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terça-feira, 18 de maio de 2010

(2010/384) Ser inteiro, quando nada, para ser


1. De Ricardo Reis, alter ego de Fernando Pessoa.


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.





2. Tá, crédito para Ricardo Reis, mas que isso lá é Eclesiastes, ah, é sim...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 19 de março de 2010

(2010/228) Pessoa, na voz de Bethânia


1. Eros e Psiquê, de Fernando Pessoa, declamado por Maria Bethânia - porque nada é tão superlativamente bom... que não possa ser ainda melhorado... Algo assim como a Bel... quando sorri pra mim...









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 4 de abril de 2009

(2009/140) Cruel é o mar...


1. De mar entendem os portugueses - é fato. De mar, também, entende o fado.

2. Está bem - de mar, também, entende Pessoa. Cá é que vai um peito por demais intranqüilo...





Canção do Mar

Fui bailar no meu batel
Além do mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar tão lindo

Vem saber se o mar terá razão
Vem cá ver bailar meu coração

Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo

Vem saber se o mar terá razão
Vem cá ver bailar meu coração

Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo.


Com Dulce Pontes


Com Amália Rodrigues:


SolidãoSolidão de quem tremeu
A tentação do céu
E dos encantos, o que o céu me deu
Serei bem eu
Sob este véu de pranto

Sem saber se choro algum pecado
A tremer, imploro o céu fechado
Triste amor, o amor de alguém
Quando outro amor se tem
Abandonado, e não me abandonei
Por mim, ninguém
Já se detém na estrada



Dulce Pontes


Dulce Pontes e Estrella Morente


Covers

Evelina Malanca

Eleni Peta e Panagiotis Margaris







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/139) Se valeu a pena?


1. Do livro Mensagem, de Fernando Pessoa, com ilustração de Pedro Souza Pereira: "Mar Português":

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena
.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

2. "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena". Ah, como fácil verga a língua do poeta. Como neve, ela degela sob a inclemência da palavra. Todavia, parece que as mães que choraram, os filhos que em vão rezaram, as noivas por casar, são todas pessoas outras que não o poeta. O poeta não é o marinheiro cuja mãe chora para sempre, cujo filho, debalde, ora e espera, cuja noiva, ainda agora, desespera. O poeta é, apenas, aquele que olha o mar, e lembra-se da dor por outros guardada, para que, agora, ele, o mar, o salgado mar das lágrimas portuguesas, fosse, agora, vosso. Ser vosso o mar valeu cada lágrima vertida e contida de um povo... Vosso é o mar - mas a dor é deles.

3. Nem falar das lágrimas - e, agora, também do sangue - de mães, filhos, noivas, pais, filhas, noivos, meninos, meninas, velhos, velhas, homens, mulheres, que, para além do Mar, encontraram-nos as naus portuguesas, cada ripa, uma cruz, cada caibro, um madeiro, cada prego, uma espada, cada marujo, um algoz. Perguntar, poeta, aos povos andinos, a ver se entendem de pequenezas e de grandezas de almas outras...

4. Se valeu a pena? Bem, cá estou eu, filho dessa saga de sangue, tendo na veia a memória das lágrimas de outrora. O que o poeta quer de mim é uma condescendência pessoal, uma justificativa do sangue, preço da minha vida. Não posso, poeta, não posso. Que chorem as mães, os filhos, as noivas, e sintam o fel de sua dor. Que desesperem os povos da América, sob o peso da capitânia lusitana. Cada qual chore a sua dor inconsolável. É tudo quanto nos basta - e viver.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
(Para os créditos do poema e da ilustração, cf. aqui)
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