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quinta-feira, 28 de maio de 2009

(2009/303) Parecer Mec


1. Primeiro, devo agradecer ao Osvaldo pela indicação feita à nova configuração da minha página. Na verdade, tenho uma página porque Osvaldo, como bom amigo, deu-me a página. Ele a criou. Eu mesmo estou ainda num estágio de desenvolvimento que não consigo 'dominar' esse instrumental. A 'nova' página continua, no fundo, a mesma: um armazém de textos, que vão sendo produzidos e publicados em diversos lugares. Claro que tenho sonhos e interagir mais e melhor por este meio da presença virtual. Mas são demais, no momento, as demandas que pedem a minha atenção. E, no mais, "ando devagar porque já tive pressa...".

2. Osvaldo e Zabatiero travaram uma troca de correspondências, com questões profundas, amabilidades e pontos de tensão. Estes, claro, são necessários ao debate e, como bom debate, expõe necessariamente as divergências.

3. Não tenho a pretensão de fazer rebate de detalhes. Ocorreu-me opinar especialmente numa questão reclamada por Zabatiero. Ele diz que o Parecer é paternalista, que o CNE dita questões sem consulta às pessoas diretamente envolvidas nos cursos de Teologia. Aqui cabe lembrar que as discussões no CNE tiveram um 'nó' que desencadeou e deu causa ao Parecer. Trata-se do pedido de vistas da conselheira Marilena Chauí quanto ao processo de autorização de uma Faculdade de Teologia dita confessional. Sem entrar no mérito do pedido de vistas, aí se manifestava, porém, uma preocupação necessária. Se a Teologia vem para ocupar um espaço no mundo da academia, no espaço universitário, ela deve propiciar espaços e momentos de interdisciplinariedade. A isso, assim me parece, relacionam-se as exigências do Parecer quanto a um número mínimo de disciplinas 'afins'. E isso é salutar. Saúdo essa decisão.

4. Quanto à questão de um entendimento sobre um conteúdo mínimo do que seja propriamente 'teológico', o CNE não poderia prescrevê-lo e, salvo melhor juízo, nem poderia fomentá-lo. Aí se estaria ultrapassando acentos constitucionais previstos no pacto republicano. Neste, sabidamente, Estado e Igreja, melhor seria dizer, Estado e Organizações Religiosas atuam em searas distintas, com limites assentados. Ao Estado cabe a obrigação negativa de se manter isento em questões de crença, não podendo sobrepor-se e, assim, invadir as prerrogativas individuais frente ao Estado em questões de crençã.

5. Como, neste pacto republicano, se poderia colocar à mesma mesa de discussão tradições religiosas tão diferentes a partir de sua matriz para discutir algo como 'parâmetros curriculares' em termos de Teologia? Dificilmente uma tradição afro-brasileira estaria aberta a colocar em seus currículo de 'teologia' uma disciplina de 'cristologia'. Inversamente também haveria dificuldades, como já as há em se tratando de cursos de teologia de cristã, porém de confissões diferentes. Este não poderia ser o caminho. O CNE, como braço do Estado, deve frear seus passos no ponto em que o Parecer parou.

6. Discutir o estatuto da Teologia é tarefa interna dos manejadores dos cursos de Teologia. Claro, aí a composição da mesa deve ser a mais plural possível. As dificuldades nesta seara de discussão podem antevistas, a exemplo do que se dá quando o tema é 'diálogo interreligoso'.

7. A Teologia numa universidade pública, plural, não dominantemente cristã, é outra demanda. O que o pacto republicano poderia aí permitir ou possibilitar?


HAROLDO REIMER

sábado, 11 de abril de 2009

(2009/155) Da proximidade entre Adolf von Harnack e Hans Küng


1. Em 1968, durante os funerais de Karl Barth, na imponente Catedral de Basiléia, Hans Küng declarava: "nosso tempo precisa urgentemente do doctor utriusque theologiae, perito em ambas as teologias, evangélica e católica. E, se alguém o foi de maneira exemplar em nosso século, este é Karl Barth" (1). Trinta e oito anos antes, morrera, então, Adolf von Harnack. Digamos que Karl Barth sepultara, inapelavelmente, a teologia liberal. À medida que Harnack avançava em idade, até sua morte em 1930, Barth ia adquirindo maturidade, de modo que, com a morte de seu antigo Professor, sepultava-se - e Barth saberia pôr aí a pá de cal - a última expressão de um momento crítico da teologia do século XIX, uma última tentativa de negociação com a cultura emancipada européia (a "negociação" de Tillich, nos EUA, não se pode comparar à da teologia liberal, porque Tillich, em lugar de optar pela abordagem histórica, enveredou pelo caminho da racionalização teológico-fenomenológica, de modo que o padrão medieval permanece muito mais latente e, por isso, óbvio, em sua teologia. Talvez, contudo, Tillich tenha tentado um atalho novo, em face da ciência que decerto tinha da frustração da tentativa histórico-metodológica harnackiana: se não vai na História, quem sabe não vai na Filosofia?).

2. Não se pode, contudo, tomar um teólogo por uma data, muito menos por um pronunciamento - ainda que tão significativo. Hans Küng também amadurecerá, e tanto que, quando compuser Teologia a Caminho e, mais adiante, a "Parte II - Novas Reflexões" no relançado Por que ainda ser cristão hoje?, o seu pronunciamento praticamente nada terá de próximo a Barth. Ao contrário, poderia ser classificado como um autêntico retorno ao acesso histórico-metodológico de Adolf von Harnack, conquanto não se vai ouvir seu nome

3. Não se duvide tão cedo, pelo fato de ser eu a dizê-lo. Deixemos que o próprio Hans Küng o confesse:

3.1 "Para mim, como teólogo, passaram-se anos até que eu chegasse a perceber com clareza que a essência do cristianismo não consiste em nenhum dogma formulado com sutileza, em nenhuma moral elevada, em nenhuma grande teoria ou visão do mundo, em nenhum sistema de organização eclesiástica. Consiste em quê?

3.2 Para mim, para minha teologia e certamente para muitos dos que me lêem, a grande virada, durante e após o Concílio Vaticano II, foi a redescoberta da figura histórica de Jesus de Nazaré! Isso não é para ser entendido de uma maneira ingênua, como uma súbita iluminação. Não. Ao longo dos anos fui construindo o perfil único do Nazareno com base na abundante pesquisa bíblica dos últimos duzentos anos, refletindo tudo laboriosamente nos mínimos detalhes (...). Qual é a essência do cristianismo? A essência do cristianismo é simplesmente este Jesus de Nazaré como o Cristo" (2).

4. Hans Küng testemunha que chegou a essa concepção depois de muitos anos. Certamente estava ainda um pouco dela, quando anunciava Barth como o amálgama dos cristianismos ocidentais. Quanto mais distante daquele dia, daquela catedral, tanto mais distante daquela teologia dogmática: "a essência do cristianismo não consiste em nenhum dogma formulado com sutileza". Mas não é apenas isso - à medida que se afastava daquele dia - sabê-lo-ia? - ia-se aproximando, inexoravelmente, da teologia sepultada por Karl Barth: a teologia de Harnack.

5. Em uma ampla sala da Universidade de Berlim, diante de uma platéia para isso ali reunida de entre 500 e 600 pessoas em cada um dos dezesseis encontros semanais realizados no semestre de inverno de 1899-1900, "abre-se o século XX teológico" (3) - Adolf von Harnack oferece o curso A Essência do Cristianismo. Seu viés, para a resposta, é, afirma, histórico (4). Mais à frente, adianta a resposta, categórica: a essência do cristianismo é Jesus de Nazaré e sua própria pregação, que, obviamente, não tinha ele mesmo como conteúdo, mas Deus e a vida eterna em Deus: "Jesus Christ and his gospel" (5).

6. O Hans Küng amadurecido tem a dimensão do teólogo liberal de Berlim, e o que eles têm em comum é a "redução" político-teológica da "essência do cristianismo" à pessoa e à pregação de seu fundador - Jesus de Nazaré. Da mesma forma como concordam quanto ao conteúdo, os dois concordam quanto ao modo adequado de se chegar aí - a perspectiva histórica. Hans Küng tem, na sua "defesa", o espírito do Vaticano II, que, para todos os fins, autoriza(va)-o a servir-se da exegese histórico-crítica, sobredeterminando-a à teologia, inclusive. Harnack não tinha um Concílio a seu favor - antes, tinha um (neo?)ortodoxo viril a combatê-lo, alguém engajado na batalha contra o liberalismo, engajado na defesa da ortodoxia objetivo-dogmática da Igreja, alguém que fez o seu trabalho muito, muitíssimo bem feito. E, no entanto, Harnack, afinal, abre o século da mesma forma como o fechará Hans Küng...

7. Se aquilo em que os três parecem crer - a vida eterna em Deus - for "verdade", e, por uma dessas ironias que a vida nos apronta, os três se encontrarem, será divertido ver o olhar de triunfo de Harnack sobre a carranca aborrecida de um Barth contrariadíssimo. O constrangimento de Hans Küng será imperdível... Talvez eu esteja lá. Não perderia por nada uma cena dessas.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

1. Hans KÜNG, Karl Barth: 1886-1968. Gedenkfeier im Basler Munster. Zurique: EVZ-Verlag, 1969, p. 43, apud Rosino GIBELLINI, A Teologia do Século XX. São Paulo: Loyola, 1986, . 31. Faz sentito, pois, mas não aenas por isso!, que a Sistemática, na PUC-Rio, cite tanto Barth.
2. Hans KÜNG, Por que ainda ser cristão hoje? Campinas: Verus, 2004, p. 88-89.
3. Uso, aqui, não literalmente, mas na essência, as palavra com que Gibellini abre o capítulo "Teologia Dialética", em Rosino GIBELLINI, op. cit., p. 13.
4. Cf. Adolf von HARNACK, What is Christianity?, em : Martin RUMSCHEIDT, Adolf von Harnack: liberal theology at its height. London: Collins, 1989, p. 79 (alternativamente, cf. GIBELLINI, op. cit. p. 13).
5. Idem, p. 81. Em GIBELLINI, p. 14-15.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

(2009/132) A última - eu acho...


1. Ontem, a turma do quinto período de Graduação em Teologia (campus de Nova Iguaçu do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil), a pedido (Tópicos Especiais em Teologia), terminamos de discutir o artigo de Rudolf VON SINNER, Teologia como ciência, Estudos Teológicos, v. 47, n. 2, 2007, p. 57-66 (passaremos à análise do artigo de Enio Mueller e, depois, do de Zabatiero - ambos constantes da mesma edição da revita). A "despedida" não trouxe novidades - a "teologia" que se defende no texto é, para todos os efeitos, confissão de fé, logo, indiscutivelmente imprestável para a academia e irrecorivelmente impossível de constituir-se "ciência", a despeito de se fazer assim alhures e dos argumentos retóricos arrolados.

2. E o artigo o sabe. Eis o "argumento" que se pode encontrar no quase encerramento de "Teologia como Ciência": "com boa razão a teologia está [...] sendo ensinada em universidades desde que estas existiam na Europa. Ela tem e procura seu lugar no âmbito da ciência institucionalizada [...] Isto não quer dizer que a teologia deveria submeter-se a um princípio de ciência alheia ao seu assunto e ignorar seu caráter próprio como responsabilidade pensadora da fé cristã. Quer dizer, isto sim, que aceita o dever de prestar contas publicamente sobre seu raciocínio, portanto envolver-se no discurso crítico-argumentativo sobre suas temáticas e seus argumentos" (Ingolf Ulrich DALFERTH (ed), Sprachlogik des Glaubens, München: KAISER, 1974, p. 66, apud VON SINNER, loc. cit. - a foto acima, à direita, é de Dalferth). Chamo a atenção para a surpreendente - sim, surpreendente, porque se trata, ou não?, de um artigo [o de von Sinner] que de si diz-se discutir a presença da Teologia no "jogo das ^ciências"! - declaração: "isto não quer dizer que a teologia deveria submeter-se a um princípio de ciência alheia ao seu assunto e ignorar seu caráter próprio como responsabilidade pensadora da fé cristã". Aqui, levantar-se-iam os jurados, porque o caso se encerra... Ou o assunto da Teologia é o mesmo das Ciências Humanas, e, então, o jogo já está em andamento, ou é alguma coisa como o que ela trata por "Deus" (mesmo que na forma amainada, eu diria, dissimulada, de um "falar de Deus"), e, nesse caso, a Teologia é mito, legítimo em termos estéticos e políticos, vá lá, mas, sob nenhuma circunstância, possível para a ciência (= heurística).

3. Como, Deus do céu, em sã consciência, pode-se afirmar que a Teologia não deveria submeter-se a um princípio de ciência alheia? Como não? É sua obrigação, se quer, mesmo, fazer-se ciência. O que essa "teologia" quer? Recitar "revelação" - faz-me rir! -, jornal na direita, Bíblia na esquerda? Na cátedra? diante da qual a ciência persignar-se-á, genuflexa, sob efeito, ainda, dos incensórios? A ciência virou o quê? Feira-livre? Espetáculo de idiossincrasia teatral? O quê? Cada ator, cada feirante, fala por quinze minutos em sua própria babélica língua, sobre um tabuleiro epistemológco de encomenda?

4. Compare-se essa proposta de von Sinner/Dalferth com a lucidez das declarações de Jérôme H. Règles Barkkow, feitas durante entrevista que concedeu ao historiador François Dosse: "eu coloco como exigência que toda explicação sociológica da ética seja compatível com as teses psicológicas da ética, e que estas sejam compatíveis ao mesmo tempo com as neurociências e com a biologia da evolução (...) A maneira pela qual as ciências sociais se isolam é indefensável. Isso não quer dizer que seja preciso ser reducionista. É preciso ser compatível" (François DOSSE, O Império do Sentido - a humanização das Ciências Humanas, EDUSC: 2003, p. 265). Compatibilidade! A Sociologia não precisa tornar-se Psicologia, mas tem de ser compatível - porque ou são ciências, todas, o que significa que jogam o mesmo jogo, operam segundo as mesmas regras, os mesmos limites, ou não são - mais - ciência.

5. Von Sinner quer uma Teologia (e por isso recorre a Dalferth!) que tenha suas próprias regras, que não se submeta! Dalferth ainda chega a brincar com minha racionalidade. Ele quer que eu acredite, como ele disse, que "a teologia está [...] sendo ensinada em universidades desde que estas existiam na Europa" - Deus do céu! A Teologia estava lá - até o século XIX - porque era ela quem controlava, coercitivamente, monarquicamente, ditatorialmente (que o diga Galileu!), sacerdotalmente, dogmaticamente, o "jogo". Foi só as regras serem determinadas pelas próprias ciências que a Teologia de lá foi enxotada - e, onde não foi, é Barth seu epistemologista! Popper? Aí? Fala sério! O negócio aí é "apologética". E não é que se olvide a História - o próprio von Sinner reconhece que, durante aquele período, as ciências eram prisioneiras: "diferentemente da época quando era preciso libertar a ciência, a política e a lei da prepotência da igreja, e se começou a argumentar etsi deus non daretur, 'como se Deus não existisse'". Vê-se como von Sinner sabe que a "prepotência da Igreja - logo, da fé, da Teologia, de Deus! - tanto oprimia a ciência que, então, fez necessário "libertar a ciência, a política e a lei"? Sim, ele o sabe - e nós também! Então como pode afirmar, para isso apelando para Dalferth, que desde sempre a teologia esteve na Universidade? O que se quer com esse tipo de argumento?

6. O que se quer? Aqui está o que se quer: "é preciso, hoje, argumentar precisamente etsi deus daretur, pressupondo a existência de Deus e explorando o que isto significaria para nossa percepção do mundo". MEC, pariste um monstro! A Teologia quer que o seu jeito de estar na Universidade seja a partir do pressuposto - da fé, da doutrina, do dogma, da confissão - da existência de Deus. O XIX inteiro, nessa proposta, é escoado para o ralo. A fé que eventualmente anime o cientista, o acadêmico, que nutra a sua alma, anime o seu corpo, ótimo - mas que fique bem do lado de fora da porta, porque não é nem que não tenha serventia na pesquisa - é mais grave do que isso: ela é prejudicial à pesquisa. Ela assassina a pesquisa - e, se pudesse, também pesquisadores...

7. Fiquei satisfeito com o fato de a própria turma ter pedido, votado e decidido pela discussão do tema do estatuto epistemológico da Teologia. Num contexto onde o assunto pouco aparece, e, quando aparece, é em quantas em estilo apologético, na condição de pesquisador e crítico dessa pretensão divinatória da teologia, fiquei satisfeito. Todavia, mais ainda com a percepção de que não estou louco: os própros alunos, lendo cada uma das declarações de von Sinner, perguntavam-se como é possível uma ciência que, na partida, já tenha compromisso com a fé e a verdade, e não enquanto alvo, mas enquanto confissão já declarada? E eu acrescentaria - pior, ainda, quando ela mesma decide as regras em que os discursos podem e devem ser montados... Incorrigível essa Dona Teologia...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 9 de março de 2009

(2009/076) Bíblica e Sistemática


1. No último post, Osvaldo toca em assunto sério e complexo. Destaco o parágrafo final como de fato culminante da exposição. "A História da Teologia deixa de ser uma disciplina apologética - como é a TS - e converte-se em instrumento da crítica histórica, necessária ao aperfeiçoamento da sociedade humana". Com essa sugestão ou proposta - a da TS virar História da Teologia - ela se tornaria disciplina interessante, embora, em si, já exista em várias matrizes curriculares. Mas aí ela deixaria de ser aquilo para o que foi destinada: canteiro de aprimoramento da espécie 'teologia-mito'.

2. Passei por uma experiência interessante - e estressante - nos últimos meses. Por conta de um dinheiro extra para uma viagem a Israel, aceitei trabalhar nas férias fazendo revisão de um obra de envergadura: a Teologia Sistemática, de Wolfhart Pannenberg. Devo, porém, dizer que, desde os tempos de faculdade, nos idos tempos do Morro do Espelho, em São Leopoldo, não havia mais lido 'teologia sistemática' com afinco. Por isso, aceitei também como uma espécie de 'revisão geral'.

3. É fascinante o esforço deste 'sistemático' em produzir um sistema teológico coerente, acessando praticamente todos os campos do conhecimento para dar plausibilidade à sua tese principal da atuação trinitária do Deus. É um exercício intelectual digno de nota e admiração.

4. Para salvaguardar os conteúdos que já gozam de estatuto doutrinário desde os primeiros séculos da era cristã, contudo, o autor precisa fazer alguns 'sacrifícios'. Um deles, logo no primeiro volume, é a desconsideração de qualquer perspectiva fenomenológica da construção dos conteúdos. Neste sentido, o século XIX é convidado gentilmente a não permanecer para além de alguns capítulos daquele volume. E há aí discussões muito interessantes. Por exemplo, o fato de que todas das religiões operam em plataforma mítica. Até para alguns blocos de conteúdo teológico-cristã, o autor chega a postular a mesma operacionalidade. Contudo, aí entra o bloqueio doutrinário... e a saída é a reconstituição do conteúdo dogmático. Outro 'sacrifício' é um diálogo eclético com a exegese bíblica. Basicamente ele se dá ali onde se pode acessar autores que se mantêm nos limites doutrinários. A perspectiva histórico-social deve ficar de fora, pois ela não faria par no compasso da dança em maestria de movimentos.

5. A Teologia Sistemática, de Pannenberg, sem deixar de ser, no fundo, mito-producente e mito-atualizante, faz as vezes de 'história da teologia'. Há aí trechos que certamente contribuirão em muito para a cultura teológica brasileira.

6. A desconexão entre 'teologia sistemática' e 'teologia bíblica', apesar de todos os aggiornamenti [!?] é evidente. E a desconexão se torna especialmente visível ali onde a história - seja lá por qual acesso teórico - é colocada entre parênteses.

7. Haverá outros caminhos?


HAROLDO REIMER

domingo, 16 de novembro de 2008

(2008/49) O que pode ser o fim da metafísica?


1. Por mais que se queira, pós-modernamente, afirmar que não haja chão, que não haja fundamento, toda e qualquer afirmação tem, sempre, chão e fundamento. Fenomenologicamente, cada sentença pronunciada por qualquer pessoa faz-se emergir a partir de uma determinada plataforma que lhe serve de alicerce. Mesmo as modernas teorias "hermenêuticas" auto-ditas não-fundacionais. Mesmo elas, sim, têm fundação.

2. O Ocidente, em tese, teve a oportunidade de sair da plataforma ontológico-metafísica platônica há duzentos anos. A "porta" - nunca cansarei de dizer (a Tese, achei-a pela primeira vez em Tilich, e está ilustrada bem em O Nome da Rosa) abriu-se bem antes, depois que os árabes introduziram Aristóteles, na Europa, através da Península Ibérica. Aristóteles fermentou, fermentou, e levedou toda a massa platônica ocidental, que lhe reagiu. Um lado, seguiu Platão - todos os cristianismos, as religiões de modo geral, determinadas escolas filosóficas e algumas utopias políticas. Outro, encabeçado pelas Repúblicas, pela secularização, pela emancipação cultural, pelas ciências, seguiu Aristóteles. Aí, por um acidente histórico, ao que tudo indica, a invasão franco-napoleônica à Alemanha, arrebentou o Romantismo - um ovo realmente novo, porque, ao passo que para Platão e Aristóteles, a verdade está lá fora, para o Romantismo, ela é construída aqui dentro. Não foi Aristóteles quem fez ruir a metafísica, mas o Romantismo, e a ele Platão reagiu furiosamente, seja em Roma, seja em Wittenberg, seja na "América".

3. É na estrada aberta pelo Romantismo - eles são os próprios batedores (Apolo, facão na mão, abrindo caminho através da hylé, para fundar uma cidade) - que caminham, novos homens, Kant, Schopenhauer, Feuerbach, Nietzsche. Dois mil e quinhentos anos de Platão! Quinhentos, mas muito mal pesados, muito esboroados, de Aristóteles! Duzentos, de Romantismo! Fim programático da metafísica, manutenção programática da metafísica. Platão ainda está de pé.

4. É muito curioso acompanhar os discursos epistemológicos das correntes que discutem o fim da metafísica. Pensam colocar-se do lado de cá, pensam estar além da metafísica, mas, no fundo, não conseguem livrar-se dela. Platão ensinou-nos (o Cristianismo inculcou-nos a idéia até ela fazer parte de nossas sinapses) a ontologia metafísica, a verdade "dura", divina, verdade verdadeira, deu-nos o olho de Deus, verdades de Deus, a certeza subjetiva da verdade ineludível - de Deus. Aristóteles não pensava diferente, conquanto, pelo menos, afirmava que cada um podia descobri-la por si mesmo, sem precisar de sacerdotes e filósofos mediadores - um grande passo.

5. É essa verdade divina que morre, se cai a metafísica. O defunto é o qualificativo "divina", não a palavra que ele, politicamnete, qualificava. Os "hermeneutas" não-fundacionais partem do pressuposto de que, se a metafísica caiu, não há mais fundamento, não há mais "verdade". É o mesmo fenômeno entre teísmo e ateísmo: ou existe ou não existe. A "geração" pós-moderna, a geração "hermenêutica", só sabe pensar assim: se não tem fundamento de Deus, então não tem fundamento nenhum (porque todo esse povo, no fundo, guarda a fé no fundo da alma). E tudo, então, vira um blá-blá-blá, para citar, parece-me, Pondé, comentando, favoravelmente, as teses de Karl-Otto Apel sobre a necessidade de um critério de verdade para a civilização pós-metafísica.

6. A lógica do pólo não demorou muito a emergir. Um Heidegger logo aproximou o conceito de "linguagem" ao do fundamento ontológico platônico. Idéia - Deus - Linguagem (Platão - Agostinho - Heidegger): "a compreensão não mais é vista como um ato do homem mas como um evento no homem" (R. Palmer, Hermenêutica, p. 217, grifos meus). Gadamer, mais do que depressa, ultrapassa (mantendo-a) a Linguagem com a Tradição: "no diálogo hermenêutico, o tema geral em que estamos inseridos - tanto o intérprete como o texto - é a tradição, a herança" (Idem, p. 202). Linguagem, Tradição, substitutos pálidos, mas de mesmo nível, para o Ser que se inventou (não é curioso que os livros ensinem sobre os filósofos atenienses como sendo, eles, filósofos? E o eram? Não - eram, antes de tudo, teólogos!). Caímos na armadilha - se não a armamos!: a) primeiro, assume-se que o fundamento necessário é (o) ontológico, b) em seguida, afirma-se que com o fim da metafísica, findam-se os fundamentos, c) terceiro, com o passo "a" trabalhando nos bastidores, propõe-se uma refundação "não-metafísica", quero dizer, não "religiosa", não "mitológica", mas, eis a surpresa, que mantenha o status quo exatamente como era antes do fim da metafísica (eis a que, a meu ver, se resume, por exemplo, a proposta de Vattimo): Linguagem e Tradição.

7. Penso que o rumo dessa viagem foi corrompido. Era falsa a idéia de que é necessário um fundamento ontológico e metafísico para a existência humana, para a sociedade. Alguma coisa entre uma saudade patológica do medievo e um programa político de manutenção dos eixos de força atuantes na sociedade insistem na estratégia pendular. A saída Romântica, contudo, recusa o pólo. Recusa, por exemplo, que não haja fundamentos, ao mesmo tempo que recusa que haja um fundamento. Há fundamentos: locais, situados, históricos - válidos, diga-se, operacionais. Não há "revelação" que se faça "saber" e que, por meio de tal prestidigitação sacerdotal, proponha-se como "fundamento" ontológico. Isso foi a maior das invenções políticas da História - um quê de Pérsia (administração subjetiva, por meio do mito, das consciências conquistadas) e Grécia (ontologização da estratégia mitológica de administração das consciências conquistadas). Farsa.

8. Não é necessário, nunca foi, mentiram para nós, um fundamento ontológico. Nossos olhos são e serão, para sempre, humanos. Construiremos para nós, sempre, fundamentos situados, válidos intra-comunitariamente. À medida que a comunidade cresce - torna-se planetária, por exemplo -, ampliamos, dialogalmente, os fundamentos, jogando, no risco, com o "real", captado por nossos sentidos e tratado por nossas sinapses representacionais. Isso que construiremos não é ilusão, mas não é, tampouco, "verdade", isto é, verdade no sentido em que Platão e Aristóteles cuidavam ser possível - o homem ter a visão (por dom sacerdotal ou investigação autônoma) dos deuses, os homens verem como os deuses vêem.

9. Sugiro que esqueçamos definitivamente Platão. A metafísica dos deuses, do Ser, acabou (Linguagem e Tradição são ídolos de sofrível aparência). O que não significa que chegamos a um beco sem saída - não! Mil vezes não! Saímos foi do labirinto maldito da política ontológica e metafísica, do controle das consciências por meio de mitos. Podemos voltar ao ponto onde estávamos antes do canto de sereia, do "murmúrio" da Cidade Bela, e podemos voltar a construir os fundamentos com os quais continuaremos a edificar nossa História. Nem ontologia nem blá-blá-blá: lucidez histórica e epistemológica. Que me remete àquela velha citação (de memória) de Pascal - "o homem é um caniço que pensa, e o peso do Universo o esmaga. Mas ele sabe".


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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