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sábado, 13 de junho de 2009

(2009/354) Eis o Nietzsche não-fundacional, senhores!


1. Onde quer que estejas, cava profundamente,
em baixo fica a fonte
.
Deixa os homens sombrios gritar:
'em baixo fica sempre o inferno'...
(A Gaia Ciência, Aforismo 3)




2. Provavelmente - está na moda dizê-lo - eu leia errado tão importante Aforismo. Eventualmente... Na hipótese, contudo, de eu o ler adequadamente, soa um tanto imprópria a citação de Nietzsche nos trabalhos de Rorty, Vattimo e mais não-fundacionistas. Aliás, não me recordo - surpresa! - de alguma vez - uma, bastaria - ter lido esse Aforismo nas defesas do vazio epistemológico pragmatista (Rorty) e "hermenêutico" (Vattimo). Não, jamais o li. Nem o lerei. Porque esse Aforismo, para a epistemologia não-fundacional, é como as declarações de fé das denominações cristãs (e a epistemologia não-fundacional que é, se não declaração de fé?): ei, esse versículo aqui não "bate" com essa doutrina aí... tira o versículo!, tira o versículo!...

3. Nem horizontalmente, para os lados, nem verticalmente, para cima - é para baixo, para muito baixo que somos animados a cavar. Cavar! E profundamente. Saboreio o advérbio, como a espezinhar esse modismo ectoplasmático: p-r-o-f-u-n-d-a-m-e-n-t-e.

4. Quiçá não seja breve, que tarde quanto tarda a felicidade dos dramas do cinema, mas haverei de, contudo, dar uma notícia a Nietzsche, quando nos encontrarmos - porque nos haveremos de encontrar, porque, de um jeito ou de outro, onde ele está, lá estarei eu - sem dúvida! Terei de notificá-lo de uma necessária ampliação da circunferência cosmogônica de seu Aforismo. Ele deve inflar, para caber mais gente....

5. É que, quando Nietzsche o escrevia, a julgar pela presença do "inferno" aí, era de teólogos que ele falava, não mexa aí, homem de Deus!, não mexa aí! Os teólogos eram os gritadores das ruas: não cava!, não cava! Que se danassem de gritar, cavássemos...

6. Contudo, surgiu, eu devo avisá-lo - mas insito, que demore a má notícia -, um novo tipo de homens. Talvez até um novo tipo de "teólogos"! Aqueles que inventaram de não haver chão, que gostam de chamar por "fundamento" - um não-chão, um não-fundamento. Não havendo fundamento, não há nem onde nem o que cavar.

7. Assim, pobres de nós, escapamos das garras dos teólogos (e eu, um deles, mas, como a cigarra, deixei a casca em kantiano tronco, e voei), mas caímos nos palpos de uma classe "nova", a ser melhor definida após o diagnóstico, mas que se conhece pelo fato de ser tomada pelo "toque" do não-real: "eh, não tem chão! eh, não tem chão!", cochicham entre dentes, enquanto esperam a balconista trazer o adoçante, posto zelarem bastante pela aparência...

8. Quanto a mim, nado contra a corrente da teologia vecchia, e, agora, afasto-me dos rochedos sobre o quais gorjeiam sereias hermenêutico-pragmatistas (1). Fico com os conselhos sapientíssimos de meu velho amigo Nietzsche, escritos a martelada no fundo e nas paredes do poço, e que vou lendo, enquanto obedeço: cava, rapaz, cava... Mas já vou envelhecendo, homem! Pois então, usa uma retro-escavadeira - mas, pelo amor de Deus, cava!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. É imperioso que não se confundam os termos: "pragmática" (que não usei aqui) tem a ver com Aristóteles, Kant, Peirce e Morin, e nada tem a ver, absolutamente nada, com o pragmatismo rortyano. Quanto a hermenêutica, fazer o quê? O termo é usado por qualquer um. Pois bem: valho-me do sentido próprio daquele moldado pelo percurso que vai de Kant ao primeiro Heidegger, e saio correndo só ao ouvir o nome do segundo Heidegger e dos descaminhos pelos quais a hermenêutica se viu (des)caminhando. Esta, renego. Aquela, acaricio. O que Vattimo chama de hermenêutica é um "discurso", um topos semântico, um "depósito de fé". Xô!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

(2009/348) Coisa de pele e de cabeça - ou: do fundamento blastular do conhecimento humano


1. Sim, sim - é mais uma implicância minha, dentre as muitas, com a "pós-modernidade", mais precisamente naquele seu quesito da não-fundacionalidade do "conhecimento", proposição estabelecida axiomaticamente por meio de decisão lingüístico-mitológica comunitário-arbitrária - bem, se não há fundamento, não foi com base em "fatos" que se determinou o consenso, quero concluir... Assim se chegaria a curar a AIDS! Quem vota? Eu, eu, eu, pronto, axiomatizada a cura da AIDS... Cura de que, mesmo?...

2. Ironia à parte, quero refletir um pouco sobre uma informação de Edgar Morin - dada em O Método 3 - o conhecimento do conhecimento, cujo propósito é re-fundar o conhecimento na matéria viva, logo, no corpo, antes que num conceito platônico de ectoplasma incorpóreo, anímico, teológico, mitológico - qualquer que seja ele. O fantasma do conhecimento não-sensorial, não corporal, não-biológico, é tão assustador e eficiente que, ontem ainda, possuía a mente de Descartes - "penso, logo, existo...". "Pensa"? Quê? Tu? Sem tuas mitocôndrias?

3. Eis a informação, extraída do capítulo "2. A animaidade do conhecimnto" de O Método 3:

3.1 "Nosso tecido nervoso, como nossa pele, diferencia-se a partir de uma região da membrana externa do embrião ou do ectoderma. Significa que se formou, filogeneticamente, a partir das interações com o mundo exterior. Efetivamente a formação dos sistemas nervosos, ao longo das diversas evoluções animais, é inseparável das ações e reações no interior de um meio ambiente, e os desenvolvimentos cerebrais são inseparáveis da locomoção rápida, da busca, do ataque e da defesa, ligados à procura do alimento protéico, originária da incapacidade animal de captar a energia solar" (p. 63).

3.2 Uma nota 17, apensa ao texto, remete ao seguinte esclarecimento, mais técnico: "as primeiras divisões do ovo depois da fecundação transformaram-no numa espécie de esfera (blástula) que se transformará rapidamente num embrião (gástrula) atravessado por um 'tubo digestivo primitivo' e recoberto de uma camada de células (ectoderma) que o delimita física e fisiologicamente do seu meio. É a partir da região ântero-dorsal desse ectoderma que começa, no vertebrado, a formação de uma calha rapidamente fechada num tubo (tubo neural), num primeiro esboço dos centros encefálicos e medulares" (p. 264).

4. Essa é uma informação carregada de implicações para a Epistemologia Cognitiva - diante do que o não-fundacionalismo não tem a menor sustentação teórica. A membrana da qual se origina tanto a pele quanto o sistema nervoso humano - inclua-se, não se vá esquecer, aí, o cérebro! - é a parte responsável pela delimitação do ovo, da célula, da blástula, com o meio externo/ambiente. Essa membrana, portanto, de um lado, promove a diferenciação do ser vivo, separando-o fisicamente do meio, e, de outro, proporcionando à célula viva os mecanismos e instrumentos de interagir com esse meio - a "computação viva", incluídas aí a alimentação, a excreção, a locomoção, a respiração etc. (para um exemplo de "interação" da membrana na função alimentar [fagocitose], cf. Perseguição em alta velocidade).

5. A membrana celular está diretamente relacionada, assim, ao, movimento do ser vivo em direção ao meio externo, seja a sua própria locomoção nele, seja a sua interação sensorial operada nele. Ir lá fora e trazer para aqui dentro - digamos assim. Isso já requer capacidade de "computação" - capacidade química de identificação do meio e de tratamento da informação aí disponível. É de comer?

6. Nos animais superiores, contudo, especialmente nos vetebrados, a computação viva torna-se cada vez mais complexa, de modo que se torna necessária uma cada vez mais complexa estrutura - seja de captação dos insumos do meio, seja de sua prospecção (sentidos e aparelho locomotor/coletador), bem como, obviamente, de operação das rotinas de tratamento dessas informações - "computação" viva.

7. No Homo sapiens, a especialização cerebral é incomparável. O que era "computação" (e permanece sendo "computação"), evolui para a "cogitação" (consciência, pensamento, linguagem). Ora, o pensamento, a consciência, a linguagem - são desdobramentos/emergências "naturais" daquele mesmo tecido nervoso que, por sua vez, desdobrara-se daquela mesma membrana blastular. Isso sginficia que o pensamento, conquanto possa voar até o Sol - como Ícaro! - tem a função primária de tratar o meio ambiente - o real! 0- com o objetivo primáro de... manter-me vivo!

8. Ora, o fundamento da vida é a sua instalação eficiente no meio ecossistêmico. A membrana blastular dá ao ovo (assim como a membrana celular dá à célula) a capacidade de se individuar do meio, e de emergir como sujeito vivo - conquanto não sujeito de si. O pensamento humano, a sua faculdade cognitiva, está diretamente ligada àquela função necessária da computação do meio, logo, seu fundamento encontra-se lá fora, no real. Ao contrário, mas muito ao contrário do que postulava Platão, que cnsiderava a matéria e os sentidos ineficientes para o "conhecimento", o próprio conhecimento humano é uma emergência da estrutura bio-orgânica de tratamento vivo do real.

9. A despeito da rotina hermenêutica que intermedia o pensamento humano e o real, somente se pode desconsiderar o real como fundamento da validade heurística e epistemológica desse pensamento ao custo da desmembranização do homem, de seu desenvelopamento, e, com isso, sua dissolvição - seja num solipsismo estético, seja num misticismo lingüístico. De fato, o homem que decide pensar descoladamente do real, aliena-se. Se, de fato, de verdade, o fizer, morre. Cpmo nenhum não-fundacionalista morre de não-fundacionalismo (Rorty não morreu por seu não-fundacionalista, se é que morreu, se é que existiu! Aliás, qual a diferença entre Rorty e o Gasparzinho?), segue-se que não existe nenhum verdadeiro não-fundacionalista, e que os discursos não-fundacionalistas são isso, diversão de meia dúzia e política de outro tanto. Na hora h, quando a vida reclama, curvam-se, inexoravelmente, à condição primária de toda célula e de toda blástula- agarram-se à vida. Se não enganfinharem o real, e vida, engaalfinha-os o real, na morte, de qualquer jeito...

10. O que sugere que o não-fundacionalismo gravita entre alguma coisa políica e lúdica: uma zombaria, para atazanar a vida de quem os leva a sério - eu, por exemplo -, ou estratégia para conseguir, por meio desse artifício prestidigital, vantagens que, na vida concreta, na interface com o real, não detêm nem de outro modo deteriam. Razões inconfessáveis? Ou meramente equívoco platônico - nesse caso, consideravelmente anacrônico?

"A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por consqüência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste sistema" (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, Aforismo 11).



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 11 de novembro de 2008

(2008/35) Ainda sobre o post de Haroldo (2008/33)


1. Você escreveu: "Vestem a nudez da realidade experimentada. Dão cor quando a vida é experimentada como cinza. Há que se viver com a longa duração desses simbolismos". Isso você disse de "mitos", de "narrativas bíblicas" e de "construções de sistemas teológicos", disse que eles, na prática, tudo uma só coisa, afinal, encantam. Esse "encantam", segundo Detienne, o de A Invenção da Mitologia, está relacionado, inseparavelmente, em A República, de Platão, a "convencer" e "enfeitiçar". Encantar, lá, tem esse sentido hipnótico, mágico, heteronomizante. Penso que você usa esse sentido também - encantar, aí, é mais do que "maravilhar", não é?, é enfeitiçar, pôr feitiço, "amarrar".

2. Concordo com você. Esse é um discurso que, por força da gravidade, cai para o terreno da hermenêutica. "Vestir a nudez da realidade experimentada" é uma afirmação de caráter hermenêutico: não uma Hermenêutica-Arauto, conteudística, como quer a nova escola da "hermenêutica", um pé em Gadamer, outro em Vattimo, um em Rorty, outro em Habermas, mas uma hermenêutica num certo e plausível Heidegger, que bebe em Husserl e Kant, em Schleiermacher e, principalmente, em Dilthey. Sobretudo em um Nietzsche ainda muito mal compreendido nesse século estranho que foi o XX (vale a pena informarmo-nos sobre Domenico Losurdo!). "Vestir a nudez da realidade" com mito... Sim. E, contudo, não. Não está disponível, para a espécie humana, vestir a nudez da realidade experimentada, porque nenhum homem nem mulher algum, um dia, ontem, hoje e amanhã, experimentou ou experimentará alguma coisa parecida com uma "realidade nua". A captação da "realidade" (a secundidade de Peirce, o "mundo" de Heidegger) já a tem em trajes apropriados, já a vestiu, recatadíssima mocinha de família. Só há experiência da realidade trajada, vestida. Nua, não há.

3. Essa é, pois, uma questão relevante. Não se trata, corrija-me, Haroldo, eventualmente, de vestir a realidade nua, posto que já a temos, inexoravelmente vestida. Mas de que, então? Bem, em primeiro lugar, do fenômeno histórico da emergência, em nós, da conciência "histórica" e "hermenêutica", e de apreendermos o conceito schopenhaueriano de "representação" (Vattimo tem ojeriza disso!). As representações que temos, representações do "real", são, já, não-nuas. "Ontem" ainda, descobrimos, e isso dentro do mito!, que vivemos sob (sobre e dentro, também) o "real" sempre por meio de mitos. Essa é a conquista "heurística" mais recente da história de nossa epistemologia. Descobrir isso não é descobrir que os mitos vestem a realidade nua, mas que os mitos são a roupa com que apreendemos, sempre, a realidade - e ela nunca está nua.

4. Qual o ganho, pois, com essa consciência crítica? Tornar nua a realidade, delírio de adolescente? Sonhar com a moça nua? É natural que essa pulsão erótica invada a cabeça de quem tem hormônios de fazer ver e querer ver. Mas a consciência histórica do mito e da hermenêutica apenas nos dão consciência da "nossa" realidade - capturadores do real em redes míticas inexoráveis. Ora, isso pode nos dar o poder de manejarmos, nós mesmos, os mitos com que vamos capturar o real. Não preciso usar mais o mito da Igreja, da Teologia, do Papa, de Lutero - você está certo: tudo encantamento, prestidigitações, mágica e magia. Só posso, contudo, superar essa roupa por outra. Viver o real nu, não.

5. Morin chama isso de "possessão" (em sentido religioso, ao modo da possessão das entidades dos cultos africanos) das idéias. Já escrevi aqui sobre isso. Não podemos viver sem idéias. Nunca. Mas podemos escolher as idéias com que construiremos o "mundo" - e Morin sugere: escolhei idéias fracas!, idéias que vivam no "limite de sua combustão". Mitos fracos, frágeis, encantam com muito pouca força. Podemos viver mais simbioticamente com eles, num jogo de vai-e-vém, numa troca constante de controle, ora nós, ora eles.

6. Mas, e eis o ponto: a Teologia como heurística não quer encantar - mas desencantar. Não quer convencer, mas dialogar. Não quer enfeitiçar, mas creditar espaço de autonomia. Por isso ela é heurística. Um teólogo heurístico que, eventualmente, tente encantar, peca. Deve corrigir-se. Sua essência é não-diretiva, necessariamente, porque só é diretivo o que é político ("tu deves!"), e a Teologia, se heurística, não é política - é investigação heurística (redunância!) do real - enquanto vestido, mas a despeito da roupa. Não dá para levantar a saia da moça e olhas suas coxas. Temos que tentar olhar para a moça através da roupa que lhe pusemos, e, ainda assim, fazer ciência (e vocês meninas, se o real lhes for um "moço" airoso e bem trajado...).

7. A tarefa é tão árdua que muitos desistem antes de começar, e, em sua desistência, criam roupas que pretendem interditar o esforço aos corajosos e tenazes - não é apenas o dogma que interdita a pesquisa, mas a teoria de uma existência não-fundacional ("acordos intersubjetivos não-situados"), como o quer uma corrente que gostou de dizer-se "hermenêutica", mas que se traduz, no final das contas, em rendição à "herança" e à "tradição", como o quer Gadamer: a linguagem não é algo que acontece pelo homem, mas algo que acontece no homem...

8. Finalmente, você fala de dar cor à realidade experimentada como cinza. Boa! Você descreve a "depressão". Aí, está certo, nesse sentido. A depressão inibe o lançamento da tarrafa hermenêutica que a consciência humana lança incessantemente no mar do real. Sem a tarrafa, sem o véu - sem a gosma do caramujo, como logo se verá que gosto de dizer - o real não é tomado como "tal", e "nu", mas apresenta-se pálido, sem cor, sem força atrativa, sem eroticidade, sem libido, à língua. Quando ela se vai, a cor volta à nossa representação do real - a roupa velha da moça cheirosa é como que lavada e perfumada, e a excitação volta à carne humana.

9. Esses temas me atraem, como a luz, aos insetos. Penso, Haroldo, que nada, absolutamente nada é, no campo da intelectualidade, do que o assentamento das bases operacionais da mente/consciência humana (hermenêutica, neurociência, pragmática). Com o que fecho minha intervenção, declarando que a Teologia heurística tem de deixar de ser mito, e converter-se em método - com o que, contudo, jamais verá o corpo nu da amante eternamente vestida. A ciência - e a Teologia como ciência, igualmente - não é uma nova forma de platonismo, uma nova ontologia, uma nova metafísica - ela é uma nova maneira de lidar com os mitos. E isso faz se não toda, certamente, ao mesno, muita diferença.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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