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terça-feira, 11 de novembro de 2008

(2008/35) Ainda sobre o post de Haroldo (2008/33)


1. Você escreveu: "Vestem a nudez da realidade experimentada. Dão cor quando a vida é experimentada como cinza. Há que se viver com a longa duração desses simbolismos". Isso você disse de "mitos", de "narrativas bíblicas" e de "construções de sistemas teológicos", disse que eles, na prática, tudo uma só coisa, afinal, encantam. Esse "encantam", segundo Detienne, o de A Invenção da Mitologia, está relacionado, inseparavelmente, em A República, de Platão, a "convencer" e "enfeitiçar". Encantar, lá, tem esse sentido hipnótico, mágico, heteronomizante. Penso que você usa esse sentido também - encantar, aí, é mais do que "maravilhar", não é?, é enfeitiçar, pôr feitiço, "amarrar".

2. Concordo com você. Esse é um discurso que, por força da gravidade, cai para o terreno da hermenêutica. "Vestir a nudez da realidade experimentada" é uma afirmação de caráter hermenêutico: não uma Hermenêutica-Arauto, conteudística, como quer a nova escola da "hermenêutica", um pé em Gadamer, outro em Vattimo, um em Rorty, outro em Habermas, mas uma hermenêutica num certo e plausível Heidegger, que bebe em Husserl e Kant, em Schleiermacher e, principalmente, em Dilthey. Sobretudo em um Nietzsche ainda muito mal compreendido nesse século estranho que foi o XX (vale a pena informarmo-nos sobre Domenico Losurdo!). "Vestir a nudez da realidade" com mito... Sim. E, contudo, não. Não está disponível, para a espécie humana, vestir a nudez da realidade experimentada, porque nenhum homem nem mulher algum, um dia, ontem, hoje e amanhã, experimentou ou experimentará alguma coisa parecida com uma "realidade nua". A captação da "realidade" (a secundidade de Peirce, o "mundo" de Heidegger) já a tem em trajes apropriados, já a vestiu, recatadíssima mocinha de família. Só há experiência da realidade trajada, vestida. Nua, não há.

3. Essa é, pois, uma questão relevante. Não se trata, corrija-me, Haroldo, eventualmente, de vestir a realidade nua, posto que já a temos, inexoravelmente vestida. Mas de que, então? Bem, em primeiro lugar, do fenômeno histórico da emergência, em nós, da conciência "histórica" e "hermenêutica", e de apreendermos o conceito schopenhaueriano de "representação" (Vattimo tem ojeriza disso!). As representações que temos, representações do "real", são, já, não-nuas. "Ontem" ainda, descobrimos, e isso dentro do mito!, que vivemos sob (sobre e dentro, também) o "real" sempre por meio de mitos. Essa é a conquista "heurística" mais recente da história de nossa epistemologia. Descobrir isso não é descobrir que os mitos vestem a realidade nua, mas que os mitos são a roupa com que apreendemos, sempre, a realidade - e ela nunca está nua.

4. Qual o ganho, pois, com essa consciência crítica? Tornar nua a realidade, delírio de adolescente? Sonhar com a moça nua? É natural que essa pulsão erótica invada a cabeça de quem tem hormônios de fazer ver e querer ver. Mas a consciência histórica do mito e da hermenêutica apenas nos dão consciência da "nossa" realidade - capturadores do real em redes míticas inexoráveis. Ora, isso pode nos dar o poder de manejarmos, nós mesmos, os mitos com que vamos capturar o real. Não preciso usar mais o mito da Igreja, da Teologia, do Papa, de Lutero - você está certo: tudo encantamento, prestidigitações, mágica e magia. Só posso, contudo, superar essa roupa por outra. Viver o real nu, não.

5. Morin chama isso de "possessão" (em sentido religioso, ao modo da possessão das entidades dos cultos africanos) das idéias. Já escrevi aqui sobre isso. Não podemos viver sem idéias. Nunca. Mas podemos escolher as idéias com que construiremos o "mundo" - e Morin sugere: escolhei idéias fracas!, idéias que vivam no "limite de sua combustão". Mitos fracos, frágeis, encantam com muito pouca força. Podemos viver mais simbioticamente com eles, num jogo de vai-e-vém, numa troca constante de controle, ora nós, ora eles.

6. Mas, e eis o ponto: a Teologia como heurística não quer encantar - mas desencantar. Não quer convencer, mas dialogar. Não quer enfeitiçar, mas creditar espaço de autonomia. Por isso ela é heurística. Um teólogo heurístico que, eventualmente, tente encantar, peca. Deve corrigir-se. Sua essência é não-diretiva, necessariamente, porque só é diretivo o que é político ("tu deves!"), e a Teologia, se heurística, não é política - é investigação heurística (redunância!) do real - enquanto vestido, mas a despeito da roupa. Não dá para levantar a saia da moça e olhas suas coxas. Temos que tentar olhar para a moça através da roupa que lhe pusemos, e, ainda assim, fazer ciência (e vocês meninas, se o real lhes for um "moço" airoso e bem trajado...).

7. A tarefa é tão árdua que muitos desistem antes de começar, e, em sua desistência, criam roupas que pretendem interditar o esforço aos corajosos e tenazes - não é apenas o dogma que interdita a pesquisa, mas a teoria de uma existência não-fundacional ("acordos intersubjetivos não-situados"), como o quer uma corrente que gostou de dizer-se "hermenêutica", mas que se traduz, no final das contas, em rendição à "herança" e à "tradição", como o quer Gadamer: a linguagem não é algo que acontece pelo homem, mas algo que acontece no homem...

8. Finalmente, você fala de dar cor à realidade experimentada como cinza. Boa! Você descreve a "depressão". Aí, está certo, nesse sentido. A depressão inibe o lançamento da tarrafa hermenêutica que a consciência humana lança incessantemente no mar do real. Sem a tarrafa, sem o véu - sem a gosma do caramujo, como logo se verá que gosto de dizer - o real não é tomado como "tal", e "nu", mas apresenta-se pálido, sem cor, sem força atrativa, sem eroticidade, sem libido, à língua. Quando ela se vai, a cor volta à nossa representação do real - a roupa velha da moça cheirosa é como que lavada e perfumada, e a excitação volta à carne humana.

9. Esses temas me atraem, como a luz, aos insetos. Penso, Haroldo, que nada, absolutamente nada é, no campo da intelectualidade, do que o assentamento das bases operacionais da mente/consciência humana (hermenêutica, neurociência, pragmática). Com o que fecho minha intervenção, declarando que a Teologia heurística tem de deixar de ser mito, e converter-se em método - com o que, contudo, jamais verá o corpo nu da amante eternamente vestida. A ciência - e a Teologia como ciência, igualmente - não é uma nova forma de platonismo, uma nova ontologia, uma nova metafísica - ela é uma nova maneira de lidar com os mitos. E isso faz se não toda, certamente, ao mesno, muita diferença.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

(2008/34) Da Metalurgia Iniciática, da Alquimia e da Química


1. Meu amigo voltou! Haroldo voltou! O prazer de ler seu post (2008/33) quase - apenas quase - supera o desagrado de sua ausência tão longa. Mas que importa o passado, agora? O que vale é que saiu de seu letargo - certamente um letargo de duros trabalhos em outras frentes. Mas, convenhamos, se o silêncio já me oprime as caixas toráxica e craniana, de modo que vomito noologias como quem transpira, quanto mais a fala, de modo que já cá me sobem, desde o inconsciente (que Rubem Alves quer-me fazer crer não ser "eu", já que afirma, em Filosofia da Ciência, que, sendo as intuições dos cientistas, intuições inconscientes, já não são, portanto, científicas, posto que não dos cientistas - a que não se recorre na defesa de uma "tese"!), uma convulsão de reações. Ao amigo Haroldo, por e-mail, disse-as "de bicho", quero dizer, as reações, porque automáticas, reações "impensadas". Nada de "etiquetas" aqui, como aquelas do capítulo em que Simian-Yofre discute Habermas (cf. "Anacronia", em Metodologia do Antigo Testamento), o que resulta em não se poder seguir nem um nem outro - melhor fora Yofre dizer o que devia ter dito, e pronto. Melhor ser bicho - e "reagir". Deixemos a etiqueta aos sociáveis por imposição de etiquetas.

2. Uma resposta a um aspecto de seu belo texto, Haroldo, me vem à mente (mora um bando de ogros dentro de minha cabeça, eu acho). Ela pode, de algum modo, ser verificada no excelente livrinho do Mircea Eliade, Ferreiros e Alquimistas, e, de resto, em qualquer boa "História da Química". Há milênios, o que virá a ser, muito, muito tempo depois, a Química, era, então, apenas "Metalurgia Iniciática" - mais rito e mitologia do que qualquer outra coisa. E, contudo, o que se queria, e conseguia, era "manipular" a terra, queimá-la no fogo sagrado, purificá-la, e dela fazer metal, para o bem e para o mal. Mitos e ritos estão relacionados àquela metalurgia, que você e eu conhecemos de perto, dada Nehushtan, a serpente, que nos uniu para sempre, naquele Mestrado. Quem diria que os serafins eram hipóstases de Nehushtan, a serpente de bronze? Eu disse, tu aceitou ser plausível, e lá fomos nós a desencavar a história dos harashim - falei-te que tornei-me amigo íntimo deles?

3. Séculos e séculos dessa metalurgia, e, lentamente, como o fogo das manhãs amenas, ela abstrai seus próprios mitos de útero e de obstetrícia. Por caminhos insuspeitáveis antes de se estenderem futuro adentro, mas facilmente perceptíveis depois do fato, aquela metalurgia iniciática converte-se em Alquimia. Num sentido, é a mesma coisa. Noutro, alguma coisa totalmente diferente. O que muda? O mito de fundo, a meta-narrativa mítica que dá corpo ao conjunto de práticas. Mas há, já aí, uma dimensão diferente entre metalurgia antiga e alquimia - a auto-compreensão, e, desde aí, as rotinas epistemológicas, por assim dizer, que (por isso Vattimo, Rorty, Habermas [e a fileira que os segue] detestam epistemologia?) são definidoras de práticas internamente coerentes, subsistemicamente compatíveis.

4. Não demorou tanto tempo quanto aquele transcorrido entre a metalurgia e sua "filha", a alquimia, e esta pariu: surgiu a Química. Como antes, a mesma coisa, mas que coisa tão diferente! Primeiro, porque, no nível do mito, pretende acelerar o processo pressuposto nas duas fases anteriores, ao ponto de não precisar mais apenas ajudar a Mãe a gerar mais rápido os filhos, que digo?, os metais, no útero, que digo de novo?, na terra, mas, já agora, de os fabricar em "úteros" (cadinhos!) mais eficientes, mais rápidos, "melhores". Depois - e esse é o ponto mais importante, porque a Química torna-se uma heurística, independente do próprio mito que, há milênios, começou o lento processo de geração da ciência. A imagem da adolescente rebelde me vem à mente. Aceita-la?

5. Você já vê onde quero chegar, Haroldo? Já vê o ponto em que me enfio em seu texto, para, desde lá, voltar com minha - primeira - reação? Pois então. Não há, ainda, uma Teologia que esteja no estado da Química. A Teologia ainda está no estado da Alquimia - algumas, sequer chegaram aí, e ainda estão a meter a mão na terra, a soprar o fogo, enquanto invocam os deuses. O que postulo, o que desejo, pelo que trabalho, é uma Teologia que, em sua caminhada, seja o equivalente da Química em sua própria jornada. Há isso? Não. Aliás, se depender dos teólogos, talvez nunca haja. Mas, contudo, creio na ecologia das ações, como a define Morin - não controlamos o resultado de nossas ações, de modo que, ainda que a multidão dos teólogos tenha status quo a manter, ainda assim a Teologia pode chegar a sair do controle confessional. Talvez um demônio qualquer cometa a travessura... Mais que isso - talvez já a tenha cometido!

6. Nisso, quero dizer, na necessidade que vejo de a Teologia sair da Idade Média, sair do Templo de Jerualém, sair de Roma e de Wittenberg, um excelente paralelo, ainda que em outro nível, encontro no instigante título que Karl-Otto Apel deu para sua obra-prima: Transformação da Filosofia. Ora, eu postulo uma Transformação da Teologia, e, para usar um termo tão caro a nós, teólogos, uma "conversão", uma conversão da Teologia à regra das Ciências Humanas. Eis aí uma boa idéia: uma classe de catecúmenos para a Teologia - vamos ver se ela gosta disso que inflige aos seus.

7. Você concorda comigo - ou eu com você - em que a Teologia é mito. Mas eu gostaria de insistir que essa classificação é circunstancial. Ela é mito enquanto é o que é, e, enquanto o for, o será. Mas a Teologia que postulo pretende deixar de ser - pretende tornar-se discurso heurístico sobre determinado aspecto do "real" e, nesse sentido, tão mítico quanto a Física, a História e a Fonoaudiologia. Habermas, eventualmente, dirá que tudo isso é a mesma coisa que uma canção ou uma lei do Congresso. Para Habermas, tudo é racionalidade - logo, nada é racionalidade: logo, tudo é a mesma coisa. Não dou um passo nessa direção. Para mim, heurística não é estética nem é política - é investigação da realidade, com todas as questões de fundo, de caráter epistemológico, que você sabe que sei e considero.

8. Nesse sentido, é salutar alertar-nos para a Microfísica do Poder, sim. Sempre é bom. Mas não é pelo fato de que tudo quanto em que o Homem ponha a mão corre o risco de ver-se contaminado pela guerra fraticida da política predatória que todos os objetos em que pomos a mão são a mesma coisa. A Nova Teologia, se surgir - tenho dúvidas se verei o messias ainda em vida -, estará sujeita à política humana (que nada tem de heurística, mas a heurística sabe bem explicá-la: basta ler A Humanidade da Humanidade, de Morin, ou Para Sair do Século XX, do mesmo gênio, e Ética, se ainda quiser seguir o bruxo francês), mas ela não será, mais "política", como o é a atual. O que o demonstra a força que se fez, faz e fará, ainda, para evitar transformar-se, converter-se. Porque, para a Teologia, ao contrário do que ela prega - e diz ser evangélica a regra (para os outros!) -, não convém que ela padeça do "bem" que inflige aos outros: conversão.

9. Sim, tu dizes: Teologia é mito. Bem dito. Pois arremato: chegou então a hora de deixar de sê-lo.

PS. não tardes a responder, amigo - para ouvir-te te instigo!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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