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quinta-feira, 22 de abril de 2010

(2010/333) Gn 2-3, Nietzsche, Losurdo - e eu


1. "A leitura que Nietzsche faz desse mito (Prometeu) não é diferente (da leitura que Schelling faz dele); ele alerta a tomar nota, sem subterfúgios da 'indissolúvel contradição', da 'contradição no coração do mundo', do 'rochedo' que inevitavelmente pesa sobre toda civilização. No franco e másculo reconhecimento desta inevitabilidade reside a clara superioridade de tal mito em relação ao relato bíblico que, ao colocar a queda na conta do 'embuste mentiroso' da serpente, ou seja, da 'curiosidade', 'seducibilidade' e 'sensualidade' da mulher, se revela propenso a 'remover fraudulentamente' a 'desgraça na essência das coisas' (...). O relato bíblico está todo centrado no tema da queda acidental e redimível. A natura lapsa, resultado da castástrofe, não parece um dado insuperável. A história do cristianismo está marcada pela recorrente manifestação de tendências propensas a sustentar que a salvação possa encontrar o seu início já nesta terra; assim se explica o surgimento de movimentos messiânicos revolucionários. É a confirmação do fato de que o relato bíblico não é propriamente uma verdadeira 'tragédia pessimista' (...)" (Domenico Losurdo, Nietzsche, O Rebelde Aristocrático, Revan, p. 59).

2. Bem, não posso dizer que eu possua, do mito grego, o domínio que penso poder dizer possuir do relato bíblico. Ainda assim, não ousaria afirmar que o mito de Prometeu - primeiro, possa ser lido "universalisticamente", como se fora um mito da espécie, um mito universal, uma metafísica da essência humana, nem, segundo, que resulte necessário afirmar dele que a condição de Prometeu seja inexorável. A dinâmica dos mitos é tal que, enquanto ele for um mito, pode ser transformado, desde dentro. Prometeu pode, a qualquer momento, arrebentar as correntes - em tese - e, também em tese, domesticar o corvo que lhe bica o fígado... Mas deixemos isso de lado.

3. Segundo Losurdo, Nietzsche reconheceria a ausência da condição de "tragédia pessimista" em Gn 2-3. E Nietzsche está certo. Mas isso nada tem a ver com uma condição espiritual ou cultural de um povo - nesse caso, o judeu. O fato de que o relato da "queda" de Adão e Eva não é inexoravelmente fatalista tem a ver com questões muito materiais e políticas.

4. Arrisco dizer: o relato foi produzido por sacerdotes judeus, por volta do século V, nos moldes - conscientemente?, intertextualmente? - da metodologia política de A República. Trata-se de construir uma narrativa que aprisione a população a ela, e exija da população comportamentos e ações programáticas. Trata-se de afirmar que cada homem e mulher vivem sob a maldição divina, e que, nos termos da maldição, estão apartados da presença de Deus. Mas não se trata de dizer que essa é uma condição inegociável, porque ela apenas estabelece o cenário dentro do qual a população judaica deve se conceber, cenário esse que tem por objetivo criar dependência sacerdotal na população.

5. Ora, mas a população judaica não pode conceber-se indefinidamente longe da presenaça de Yahweh. É dele que tudo vem! De modo que, o primeiro passo é essa população aceitar sua condição de afastada, apartada, amaldiçoada, mas o segundo é pogramaticamente ainda mais importante: aceitar que os sacerdotes do Templo de Jerusalém podem promover sempre renovadamente a aproximação entre esse povo pecador e o Deus aborrecido, aproximação essa mediada pela liturguia sacrificial. Cada judeu, homem ou mulher, se quiser uma aproximação mínima que seja com o divino, deve curvar-se diante da mediação sacerdotal.

6. Ora, se o mito afirmasse que o afastamento era absolutamente irremediável, primeiro, esses seriam os mais incompetentes gestores do sagrado de toda a história, porque, segundo, compreendendo que o leite estava terminantemente derramado, a população trataria de se aliar a outras narrativas mitológicas, para sua segurança espiritual, política, social, econômica, histórica. A tragédia do relato deve ser forte, mas não absolutamente destrutiva, muito menos irremediável. O povo judeu, destinatário do relato, deve sentir-se pecador, saber que Deus o condena e o tem por maldito, mas deve, ainda assim, querer as bênçãos desse Deus. A dose é muito bem sopesada. O relato, muito bem urdido.

7. O "erro" - se bem que isso também deve ser programaticamente político - de Nietzsche é achar que o relato biblico faz filosofia e teologia. Faz nada. Faz política. É a isso que resume tudo quanto o Templo de Jerusalém publicou. Política. E política aristocrática, hierocrática, sacerdotal e elitista.

8. A ironia e a contra ironia dessa história é que um judaísmio-cristianismo incipientes - mas só quando eram iniciais! - usaram essa condição contornável da condição humana para interpretar Jesus como a saída definitiva, "o" Cordeiro especial, logo, a tornar desnecessário o rito sacerdotal, a amarra institucional, a promulgar a liberdade da relação entre o homem e Deus, mas isso até que o próprio cristianismo reinventasse-se como religião de sacerdotes, e fizesse a tudo e todos, novamente, dependentes de suas pantomimas hierocráticas. O Templo de Jerusalém paira sobre a Igreja de Cristo, para desgosto do homem de Nazaré, eu suponho... E, quando eu vejo comunidades evangélicas apelando para a liturgia do templo, minhas entranhas queimam com fogo de dor.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 20 de março de 2010

(2010/237) Cristianismo e Platão


1. Há, devo admitir?, uma deficiência em minha formação: eu acumulo informações, mas, via de regra, não me dou ao trabalho de anotar cuidadosamente a fonte das informações que apreendo. Talvez eu devesse parar de acumular informações, por um tempo, e retornar desde o início, mapeando a fonte de todas as informações relevantes que cuido ter guardado. Talvez essa situação em que me perceba seja tributária do fato de eu ter lido muitos materiais de muitas áreas diferentes: Teologia, História, Psicologia, Filosofia, Fenomenologia da Religião, principalmente, e, em menor escala, Sociologia e Antropologia. Talvez essa seja a sorte de uma formação eclética.

2. Seja como for, eis as informações que me consta eu ter a respeito da relação em Platão e o Cristianismo: excetuando a doutrina da criação, a doutrina da ressurreição e a doutrina do sacrifício substitutivo de Jesus, toda uma longa série das demais doutrinas cristãs, e, fundamentalmente, a base sistemático-filosófica dessas doutrinas, são, a rigor, pré-cristãs, isto é, são, a rigor, platônicas: a existência e a eternidade das almas, a salvação pela graça, operada pela Providência, o papel gnóstico da catequese, a vida na terra como "acidente", a queda das almas. Porque Paulo era judeu, faz sentido que tenha guardado as três jóias da doutrina judaico-cristã, ainda que as tenha encravado numa base helênica consideravelmente diferente da base semita/judaica - não surpreende, pois, que o próprio Paulo tenha reconhecido que era difícil agradar a gregos e a troianos, e que seu Evangelho era tropeço para uns e escândalo para outros. No entanto, esforçava-se, disso se vangloriava, de, por todos os meis, tentar ganhar a todos...

3. Ah, sim, em certo sentido, Cristianismo e Platonismo são bem diferentes. Mas, convenhamos, apenas nas profundezas. Na superfície, o Cristianismo, principalmente o popular, ou do clero não-esclarecido - com isso quero também indicar para a esmagadora maioria do "clero" evangélico -, eu dizia, na superficie, o Cristianismo funciona igualzinho ao Platonismo: uma aversão monstruosa a tudo que toque ao corpo... Há, assim, um evidente e latente dualismo na prática e na filosofia superficial dos Cristianismos de onda e de massa - o corpo é mau, a alma, boa. Platão homologaria a assertiva, para desgosto de toda a tradição veterotestamentária... Qohelet morreria de tédio - e de desgosto!

4. Ora, a doutrina da criação, judaica, não tolera por um segundo sequer a dicotomia corpo versus alma - o próprio Paulo desespera-se tentando fazer fiéis um tanto quanto excessivamente platônicos compreenderem a inexorável necessidade da ressurreição, sem o que a fé seria inútil e vã. Também o vemos afiançar que a criação aguarda a ~"revelação" dos filhos de Deus, para que ela mesma se ache transformada. E, se os evangélicos, ciosos de sua ortodoxia, zombam dos habitantes da Torre de Vigia, por desenharem um "céu" um tanto terrestre, isso se dá justamente porque os evangélicos há muito tempo não estudam as tradições em que dizem crer...

5. Platão, Paulo, Agostinho, Lutero e Barth - a Pentápolis de Deus (mas de qual, mesmo?) no Ocidente. Não será surpresa para mim se, quando eu chegar aonde todo home há de chegar, deparar-me com Pedro na porta do céu, indicando-me o caminho para as mansões platônicas... Deve ser por isso que se imagina o céu habitado por fantasmáticas hostes cantantes - Platão sabia muito bem usar o mito e a música para "encantar" as almas humanas... as almas humanas...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

(2009/438) A Hermenêutica e o pêndulo da História


1. Quando, há mais de dois mil e quinhentos anos, a Hermenêutica foi nomeada, foi de Hermes que se extraiu seu nome. Hermes é o deus grego da comunicação entre os deuses e os homens, como Mercúrio, entreos romanos, Exu, entre os africanos de modo geral, e os "melachim" (lê-se "melarrim"), entre os israelitas. Assim como Hermes trazia a mensagem dos deuses até os homens, a Hermenêutica intermediava o acesso humano à verdade. Hermes e Hermenêutica se confundiam, digamos assim.

2. Nesse sentido, Hermenêutica é "dizer" - hermeneuen (1). Trata-se de um dizer "oracular", "sacerdotal", um dizer que provém da boca hierofânica, mas /porque que tem sua origem... além. Quando os homens ouvem o oráculo, quando o oráculo diz, é de Hermenêutica que se está falando. É nesse sentido que o platonismo vai se apropriar da Hermenêutica - a verdade, a sua revelação, é um gesto mnemônico, religioso, místico, uma dádiva desde o além, desde as Idéias, desde a Providência. Sobretudo, ela não é "daqui", ela é espiritual. Dai que não se chega a ela pela força da reflexão, mas pela graça da revelação. Hermeneuen - dizer (a verdade), revelando...

3. No entanto, tão logo Platão assentou a dimensão oracular da Hermenêutica - a verdade aí é adventícia, sacerdotal, política -, seu "discípulo", Aristóteles, rompeu com esse sentido. Hermeneuen é, agora, explicar. Há, aí, uma ruptura. Não se quer - mais - que Hermes vá até os ouvidos do oráculo e recite a verdade, para que, por meio agora da boca oracular, os homens a possam ouvir assim mediadamente. Não! Doravante, cada homem (Aristóteles era tão machista quanto Platão, de modo que as mulheres terão de esperar mais um pouco) há de explicar-se a verdade, à luz da pesquisa, à luz a investigação, à luz da reflexão, à luz da indução, do particular para o geral - à luz da crítica, com a mão na matéria... Se Hermes ainda está lá, mudou-se para a terra...

4.Trata-se da mesma Hermenêutia? Não. Até Platão, hermeneuen é uma ação hierofânica, quer dizer, sacerdotal. A verdade é um construto de elite, de poder, político. A partir do hermeneuen aristotélico, a verdade agora, é, ainda, um construto político, mas mediado pela "democracia", pela distribuição do logos por todos os homens ("livres") que se dediquem à reflexão, a investigação, à pesquisa. Esse hermeneuen é crítico. É, digamos, "empírico". O anterior, "metafísico", uma impostura criptoreligiosa, teologia pura. Talvez valha para a religião (mas não a de que eu me aproximaria, certamente!). Certamente, não, para a academia...

5. Todavia, o Ocidente preferiu Platão. Lógico: porque o Ocidente fez-se de forma não-democrática, principalmente no que diz respeito ao Cristianismo, que tinha, na outra ponta de sua constituição histórica, além de Platão, o Templo de Jerusalém. Aí, Platão assentou-se no topo das catedrais/templos, e deu as cartas. A verdade descia do céu, em bulas, encíclicas, pregações, homilias, sermões, tratados, apologias, verborragias. A verdade era homilética! Isso quer dizer que onde a verdade é homilética, o Espírito é platônico...

6. Foi assim até o século XVI, longo reinado de Platão. Seus discípulos foram: Paulo, Orígenes, Agostinho... Mas, aí, os árabes invadiram a Península Ibérica, e introduziram Aristóteles. Pot caminhos fáceis de entender, daí, chegou-se à Renascença, e, desde aí, até a Reforma. O platônico Lutero, por um erro de cálculo, introduziu a Bíblia como fundamento (retórico!) da Igreja. Sua Hermenêutica ainda é platônica - dizer - mas logo há de beber do próprio veneno que gerou a ruptura com Roma...

7. Quando o primeiro protestante divergiu de seu companheiro, dizer teve de dar lugar a explicar, Platão cedeu espaço estratégico para Aristóteles, e começou a bataha interminável das "apologias". A "verdade" luterana continua sendo metafísica, adventícia, "idealista", mas, eis a novidade, ela, agora, fez-se pousar na página impressa. A boca oracular da homilética fala a verdade quando e se fala a partir da página impressa. Lutero não se deu cnta, mas, com isso, tornou "empírica" a questão da verdade - em linguagem contemporânea, tornou "objetiva" a questão exegética.

8. Ora, automaticamente introduz-se a questão da validade da interpretação. Se o oráculo, o púlpito, diz, o que diz só tem validade se for dito em conformidade com a Bíblia - mas, como saber? Verificando! Isso significa que o explicar põe-se à base da operação. Primeiro, uma atividade "crítica" de interpretação, e, depois, o dizer. Com o agravante de que os diferentes dizeres protestantes demandavam ainda mais rigor nas interpretações. Hermenêutica tornou-se questão de interpretaão de textos, porque a "verdade" pousou nos textos.

9. Um período de uns três séculos vai ser palco de desenvolvimentos nesse campo. Aristóteles levará a crítica bíblica a promover a sua independência da Teologia, sempre platônica. A Hermenêutica será cada vez mais aplicada como técnica de interpretação. Não se verá, ainda, autônoma, com suas próprias regras, mas já terá vislumbres do que pode fazr, caso se desvencilhe da apologia interminável dos protestantismos em guerra, guerra entre si, guerra contra o mundo.

10. O século XIX, aberto por uma Revolução republicana, permite as condições para que a Hermenêutica liberte-se de amarras teológicas e eclesiásticas. Com Schleiermacher, ela começa a ganhar estatuto próprio, e começa a se descolar, lentamente, da mera atividade de interpretar textos. Começa a subir pelas mãos do intérprete, começa a situar-se na cabeça do intérprete - passa a ser uma atitivdade psicológica geral, uma arte geral de interpretação - também de textos.

11. Libertada da Teologia, logo, sem "fundamento" sistemático, e instalada na consciência humana, assim é que Dilthey recebe a herança schleiermacheriana. E põe-lhe um fundamento - a História. Hermenêutica é ação humana de interpretação da vida, aqui, agora, em situação concreta, condicionada. O homem hermenêutico nasce e morre na História, sua verdade, suas questões, suas respostas, todas, são como ee é - históricas.

12. Heidegger, mas um primeiro Heidegger, vai saltar dessas duas primeira afirmações para um nível aindamais filosófico, ainda mais próximo dos níveis originais da Hermenêutica - dizer, explicar, traduzir. Heidegger postulará que a Hermenêutica é o modus humano, que é sua mediação com a vida, que é assim que o ser se faz e se dá, e que o homem é um animal hermenêutico, aberto, inacabado, inacabável.

13. Isso significa que, mais do que nunca, o homem torna-se construtor de si mesmo, construtor de suas próprias questões, de suas próprias verdades, de seus modelos, de seus ideais - nada vez de fora, tudo é humano, antropológico, histórico... hermenêutico.

14. Mas - então, dá-se uma "recaída". Um segundo Heidegger parece ficar tão desconcertado com essa condição monadal de cada ser humano que resvala para uma idealização/estrutaralização da Linguagem. É a Linguagem, agora, uma espécie de "inconsciente coletivo" para cada homem, para a massa da humanidade. Homens e mulheres são atualizações da Linguagem - que, nesse caso, aparece aí como uma espécie de "divindade", de sub e/ou super-estrutura, ao passo que os homens e as mulheres concretas de Dilthey e do primeiro Heidegger - e de Nietzsche! - dissolvem-se, tornam-se espectros efêmeros da Linguagem, do Ser-Linguagem, do Deus-Linguagem.

15. E para encerrar, Gadamer recebe essa herança. No lugar de Linguagem, um tanto ontológica, tendente a uma metafísica quase-religiosa, Gadamer põe a Tradição, mais "diltheyana", porque a Tradição se faz na História. Mas dá no mesmo: o homem e a mulher são atualizações da Tradição, presos nela. Talvez Gadamer nem quisesse dizê-lo, mas, do jeito que o disse, o homem e a mulher são, mais uma vez, miragens, escravos do passado traditivo, da norma traditiva, do Deus-Tradição. Pela boca humana não falam os homens, fala a Divindade-Tradição. Inexorável.

16. Oxalá passemos, logo, ao próximo estágio, que esse é por demais fúnebre - é, mesmo, um réquiem do Homo sapiens. E nem se pode, com essa Hermenêutica de Linguagem e Tradição, explicar a própria espécie, porque ela é revolucionária... A Linguagem e a Tradição sofrem de esquizofrenias eventuais? Ou, a rigor, não voltou-se, aí, à velha noção pré-feuerbachiana de "Deus", mas escaoteada por uma forma de o dizer que lhe dá a aparência de fenômeno interno à cultura? O Estruturalismo não é Calvinismo secularizado? Ora, e essa Hermenêutica de Linguagem e Tradição não é teologia escondida atrás do muro?

17. Talvez estaremos sempre no olho do conflito entre Platão e Aristóteles, entre os discursos que nos sugerem a submissão à Norma e os discursos iconoclastas da Crítica. Hoje, a Exegese transfere para as gerações futuras a herança crítica. A "Hermenêtica" - a saber, isso em que ela se transformou pelo esforço (programático?) de Heidegger-dois e Gadamer [ainda mais evidentemente na história de sua receção] - parece ter feito acordos com Platão. Voltamos àquela fase em que insistem para nós que a verdade não é uma questão que nos deva interessar, preocupar, discurso que se faz sustentar seja por um sacerdotalismo religioso, seja por uma inexorabilidade lingüístico-traditiva sub-humanizante. Nos dois casos, o homem e a mulher cedem...

18. Mantenho-me firme, agarrado à tradição crítica. O vento, o tufão platônico, sopra a carne da gente, dentro da Igreja, fora dela, em todo canto - até na Universidade, agora... Talvez eu sobreviva. Talvez não. Mas, ao menos, se morrer, morrerei como homem.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Para isso, ver Richard E. Palmer, Hermenêutica. Lisboa: 70, 1999. No capítulo 1, Palmer fala dos sentidos "originários" de hermeneuen - dizer, explicar e traduzir.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

(2009/227) Mitologia grega e historicismo israelita-judaíta


1. Desde por volta do século VI a.C. - e, provavelmente, mesmo desde antes, se nos ativermos ao movimento órfico - que, na Grécia, explodiu a questão "teórica" das almas. Desde as escolas pitagóricas até as platônicas, passando pela longa série de especulações teológico-filosóficas então em moda, os gregos debruçaram-se sobre a questão - insisto, teórica - a respeito da "animação" dos corpos, com o que rapidamente chegaram à noção de distinção entre corpo e alma (o que nem de longe significa que ela já não estava presente em tradições mais antigas do que a Grécia, como as culturas extremo orientais, inclusive, com as quais não é improvável que Platão tenha mantido contato).

2. Na escola pitagórica, a questão da alma teria sido aprofundada por analogia com a astronomia/astrologia. As almas e os planetas foram assimilados à idéia de movimento ordenado, e, desde aí, a alma passou a ser assumida como um elemento distinto do corpo, conseqüentemente, celeste, e, por extensão, divino.

3. Derivou daí a pergunta pela razão de essa alma divina estar, então, encarnada num corpo. As respostas, teológicas, todas, e, com isso, quero dizer tratarem-se de racionalizações dedutivas, sempre, foram muitas. Desde a noção teológica de uma "queda", ou seja, um "pecado" das almas ainda em estado celeste, até noções de metempsicose (re-encarnação) e necessidade metafísica. E tudo isso, não se deixe passar despercebido, muito antes de o judaísmo e, naturalmente, o cristianismo beberem dessas águas, porque será dessa ânfora que hão de se embriagar...

4. Na escola platônica (cf. Timeu e Fédon, por exemplo), a criação é obra de um Demiurgo, e a encarnação explica-se por uma prisão da alma na matéria. Aqui reside a dicotomia de dois mil e quinhentos anos entre "matéria" e "pensamento", entre "corpo" e "alma" (ainda que ela seja anterior, extremo-oriental, o Ocidente bebeu-a daqui, e não de lá, ainda que a Grécia tenha, eventualmente, bebido, sim, daquelas fontes mais antigas).

5. A "queda" neoplatônica foi assimilada pelos judeus de Alexandria, que passaram a interprertar assim a narrativa de Adão e Eva, no Éden. Durante a História da Teologia, o que propriamente está em Platão foi lido como se estivesse em Gn 2-3. Na prática, que cristão não repete esse mesmo gesto, hoje? O protestantismo inteiro não é senão um desdobramento da helenização de Gn 2-3, de tal sorte que, se recuperamos o sentido histórico-social e polítco de Gn 2-3, há de se recorrer imediatamente a Platão, sob risco de toda uma cristologia tornar-se inútil...

6. Naquele período relativamente recente de reação conservadora da teologia européia (1850-1920 - porque, depois de 1920, não havia mais reação, já que essa corrente venceu a batalha), o problema era justamente a manutenção da teologia ortodoxa (neoplatônica) à custa da assim entendida necessária diferenciação da tradição bíblica de seu entorno cultural - tarefa impossível, claro. Mas a apologética é sempre mais esperta do que se pode esperar, porque ela sempre une o interesse comum de catequisadores e catequisandos em torno de uma cumplicidade de convencimento.

7. O discurso que se construiu para diferenciar Israel/Judá, logo, por extensão, a Igreja, dos povos ao redor e da filosoia helênica, foi dizer que, enquanto os povos próximo-orientais e a filosofia helênica eram mitológicos e metafísicos, a "revelação" bíblica (israelita/judaíta) era "histórica". Que, enquanto em Platão, a "queda" é metafísica, na "revelação", ela é histórica. Aquilo lá, mito de povos atrasados. Isso aqui, histórica de gente grande.

8. Bem, se você não se deixar arrastar pela tarrafa da apologética, há de considerar que não se trata de outra coisa aí que não jogos de palavras. Porque, se você aceitar que a revelação bíblica é "histórica", deverá, então, lê-la de modo histórico, e não se chega, sob nenhuma circunstãncia, caso se use ferramenta e pressupsotos metodologicamente históricos, partindo-se de Gn 2-3, ao Timeu e a Fédon - que é a que se resume grande parte da harmatologia crstã, de que depende a cristologia e a soteriologia.

9. Gn 2-3 nada tem a ver com uma "queda" de almas na matéria. Trata-se de uma peça política de leitura político-religiosa da adminstração judaíta, cujo propósito é rotular pessoas e prescrever comportamentos, teologicamente manipulados e normatizados. É pura política - e, quando daí se extrai uma "teologia" metafísica, é política também essa produção - bem como o produto.

10. Eu aceito, quem topa?, tratar historicamente os textos bíblicos. Mas não aceito fingir que levamos isso a sério, quero dizer, essa historicidade e esse tratamento histórico conseqüente. Se é para tratar a "revelação" bíblica a partir de sua emergência histórica, então vamos até onde esse caminho levar. E preparemos nossas "almas" para descobrir que não será, mas não mesmo, àquelas salas barrocas e góticas da teologia cristã que adentraremos, à medida que cavamos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 24 de abril de 2009

(2009/215) Religião e ciência


1. Há milhares de anos, quem sabe?, milhões, nasceu a religião. Já o disse que, na minha opinião, ela nasce como estética. Ato contínuo, assume aquela forma de expressão que, muito tempo depois, há de se tornar a ciência. Lá e então, ela, essa expressão, é, apenas, um impulso explicativo, próprio da religião, da teologia e, agora, próprio das ciências. Mais cedo ou mais tarde, de estética (e explicativa), a religião torna-se política.

2. Provavelmente ela tornou-se política, isto é, passou a ser controlada por interesses políticos, assim que as comunidadees humanas tornaram mais sofisticados os seus relacionamentos. Mas será com o surgimento das monarquias, das cidades, que a religião se transformará na parceira mais importante da política. O rei logo tornou-se ou representante, ou encarnação, ou imagem, ou filho dos deuses.

3. Com isso, a religião agora domina todos os espaços da cultura: a estética, o belo, as "explicações", a "verdade" - e a política, o dever. Não há, então, nenhum espaço da sociedade, da cidade e do campo, onde lá não esteja o olho e a mão da religião - e, com isso, o olho e mão dos poderes políticos, sejam os puramente sacerdotais, sejam, já, os da coroa.

4. Quanto tempo na longa estrada da História esse foi o quadro encenado, dia e noite? Séculos e séculos se perdem na noite dos tempos. Em que partes do planeta isso se sucedeu? Em todas. Não há expressão religiosa humana, no planeta, que não tenha caído nessa mesma situação. Todos os povos o fizeram. Uns mais, quanto mais organizada e urbana ela fosse, uns menos, mas mesmo as culturas menos sofisticadas, mais "tribais", mais silvícolas, experimentaram a hiperonomia da religião, isto é, a submissão de todas as esferas da vida à esfera religiosa.

5. Até que, no Ocidente, inicia-se um processo de descoalização. Não foi determinante o que aconteceu na Grécia, por volta do século V e IV. Platão está a serviço do mesmo princípio - só há, parece, um certo movimento para o esconder. Aristóteles, talvez, tenha desenvolvido reflexôes mais autonomizantes, quero crer. Seja como for, essa Grécia é o equivalente, para a Reforma, a John Huss - não deu em nada de concreto enquanto acontecia, ainda que seus desdobramentos serão percebidos séculos depois - mas somente séculos e séculos depois.

6. Aristóteles simplesmente "desaparece" no Oriente. No Ocidente, a própria cultura helênica será o estofo para uma civilização teológica inteira - o Ocidente Cristão. Platão é seu parteiro. Paulo, seu pai. E lá se vão mais mil anos, desde aí até aqueles dias em que os árabes introduzirão Aristóteles na Península Ibérica. Mil anos de "morte", dirão os próprios europeus, quando se chamarem, depois deles, de renascentistas. Grécia falhara. Tentemos de novo.

7. É somente aí que um processo realmente transformador se inicia. Desdobrar-se-á, desde a Renascença e o Humanismo, primeiro, na Reforma, depois, no Empirismo, depois, no Iluminismo, na Revolução Francesa, no Romantismo e, voilá, re-inventa-se não uma civilização, mas uma nova forma de configuração da própria condição histórica humana.

8. Depois de uma longa série de fluxos e refluxos relacionados aos processos de emancipação política (Iluminismo e Revolução Francesa) e heurística (Iluminismo, Empirismo e Romantismo), a condição hiperônima da religião perdeu substância. De sob o poder da religião, tirou-se quer a política, quer a heurística. Tornada assunto privado, logo, estético, restou a ela a manutenção esquizofrênica de fingir para si mesma que as coisas continuavam como antes.

9. Na sociedade, inicia-se uma nova forma de existência humana. Para a política, a democracia, as rotinas, sempre ainda muito imperfeitas, de representatividade política, a criação do Estado dividido em três poderes - Legislativo, Executivo e Judiciário, o estabelecimento dos Direitos Humanos.

10. Ao mesmo tempo, aquele princípio "explicativo", embrionário e mítico, converte-se num impulso programático e metodologicamente discutido de investigação - a heurística (que Aristóteles já pressupusera na forma do "saber", ao lado do querer e do sentir). Surgem as ciências, primeiro as matemáticas, depois, as empíricas, então, as humanas.

11. Estabelecem-se as câmaras pragmáticas, política, estética e heurística. A sociedade se emancipa, se organiza. O que antes constituía a câmara hiperônima de tudo o que se fazia e dizia na cultura, converte-se, agora, em uma das rotinas privadas que a constitui - a religião.

12. Mas a religião não aceita esse jogo, não. A religião quer, para si, aquela velha vida de senhora, rainha e mãe. Intra-muros, age como se nada tivesse acontecido. Intra-muros, é tão política quanto antes - todo "sacerdote" é rei e chefe. A "verdade" é o que ela diz, e pronto. O gozo, ela dita as regras litúrgicas para a sua expressão. Ela, a religião, padece de uma doença - esquizofrenia e extemporaneidade.

13. Na relação com a sociedade, a religião não aprendeu - aprenderá? - a lidar com o que considera uma usurpação de seus poderes. No campo político, mesmo os batistas, tão intimamente relacionados à sepração entre Igreja e Estado, no fundo, consideram que é Deus, logo, seu patrono, o verdadeiro gestor do planeta, seja dentro da Igreja, seja fora dela, de modo que, sendo ela a mais entendida das coisas de Deus, também a política, para ela, é uma coisa religiosa, a democracia, um instrumento de Deus, e os resultados da política, condenáveis, se ferem seus "princípios" divinos, para o que basta nos lembrarmos das questões relacionadas às células-tronco, aos direiros civis de homossexuais e às questões relacionadas ao aborto. Se a religião pudesse, assinava ela mesma as leis que ela entende divinas. Não aprendeu nada até hoje, a velha professora.

14. No campo das ciências, a esquizofreinia chega às raias do intolerável. Os mitos milenares são sacados para o enfrentamento das pesquisas. A EBD entra em batalha contra o laboratório. As crianças, coitadas, não sabem se respondem do jeito que a professora quer, ou do jeito que o pastor quer. Na prática, responde, pra um, de um jeito, pra outro, de outro, aprendendo desde cedo a sutil arte de ser adaptável. Quando não, pais enfiam goela abaixo de seus filhos os mitos que eles, os pais, decidiram ser verdadeiros.

15. No campo da estética, separa-se o belo em sagrado e profano. Veja-se o caso da música, por exemplo. Uma vez que o belo é apenas o que está no âmbito do sagrado, quando o âmbito do sagrado sofre de patologias incuráveis no campo da beleza - pelo amor de Deus, como se canta mal! -, o belo se torna irremediavelmente feio. Pior do que a mais expressiva parcela da música gospel nacional, só a mais expressiva parcela do funk nacional.

16. E tudo porque a religião não é capaz de admitir que o seu tempo de rainha acabou. Resta a ela aquela dimensão original, estética, de, eventualmente, dar sentido à existência efêmera humana. Não é necessário que a religião simplesmente se considere um fóssil, que não é, mas igualmente não é aquilo que imaginara por toda uma História das Civilizações. No sistema ocidental, cabe a ela apenas uma participação significativa na dimensão estética pessoal, mas não mais nem na política (tecnicamente falando), nem na heurística.

17. Tomara a religião ponha a mão na consciência e se converta. Poderia trocar seu papel de alienadora das consciências para um papel de expressividade estética, de agente patológico, em terapêutico. Porque até o que ela chama cura, hoje, constitui, a rigor, uma disfunção psicológica. Todavia, não é algo que um religioso possa fazer sozinho...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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