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sábado, 3 de abril de 2010

(2010/289) Uma cooptação teológica de Kant


1. A Crítica da Razão Pura, de Kant, é um espinho na carne da Teologia. Em resumo, ela conclui que a razão humana não dispõe de qualquer tipo de mecanismo, processo ou operação que dê conta de qualquer coisa que não seja exclusivamente humana e histórica - logo, a razão humana está aparelhada para lidar, apenas, com a apreensão humana do que é histórico. Isso Kant tem em comum com o Romantismo - o sentido do "assombro" humano diante do Universo, e o sentido da redução do homem à "história". Nesse sentido, Kant poderia até ser considerado um dos "fundadores" do Romantismo.

2. Se - e somente se - Kant, esse Kant da Crítica da Razão Pura - for levado a sério, cai por terra, de imediato, toda e qualquer pretensão teológica de acesso à realidade não-histórica, logo, metafísica. Não há negociações possíveis. É justamente depois desse Kant que se fazem possíveis as figuras titânicas de Feuerbach, Marx, Nietzsche, Dilthey, Heidegger, Sartre - ao passo que os "grandes teólogos" fizeram somente esforço de contenção da massa crítica kantiana, com sucesso, eu diria. E a questão é muito simples: se tudo o que o homem viu e vê, disse e diz, fez e faz, tudo isso se produz na história, sob condições históricas, e é, conseqüentemente, histórico, o que foi, na verdade, tudo isso? Bem, a resposta é inequívoca: tudo isso foi e é humano, demasiadamente humano, histórico, demasiadamente histórico, inapelamente humano e histórico.

3. Parte do Ocidente levou isso a sério. Parte, não. A parte que não levou - nem leva - isso a sério, argumentou da seguinte forma: é verdade, o homem não pode, sob nenhum circunstância, chegar a sair do mundo histórico, ir até "Deus"... Mas, "Deus" pode vir até o homem! Eis, por exemplo, o argumento de Barth. O que é um argumento de dupla caracterização. De um lado, não explica, nem vai, nem quer explicar, como, se o homem não sabe nada sobre o que não for histórico e humano, pode ele saber que "Deus" veio? Ora, quem lhe dissesse algo assim estaria fazendo uma afirmação de condição histórica, não-metafísica, tratada no campo da crença e do mito. No entanto, o argumento barthiano, de resto, o mesmo que ainda freqüenta as cátedras das mais nobres unviersidades de Teologia do planeta, apropria-se da declaração de Kant para interditar a Kant uma interdição da teologia... De outro lado, é um argumento que se apropria apenas parcialmente, apenas corporativamente, apenas politicamente, da reflexão kantiana: é apologia programática.

Digressão: a seu modo, Luís H. Dreher assim descreveu o fenômeo barthiano que, a meu modo, acabo de descrever: "um crítico (de Schleiermacher) já bem tardio como Karl Barth também parece ter em geral aceito a validade do paradigma kantiano, muito embora buscasse resgatar um cnteúodo de 'conhecimento' para a fé baseando-se na revelação como uma grandeza objetiva e dada" (Luís H. Dreher, O Método Teológico de Friedrich Schleiermacher. São Leopoldo: Sinodal, 1995, p. 19). Dreher foi acintosamente elegante com Barth. Disse o mesmo que eu, mas preservou-lhe um pouco de dignidade. No campo estrito do enfrentamento da questão kantiana, lamento, mas não posso acompanhar o gesto elegante de meu colega, porque o gesto oculta mais do que preserva.
4. A teologia espera, ansiosa, que passe logo o séclo XIX, que ele seja esquecido, que ele seja soterrado. Ela só não queima todos os livros em praça pública, porque a sociedade republicana estabeleceu agumas regras sociais. Não fora isso, não se duvide - o século XIX, desde Kant, seria varrido da memória planetária. E, como o século XIX é uma conseqüência única e exclusiva das reflexões protestantes, iniciadas no século XVI, e uma vez que o restante do planeta está alienado dessas questões - África e Ásia sequer passaram por essa região topográfica da cultura ocidental - seria muito conveniente para a teologia que o medievalismo, com todos os seus rasgos de obscurantismo, emergisse das profundezas, para onde foi lançado desde finais do século XVIII. Mas, acreditem, a guerra de religião estaria às portas - como está. As Cruzadas, mas, dessa vez, quem sabe?, ao inverso, ameaçam o planeta... de novo... O que se aprendeu? Nada. A religião ainda vive na Idade Média, e os teólogos gosta disso! É de sangue que a teologia vive... Mesmo agora, quando fala de paz e diálogo, não rasga as condições que o impedem.

5. Observe de perto as faces da teologia, enquanto ela lê essas linhas, enquanto ela preseente essa possibilidade: ela tem os olhos arregalados, as pupilas, dilatadas, o coração em taquicardia, o córtex, em êxtase. Ela morre de desejo. A teologia é uma alma medieval num corpo moderno, num odiado corpo moderno. Como no mito platônico, essa alma está presa, e sofre, e, se puder, mortifica o corpo, para voltar para o platônico e celeste mundo das Idéias... A isso os bons teólogos convencionaram chamar espiritualidade...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 9 de junho de 2009

(2009/344) O problema é essa maldita dicotomia


1. "Para caracterizar a reflexão cristológica a partir da América Latina, Sobrino distingue dois momentos no processo do Iluminismo: a exigência da racionalidade (Kant) e a exigência de práxis transformadora (Marx). A teologia (e a cristologia) européia ter-se-ia confrontado com os problemas inerentes ao primeiro momento do Iluminismo, mas somente a teologia da libertação se teria encarregado dos problemas apresentados pelo segundo momento: 'Pode-se constatar historicamente que a cristologia européia esteve mais interessada em mostrar a verdade de Jesus racionalmente (...), ao passo que seria típico da reflexão cristológica latino-americana procurar responder ao segundo momento do Iluminismo, quer dizer, mostrar a verdade de Cristo a partir de sua capacidade de transformar um mundo de pecado em Reino de Deus'" (1).

2. O que me chama a atenção - e negativamente - é essa maldita "disjunção": repartir o pós-Iluminismo em duas plataformas: reflexão crítico-racional e práxis, Kant e Marx... Ainda semana passada, depois de um antigo mestre ter-me dito a mesma coisa, e com a mesma expressão de "autoridade" - aquele tipo que fala, sem ter dúvida do que fala (e isso depois de falar que não há fatos, apenas interpretação de fatos, logo, concluo, interpretações muito "factuais", se me entendem... -, um amigo, então, colega de cátedra, me dizia, de novo, que Marx "rechaçou" Feuerbach... Deus do céu! Onde foi que leram isso?

3. Marx não rechaçou Feuerbach - superou-o na prescrição, conquanto lhe tenha acompanhado no sintoma. O sintoma é o mesmo nos dois: a super-estrutura (mito e sistema simbólico-ideológico) é uma hipóstase da infra-estrutura (condições "materiais" de vida). Isso Feuerbach já o dizia: Teologia é Antropologia. Com o que Marx não concordava, em relação a Feuerbach, era, contudo, o tom burguês-filosófico, idealista, deste. Marx considerava, e essa é a diferença, que não bastaria parar na denúncia, na leitura da "realiadade", na iconoclastia teórica dos valores. Importava, agora, transformar esse real, conforme está expresso na última das onze teses de Marx sobre Feuerbach. Feuerbach talvez fosse um Osvaldo, isto é, alguém de gabinete. Isso, certamente, dava urticárias em Marx, homem do campo, quero dizer, de pegar a transformação pela mão, e tocá-la, como quem toca uma boiada. Gramsci vai mecanizar a lavoura, mais tarde...

4. Agora, então, volto a dar de cara - e de novo - com a distinção, a disjunção, a dicotomia. Não é verdade que a face européia do Iluminismo seja, apenas, a racionalidade, e não a práxis. Sobrino e Gibellini esquecem - meu Deus! - que a República, o Estado Democrático de Direito (nada mais transformador nos últimos dez mil anos - se não mais!) é fruto práxico-político do Iluminismo "europeu". O problema não é com a face do Iluminismo, mas com o fato de que a Teologia européia e estadunidense, seja qual for, sempre foi - e será? - reacionária, sempre esteve a serviço, primeiro, das expoliações dos territórios conquistados, depois, das colônias, finalmente, das nações "amigas"... Quando muito, teorizava sobre a necessidade de amor e transformação dos homens de boa vontade, falando de "Esperança", pois não? Lá, é Deus no tílburi da História - Deus ou o Diabo, você escolhe...

5. Não é verdade que não haja uma face práxica na Teologia européia, submetida que está ela a uma racionalidade kantiana primordial. Falso! É justamente a práxis européia, conservadora, reacionária, burguesa, capitalista, provinciana, egoísta, expoliadora, usurpadora, "cristã", é exatamente essa práxis que se deixa captar na Teologia "logicista" - que é a sua interface pública, Claro, com valores tão fortemente reacionários, quem haveria de anunciar os intestinos, se as palavra caem melhor? É o condão da "metáfora" na Nova Teologia Brasileira - o mesmo intestino, mas os ungüentos, hum!

6. Há perfeita união entre palavra/racionalidade/teoria e práxis na Teologia européia - uma práxis reacionária e uma Teologia metafísica, pré-kantiana. Um embuste pseudo-iluminista, certamente. Bonhoeffer modificaria as coisas? Bem, tem o mérito de ter morrido antes, e pesar-lhe a dúvida. Os demais, todos, sem exceção, trabalharam, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente (para o direito germânico isso faz muita diferença!, mas, para o "hebraico", não!) para o satus quo. Não seria de lá que sairia uma Teologia da Libertação, conquanto tenham saído Teologias da Revolução, da Esperança e quantas mais quimeras não-materiais, do tipo "abençoar o mundo sem que eu me confesse o diabo da história". Adão tem costas largas, e delas se vale a Teologia européia...

7. Faldno em costas, foi preciso que no "cu" do mundo emergisse uma nova compreensão da relação entre o Norte e a América Latina. Lá, a cabeça, cá... pois é. Aqui desenvolveu-se a teoria sociológica da dependência, sobre a qual um novo fazer teológico, "autorizado" pelo Vaticano II, construiu-se. A Teologia da Libertação. Chávez, "el loco", não acaba de lembrar ao Império as veiais abertas da América Latina?

8. No campo teórico-sociológico, perfeita análise da situação concreta dos homens e das mulheres latino-americanos. Nada mais cínico do que a Teologia européia em solo sul-americano. Desde a América Latina, o pensamento teológico - anote aí: pré-kantiano, metafísico, confessional, religioso, profético (nada de diferente do que ocorria, também, no outro lado do Atlântico, nesse campo), o Evangelho modificava o eixo em torno do qual girava: não mais a salvação do "pecado" platônico (ao menos, não mais "apenas"), mas o enfrentamento das condições estruturais de opressão e dependência.

9. Daí emerge o enfrentamento. De uma ánálise político-sociológica do chão sangrento da América Latina. O sangue, aqui, não era bem o de Cristo, mas o dos povos e das pesssoas oprimidas - e justamente por quem?, também não pelos "cristãos", de lá e de cá, também por Deus? Ora, a única novidade - aí - é a leitura sociológica, marxiana (não marxista), a estratégia gramsciana, a denúncia de que as condições imorais de vida - o não-homem - nada tinham a ver com "pecado", "castigo" e "destino" - em sentido metafísico-platônico -, mas decorrente de condições muito concretas de existência.

10. Não há dicotomia alguma aí - também. Há pensamento, e há práxis. Uma práxis aqui, uma práxis na Europa, com a diferença de que uma é etica e politicamente comprometida com a libertação dos oprimidos - e, diga-se, oprimidos "por eles". Tanto lá, quanto cá, ainda, há o pensamento teológico, nos dois casos, pré-kantianos - os dois -, mítico-metafísicos - os dois -, pré-emancipadores - os dois. Como não? Nos dois casos, trata-se de manter a "Igreja" como plataforma, seja da "evangelização", seja da "transformação". É a Igreja - de Deus ou dos Pobres, não vem ao caso. Não é o sujeito de si, nu, em face de si mesmo: em ambos os casos, racionalização do mito cristão.

11. Mas claro! O solo aqui sangra. Haveria de ser, decerto, outra a retórica, outro, o pathos, outro, o "espírito". É apenas o chão especialíssimo dessas terras índias que explica a diferença da Teologia daqui em face da de lá. No resto, é a mesma coisa. E nenhuma delas dá qualquer satisfação que seja a Kant. A Marx, bem, a América Latina tentou - terá feito? - o dever de casa: em lugar de ópio, cafeína...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Rosino GIBELLINI, A Teologia do Século XX. São Paulo: Loyola, 1998, p. 367-368 (a citação que consta do citado é de J. SOBRINO, Cristología desde América Latina. 2 ed. rev., 1977, p. 299).

sexta-feira, 27 de março de 2009

(2009/115) (I)maturidade, de Kant


1. Achei essa 'pérola'. Pensei logo em compartilhar. É de Kant, do XVIII.

2. "Iluminismo (ou Ilustração) é a emergência do homem a partir de sua imaturidade auto-incorrida. Imaturidade é a inabilidade de usar a compreensão sem ser guiado por outro. Essa imaturidade é auto-incorrida [= auto-provocada; obs: como é tradução própria, achei melhor a idéia de correr para dentro, por isso 'auto-incorrida', embora seja neologismo; mas viva Graciliano Ramos!] se sua causa não é falta de entendimento, mas falta de resolução e coragem para usar o entendimento sem ser guiado por outrem. O slogan do Iluminismo é: SAPERE AUDE! Tenha coragem para usar próprio entendimento, ou: construir sem próprio conhecimento". (In: Uma resposta à questão: O que é iluminsmo?, 1874).

3. A audácia é dolorida. É dolorida como a expulsão do jardim do Éden. Mas é necessária como ela, para abrir-se o caminho da liberdade.


HAROLDO REIMER

domingo, 16 de novembro de 2008

(2008/49) O que pode ser o fim da metafísica?


1. Por mais que se queira, pós-modernamente, afirmar que não haja chão, que não haja fundamento, toda e qualquer afirmação tem, sempre, chão e fundamento. Fenomenologicamente, cada sentença pronunciada por qualquer pessoa faz-se emergir a partir de uma determinada plataforma que lhe serve de alicerce. Mesmo as modernas teorias "hermenêuticas" auto-ditas não-fundacionais. Mesmo elas, sim, têm fundação.

2. O Ocidente, em tese, teve a oportunidade de sair da plataforma ontológico-metafísica platônica há duzentos anos. A "porta" - nunca cansarei de dizer (a Tese, achei-a pela primeira vez em Tilich, e está ilustrada bem em O Nome da Rosa) abriu-se bem antes, depois que os árabes introduziram Aristóteles, na Europa, através da Península Ibérica. Aristóteles fermentou, fermentou, e levedou toda a massa platônica ocidental, que lhe reagiu. Um lado, seguiu Platão - todos os cristianismos, as religiões de modo geral, determinadas escolas filosóficas e algumas utopias políticas. Outro, encabeçado pelas Repúblicas, pela secularização, pela emancipação cultural, pelas ciências, seguiu Aristóteles. Aí, por um acidente histórico, ao que tudo indica, a invasão franco-napoleônica à Alemanha, arrebentou o Romantismo - um ovo realmente novo, porque, ao passo que para Platão e Aristóteles, a verdade está lá fora, para o Romantismo, ela é construída aqui dentro. Não foi Aristóteles quem fez ruir a metafísica, mas o Romantismo, e a ele Platão reagiu furiosamente, seja em Roma, seja em Wittenberg, seja na "América".

3. É na estrada aberta pelo Romantismo - eles são os próprios batedores (Apolo, facão na mão, abrindo caminho através da hylé, para fundar uma cidade) - que caminham, novos homens, Kant, Schopenhauer, Feuerbach, Nietzsche. Dois mil e quinhentos anos de Platão! Quinhentos, mas muito mal pesados, muito esboroados, de Aristóteles! Duzentos, de Romantismo! Fim programático da metafísica, manutenção programática da metafísica. Platão ainda está de pé.

4. É muito curioso acompanhar os discursos epistemológicos das correntes que discutem o fim da metafísica. Pensam colocar-se do lado de cá, pensam estar além da metafísica, mas, no fundo, não conseguem livrar-se dela. Platão ensinou-nos (o Cristianismo inculcou-nos a idéia até ela fazer parte de nossas sinapses) a ontologia metafísica, a verdade "dura", divina, verdade verdadeira, deu-nos o olho de Deus, verdades de Deus, a certeza subjetiva da verdade ineludível - de Deus. Aristóteles não pensava diferente, conquanto, pelo menos, afirmava que cada um podia descobri-la por si mesmo, sem precisar de sacerdotes e filósofos mediadores - um grande passo.

5. É essa verdade divina que morre, se cai a metafísica. O defunto é o qualificativo "divina", não a palavra que ele, politicamnete, qualificava. Os "hermeneutas" não-fundacionais partem do pressuposto de que, se a metafísica caiu, não há mais fundamento, não há mais "verdade". É o mesmo fenômeno entre teísmo e ateísmo: ou existe ou não existe. A "geração" pós-moderna, a geração "hermenêutica", só sabe pensar assim: se não tem fundamento de Deus, então não tem fundamento nenhum (porque todo esse povo, no fundo, guarda a fé no fundo da alma). E tudo, então, vira um blá-blá-blá, para citar, parece-me, Pondé, comentando, favoravelmente, as teses de Karl-Otto Apel sobre a necessidade de um critério de verdade para a civilização pós-metafísica.

6. A lógica do pólo não demorou muito a emergir. Um Heidegger logo aproximou o conceito de "linguagem" ao do fundamento ontológico platônico. Idéia - Deus - Linguagem (Platão - Agostinho - Heidegger): "a compreensão não mais é vista como um ato do homem mas como um evento no homem" (R. Palmer, Hermenêutica, p. 217, grifos meus). Gadamer, mais do que depressa, ultrapassa (mantendo-a) a Linguagem com a Tradição: "no diálogo hermenêutico, o tema geral em que estamos inseridos - tanto o intérprete como o texto - é a tradição, a herança" (Idem, p. 202). Linguagem, Tradição, substitutos pálidos, mas de mesmo nível, para o Ser que se inventou (não é curioso que os livros ensinem sobre os filósofos atenienses como sendo, eles, filósofos? E o eram? Não - eram, antes de tudo, teólogos!). Caímos na armadilha - se não a armamos!: a) primeiro, assume-se que o fundamento necessário é (o) ontológico, b) em seguida, afirma-se que com o fim da metafísica, findam-se os fundamentos, c) terceiro, com o passo "a" trabalhando nos bastidores, propõe-se uma refundação "não-metafísica", quero dizer, não "religiosa", não "mitológica", mas, eis a surpresa, que mantenha o status quo exatamente como era antes do fim da metafísica (eis a que, a meu ver, se resume, por exemplo, a proposta de Vattimo): Linguagem e Tradição.

7. Penso que o rumo dessa viagem foi corrompido. Era falsa a idéia de que é necessário um fundamento ontológico e metafísico para a existência humana, para a sociedade. Alguma coisa entre uma saudade patológica do medievo e um programa político de manutenção dos eixos de força atuantes na sociedade insistem na estratégia pendular. A saída Romântica, contudo, recusa o pólo. Recusa, por exemplo, que não haja fundamentos, ao mesmo tempo que recusa que haja um fundamento. Há fundamentos: locais, situados, históricos - válidos, diga-se, operacionais. Não há "revelação" que se faça "saber" e que, por meio de tal prestidigitação sacerdotal, proponha-se como "fundamento" ontológico. Isso foi a maior das invenções políticas da História - um quê de Pérsia (administração subjetiva, por meio do mito, das consciências conquistadas) e Grécia (ontologização da estratégia mitológica de administração das consciências conquistadas). Farsa.

8. Não é necessário, nunca foi, mentiram para nós, um fundamento ontológico. Nossos olhos são e serão, para sempre, humanos. Construiremos para nós, sempre, fundamentos situados, válidos intra-comunitariamente. À medida que a comunidade cresce - torna-se planetária, por exemplo -, ampliamos, dialogalmente, os fundamentos, jogando, no risco, com o "real", captado por nossos sentidos e tratado por nossas sinapses representacionais. Isso que construiremos não é ilusão, mas não é, tampouco, "verdade", isto é, verdade no sentido em que Platão e Aristóteles cuidavam ser possível - o homem ter a visão (por dom sacerdotal ou investigação autônoma) dos deuses, os homens verem como os deuses vêem.

9. Sugiro que esqueçamos definitivamente Platão. A metafísica dos deuses, do Ser, acabou (Linguagem e Tradição são ídolos de sofrível aparência). O que não significa que chegamos a um beco sem saída - não! Mil vezes não! Saímos foi do labirinto maldito da política ontológica e metafísica, do controle das consciências por meio de mitos. Podemos voltar ao ponto onde estávamos antes do canto de sereia, do "murmúrio" da Cidade Bela, e podemos voltar a construir os fundamentos com os quais continuaremos a edificar nossa História. Nem ontologia nem blá-blá-blá: lucidez histórica e epistemológica. Que me remete àquela velha citação (de memória) de Pascal - "o homem é um caniço que pensa, e o peso do Universo o esmaga. Mas ele sabe".


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 11 de novembro de 2008

(2008/35) Ainda sobre o post de Haroldo (2008/33)


1. Você escreveu: "Vestem a nudez da realidade experimentada. Dão cor quando a vida é experimentada como cinza. Há que se viver com a longa duração desses simbolismos". Isso você disse de "mitos", de "narrativas bíblicas" e de "construções de sistemas teológicos", disse que eles, na prática, tudo uma só coisa, afinal, encantam. Esse "encantam", segundo Detienne, o de A Invenção da Mitologia, está relacionado, inseparavelmente, em A República, de Platão, a "convencer" e "enfeitiçar". Encantar, lá, tem esse sentido hipnótico, mágico, heteronomizante. Penso que você usa esse sentido também - encantar, aí, é mais do que "maravilhar", não é?, é enfeitiçar, pôr feitiço, "amarrar".

2. Concordo com você. Esse é um discurso que, por força da gravidade, cai para o terreno da hermenêutica. "Vestir a nudez da realidade experimentada" é uma afirmação de caráter hermenêutico: não uma Hermenêutica-Arauto, conteudística, como quer a nova escola da "hermenêutica", um pé em Gadamer, outro em Vattimo, um em Rorty, outro em Habermas, mas uma hermenêutica num certo e plausível Heidegger, que bebe em Husserl e Kant, em Schleiermacher e, principalmente, em Dilthey. Sobretudo em um Nietzsche ainda muito mal compreendido nesse século estranho que foi o XX (vale a pena informarmo-nos sobre Domenico Losurdo!). "Vestir a nudez da realidade" com mito... Sim. E, contudo, não. Não está disponível, para a espécie humana, vestir a nudez da realidade experimentada, porque nenhum homem nem mulher algum, um dia, ontem, hoje e amanhã, experimentou ou experimentará alguma coisa parecida com uma "realidade nua". A captação da "realidade" (a secundidade de Peirce, o "mundo" de Heidegger) já a tem em trajes apropriados, já a vestiu, recatadíssima mocinha de família. Só há experiência da realidade trajada, vestida. Nua, não há.

3. Essa é, pois, uma questão relevante. Não se trata, corrija-me, Haroldo, eventualmente, de vestir a realidade nua, posto que já a temos, inexoravelmente vestida. Mas de que, então? Bem, em primeiro lugar, do fenômeno histórico da emergência, em nós, da conciência "histórica" e "hermenêutica", e de apreendermos o conceito schopenhaueriano de "representação" (Vattimo tem ojeriza disso!). As representações que temos, representações do "real", são, já, não-nuas. "Ontem" ainda, descobrimos, e isso dentro do mito!, que vivemos sob (sobre e dentro, também) o "real" sempre por meio de mitos. Essa é a conquista "heurística" mais recente da história de nossa epistemologia. Descobrir isso não é descobrir que os mitos vestem a realidade nua, mas que os mitos são a roupa com que apreendemos, sempre, a realidade - e ela nunca está nua.

4. Qual o ganho, pois, com essa consciência crítica? Tornar nua a realidade, delírio de adolescente? Sonhar com a moça nua? É natural que essa pulsão erótica invada a cabeça de quem tem hormônios de fazer ver e querer ver. Mas a consciência histórica do mito e da hermenêutica apenas nos dão consciência da "nossa" realidade - capturadores do real em redes míticas inexoráveis. Ora, isso pode nos dar o poder de manejarmos, nós mesmos, os mitos com que vamos capturar o real. Não preciso usar mais o mito da Igreja, da Teologia, do Papa, de Lutero - você está certo: tudo encantamento, prestidigitações, mágica e magia. Só posso, contudo, superar essa roupa por outra. Viver o real nu, não.

5. Morin chama isso de "possessão" (em sentido religioso, ao modo da possessão das entidades dos cultos africanos) das idéias. Já escrevi aqui sobre isso. Não podemos viver sem idéias. Nunca. Mas podemos escolher as idéias com que construiremos o "mundo" - e Morin sugere: escolhei idéias fracas!, idéias que vivam no "limite de sua combustão". Mitos fracos, frágeis, encantam com muito pouca força. Podemos viver mais simbioticamente com eles, num jogo de vai-e-vém, numa troca constante de controle, ora nós, ora eles.

6. Mas, e eis o ponto: a Teologia como heurística não quer encantar - mas desencantar. Não quer convencer, mas dialogar. Não quer enfeitiçar, mas creditar espaço de autonomia. Por isso ela é heurística. Um teólogo heurístico que, eventualmente, tente encantar, peca. Deve corrigir-se. Sua essência é não-diretiva, necessariamente, porque só é diretivo o que é político ("tu deves!"), e a Teologia, se heurística, não é política - é investigação heurística (redunância!) do real - enquanto vestido, mas a despeito da roupa. Não dá para levantar a saia da moça e olhas suas coxas. Temos que tentar olhar para a moça através da roupa que lhe pusemos, e, ainda assim, fazer ciência (e vocês meninas, se o real lhes for um "moço" airoso e bem trajado...).

7. A tarefa é tão árdua que muitos desistem antes de começar, e, em sua desistência, criam roupas que pretendem interditar o esforço aos corajosos e tenazes - não é apenas o dogma que interdita a pesquisa, mas a teoria de uma existência não-fundacional ("acordos intersubjetivos não-situados"), como o quer uma corrente que gostou de dizer-se "hermenêutica", mas que se traduz, no final das contas, em rendição à "herança" e à "tradição", como o quer Gadamer: a linguagem não é algo que acontece pelo homem, mas algo que acontece no homem...

8. Finalmente, você fala de dar cor à realidade experimentada como cinza. Boa! Você descreve a "depressão". Aí, está certo, nesse sentido. A depressão inibe o lançamento da tarrafa hermenêutica que a consciência humana lança incessantemente no mar do real. Sem a tarrafa, sem o véu - sem a gosma do caramujo, como logo se verá que gosto de dizer - o real não é tomado como "tal", e "nu", mas apresenta-se pálido, sem cor, sem força atrativa, sem eroticidade, sem libido, à língua. Quando ela se vai, a cor volta à nossa representação do real - a roupa velha da moça cheirosa é como que lavada e perfumada, e a excitação volta à carne humana.

9. Esses temas me atraem, como a luz, aos insetos. Penso, Haroldo, que nada, absolutamente nada é, no campo da intelectualidade, do que o assentamento das bases operacionais da mente/consciência humana (hermenêutica, neurociência, pragmática). Com o que fecho minha intervenção, declarando que a Teologia heurística tem de deixar de ser mito, e converter-se em método - com o que, contudo, jamais verá o corpo nu da amante eternamente vestida. A ciência - e a Teologia como ciência, igualmente - não é uma nova forma de platonismo, uma nova ontologia, uma nova metafísica - ela é uma nova maneira de lidar com os mitos. E isso faz se não toda, certamente, ao mesno, muita diferença.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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