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domingo, 21 de março de 2010

(2010/258) Quando a Teologia se fizer feérica




1. Nasci na fronteira do mundo, entre duas placas tectônicas, não sei dizer a intensidade do tremor que mais cedo ou mais tarde suceder-se-á. Não, o que se viu até agora, nada é se comparado ao que vem, e o que vem é a transformação de tudo, um mundo novo, mas não o de Colombo. Lá, a Teologia terá outra face, a música será seu sangue, a poesia, a sua alma, de fantasia viverão os teólogos, enquanto estudam atentamente. As musas e os anjos, alados, descerão dos céus distantes, e habitarão as antigas moradas da terra, pousando nos ombros das pessoas que tranqüilamente atravessam a rua. Nesse dia, então, aí sim, o mar terá a cor do céu, os homens serão sinceros, e não precisaremos mais ter medo. Água e ouro jorrarão de todos os lugares, mas cada um de nós só colherá o que lhe baste, porque não haverá preocupação quanto ao amanhã, porque o amanhã terá chegado e, com ele, o mar, os céus, a terra, a terra azul do mar do Caribe...



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 14 de março de 2010

(2010/223) Por que não sou músico


1. Não toco nada. Nem violão. Não, nem flauta doce... Não conheço ninguém pior do que eu, quando se trata de inteligência músico-motora... Acho que é problema de fábrica. Acho que é um defeito da planta. Lá em cima, na hora de me pôr na forma, alguma decisão superior mandou tirar, de minhas engrenagens, a habilidade musical. Mas deixaram, e talvez tenham exacerbado, a sensibilidade, a emoção, a hiper-sensibilidade, a super-emoção... Eu acho que, se eu tocasse piano, esse mesmo, como Amy Lee, eu acho mesmo que não agüentaria, acho que eu explodiria, literalmente... Assistir às perfomances desses músicos me produz um efeito evassalador na alma. Posso sentir a modificação cardíaca, da circulação, da respiração, dos hormônios... Sou, literalmente, tomado. Acho que eu enfartaria, de emoção, transportado para outro mundo, transladado para outras esferas, para nunca mais, se eu tocasse. Porque errou na dose de sensibilidade, Deus achou prudente aleijar-me as mãos. Queria-me vivo.

2. Acho que é por isso que eu chorava tanto, nos cultos, na década de 80. O que havia ali era essa música profundamente sensível, profundamente encantadora. Fui perdendo a capacidade de chorar choro litúrgico, e fui me deixando enganar pelo fato de achar que eu ia perdendo a espiritualidade... Mas não foi nada disso: foi a música litúrgica que se estragou, perdeu-se, morreu, de modo que toda a minha emoção voltou-se para a sacralidade notável das melodias de qualidade, não importa se clássicas, se populares. É a beleza, a mão suave da habilidade, que me faz chorar. Minha liturgia nada tem a ver com narrativas mitológicas ou doutrinas racionalizadas - tem a ver com a sensação de perceber as notas me tocarem a pele, a me invadirem os poros, a percorrerem minhas veias, a beijarem-me o córtex. Sim, é isso - essa é minha liturgia possível. Esse é o culto que me resta...

3. E porque só os vivos (te) louvam, ó Deus, impediste-me de tocar qualquer coisa, porque, se eu tocasse, eu morreria de morte litúrgica...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

(2010/129) De Teologia e Bach, via João


1. Em "resposta" ao meu post com Carmina Burana, João Neto, mestrando em História pela UFRJ, manda-me um vídeo de Vanessa Mae, executando, à frente de orquestra, Toccata and Fugue, em D menor, de Bach. Muito interessante a peça. Dela, retornei ao clássico de Bach, dessa vez executado por Kurt Ison. Pode-se compará-las. Vanessa dá à peça uma performance moderna, enquanto Ison permanece na esteira clássica... Você pode gostar mais da execução moderna de Vanessa Mae, ou pode preferir a execução clássica de Kurt Ison. No entanto, estará fazendo uma opção estética - uma questão de gosto... No meu caso, há dias em que prefiro Kurt - mas há momentos em que Mae cai muito bem...



2. O mesmo não se dá, contudo, quando se comparam as duas Teologias - a velha e a nova. A velha é a que ainda está aí: metafísica, "oracular", "revelada", racionalizante, aqui "normativa", ali "metafórica", aqui "evangelical", ali "fundamentalista", acolá "liberal" - mas, no fundo, a mesma e velha Teologia, nascida com o primeiro homem que viu um deus e que, no todo, equivale, ainda naquela rudeza primitiva, às maiores formulações alemãs da Teologia cristã protestante - não há nada de novo aí: nada.

3. A nova, nem nome tem, nem corpo. Talvez tenha um esforço em encarnação - uma Teologia-ciência, à medida das sugestões de Edgar Morin: um novo teísmo e um novo ateísmo (naturalmente que essa é apenas uma fórmula de incentivo...). Essa nova teologia perdeu o olho de Lobsang Terça-Feira Rampa, perdeu os ouvidos de Samuel, perdeu as asas de Ícaro - tem, apenas, a ousadia de Prometeu (e paga o mesmo preço). Ela é não apenas secular, mas, sobretudo, "republicana".

4. Mae ou Ison? "Tanto faz". Que Teologia? Bem - nessa opção subjaz um mundo novo... ou o de sempre...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 30 de janeiro de 2010

(2010/112) Cláudia Teles e Marizinha


1. Só tivemos TV lá em casa quando eu tinha 13, 14 anos. Se bem que na casa de meus avós e, eventualmente, na vizinha, houvesse TV - que, de vez em quando, víamos -, lá em casa mesmo, tudo era o rádio. E o rádio tem a magia de não deixar você saber como é a fisionomia de quem canta. Você só ouve a voz, fica hipnotizado. Quando Bel e eu casamos, em 1987, estávamos tão pobres que não tínhamos TV, só um rádio-relógio, presente do Josué (que a enchente de 1988, em Mesquita/RJ, vai afogar em 1,5 de lama - mas ele vai sobreviver!). Sentados no chão da cozinha, ouvimos quase toda a novela Pantanal ali, no rádio. Era mágico - uma experiência transcendental... Mais tarde quando pudemos assistir à novela na TV, duvidamos que se tratasse da mesma coisa - não, não, Pantanal era milhares de vezes mais fantástico do que aquilo que, agora, estava ali, diante de nós...

2. Há muitas memórias sem rosto na minha cabeça. Hoje, acordei com a provocação do Nassif, de recuperar as bandas de rock dos anos 70. E, então, acabei me lembrando de duas vozes mágicas daquela "era" - Cláudia Teles e Marizinha... Nossa, mãe! Quem as ouviu e ouvir de novo, vai voltar até lá, onde estava. Que coisa boa essa Internet...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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