1. De Florbela Espanca
Não Ser
Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
- Mantos rotos de estátuas mutiladas!Ah! Arrancar às carnes laceradasSer nostálgico choupo ao entardecer,
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! Poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de ouro de uma flor aberta!
OSVALDO LUIZ RIBEIRO
