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domingo, 11 de abril de 2010

(2010/312) Entre o fazer e o dizer


1. Há coisas que são certas - você as faz não porque essa seja a "vontade" de A ou B, seja quem for A, seja qem for B: você faz simplesmente porque essa é a coisa certa a ser feita. Nesse sentido, eu posso tolerar - mais do que tolerar - posso animar-me a fazer coisas que, em tese, seriam de "outra natureza". O que eu não posso fazer, o que eu não consigo fazer é, em eventualmente engajando-me em ações "de outra natureza", adotar discursos viciados, retóricas artificiais, atitudes e comportamentos marcados. A hipocrisia, e a hipocrisia de massa, me causa problemas de pele...

2. Eu posso engajar-me seriamente, comprometidamente, com projetos de formação pastoral. Posso. Posso fazê-lo - e sei fazê-lo. Não é nada de tão absurdamente difícil, assim. O fracasso dos projetos que conheço devem-se ao fracasso da visão pastoral que está por trás de tais projetos. A "pastoal" tornou-se a castração das massas, a alienação visceral da crítica, o encantamento das espiritualidades artificiais e produzidas em laboratório, as técnicas de manipulação de consciência, a voz cavernosa e empostada, a pregação megaolomaníaca e neo-obscura... Vade retro! Isso não é, sob nenhum circunstância, "pastoral". Para isso não trabalho meio expediente...

3. Assim, considero-me bastante flexível. Considero-me- bastante sóbrio, lúcido, até. Mas não posso trocar meia dúzia de palavras com a artificialidade programática da espiritualidade comesinha que toma conta dos arraiais cristãos, e quer, de qualquer jeito, tomar até as instituições de ensino. Aí não dá. A pastoral contemporânea, de circo e pão, de catedrais e animadas festas celestes, sacerdotais, de altar e shofar, Deus me livre dela! e, se depender de mim, com ela farei como se faz a ratos que tentam entrar na casa da gente: xô!, porcariazinha com pernas, xô!

4. O povo pobre e sofrido precisa é de educadores que os ajudem a curar-se. Não precisa de xamãs de quinta categoria, a tornar ainda mais trágico-cômica a sua vida já por demais desgraçada. Há que haver um mínimo de respeito!


OSVALDO LUIZ RIEIRO

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

(2008/122) A (est)ética do cuidado

1. Lamento, com Osvaldo, que a Rute Mary Esperandio não tenha podido aceitar, até o momento, o convite feito para integrar as discussões na Peroratio. Outro dia, estando em Curitiba, na instituição em que ela trabalha, tinha a esperança de poder conhecê-la pessoalmente, mas não deu certo. Sua presença daria, com competência, uma dimensão mais integral na medida da participação de uma mulher.

2. Lembrando daquela insistência de Walter Benjamin nos citados como forma de trazer à presença as vozes da história, achei que poderia trazer à pagina da Peroratio algumas formulações da pesquisadora como 'aperitivo' do que poderia vir ao aceitar o convite. Em interessante artigo com o título "A (est)ética do cuidado e religiosidade contemporânea - a Igreja Universal do Reino de Deus em perspectiva", a autora, havendo analisado a dimensão do cuidado nesta expressão religiosa, formula:

2.1 "O cuidado de si IURDiano pode ser traduzido, então, como um conjunto de técnicas para acabar com o sofrimento e o mal-estar. A transformação da subjetividade que se opera a partir da utilização das técnicas do Sacrifício, do Exorcismo e da Confissão Positiva podem ser compreendidas, talvez, como estratégia de sobrevivência e instrumento de adaptação da subjetividade ao status quo.

2.2 Ao longo deste estudo, as implicações éticas e estéticas dessa forma de cuidado foram se fazendo aparecer. Evidenciou-se que a estilística da existência promovido [sic!] por essa forma de religiosidade integra-se aos valores próprios de uma (...) ética neo-liberal: sincrética; flexível; individualista; narcisista, que busca o bem-estar e a felicidade a qualquer preço; sem a fronteira entre sagrado e profano; que enfatiza os recursos internos do sujeito e minimiza a necessidade de relacionalidade. Esta última característica traz importantes conseqüências em relação à constituição da subjetividade, pois, torna-a mais individualista, e também, em relação à sociedade: torna-a menos solidária. Seu discurso ambíguo “con-funde-se” com o próprio mercado num duplo movimento: de dessacralização da religião, banalizando-a, e de sacralização do mercado, elevando-o à condição de “validade última”. (Esperandio: 2004).

2.3 Urge, na contemporaneidade, que a Psicologia e a Teologia pensem uma prática de cuidado em diálogo entre si e com outras ciências, a fim de que, a nossa prática no cuidado de nós mesmos e do outro seja expressão do nosso cuidado com a vida e com a promoção dela."
(In: Protestantismo em revista, São Leopoldo, v. 04, n.2, 2005 - http://www.est.edu.br/nepp).

3. Com a presença e participação de Mary Rute Gomes Sperandio teríamos uma contribuição significativa nesta dialogicidade. Talvez ainda aceite participar?

HAROLDO REIMER
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