. A inteligência, tampouco, é prerrogativa humana. Aliás, a inteligência humana nada mais é que um desenvolvimento complexo da inteligência - do cômputo (cf. Morin) animal. A célula, a ameba, a lacraia, o rato, a baleia - são inteligentes, desenvolvem e apropriam-se de conhecimentos do real, sobrevivendo de sua capacidade de mapear seu ecossistema, extraindo dele os nutrientes necessários. Chega-se a deparar-se com animais a produzir instrumentos, casas, jardins. Até dançam...

3. O que é plenamente humano é a poesia. Animais não fazem poesia, porque não "sonham". Animais são por demais adaptados à vida, por demais situados, por demais determinados. Por isso o Estruturalismo é desumanizante - porque imagina homens despoetizados, homens animalizados, macacos no galho do DNA. O Estruturalismo foi mais um golpe político do que um equívoco acadêmico...

4. A poesia é a nossa parte de deuses. Aliás, os deuses não moram em outro lugar que não a casa da poesia - literalmente. No dia em que a poesia morrer, morrem os deuses, e, deicida, o homem se achará inexoravelmente só. Quando nasceu, sabia viver só, sem poesia, sem deuses. Mas, depois que aprendeu a ser poeta, depois que criou o mundo dos deuses, desesperar-se-á, inevitavelmente, se voltar pra casa...




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

(2010/010) Assim também nascem os salmos


1. Entre poesia e folclore, entre arte e mito, salpicadas da dor das águas, as palavras vão-se tecendo, tecendo... Será se, à época dos Salmos, cantava-se assim, com gestos de entre o samba e a religião?



2. A letra de Conto de Areia está aqui. Entendo-a como a narração da tristeza da morena, que perdeu seu amor no mar... Como é da Bahia, tinha que ter Iemanjá no meio, e Beira Mar, claro... Porque, na Bahia, como no Oriente Próximo Antigo, nenhuma palha o vento levanta sem que os deuses determinem... Também isso, lembro agora, Jesus o disse...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

(2010/009) Eu também, Quintana, eu também





Recordo Ainda

Mario Quintana



Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

(2009/644) Deixai-me, pois, fingir!


1. Disse-o, do alto de sua cátedra, o poeta:


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente


2. Deveras... E também não apenas os poetas, mas as almas sensíveis, eu o diria, forjando aí uma distinção - se é que há. Porque, deixai-me explicar, tenho que ouvir o Mendes e sentir a dor fingida, porque, depois de Bel, é impossível sentir essas dores, malgrado elas arranhem cá o coração. Coisas do Pessoa. Deveras...

3. Primeira dor que finjo doer - tão dolorida que de fato dói a dor fingida: ela deveria ser ouvida, depois ou antes de se ler Eu, de Florbela Espanca...




4. Essa me força a imaginar o inimaginável...




5. Ah, esses poetas. Ajudam-nos a fingir de dor a dor que de fato existe. O poeta é alguém a que lhe faltou uma Bel...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 10 de outubro de 2009

(2009/539) Do peso de ser gente


1. De Florbela Espanca


Não Ser
Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
- Mantos rotos de estátuas mutiladas!
Ah! Arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! Poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!



Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!
Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de ouro de uma flor aberta!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 31 de maio de 2009

sábado, 30 de maio de 2009

(2009/310) O dia em que as musas gargalharam


1. E rasgaram-se as nuvens, e, nuas, excitadas as gotas da libido, as musas lamberam-lhe os olhos e meteram-lhe as línguas boca adentro. E ele disse:

2. Disse-o mais, mas, a essa altura, as musas gargalharam, rolaram de rir e suplicaram Elixir Paregórico - as cólicas me matam, diziam, quando podiam, quando o estremecer rítmico dos corpos gargalhantes permitiam.

3. E disseram:

3.1 "Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde"! Ah, mortal, tolo, insensato, cego! Agacha, besta burra, e olha o "plano verde" de perto, animal! Cada fiapo de grama tem milhões de carnes a se comerem vivas, mas tu és surdo, és cego, és parvo! Cada árvore, ameba!, tem milhões de bichos, uns a esperar topar com o próximo, a comer-lhe a cabeça, a arrancar-lhe uma pata, duas, todas, uma antena, duas, umas partes sem nome, tripas, caldos, nojos de fluidos e gosmas vivas, móveis, escorrendo. Vê ali, não, toupeira cega? Pois lhe conto o que é: são pequenas bactérias, mínimos e múltiplos fungos, devorando vivo aquele ser insignificante, que urra e geme e morre. Anota, quasímodo: fome, sede, fúria, ataque, mandíbula, garra, mordedura, picada, estocada, ferroada, corte, furo, serra, veneno e morte. É que não ouves, irrisão!, o chiado que soltam, dia e noite, esses chiados que são tão mais agudos e doloridos quanto mais são os atacantes, como formigas, como besouros, como correições de ácido com pernas sobre a carne exposta ao sal... E vens me falar de "indizível beleza e harmonia do plano verde". Poeta, é isso a poesia? Arrancas o olho pra viver, poeta?

3.2 Tu deliras! "A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio". Paz? Sabes a paz da Natureza? É a paz de um totalitarismo de não-consciências, o império da força bruta. A vida, ignorante, é uma força impiedosa, e, se não sabes, devias meter-se num buraco e calar a boca! Estúpido... As plantas se matam umas às outras, segregam toxinas, estrangulam-se mutuamente, lutando ferozmente por território - aqui, não!, aqui, não! A paz que pensas ver é apenas a palavra proibida, que mudas são para ti - mas não para nós. Nem as plantas, criatura de barro, nem as plantas, sabem o que é fraternidade. E os céus, ah, os céus, deliciam-se dessa orgia!

3.3 Ha! Ha! Ha! Matas-nos de rir! Que pérola cândida e rubicunda de pureza: "a pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula". Ah, é que vives sobre a terra. Mergulha, bagre, baiacu de escarro - os peixes se devoram, se entredevoram vivos, caçam, matam, mordem, engolem - viver, húmus!, é comer e defecar a carne comida, apodrecida no próprio ventre! Predam - a Lei e a Força estão ali, homem. Na savana, passa o dia com as hienas, e come vivas as gazelas, enquanto guincham à luz das próprias tripas... E quanto à cópula pura das formas vivas? Fábricas de mais e mais carne, que a matança e o sangue são divinos!

4. Ah, poeta, como te invejamos! Ah, se pudéssemos mentir, como tu, inventar, como tu, fingir, como tu... Ah se, para nós, existisse a fraude teológica! Essa consciência ígnea, ela iria embora? Ela desapareceria? Poderíamos viver com ares de gente grande, mas tão imbecis quanto tu? Ah, quem nos dera? Quem, homem, quem nos dera? Não, certamente, ele...

5. E quanto a tu, bicho-homem, agora Deus não descansou - e estás aí a fitar, de cara, a a-moralidade da sua obra!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 27 de maio de 2009

(2009/299) Cantares (de) outros (mundos)


1. Esse, cantar eu cantaria, porque, afinal, é fato, conquanto eu possa viver sem cantá-lo, enquanto a carne suportar o fel e a amargura da nudez da alma, que a crença alivia a rudeza da vida, a carne exposta é fria demais ao gosto dos costumes, os olhos, coitados, não podem fingir que é seda e pétala a carne rasgada pela dor. Não me furtarei, sob demanda, a dar carinhos às nuvens de crenças necessárias à paz do leito derradeiro, conquanto hei de me esforçar para olhar atrás do muro dos jardins e cemitérios, a ver donde brota e flor e onde se sepulta a vida.
Nada...
(Antônio Torres)

Nada!.... Filosofia rude e avara,
Na qual acreditei, com pena embora
De abandonar a Crença que esposara,
- A minha aspiração de cada hora.

Crença é o perfume dalma que se enflora
Com a luz divina, resplendente e rara
Da Fé, única Luz da única Aurora,
Que as trevas mais compactas aclara.

Revendo os dias tristes do Passado,
Vi que troquei A Fé pela Ironia,
Nos desvios e excessos da Razão;

Antes, porém, não fosse tão ousado,
Pois nem sempre a Razão profunda e fria
Alivia ou consola o Coração.

2. Sim, cantá-lo-ia. Entretanto, não esse outro, posto que aí vai tão-somente um grito de desespero, a negação do óbvio, sob o peso da evidência. Aí ensaia-se, apenas, a desrazão do engano, o esconder-se sob os panos, o desespero da pulsão. O homem que aí escreve - ou a mulher - nega. Negar é o remédio. É a crença derradeira.

Ao homem
(Augusto dos Anjos)

Tu não és força nêurica somente,
Movimentando células de argila,
Lama de sangue e cal que se aniquila
Nos abismos do Nada eternamente;

És mais, és muito mais, és a cintila
Do Céu, a alma da luz resplandecente,
Que um mistério implacável e inclemente
Amortalhou na carne atra e intranqüila.

Apesar das verdades fisiológicas,
Reflexos das ações psicológicas,
Nas células primevas da existência,

És um ser imortal e responsável,
Que tens a liberdade incontestável
E as lições da verdade na consciência.

3. Até parece que quem o escreveu acabara de ler O Método, e, particularmente, os volumes dois e três, e, no três, particularmente, os capítulos quatro a seis... Um homem intranqüilo e muito dados às crenças miúdas há de, decerto, ver-se tomado desse pavor poético e esses valores ontológicos.

4. Mas saiba o leitor, todavia, que os autores não são bem esses acima atribuídos. Encontram-se esses e outros sonetos e poemas na obra dita "espírita" Parnaso de Além-Túmulo, e dão-se os tais por psicografias dos espíritos dos respectivos autores. Bem, cá eu me dou o direito de não crer dessa forma, o que, contudo, não tira em absoluto o brilho dos poemas. Aliás, crentes muitos bem se serviriam dessas composições para arrostar aos néscios seus valores niilistas. Vale, para o autor "de verdade", o que valeria, tivessem sido escritos pelos homens que, agora, jazem mortos. Para onde irei, um dia. Oxalá, depois do dia de nunca-chegue-a-hora... E irei cantando. O quê? Só Deus sabe...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 18 de abril de 2009

(2009/178) Do perigo de se estar na poesia


1. Meu companheiro de blogosfera, Fanuel, falou, ontem (Um som, 17/04/2009), de viver o momento poético: "do lado de cá da tela, eu vivo o período poético". É bom o momento poético - é bem o que devia ser: sempre, um momento, não mais do que um momento. É bom que esse momento poético se deixe necessariamente intercalar por momentos de sobriedade e lucidez telúricas - fazermo-nos vermes da terra é prudente, conquanto, reconheço, mais austero. E o gosto da terra não é lá sempre muito bom...

2. Digo-o, contudo, em face de seu próprio recurso àquela velha história da sarça ardente: "cada vez que me aproximo do mistério, sinto-me culpado por chegar perto demais do fogo divino. É melhor tirar as sandálias logo, pois o chão é sagrado. A sarça é ardente". Ah, a poesia da sarça ardente... Contudo, quando se desce das nuvens e se cava a terra desde a qual parece ter brotado o arbusto, percebe-se que há alguma coisa de muito estranha, sim, aí, mas não exatamente o que Moisés pensou ter visto, como o próprio texto há de nos dizer, para perplexidade da boa tradução.

3. Qualquer um que o possa, por favor, vai lá em Ex 3,2-3. Seria mesmo muito instrutivo que descesse da estante todas as Bíblias que tiver. Lê-las todas produzirá um efeito de corroboração da longa história que contamos a nós mesmos e a terceiros, aquela história de mistério, de queimar-se a sarça, e não se consumir. Contudo, essa história lembra aquela dos "reis" magos, que de reis só têm a tradição - e não a bíblica...

4. Em hebraico, a história da sarça ardente se conta com dois verbos: queimar e comer (= consumir). Segundo nossas traduções, todas, ciosas da necessidade de serem mantidas as rotativas, o verbo queimar ocorre uma vez, e o comer/consumir, duas. Assim, o efeito é esse: a sarça queima, mas não se consome - vamos lá ver por que não se consome.

5. No entanto, o que está escrito é absolutamente outra coisa. O verbo consumir aparece uma única vez, enquanto as outras duas vezes pertencem ao verbo, sempre o mesmo, queimar. O efeito, desconcertante, é esse: a sarça queima, mas não se consome - a sarça não queima: não há uma corroboração do que antes de afirmara, mas uma contestação, uma negação - primeiro, a sarça queima, mas não se consome, depois, não, não queima, não. Concordo que é a minha contra a multidão de traduções no vernáculo, mas não é difícil que qualquer um aluno de gradução, depois de dois semestres de hebraico, vá lá no texto veterotestamentário (que seja a BibleWorks) e verifique o que estou dizendo.

6. É preciso uma resposta crítica para essa questão - e, convenhamos, a poesia não nos ajudará muito. Ela pode servir até para, depois, veicular os resultados da pesquisa, porque a poesia é veículo, mas não método para coisa alguma. Pode-se fazer poesia de direita ou de esquerda (poesia alguma é neutra), mas só se pode fazê-lo depois da pesquisa. Não será toda essa reverência programática ao "sagrado" um estado, hum "poético", quero dizer, pré-crítico?

7. No fundo, é impossível para a poesia constituir-se uma alternativa à crítica. A poesia pode, apenas, esconder um estado de passividade, de suspensão do juízo crítico, de encobertamento de uma posição política, que, para não assumir-se, disfarça-se em poesia. É um risco. Por outro lado, a poesia também pode servir para a expressão de uma posição política engajada, ostensiva, pública, seja de direita, seja de esquerda. A poesia é apenas momento ou de descanso estético, ou de expressão política. Não é, ela, jamais, momento de produção de conhecimento. Ela é, sempre veículo ou de um conhecimento, ou de um pseudo-conhecimento já articulado, encontrando-se, agora, a voejar pelo ar.

8. É necessária muita poesia, muita, em nossa vida: mas não no momento de arrancarmos da terra a sua substância. Nutrir-se dela, poeticamente, eventualmente.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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