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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

(2009/655) Quando Marta engole os não-fundacionalistas


1. Nao, senhores! Não existe o "real", não... A realidade é, nas contas da lousa, uma quimera da cabeça de qualquer um. Você pensa, e o resultao do pensamento - disse "do pensamento"? - não, não, nem do pensamento, das "negociações" intersubjetivas, interpessoais, as convensões, ai, ai, são elas, e não o real, que emerge... Para uma "realidade" assim, apenas, mesmo, uma epistemologia sem fundamento, não-fundacional, uma "verdade" não-verdadeira, meio-verdadeira, semi-verdadeira (tudo isso, senhores, resquícios mal digeridos do jantar teológico-metafísico de dois mil e quinhentos anos, vício de um pensamento preso ao passado - eles acreditam que só há verdade divina, e, como não há verdade divina, logo, não há verdade alguma... A Teologia pôs ovo na cabeça deles, e eles acham que não chocou!). Quem acredita no "real", senhores, é tolo, "fundamentalista", "positivista", imperialista! Porque o real, senhores, é mingau de nada...

2. Aí, vem a Marta, senhores... E o que vocês vão dizer? Que ela pensa, combina, negocia, e a bola se faz? Ou, senhores, que ela, Marta, como poucas, como poucos, domina essa esfera real, esse pedaço de verdade, e faz com ela o que quer?, como a vida, com a gente...



3. Taí, em cursos de epistemologia, esse vídeo devia ser obrigatório...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 1 de agosto de 2009

(2009/409) Heráclito e mais uma na "epistemologia não-fundacional"


1. Não escondo de ninguém minha absoluta admiração - e num nível assim, só a ele - a Edgar Morin. Gênio vivo - dentre todos os autores que já li, inigualável. Todos os demais que admiro, e não são, contudo, poucos, constituem-se, em última análise, em aprofundamentos "focais" em aspectos isolados das proposições de Edgar Morin, as quais, é bom não negligenciar o fato, são, por sua vez, aprofundamentos sitêmicos a um conjunto agora absolutamente amplo de especialidades, recolhido de terceiros e levado a termo pelo gênio incomparável do teórico da complexidade.

2. Edgar Morin parte de teóricos anteriores, aprofunda-os, "costurando-os" uns aos outros - e essa é sua marca registrada: a quebra, bem sucedida, do paradigma disjuntivo das ciências recém-nascidas. Morin respeita as idiossincrasias teórico-metodológicas de "cada" ciência, mas sabe que, assim, idiossincrásicas apenas, perdem toda a sua relevância, porque é quando elas se articulam entre si - transdisciplinaridade! - que revelam a possível imersão humana no "natureza", ou seja, na "verdade". Não preciso dizer que Morin é severamente crítico em relação àqueles paradigmas que são disjuntivos, simplificadores, não-fundacionais, "idealistas", e só idealistas, "materialistas", e só materialistas. Por outro lado, retorna ao mais longínquo passado para, desde lá, recuperar desvios perdidos, proposições valiosas, insights desperdiçados.

3. Numa dessas viagens arqueológicas ao passado, encontra Heráclito. E, agora, permitam-me citar Heráclito, para, mais uma vez, agora com ele, dar mais uma boa pancada na cabeça (já de todo tonta) da epistemologia não-fundacional. Ao final, recomendarei um tratamento freudiano para a paciente.

4. Ei-lo: "No sono, a memória nos abandona, mas nós retomamos a consciência de nosso ser logo que despertamos. Pois os sentidos fecham seus poros quando nós dormimos, de tal modo que nosso espírito fica separado do meio ambiente, e não temos outra ligação com o mundo exterior exceto pela respiração, comparável a uma raiz. Ao despertar, ele se dirige de novo para os poros dos sentidos como para janelas, toma contato com o mundo que o cerca e recobra a faculade da razão. E, como os carvões se transformam e queimam perto do fogo, e longe dele se apagam, assim a parte de meio ambiente em nosso corpo fica privada de razão pela separação" (Gérard Legrand, Os Pré-Socráticos, Jorge Zahar, 1991, p. 57).

5. Viram? Os sentidos fazem de nós, nós. Sem eles, "dormimos". E é assim, porque é do meio ambinte que extraímos, por meio dos sentidos, todas as informações necessárias para a elaboração de nosso ser, sejam aquelas propriamente virais e biológicas, sejam aquelas propriamente psicológicas e noológicas. Somos em função do meio, e o meio "é" em função de nós. Fora do meio ambiente, só há sonho e dormência.

6. Freud chamava à fuga da realidade de "princípio de prazer". Há, pois, em nível patológico, uma ênfase na fuga do "real", uma fuga para dentro de discursos tomados, então, como o "real", ainda que, dentro deles, afirme-se não haver "real". A epistemologia não-fundaconal começa por dizer justamente que não há real, que não há fundamento possível no qual ancorar nossa conciência, e, então, a primeira coisa que faz, é, assim, criar esse fundamento, recurso político-estratégico para poder dizer e fazer o que quer que venha quer fazer e dizer, sem a necessidade de dar satisfações... a nós. Sim, a nós, aos outros, porque, à vida, ao real, dão, sim, sempre, a despeito da birra ideológica, da manha infantil ou da estratégia maximamente má-intencionada de seu discurso.

7. Penso, sinceramente, que epistemólogos não-fundacionais devem tratar-se com Freud. Sei que também careço cá de meus tratamentos, e, talvez, até de CTI - se há cura para meus tormentos. Mas esse mal, a fuga do real, a necessidade de inventar um mundo falso onde minha cabeça gire astutamente, esse mal (será?) não cultivo na alma. Pelo contrário: quero chegar ao fundo desse real, até onde meus poros me permitam, até aonde a dor seja suprotável, mas ao preço de o prazer, aí, ser também inigualável.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. para a relação indissociável entre "eu" e o "não-eu", isto é, entre o homem e o meio ambiente, e isso para a possibilidade da própria constituição do homem enquanto hmem, sugiro meu ensaio O Complexo Hermenêutica e Consciência – da viscosidade úmida dos mundos, disponível aqui.

sábado, 13 de junho de 2009

(2009/354) Eis o Nietzsche não-fundacional, senhores!


1. Onde quer que estejas, cava profundamente,
em baixo fica a fonte
.
Deixa os homens sombrios gritar:
'em baixo fica sempre o inferno'...
(A Gaia Ciência, Aforismo 3)




2. Provavelmente - está na moda dizê-lo - eu leia errado tão importante Aforismo. Eventualmente... Na hipótese, contudo, de eu o ler adequadamente, soa um tanto imprópria a citação de Nietzsche nos trabalhos de Rorty, Vattimo e mais não-fundacionistas. Aliás, não me recordo - surpresa! - de alguma vez - uma, bastaria - ter lido esse Aforismo nas defesas do vazio epistemológico pragmatista (Rorty) e "hermenêutico" (Vattimo). Não, jamais o li. Nem o lerei. Porque esse Aforismo, para a epistemologia não-fundacional, é como as declarações de fé das denominações cristãs (e a epistemologia não-fundacional que é, se não declaração de fé?): ei, esse versículo aqui não "bate" com essa doutrina aí... tira o versículo!, tira o versículo!...

3. Nem horizontalmente, para os lados, nem verticalmente, para cima - é para baixo, para muito baixo que somos animados a cavar. Cavar! E profundamente. Saboreio o advérbio, como a espezinhar esse modismo ectoplasmático: p-r-o-f-u-n-d-a-m-e-n-t-e.

4. Quiçá não seja breve, que tarde quanto tarda a felicidade dos dramas do cinema, mas haverei de, contudo, dar uma notícia a Nietzsche, quando nos encontrarmos - porque nos haveremos de encontrar, porque, de um jeito ou de outro, onde ele está, lá estarei eu - sem dúvida! Terei de notificá-lo de uma necessária ampliação da circunferência cosmogônica de seu Aforismo. Ele deve inflar, para caber mais gente....

5. É que, quando Nietzsche o escrevia, a julgar pela presença do "inferno" aí, era de teólogos que ele falava, não mexa aí, homem de Deus!, não mexa aí! Os teólogos eram os gritadores das ruas: não cava!, não cava! Que se danassem de gritar, cavássemos...

6. Contudo, surgiu, eu devo avisá-lo - mas insito, que demore a má notícia -, um novo tipo de homens. Talvez até um novo tipo de "teólogos"! Aqueles que inventaram de não haver chão, que gostam de chamar por "fundamento" - um não-chão, um não-fundamento. Não havendo fundamento, não há nem onde nem o que cavar.

7. Assim, pobres de nós, escapamos das garras dos teólogos (e eu, um deles, mas, como a cigarra, deixei a casca em kantiano tronco, e voei), mas caímos nos palpos de uma classe "nova", a ser melhor definida após o diagnóstico, mas que se conhece pelo fato de ser tomada pelo "toque" do não-real: "eh, não tem chão! eh, não tem chão!", cochicham entre dentes, enquanto esperam a balconista trazer o adoçante, posto zelarem bastante pela aparência...

8. Quanto a mim, nado contra a corrente da teologia vecchia, e, agora, afasto-me dos rochedos sobre o quais gorjeiam sereias hermenêutico-pragmatistas (1). Fico com os conselhos sapientíssimos de meu velho amigo Nietzsche, escritos a martelada no fundo e nas paredes do poço, e que vou lendo, enquanto obedeço: cava, rapaz, cava... Mas já vou envelhecendo, homem! Pois então, usa uma retro-escavadeira - mas, pelo amor de Deus, cava!


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. É imperioso que não se confundam os termos: "pragmática" (que não usei aqui) tem a ver com Aristóteles, Kant, Peirce e Morin, e nada tem a ver, absolutamente nada, com o pragmatismo rortyano. Quanto a hermenêutica, fazer o quê? O termo é usado por qualquer um. Pois bem: valho-me do sentido próprio daquele moldado pelo percurso que vai de Kant ao primeiro Heidegger, e saio correndo só ao ouvir o nome do segundo Heidegger e dos descaminhos pelos quais a hermenêutica se viu (des)caminhando. Esta, renego. Aquela, acaricio. O que Vattimo chama de hermenêutica é um "discurso", um topos semântico, um "depósito de fé". Xô!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

(2009/348) Coisa de pele e de cabeça - ou: do fundamento blastular do conhecimento humano


1. Sim, sim - é mais uma implicância minha, dentre as muitas, com a "pós-modernidade", mais precisamente naquele seu quesito da não-fundacionalidade do "conhecimento", proposição estabelecida axiomaticamente por meio de decisão lingüístico-mitológica comunitário-arbitrária - bem, se não há fundamento, não foi com base em "fatos" que se determinou o consenso, quero concluir... Assim se chegaria a curar a AIDS! Quem vota? Eu, eu, eu, pronto, axiomatizada a cura da AIDS... Cura de que, mesmo?...

2. Ironia à parte, quero refletir um pouco sobre uma informação de Edgar Morin - dada em O Método 3 - o conhecimento do conhecimento, cujo propósito é re-fundar o conhecimento na matéria viva, logo, no corpo, antes que num conceito platônico de ectoplasma incorpóreo, anímico, teológico, mitológico - qualquer que seja ele. O fantasma do conhecimento não-sensorial, não corporal, não-biológico, é tão assustador e eficiente que, ontem ainda, possuía a mente de Descartes - "penso, logo, existo...". "Pensa"? Quê? Tu? Sem tuas mitocôndrias?

3. Eis a informação, extraída do capítulo "2. A animaidade do conhecimnto" de O Método 3:

3.1 "Nosso tecido nervoso, como nossa pele, diferencia-se a partir de uma região da membrana externa do embrião ou do ectoderma. Significa que se formou, filogeneticamente, a partir das interações com o mundo exterior. Efetivamente a formação dos sistemas nervosos, ao longo das diversas evoluções animais, é inseparável das ações e reações no interior de um meio ambiente, e os desenvolvimentos cerebrais são inseparáveis da locomoção rápida, da busca, do ataque e da defesa, ligados à procura do alimento protéico, originária da incapacidade animal de captar a energia solar" (p. 63).

3.2 Uma nota 17, apensa ao texto, remete ao seguinte esclarecimento, mais técnico: "as primeiras divisões do ovo depois da fecundação transformaram-no numa espécie de esfera (blástula) que se transformará rapidamente num embrião (gástrula) atravessado por um 'tubo digestivo primitivo' e recoberto de uma camada de células (ectoderma) que o delimita física e fisiologicamente do seu meio. É a partir da região ântero-dorsal desse ectoderma que começa, no vertebrado, a formação de uma calha rapidamente fechada num tubo (tubo neural), num primeiro esboço dos centros encefálicos e medulares" (p. 264).

4. Essa é uma informação carregada de implicações para a Epistemologia Cognitiva - diante do que o não-fundacionalismo não tem a menor sustentação teórica. A membrana da qual se origina tanto a pele quanto o sistema nervoso humano - inclua-se, não se vá esquecer, aí, o cérebro! - é a parte responsável pela delimitação do ovo, da célula, da blástula, com o meio externo/ambiente. Essa membrana, portanto, de um lado, promove a diferenciação do ser vivo, separando-o fisicamente do meio, e, de outro, proporcionando à célula viva os mecanismos e instrumentos de interagir com esse meio - a "computação viva", incluídas aí a alimentação, a excreção, a locomoção, a respiração etc. (para um exemplo de "interação" da membrana na função alimentar [fagocitose], cf. Perseguição em alta velocidade).

5. A membrana celular está diretamente relacionada, assim, ao, movimento do ser vivo em direção ao meio externo, seja a sua própria locomoção nele, seja a sua interação sensorial operada nele. Ir lá fora e trazer para aqui dentro - digamos assim. Isso já requer capacidade de "computação" - capacidade química de identificação do meio e de tratamento da informação aí disponível. É de comer?

6. Nos animais superiores, contudo, especialmente nos vetebrados, a computação viva torna-se cada vez mais complexa, de modo que se torna necessária uma cada vez mais complexa estrutura - seja de captação dos insumos do meio, seja de sua prospecção (sentidos e aparelho locomotor/coletador), bem como, obviamente, de operação das rotinas de tratamento dessas informações - "computação" viva.

7. No Homo sapiens, a especialização cerebral é incomparável. O que era "computação" (e permanece sendo "computação"), evolui para a "cogitação" (consciência, pensamento, linguagem). Ora, o pensamento, a consciência, a linguagem - são desdobramentos/emergências "naturais" daquele mesmo tecido nervoso que, por sua vez, desdobrara-se daquela mesma membrana blastular. Isso sginficia que o pensamento, conquanto possa voar até o Sol - como Ícaro! - tem a função primária de tratar o meio ambiente - o real! 0- com o objetivo primáro de... manter-me vivo!

8. Ora, o fundamento da vida é a sua instalação eficiente no meio ecossistêmico. A membrana blastular dá ao ovo (assim como a membrana celular dá à célula) a capacidade de se individuar do meio, e de emergir como sujeito vivo - conquanto não sujeito de si. O pensamento humano, a sua faculdade cognitiva, está diretamente ligada àquela função necessária da computação do meio, logo, seu fundamento encontra-se lá fora, no real. Ao contrário, mas muito ao contrário do que postulava Platão, que cnsiderava a matéria e os sentidos ineficientes para o "conhecimento", o próprio conhecimento humano é uma emergência da estrutura bio-orgânica de tratamento vivo do real.

9. A despeito da rotina hermenêutica que intermedia o pensamento humano e o real, somente se pode desconsiderar o real como fundamento da validade heurística e epistemológica desse pensamento ao custo da desmembranização do homem, de seu desenvelopamento, e, com isso, sua dissolvição - seja num solipsismo estético, seja num misticismo lingüístico. De fato, o homem que decide pensar descoladamente do real, aliena-se. Se, de fato, de verdade, o fizer, morre. Cpmo nenhum não-fundacionalista morre de não-fundacionalismo (Rorty não morreu por seu não-fundacionalista, se é que morreu, se é que existiu! Aliás, qual a diferença entre Rorty e o Gasparzinho?), segue-se que não existe nenhum verdadeiro não-fundacionalista, e que os discursos não-fundacionalistas são isso, diversão de meia dúzia e política de outro tanto. Na hora h, quando a vida reclama, curvam-se, inexoravelmente, à condição primária de toda célula e de toda blástula- agarram-se à vida. Se não enganfinharem o real, e vida, engaalfinha-os o real, na morte, de qualquer jeito...

10. O que sugere que o não-fundacionalismo gravita entre alguma coisa políica e lúdica: uma zombaria, para atazanar a vida de quem os leva a sério - eu, por exemplo -, ou estratégia para conseguir, por meio desse artifício prestidigital, vantagens que, na vida concreta, na interface com o real, não detêm nem de outro modo deteriam. Razões inconfessáveis? Ou meramente equívoco platônico - nesse caso, consideravelmente anacrônico?

"A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por consqüência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste sistema" (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, Aforismo 11).



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 7 de junho de 2009

(2009/337) A face apócrifa e subterrânea da pós-modernidade não-fundacional


1. Insisto, e quem houver de ficar aborrecido, só tomando um banho frio - a pós-modernidade, de recorte epistemológico pós-fundacional, escolhe: ou serve aos interesses mais estapafúrdios e esdrúxulos, ou serve para acabar com toda possibilidade de discurso crítico e criticável.

2. Um exemplo muito simples, mas que sai da sala de aula, sala de aula onde tudo pode, onde os mestres parem mundos de sua cabeça, e eles, tanto faz, os mestres, os mundos, ficam voando, sem chão, na sua frente, opa!, eu quero esse, opa!, eu quere esse outro!, ah!, esse aqui é meu, ah!, eu gosto desse...

3. Acompanhe-se de perto o caso maedia corporativa (até escrever o nome dos jornalões me dá urticária - mas esses aí, das bancas, de manchetes decididas político-partidariamente) versus blog da PETROBRAS. Ah, esse, sim, é um caso para que se possa ver o quanto vale e a que servem essas epistemologias não-fundacionais...

4. Vamos lá. A maedia corporativa tem a sua pauta - Deus sabe onde (eu desconfio onde) essa pauta é montada e por quem ela é municiada. A partir das munições que recebe das "fontes" (ah, se eu fosse uma mosca...), a maedia elabora "perguntas". A PETROBRAS responde. A maedia diz o que quer dizer. Ela escolhe uma ou duas frases, para ter como dizer que cita a PETROBRAS, e, com essas duas ou três frases, escreve o que quer escrever, incitando os leitores a suspeitas as mais sofisticadas - e politicamente dirigidas...

5. Não importa que a PETROBRAS negue. Os jornalões escrevem o que qerem escrever. Pois bem, Rortys da vida: com quem está a verdade? Não-fundacionismo significa que não há fundamnto que não o discurso... Tudo é discurso, até o poste da rua... Você acorda de manhã, vai à padaria, bom dia, senhor discurso, bom dia, senhora frase, e, porque fica dando atenção aos senhores discursos e às senhoras frases, acaba pisando no cocô de um cachoro-discurso...

6. Ainda que a pragmática desse imbróglio (Brasil, 2010, CPI, oposição-de-olho-em-2010, maedia e PETROBRAS) seja político, fatos são fatos. Às favas com quem afirme que não há fatos. Quem tem prisão de ventre, decerto, não é pós-moderno! Quem tem prisão de ventre há de - literalmente - curvar-se aos fatos, se você me entende... Se o critério não for a verdade factual, jornalística, documental, ela será meramente show e comício, seja do José Soares e de suas "meninas" (que papelão, meninas!), seja do Faustão. Dá na mesma a Polícia Federal e o Tiririca. Deus do céu!, em que mundo estamos?

7. Testemunhar esses dias! Enxergar com esses olhos que vão pedindo óculos-para-perto esse jogo de palavras em torno dos fatos, a esconder os fatos, a deturpar os fatos, e, para além de deturpar os fatos, jogo de torcer as palavras, de sofismá-las, de fingir que as leva a sério, essa hipocrisia política.

8. Porém, se você tem olho na cara, sabe ler, e bom-senso, basta acompanhar o blog da PETROBRAS. Divirta-se, de um lado, com as p*** certeiras que ela está a dar na cabeça dos jornalões, cada linha lá, uma resposta cá, o que não se via no Brasil... bem, eu nunca vi isso no Brasil! E estou adorando! De outro lado, poderá ler as perguntas dos jornalões (sim, de modo admirável, e para furor incontrolável dos jornalões, que alega "vazamento de perguntas" [é para rir?], o blog está disponiblizando o roteiro das perguntas que os jornalões encaminham), ler as respostas que a PETROBRAS dá às perguntas, e ver como os jornalões compõem seu discurso pós-moderno - cínico e comprometido, mas, ccertamente, não com a verdade, nem com a sintaxe...

9. Sim, sim, sei onde quer chegar esse Senhor Não-Fundamento. Para ele, bom mesmo é um bom blog de crítica, para metê-lo no buraco de onde não devia nunca ter saído. Mas, já que saiu - Rodox nele...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 5 de junho de 2009

(2009/330) Implicância epistemológico-pragmático-fundacional


1. A dez minutos de distância do Airbus A-330-200, que fazia o até agora fatídico e inexplicável vôo AF447 Rio-Paris, outro avião, Rio-Madri, vôo IB6024, "decidiu 'alterar o programa de voo com desvio de 30 milhas a leste, evitando a turbulência e a forte descarga elétrica'". Até agora, as apostas apontam para o fato de ter sido alguma coisa diretamente relacionada a essa zona de turbulênia um dos fatores do desaparecimento do vôo da Air France, que, ao que tudo indica, não desviou...

2. A pergunta é: por que o vôo Rio-Madri desviou da rota, para evitar a turbulência - e o Rio-Paris, não? Uma questão que me vem à mente, apenas a título de "ilustração", e à luz das provocaões dos dois posts anteriores é - seria o vôo AF447 um vôo não-fundacional? Isso explicaria por que não se pensou em desviar do "real" inexorável...

3. Ao manche de um Airbus A-330-200, de cara com uma zona meteorológica esdrúxula, não há espaço para não-fundacionismos. O real é tão sério, mas tão sério, que se cogita, até, de erro de interpretação do sistema sensorial-automático de vôo - talvez o sitema tenha interpretado errado o real (as condições críticas e objetivas de vôo: velocidade, espaço, clima, densidade, valor das descargas elétricas etc.). Se o fez, se foi o caso, se interpretou errado, e se o sistema reagiu equivocadamente às interpretações erradas, eis aí mais uma ilustração da inexorabilidade do real...

4. Desprezar o real ou interpretá-lo equivocadamente - dá no mesmo. Melhor correr o risco de interpretá-lo, e esforçar-se para o fazer o mais adequadamente possível. Nossa vida depende disso. Nossa sanidade, também...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/329) Não-fundacionismo - equívoco de diagnóstico e prescrição


1. O "bom" da Hermenêutica barra Epistemologia não-fundacional é que você pode dizer o que quiser, sem medo de errar, porque, se for contestado, basta dizer que é uma questão de consenso comunitário, desde que a comunidade tenha pelo menos dois elementos e, o consenso, uma estrutura discursiva pragmatista-utilitarista. Se o discurso "serve", está bem assim. Um pensamento não-fundacional pode dormir tranqüilo, de noite, porque não o perseguem os critérios críticos, que ele exorcizou definitivamente. Deve ser bom conseguir viver assim, isto é, se a isso não corresponde uma baita dose de self deception consciente... Quanto a mim, nunca mais dormi tranqüilo...

2. No meu caso, cada vez que abro a boca, como me imponho critérios críticos, corro o risco de errar, de me equivocar, porque, no campo do saber, o critério crítico não reside em nem é meu próprio discurso - mas o/no "real". Não há nada, abolutamente nada, em meu discurso - isolado em si mesmo, separado do real - que possa servir de critério para que eu decida se ele é certo ou errado. É quando em o ponho em perspectiva, aí é que aparece a sua lucidez - ou o seu delírio. Por isso há quem prefira fechar os olhos, tapar os ouvidos...

3. Meu diagnósticoo para as teorias não-fundacionais: recalque freudiano do real (consciente ou não, não vem ao caso), um império do princípio de prazer, um desprezo axiomático ao princípio de realidade. Neurose ou esquizofrenia programáticas - como crianças que, assustadas, tapam os olhos, ou fecham-nos, e tapam os ouvidos, e o medo vai embora... Até que se tornem adultas, e descubram que o medo está é bem dentro de nós, porque, quando a gente cresce, a gente aprende que, mesmo fechando os olhos, tapando os ouvidos, o real está lá fora... ainda. E - como disse Carl Rogers, ele é nosso amigo...

4. Eis onde vejo o incorrigível erro da Epistemologia não-fundacional (e ela não tem salvação - só a terapia há de fazê-la ver-se a si mesma como esforço de recalque). Ela começa abandonando completamente a noção de ecossitema. Ela se fecha, apenas, e olhe lá, na noção de "comunidade de comunicação". Para ela, o que existe, de fato, é o grupo discursivo, o conjunto das pessoas que manejam palavras-discursos, e vão, arbitrariamente, dando sentido a palavras e, daí, a proposições. Nesse caso, quer palavras, quer proposições, elas têm sentido em função do consenso - e mais nada. Dado serem não-fundacionais (os corpos deles nasceram de um "bate-papo" entre mamãe e papai!), o real não aparece, aí, como plataforma crítica de esclarecimento dos sentidos e dos discursos aí fundados (em sendo o caso). Como o tempo, na Física de Newton, o espaço, na Hermenêutica não-fundacional de Rorty/Habermas/Vattimo, o real é uma ilusão da mente humana... Os mais "esclarecidos" somente considerarão que o real é por demais inacessível, criticamente, para ser levado em conta...

5. Erro que me parece primário - e, se eu erro no que alego ser a identificação do erro, tanto mais primária é minha falha e impertinência: o não-fundacionismo nem sabe mais o que é o Homem. Para ele, sobrou, apenas, uma coisa chamada Linguagem e Comunicação... Não me assuta mais saber que o centro nervoso do capitalismo está por trás dessa moda pragmátista/não-fundacionista... O qe me assusta, e muito, é ver "progressistas" entrando na onda...

6. Ora, o homem, desde Aristóteles se sabe - e, depois de dois mil anos de "teocracia" (isto é, "cristianocracia"), Kant renovou a perspectiva - que o homem lida, ao mesmo tempo, com três interfaces: o mundo/real, o homem/outro e si mesmo. Cada uma dessas três interfaces estabelece um regime de ação - uma teleologia situada, uma "pragmática". Porque o homem age significativamente, porque suas ações são significativas, isto é, não são operadas meramente por comandos genético-biológicos, mas por intenções e estratégias, o que quer que ele, o homem, esteja fazendo, agora, aqui e agora, corresponde a uma ação situada em uma dessas três interfaces: ou, agora, ele lida com o mundo, ou lida com o outro, ou lida consigo mesmo.

7. Lidar consigo mesmo. Aí, o fundamento significativo é o própro sujeito. Trata-se da dimensão, da interfacce, do gosto, da afeição. Trata-se da afetividade. As experiências, aí, são, todas, estéticas. Não há certo e errado, aí, porque, sendo o fundamento, o próprio pathos subjetivo, o que se deseja é bom, aquilo de que se gosta, excelente. Não é que não haja fundamento nessa dimensão pragática - há, mas ele é o próprio sujeito estético. Cada sjeito, um fundamento.

8. Lidar com o outro. Aí, claro, o fundamento dependerá do regime político. O Cristianismo brincou de "monarquia" e de "teocracia" até não mais poder - e não enjoou: se deixar, volta o circo romano, de novo, seja sob a direção protestante/evangélica, seja sob a direção da velha cúria. No jogo democrático, contudo, só cabe um fundamento - o diálogo político. Em termos pragmáticos, a interface homem-outro é a interface do querer, da vontade, da volição - campo dos conflitos de vontades. Aí, encarando o "outro" e a "vontade do outro", o homem se depara com uma limitação no mesmo nível de sua vontade. Querer não é poder - aí -, porque meu querer pode chocar-se - e, de fato, se choca - com o querer do outro. Vale o tacape, vale o cetro, ou vale a negociação. A política, a pragmática das relações inter-humanas, tem por fundamento o jogo dialogal, e, na sua hiponomia democrática, no consenso negociado.

9. Lidar com o real. Ah, aqui as teorias não-fundacionais revelam, todas, toda a sua miopia. A placenta ensagüentada entre as pernas da mãe foi esquecida, e do canal vaginal daquele corpo saiu alguma coisa entre um ectoplasma e um discurso! Nada disso. Saiu um pedaço de carbono. Carbono com perdas, que vive do carbono, com bcoa e cloaca. Ser-de-carbono.

10. Aí se está na esfera do saber, do conhecer, do sensível. Aí se está na esfera da cognição. Aí se está na esfera da heurística. Aí, o critério crítico não é, não, um senso estético solipsista - cada um tem sua "verdade". Mentira. Cadaum tem seu gosto - "verdade" não é uma questão de gosto: não se se trata de "conhecimento", que é uma questão crítica de confronto hermenêutico-epistemológico com o real. Também aí não é critério crítico o voto, a negociação. Não se trata de uma questão política - e esse é o mais grosseiro erro das filosofias não-fundacionais, delírios pós-religiosos da mente mítica humana, eventualemnte, contudo, ainda também a serviço da "Teologia".

11. O fundamento da heurística, queiram ou não os não-fundacionalistas - não importa seu "voto" nesse caso - é o real. Uma vez que não lidamos diretamente, imediatamente, contemplativamente, com o real, mas lidamos com ele de modo antropológico, hermenûtico, semiótico - resta-nos tornar complexa a relação entre o critério crítico que é o real, fundamento do conhecimento humano, e a performance representacional da mente humana, cuja lucidez está em ater-se o mais firmemente possível ao real, sem, contudo, ingenuidades positivistasas - o que não quer dizer, por outro lado, delírios relativistas... Uma decisão política: tirar o sofá da sala - não tem qualquer eficiência nesse campo...

12. Para questões estéticas, fundamento subjetivo, soluções estéticas. Para problemas políticos, fundamento antropológico, soluções políticas. Para problemas heurísticos, fundamento físico-ecológico, soluções heurísticas.

13. O não-fundacionismo exorcizou um espírito. Devia ter exorcizado o espírito de solipsismo, o espírito de arbitrariedade, e, contudo, exorcizou o único critério de lucidez epistemológica possível - o real "objetivo" (no campo heurístico, bem sabido). E o fez pelas mais nobres da razões - com o que me filio e irmano a essa corrente, conquanto ela erre, e feio, e de cheio, quer na aplicação do remédo, quer no dignóstico da doença. Para superar o autoritarismo, quer da religião/teologia, quer da política, a Epistemologia não-fundacional transformou toda a questão, todas as questões, em questão política. Em seguida, falseou se caráter, transformando a descrição do problema - que é político - em problema de "racionalidade" (Habermas). Ao cabo, receitou, como saída para a paz, o consenso. Em que mundo - vivem?

14. No campo político - e exclusivamente para as questões políticas - a saída não é outra: é o consenso pragmático-político, negociação em todos os sentidos, o ganha-perde em benefício do bem-comum. Contudo, errou-se a mão, errou-se o olho (pudera!, fecharam-no...), errou-se a pele, errou-se, errou-se, perdeu-se o melhor do programa - o desejo de paz - escamoteando a questão de fundo. A verdade heurística não se presta a consensos - um só, contra todos, pode estar certo. Não adianta querer conseguir paz - aí - arrancando os olhos: a paz é uma questão política! Sempre nascerão novos homens, novas mulheres, com olhos na cara, e capazes de dizer, como Gaileu, que o rei tem as vergonhas à mostra...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/328) Tirem o sofá da sala...


1. "Tirem o Sofá da Sala" ou "O Problema da Epistemologia e/ou da Hermenêutica Não-fundacional" - é o título que dou a esse ensaio-provocação, que rabisco enquanto aguardo a chegada de meus guerreiros do Tribal Wars. É uma referência um tanto irônica - está bem, totalmente irônica - àquela piada: um sujeito entra em casa, sem avisar, e pega a esposa com outro - no sofá. Indignado, ele resolve... tirar o sofá da sala. A "Hermenêutica Não-fundacional" tirou o sofá da sala...

2. Vamos ao "histórico". O Ocidente saiu de dentro do ovo do diabo, quero dizer, aquele período "teocrático" (teocracia, lembrem-se, é o modo como alguém decide chamar seu próprio modo de governo, só porque ele se faz, retoricamente, por meio da referência aos deuses: mas eu sei, tu sabes, ele sabe, nós sabemos - quem governa é ele mesmo, e Teocracia so é nomenclatura legítima se o monarca se chama Teo) em que esteve encarcerado o Ocidente. Ah, sim, pode - apenas pode, mas não é garantido, necessariamente - ser que a Igreja, afinal, preste-se a bons serviços para a comunidade. Mas, certamente, não quando ela se põe a ser, também, Governo. Se já não é boa coisa quando o faz intra-muros, metendo-se a legisladora e juíza de terceiras consciências, imagine-se o que não era de infernal e dantesco um clero de cetro e toga! Deus nos livre!, como nos livrou, aleluia!

3. Mas era asim, e saímos de lá. Isso tem o quê?, uns duzentos anos... Pois bem, a isso seguiu-se uma fase excitante e nervosa: a reprogramação da cultura ocidental, em sentido amplo. O Ocidente precisava ser re-programado, re-orientado, re-fundado. Sem a Igreja, reduzida à condição de experiência do privado - em todos os casos, não-Estatal (ao menos o papel, claro), o Ocidente precisava ser re-inventado. Essa reprogramação do Ocidente passava pela Ética e pela Moral, de um lado, e pela Epistemologia e a pela Hermenûtica, de outro. Naturalmente, porque, de um lado, os homens ainda precisavam lidar com outros homens (política, ética, moral) e, de outro, os homens mais do que nunca precisavam lidar - eles mesmos! - com o real (ciências, hermenêutica, epistemologia).

4. Não foi fácil. Não é fácil. No final do processo, que durou cem anos, mas já havia começado, quanto às ciências duras (ditas, "da natureza"), outros cem antes, e mais um pouco, até, Dilthey propôs, e foi aceito, um armistício entre Ciências da Natureza e Ciências Humanas (as Ciências ditas "exatas" apareciam como instrumentais, então). Inventou-se o verbo-chave "entender", para a Natureza, e o verbo-chave "compreender", para o Homem. Um tipo de ciência, entende as coisas, um outro, "compreende". E á vivemos assim, xifápagos separados, por uns bons setenta anos.

5. Felizmente, as Ciências Cognitivas, os modelos de pesquisa transdisciplinar (UNESCO) e a Epistemologia Complexa estão e vias de superação desse arcabouço teórico disjuntivo. Não chegamos exatamente lá, ainda, mas o futuro é promissor.

6. Enquanto isso, era de se esperar, que risco se corria? De um lado, uma fixação no "entender" -positivismo. De outro lado, uma fixação no "compreender" - relativismo. Nos dois casos, secção do "real". Nos dois casos, fragmentação do olhar humano. Um empirismo descuidado dos fatores teórico-metodológicos que envolven as elaborações cérebro-mentais do "real" peca por ingenuidade. Quanto a isso, convém ler Charles Sanders Peirce e sua Semiótica - que me parece ter proposto a "teoria" mais adequada para a relação cérebro-mental entre o homem e o "real" - primeiridade (a coisa como ela é), secundidade (a coisa conforme eu a concebo), terceiridade (o eu, concebedor hermenêutico-semiótico da coisa-real, conforme concebida na secundidade). O real está lá, mas eu o acesso semiótico-hermeneuticamente. O livro está traduzido.

7. No outro extremo, caiu-se no relativismo. O relativismo, qualquer que seja ele, constitui-se por uma axiomática decisão de não mais considerar o "real" como critério crítico do "saber", e, de outro lado, super-valorizar a expressão interpretativa da consciência humana. Sim, é verdade, o real, ou melhor, a relação humano-hermenêuica com o real é problemática. Muito problemática. A descoberta teórico-metodológica da dimensão hermenêutico-cultural em que vive o homem trouxe problemas graves para não apenas a teoria do conhecimento - o que é conhecer?, como ter certeza de que "conhecemos"? - mas para todas as expressões humanas.

8. Num contexto desse tipo, parece-me que almas há muito acostumadas a viverem com as cerâmicas do chão todas firmes e niveladas, ressentem-se de uma existência sem chão aparafusado. Ora, um retorno cartesiano ao "eu", um retorno platônico à "idéia", mas, agora, disfarçado, contudo, por uma retórica de Linguagem (Wittgenstein, o segundo Heidegger), de Tradição (Gadamer) de Comunicação (Rorty e Habermas) - mas nada disso avança um centímetro para além de Platão e, em certo sentido, Descartes -, não-fundacionismo epistemológico, condição negativa da matéria como veículo de conhecimento, primazia do pensamento, solipsismo, com a diferença que o solipsismo platônico-cartesiano é subjetivo, ao passo que o das hermenêuticas não-fundacionais é coletiva: alucinação e grupo...

9. Se o real é o problema (e o era para Platão e Descartes - o real não é confiável!), e se, afinal, nos bastam - bastam?? - a Linguagem (Novo Deus), a Tradição (Novo Cosmos) e a Comunicação (Novo Espírito), então por que manter o real? Suprima-se o real! Mas ele continua aí... Finge que não... Mas... Ei! Nós, aqui reunidos lingüisticamente em tradição e comunicação, se nós decidirmos que não há real, e, ao menos, se há, nem fede nem cheira, decidido fica que não há real, pronto: funda-se a hermenêutica não-fundacional, hermenêutica sem real, hermenêutica de casinha, hermenûtica de vamos-fazer-de-conta, e pronto. Ah, tá, mas esperem um momento que tenho que ir ali na "casinha"... É o real chamando"...

10. As hermeneuticas não-fundacionais impuseram-se um fundamento: fundaram o não-real. Súbito, os corpos viram almas, as carnes, pensamento, o sexo, linguagem, a verdade, voto democrático... Se a Nasa descobre esse método, vota solenemente que há apenas mil quilômetros apenas entre nós e a Lua, e constrói não mais foguetes, mas uma escada, para chegar lá... Não sei o que estão esperando... Ainda poderíamos dizer que "A Escada de Jacó" era sua profecia...

11. A hermenêutica/epistemologia não-fundacional chegou um belo dia em casa e, coitada, flagrou seu amor em flagrante adultério - no sofá. O que ela fez? Tirou o sofá. O real é o problema? Tire-se essa cosia daqui. Fez igualzinho, se tirar nem pôr, ao mitólogo (e político!) Platão - o pensamento, ah, não, ele não tem parte com a matéria, coisa suja e grosseira. Ele, o pensamento imaculado, desce das alturas da Providência, em quantas de almas, uma a uma, que, fazendo cócegas na barriga, vão se lembrando da verdade... O triste dessa moda não-fundacional é que não pode mais - ela é pós-metafísica, coitada, além de tudo! - brincar de lembrar (os teólogos continuam essa farra, recorrendo à "fé", ai!, ai!). Então, ela resolveu o problema aplicando a moda democrática: a verdade decide-se no voto.

12. Se observarmos mais de perto, veremos que as hermêuticas não-fundacionais tentam uma saída política - interditar o autoritarismo - para um problema não-político. Não vai dar boa coisa isso aí. E sobre isso escreverei a seguir. Por enquanto, fico com essa declaração: o real não se importa em que finjamos que ele não existe. Contdo, se ele der um traque, fede o mundo inteiro. E, se você recolhe destroços no mar, dizendo que é do Airbus, mas não é, o real te diz: não é do Airbus, não, Jobim...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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