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segunda-feira, 10 de maio de 2010

(2010/376) Símbolo - entre política e estética: sobre crises apocalípticas e cosmogônicas


1. São 7:57, quando começo a escrever, nesta segunda chuvosa do Rio de Janeiro. As plantas que Bel tem plantado gostam. Elas me sorriem pela janela, que Bel enfeitou a visão do fundo da casa com um pequeno jardim verde nos fundos, meu jardim de inverno particular.

2. Saio da cama apenas para entrar em contato com o chefe e com um subordinado. A gripe se vai indo, mas me manterá em descanso mais esse dia, o quarto - oxalá, o último! E eis que me deparo com a reação de Haroldo à conversa que Jimmy e eu desenvolvemos. Que alegria! Meu amigo Haroldo me diz perspicaz, mas sua pena não fica a dever...

3. Primeiro, desde a aprazível Goiânia, me acaricia a face amiga, e me depõe à mesa dois bons-bocados, para agradar o bico. Na seqüência, transcreve, rubra, uma declaração minha.

4. Adverte-me que o mito não é apenas político. É político, também, mas, ao modo de Haroldo, "é mais que isso". Ser mais que isso, isto é, ser mais do que "meramente" político, é ser (também) [ - e a isso se resumiria a questão - ] "estético": "Quando a certeza da verdade do mito se vai não perdemos somente uma 'ilusão política'; perdemos uma determinada construção simbólica, existencial. Com sua perda pendemos sobre o vazio ou ficamos, talvez saudosos, ainda a observar o 'eclipse de Deus'". "Uma determinada construção simbólica", uma roupa, com a qual nos vestíamos a nós mesmos, roupa essa que, malgrado ter sido confeccionada na alfaiataria da cultura, eram nossas as linhas e os tecidos que, de uns tempos pra cá, a coseram e cerziram.

5. A Estética dá conta da relação do sujeito consigo mesmo, por meio do objeto estético. Tudo e qualquer coisa pode tornar-se veículo da expriência estética - até a morte, e mesmo as idéias. Nas minhas últimas conversas com Alessandro Rocha, insistiu-se na necessidade e função sine qua non do objeto estético, diminuindo a relevância teórica da relação eu-eu nesse tipo de experiência, fazendo com que a estética se aproximasse da experiência heurística, privilegiada esta pela relação eu-objeto. Essa não me parece uma boa tentativa de tornar Heurística e Estética na "mesma coisa". A Heurística tenta tomar o objeto "tal qual ele é", conquanto os tentáculos da operação sejam, além de sensoriais, também hermenêuticos - mas isso é ser humano! Já a Estética, ah, ela recria, compõe, reveste, recobre, plasma, metamorfoseia, transveste, inventa, engrendra, tece - seu objeto à sua própria imagem. Não fosse ela uma operação sadia da Loucura, seria a Própria! E por isso é a mais humana - se não a única Humana, dentre as três irmãs, porque conhecimento e política ha na Natureza. Mas Estética?...

6. Haroldo é preciso: "Não fundamentais em si, como nada é, tornam-se fundamentais pela intenção da consciência". Sim, sim, meu amigo, sim! É a nossa consciência que as faz fundamentais! Perfeito! Mas - ah, meu adorável amigo, percebes que a nossa consciência só pode fazê-las fundamentais... para nós mesmos? Minha consciência não pode - não dispõe desse poder! - estabelecer questões fndamentais para os "outros". Só para si. Ao menos as questões de que você sasbe que fala - as existenciais. As questões fundamentais políticas, culturais, civilizatórias, bem, essas são coisas da ágora, são coisas que as ondas do mar trazem para a praia, e levam, em sem eterno folguedo, ora por meio da espada, ora por meio da TV - e, por que deixá-los de fora, também por meio de livros e blogs...

7. Em minhas últimas duas reações ao Jimmy, era justamente desse véu, dessa "rede da alma" - a política - que eu falava. Ora, ainda que seja possível, e é, naturalmente, a apropriação estética da verdade cristã, caros amigos meus, três doses de Heurística revelarão que são, antes que estéticas, verdades políticas todas essas verdades cristãs. No scriptorium, encontram-se a Heurística, a Política e a Estética. A Heurística revela para a Estética que a sua verdade era Política - e somente se mantinha viva mediante certas condições não-heurísticas. O que fará Dona Estética? Se entregará, pastoralmente, à metáfora, "por causa do rebanho"? Agonizará em retóricas de negação do óbvio, no argumento de que niilismo e Vazio são deuses tão fortes e míticos qanto Yahweh, de modo que... Ou sairá para um amanhecer renovado, para, como denuncia Haroldo, construir outro mito para si? Sim, outro mito, porque não há terra nua para o homem, também nisso Haroldo está certo.

8. Mas há uma diferença, Haroldo: não haver terra nua não significa a eleição de um mito, mito tão forte e "verdadeiro" que nos leve a choramingações, como se o fim do mito fosse o fm da narrativa que ele inventara... Não haver terra nua significa, apenas, a presença do mito - narrativas para com elas operarmos o real: novos mitos, mitos leves, mitos fracos, para não nos enganarmos mais, ou, quem sabe, para nos enganarem de novo.

9. Mas repara bem, Haroldo. Por mais que tenhamos medo de dizê-lo, por mais que estejamos cercados de ouvidos-alarme, prontos a denunciarem que o dissemos, por mais que nós mesmos tenhamos o receio da presunção, da arrogância, da prepotência - as manhãs não são as mesmas, meu amigo, não mesmo. Uma vez que se pôs a mão dentro das entranhas do mito, nunca mais se poderá olhar para eles como tais. O único risco seria não considerar que há certa - mas apenas "certa" - dose de mito também nessa metáfora de enfiar as mãos nas entranhas do mito. É, sim, um modo de falar, mas que revela, a seu tempo e modo, a condição ocidental da racionalidade. Que nao é fria, não. Que não é chata, não. Que é, tão-somente, filha da austeridade protestante...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

(2010/129) De Teologia e Bach, via João


1. Em "resposta" ao meu post com Carmina Burana, João Neto, mestrando em História pela UFRJ, manda-me um vídeo de Vanessa Mae, executando, à frente de orquestra, Toccata and Fugue, em D menor, de Bach. Muito interessante a peça. Dela, retornei ao clássico de Bach, dessa vez executado por Kurt Ison. Pode-se compará-las. Vanessa dá à peça uma performance moderna, enquanto Ison permanece na esteira clássica... Você pode gostar mais da execução moderna de Vanessa Mae, ou pode preferir a execução clássica de Kurt Ison. No entanto, estará fazendo uma opção estética - uma questão de gosto... No meu caso, há dias em que prefiro Kurt - mas há momentos em que Mae cai muito bem...



2. O mesmo não se dá, contudo, quando se comparam as duas Teologias - a velha e a nova. A velha é a que ainda está aí: metafísica, "oracular", "revelada", racionalizante, aqui "normativa", ali "metafórica", aqui "evangelical", ali "fundamentalista", acolá "liberal" - mas, no fundo, a mesma e velha Teologia, nascida com o primeiro homem que viu um deus e que, no todo, equivale, ainda naquela rudeza primitiva, às maiores formulações alemãs da Teologia cristã protestante - não há nada de novo aí: nada.

3. A nova, nem nome tem, nem corpo. Talvez tenha um esforço em encarnação - uma Teologia-ciência, à medida das sugestões de Edgar Morin: um novo teísmo e um novo ateísmo (naturalmente que essa é apenas uma fórmula de incentivo...). Essa nova teologia perdeu o olho de Lobsang Terça-Feira Rampa, perdeu os ouvidos de Samuel, perdeu as asas de Ícaro - tem, apenas, a ousadia de Prometeu (e paga o mesmo preço). Ela é não apenas secular, mas, sobretudo, "republicana".

4. Mae ou Ison? "Tanto faz". Que Teologia? Bem - nessa opção subjaz um mundo novo... ou o de sempre...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

(2010/103) Uma questão sobre "pós-modernidade"


1. Minha amiga Mary Rute Gomes Esperandio teve publicado, na série Para Entender, da Sinodal, sua obra Para Entender Pós-modernidade. Adquiri-o da autora, quando nos conhecemos, acho que há dois anos, talvez três - não mais que isso. Os leitores de Peroratio sabem de meu, digamos, desconforto, em relação aos postulados de uma aventada presente era pós-moderna e, mais do que isso, de pronunciamentos que se fazem imaginar saídos de dentro da própria pós-modernidade, send assim, circunscrevendo-me - na verdade, a todos - em sua ótica de degelo crítico.

2. Não se trata do caso da obra de Mary Rute, posto que Mary tenta explicar para nós do que se está falando, afinal, quando se fala em "pós-modernidade" - logo, trata-se de uma tentativa - crítico-descritiva - de apresentação de um tema-objeto. Nos termos de minha colega: "dei-me conta de ter feito nesse estudo uma 'cartografia da subjetividade contemporânea'". Imagine-se uma cartografia onde o leste fica, digamos, a critério do observador (por favor, amigos, sem a "brincadeira" de que o meu leste é o oeste japonês: no milímetro que me separa de Bel, em nossa cama, há um espaço que é meu leste e o oeste dela).

3. Feita a distinção entre a obra em si e os postulados da própria "pós-modernidade", que Mary procura descrever, gostaria de deter-me sobre um parágrafo, que transcrevo:

Diante disso, podemos pensar que os mesmos elementos - abordados sob diferentes formas, diferentes enfoques e por teóricos diferentes - permitem conclusões por vezes distintas, o que, em princípio poderia nos confundir e desestimular. Contudo, eles nos ajudam a ampliar a nossa compreensão do tema, elaborar algumas conclusões e perceber que as mais diversas perspectivas se constituem exatamente nisto: não em verdades totais e absolutas. São verdades perspectivas, que evidenciam o que somos capazes de construir hoje. Neste sentido, trata-se de verdades limitadas, frágeis, temporárias, permanentemente criadas e recriadas, que possibilitam por isso mesmo, o enfrentamento de nossa própria constituição subjetiva e nos ajudam a construir estratégias de luta no processo de afirmação criativa da vida (Mary Rute Gomes Esparandio, Para Entender Pós-Modernidade, Sinodal, 2007, p. 47).

4. Talvez seja o modo como eu entro no parágrafo, minha prevenção psicológica contra o tema. Antecipado um provável diagnóstico, registro um certo desconforto diante do parágrafo. Talvez eu ainda o tenha ampliado para além de seu objetivo imediato, mas a "tese" pós-moderna de "verdades perspectivas" me parece ambígua. Ao menos, para ser mais comedido, insuficientemente explícita.

5. Para o dizer de modo bem claro, recorro, de novo, à Pragmática. Tomem-se os trêas elementos constitutivos das ações humanas - o sujeito, o mundo, os outros. Do ponto de vista do sujeito, há, portanto, três ações/relações humanas pragmaticamente possíveis - e só três. Ele e ele mesmo. Ele e os outros. Ele e o mundo. "Mundo" aí resume-se aos arranjos físicos da Tabela Periódica - longe das semânticas de João ("Deus amou o mundo") ou da Hermenêutica ("o homem é o animal que cria mundo"). Mundo, aí, é o Universo físico.

6. Ora, a minha relação - se honesta - com o mundo, dá-se por meio do critério crítico-heurístico de que é o mundo, e não minha subjetividade (conquanto ela aja sobre ele), o determinante da verdade. Quando alguém me ouve falar sobre o mundo - e essa fala se dá na dimensão de dizer ao outro o que o mundo é - cabe a ele não apenas ouvir as minhas palavras (já que o mundo não fala de si nem por si, somos nós que criamos as nossas falas sobre o mundo), mas, ainda mais necessariamente, checar a coisa dita no próprio mundo. Não vale, aí, absolutamente nada, a minha subjetividade. Malgrado sua operação metodológica insuperável, ela, aí, é estorno. É para além de minha subjetividade que a verdade do mundo se deve expor. Não é por meio da subjetividade humana que colocamos satélites em órbita, localizamos pontos específicos nas coordenadas planetárias e chegamos a localizar navios afundados - seja esse ponto específico o norte africano ou o sul europeu - o Egeu está naquela específica coordenada...

7. As relações sujeito - sjeito, aí, sim. O que eu digo de mim, em termos dessa relação estética, tanto faz. O que eu vejo numa obra de arte, sob o olhar estético, é de mim que vejo, de modo que, em eu dizendo que O Apanhador do Campo de Centeio me inspira depressão, alguém que queira argumentar comigo que a obra não causa depressão é, para ser direto, um parvo. Na relação estética, não vem ao caso o objeto-espelho: trata-se sempre de um encontro de mim comigo mesmo, de modo que os efeitos estéticos são, todos, subjetivos. Não há verdades nesse ambiente, apenas impressões e efeitos subjetivos - mas aqui, sim, poderíamos falar de "perspectivas", as quais, anote-se, porque voltarei ao tema, jamais podem ser conferidas no "objeto" (nem mesmo por meio de "outras" impressões subjetivas), porque estavam, já, de minha posse, constituindo-se o objeto como mero catalisador.

8. As relações do tipo sujeito - outros, isto é, relações políticas - são, ainda, de outro tipo, porque o que está em jogo aí, sempre, é o confronto entre (pelo menos) duas subjetividades-vontades. Logo, não se trata nem de "verdade", nem de "impressão", mas de jogo social, "agonia" de pôr-se face a face com o outro para a negociação - seja por quais meios, da mais "civilizada" democracia parlamentarista até a mais troglodita manifestação da força bruta. Nesse tipo de relação, as impressões podem pesar, dependendo do jogo político - "viver e deixar viver". Ou podem, simplesmente, não valer nada - o tipo de educação "vitoriana", por exemplo, de inculcação de valores tradicionais, normativos e coercitivos.

9. Voltemos, pois, à questão das "perspectivas", quando o assunto é o "conhecimento", a "verdade". Não é possível que afirmações contrárias, no mesmo nível das emergências físicas, sejam igualmente verdadeiras. É verdade que, se considerarmos níveis de realidade muito diferentes, por exemplo, o nível quântico, o nível "newtoniano", o nível astrofísico, possa haver - e há - afirmações que, num nível, comportam-se como negação de verdades de outro nível. Mas, no mesmo nível, o real não se contradiz a si mesmo. Nesse sentido, as verdade co-nivelares acerca do real podem ser perspectivísticas em termos metodológicos, mas, em termos estritos, não.

10. Talvez eu esteja tocando o tema da "compatibilidade". Pensemos as diversas disciplinas científicas como "persepctivas" sobre o real. Ora, nesse sentido, metodologicamente falando, o acesso ao real se dá, previamente, por percursos traçados por acordos de perspectiva. Todavia, uma verdade sociológica, digamos, não será, contudo, verdade alguma, se ela não o for, igualmente, uma verdade antropológica, ou psicológica, ou hermenêutica, ou histórica. Concordo plenamente com Jérôme H. Barkow, quando ele afirma: "eu coloco como exigência que toda explicação sociológica da ética seja compatível com as teses psicológicas da ética, e que estas sejam compatíveis ao mesmo tempo com as neurociências e com a biologia da evolução" (Jérôme H. Barkow, Règles de conduite et conduite de l1évolution. Em: Jean-Pierre Changeaus (org), Fondements naturels de l'étjique. Paris: Odile Jacob, 1993, p. 89, apud François Dosse, O Império do Sentido - a humanização das Ciências Humanas. EDUSC, 2003, p. 265). Ora, se cada ciência, se cada "verdade perspectiva", estiver fechada em si mesmo, que critério crítico-heurístico temos para nos certificar da validade das proposições ditas "verdadeiras"? A subjetividade pós-moderna?

11. Assumo, pois, dois postulados metodológicos - bem sabido, quando se trata de heurística, pesquisa crítico-investigativa aplicada ao "real" (em sentido amplo - ciências duras, moles e cognitivas). De um lado, o real é o crivo crítico do processo. É ele, não apenas o objeto, mas, aomesmo tepo, o critério objetivo crítico para a verificação das aplicações teórico-metodológicas. De outro lado, as abordagens disciplinares ao real, carregadas que são por sua dupla seccão - secção hermenêutico-subjetiva da consciência humana e secção teórico-metodológica disciplinar - devem-se mútuia satisfação, irrecorrivelmente, de modo que não tem valor a proposição de uma disciplina, qualquer quer seja ela, que não se subestabeleça no conjunto das demais abordagens crítico-heurísticas ao real.

12. No meu entender, portanto, "verdades perspectivas" não constitui uma expressão válida para o real, mas sobre um certo momento do jogo científico, constituindo não o estado essencial da "verdade", mas um, digamos, momento, do processo. O objetivo das ciências, das aproximações ao real, não é construir verdades perspectivas - é construir modelos teórico-metodológicos adequados, em todos os sentidos, ao real tal qual ele se manifesta. O sonho de uma teoria acerca do real não pode superar, é verdade, a necessidade eventualmente inexorável das abordagens parciais. Contudo, as abordagens parciais - as "verdades perspectivas" - não podem assumir o posto de norma da pesquisa.

13. O erro da "pós-modernidade", enquant tese, é não distinguir entre as operações heurísticas, estéticas e políticas. Fazendo de toda operação humana uma operação só, começa por perder a base de operação crítica e termina por traduzir em dissolução de toda a crítica as suas proposições - porque o modo de tornar óbvia a sua perspectiva é dar a todos que olhem o seu próprio modelo pós-moderno de olho - desde que, é claro, ninguém reclame da miopia adquirida... Quase chego a suspeitar de que a pós-modernidad pensa-se sob o modelo das discussões de diálogo interreligioso, se me faço entender... Cuida-se que se encontra a paz escondendo a guerra sobre o tapete...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

(2010/041) Mas por que não tem fundo musical?


1. O problema da vida é que não tem fundo musical. Não importa se você está triste, alegre, não tem fundo musical. Nos filmes, não. Lá, tem trilha sonora. Se está triste, toca triste. Se está alegre, toca alegre. Se é aventura, Wagner. Se é romance, Wando... Mas a vida da gente, é sempre a mesma monotonia sonora, o silêncio sepulcral da arte...

2. Não deve haver arte no céu. Mentiram-no, quando imaginaram anjos com harpas. Houvesse música no céu, a vida da gente, além de ar, de água, teria trilha sonora. Cada um de nós, desde o útero, caminharia sobre notas...

3. Que anjo há de assistir às nossas vidas... sem trilha sonora? Não - bons são os filmes. A vida da gente é uma série monótona de dores e alegrias, sem arte alguma.

4. É por isso que a gente teve que inventar a arte. Deus não tinha senso estético. O problema, meus amigos, é que a arte é isso - artificial...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

(2009/477) O que é fé?


1. Li com muito proveito o livro do Osvaldo, O que é fé?

2. A distinção entre as quatro formas de fé: como ensino, como encontro, como encanto, como entrega, constituem para mim uma reflexão profunda. A reedição do livro vale a pena e deve ser apoiada.

3. Destaco uma passagem: "No fundo, a fé como entrega sabe que há por trás do Sol, dos pássaros e das flores, um amor muito grande, do tamanho do Sol, da leveza do pássaro, da beleza da flor, e que esse é para mim e por mim, para nós e por nós" (p. 84).

4. Com tal afirmação nasce o teologizar enquanto experiência estética. Seu resultado reflexivo se situa neste campo. Pode ver a se tornar objeto de manejo político, que afirmará a realidade transcendente, ontológica. No encanto e na entrega, há um admirar-se e um perguntar pela conexão das coisas e pelo seu sentido. Será interpretação. Não há um referente seguro.


HAROLDO REIMER

quinta-feira, 28 de maio de 2009

(2009/302) Depois de Deus


1. A frase acima pode ser aplicada em inúmeros sentidos. Nessa postagem, penso naquela preocupação que se iniciou desde que o Cristianismo passou a ser sistematicamente enfrentado contra sua pretensão de gestor do mundo (pensemos em Descartes, inicialmente), até o momento em que, eu diria, felizmente, a sociedade Ociental "emancipou-se" (ao menos policitamente - o que já é um grande avanço) do controle político-jurídico das Igrejas. Estou falando das Repúblicas Modernas e do Estado Democrático de Direito, naturalmente.

2. Ora, o fato de a Teologia ter sido, por quase dois mil anos, a gestora jurídica do mundo, resultou na presunção de que havia "fundamento" líquido e certo para as expressões humanas, quaisquer que fossem - a saber: o fundamento estava, por sua vez, assentado sob a Ordem e a Verdade. Divinas, ambas. Teocráticas, em tese. Autocráticas, na prática. Heterônomas, sempre.

3. Bem, sabemos que essa presunção/pretensão acabou. Ela até deseja retornar - uma leva de des-historicizados protestantes/evangélicos, tendo aprendido a pensar com cabeças medievais, não acredito que se tenham desinteressado da utopia instalada de uma "teocracia" - mesmo nos fronts de esquerda. Contudo, até o momento, trata-se de viver numa sociedade laica e secularizada, e de expressar-se, eventualmente, a mística particular em regime comunitário facultativo e plural. Isso, sim, nos caberia.

4. O problema é que, com a suspensão do fundamento ontológico-teológico de que se servia o homem ocidental, como estabelecer uma base segura para aquelas expressões humanas, até então alicerçadas naquela plataforma?

5. Não é por acaso que a análise dessas expressões teleológicas, intencionais, humanas, cabe, num extremo, em Artistóteles e, no outro, em Kant. Ambos estão interessados em perguntar pelo conjunto hiperônimo das práticas humanas, e chegam, ambos, aos verbos-rubricas "querer", "sentir" e "saber".

6. De imediato, não há "fundamento" para o sentir. Há plataformas a partir das quais ele, o verbo, ela, a estética, ela a "afetividade valorativa", se desdobra. Isso significa que "gostar de" é uma questão cultural. Aí cabem a mística, a arte, o gosto, a afeição. Tudo quanto gravita em torno do sentir não apenas é absolutamente subjetivo, mas, ao mesmo tempo, cultural, filho do tempo, filho do lugar, filho da terra, filho da carne.

7. Quanto ao verbo "querer", isto é, quanto à volição, à vontade, e por extensão, quanto à "política", não há fundamento "ontológico" para isso. Trata-se, nesse caso, da expressão sócio-política de uma pulsão biológica - a "vontade de poder" expressando a pulsão tronco-cerebral da manutenção da vida - a violência (predação e defesa) e a sexualidade. Nos humanos, tal pulsão entra em diálogo com a consciência, a possibilidade de dizer não às próprias pulsões. Isso nos difere, absolutamente, dos demais animais - que igualmente somos.

8. O único fundamento possível para a política é circunstancial e organizacional - ele depende do regime político que, por sua vez, depende das relações sociais. Naturalmente que um regime autocrático há de transformar-se numa cripto-teocracia (porque toda teocracia nada mais é do que um regime autocrático). Seja como for, o "rei", o "papa", o "sacerdote", o "presidente do partido", aí, é o fundamento. Em regimes democráticos, o fundamento é o diálogo construtivo, sobre cuja base elevam-se as leis. Não há chão firme, aí, nada é absolutamente definitivo, certo e acabado. Tudo é frágil. Tudo é circunstancial. Tudo é provisório. Há que se legisferar, há que se legislar, há que se dialogar interminavelmente a respeito do sistema e da sociedade. Não há descanso, aí. Construir, desconstruir, reconstruir. Para sempre.

9. Finalmente, quanto ao "saber", ou, extensivamente, à cognição e, naturalmente, à heurística. Trata-se, aí, sim, de um diálogo com o "real", ou não há "saber". Cada "verbo", a rigor, expressa a relação humana com uma das três grandezas relacionais que o cercam: 1) o homem consigo mesmo: sentir, afeição, estética; 2) o homem com o outro homem: querer, volição, política; 3) o homem com o "mundo" (em sentido ecossistêmico, e não como em João): saber, cognição, heurística.

10. Ora, resulta imediatamente claro e inexorável que, ou o homem é dotado de estrutura cognoscente - e isso em face do real -, ou não se explica a vida, vida essa que é "computação", "cálculo", sensorial do "meio" vital por um sujeito vivo. Ocorre, contudo, que estrutura cognoscente, aí, nada tem a ver com o que se considerava "saber" no regime teológico medieval: uma visada como que "desde Deus" sobre a Verdade. Não, nada disso mais é possível - conquanto os teólogos ainda continuem a expressar-se assim, um crime de lesa-civilização.

11. O regime do "saber" - nos termos da pragmática pós-teológico-jurídica, pós-ontológico-metafísica, pós-sacramental, pós-"cristã" (em termos da gestão do Ocidente) é histórico, é situado, é "sensorial/hermenêutico", é antropológico/lingüístico. Não se pode, de um lado, retornar ao olhar divino, mas não se pode, também não, abandonar o regime sensorial. Certo, além de nos descobrirmos "antropológicos" - e não "teológicos" (a Teologia, já sabemos, é Antropologia - esperneia, contudo, a Velha Dama) -, descobrimo-nos, também, hermenêuticos: mas isso não significa que voltamos à condição fantasmática e ectoplasmática do Homem de Platão. Somos de carbono e mitocôndria, e é nesse contexto que a nossa condição antropológico-hermenûtica deve ser analisada.

12. Pouco, muito pouco tempo, ainda, dedicamos a refletir sobe isso. De um lado, a Teologia ainda brincando - e com fogo! - de conquistar o mundo, ora para si, ora para Deus, como se isso implicasse em alguma diferença! De outro, forças reacionárias de todo tipo, às vezes sem perceber o regime em que operamos a racionalidade pós-medieval, dispersam-se em pós-fundacionalidades no fundo cartesiano-platônicas, a-críticas. É urgente a necessidade de lucidez. Talvez, também, para mim.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 26 de abril de 2009

(2009/224) Hans Urs von Balthasar


1. Não é a hora de eu tentar aproximar-me de Hans Urs von Balthasar. Foi considerado por Henri de Lubac, "que o teve como discípulo, 'o homem mais culto de nossa época'" (1). Como, Paulo, posso, então, me aproximar? Somente de longe, olhando pela fresta do grande salão, porque, nesse festa, ainda estou longe de entrar.

2. Mas uma coisa me deixa curioso. Como alguém pode desenvolver o que se tem chamado de "teologia estética", e, tendo escrito um comentário sobre a teologia de Karl Barth - e Karl Barth é ontologia pura, quer dizer, não tão pura, posto que é ontologia política, sobretudo -, o próprio Karl Barth chegue a dizer que "foi aquela na qual foi melhor compreendido" (2)? O próprio von Balthasar percebe nesse Barth um ponto de contato entre catolicismo e protestantismo (3).

3. Além disso, ouvi a respeito, ainda, uma outra coisa. Se bem que a fonte eu não a endossaria sem mais nem menos, uma vez que se trata de um libelo anti-Boff, do tipo próximo-inquisitorial, e, de qualquer forma, de um pronunciamento pela direita mais radical da teologia, consta que Hans Urs Von Balthasar teria afirmado que "a Igreja do século XXI deveria se preparar para receber um ataque de dentro, promovido pelos falsos cristos e falsos profetas que apareceriam como herança do iluminismo humanista" (4). Ora, como a "estética" pode receber e/ou perpetrar ataques? A "estética" não é pura subjetividade seletiva? Ou, para o teólogo da "estética teológica", estética é só a "teologia", a "mística", mas a Igreja, essa é política mesmo? Sim, até porque como há de se explicar - mesmo conceber! - uma estética "coletiva"? Só mesmo aquela programada, patrocinada e mantida por mecanismos de massificação de "tipos", como faz a mídia. O que estaria bem de acordo com um programa de catequese, afinal de contas... Mas, aí, já não estamos diante de um fenômeno de estétioca, mas da manipulação política da estética.

4. Aqui, sou obrigado a fazer aquilo de que menos gosto, porque me sinto em falta comigo mesmo - devo recorrer a um terceiro: a Mondin. Mondin assim explica o ponto de virada "estética" de von Balthasar. As primeiras teologias teriam sido "cosmológicas". Tratava-se aí de uma possibilidade em face da "sacralidade" de um mundo assim concebido, fosse nas filosofias de origem grega, nas filosofias de origem romana, fosse já na própria teologia cristã. A modernidade teria posto um fim no caminho cosmológico da teologia, a partir daquele momento em que o nascimento das ciências emancipadas começava a tomar posse das rotinas de conhecimento humano (5).

5. A essa altura, migrou-se, então, continua Mondi, para uma teologia de caráter antropológico. Uma vez que as ciências recém-nascidas/emancipadas tomavam para si o mundo da Natureza, a teologia tomava para si o mundo humano. No entanto, ao passo que o paradigma cosmológico da teologia teria durado mais de dois mil anos, o antropológico não dura nem duzentos - posto em crise, diz Mondin, por eles - sempre eles - Feuerbach, Marx e Nietzsche (6).

6. É nesse ponto que, à guisa tanto de uma descoberta, quanto de uma saída, Hans Urs Von Balthasar postula o paradigma "estético" para a teologia, ao mesmo tempo nem "a fé fanática dos simples", nem a "arrogante presunção gnóstica dos sabichões" (7). Quando von Balthasar fala de "estética", trata-se, a rigor, da noção de beleza (8).

7. Sempre segundo Mondin, o princípio hermenêutico do conceito transcendental da beleza para a teologia, conforme postulado por von Balthasar, seria compatível com o homem do século XX pelas seguintes razões: a) o paradigma, ao contrário dos dois anteriores, não é reducionista, e alcança a "mensagem revelada (...) em toda a sua complexidade", b) sem o componente estético, "não é possível nenhum conhecimento verdadeiro", c) somando-se ainda o fato de que "na intuição estética se encontra o outro como outro; e (...) desinteressadamente". bem como o fato de que "o belo como princípio arquitetônico da teologia" é um dos "princípios constitutivos intrínsecos essenciais" da teologia (9).

8. A rigor, a estética constituiria um dos três pilares de toda uma teologia que von Balthasar quisesse e pudesse ter pensado e composto. Começando pela estética, caminharia para a "bondade", e, então, finalmente, para a "verdade" (10), com o que, então, agora sou eu a dizê-lo, von Balthasar organizaria a teologia - em tese - sob um programático regime pragmático. Com isso, quero referir-me à noção epistemológica que compreende o conjunto das ações intencionais humanas organizadas em três eixos independentes e mutuamente relacionados - estética, política e heurística, ou, para o dizer nos termos de von Balthasar - o belo, o bom e o verdadeiro.

9. Von Balthasar não chegou a completar sua obra, conforme planejada, antes de sua morte, em 1988. Planejava-se compor um monumento - Herrlichkeit ("Gloria") - que deveria ser composto em três partes: Estética, Dramática e Lógica. Eine Theologische Aestetik, em sete volumes, constitui o pilar propriamente estético de sua "trilogia", aos quais se fazem acompanhar os volumes Theologik (1968) e Theodramatik (1980), que constituem, respectivamente, esboços das contrapartes "lógica" ("heurístca") e "dramática" ("política") de sua Teologia. Apesar de constituírem o coração mesmo de seu empreendimento teológico, esses vlumes compreendem apenas uma pequena parcela de sua gigantesca produção impressa.

10. Da qual nem me arrisco a pretender dar cabo. Como? O que não significa que me furtaria a comentar um ou dois pontos. O primeiro deles é que não posso evitar uma comparação entre von Balthasar e Descartes. Este, diante da tentativa de construir um novo acesso à velha pretensão - conhecimento - estabelece o princípio, ainda platônico, do "pensamento" como "fundamento - conquanto, nesse caso, programaticamente emancipado do princípio da "autoridade", deve-se insistir, porque é um avanço em relação ao idealismo político de Platão. Von Balthasar não faz o mesmo, quando, escapando de uma confissão teológica de caráter cosmológico ou antropológico, refugia-se, para início de conversa, num argumento "estético"? Ora, mas o estético não se transforma, automaticamente, em ontológico, quando é tratado em si mesmo, independentemente da subjetividade humana? Tirem-se as mitocôndrias do homem, e Descartes fica sem ter onde enfiar seu "cogito". Suprima-se o fundamento antropológico, e a "estética" de von Balthasar há de ser reduzida a nada. Mesmo a estética, é, em von Balthasar, já, ontologia. E isso simplesmente me parece um problema epistemológico muito sério, que faz de todo esse colocassal monumento a sombra de uma racionalização da tradição.

11. Além disso, não vejo como um modelo teológico clássico poderia sobreviver a uma abordagem verdadeiramente pragmática. No momento em que se entregasse à heurística, mas isso de forma comprometidamente científico-humanista (a teologia de von Balthasar não quer falar ao homem moderno?), sentiria todas as suas carnes tradicionais ruírem, confessando-se mito, mesmo que aí se encarasse, de frente, a tradição. Mas não. Tudo permanece como sempre, independentemente da "lógica" - a rigor, racionalização a serviço do sistema. Da mesma forma como Aquino coopta e coonesta Aristóteles, e imuniza a teologia tradiconal contra o vírus anti-metafísico potencial aristotélico, von Balthasar, parece-me, coopta e coonesta o princípio pragmático, subdeterminando ao discurso estético-político a dimensão crítica do sistema - heurística -, transformando-o em mero legitimador racionalizador da arquiterura. Com o que subverte a pragmática - adultera-a. Porque o princípio heurístico ou é refutável, ou não se trata, realmente, desse princípio...

12. Mas o leitor de Peroratio há de saber que não li a obra de von Balthasar. Deve saber que essas observações servir-me-iam de roteiro. Lendo-o, eventualmente, eu estaria muito, muitíssimo interessado em saber como o teólogo pôde - pôde mesmo? - ter suprimido uma teologia antropológica (improcedente, como ele mesmo reconhece) ao mesmo tempo em que afirma uma "estética", e isso, ainda por cima, "logicamente" fundamentada. Suspeito que os nomes sejam novos, mas o espírito ainda é o de Platão.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Batista MONDIN, Os Grandes Teólogos do Século Vinte. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 207.
2. Idem, p. 209.
3. Idem, p. 211-212.
4. Marcus BOEIRA, O Surrealismo na Teologoa da Libertação. Mídia Sem Máscara, n. 163, 09 de abril de 2009, disponível em 26/04/2009 no endereço http://www.midiasemmascara.org/index.php?Itemid=36&catid=92:religiao&id=105:o-surrealismo-na-teologia-da-libertacao&option=com_content&view=article.
5. Batista MONDIN, op. cit., p. 214-215.
6. Idem, p. 215-216.
7. Idem, p. 216.
8. Idem, p. 216.
9. Idem, p. 216-218.
10. Idem, p. 218-219.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

(2009/215) Religião e ciência


1. Há milhares de anos, quem sabe?, milhões, nasceu a religião. Já o disse que, na minha opinião, ela nasce como estética. Ato contínuo, assume aquela forma de expressão que, muito tempo depois, há de se tornar a ciência. Lá e então, ela, essa expressão, é, apenas, um impulso explicativo, próprio da religião, da teologia e, agora, próprio das ciências. Mais cedo ou mais tarde, de estética (e explicativa), a religião torna-se política.

2. Provavelmente ela tornou-se política, isto é, passou a ser controlada por interesses políticos, assim que as comunidadees humanas tornaram mais sofisticados os seus relacionamentos. Mas será com o surgimento das monarquias, das cidades, que a religião se transformará na parceira mais importante da política. O rei logo tornou-se ou representante, ou encarnação, ou imagem, ou filho dos deuses.

3. Com isso, a religião agora domina todos os espaços da cultura: a estética, o belo, as "explicações", a "verdade" - e a política, o dever. Não há, então, nenhum espaço da sociedade, da cidade e do campo, onde lá não esteja o olho e a mão da religião - e, com isso, o olho e mão dos poderes políticos, sejam os puramente sacerdotais, sejam, já, os da coroa.

4. Quanto tempo na longa estrada da História esse foi o quadro encenado, dia e noite? Séculos e séculos se perdem na noite dos tempos. Em que partes do planeta isso se sucedeu? Em todas. Não há expressão religiosa humana, no planeta, que não tenha caído nessa mesma situação. Todos os povos o fizeram. Uns mais, quanto mais organizada e urbana ela fosse, uns menos, mas mesmo as culturas menos sofisticadas, mais "tribais", mais silvícolas, experimentaram a hiperonomia da religião, isto é, a submissão de todas as esferas da vida à esfera religiosa.

5. Até que, no Ocidente, inicia-se um processo de descoalização. Não foi determinante o que aconteceu na Grécia, por volta do século V e IV. Platão está a serviço do mesmo princípio - só há, parece, um certo movimento para o esconder. Aristóteles, talvez, tenha desenvolvido reflexôes mais autonomizantes, quero crer. Seja como for, essa Grécia é o equivalente, para a Reforma, a John Huss - não deu em nada de concreto enquanto acontecia, ainda que seus desdobramentos serão percebidos séculos depois - mas somente séculos e séculos depois.

6. Aristóteles simplesmente "desaparece" no Oriente. No Ocidente, a própria cultura helênica será o estofo para uma civilização teológica inteira - o Ocidente Cristão. Platão é seu parteiro. Paulo, seu pai. E lá se vão mais mil anos, desde aí até aqueles dias em que os árabes introduzirão Aristóteles na Península Ibérica. Mil anos de "morte", dirão os próprios europeus, quando se chamarem, depois deles, de renascentistas. Grécia falhara. Tentemos de novo.

7. É somente aí que um processo realmente transformador se inicia. Desdobrar-se-á, desde a Renascença e o Humanismo, primeiro, na Reforma, depois, no Empirismo, depois, no Iluminismo, na Revolução Francesa, no Romantismo e, voilá, re-inventa-se não uma civilização, mas uma nova forma de configuração da própria condição histórica humana.

8. Depois de uma longa série de fluxos e refluxos relacionados aos processos de emancipação política (Iluminismo e Revolução Francesa) e heurística (Iluminismo, Empirismo e Romantismo), a condição hiperônima da religião perdeu substância. De sob o poder da religião, tirou-se quer a política, quer a heurística. Tornada assunto privado, logo, estético, restou a ela a manutenção esquizofrênica de fingir para si mesma que as coisas continuavam como antes.

9. Na sociedade, inicia-se uma nova forma de existência humana. Para a política, a democracia, as rotinas, sempre ainda muito imperfeitas, de representatividade política, a criação do Estado dividido em três poderes - Legislativo, Executivo e Judiciário, o estabelecimento dos Direitos Humanos.

10. Ao mesmo tempo, aquele princípio "explicativo", embrionário e mítico, converte-se num impulso programático e metodologicamente discutido de investigação - a heurística (que Aristóteles já pressupusera na forma do "saber", ao lado do querer e do sentir). Surgem as ciências, primeiro as matemáticas, depois, as empíricas, então, as humanas.

11. Estabelecem-se as câmaras pragmáticas, política, estética e heurística. A sociedade se emancipa, se organiza. O que antes constituía a câmara hiperônima de tudo o que se fazia e dizia na cultura, converte-se, agora, em uma das rotinas privadas que a constitui - a religião.

12. Mas a religião não aceita esse jogo, não. A religião quer, para si, aquela velha vida de senhora, rainha e mãe. Intra-muros, age como se nada tivesse acontecido. Intra-muros, é tão política quanto antes - todo "sacerdote" é rei e chefe. A "verdade" é o que ela diz, e pronto. O gozo, ela dita as regras litúrgicas para a sua expressão. Ela, a religião, padece de uma doença - esquizofrenia e extemporaneidade.

13. Na relação com a sociedade, a religião não aprendeu - aprenderá? - a lidar com o que considera uma usurpação de seus poderes. No campo político, mesmo os batistas, tão intimamente relacionados à sepração entre Igreja e Estado, no fundo, consideram que é Deus, logo, seu patrono, o verdadeiro gestor do planeta, seja dentro da Igreja, seja fora dela, de modo que, sendo ela a mais entendida das coisas de Deus, também a política, para ela, é uma coisa religiosa, a democracia, um instrumento de Deus, e os resultados da política, condenáveis, se ferem seus "princípios" divinos, para o que basta nos lembrarmos das questões relacionadas às células-tronco, aos direiros civis de homossexuais e às questões relacionadas ao aborto. Se a religião pudesse, assinava ela mesma as leis que ela entende divinas. Não aprendeu nada até hoje, a velha professora.

14. No campo das ciências, a esquizofreinia chega às raias do intolerável. Os mitos milenares são sacados para o enfrentamento das pesquisas. A EBD entra em batalha contra o laboratório. As crianças, coitadas, não sabem se respondem do jeito que a professora quer, ou do jeito que o pastor quer. Na prática, responde, pra um, de um jeito, pra outro, de outro, aprendendo desde cedo a sutil arte de ser adaptável. Quando não, pais enfiam goela abaixo de seus filhos os mitos que eles, os pais, decidiram ser verdadeiros.

15. No campo da estética, separa-se o belo em sagrado e profano. Veja-se o caso da música, por exemplo. Uma vez que o belo é apenas o que está no âmbito do sagrado, quando o âmbito do sagrado sofre de patologias incuráveis no campo da beleza - pelo amor de Deus, como se canta mal! -, o belo se torna irremediavelmente feio. Pior do que a mais expressiva parcela da música gospel nacional, só a mais expressiva parcela do funk nacional.

16. E tudo porque a religião não é capaz de admitir que o seu tempo de rainha acabou. Resta a ela aquela dimensão original, estética, de, eventualmente, dar sentido à existência efêmera humana. Não é necessário que a religião simplesmente se considere um fóssil, que não é, mas igualmente não é aquilo que imaginara por toda uma História das Civilizações. No sistema ocidental, cabe a ela apenas uma participação significativa na dimensão estética pessoal, mas não mais nem na política (tecnicamente falando), nem na heurística.

17. Tomara a religião ponha a mão na consciência e se converta. Poderia trocar seu papel de alienadora das consciências para um papel de expressividade estética, de agente patológico, em terapêutico. Porque até o que ela chama cura, hoje, constitui, a rigor, uma disfunção psicológica. Todavia, não é algo que um religioso possa fazer sozinho...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 9 de março de 2009

(2009/075) "Mas é mito!"


1. Bravo! Bravíssimo! Seu post, Haroldo ((2009/073) Defesa dos empobrecidos), tem a "forma" de uma tarrafa, cuja parte central, a parte superior do "cone" tramado e armado, ainda está na mão do pescador, antes de ela a lançar sobre as águas piscosas, mas em pleno movimento lateral e de impulso. Você tem a mão no "nó" da rede, e a lança. O belo, o belíssimo, é que sabe onde está o nó - aqui: "mas é mito!". Do meu jeito passional de o dizer - isso é lucidez!

2. Até esse nó, Haroldo, eu não faria qualquer sugestão de "correção". Apenas lembraria que aquele era o espírito do tempo, quero dizer, a tudo atribuir causalidade e fundamento divino, conquanto se possam vislumbrar insinuações críticas aqui (Eclesiastes) e ali (Jó, conforme o lê Jack Milles - o Jó da tradição é uma farsa, um "crime").

3. Eu também acho que a profecia crítica (Amós, Miquéias, algum "Isaías") constituía alguma coisa mais para mais essencialmente ação política do que religiosa. Se você tirar o desnecessário da ação, sobra a ação política (exatamente como Clodovis Boff "acaba" de declarar em relação ao "risco" da Teologia da Libertação - o "valor" da TdL é político, logo, é mais verdadeiro, nela, a ação política do que a ação religiosa [conquanto ela ainda aja, politicamente, com base no mito, mito esse que Clodovis Boff, contudo, toma por "ontologia revelada", sendo essa, afinal, a razão de sua crítica]). Muito pouco mesmo eu recusaria da "leitura" da profecia crítica que aprendemos a fazer na academia latino-americana, também em Gottwald. Mas concordemos - a retórica religiosa, ali, é adorno cultural.

4. Até ontem, ainda, o argumento teológico era a base de toda operação social e humana (a sociedade "laica" e "emancipada" é um experimento muito recente). Na época de Jesus, e de Mateus, o mito operava de forma universal, seja na direita, seja na esquerda. O mito sempre foi o mar no qual a política navegou, desde que a política olhou e viu, no mito, uma plataforma excelente. Ninguém o demonstra melhor do que Marcel Detienne em A Invenção da Mitologia, uma denúncia do embuste que foi - e é - a epistemologia de Platão - cínica e a serviço do poder. Nesse sentido, que a esquerda, que os pobres, tenham se servido de contra-mitos é muito natural, conquanto eu não duvide que muito pobre, à época, tenha escrito o nome "Yahweh" na terra, cuspido e pisado, porque o que ele podia ver, de concreto, n/desse "Yahweh", era a face cruel do sacerdócio, ainda pior que a do rei. Mas era preciso um deus para vencer um deus...

5. O problema, meu amigo, é a nossa situação axial. Eu não posso, mais, usar o mito nem contra nem a favor de ninguém, porque eu sei que isso é manipulação de cosnciência, uma vez que a pessoa com quem lido não tem consciência da condiçlão de mito do conteúdo de minha fala (vale o mesmo para a "teologia como metáfora", de cuja condição epistemológica o "fiel" está alienado). Além disso, no que diz repeito à comunidade teológica, essa "informação" - teologia é mito - encontra-se disponível, e, tendo-o dito, reporto-me, e a você, ao conteúdo de meus últimos posts sobre esse tema.

6. Sim, sim, sim - havemos de defender os empobrecidos. Mais do que isso: fazer deles ex-empobrecidos, ajudá-los, em todos os sentidos, heurístico, político, estético, a saírem da condição de empobrecidos. A fome de pão que têm é apenas um aspecto de sua pobreza. Sua pobreza heurística ainda é mais grave, conquanto não necessariamente mais urgente, que a fome há de matá-los antes que aprendam a ler. Todavia, é urgente, também, a sua emancipação noológica, a sua introdução na sociedade contemporânea - e, cá entre nós, meu amigo, não se alcançará tal resultado, pelo contrário!, fazendo-os se mexer à força do mito.

7. Não, não precisamos recuar em relação ao engajamento político de um Amós, para citar seu "herói". Amós é infinitamente mais útil e relevante para nós do que Malaquias, por exemplo. absolutamente dispensável. Amós, ainda não! O trabalho que ele começou ainda não foi terminado e, tomara, Jesus tenha sido péssimo profeta, posto ter profetizado que a pobreza é mal sem cura. No entanto, devemos nos perguntar se a nossa fidelidade a Amós está na repetição de seu discurso - "rugiu o leão, quem não temerá, falou Yahweh, quem não profetizará" -, ou na repetição de sua prática: a fome dos pobres pode ser curada sem que, para isso, sejam ainda mais atolados na alienação da consciência.

8. Viva Amós! Nele, o mito é perdoável...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

(2008/122) A (est)ética do cuidado

1. Lamento, com Osvaldo, que a Rute Mary Esperandio não tenha podido aceitar, até o momento, o convite feito para integrar as discussões na Peroratio. Outro dia, estando em Curitiba, na instituição em que ela trabalha, tinha a esperança de poder conhecê-la pessoalmente, mas não deu certo. Sua presença daria, com competência, uma dimensão mais integral na medida da participação de uma mulher.

2. Lembrando daquela insistência de Walter Benjamin nos citados como forma de trazer à presença as vozes da história, achei que poderia trazer à pagina da Peroratio algumas formulações da pesquisadora como 'aperitivo' do que poderia vir ao aceitar o convite. Em interessante artigo com o título "A (est)ética do cuidado e religiosidade contemporânea - a Igreja Universal do Reino de Deus em perspectiva", a autora, havendo analisado a dimensão do cuidado nesta expressão religiosa, formula:

2.1 "O cuidado de si IURDiano pode ser traduzido, então, como um conjunto de técnicas para acabar com o sofrimento e o mal-estar. A transformação da subjetividade que se opera a partir da utilização das técnicas do Sacrifício, do Exorcismo e da Confissão Positiva podem ser compreendidas, talvez, como estratégia de sobrevivência e instrumento de adaptação da subjetividade ao status quo.

2.2 Ao longo deste estudo, as implicações éticas e estéticas dessa forma de cuidado foram se fazendo aparecer. Evidenciou-se que a estilística da existência promovido [sic!] por essa forma de religiosidade integra-se aos valores próprios de uma (...) ética neo-liberal: sincrética; flexível; individualista; narcisista, que busca o bem-estar e a felicidade a qualquer preço; sem a fronteira entre sagrado e profano; que enfatiza os recursos internos do sujeito e minimiza a necessidade de relacionalidade. Esta última característica traz importantes conseqüências em relação à constituição da subjetividade, pois, torna-a mais individualista, e também, em relação à sociedade: torna-a menos solidária. Seu discurso ambíguo “con-funde-se” com o próprio mercado num duplo movimento: de dessacralização da religião, banalizando-a, e de sacralização do mercado, elevando-o à condição de “validade última”. (Esperandio: 2004).

2.3 Urge, na contemporaneidade, que a Psicologia e a Teologia pensem uma prática de cuidado em diálogo entre si e com outras ciências, a fim de que, a nossa prática no cuidado de nós mesmos e do outro seja expressão do nosso cuidado com a vida e com a promoção dela."
(In: Protestantismo em revista, São Leopoldo, v. 04, n.2, 2005 - http://www.est.edu.br/nepp).

3. Com a presença e participação de Mary Rute Gomes Sperandio teríamos uma contribuição significativa nesta dialogicidade. Talvez ainda aceite participar?

HAROLDO REIMER

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

(2008/81) Reflexões a caminho


1. “Meu mundo é um mundo onde não há descanso, e, contudo, ele é puro descanso.” Suprema contradição aristotélica. Terceiro excluído. No entanto, coincidentia opositorum: o espaço da autonomia! É um lugar-tempo invejável esse do Osvaldo. É conquista, e é graça.

2. Para lá conduzem os caminhos da nua e crua busca heurística, a mais profunda consciência do método, do caminho por meio do qual chega-se a saber o que se sabe, pergunta-se, ainda que no silêncio, com base em que o interlocutor pode dizer o diz. “As percepções mais valiosas são alcançadas por último; mas as percepções mais valiosas são os métodos” (Nietzsche, O Anticristo, [Cia das Letras, 2008] p.18).

3. Este caminho é difícil para a teologia. Eu sei. Insisto comigo mesmo, e com os outros, que há que se ter, cada vez mais, clareza dos caminhos para a construção do saber ‘teológico’. Ele É sabedoria. É poesia. É estética. É política. Mas é também ‘saber’.

4. O caminho heurístico é difícil, pedregoso, talvez interditado, para a teologia. A estética e a política são caminhos paralelos àquele. O homo simbolicus continuará a ser o que é: isso. Vivemos das construções simbólicas. Representamos. Imaginamos. Lançamos as redes das palavras, que constroem mundos. Porém, devemos dar-nos conta disso. Devemos sempre lembrar que nós lançamos as redes. Ter consciência desse processo é descoberta; é construir um saber, porque se desvenda os caminhos. É andar nu. E temos nossos problemas com a nudez.

5. Com a rede a lançar ou lançada iniciado está a inserção no universo do político. Perceber, catalogar, analisar os resultados desta inserção é construção de saber. Trata-se de investigar os caminhos por meio dos quais as palavras provocam o que provocam: o movimento das pessoas. Na construção desse saber a teologia deve(ria) ter o seu lugar. É o discurso sistematizado sobre um patrimônio não material, a economia dos bens simbólicos.

6. A varanda dos descansos contraditórios em si é ponto de chegada do caminhante que insiste na autonomia. É vislumbre de liberdade. Mas desgosto de dizer que é o lugar do Übermensch nietzscheano. Porque neste ponto não há como negar Gadamer em seu tópico sobre a ‘história dos efeitos’. Pois por maior, e necessária, que seja a crítica à teia simbólica ocidental, o darwinismo de Nietzsche permitiu, ou deu causa, que sua busca de autonomia pudesse ser cooptada pelo maior fenômeno político da Europa central: o nazismo. As releituras, neste caso, da intentio lectoris, permitiram soluções políticas desastrosas. Basta ler: “O fato de as raças fortes da Europa do Norte não terem rechaçado o Deus cristão certamente não honra o seu talento religioso, para não falar do gosto. Elas tinham de acabar com um produto tão decrépito e doentio da décadence.” (O Anticristo, p.24). A intentio auctoris fluiu na releitura, e no uso. A crítica do uso político da teia simbólica redundou em ações políticas que “tinham que acabar” não só com a teia, mas também com os fazedores originais daquela teia.

7. Almejo a varanda do contraditório do descanso. Porque ele é autonomia. É liberdade. "Um senhor livre de tudo e de todos..." Mas cuido, ainda demais, do político. E por isso ainda não sou, ainda, livre. Almejo. Vejo.

HAROLDO REIMER

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

(2008/34) Da Metalurgia Iniciática, da Alquimia e da Química


1. Meu amigo voltou! Haroldo voltou! O prazer de ler seu post (2008/33) quase - apenas quase - supera o desagrado de sua ausência tão longa. Mas que importa o passado, agora? O que vale é que saiu de seu letargo - certamente um letargo de duros trabalhos em outras frentes. Mas, convenhamos, se o silêncio já me oprime as caixas toráxica e craniana, de modo que vomito noologias como quem transpira, quanto mais a fala, de modo que já cá me sobem, desde o inconsciente (que Rubem Alves quer-me fazer crer não ser "eu", já que afirma, em Filosofia da Ciência, que, sendo as intuições dos cientistas, intuições inconscientes, já não são, portanto, científicas, posto que não dos cientistas - a que não se recorre na defesa de uma "tese"!), uma convulsão de reações. Ao amigo Haroldo, por e-mail, disse-as "de bicho", quero dizer, as reações, porque automáticas, reações "impensadas". Nada de "etiquetas" aqui, como aquelas do capítulo em que Simian-Yofre discute Habermas (cf. "Anacronia", em Metodologia do Antigo Testamento), o que resulta em não se poder seguir nem um nem outro - melhor fora Yofre dizer o que devia ter dito, e pronto. Melhor ser bicho - e "reagir". Deixemos a etiqueta aos sociáveis por imposição de etiquetas.

2. Uma resposta a um aspecto de seu belo texto, Haroldo, me vem à mente (mora um bando de ogros dentro de minha cabeça, eu acho). Ela pode, de algum modo, ser verificada no excelente livrinho do Mircea Eliade, Ferreiros e Alquimistas, e, de resto, em qualquer boa "História da Química". Há milênios, o que virá a ser, muito, muito tempo depois, a Química, era, então, apenas "Metalurgia Iniciática" - mais rito e mitologia do que qualquer outra coisa. E, contudo, o que se queria, e conseguia, era "manipular" a terra, queimá-la no fogo sagrado, purificá-la, e dela fazer metal, para o bem e para o mal. Mitos e ritos estão relacionados àquela metalurgia, que você e eu conhecemos de perto, dada Nehushtan, a serpente, que nos uniu para sempre, naquele Mestrado. Quem diria que os serafins eram hipóstases de Nehushtan, a serpente de bronze? Eu disse, tu aceitou ser plausível, e lá fomos nós a desencavar a história dos harashim - falei-te que tornei-me amigo íntimo deles?

3. Séculos e séculos dessa metalurgia, e, lentamente, como o fogo das manhãs amenas, ela abstrai seus próprios mitos de útero e de obstetrícia. Por caminhos insuspeitáveis antes de se estenderem futuro adentro, mas facilmente perceptíveis depois do fato, aquela metalurgia iniciática converte-se em Alquimia. Num sentido, é a mesma coisa. Noutro, alguma coisa totalmente diferente. O que muda? O mito de fundo, a meta-narrativa mítica que dá corpo ao conjunto de práticas. Mas há, já aí, uma dimensão diferente entre metalurgia antiga e alquimia - a auto-compreensão, e, desde aí, as rotinas epistemológicas, por assim dizer, que (por isso Vattimo, Rorty, Habermas [e a fileira que os segue] detestam epistemologia?) são definidoras de práticas internamente coerentes, subsistemicamente compatíveis.

4. Não demorou tanto tempo quanto aquele transcorrido entre a metalurgia e sua "filha", a alquimia, e esta pariu: surgiu a Química. Como antes, a mesma coisa, mas que coisa tão diferente! Primeiro, porque, no nível do mito, pretende acelerar o processo pressuposto nas duas fases anteriores, ao ponto de não precisar mais apenas ajudar a Mãe a gerar mais rápido os filhos, que digo?, os metais, no útero, que digo de novo?, na terra, mas, já agora, de os fabricar em "úteros" (cadinhos!) mais eficientes, mais rápidos, "melhores". Depois - e esse é o ponto mais importante, porque a Química torna-se uma heurística, independente do próprio mito que, há milênios, começou o lento processo de geração da ciência. A imagem da adolescente rebelde me vem à mente. Aceita-la?

5. Você já vê onde quero chegar, Haroldo? Já vê o ponto em que me enfio em seu texto, para, desde lá, voltar com minha - primeira - reação? Pois então. Não há, ainda, uma Teologia que esteja no estado da Química. A Teologia ainda está no estado da Alquimia - algumas, sequer chegaram aí, e ainda estão a meter a mão na terra, a soprar o fogo, enquanto invocam os deuses. O que postulo, o que desejo, pelo que trabalho, é uma Teologia que, em sua caminhada, seja o equivalente da Química em sua própria jornada. Há isso? Não. Aliás, se depender dos teólogos, talvez nunca haja. Mas, contudo, creio na ecologia das ações, como a define Morin - não controlamos o resultado de nossas ações, de modo que, ainda que a multidão dos teólogos tenha status quo a manter, ainda assim a Teologia pode chegar a sair do controle confessional. Talvez um demônio qualquer cometa a travessura... Mais que isso - talvez já a tenha cometido!

6. Nisso, quero dizer, na necessidade que vejo de a Teologia sair da Idade Média, sair do Templo de Jerualém, sair de Roma e de Wittenberg, um excelente paralelo, ainda que em outro nível, encontro no instigante título que Karl-Otto Apel deu para sua obra-prima: Transformação da Filosofia. Ora, eu postulo uma Transformação da Teologia, e, para usar um termo tão caro a nós, teólogos, uma "conversão", uma conversão da Teologia à regra das Ciências Humanas. Eis aí uma boa idéia: uma classe de catecúmenos para a Teologia - vamos ver se ela gosta disso que inflige aos seus.

7. Você concorda comigo - ou eu com você - em que a Teologia é mito. Mas eu gostaria de insistir que essa classificação é circunstancial. Ela é mito enquanto é o que é, e, enquanto o for, o será. Mas a Teologia que postulo pretende deixar de ser - pretende tornar-se discurso heurístico sobre determinado aspecto do "real" e, nesse sentido, tão mítico quanto a Física, a História e a Fonoaudiologia. Habermas, eventualmente, dirá que tudo isso é a mesma coisa que uma canção ou uma lei do Congresso. Para Habermas, tudo é racionalidade - logo, nada é racionalidade: logo, tudo é a mesma coisa. Não dou um passo nessa direção. Para mim, heurística não é estética nem é política - é investigação da realidade, com todas as questões de fundo, de caráter epistemológico, que você sabe que sei e considero.

8. Nesse sentido, é salutar alertar-nos para a Microfísica do Poder, sim. Sempre é bom. Mas não é pelo fato de que tudo quanto em que o Homem ponha a mão corre o risco de ver-se contaminado pela guerra fraticida da política predatória que todos os objetos em que pomos a mão são a mesma coisa. A Nova Teologia, se surgir - tenho dúvidas se verei o messias ainda em vida -, estará sujeita à política humana (que nada tem de heurística, mas a heurística sabe bem explicá-la: basta ler A Humanidade da Humanidade, de Morin, ou Para Sair do Século XX, do mesmo gênio, e Ética, se ainda quiser seguir o bruxo francês), mas ela não será, mais "política", como o é a atual. O que o demonstra a força que se fez, faz e fará, ainda, para evitar transformar-se, converter-se. Porque, para a Teologia, ao contrário do que ela prega - e diz ser evangélica a regra (para os outros!) -, não convém que ela padeça do "bem" que inflige aos outros: conversão.

9. Sim, tu dizes: Teologia é mito. Bem dito. Pois arremato: chegou então a hora de deixar de sê-lo.

PS. não tardes a responder, amigo - para ouvir-te te instigo!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 30 de agosto de 2008

(2008/16) Da bocarra faminta dum ogro


1. Penso, cada vez mais fortemente - o que é sempre um grave risco - que cada palavra nossa tem de dar contas de sua topografia pragmático-epistemológica. E não estou, aqui, referindo-me à obviedade de se saber em que corrente de pensamento nos situamos - mas, o que é consideravelmente menos óbvio, se estamos situados.

2. Com "situados" quero me referir à consciência pragmática. Só há três topos retóricos: pesquisar/descobrir, transformar/convencer, experimentar/fruir. De outro modo: saber, fazer, querer. De outro modo, ainda: heurística, política, estética. Não vou escrever sobre isso aqui - tenho escrito sobre isso na ouviroevento (Série Pragmática). A meu juízo, a lucidez retórica passa pela lucidez pragmática.

3. Para que vamos ao passado? Para levantar do túmulo corpos e caras, e falar com eles, é uma boa resposta. Ao menos é o que todo historiador e exegeta desconfiado das tendências ditas (com procedência?) "pós-modernas" tenta fazer. Faz? Essa é a questão. Mas nisso reside a metáfora do ogro de Bloch, ogro que está onde estiver a caça - e sua caça, sabe-se, é a carne humana.

4. Para ir ao passado e lidar com gente, é necessário fazer História e Exegese (que venham em seu auxílio todas as irmãs da Antiga e Iniciática Ordem das Ciências Humanas, que venham, ainda, as irmãs da Ainda Mais Antiga e Iniciática Ordem das Ciências da Natureza - a tarefa é muita para só papel, pá e picareta). Passado, ou é gente, ou é não-gente. Gente que compôs o arco das pedras de Polo e Kam - as pedras, a noite dos tempos as cunhou. O arco, essa gente. Desmonte-se o arco, e essa gente volta ao túmulo.

5. A História e a Exegese - histórico-críticas, advirta-se! - lidam com carne humana. Está embrulhada em papel, essa carne. É preciso desembrulhá-la. O papel, aí, como o de açougues antigos, não tem serventia que não o embrulhar da carne fresca. Não se vai ao açougue comprar papel de embrulho. E, contudo, sem o embrulho, a carne estaria morta - inexoravelmente. Seus duplos, incomunicáveis.

6. A heurística indiciária, venatória, carnívora (não resisto: "ôgrica") - é o xamanismo das Humanidades, a evocação possível dos espíritos, a religião que nos resta. Daí o cercar-se dos cuidados contra as fraudes e falsificações, da evocação de espíritos de mentira, da efabulação de oráculos sofismáticos. Contra a incerteza de ouvir verdadeiramente a voz dos túmulos, rituais de exorcismos contra as técnicas de artificialidade retórica. Melhor que permaneçam na cova, do que serem suas mandíbulas articuladas para a pronúncia do não-ser, do nunca-dito.

7. Aí termina a heurística - minha mística. Resta ver o que podem fazer com os mesmos textos a política e a estética. Entendam-me: se não se vai ressuscitar a carne humana enterrada na cova do texto - e não falo de personagens! -, não há como lidar com esse texto sem a destruição completa do arco e a manipulação (em sentido alquímico) das palavras-metais no cadinho da metáfora. Fora do arco, todas as pedras daquele texto constituem, quando novamente articuladas, seja esteticamente, seja politicamente, metáfora, alegoria, imaginação.

8. Textos falam? Não. A intentio operis não existe. Constitui alguma coisa entre a ingenuidade e o programa de partido. Apenas consciências humanas falam - e, atenção, se não são os mortos, são os vivos (também "os céus", do Salmo, não falam coisa alguma que não reverbere, antes, na mente do contemplador - a diferença é que se pode, teórico-metodologicamente, tentar pôr os defuntos do texto a falar). A estética fará nascer novas palavras da página, novos arcos, como fumaças dançarinas, fogos-fátuos, que não durarão para além da excitação extática. É lícito e legítimo. Se sabe que tão somente usa palavras grafadas numa página, há lucidez, aí. Se cuida, coitada, lidar com pessoas antigas, não sabe nada, e engana-se em sua própria imaginação. E não vejo razão alguma para, hoje, uma estética parva - não nesse campo.

9. Também a política pode fazer textos falar - bem sabido: intenções políticas, intenções de pessoas políticas, é que falam aí. A pastoral é uma intenção política. A utopia é uma intenção política. O que querem é o que Marx queria - "os filósofos apenas interpretaram o mundo de forma diferente. O que importa é mudá-lo". Toda utopia é - nesse sentido - marxista. Política. E isso não é nem "saber" nem "sentir" - é "querer". Quando a transformação do mundo diz-se fazer por força de textos do passado - ou se fez heurística, antes, ou se frauda a memória do passado, e, por confessado amor às gentes vivas, violentam-se as gentes mortas, e, com isso, também as vivas.

10. Por isso, Jimmy, penso que sua Tese deverá ir mais fundo do que se foi até agora - é preciso não apenas arrancar de nós o Soberano, mas fazer-nos assumir a coragem de transformar o mundo a partir de nós. No fundo é, sempre, o que se faz. Quando se vai ao passado, apenas se diz ter achado lá - e não se achou - o fogo de Quixote, a faísca de Brancaleone, que incendeia o engajado. Mas é seu próprio coração que costura palavras e sintaxes urdidas no calor da utopia. Não há, então, critério algum, de nenhuma espécie, e o tapete que os fios poídos do passado costuram podem ser os da TdL ou os da Opus Dei - em termos de processo, a mesma coisa. O que ali vai diferente é a ética e o valor. E esses, não estão no texto, mas na carne - e na carne que lê! Há cento e poucos anos não há mais fundamento algum, mas ainda lidamos - conosco mesmos ou apenas com ou outros? - como se fosse necessário (e possível!) ir buscá-los além e aquém.

11. O que é, no fundo, a metáfora, enquanto retórica da política? Vergonha de si, de confessar que se ousa assumir como opção ética u-tópica e a-tópica - sim, sim, pura arbitrariedade e abertura para o outro? Nesse caso, ainda se crê, aí, em fundamento para a Ética? É o que, então? Encantamento de consciências não-emancipadas, frágeis e fracas demais para denunciar, que, também aí, carregam-se pesos e cargas? Que diferença há entre as declarações "Deus te quer escravo" e "Deus te quer livre"? O ser escravo ou livre dessa gente depende de "Deus"? Dos mortos? Das palavras mortas desses mortos?

12. Sinto-me trágico. Assumo o trágico. Suspeito - temo - que, enquanto essa Metáfora, esse Deus, esses mortos, essas palavras sentirem-se eficientes, ainda caminharemos meio-vivos, meio-mortos, um pouco no útero, um pouco na cova. A Metáfora ainda nos distrai. Hospitalar, ela nos anetesia. É preciso a dor definitiva.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

Ref. do § 9 - Georges LABICA, As 'Teses sobre Feuerbach' de Karl Marx. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990, p. 35.

(post relido e corrigido em 31/01/2008)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

(2008/010) Por uma Teologia heurística


1. Na insondável noite dos tempos, inventamos a Teologia. Nós, Homo sapiens, com nossos úteros e nossas próstatas, com os olhos da cara, o medo no peito, o sangue gelado, os pés na terra nua, sob a nigérrima abóbada do firmamentum, balbuciamos estéticas hierofanias, de caça e de caçadores, posto que é assim que o bicho-homem apropria-se do seu mundo - o que é?, de onde veio?, para onde foi?

2. Ah, aí iniciamos a nossa segunda maior caminhada hermenêutica. A primeira, termos roubado do DNA o Norte e o Sul, o Raso e o Profundo, o Sim e o Não, e termos rabiscado à unha, na terra, na carne da gente, nosso mapa. A consciência ("nada" mais) é (que) um furto biológico, ciúmes entre neurônios e cromossomos. Coisa do organismo, disse Nietzsche, o vidente de pathos. Que bom! E a segunda, esboçada no "Prefácio" de Origens, de Eliade, que eu tive ímpetos de tentar corrigir. A "experiência do sagrado" - não com o sagrado, mas do sagrado - é um tipo de experiência sem conteúdo, dita "da consciência". A meu ver, o segundo passo, necessário, universal, depois do primeiro.

3. Estética foi essa noite. De assombros e fogos de artifício. Não é por outra razão que a "experiência do sagrado" (Fenomenologia da Religião) desdobre-se em tantas formas - arte, religião, política, pesquisa, mística. Ela é o levantar-se substantivo e subjetivo do Homo desde o húmus - um passo, Homo, mais um, Hermes (ou Exu, ou Mercúrio, ou Manitu, se quiseres). Essa primeira Teologia é como aquela gosma dos caramujos, a escorrer de nossos corpos, a lambuzar a terra, o céu - Tudo.

4. E vieram os reis. Chegou o grande dia do sol a pino, onde não há sombras, apenas o causticante fogo da política. E a Teologia foi descoberta pelos olhos perspicazes das aves de rapina, que sobem, sobem, o vento/espírito as leva, até que caem sobre as presas, certeiras. Não serão encontradas Grandes Civilizações tradicionais que não sejam construídas como que pela e dentro da Teologia. Assíria, Babilônia, Egito, China. Maias, Astecas, Incas. Tupis. Não foi, contudo, senão a Pérsia que elevou a arte da política teológica ao ápice do aperfeiçoamento - enfiar dentro da cabeça do povo os mitos (Detienne sabe que Platão ensinou isso na República, e eu aposto que Platão copiou isso dos persas). Antes da Pérsia, deuses contra deuses. Com a Pérsia, é cada deus vencido quem traz, pela mão, o vencedor - Ciro, seja Marduk, seja Yahweh. Início - ah, como sou cáustico! - da teologia como metáfora, uso político da estética.

5. Não creio que a era política da Teologia tenha sido a de maior duração. Desde a noite dos tempos estéticos, até o início do cinismo político-teológico, milhares, milhares e milhares de anos. Orgia de hierofanias, soltas, perdidas, porque não fecundadas pela crença da tribo - "a fé vem do ouvir", "mas quem deu crédito à nossa pregação?". O período político da Teologia, contudo, marcou a consciência do espírito humano a ferro e fogo, e fez dos deuses o que as imagens políticas esculpidas no córtex no-los pintam. A poesia aí, é passarinho na gaiola. Canta, passarinho, canta assum preto, canta.

6. Ah, Tragédia! Ah, Loucura! Ah, Cinismo! E foi esse deus que nos prenderam na cabeça, na boca, no ouvido. Fora o da estética... Mas não. Marionete de diabos. Boneco de ventre-loucos. A palrar. A tagarelar. E a fazer de nós os soldadinhos de chumbo, marcha soldado, cabeça de papel. Quando meu amigo diabo, Nietzsche, disse-me que eu era uma besta de carga, uma rês, quase lhe esmurrei a cara, mas, quando dei pelo que ouvia, e fazia, chorei. Depus ali, ritualmente, como quem se desfaz de imagens de velhos cultos trocados por novos, minha idolatria, e minhas roupas, e caminhei, nu, pelo gelo. Vês como me deixas, Prometeu?

7. Agora, nu e congelado, plúmbeo e cianótico, contemplo o horizonte. Vejo reis, ainda, e castelos, e exércitos. É, ainda, a segunda (e maldita) Teologia - é ela quem dá as cartas, como crupiê batoteiro. Que posso fazer, senão esperar o próximo dia, e aguardar que saia de dentro da carne da gente a Teologia de terceira onda? Um dia, estética, hoje, política, amanhã, agora, ah, Deus, quem dera, heurística. Científico-humanista.

8. Ela só pode sair de dentro da gente, da carne da gente, porque ela é filha da descoberta romântica do Homo. Conseqüência ecológica dos campeões do 19. É dentro de nós que ela dormita. Tem medo de acordar, e ver sumirem todas as cortes e todos os reinos. E, de fato, é somente depois que nós mesmos despertamos, convertemo-nos a uma nova existência, uma nova política, uma nova vida, que ela pode acordar.

9. Fala aí - há disciplina como essa?, que corre em nossas tripas como fezes, em nossas veias, como sangue, em nossos capilares, como linfa, em nossas sinapses, como correntes elétricas, em nossos genitais, como emulsões eróticas? Insípida? Ah, não - tem gosto de fel e mel. Incolor? Ah, não - tem a cor do céu e da terra, e, sobretudo, da carne. Por que demoras, amiga minha? Por que demoras? Desperta, desperta, e vem...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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